Envio as minhas saudações à comunidade portuguesa na área de jurisdição deste Consulado Geral e gostaria de informar que S.Exa o Primeiro Ministro de Portugal, Eng. José Sócrates, visitará oficialmente Moçambique, nos próximos dias 3, 4 e 5 de Março, acompanhado de vários outros membros do Governo e de uma delegação de empresários.
Sem prejuízo de informações adicionais que entretanto serão enviadas, gostaria desde já de salientar a intenção de o Primeiro- Ministro se encontrar na ocasião com a Comunidade Portuguesa, no dia 3 de Março, primeiro dia da visita.
Toda a comunidade portuguesa está convidada para este encontro. Porém, por motivos de segurança, as pessoas que nele tencionarem participar deverão estar munidas do respectivo convite, para exibir à entrada, facilitando a entrada no recinto. Os convites deverão ser levantados neste Consulado-Geral, a partir da próxima quinta-feira, dia 25 de Fevereiro, dentro do horário de abertura ao público, ou seja, das 8,30 às 14 horas.
[Comunicação divulgada pela Cônsul-Geral de Portugal em Maputo, a excelente Graça Gonçalves Pereira. E aqui transcrita por jpt]
2. Crise. Qualquer emigrado português sabe que ir à “terra” é para ouvir os constantes lamentos dos amigos, da família, dos populares, com a “crise”, e etc. e tal. Mais agora, com a desgraça internacional a repercutir-se nos dois milhões de portugueses abaixo do limiar da pobreza, mais de dez por cento de desempregados, o país sem luz ao fundo do tunel, sem projecto. E depois … basta ver o potlatch radical dos últimos dias antes do tal solstício dito Natal! Basta perguntar no talho, no café (o bolo-rei), na livraria, na loja de brinquedos, nos restaurantes e afins, etc e tal vinícolas e isso, o obrigatório “então, e este ano como vai?”. Crise? Já lá vai, que “estamos melhor que o ano passado”. Crise? Como crise se a felicidade está ali mesmo, nos balcões dos chópings? E tudo segue, no dia 26 abrem os saldos e as multidões reiniciam o seu caminho de cigarras. O vazio (versão portuguesa do conradiano “horror”).
[Fotografia de inscrição ao Teatro Politeama, Lisboa, Dezembro 2009]
3. A gula. Crise? E é um “trocadilho” fácil, o com esta campanha de época, o tome atenção aos AVCs que encheu os painéis das cidades. Crise? Só se for a da gula, essa motriz dos AVCs. No fundo o símbolo da Europa Ocidental, obesa, no seu estertor. As causas? Exactamente a tal falta de visão, de preocupação. De razão. Tudo isso do a cada um o seu sapatinho, e nada mais … Aliás, a cada um o seu sapatão.
4. Paulo Duarte, afirma-se de origens humildes, foi um futebolista modesto e não enriqueceu, é agora o seleccionador do Burkina-Faso. Deu uma entrevista ao jornal Record. Interessantíssima, muito para além do patois futeboleiro habitual. De como olha o país africano para onde, surpreendentemente, foi trabalhar há já dois anos. E de como reconhece que para preconceitos era ele que os carregava ao início. Mas mais do que isso, também ele de longe a re-olhar os seus patrícios: “Se as queixas, por isto ou por aquilo, fossem modalidade olímpica, os portugueses estariam cobertos de ouro. Somos muito assim. Completamente. As dificuldades da vida são muitas, para toda a gente, mas há coisas que não podemos esquecer: a maior parte dos portugueses que vive mal tem uma casa, duas televisões, um vídeo, dois telemóveis, dois carros, um emprego, mal remunerado mas temos, tem água, tem luz, tem gás, tem comida na mesa, tem roupas adequadas ao clima. Com maior ou menor dificuldade, chegue o dinheiro ou não ao fim do mês, tem isso tudo“. Sei que é muito fácil apupar este tipo de visão. Mas seria conveniente que os habitantes de um país que não produz o que tanto consome pensassem um pouco no facto de que a sua ladaínha lamurienta não encanta (enfeitiça) os que de longe os assistem. Fica o meu desejo das maiores felicidades a Paulo Duarte, homem a pensar. Força Burkina-Faso!
5. Quadra natalícia: Eu também! Pois se o mito sublinha o amor transposto para o espírito de dádiva neste emigrante o real é a volúpia da posse, sacos de auto-prendas esquecendo-me dos “entes queridos”, esvaziando-me o porta-moedas extinto que foi, e já em tempos, o cartão de crédito, malfeitoria ocidental. Malditas livrarias ….
6. Saúde. Viver em flat e enfrentar tantas proibições tabagísticas em locais públicos: assim a fumar bem menos.
7. Oferta infantil. Uma enorme oferta de espectáculos e actividades infantis. Gloriosa. Diz quem sabe que este Corcunda de Notre Dame foi do melhor que já viu, e já viu várias coisas.
8.Cultura. Na revista “Os Meus Livros” (nº 82, ano 7, 12.2009) a coluna “Caldeirada de Letras” (p. 52) contém um acertado texto da autoria de Luís Graça: “Astérix Ortografix“. A propósito da edição do “O Aniversário de Astérix e Obélix, o Livro de Ouro” (fraquinho, já agora) uma crítica as novas traduções dos nomes das personagens, um incompetente ataque à tradição asterixiana. (Algo que em tempos já aqui referi).
9. Surpresa. Encontro o Bartis (ok, o Bar Artis) reaberto. Um ícone do Bairro Alto, ali à Diário de Notícias, agora com nova gerência (propriedade dos donos do velho restaurante “Sinal Vermelho”), a vender apenas produtos portugueses (quer um whisky, um gin, um vodka? Beba aguardentes vinícolas – aprecio o acto). Mas mais do que isso – e ainda que lamentando isso do balcão estar agora ao fundo da sala – de louvar a reabertura de um local biográfico. Mesmo que já sem o seu velho proprietário, o célebre Mário, e – aí sim, lamentavelmente – desprovido da lendária Paula, rutilante alma. Mas está lá o Bartis ….
10. Inteligência: a primeira auto-prenda, logo no dia da chegada, este “De Marx a Darwin. A Desconfiança das Ideologias” (Gradiva, 2009), um para mim desconhecido livro de Onésimo Teotónio Almeida. O autor é um homem inteligente, o livro idem. Uma delícia, sobre paradigmas cientificos, suas características e limites, e ainda da hipotética relação da ciência com a religião, da ética com a lei. Para mais muitíssimo acessível (efeitos da tal inteligência). Deixo uma citação. Que é letal para alguns meio lusos, e não é preciso recuar ao guterrismo: “Nem tudo na ética está codificado na lei, a lei civil é apenas a imposição da obrigatoriedade de uma ética mínima para o funcionamento das sociedades. Mas se a ética transcende a lei, e por vezes choca com ela, ambas têm os mesmos alicerces. Os debates legais resultam de confrontos entre valores éticos, de combates morais, e nem todos conseguem reunir consensos que se traduzem no estabelecimento de normas legais (ou, pura e simplesmente, de leis sancionadas pelos tribunais e pelas forças do Estado que velam pelo seu cumprimento), contudo muitos valores morais não precisam de ser codificados em lei. Há normas éticas aceites pela maioria que nunca foram consignadas em nenhuma legislação. Os ventos da história e o rumo de cada cultura acaba conseguindo para esta ou aquela norma ética um estatuto legal. Mas nunca a lei cobre todo o domínio da ética, até porque nela, a ética, há um mínimo que suporta legislação (o domínio do dever), porém existe um outro bem mais vasto, o da virtude – a arethé grega – que não poderá nunca ser legislado.” (125)
11. Drama. Rui Santos sobre o Sporting. O jornalista em causa capta pouca adesão – como o prova o baixo número de subscritores das suas incessantes petições informáticas, abundamentemente publicitadas em inúmeras horas televisivas (basta compará-las com as petições lançadas in-blog para comprovar essa sua fragilidade). No entanto a sua denúncia sobre a destruição do Sporting Clube de Portugal por parte do núcleo socioeconómico, em tempos albergado sob o epíteto “Projecto Roquette”, é inultrapassável. E de registar pois estabelecida em jornal de grande divulgação. E, por extrapolação, diz muito sobre o Portugal de hoje, esse da cega aceitação de auto-anunciadas elites sublinhada pela “falta de alternativas”.
