No Blasfemias recorda-se aquele que para mim foi o mais desatinado episodio no final do regime colonial portugues em Africa, algo que ja recordei no Ma-schamba duas vezes: as tropas guineenses a seu tempo arregimentadas para as forcas armadas portuguesas foram massacradas apos a independencia, apesar de um acordo entre Estados para a sua salvaguarda. Diante do total silencio portugues de entao, como bem recorda agora a Helena Matos. Diante do total silencio portugues desde entao.

Uma vergonha, recrutar tropas e abandona-las a morte as maos de ditadores. Uma vergonha continuada, no silencio desde entao. Um silencio, vergonhoso, que e nitidamente filho do racismo, do desprezo por esses ex-convocados por isso mesmo assassinados. “Apenas soldados landins”, estou certo, sera o humus de tal silencio.

Mas maior vergonha ainda o asilo e benesses dados ao responsavel por esses massacres. O assassino Luis Cabral, beneficiando da mitologia cabraliana, beneficiando da mitologia dos putativos “interesses nacionais” portugueses na Guine-Bissau, beneficiando da mitologia racica (sendo mulato nao cabe no arquetipo do sanguinario e bocal ditador africano sempre agitado nas europas), o assassino Luis Cabral vive descansadamente, sem remorsos, sem vergonha, ha 27 anos no meu pais.

Aquela nossa direita, imperial envergonhada e vegetando na imbecilidade revanchista, esquece tamanha vizinhaca. Aquela nossa esquerda, sempre festiva na sua imbecilidade justiceira, esquece tamanha vizinhanca.

Sei agora que o o miseravel Luis Cabral entra em estertores. Nao me contenta, esta nos hospitais publicos portugueses, apos uma longa vida, prazenteira decerto. Nao passou os ultimos anos enjaulado e desprezado em Haia, como alguns servios ou quejandos, tambem dados aos etnocidios como este Cabral o foi.

Quando morrer tera uma campa. Nao lhe estara destinado a vala comum em que arrumou os seus concidadaos. Que lhe seja bem pesada a terra! Tao pesada como a vergonha do pais que o acolheu.

8 comments ↓

#1 Francisco Curate on 05.04.07 at 13:30

nunca tinha ouvido falar nisto… obrigado josé pimentel, muito obrigado.

#2 JPT on 05.04.07 at 15:34

Assim comprovando o texto. Obrigado

#3 SurOeste on 05.04.07 at 15:42

No meu pais miles de assasinos morrerão tranquilamente quando lhes chegou a hora e fez-se-lhes missas cantadas com muito incienso. Mentres a dereita e a esquerda…etc.

#4 JPT on 05.04.07 at 15:47

A cada país os seus assassinos, dir-se-ia. Mas agora importar e acarinhar os estrangeiros …

#5 SurOeste on 05.04.07 at 15:57

É justo o reves: lembre o caso Pinochet (que a terra lhe seja pessada)

#6 JPT on 05.04.07 at 16:33

Pinochet passou os últimos anos da vida a ser chateado por uns tipos a milhares de kms. Este passa os últimos anos de vida na maior das calmas. Repare, não é nada comparável. Mais, habita um país estrangeiro que foi pretexto para o massacre (com contornos de discriminação étnica) que praticou (ou permitiu). Repito, não é nada comparável.
Finalmente, coexiste avizinhado, com uma esquerda festiva e trauliteira sempre lesta no denuncionismo bacoco mas incapaz de se ocupar de coisas à porta de casa - desmantelando-se assim qualquer respeito possível por tais gentes. Como vê, não é compatível o caso.
finalmente, coexiste com uma direita de vocação lusófono-imperial, sempre com sonhos traduzidos em “esferas de influência”, que por isso mesmo calou o coito dado à tal figuraça.

#7 SurOeste on 05.04.07 at 16:53

Nada é comparável mas ao mesmo tempo tudo pode ser susceptível de ser comparado. O que eu queria dizer é que um assasino é um assasino e refiro-me a responsáveis de assasinatos en massa por razões políticas, étnicas..etc. Quando uma sociedade aplaude que se persiga um assasino como Pinochet para esigir-lhe a sua responsabilidade polos seus crimes, mas é capaz, e mesmo ve saudável, pechar os olhos sobre o que passou ao pé mesmo da sua casa é que algo falha. A justiza espanhola actua porque Pinochet em Chile tinha inmunidade, mas nunca teve iniciativas semelhantes para aclara quem foi o responsável dos miles de foxas comuns que ainda há. É escandaloso como o é o caso que você conta e ainda mais coa complicidade de dereita e esquerda, se calhar en consonancia coa opinião do resto da sociedade.No caso de Espanha “ah, tanto tempo, para que desenterrar velhos mortos” no caso de Portugal “ah, tan longe, e não eram exactamente dos nossos…”

DE todas formas, hoje só tenho música celestial para você. discutir? Pas du tout!

#8 Lutz on 05.05.07 at 10:32

Eu também não sabia, o que, contudo, é menos significativo…
Os meus assassinos em massa já morreram todos, vá lá. Restam alguns carcereiros dos tempos da RDA, que a “justiça dos vencedores” deixou fugir. Nada que se compare…

Leave a Comment