António da Costa Gaspar, Diagnóstico de Focos e Origem de Conflitos Sociais nas Comunidades Urbanas e Periféricas, Maputo, Organização para a Resolução de Conflitos (www.orecmoz.org.mz), 2003
Um estudo patrocinado pela Organização para a Resolução de Conflitos, “associação moçambicana vocacionada a prestação de assistência e advocacia na gestão pacífica e resolução colaborativa de conflitos.” (iv), actuante desde 2000, promovendo os direitos dos cidadãos e reduzindo “a violência conflitual através da criação de um ambiente harmonioso” (iv). Este trabalho procura identificar focos, causas e tipos de conflitos ao longo do país, sob uma abordagem, explicitamente assistencialista, e vem financiada pela ICCO (Organização Interclesiástica para Cooperação ao Desenvolvimento), a EED (Serviço das Igrejas Evangélicas da Alemanha para o Desenvolvimento) e a DIAKONIA (organização não-governamental das Igrejas Livres da Suécia).
É um livro exemplar e daí o seu especial interesse: o ecoando os resultados de uma pesquisa de terreno transpira o caldo ideológico que a organizou: a anti-globalização (anticapitalista?) com o extremo conservadorismo do olhar sobre a realidade. Um conservadorismo moralista, entenda-se, que molda problemática, objectos e assumpções assumidas. Se olharmos o enquadramento evangélico patrocinador não surpreenderá, mas não é com olhar de denúncia que a ele me refiro. É que raramente em livro se encontram firmadas estas balizas da normatividade desenvolvimentista, de modo tão cristalino.
Na pesquisa transposta a livro concluiu-se que “Os principais focos de violência localizam-se, essencialmente, em locais de exercício da economia informal que servem de base de sobrevivência da maioria das famílias a viver nos centros urbanos e seus arredores (…) Estes factores, estão de alguma maneira, associados aos efeitos da liberalização económica e das politicas macro-económicas vigentes no pais. Os efeitos nefastos da globalização, igualmente, têm estado a influenciar a atitude e comportamento dos cidadãos residentes, tanto nas zonas urbanas, como das perurbanas.” (viii). Está explícito, os focos de conflito alojam-se na economia “informal” donde dela brotam - do que é ela, enfim, não se discute. Sabe-se que é fruto da liberalização/globalização e daqui concluo ser a conflitualidade social fruto da desestatização da sociedade - correlação indiscutida: economia “informal”=conflitos.
Entre as principais origens dos conflitos (p. 40) estão os factores económico-financeiros (p. 42) no seio dos quais avulta o adultério, que “semeia a instabilidade no seio das famílias e nas relações inter-familiares. … Por exemplo, em Boane, a pratica de adultério é mais comum entre os homens adultos e mulheres cujos maridos se encontram a trabalhar na Africa do Sul. A prolongada ausência destes homens e justificada como estando na origem destas praticas agravadas, em algumas situações, pela insustentável e crescente carestia da vida. (…) Como se pode depreender, a pratica de adultério por parte de certas mulheres deve-se, em parte, a procura de alternativas de sobrevivência face ao elevado índice do custo de vida. (…) Este cenário descreve uma das origens da prostituição infantil, o que acaba se tornando numa base de sustento de algumas famílias vulneráveis.” (46-47). Comentar? O adultério é cometido por mulheres. O adultério é fonte de conflitos por causa das práticas das mulheres. O adultério (numa população onde os homens são [e]migrantes) é causado pela pobreza das mulheres, já ela provocada pela liberalização e globalização. Para quem conhece a concepção popular de “adultério” a sul do Zambeze (sociedades patrilineares, tendencial mas diferentemente patriarcais) como sendo equivalente a “prostituição” (”putaria” nos portugueses locais) fica-se com a sensação de que a análise fica presa às concepções morais populares, assumindo a sua moralidade.
Outros factores de eclosão de violência são os sócio-culturais (p. 50). Entre eles estaria a poliandria “um fenómeno que consiste numa mulher possuir mais do que um marido. Felizmente não e ainda uma prática aberta e publicamente exercida no seio da sociedade moçambicana. (…) No entanto isso não impede que algumas mulheres “forcadas pela carestia de vida” se envolvam na pratica do adultério numa base permanente ou temporária com vários homens, o que e, por sua vez, uma prática condenável”. (51-52) [meu negrito].
A resolução da conflitualidade doméstica, a análise dos mecanismos do pluralismo jurídico e seus valores condutores é fundamental. O assistencialismo enquanto patrocinador e financiador das análises sociológicas não é, por si só, condenável. Mas o laço evangélico, consciente ou inconsciente, não implicará a mera reprodução de santos valores e boas intenções?

3 comments ↓
O problema caro JPT e a ausencia de metodo cientifico na analise dos problemas.