12. Capitalismo. A edição portuguesa está pelas “ruas da amargura”. Sob a tutela dos interesses comerciais, de grupos editoriais desligados da cultura (e, porque multinacionais, do contexto nacional). E esmagada pela pressão oligopolista dos grandes potentados livreiros, também eles apenas virados ao lucro. Assim se apaga a hipótese da edição ensaística e apenas subsiste a chamada “literatura leve”, a capa brilhante, o conteúdo inexistente, a forma “plana” – em particular expressa nos registos da “exo-ajuda” e do chamado “romance histórico”.
Prova dessa superficialização produzida nas grandes superfícies encontro-a na FNAC do Chiado, chego à secção dos livros e deparo-me com o primeiro escaparate – aquele que me recebe e me despedirá, dentro de algum tempo, portanto o que mais apelará à aquisição. Uma das faces para a literatura nacional (prosa) considerada relevante (os peixotos, cachapas, saramagos, lobos antunes, tordos e torgas e isso). A outra face de prosa estrangeira, e não resisti a transcrevê-la, para aqui comprovar o “estado da arte” a que se chegou, do esmagamento cultural por via do comércio (do capitalismo, por assim dizer). São 18 colunas, cada qual com quatro livros, novas edições (traduções) ou recentes reedições. Por mim recenseadas, como denúncia. Apresento apenas os autores, para economia de ma-schamba. Eis então o painel do escaparate melhor situado:
1. Bernhard; Bernhard; Mishima; Mishima. 2. Beckett; Walser; Walser; Mme Lafayette. 3. Hesse; Hesse; Jane Austen; Jane Austen. 4. Hemingway, Dumas, Diderot, Dickens. 5. Iris Murdoch, Iris Murdoch, Rilke, Colette. 6. Susan Sontag, V. Wolff, V. Wolff, Lampedusa. 7. Thoreau, Flannery O’Connor, Orwell, Orwell. 8. Maugham, Mann, Beckett, Mailer. 9. Daphne du Maurier, Céline, Saint-Exupery, Walty. 10. Flaubert, Yourcenar, Yourcenar, Hsek (?). 11. Kafka (X4). 12. Aitmatov, Kafka (X3). 13. Jack London, Boris Vian, Victor Hugo, Lautréamont. 14. Proust, Proust, Calvino, Calvino. 15. Calvino (X4). 16. Calvino, Pasternak ,Turgueneev, Gogol. 17. Tolstoi, Zweig, Svevo, Bulgakov. 18. Dostoievski, Dostoievski, Lidmila Ulitsvaia (?, será assim?, não conheço), E. Waugh.
Lastimável. Esta prática comercial, esta subjugação editorial. O primado da mediocridade. Efeitos, necessários entenda-se, do capitalismo. Vil.
13. O Charme Discreto da Burguesia. Olivais-Sul, Lisboa, Dezembro de 2009.
14. Império. A Ler (nº 86, Dezembro de 2009), coluna “Booktailoring”, de Paulo Ferreira e Nuno Seabra Lopes. Procurando um registo cómico em futebolês (o dia em que os humoristas escreverem em raguebês ou golfês será bem arejado…) o texto ”Um jogo entre linhas“ que aponta os “jogadores mais influentes do mercado editorial português em 2009“. Não vou discutir os critérios. Apenas o eco da minha reacção: “tenho que ter cuidado, pareço da patrulha ideológica“, resmungo-me. Pois na “selecção nacional” deles lá estão o Agualusa e o Mia Couto. Sim, eu sei que na selecção de futebol estão o Liedson, o Pepe e o Deco. Mas nesta, na literária, não há brasileiros. É, na cabeça dos humoristas, uma selecção portuguesa de Portugal, mas afinal uma transpiração da pobre lusofonia. Ou seja, e isto muito para além dos escritores em causa, da cabeça dos humoristas ninguém retira(ou) o Império. Nem na Ler… Absurdo. Mas um absurdo sintomático.
15. O jornal I é o melhor jornal nas bancas. Já no Verão passado me parecera tal. Agora confirmam-me tal alguns amigos. Alguns até acompanham a opinião com um “é de direita mas …”. Mas digo eu, que o vejo sem publicidade e oferecido nas bombas da Galp. Mau sinal? A ver se se aguenta …
16. Delícia. Inúmeras bancas de livros em saldo (aliás, monos), um “apelo às dádivas”. Nelas sempre se encontram exemplares desta bela colecção “Horas Extraordinárias” que o Independente foi publicando há alguns anos. Cada vez que em Lisboa lá carrego alguns. Agora é a vez (a 2,5 euros, imagine-se) de adquirir este saborosíssimo “Bilhetes de Colares de A.B. Kotter (1993-1998)“, “porventura” de José Cutileiro. Obrigatório regressar a esta Quinta da Beldroega, sita na Várzea de Colares, seus habitantes e visitantes, ponto máximo de observação deste país. Pelo olhar-mestre do Senhor Doutor Kotter, traduzido pelo ex-comando J. Fonseca, fiel à máxima de que “Como a leitora sabe, eu nunca me imiscuo na política deste maravilhoso país que tão generosamente me acolhe no seu seio. Não cabe a um estrangeiro fazê-lo; menos ainda a um estrangeiro sem razões de queixa.” (66). Ainda que com ele se possa discordar, por vezes, como aqui: “Já tentei explicar-lhe que o snobismo não é tão mau como parece porque, vistas bem as coisas, sempre é o contrário da inveja…”. Discordância que, se seguida, levaria por caminhos muito diversos. Mas mais do que a justificar a corrida aos monos…
17. Política. Nenhum dos meus amigos – desses que cada vez menos encontro -, nenhum dos meus familiares, nenhum dos teclistas lidos in illo tempore, enfim nenhum desses que tanto vituperaram (vituperámos) o “fontismo” cansado, travestido de “desenvolvimento”, do primeiro-ministro Cavaco Silva tem agora uma palavra irritada contra o proto-fontismo de José Socrates. Mas para quê falar, se é para falar encastrado?
