(por AL em jeito de advocacia) –
A casa que protagoniza esta foto é uma casa de mulheres no País Dogon, Mali. Chama-se, mais propriamente, casa de menstruação por albergar as mulheres naqueles dias do mês em que são consideradas impuras; interditas, portanto, de confeccionarem comida, de fazerem tarefas domésticas e de se dedicarem à terra. Os homens estão estritamente proibidos de ver, tocar ou cheirar o sangue menstrual e nalgumas aldeias nem falam com mulheres menstruadas – acreditam que estes contactos fazem perigar a sua virilidade. Assim, as mulheres menstruadas juntam-se aqui, onde são tratadas e alimentadas pelas idosas pós-menopáusicas da comunidade, numa semana de merecido repouso.
Quando visitei a aldeia onde fica esta casa, cruzei-me com uma activista canadiana dos direitos da mulher. Horrorizada pela discriminação que tais casas representavam; pela demonização da mulher como fonte de mal; pela exclusão social despoletada por algo tão natural (visceral?) na mulher, dizia a quem passava por perto “C’est pas bien cette maison, hein? C’est pas bien pour les femmes!”… Os que por ali passavam olhavam-na com ar de quem está habituado a diatribes semelhantes e aquiesciam com a cabeça, naquele gesto de bondade que se tem para os loucos inocentes e seguiam o seu caminho num murmúrio quiçá equivalente ao nosso “pois, está bem…” Eu, talvez mais básica, pensei para comigo que bem que me teria sabido em certos meses ter sido excluída assim, para uma casa onde houvesse quem me tratasse a mim e aos meus filhos pequenos.
Caímos as duas, a Canadiana e eu, na mesma falácia – ela, a Canadiana, por ignorar as mercês deste tipo pontual de exclusão expressando juízos de valor de uma igualdade de cariz cultural; eu, por valorizar as mercês deste tipo pontual de exclusão ignorando os limites impostos pelo simples facto de se ser mulher. Celebrou-se ontem o Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra a Mulher, com direito a uma declaração pelo Secretário-Geral da ONU. Confesso que discursos como a diatribe da Canadiana e a linha oficial da comunidade internacional e do politicamente correcto sobre o género me irritam particularmente. Mas a verdade é que:
- uma em cada três mulheres é espancada ou forçada a ter relações sexuais, geralmente por alguém que lhe é próximo;
- a violência é uma das principais causas de morte ou de deficiência nas mulheres entre os 15 e os 44 anos; a violação e a violência doméstica causam mais mortes neste grupo etário do que cancro, desastres, guerra e malária
- as maioria das mulheres ainda enfrenta discriminação perante a Lei
Por isto, por ter nascido e crescido num ambiente relativamente igualitário, por ter filhas, por raramente me ter sentido discriminada por ser mulher, pelas mulheres discriminadas que conheço e porque a irritação causada pelo discurso da advocacia não nos deve cegar, aqui deixo este post.
Para factos e números sobre a violência contra mulheres
Sobre a violação dos direitos humanos em relação ao género
Mais factos e números


3 comments ↓
AL
Obrigado pelo circunstancial e oportuno tomar de pulso neste assunto. Confesso que fico sempre chocado com estes “reminders”. Não tanto no Mali, pois eu creio que diferentes países têm dinâmicas diferentes de atacar as suas realidades sociais, culturais e morais e o Mali nesta bitola parece ainda estar na Idade da Pedra, como tantos outros países. Mesmo em Portugal (África do Sul, Angola, Moçambique, e pelos vistos na Polónia) perturba-me que eu possa sentir-me seguro a passear na rua à noite e a minha mãe, a minha mulher, a minha irmã ou a minha filha tenham que pensar duas ou três vezes antes de fazer o mesmo. Perturba-me uma sociedade em que um homem possa ferrar dois sopapos na mulher (na filha, na irmã) e levar trinta anos até que a polícia local comece finalmente, vagamente, a pensar que talvez haja algo de errado ou ilícito com isso.
Mas este é infelizmente apenas um pequeno do vasto rol de discriminaçõezitas com que muitos cresceram para aprender (obviamente não nos filmes de desenhos animados para ciranças) e internalizam sem sequer as questionar. Mudar isto vai levar ainda gerações e muita chatice.
O Mali começa a parecer-me muito organizado: Casa de Menstruação, Casa de Palavra….
ao menos pegam nas palavras pelos cornos. já imaginaste uma casa do Periodo!?
esta designação é altamente discriminatória, isto na minha opinião, pois parece k se ker velar, encobrir algo absolutamente natural como é o caso da menstruação. é a discriminação pipi de gente k se gaba de lutar contra, por exemplo, a discriminação da mulher.
Oh Candida, casa do periodo! Essa e’ mesmo boa! Aqui nao, que eu saiba e’ mesmo casa de menstruacao que lhe chamam.
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