[Daniel da Costa, Xingondo, Ndjira, 2003, 82 pp (capa ilustração de Gemuce)]
Como abaixo se desvendou um modo de adquirir livros moçambicanos no estrangeiro permitir-me-ei alguns conselhos [e, qual coluna gastronómica, assumo o compromisso de apenas falar de livros que tenha comprado ao preço de venda ao público].
Já o referi, com foto não encenada de admiradora do autor. E ainda antes aqui botei: “Do delicioso “Xingondo”, belas crónicas de Daniel da Costa …o cronista que mais me encanta nesta terra, não um imortal, mas algumas das peças bem conseguidas e, mais do que tudo, com uma ironia suave por aqui tão única”.
Mas para além dessa suave, e aguda, análise do quotidiano profundo, há também um tom programático, que em nada agride exactamente pela suavidade da prosa e, mais do que tudo, pela elegância do autor. Xingondo mostra-nos o país como raras vezes o vemos, e pensa o país como raramente se pensa.
“Aprendam a dividir a Pátria em pequenas partes. Não vos aconselho a enveredarem por coisas demasiado grandes. Sabem que a vida é curta demais e não haverá tempo depois para medir os progressos. Dediquem-se por isso às vossas patriazinhas, ou seja, aos meus netos que não sei se terei a sorte de os conhecer a todos. Deêm-lhes educação e instrução. Com isso, eles hão-de conseguir trabalhar e gerir a herança deste povo” (Carta para os meus filhos, p. 43)
“…a origem do termo xingondo. Pelo que se sabe, os falantes do xi-xangana aplicavam o rótulo a pessoas que tinham um condão guerreiro…Regra geral eram pessoas de outras paragens, falantes de outras línguas, donos de outros hábitos…o termo é hoje usado num sentido depreciativo. Ser xingondo é quase sempre o sinónimo de rude, de boçal, de selvagem…É curioso que em quase todas as línguas há uma gaveta para arrumar o seu xingondo. Assim, somos todos xingondos em cultura diferente da nossa…
Mas há um pormenor. Existe um mecanismo para se deixar de ser xingondo … há sempre um mecanismo. É preciso passar-se por uma espécie de ritual de purificação.” (Xingondo, p. 80-81)
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Ontem encontrei Daniel da Costa, breve conversa na qual me avisou, naquele seu jeito calado e nada auto-promotor, que em Junho entregará um novo livro, coisa diferente. Foi uma boa notícia. Para quem não ainda não leu convém começar já por este conjunto de crónicas


2 comments ↓
Meu caro Ze,
Adorei a foto da tua filha. Em pose magistral, tenta decifrar os enigmas do nosso mosaico. Vou mesmo amplia-la, po-la em moldura e afixar numa das paredes da minha sala…sem te pagar os direitos de autor. Simplesmente, uma maravilha. E digo mais: ta a fazer enorme sucesso no meu circulo de amizades.
Que dizer do que escreves a meu respeito? Deixas-me sem jeito e talvez so te diga isto: fazes-me sentir o escritor que um dia gostaria de ser. Obrigado pela onda e um forte abraco
Daniel da Costa
Publicado por: nelson xavier às maio 31, 2005 06:49 PM
então vai avisando esse círculo de amizades que vão juntando os bois - chegada a altura não aceitarei regateios, o preço será alto
Publicado por: jpt às maio 31, 2005 07:26 PM
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