18. Jonhy Lyndon (ex-Rotten). Amália. Coração Independente (no CCB). Não sou um amaliano, ainda que nela possa actualizar (reconheço, até acabrunhado) a expressão “de ir às lágrimas”. Pois ainda que não o seja (amaliano) saí preenchido da exposição. Para logo quem ali a meu lado me iluminar, como sempre na vida, num até desdenhoso “não aprendi nada”. E é isso, saio do amalianismo (no meu caso amador) e constato, a exposição não é um diálogo com Amália, é uma missa (certo, a haver divindade que seja ela), apenas uma missa. Ela adoraria. Mas está morta, não haverá outra forma de ser olhada?
Depois o tal diálogo com a mulher, a personagem, a artista, o mito - que se pretenderia? – é atirado para um “posfácio”, de arte contemporânea. Nesse pacote, mas que assim surge externo, in-dialogante, um bailado (Ana Rito) muito interessante, a peça de Joana Vasconcelos também. E uma instalação visual óptima de Bruno de Almeida. Mas mesclado com coisas-obras a parecerem modismo para “espantar a classe média baixa”. Francamente, não há paciência para quem atira um xaile para o chão e diz “arte!”. Olhar um cilindro branco com espelho atrás, “um artista (Amália) solitário no palco”. Em 2009? Ali tanta ruptura, tanta inovação como o busto realista atrás apresentado (Joaquim Valente), coisa de meados de XX, que foi muito ao gosto da representada. Honestamente uma desilusão. Pelo auto-centramento da exposição, que se pretende encantória. E pela tralha avulsa que se lhe colou à maneira de olhar actual – com as excepções referidas. Sempre me convenço que o epíteto “contemporâneo” faz eclipsar o espírito crítico, analítico. Cilindros brancos, mesas luz com banheiras coloridas, peças atiradas no chão. Hoje?
Coisas que sempre me fazem lembrar aquela entrevista do Jonhy Lyndon (ainda Rotten?) ao Philippe Manoeuvre, publicada na Rock & Folk cerca de 1982. Dizia o Rotten: “ser punk em 1980 é igual a ser hippie em 1976″… Xailes no chão?!
19. Sahara Ocidental. Uma militante esteve em greve de fome defendendo a causa do Sahara Ocidental, protestando contra a ocupação marroquina. A representação diplomática de Rabat em Lisboa concedeu uma entrevista ao jornal “i”, anunciando que Marrocos é “o polícia da Europa”. O silêncio europeu face à ocupação colonial do Sahara Ocidental passa por esta “política real”. Confesso que nada sei sobre a situação efectiva na região (no país, por outras palavras), acredito até que o terrível fundamentalismo “alqaediano” seja um papão agitado por Marrocos para colher o apoio à sua velha expansão – como os leitores saberão ninguém falava de Al Qaeda e muito poucos falavam de “fundamentalismo”/”integrismo” islâmico quando Marrocos procedeu à ilegal anexação daquele território. Ou o seu inverso.
Mas enfim, são contas do difícil e imbrincado rosário da história. A mim interessa-me a reacção em Portugal. Nos jornais e na TV, nas conversas, ninguém ecoa a posição do Estado - o qual desde o governo Socrates assumiu a posição mais próxima da política colonial marroquino. É óbvio que o “distante” assunto a ninguém interessará, Marrocos está nos confins, parece-me até antípoda. À esquerda ninguém diz nada, nem mesmo o BE, onde Marrocos será quanto muito o locus de umas ganzas a legalizar, que isso dos princípios é uma canseira. O PCP silencia, mas é óbvio: para um partido sempre ao lado dos poderes coloniais e dos regimes monárquicos não se deveria esperar uma interrogação sobre a política diplomática portuguesa nesta questão. Ninguém questiona a questão. O fait-divers da senhora à fome acabou, entretanto o escritor José Saramago foi lá apoiar (à revelia do seu partido, à revelia de António Costa, o socialista de quem é apoiante) porque é uma ”causa justa” e pronto. Aliás, prontos …
20.Excelência. No canal Mezzo (que pena não haver em Maputo) um fantástico programa sobre Rafael Campallo, bailarino que desconhecia. Grande, grande …
21. O Antigo Regime. O álbum, merecido, celebrando o centenário da Escola Secundária de Camões (ex-Liceu Camões). Ainda que me arrepie sempre que ouço loas ao dito liceu (apesar dele próprio). Que é sempre agitado como se ícone dos “bons tempos” em que havia cultura, e educação que a sustentasse e reproduzisse, em Portugal. Ou seja, antes do povo estudar e, até, gerar professores. Tudo isso em discursos de ”progressistas”, até gente oposicionista germinada no velho Liceu – mas que verdade, verdadinha, suspira por trechos do dr. Salazar, em particular aquele de que ao povo basta ensinar a contar e a assinar. Quebrado isso ficámos como estamos. Que “eles” até a “doutores” vão.
22. A desistência. Visito, acompanhando uma ínclita comitiva, a exposição do fotógrafo Korda. Celebrizado pela iconográfica fotografia de Ernesto Guevara, de sua autoria. Muito interessante, pelo que demonstra da produção do culto de personalidade do ditador comunista Fidel Castro, do qual Korda foi acompanhante durante a década de 1960s. Fantástica a sua entrevista, a forma como glorifica o próprio Ernesto Guevara, um absoluto contrasenso (assista-se às suas declarações, elogiando a “punição” que Guevara lhe fez).
Fidel Castro como ícone, até bíblico. A mão na terra produtiva, a pegada de Fidel, o seu “gigantismo”. A sua beleza sensual. Fascinante, como interpretável. Como produto e produtor de fascínio.
Certo que se Korda fosse eslavo ou han teria tido problemas, acusações de “cosmopolitismo” (como aventou um amigo meu) não lhe faltariam. Basta ver esta fotografia, onde duas presumíveis beldades, até lânguidas, escutam no escuro as palavras solarengas do comandante, deixando imaginar outras prédicas, mais íntimas. Coisas deste discurso construtor do “fidelismo”, de Fidel Castro, muito dadas ao tom local, mas também à específica característica de Korda.
Mas para além dos seus méritos estéticos e jornalísticos surpreende que esta exposição, demonstrativa da arte glorificadora de Korda, que surge sob tutela da também estatal Casa da América Latina num espaço também estatal (Cordoaria Nacional), seja apresentada sem qualquer contextualização distanciada, sem referência enquadradora. Nada nos textos que a acompanham, talvez (mas desconfio que não) no catálogo – que muito presumivelmente será apenas encomiástico. Espantosa desistência. Dias passados comento esta minha estranheza numa mesa polvilhada de académicos, a nenhum pareceu estranha tamanha distracção “fidelista”, obviamente significante. Nem mesmo quando lhes disse ser Korda um pouco a Leni Riefenstahl do regime cubano, ou que diante de qualquer produtor de mitos e ícones se presume criar distância cognitiva, não apenas fascínio e adesão – coisas que tão bem “sabem” para outros casos. Um simpaticíssimo alto quadro do ministério da Cultura, ali entre variados acepipes, rematou que “a exposição é daquelas que se recebem”. E pronto! Desistência, pura e simples. E a gente assiste.
23. A gravata. Penso que foi no jornal “Sol”, uma pequena nota irónica sobre Francisco Louçã. Que o coordenador do BE aportara no parlamento usando gravata, ao contrário do seu significante traje político, esse que reclama dessassombro (e, claro, posição de classe). Para logo nos “sossegar”, afinal era apenas o dia em que o deputado cumpria provas públicas académicas e nesse campo fazia questão de cumprir as normas de vestuário. Passa tudo num sorriso, as pessoas dirão que é do espectro das decisões pessoais, etc. Mas este pequeno episódio, o respeito pela gravatinha no seio da corporação profissional ao invés da liberdade encenada no traje política, este pequeno episódio mostra bem a hipocrisia do senhor professor. O corporativismo fala mais alto, em maquilhagem de pequena-burguesia.
