Hei-de voltar ao assunto. Tal como já o aflorei em textos hoje já no arquivo. Mas para quem queira perceber um pouco do Portugal de hoje em África leia sff, ainda que algo longo.
Ah, o Primeiro-Ministro Durão Barroso visita Moçambique este mês. O quão bom seria que alguém lesse e compreendesse coisas destas. E que à ignomínia e imbecilidade dos nossos socialistas em África se sucedesse alguma decência e inteligência. A ver vamos…
Tomás Vieira Mário
Notícias, 9 Março 2004
Ele há-de sempre haver coisas nesta lengalenga de lusofonias que só fazem sentido em contextos do absurdo!
Estava eu ainda a comentar com um amigo, na tarde de domingo passado, sobre o anúncio de uma exposição, que suponho fotográfica, a ser organizada pela RDP-África, em Lisboa e que, nos anúncios desta estação emissora, se denomina “Imagens Lusófonas”! E eu me perguntava: mas … de que raio de imagens estariam eles a falar?! Porque, pela explicação e entendimento oferecidos pela RDP-África, e dada a “missão” desta mesma estação radiofónica (comunicar para – e não necessariamente “com” – as comunidades africanas dentro e fora de Portugal), tratar-se-ia de uma exposição de fotografia de autores alegadamente falantes da Língua Portuguesa. Mas … sendo que nestes se incluem angolanos, brasileiros, cabo-verdianos, guineenses, moçambicanos, santomenses e timorenses, porque haveriam todos de ser considerados lusófonos?
E afinal, ainda estava o pior por vir: nas edições de segunda-feira de alguns jornais nacionais vem um texto publicitário anunciando uma reunião que se chama “II Jornadas de Agricultura…Lusófona” (!). De novo, a inevitável pergunta: de que agricultura estarão eles a falar? Que agricultura será essa, denominada “lusófona”? Haverá alguém com paciência suficiente para me explicar o significado de uma tal expressão, mesmo admitindo que seja utilizado em sentido figurado? Que figura pretenderia ela representar?
Pela lógica das coisas, sou induzido a pensar que eles pretendem, nestas jornadas, falar das possibilidades de investimento luso no sector agrícola em Moçambique, já que diz o subtítulo “Moçambique – terra de oportunidades”. Mas e então porque não dizer logo “Jornadas sobre o investimento português no sector agrícola de Moçambique”?
É que, de contrário, a agricultura moçambicana longe ser “lusófona”, seria “bantófona” (…) já que ela é dominada por camponeses moçambicanos locais, na sua quase totalidade, analfabetos da Língua Portuguesa!
A lusofonia – vozes mais autorizadas já o disseram inúmeras vezes, e com maior veemência – corresponde a um quadro socio-linguístico dos portugueses (lusos), do mesmo modo que nós, moçambicanos, pertencemos a um quadro socio-linguístico bantu. Por “camonianos” que pudéssemos ser!
É que, tratando-se, como se pretende fazer depreender de iniciativas conjuntas Portugal-Moçambique, porqu erazão é que vai, sempre, prevalecer a lusofonia como denominação de referência? Por falarmos, como se vem repetindo, a mesma língua? Já o havia dito, repetidas vezes, o saudoso Prof. Aquino de Bragança: da mesma forma que com a língua comum nos podemos entender facilmente, também com ela nos podemos facilmente insultar!
(…) De tal forma que a evocação da Lusofonia aparece, quase que exclusivamente, para denominar estratégias portuguesas de afirmação no exterior, sob o manto da “língua comum”, nomeadamente com as suas ex-colónias africanas.
Daí a pouco vamos também ter, em Moçambique, jornadas de “Educação Lusófona”, ou de “Conservação de hipopótamos e búfalos lusófonos”.
(…) Afinal, porque razão é que ao invés de uma Comunidade de Países Lusófonos, os Estados falantes do português acordaram em criar uma “Comunidade dos Países de Língua Portuguesa”?
