Cinema Paraíso

É uma das actividades do café matinal no fim-de-semana, assim feito mais extenso pelo descuidado das horas. Seja no (já?) velho “Nautilus”, ali ao Piri-Piri, seja no d’agora “Pérola de Maputo”, esse na nova Baixa, as esplanadas são circundadas por amáveis vendedores, ao ombro carregando sacos de dezenas ou talvez centenas de dvds piratas, o novo artesanato, ali remexidos até nada distraidamente por clientes quase ensonados. Claro, quem resiste?, cinco filmes por suporte, e tudo a módicas quantias. Até agora só cedi nos disney e isso, que a Carolina já me faz ruir os princípios, uma ameaça para o futuro cada vez mais imediato.

Mas este fim-de-semana deixei-me seduzir, os últimos de hollywood, esses bem frescos, os dos cartazes alhures, mesmo nos corredores dos oscares. E até, imagine-se, o Scorsese do ano. Como resistir?

Tive sorte, logo nesta minha primeira vez encontrei dessas cópias lendárias, de cujo registo se passa, até em surdina, o saber de boca em boca. São as das novidades, uma tal urgência no mercado que se filmam os filmes em plena sala de cinema, assim reproduzindo a imagem do ecrã alheio e o som envolvente. E deste modo nos trazem também o registo de outros amantes cinéfilos, como nós, recortados no ecrã, feitos sombras a entrarem na sala, a procurarem lugares, a mudarem até. Espectador-figurante, um apelo à semiologia, desafios à reflexão ensaística.

Mas não hesitei, do princípio ao fim sofri o novo “Alexandre”, aquele magno. Som e cores atrofiados e tudo, claro! Mas sem dúvida, melhor a cópia empastelada do que o original pastel. Uma lendária pepineira, atroz - até o truque do geronte Laurence Olivier a narrar em flash-back, essa velha escapatória para dar sentido a uma história que não se consegue filmar (original novel by R. Chandler, como única excepção).

E uma questão, valerá a pena narrar Alexandre Magno sem lhe abordar o episódio realmente relevante da sua vida, a sua grande herança para a civilização: o desatar do nó górdio?

PS de outra coisa: quem tiver o azar de ver o filme repare como todos os actores principais falam um inglês com o sotaque padrão lá da terra deles. Com excepção das duas mulheres, a pérfida e misteriosa mãe (uma rapariga interessante, diga-se) e a pérfida e misteriosa mulher (uma rapariga talentosa, diga-se). Nestas o sotaque, o inglês estranho e agreste, denota as tais perfídias e mistérios.

Não há dúvida, este cinema é uma arte infantil. Para crianças retardadas, claro.

5 comments ↓

#1 jpt on 05.26.08 at 12:00

Zé…faço tenção de ver até porque como bem o dizes amante de cinema, mas fiquwei com a duvida se vale a pena ou não ver? Gostaste?

Publicado por: Luna às fevereiro 9, 2005 12:18 PM
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#2 jpt on 05.26.08 at 12:01

bem, com uma pergunta destas é óbvio que o texto não presta para nada, é óbvio que está incompreensível (para não dizer ilegível=)…

#3 jpt on 05.26.08 at 12:01

Não tenhas mau feitio…o texto está fabuloso em termos descritivos e comparativos, mas a duvida surgiu quando afirmas “melhor a cópia empastelada que o original pastel”???? Das opiniões q tenho de quem teve a sorte de o ver …afirmam uma maravilha…do teu texto precisamente o oposto que é uma merda! mas como fiquei duvidosa…esclarece lá…
Mas quem é que te disse que escreves bem???
Pensas que existe alguém apaixonado pela tua escrita??? Francamente…há gajos cá cum Ego!!!!

Publicado por: Luna às fevereiro 9, 2005 03:41 PM
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#4 jpt on 05.26.08 at 12:01

quanto a isso do escrever bem não me parece deduzível do meu comentário-resposta. quanto ao ego idem. apenas constatei da ininteligibilidade do texto. o filme é uma (e cito) pepineira atroz. enfim, uma tarde de cinema dominical em dias de inverno lisboeta, talvez. indescritível
(ah, e muito na moda, descobriram que o tipo era gay, e fizeram disso tão cavalo de batalha que colocaram uma guerra de sexos entre a talentosa - entenda-se bojuda - esposa e o favorito. Para imbecilidade anacrónica não haverá melhor) Mas vai ver, a angelina jolie mantém os (falsos) lábios - como lhe serão os beiços quando o silicone descair? -, a senhora esposa uns seios aparentemente verdadeiros e credores de atenção, ainda que ali muito fugazes. E há umas cenas de batalha boas, comparáveis ao hollywood super-produção dos anos 50 (ah, e o gajo que fazia de jim morrison está lá e meteram-lhe uma cicatriz no olho direito para fazer de quasi-mau). Eu comprei outro dvd pirata, (piratas atentos e sábios) com outro alexandre, do robert rossen, com o burton e a claire bloom. Outra pepineira histórica. Mas melhor, ou seja, menos inenarrável.
Quanto aos que gostam, enfim, já dizia o quase contemporâneo JCristo: “bem aventurados”…

#5 jpt on 05.26.08 at 12:02

É por estas e outras que me rendo….e provocar te a estas respostas é do melhor;)

Publicado por: Luna às fevereiro 9, 2005 04:21 PM
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