24. O escritor de escaparate. Já no pós-Natal mas ainda a caminho de mais uma comensalidade pantagruélica. No rádio do carro, enquanto subimos ali em Monsanto, capta-se uma conversa com escritor – desses que está em todos os escaparates natalícios, diga-se. Diz ele, face a pergunta da radiofónica voz: “a literatura é o que tem que ser!”. Abismado com tanta profundidade aumento um pouco o volume, para ouvir no que aquilo irá dar, e logo ouço mais uma pergunta “V. disse no seu blog que a literatura portuguesa não é apoiada pelas livrarias. Que vontade de escrever isso lhe dá?”, ao que responde o escritor, voz arrastada, sofrida, ”Nenhuma“. A meu lado, enfastiada, a senhora pergunta-me “queres ouvir isto?” e eu, mais assim como eu, logo riposto: “tira essa merda!”.
25. Envelhecimento. Ligo o carro e na rádio reconheço os acordes da “Fanfarra para um homem comum” e logo surge a “You can’t always get what you want” dos Stones. Elevo, e bem, o som e segue a canção-ícone, rock-barro da minha gente. Acto contínuo a bela rapariga a meu lado põe-me na boca …. uma castanha assada.
26. Tetro, de Coppola, é um soberbo, lindíssimo, filme sobre Buenos Aires. Fantástico. A história é um pastel, a deriva patagónica um must de pirosice. Convém ver. Mas sem som nem legendas.
27. Cardinalice. O Cardeal de Lisboa invectiva a “indiferença, agnosticismo e ateísmo” na sua homilia natalícia. Interrogo-me onde vai ele buscar essa ideia da igualdade entre “indiferença” e “ateísmo”. Que ”indiferença”? A prática, a ética, a solidária, a reflexiva? Um argumento vácuo, inaceitável, e que não cola com a imagem de profundidade intelectual que Policarpo sempre apresentou. Sem rodeios, é uma parvoíce ao nível daqueles que reduzem a igreja católica a fogueiras da inquisição e a erecções pedófilas. José Policarpo tem o direito (em determinada acepção terá até o dever) de combater o ateísmo e o agnosticismo. Mas tem toda a obrigação de matizar as suas argumentações e invectivas. E exactamente quando a sociedade presta homenagem a Manuel Clemente, bispo do Porto, enquanto homem de cultura elogiando-lhe a fina análise. Um deslize cardinalício, ao invés do momento vivido. A colher, claro, o silêncio do comum …
28. Homem em Fúria, de Tony Scott, competente filme de TV. Seria uma excelente peça de cinema de samurai, acho, não fosse o seguidismo ao paradigma psicologista, assim desvanecendo a profundidade abissal do protagonista. Um diálogo excelente: “Velho: Na igreja dizem que devemos perdoar; Creasy (Denzel Washington): Perdoar-lhes é com Deus. O meu trabalho é proporcionar-lhes o encontro.”
29. Acordo Ortográfico. ORecord é o jornal que logo aderiu ao Acordo Ortográfico. Se dúvida houvesse sobre o substrato intelectual desta parvoíce provinciana a entusiasmada adesão de tão pobre jornal cessa qualquer hipótese de dúvida. Eduardo Pitta acha que os detractores do Acordo Ortográfico são “encenadores” que dão pontapés na gramática, e com ele concorda Filipe Nunes Vicente, outro grande-bloguista. Recordo que as maiores polémicas neste ma-schamba vieram desses meus actos pontapeadores e, envergonhado, lamento-os bem como à falência das minhas tentativas teatrais. Vou ali ler o Record – pode ser que por lá me expliquem que esta deriva homográfica lusófona nada tem a ver com um fundo tonto de apelo à gesta da “presença” e “expansão” da língua portuguesa, que nada tem a ver com a inexistência de verdadeira reflexão económica sobre os seus futuros resultados para a edição internacional em português (mas apenas em “desejos pensantes”), que nada tem a ver com a tonta e iletrada ideia feita da distinção radical entre a fala e a escrita (a “escrita é uma convenção” dizem os imbecis, convictos que a fala, em última análise, não o é; a “grafia não influencia a fala”, dizem “professores” sem perceberem que assim invalidam a sua tarefa).
Bem, pelo menos parece o Miguel Veloso marcou um golo e diz-se que vai para a Fiorentina ou Barcelona, e o jornal deve falar disso …
30. Decadência Nacional. Cada vez mais difícil, talvez até mesmo impossível, encontrar uma “bica” (aliás, “café”, “expresso”, “italiana”) decente. Os estabelecimentos comerciais especializaram-se em servir zurrapas. Café Chinês?
31. Família. Em dois dias seguidos dois artigos interessantes, os de Miguel Pacheco, “Não São Sermões Sobre a Vida Íntima e Martim Avillez de Figueiredo, sobre a questão da “família”. Em ambos choco com este meu preconceito, o de que o discurso jornalístico aparece mais superficial do que o académico ou de reclamação intelectual. É aqui o inverso, total. Pois em ambos é explícita a ideia, ao contrário dos discursos dominantes, da necessidade e da virtude da família. Ultrapassando as velhas querelas hiper-liberais e hiper-marxistas, da família como local agente de repressão e reprodutor da exploração, do maléfico Pai-Padrasto Castrador e da malvada Mãe-Madrasta Castrada Castradora, do discurso da libertação do sacrossanto indivíduo face às algemas comunitário-familiares, da ultrapassagem da repressão por via do sacrossanto Estado-sociedade, local de protecção, produção e reprodução. Afinal instituição virtuosa, falível claro, de produção e interacção de valores sociais.
Há quem chame a isto conservadorismo. Lembra-me o Jonhy Rotten (já Lyndon?): “ser punk em 1980 …” (onde é que eu já li isto? …).
32. Frases feitas? Um repasto, entre antropólogos e excelsas iguarias, no caminho entre enchidos fidedignos, sopa de rabo-de-boi, conduto incomensurável, doçaria relevante, reservas variadas e vintages culminantes. Algo a que, ali, estou há décadas habituado. Com emigrantes à mesa a conversa passa ao “estado do país”, claro. Donde ao casamento homossexual, que o resto foi resumido, como sempre, num “isto está mau” – mas que ninguém interprete este condicionamento do discurso popular como uma estratégia do governo, que é de esquerda, donde bom. Pessoa que há décadas muito me é querida e também minha mestra nas coisas antropológicas, talvez até causa quase-única desta minha formação, remata-me “O casamento é um contrato entre dois indivíduos“. Vacilo, e partirei destruído para casa. Pois se vindo de quem vem aquele libelo individualista … tudo aquilo que estudei, da reprodução estratégica de laços de filiação e de descendência, de articulação entre grupos sociais, de transferência de património (em sentido lato), de composição e recomposição familiar, tudo isso para onde foi, o que era? Nada, afinal a nossa sociedade é apenas um campo onde interagem indivíduos, livres, racional e radicalmente autónomos que contratualizam. Virtuosamente.