O problema e nas ciencias sociais muitas vezes se aceitar implicitamente argumentos de autoridade para obter conclusoes. O problema e a ausencia de um sistema de “peer review” para publicacoes como essa.
Porque e que o JPT julga que os religiosos, politicos e opinadores gerais da nossa praca sao tao lestos no ataque a “intolerancia da ciencia”.
O mundo precisa de muito menos “boas intencoes” e mais ciencia, muito mais ciencia no debate publico, no quotidiano, na estrutura mental de todos.
Penso eu de que.
JPT.
Parabens pela “coragem”! Perguntar-me-as: é preciso coragem para fazer uma recensão crítica de um livro? Não te saberei responder, mas eu não tive, e por isso nunca surgiu a minha. Esse livro veio me parar as mãos, se a memória não me falha, em 2004. A própria OREC fê-lo chegar a mim e ao Macia- O Manuel- queriam que fizessemos algo semelhante. Não sei por que contas de águas a consultória deu berro. Mas ficou o livro, em nossas mãos. Li-o, relí-o! E terminei pelos comentários num dos gabinetes da ex-ufics. “Don’t judge a book by the cover” (author)! Neste caso era pelo autor considerado um dos “académicos de sucesso” do país. Talvez me tenha faltado estômago suficiente para buscar as páginas, as citações e enúmerar os problemas graves de concepção de uma pesquisa social, para não falar de metodologia que isso já é lhe dar um prémio, que esse livro representa. De lá para cá o tempo encarregou-se de ajudar-me a esquecê-lo. O pior dos meus pesadêlos vinha do facto do livro ser usado como exemplo de investigação no ISRI. E eu, cá comigo, sofria calado, e dizia: exemplo, exemplo! Só se fôr exemplo daquilo que uma pesquisa e um livro não deve ser!
Por isso os meus parabens pela recensão.
De locais diferentes Vs falam de coisas similares. PL dizes-me que é preciso “coragem” - eu acho que há dois tipos de coragem em Maputo para escrever, mesmo que nesta ligeireza de blog individual, sobre as produções alheias. A primeira é que a gente se conhece toda, encontramo-nos no café da universidade, no supermercado, no xenon ou gil vicente, nos restaurantes, e é uma chatice, “aquele sacana criticou-me” resmungará o criticado para a esposa - entenda-se, não conheço o autor deste livro, o que talvez tenha ajudado a minha simplicidade no espanto ao ler, e não faço a mínima ideia se é susceptível, nem tampouco sabia que a obra tinha a proeminência que desvendas. Foi apenas fruto de uma leitura profissional recente.
Enfim, esta contiguidade convivencial inibe o expressar publico do des-gosto (e abre o caminho à maledicência e resmunguice em falsa surdina, mas estas também existem nos sítios onde as pessoas nem se cruzam, portanto …) Acho que este motivo para a nossa falta de hábito crítico muito humano, muito decente. PAra quê chatearmo-nos, e depois somos todos humanos e quando toca a nós também sentimos … (não é assim?)
Agora há um segundo aspecto, que são as hierarquias hieráticas, o senhordoutorismo que aqui se instalou (?, quando?) que é avesso a críticas [fique frisado, não estou a falar do autor deste livro, não o conheço]. Mesmo no registo simplório do ma-schamba isso vem constantemente ao de cima quando piso a linha - o único tipo a quem faço questão de expressar ciclicamente discordância e que mantém uma elegância dialogante é o Elísio Macamo, e talvez por isso mesmo eu vou insistindo (e também porque volta e meia discordo radicalmente, é certo). Mas não são só os autores de algo, são os próprios consumidores amigos - atrevi-me um dia a dizer que não gostava de O Grande Bazar, do Licínio de Azevedo, e os companheiros de sala iam-me linchando; atrevi-me a resmungar contra o ilegível que acho das crónicas do Savana do Patraquim (que tanto prezo como gente e poeta) e o meu amigo despachou-me “és estrangeiro, não percebes”, deixei aqui que tenho dificuldades em ler o Mia couto (Que é gente, intelectual, autor e cidadão que muito respeito, mas não me atiro para o chão com a prosa dele) e amigos comuns vieram ter comigo protestando por eu ter “destruído a obra do Mia”. Acho, honestamente, que há um exagero no Proudly Mozambican - mas talvez por eu ser estrangeiro o sinta.
Ainda, o Lowlander refere um ponto crucial, aqui mais para as nossas áreas, o argumento da autoridade. Há muito pouco tempo, em coisas da universidade, discordei com o argumento de alguém mais graduado. É a minha opinião, e no caso até não descabida, mas que o fosse - comentário “quem é ele para me criticar?!”, e regressamos às hierarquias hieráticas, por parte de quem (um quem colectivo, entenda-se) reclama aparatos teóricos para as criticar e desmontar - mas se o próprio Santo Bourdieu era um insuportável frade da Santa Distinção, o que nos pode surpreender?
abraço para ti, cumprimentos ao LL
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