O Prémio Camões é um prémio político - não o estou a desvalorizar, é apenas constatação. Nem a protestar com os aparelhos académicos convocados para, anualmente, legitimarem uma acção política - se não contesto a acção política por que haveria de contestar quem a legitima? E é exactamente por ser político que é interessante ler coisas assim.

Mas não deixa de ser surpreendente que tenha sido necessário um livro de história, “A Purga em Angola” de Dalila e Álvaro Mateus, para que se começassem a ouvir sussurros públicos sobre a cumplicidade sanguinária de vários dos mais conhecidos escritores angolanos.

Lembro que um dos da tal “Comissão das Lágrimas” passou por Maputo há dez anos (as tais iniciativas político-culturais euro-financiadas), falador, simpático, ágil nas letras achei-o então - pelas suas costas um breve sussurro o acompanhava, os “colegas” num envergonhado “hé pá, o tipo é um bom filho da puta, fez coisas …”, mas depois aplausos, autógrafos, palmadas nas costas, copos conjuntos e risos mútuos. As pessoas auto-censuram-se, têm medo de quê, de perder os comboios dos congressos?

Trinta anos e um livro de história. Francamente. Em 1978 e 1979 andava eu no 8º e 9º ano e na disciplina de português o livrinho dos cânones vinha com poemas desse grande vulto Agostinho Neto. Puto de 13 ou 14 anos, de uma família onde ninguém regressara de África (sem ponta de hipotético saudosismo colonial) e com um pai que era (e é) comunista, lembro-me de protestar por ter de ler aquele assassino.

(”o livro de leitura” era sempre para protestar e bem mais protestei com o Herculano e o Garrett anos depois, pepineiras inaceitáveis - quem pode ler aos 16 o Herculano se leu aos 12 o “Ivanhoe”, que imbecis pedagogos?)

Entenda-se, um puto suburbano e ignorante, apenas “do contra”, já se irritava com as “netices” culturais no Portugal de 70. E de então para cá o que andaram a pensar os aparelhismos académicos? Cobardolas, claro. Mas medo de quê?

Em suma, prémios políticos para cidadãos. Prémios político-literários, para escritores cidadãos. São para isso as comendas. E os doutos, se doutos e porque doutos, deviam compreender isso. Há, pelo menos, trinta anos.

Adenda: Orlando Castro, do Alto Hama teve a gentileza de me enviar cópia do artigo “Pepetela também escreveu um dos hediondos crimes”, da autoria de Jorge Eurico, publicado a 06.12.2005 no Notícias Lusófonas bem como um texto seu publicado no Alto Hama: “Picada de Marimbondo. Ernesto Lara Filho sempre”.

Deixando aqui a referência a estes textos acompanho-a de uma nota minha: não proponho uma “caça aos bruxos”, uma inquirição aos escritores que participaram no esforço torcionário netiano; nem digo que até hoje houve um total silêncio. Apenas vou interrogando onde estavam os olhos (para ler) e as mãos (para escrever) dos académicos oficiais “lusófonos” que vão sendo juris dos prémios oficiais lusófonos. Do mérito das obras rezarão outros - mas os prémios que vão sendo atribuídos são prémios políticos, daí a interrogação.

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