Vindo de quem vem? Já no carro, ao volante, entre a azia silenciosa e a flatulência reprimida, constato-me duas décadas de vida profissional enganada. Novo ano que aí vem – e até já veio – exige-me pois vida nova, profissão nova. Pois se a outra, a da até agora, inexiste afinal. Não dormirei, e desde então a insónia constante. Para onde ir? Que fazer? Ou antes, com que indivíduos contratualizar?
33. Ideias Feitas?. “À mesa, entre antropólogos e excelsas iguarias, no caminho entre enchidos fidedignos, sopa de rabo-de-boi, conduto incomensurável, doçaria relevante, reservas variadas e vintages culminantes. Algo a que, ali, estou há décadas habituado. Com emigrantes à mesa a conversa passa ao “estado do país”, claro. Donde ao casamento homossexual – que o resto foi resumido, como sempre, num “isto está mau” – mas que ninguém interprete este condicionamento do discurso popular como uma estratégia do governo, que é de esquerda, donde bom. Pessoa [outra] que há décadas muito me é querida, e também minha mestra nas coisas antropológicas, talvez até causa quase-única desta minha formação” [in blog ma-schamba, post "(N)A "Pátria Amada" (ponto 32)], explica-me, simpática e até solidária com as minhas falhas de formação (e tantas ela colmatou nos bons velhos tempos), a diferença entre o matrimónio religioso, de vínculo indissolúvel, e o casamento civil, coisa moderna e passível de ser dissolvido. Por opção própria, por economia de discurso, não lhe dá nenhum enquadramento de história institucional, mas não posso aprender tudo no mesmo dia. Estava eu, portanto, a ouvir pela enésima vez esta profunda argumentação – e ainda não tínhamos chegado à questão das sufragistas, mas haveríamos de lá aportar – quando um conviva comensal rematou, glorioso: “vínculo indissolúvel?! Ah, mas isso é o que defendem os sindicalistas!! Afinal são iguais, a Igreja e os Sindicatos“.
Um vintage, este meu amigo, há décadas que vai vintage! Pena é que não meu mestre …
34. O cadáver da Antropologia. Ao sábado ouvir Bach na Gulbenkian, ao domingo Haydn no CCB. Para além do encantamento da música – um registo em que me perco completamente, por falta de capacidade interpretativa, uma delícia – deixo-me, como sempre, a “olhar” público e músicos. Olhar esta disciplina, que faz milhares de músicos aprenderem a reproduzir e interpretar partituras de tons e sons velhas de séculos, atentos às suas diversas matizes, e ainda, até, criando-lhes novas formas. Disciplina que passam a milhares e até milhões de ouvintes, que vão sendo treinados a escutar (alguns até a entender). Disciplina essa a qual poderá ser chamada “civilização”, forma vasta de controle, molde gigantesco de sentir e ser. É um fim-de-semana bom para isso, isto de partilhar espaço civilizacional com patrícios relativamente diversos – nas formas do saberem os seus corpos, de controlarem tosses, espirros, flatulências, agitações, sentimentos, amores, aplausos. Mais “burgueses” à Praça de Espanha, mais “populares” (menos “cívicos”, menos ”civilizados”) em Belém, que tudo isto é um processo longo de aprender.
Mas de repente, ali a meio da Criação, de Haydn, entre tosses múltiplas e aplausos fora-de-tempo no seio dos ainda algo in-disciplinados, lembro-me da minha queridíssima amiga e mestra. Que é isso? Questionar-me sim, mas apenas sobre as contratualizações que ali nos uniam. Nada mais há a questionar, a inquirir. Paguei bilhete, é o meu contrato. Outros pagaram ainda impostos, é outro contrato. Todos comprámos produtos dos patrocinadores, mais contratos jurídicos. E basta, deixo-me a ouvir a música, incompreendendo. Feliz.
35. A cremação da dita e ainda das suas primas. O Jornal de Letras, já institucional presença. Tem defeitos, mas é melhor que exista. Muito estatal, no ponto de vista, nas formas de associação e financiamento. Também por isso local dos sinais dos tempos. Na última edição (nº 1024) vários artigos sobre a década agora terminada, “dez anos de letras, artes e ideias“. Extensas indexações de poesia e prosa literária, artes plásticas, música erudita e pop, cinema, dança e teatro. Ambiente, ensaio e ideias (sobre estas dois textos) também. Não discuto os critérios, gente sábia a escrever. Mas surge-me questão. No mundo das “ideias” ainda há referência para uma ciência social, a História. Até par as sua versão história intelectual (já agora, saúdo as referências a obras que me são bem queridas, “História do Pensamento Filosófico Português”, coordenada por Pedro Calafate, “Portugal Extemporâneo” de Carlos Leone). Depois … Eduardo Lourenço, mais alguns ensaios, o “Portugal Medo de Existir” (“os portugueses são …”).
Entenda-se, dois artigos sobre “ideias”, um sobre “ensaios”. Nem uma referência a trabalhos portugueses de Antropologia, de Sociologia, de Psicologia, de Geografia, de Linguística, de … olhando bem nem de Economia, nem tampouco de outra área de investigação. Ideias durante a década? Ideias sobre Portugal e sobre o mundo? Nada a referir. [Vou escrevendo e pensando que sobre Ciências Exactas/Naturais idem, idem. Mas haverá ideias aí?, dirão os especialistas do JL].
É o Jornal de Letras! Sinais dos tempos? Claro, como comprovei nesta minha deslocação.
36. Inhambane. Para lá sigo. Intentando, entre sol e calma, encontrar um novo rumo. Entenda-se, novos contratos. Apenas jurídicos, claro.
Há alguns meses uma iniciativa do Partido Socialista, uma “campanha negra anti-democrática” a que se juntaram os outros partidos da “esquerda” parlamentar portuguesa, intentou reduzir os direitos eleitorais reais dos emigrantes portugueses. Então coleccionei as opiniões sob tal infame estratégia política. E insisti que a tal “esquerda”, ao mostrar-se efectiva adversária do sufrágio universal, se desnudava ao recusar a sua matriz histórica. Esta vertigem anti-democrática e anti-emigrantes é, note-se, constitutiva da “esquerda” portuguesa e do próprio sistema político (como, singelamente, o comprovam as envergonhadas mentiras aqui comentadas).
Agora o Presidente da República recusou, com argumentos logicamente irrefutáveis a iniciativa anti-democrática do governo e dos seus aliados. É uma derrota histórica. Do poder. E de todos os indignos teclistas (in-blog e out-blog) que se acotovelaram a defender a trapalhada de José Lello e seus sequazes: uns para defender alguma coisa, outros “sem ser por nada”. Gente miserável. Eticamente miserável.
Helena Araújo levanta algumas questões interessantes, tanto de índole prática – ensaiando propostas para ultrapassar as dificuldades -, como de índole programática – como o delinear do quadro de direitos e deveres dos emigrantes portugueses (e dos seus descendentes).
