Exotic-dropping

(texto modificado, acrescentado) Sei que é um bocado hermético o que deixo a seguir, acho que nem aqueles que assim visados, e que aqui visitam, o perceberão. Portanto, um texto inútil: mas irrita-me a patrimonialização das relações - está inscrita no português, e nada subterrânea, “o meu amigo”, “o meu tio”, “o meu vizinho”. Mas não é só por via disso que isto surge. Agitar as amizades (”nossas”) ou conhecimentos (”nossos”), afixá-la/os, como mero património é desagradável. Como marcador identitário, como estratégia identitária, é repelente. Não moralmente repelente, mas sim intelectualmente.

Vai esta repelência intelectual (não moral, repito, que para isso há bem pior) também associada a quem se demarca por um sítio. Por quem usa os locais calcorreados como se seus, por quem patrimonializa os territórios - claro é que não falo de propriedade fundiária. Aqui ainda por cima não escondido pelo uso de português, pois o “meu local x” é ênfase rara, caímos quase sempre no “eu sou de ..” ou no “eu estou em …”. Mas isso não impede o uso dos sítios como distinção, estratégia patrimonial. Tudo isto culminando nuns “eu que ando por X, vejam, e que sou amigo de Y”.

Nessa ânsia patrimonial, publicitando, suportando-se, nos “amigos deles” “nos locais deles”, óbvia é a coisificação do que (momentaneamente) os rodeia. Sempre me interrogo, na tal ânsia de ascensão assim tornando, reduzindo, em coisas havidas as gentes e os contextos que cruzam, como os podem compreender? Pois logo se impõe o que na academia se chama reificação, e no vulgo fussanguice. Enfim, seja qual for o nome dado resta uma mera estratégia incompreensiva. Por mais louros que recolha.

Diz-se disto name-dropping, quando se trata de aspirantes às elites urbanas. Mas também, e é disso que aqui falo, há essa gente que vai nesse caminho no bico-dos-pés mas por outras vias, e que assim acaba a hastear o resto real que diz seu como exótico, mostrando-se-nos nele. Uma mera estrategia ascencional assim via “exotic-dropping“. Aí cai a repelência. Fica, meramente, o ridículo. Que me envergonha.

4 comments ↓

#1 Catarina Campos on 05.02.07 at 18:45

Mas vais passar os dias a modificar o postal? Só por causa de uns parolos? Deixa lá isso, nunca te compreenderão e tu é que serás o arrogante da questão.

#2 JPT on 05.02.07 at 21:26

ok, vou ler o salgari …
[ http://100nada.blogspot.com/2007/04/e-eu-e-eu-pra-mim-de-dedo-no-ar.html ]

#3 Lutz on 05.02.07 at 22:46

Pois é, compreendo-te. Sou um puritano intelectual como tu. A minha mulher acrescentaria, um insuportável puritano. Ela tem alguma razão. Por isso, ultimamente, tento ser menos exigente com as pessoas, e respeitá-las mesmo que insistem em representarem-se por atributos readymade: donde são, aonde já foram, as pessoas que conheçem, os livros que leram, os discos que têm na colecção… essa tralha não é tudo a mesma coisa, uma tentativa de valorizar-se, mas também de individualizar-se, através do coleccionismo de que não é nada individual, mas se espera (desesperadamente) que em conjunto indivídualiza, isto é, torna única a pessoa?

#4 JPT on 05.03.07 at 4:03

Lutz, tu tens razão, muita razão (excepto quando me dizes puritano intelectual, espero) sobre esssa produção de individualização.

Talvez o texto seja por demais profissional, ou por outra, talvez remeta demais para um contexto profisssional (pecado lesa-ma-schamba). Ou seja, se em termos gerais aceito o teu enfoque, em termos profissionais (da minha profissão) sublinho o meu enfoque. Aliás, enviei a uma dezena de amigos colegas, que não serão leitores destas tralhas um “apelo à leitura” deste trecho. Ia com este aviso: “como decididamente não sou homem de produzir grandes reflexões enquadradas aqui vos envio a minha súmula metodológico-epistemológica, condensando uma ética heurística [seria mais ou menos esse o resumo do meu paper sobre a temática se eu fosse outro eu]”, claro que brincando um pouco com o jargão. Mas brincar um pouco não é brincar tudo …

Ou seja, se em termos globais tenho que concordar contigo (sim senhor, sim senhor, e não vou mudar o texto por a catarina já me avisou para isso), em termos corporativos eu fico-me, talvez teimosamente, na minha opinião.

abraco.

Leave a Comment