
Inhambane, sede do projecto Apopo. Dele apenas tenho a informação que me foi dada pelo guarda do edifício: um projecto de desminagem que utiliza ratos (o que se depreende da fotografia, apesar de tirada por mim). Bem-vindo, como qualquer projecto de desminagem. Mas o que me chama a atenção são os doadores - uma das questões que presumo ser quebra-cabeças para a administração moçambicana é a pluralidade de doadores (cooperações) a actuar no país. Todos com suas metodologias e idiossincrasias próprias. Não julgo nem desvalorizo (ainda para mais cooperante), nem tampouco hierarquizo. Mas presumo a trabalheira do “cada cabeça sua sentença”, como é óbvio.
Ainda que hoje tempos de coperação multilateral, conjugação, concertação. Mas de súbito deparo-me com a cooperação flamenga. Já nem os países chegam como interlocutores? Até as “nações” o são? A Europa, a Europa, não haja dúvida. Dirimir fora (e bem longe) as questões internas?
(tocando a fotografia ela ficará um pouco maior, porventura mais legível)

9 comments ↓
Em definitiva, o que é que molesta, que se especifique Flandes e nao apareça Bélgica? Custa entender que em Bélgica há mais de uma naçao e que cada uma administre os seus impostos como melhor lhes parece? Bill Gates nao tem esse problema: é transnacional.
a mim não me molesta absolutamente nada. e não me molesta também nada que haja “nações” (ou se reclamem “nações”). e ainda menos que cada agregado populacional/sociológico destine os seus impostos segundo a sua vontade (democraticamente delegada). a mim apenas me surpreende a pluralidade crescente de interlocutores que pode sublinhar a cacofonia (também pode dar sentido)
poderia dar o caso da “cooperação” municipal portuguesa, as chamadas geminações (aqui gemelagens). é um caso sub-”nacional” (também de identidades reclamadas)
e posso crer que neste plano, da cooperação internacional, é um bocadinho auto-afirmativo e não desenvolvimentista - como disse, dirimir coisas próprias em palco estrangeiro
vem mal ao mundo? talvez não. mas é ridículo
e mais, há uma, concedo, convenção que aponta relações bilaterais para entidades da mesma monta - estados (países). fazê-lo de modo diferente? tudo bem, mas quais as vantagens in loco?
depois, bill gates, com todas as suas inúmeras qualidades, génio e capital não é um Estado. E, por muito que não lhe pareça, não é transnacional, é americano: o que, pelo menos no meu caso, não lhe atrai nenhum defeito. Apenas característica(s). Tal como o senhor que criou a Molinex, também em todas as casas, também fundamental. Mas não transnacional
Ah, pois logo o dinheiro dos flamencos tem as suas características (invirtem em ratos, a mim nunca se me ocorreria)e nenhum problema intrínseco só por nao ponher a etiqueta belga.
Comparar Flandes com uma municipalidade portuguesa leva mala intençao. Deduzo que sim lhe molesta essa mínima “visibilidade” das pequenas naçoes sem estado.
Caro suroeste, como me parece visível eu prezo muito a parcela “comentários” no bloguismo (aqui e nos outros blogs). Ela é difícil. Por duas razões: a primeira, que é uma das razões por que tanto a aprecio, deve-se a que é nestas caixas que nós podemos alcançar algum grau da incomunicabilidade da escrita, da incompreensão que produzimos - não por defeito alheio, atenção. Apenas assim; a outra, sendo tão difícil de gerir, é mais chata e mais infértil, que é o facto de aqui se gerar (e dificilmente gerir) uma agressividade, muitas vezes descabida, outras desnecessária. Tons e sons que não usaríamos no face-a-face, se nos conhecessemos.
Começo pelo segundo ponto: em que contexto V. (que não me conhece) se cruzaria comigo em conversa pública, relativamente pacífica, e a propósito de uma discordância deste teor, me atiraria com uma “má-fé”?
Ligo ao primeiro ponto, ainda por cima:
v. não compreendeu totalmente o meu ponto - o que é normal, o não menoriza nem me maioriza (quanto muito me menoriza, por naõ completude de argumento). E v. coloca a sua visão das coisas que, legitimamente, hierarquiza como fundamentais acima de outros pontos de vista (o que todos fazemos, mas sem exigir disparos). V. tem preocupações, repito que as considero totalmente legítimas, de afirmação de identidades (sentido lato) “nacionais” [o que são estas não vou discutir, vamos entendê-las como pacíficas]. E demonstra-as, agradavelmente, na sua esfera.
Eu, longe da sua hierarquia, mas não oposto à sua hierarquia de preocupações, afirmo outra coisa: num cenário de relações bilaterais internacionais, num país carregado de dezenas de interlocutores actuando e financiando no terreno, choca-me um pouco que não só existam relações entre-estados e entre estado-organimos multilaterais como ainda um estado tenha que gerir relações com organismos políticos sub-nacionais (no sentido de infra-estatal, não pejorativo). Isto, e aqui v. não conhece a realidade [e mais uma vez vai sem acinte] exaure a administração local (mera empiria). Nao vem daqui mal às actividades explícitas que são organizadas (os tais ratos de desminagem, que não me parecem nada estranho bem pelo contrário), vem de racionalidade das relações internacionais de cooperação [além de que as tais “nações” infra-estatais não têm normalmente as estruturas organizativas e mentais de uma verdadeira cooperação, pelo que se traduz fundamelntalmente em mimetismo e marketing aquando actuam]
quanto às questões da tal má-fé quanto à cooperação municipal, para além da deselegância descabida, apenas isto. Há cooperação municipal, a cuja enferma de males semelhantes aos que aqui referi. E que as reclamações identitaárias “nacionais” que justificam (legitimam) as cooperaçãos que aqui refiro surgem muitas vezes também nas questões regionais, nas identidades locais (tal como surgem, tantas vezes nas identidades nacionais, quando estas homogéneas com os actuais estados). Daí ser totalmente aceitável, sem ponta de má-fé ou de mera retórica retorcida, referir alguma analogia de actividades de cooperação a este nível infra-estatal
finalmente, nada me move contra “nacionalismos” catalães, flamengos, galegos, lapões ou etc. considero-os tão “naturais” e potencialmente legítimos como outros “nacionalismos” recobertos por Estados. Mas isso não me impede de achar relativamente contraproducnete (pelo menos na foz dos processos) este mimetismo dos processos estatais em cenário internacional. Nada mais. Mesmo num caso, como este, em que refiro ser o projecto bem-vindo (Desminagem)
espero ter-me feito entender
apesar das múltiplas gralhas
Eu sou muito apaixonada nas minhas discussoes, estimado amigo, aínda que procurando demostrar ao mesmo tempo o meu respecto pelos meus interlocutores. A questao é que nalgum momento pareceume que se ponhia em duvida o objectivo da ajuda flamenca: desactivar as perigossisimas minas ou ir a Moçambique a dizer “aquí estamos nós, que como somos nacionalistas e ninguem nos fai caso temos que ir ponhendo a nossa bandeira pelo mundo”.
Têm dinheiro, têm um projecto, esperemos que o administrem bem, o resto é secundário (no seu post, disculpe, o secundário adquiriu categoria de principal).
Um apaixonado saúdo
ok, fiquemos então neste cordial desacordo. não dramático. até breve
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