Há na sua intervenção algo que me incomoda, e profundamente: “pelo que o voto de um grupo que, não residindo em Portugal, representa uns 30% dos eleitores, é um alto elemento de risco.” Risco de quê? O que aqui entendo é, apesar da autora, o eco de uma perspectiva anti-democrática – e que tem dominado a reflexão da II República sobre o voto emigrante, desde a Constituinte de 1975. A de que o voto emigrante é um risco. Mas em que concepção de democracia é que o voto dos cidadãos é um risco? Traduz uma subalternização da racionalidade dos emigrados, traduz um sentimento de posse do regime por parte do núcleo polítoco(-legislador). Em suma, é aqui que ao nível dos princípios se encontra o grande défice ético e político do regime. E evito especular sobre o que essa concepção implica na própria relação do regime (dos seus agentes sociológicos) com a restante população.
Helena Araújo debruça-se ainda sobre o artigo que o eminente constitucionalista Vital Moreira dedica no Público à questão. Como saberão os veteranos leitores do Ma-schamba há três blogs de renome em Portugal, e seus bloguistas, que não são aqui ligados (nem lidos) por razões de princípios éticos, a recusa da utilização politicamente estratégica do humor racista (anti-semita) e da defesa dos fuzilamentos em massa. Por isso aqui não comento coisas do Causa Nossa e do Portugal Contemporâneo, e do Insurgente, respectivamente.
Abro uma excepção, porque agora a manipulação intelectual atinge o inadmissível, apenas ultrapassável num país que muito respeita os galões. O eminente jurista diz “Ao contrário do que sucede hoje nas demais eleições em que participam os residentes no estrangeiro – ou seja, nas eleições presidenciais e nas europeias …”. Não é um apressado jornalista ou um retórico antropólogo, é um jurista que sabe bem sopesar as palavras. Quando se está a falar do voto emigrante, das suas nuances, escrever deste modo é estar explícita e voluntariamente a elidir o real. Sabe-o Vital Moreira, sabe-o quem olha para o voto emigrante. É inaceitável. E para quem não percebe a razão da minha indignação com esta formulação basta ler aqui, a segunda adenda.
Esta questão do voto emigrante surge nos paladinos do PS como uma questão da direita, em particular do PSD. É óbvio que essa aparência brota devido à pela iniciativa político-legislativa do PS, é óbvio que isso surge pelo descaramento de um partido de poder vir dizer que há tradição de fraude eleitoral – que denúncias houve, que investigações houve, que suspensões eleitorais houve? Nada. É inaceitável que, de súbito, um partido do poder venha afirmar isto. Posso-me interrogar sobre os supreendentes resultados de 1999, quando o PS era poder e José Lello secretário de estado das comunidades portuguesas foram feridos por essa irregularidade? Pois é a questão mais óbvia, se aceitarmos a argumentação socialista.
Finalmente, cresci lendo sobre a luta histórica de extensão do direito ao voto, para a sua tendencial universalização. Acompanhada dos esforços para viabilizar as condições práticas (para além das formais) do exercício do voto, da participação política. Sempre isso foi reclamado como património por correntes que se consideravam, historicamente, de “esquerda”. Vivo hoje num país onde a luta pela democracia eleitoral foi seguida pelo esforço, fortemente influenciado e apoiado pelos parceiros estrangeiros, de incremento dessas possibilidades práticas de exercicio de voto – pesem as diferenças contextuais alguma coisa há a retirar: as reclamações para que não haja eleições nas estações de chuvas, a expansão ao máximo da rede de mesas de voto, a constante actualização dos cadernos eleitorais, as massivas campanhas de sensibilização para o voto. E sempre considerando que a inexistência desses factores são obstáculos à efectivação da democracia. E com esses itens concordando os parceiros estrangeiros, com toda a certeza – e disso fui testemunha pessoal - o Partido Socialista (por via da Internacional Socialista) e aquando no governo, por via das relações estatais.
Ou seja, há no Partido Socialista a explícita consciência de que a democracia se faz pelo facilitar do voto, pelo apelo ao voto, pela criação das mais vastas possibilidades de votar. E que a cidadania se constrói e potencia nesse acto cívico. E há até, no Partido Socialista, gente como Vital Moreira que defende o “dever cívico” do voto, que invectiva a inferioridade cívica e intelectual dos abstencionistas – e isso não é para esquecer, basta googlar.
Face a tudo isso é extraordinário que surja este tipo de argumentação. Helena Araújo comenta o texto de Vital Moreira. E arrasta-me consigo nesse propósito. Fico envergonhado de o ter feito. Porque o texto é uma vergonha! Uma vergonha! Uma vergonha!
[quem considerar interessante este elencar da opiniões sobre o assunto e conheça outros textos relacionados queira fazer o favor de deixar indicação - na caixa de comentários ou via e-mail, o qual está acima na secção "um blog de jpt]“
E no Vox Pop Paulo Gorjão escreve “O vosso voto não me interessa” onde sumariza a questão: a) não se defende qualquer imobilismo; b) a tese das “chapeladas” neste momento histórico não tem cabimento; c) trata-se de um desincentivo efectivo à participação política; d) o Presidente da República pronunciar-se-á sobre o assunto. Esperemos (e creio-o) que com o “tal” estado de espírito democrático. Não imobilista. Mas, também, nunca pragmatica e contextualmente segregacionista.
No Esmaltes e Jóias questiona-se o papel do Conselho das Comunidades Portuguesas, orgão consultivo do governo, neste processo. Aqui encontram-se as declarações do presidente cessante do referido Conselho.
Segunda Adenda: Em especial para os que reduzem esta questão a algo de uma guerrilha política (!, entre quem?) lembro que em Fevereiro de 2005 aqui liguei aos protestos de emigrantes face às dificuldades em votar, transcritos no Abrupto (I, II), e questionava as limitações explícitas – mas injustificadas – ao voto emigrante português. Limitações – assentes em que concepção constitucional? – que já abordara em Junho de 2004.
Sobre este surpreendente feixe de afirmações será interessante – ainda que não prove nenhum argumento – ler este
Stassen, Louis Le Portugais (Aire Libre, 2006), um melodrama sobre a ingenuidade, dedicado a um juvenil grupo de junkies, putas e pequenos-ladrões, cujo protagonista é um “emigrante de segunda geração” (para falar nos termos dos investigadores referidos) -
Luís, filho de portuguesa, Vanhuis que quer ser Da Casa, que se encanta e encanta a namorada, puta de origem africana, com o seu onírico, Portugal mitificado e desconhecido, para raiva (uma raiva realista – “t’as rien de portugais”) de Rachid, o seu parceiro de origem magrebina.
a. está este modesto blog de um emigrante português cheio de posts resmungando contra a incoerência das transmissões futebolísticas pelos canais públicos externos portugueses. E criticando a pobre (in)compreensão que os dirigentes do Sporting Club de Portugal têm desta dimensão de expansão do seu (nosso) clube.
b. está este modesto bloguista algo surpreendido com o teor da notícia, ficando ansiosamente à espera da sua publicação. Pois como se poderão comparar os termos (“futebol”, “língua”) para afirmar que um é mais importante do que o outro?
Decorreram anteontem as eleições para o Conselho das Comunidades Portuguesas. Procurando no google informação substantiva sobre o acto só encontro esta notícia, ainda que anterior à sua realização. Uma clandestinidade que me parece significante.
A notícia diz coisas interessantes:
1. “O actual mandato do CCP terminou em Março de 2007, mas atrasos na nova lei daquele órgão só permitiram que as eleições se realizem agora.” – sem comentários.
2. “Há cinco países sem qualquer candidato entre os quais Angola, Índia, Cabo-Verde, Holanda e Espanha, sendo que nos dois últimos existem significativas comunidades portuguesas.” – passível de comentar, mas desnecessário.
