Há por aí algum latinista?

Domingo à noite, da estante retiro o “A Civilização Latina. Dos Tempos Antigos ao Mundo Moderno” [Georges Duby (coord.), D. Quixote, 1989]. Por lá um artigo de Umberto Eco, “As linhas e o labirinto: as estruturas do pensamento latino“. Começa assim:

Est modus in rebus: sunt certi denique fines
Quos ultra citraque nequit consistere recto

Estes versos de Horácio poderiam ser considerados um epítome do modus cogitandi latino.”

Mas os versos não são traduzidos, tal como todo o restante latim citado ou utilizado no artigo. E, peço desculpa, não leio latim. Certo, capta-se o argumento no texto mas perde-se o (tal) epítome. Há por aí algum latinista que me dê uma ajuda?

Ao deficit de compreensão somo-lhe a inquietação noite fora, o “qualquer coisa” que me ficou em falta. E fica-me ainda a irritação com esta (até comum) estratégia de distinção, tradutores afirmando-se sábios ao não traduzirem expressões citadas ou conceitos utilizados, dando-lhes estatuto de senso comum - como se o futuro leitor tenha obrigações (poliglotas) para entrar no distinto e reservado clube dos leitores dessa editora, no clube de clientes dessa editora. Sim “porque nós trabalhamos para gente especial, o nosso público-alvo é elite“.

Uma mísera estratégia de distinção que mais não é do que defeito de tradução, revisão e [maísculas] edição. Um tique de afirmação social, arrivismo sociológico presente em gentes académicas, tão comum na sua linguagem oral, recorrente na escrita, mas imperdoável na edição.

E valerá a pena protestar? Escrever ao editor? Pois um livro editado em 1989 ainda é protestável? Não é já passado longínquo, o protesto então um anacronismo? Eis como um detalhe me levanta a questão crucial, quando começa o presente?

E valerá a pena protestar? Não cairá em saco roto? Há meses aqui comprei um livrito de I. Wallerstein, “O Albatroz Racista” (Afrontamento/Centro de Estudos Sociais da U.C.) [o livro é o texto de uma conferência]. E lá estava o mesmo (recorrente) tique. Neste caso os conceitos ou títulos em alemão (ui, que signo de prestígio, o alemão é tão fino) não são traduzidos. Ou são explicados no texto pelo próprio autor [ex. “das andere Osterreich, essa outra Áustria” (6)] ou assim ficam [ex. “Paul Lazarsfeld, cuja obra Die Arbeitslosen von Marienthal…”(6), “deste Methodenstreit” (28), “a história wie es eigentlich gewesen ist” (28)]. Ok, os iniciados reconhecem ou compreendem - mas porquê tanta relutância numa mera nota de rodapé, feita tradução/contextualização?

Neste último caso enviei um mail, educada crítica à tradução. Nem um “reply” a acusar. Nem um “vá bugiar” ou “fuck you” (perdão, não sei construir sobre “futere” - é o termo correcto? - nem conheço o equivalente em alemão ou em outro qualquer sânscrito de sábio). Não sou eu um cliente quando compro um livro? Ou é com a livraria que devo ir ter, protestando a qualidade das traduções?

ADENDA: A Laurindinha do Abrigo da Pastora aprestou-se a resolver-me a dúvida (em baixo, nos comentários).

Em todas as coisas há um meio termo; existem, afinal, limites definidos, além ou aquém dos quais não se pode manter o bem.”

Os meus mais que agradecimentos. Sinto-me um ibero feito cidadão. Um vero Flávio.

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