Como se me acabaram as fontes bibliográficas sobre o assunto abaixo referido fica um ante-comentário, para quem ache que os pós-guerras são assim, por qualquer natureza humana. No final das guerras coloniais (versão portuguesa) / guerras de libertação (versões africanas) as tropas africanas arregimentadas pelo Estado português em Moçambique e em Angola não foram submetidas a este tratamento. Será ainda interessante lembrar que em Angola a guerra interna continuou e em Moçambique recomeçou muito rapidamente, factores que poderiam ter levado à eclosão de movimentos repressivos (por desconfiança estatal) face a esses ex-militares.

Parecem-me pois argumentos suficientes para arrumar com a hipotética versão culpabilizadora da tal (incógnita) “natureza humana”.

3 comments ↓

#1 Denudado on 05.08.07 at 23:37

Caro JPT, compreendo a sua indignação, que também é a minha. Sem querer contudo desculpar o que se fez na Guiné, lembro que os fuzilados pelo PAIGC não eram simples militares cumprindo o serviço militar obrigatório, mas sim comandos africanos. Eu não estive na Guiné e também não sou (nem fui) militar de carreira, por isso não posso adiantar mais do que isto. Só sei, por ouvir dizer, que eles eram uma força que actuava com grande eficácia contra o PAIGC. Se eles eram voluntários ou não, não sei, mas desconfio que sim. Seja como for, esta é mais uma razão para que eles não devessem ter sido abandonados à sua sorte e à sua morte, como foram. Era perfeitamente previsível que o PAIGC lhes fizesse o que fez.

Eu não sei como é que era a situação militar dos africanos em Moçambique. Só sei que em Angola não existiam comandos africanos. Na verdade, o regime colonial tinha muita relutância em comprometer militares angolanos no esforço de guerra, com receio, certamente, de que eles pudessem virar as suas armas contra ele mesmo. No norte de Angola, sobretudo, a guerra foi suportada quase a 100% por militares idos daqui, da então chamada Metrópole. Os angolanos que a fizeram naquelas paragens contavam-se pelos dedos. Assim, em Angola, enquanto os metropolitanos faziam a guerra, os angolanos ficavam quase todos na rectaguarda, a fazer a defesa das cidades e de outras localidades mais sensíveis, mas relativamente afastadas da guerra.

Não me estou a referir aos chamados Flechas, que não eram militares regulares, mas sim uma força paramilitar da PIDE composta por antigos guerrilheiros ou então por bosquímanos (estes no leste de Angola). Julgo saber que muitos destes Flechas acabaram por fazer parte do chamado Batalhão Búfalo, com ligações ao exército sul-africano e que ficou célebre.

Uma prova da inexistência de animosidade em Angola contra aqueles que cumpriram o serviço militar obrigatório, nas Forças Armadas Portuguesas, está na publicação da biografia oficial de um ministro angolano falecido recentemente, chamado Serra van Dunem. Nessa biografia, foi claramente referido o facto de ele ter cumprido o serviço militar português em meados ou finais da década de 60, já com a guerra colonial a decorrer, portanto. Mesmo assim, ele chegou a ministro de um governo do MPLA.

#2 JPT on 05.09.07 at 3:58

Obrigado pelo comentário. Eu não sou grande conhecedor da matéria, sei que em Moçambique também houve recrutamento alargado e, no seu Âmbito, formação de tropas especiais. Também aqui não se perseguiu dessa forma nem o contingente geral nem os militares especiais (também aqui foi possível antigos soldados chegarem a postos ministeriais). Aliás as formas de reintegração dos indivíduos mais associados ao governo português, públicas e até ritualizadas, formam um episódio interessantissimo esperando que alguém os descreva em pormenor.

Mas a indignação é múltipla, vs os “massacradores” claro. Vs os militares que denunciaram aqueles que tinham formado e que tinham feito a “sua” guerra. Vs as autoridades portuugesas que albergam o responsável máximo por tudo isto.

repito o agradecimento pelo seu comentário. O ma-schamba de anteontem teve 200 visitas, o máximo que eu tenha reparado desde que passou para o blogspot (cerca de 4 vezes menos do que quando estava no weblog). Ontem perto disso. E nesses dias de muitas visitas aqui ninguém botou faladura sobre este assunto. Fosse sobre bola ou outra maluquice qualquer tinha uma meia-dúzia de participantes. Como vê, até numa ínfima amostra que é a dos visitantes deste blog dá para entender que há assuntos que “não interessam”. Este é um deles. Fosse a evocação de um pobre “soldado luís” qualquer e teríamos aqui canções do Zeca e testemunhos emocionados - a “esquerda” portuguesa é absolutamente racista, nada mais

#3 Carlos Gil on 05.11.07 at 13:10

é a peçonha do políticamente correcto, o silêncio que é/torna-se cúmplice. ‘esquerda’ ou ‘direita’ todos gastam desse pó mas reconheçe-se mais essa atrofia intelectual na esquerda clássica, a tal dos ‘valores sagrados’ e t-shirt à Che

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