Em Maputo ganhou a única lista candidata. Não sei se houve mesas de voto noutros locais no país ou no Quénia ou no Zimbabué, países cujas comunidades portuguesas partilham o conselheiro. Nem sei se os representados da Suazilândia foram votar a algum lado, pois parece-me que o regulamentador se esqueceu do país (também é pequeno, não é assim?). Dizem-me que em Maputo a lista em causa recolheu os 29 votos depositados. 29!
Não conhecendo a realidade do acontecido em inúmeros outros países que contam com comunidades portuguesas imigradas não vou concluir grande coisa. Mas permito-me deduzir, face a esta clandestinidade e a este vazio de candidatos, de eleitores e de interesse estatal, que a esta criação dos anos 90 não se poderá augurar grande futuro.
Ainda que já tenha prestado grandes serviços. Ao queijo Limianos.
Os cidadãos portugueses residentes em Moçambique eram representados por um conselheiro que era também representante dos cidadãos portugueses da Suazilândia e no Zimbabué. Na nova regulamentação são agregados aos portugueses residentes no Zimbabué e no Quénia. Só por curiosidade, quem passará a representar os cidadãos portugueses na Suazilândia? É que não encontro na lista. Cegueira minha ou distracção alheia? Na dúvida calo-me …
Moçambique: 1. A legislação indica que os cadernos eleitorais estão prontos desde 19 de Fevereiro. Que são consultáveis pelos cidadãos, para reconhecimento de hipotéticas falhas, entre 20 de Fevereiro e 1 de Março (amanhã), data a partir da qual serão inalteráveis, ainda que as reclamações posteriores sejam justificáveis.
2. O período de apresentação das listas de candidatos inicia-se a 11 de Março e decorre durante quinze dias. A nova lei indica que as listas candidatas têm que ser propostas por um número determinado de eleitores, proporcional aos inscritos. Neste caso sendo de 250 apoiantes, enquanto anteriormente poderia haver propostas por via das associações de portugueses residentes.
Estamos diante de uma eleição para um orgão do Estado. Com uma nova lei, alterando os processos. Com um eleitorado muito relapso à participação neste tipo de actos – e também aos processos de registo e recenseamento.
Os serviços do Estado português no local assumiram alguma posição? Houve alguma informação pública? Terão, aliás, recebido alguma instrução nesse sentido? Algum cartaz nos locais públicos usualmente frequentados por portugueses, nas associações de portugueses? Houve uma circular por email? Um prospecto postal? Um anúncio de meia página no Notícias e/ou Domingo (que, aliás, são uma tradição para os eventos). Uma recepção alargada para um “Porto de honra” com uma mão-cheia de intermediários com a “comunidade” para apelo à inscrição e participação? E estou a falar de Maputo – que dizer das acções realizadas (?) nas outras províncias moçambicanas, pelo cônsul, pelo grupo de cônsules honorários, pelas “antenas consulares” (essa misteriosa entidade)? Ou, suprema leitura, entenderão que os serviços do Estado nada têm a ver com os orgãos do Estado? E que não devem incrementar a representatividade destes, bem como a respectiva interacção?
“Uma maçada, tudo isto”, não é? Isto em determinado sotaque. No meu, menos arrastado, diz-se pura e simplesmente “estar a dormir na forma”. Aqui e na sede.
Está, evidentemente, na altura de dizer “passo de corrida”.
Portugal. Dia de eleiçoes na capital. O antigo presidente camarario, anterior ministro das obras publicas, na anterior campanha eleitoral disse ter oferecido umas consultorias ou isso (com dinheiro publico) aos membros de um outro partido para que este o apoiasse eleitoralmente. A vergonha passou, passou nos plumitivos blogosfericos, no resto dos opinativos, na tralha do seu partido – que ao nao o ter apeado imediatamente se ve agora apeada. Vai abaixo o escroque, ainda bem.Eleiçoes em Portugal. Ha anos um bloguista mui lido, constitucionalista encartado, rebaixava (tambem in-blog) intelectualmente os abstencionistas [vai sem elo, que aqui nao se ligam blogs com piadas anti-semitas, ainda para mais da lavra de representantes da Republica]. Prova mera de baixeza moral: hoje e dia de eleicoes na capital, aproveito para recordar. Estou aqui recenseado, estou aqui de passagem, poderia votar. Mas recuso-me a votar num regime em que tal constitucionalista e seus colegas (premiaveis, catedraticaveis, elogiaveis) se permitem definir quem sao os portugueses de primeira e os de segunda. Insisto, os emigrados nao podem votar nas eleicoes do parlamento europeu, nao podem votar nos referendos – sao menos portugueses do que os residentes. Sao de segunda.
Para me recensear onde vivo teria que prescindir dos meus direitos civicos. Mantenho-me recenseado, ha uma decada, em Lisboa. E abstenho-me, nao voto no regime desse(s) constitucionalista(s). Nao lhe reconheço primazia de cidadania.
E, confesso, tenho asco por quem tal lhe(s) reconhece. E com ele(s) vota.
Pois olhe, deste “emigrante” (gente bem por demais para se arvorar em “expatriado”) segue opinião diferente. Os blogs são cada vez mais forma prioritária de ligação e contacto com Portugal. O que não é bom sinal, o que não é bom sinal.
E para encerrar este ciclo de algumas semanas a olhar Portugal – coisa das idas à santa terrinha – mais uma arenga sobre os direitos dos emigrantes.
Todo o português tem direito à protecção do Estado (polícia, rails de auto-estrada, festas pagas pela Câmara Municipal, saúde, etc.). Mesmo os emigrantes, mesmo os que não pagam impostos. Portanto não há qualquer razão para que um português não residente no país tenha o direito de receber, quando sai, a devolução de IVA (tax free) das compras que realizou durante a sua estadia. Pode ser coisa pouca, mas é um princípio. Nunca tinha pensado no assunto. No último regresso prescindi. De certa forma foi o preço para continuar a resmungar.
Resolvido este apontamento o Ma-Schamba regressa a Moçambique.
Vêm aí as eleições presidenciais em Portugal e vai ser uma azáfama bloguística, os blogs políticos e os blogs opinativos destilarão argumentos favoráveis e contrários {urge, repito-o, o arquivo bloguístico, tanto para uma história política como para uma mais prazenteira futura comicidade). Aceitando este meu Ma-Schamba como blog diarístico-opinativo boto desde já o meu sentido de voto. Ainda que ninguém mo tenha pedido serve isto para me libertar de futuras tendências “postais” sobre a matéria – fica arrumada a questão, pronto.
Não votarei. Pois sendo emigrante o completo exercício da minha cidadania obriga-me à abstenção. Tenho repetidas vezes escrito sobre essa situação escandalosamente anti-democrática e adversa ao espírito de uma constituição que advoga a igualdade dos cidadãos da República: Abril de 2004, Junho de 2004, Novembro de 2004, Fevereiro de 2005, Junho de 2005 e Agosto de 2005. O eco de tanta prosa é praticamente nulo, pesem embora alguns comentários aqui deixados, coisas de blogoamigos decerto. Decerto comprovando a falta de “credibilidade”, de “influência” e de “importância” do Ma-Schamba, mas também a indiferença sossegada, estruturante, com que os portugueses olham os seus emigrantes, apenas louvados nas actuais tralhas retóricas sobre uma tal “diáspora” “lusófona”, e nos apelos ao apoio futebolístico aos clubes de “todos nós” quando estes se deslocam ao estrangeiro.
Sumarizo a minha situação, o saque dos meus direitos que a República realizou:
Entenda-se, sou emigrante. Para votar tenho duas hipóteses. Ou vou com a família a Lisboa cada vez que há eleições (um mínimo de 2800 USD aos especulativos preços do efectivo monopólio TAP-LAM, mais a semana de férias exigível, pois as viagens mais curtas ainda são mais caras). Dirão alguns que não é demais para exercer o direito de cidadania. Eu não refuto, no plano de princípios. Mas é pesado demais para os meus rendimentos.
Ou então opto por me recensear aqui em Maputo. Ora ao recensear-me aqui perco direitos de cidadania, e é isso que várias vezes referi. Perco direito ao voto. Não posso votar nas eleições para o Parlamento Europeu (contrariamente aos emigrantes nos países da UE, contrariamente aos cidadãos de alguns países da UE imigrantes fora da UE). E não posso votar nos referendos sobre questões nacionais (contrariamente aos cidadãos de alguns países da UE imigrantes fora da UE).
Ou seja sou abstencionista por atitude, atitude política. Prefiro não exercer o meu direito (prático) de voto a prescindir ao meu direito (formal – entenda-se, ideológico) de voto. Eu não cedo, “gratuitamente”, o meu direito ao voto, não prescindo da sua totalidade. Mesmo que isso me impeça de votar.
É também abstencionismo por atitude, atitude de desprezo … por quem continua a achar que há portugueses de primeira (que votam em todas os actos eleitorais) e portugueses de segunda (que só votam em alguns actos eleitorais). Um hierarquia assim explícita na lei, capeada pela constituição, sufragada pelos milhões de votantes (os ignorantes e os que o sabem).
(lembrar-se-ão os mais velhos da vergonhosa proibição de voto aos emigrantes nas eleições presidenciais, porque temendo que estes votassem “à direita” – como pode um constitucionalista dizer-se democrata e vergar-se ao medo do sentido de votos dos seus concidadãos? Lembrar-se-ão até os mais novos que os emigrantes só passaram a ter direito a voto nas eleições presidenciais quando o país constatou, sossegou, que a maioria se abstém, assim não influenciando decisivamente a eleição?)
Na minha Nação pede-se leis mais duras para os imigrantes. Concordo. É inadmissível que as pessoas habitem num país dos outros e aí violem as leis. E que se o fizerem apenas sofram, quando sofrem, as penalidades em que os “donos da terra” incorrem. Urge acabar com falsos relativismos, falsos sociologismos, e manter a ordem, manter em ordem quem não a respeita.
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Esta semana fui com o Francisco beber um copo de fim-de-tarde ao Ximixwene, ali à marginal. Depois, já noite, 20 h., regressei a casa, pelo caminho mais longo, via Marítimo e Escola Portuguesa, e já na Nyerere, ainda antes do campus, fui parado pela polícia, auto-stop.
Flagrante delito, ilegalidade. Nem documentos do carro, nem carta de condução. Lá me expliquei, o carro é o da minha mulher, os documentos ficaram com ela. E a carta esquecida em casa, decerto que na caixinha artesanato da secretária, onde se amontoam papeis. Lá me tentei explicar, pois nada a fazer, estava em situação ilegal. A violar as leis (do país). Pediram-me o BI, lá disse que não tinha, “sou português”, tenho o DIRE. Lá o viram. E pronto, o carro apreendido, a passar a noite no parque, e eu no dia seguinte a apresentar documentos, pagar as multas e tudo acrescido. Entretanto marchar aquele km para casa, Nyerere abaixo.
Hum…pensando bem, “vá lá buscar os documentos a casa”, deixei o DIRE com a chefe, num pulo fui e vim, cinco minutos, nem tanto, lá mostrei. E assim segui em paz, ainda que avisado que estava em falta, que assim estou a cometer ilegalidades. E, no fim, surpresa, “da próxima vez que te pararmos, já és moçambicano”, um bónus de simpatia.
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Na minha Nação pede-se leis mais duras para os imigrantes. Concordo. É inadmissível que as pessoas habitem num país dos outros e aí violem as leis. E que se o fizerem apenas sofram, quando sofrem, as penalidades em que os “donos da terra” incorrem. Urge acabar com falsos relativismos, falsos sociologismos, e manter a ordem, manter em ordem quem não a respeita.
(isto veio-me a propósito de um comentário ali abaixo)
Um país que se orgulha de durante século e pouco ter expulso centenas de milhares de camponeses miseráveis e lhe chama diáspora, juntando-lhe o Camões para a festa, que país é? Nada, que país é apenas abstracção. Apenas terra habitada. Mas habitada por quem, se orgulhosa de tais feitos?
[Anúncio publicado no jornal "Savana", Maputo, informando sobre modalidade de votação dos eleitores italianos aqui residentes para o referendo sobre "procriação medicamente assistida".]
Recordo os ilustres opinativos que por aqui passem que em Portugal vigora uma concepção política que consagra a distinção entre cidadãos portugueses de primeira ordem (com todos os direitos políticos) e cidadãos portugueses de segunda ordem (com direitos políticos mitigados). Estes últimos, ainda que portugueses maiores de 18 anos, estão impedidos de votar em referendos e nas eleições europeias.
Depois há constitucionalistas. Eu sou só antropólogo. Não percebo nada de leis. E estou recenseado em Lisboa, apesar de aqui há oito anos e tal. Portanto sou um emigrado com direito a voto. Os outros não. Será que constitucionalistas, juristas, politólogos e demais opinatólogos me aconselham a olhar de alto os patrícios aqui? É que, afinal, eu tenho mais direitos do que eles, sou-lhes superior.
Muito interessantes as mensagens que o Abrupto tem vindo a ecoar, dedicadas às dificuldadespara votar sentidas por emigrantes portugueses.
Aproveito para recordar algo que já aqui referi, a impossibilidade dos portugueses residentes fora da U.E. em votar nas eleições para o Parlamento Europeu. Ao contrário do acontecido com cidadãos de outros países membros da UE, como p.ex. a Espanha. E ao contrário do que acontece com outros emigrantes portugueses, os residentes na UE.
Será isto fruto de uma legislação e política específicas? Ou meramente de inércia legislativa?
Confesso que ainda não estou certo sobre o direito do voto emigrante nos referendos. Será possível votar? Ou os emigrados fora da UE não poderão opinar sobre a adopção da Constituição Europeia? E, se for esse o caso, com que argumentos o Estado impedirá o voto emigrado?
Um patrício morreu, destes que andam cá fora a ganhar a vida. Foi lá nas Arábias, uma dessas minas que por aqui e ali brotam no caminho de quem sai dos trilhos que lhe querem. Dele fico a saber o nome, António José Monteiro Abelha, de Elvas. E imagino-o, decalcando-o de outros nós que nos vamos cruzando. Desses rijos no fazer a vida, sem que tenhamos prosápias ou elogios públicos, sempre prontos ao “isto não há-de ser comigo”, numa segurança do “só cá estou a trabalhar”, a segurança risonha do esconjuro, segurança também arrogante, a arrogância honesta de quem aprende a torcer o destino.