Na sequência da entrada “A propósito da Madeira“, relativa às enxurradas que vitimazaram a população da ilha, um amigo enviou-me este artigo do “Diário de Notícias“ do Funchal, publicado a 13 de Janeiro de 1985, da autoria do engenheiro silvicultor Cecílio Gomes da Silva. Não é engano, o texto tem 25 anos! O autor é, obviamente, um exemplo daquilo a que os carreiristas chamam “apóstolos da desgraça” – expressão que serviu para o Nelson Saúte titular um dos seus livros. Mas, como abaixo diz (disse) Cecílio Gomes da Silva “Oxalá que nunca se diga que sou profeta.” … “Dei o alarme – pensem nele.”. Não pensaram. Nada. E preparam-se agora para, como se nada fosse com eles, gerirem a “reconstrução”. É o meu país. Continente e Ilhas.
Eu tive um sonho
Traumatizado pelo estado de desertificação das serras do interior da Ilha da Madeira, muito especialmente da região a Norte do Funchal e que constitui as bacias hidrográficas das três ribeiras que confluem para o Funchal, dando-lhe aquela fisiografia de perfeito anfiteatro, aliado a recordações da infância passada junto à margem de uma das mais torrenciais dessas ribeiras – a de Santa Luzia – o mundo dos meus sonhos é frequentemente tomado por pesadelos sempre ligados às enxurradas invernais e infernais dessa ribeira. Tive um sonho.
Adormecendo ao som do vento e da chuva fustigando o arvoredo do exemplar Bairro dos Olivais Sul onde resido, subia a escadaria do Pico das Pedras, sobranceiro ao Funchal. Nuvens negras apareceram a Sudoeste da cidade, fazendo desaparecer o largo e profundo horizonte, ligando o mar ao céu. Acompanhavam-me dois dos meus irmãos – memórias do tempo da Juventude – em que nós, depois do almoço, íamos a pé, subindo a Ribeira de Santa Luzia e trepando até à Alegria por alturas da Fundoa, até ao Pico das Pedras, Esteias e Pico Escalvado. Mas no sonho, a meio da escadaria de lascas de pedra, o vento fez-nos parar, obrigando-nos a agarrarmo-nos a uns pinheiros que ladeavam a pequena levada que corria ao lado da escadaria. Lembro-me que corria água em supetões, devido ao grande declive, como nesses velhos tempos. De repente, tudo escureceu. Cordas de água desabaram sobre toda a paisagem que desaparecia rapidamente à nossa volta. O tempo passava e um ruído ensurdecedor, semelhante a uma trovoada, enchia todo o espaço. Quanto durou, é difícil calcular em sonhos. Repentinamente, como começou, tudo parou; as nuvens dissiparam-se, o vento amainou e a luz voltou. Só o ruído continuava cada vez mais cavo e assustador. Olhei para o Sul e qualquer coisa de terrível, dantesco e caótico se me deparou. A Ribeira de Santa Luzia, a Ribeira de S. João e a Ribeira de João Gomes eram três grandes rios, monstruosamente caudalosos e arrasadores. De onde me encontrava via-os transformarem-se numa só torrente de lama, pedras e detritos de toda a ordem. A Ribeira de Santa Luzia, bloqueada por alturas da Ponte Nova – um elevado monturo de pedras, plantas, arames e toda a ordem de entulho fez de tampão ao reduzido canal formado pelas muralhas da Rua 31 de Janeiro e da Rua 5 de Outubro – galgou para um e outro lado em ondas alterosas vermelho acastanhadas, arrasando todos os quarteirões entre a Rua dos Ferreiros na margem direita e a Rua das Hortas na margem esquerda. As águas efervescentes, engrossando cada vez mais em montanhas de vagas espessas, tudo cobriram até à Sé – único edifício de pé. Toda a velha baixa tinha desaparecido debaixo de um fervedouro de água e lama. A Ribeira de João Gomes quase não saiu do seu leito até alturas do Campo da Barca; aí, porém, chocando com as águas vindas da Ribeira de Santa Luzia, soltou pela margem esquerda formando um vasto leito que ia desaguar no Campo Almirante Reis junto ao Forte de S. Tiago. A Ribeira de S. João, interrompida por alturas da Cabouqueira fez da Rua da Carreira o seu novo leito que, transbordando, tudo arrasou até à Avenida Arriaga. Um tumultuoso lençol espumante de lama ia dos pés do Infante D. Henrique à muralha do Forte de S. Tiago. O mar em fúria disputava a terra com as ribeiras. Recordo-me de ver três ilhas no meio daquele turbilhão imenso: o Palácio de S. Lourenço, A torre da Sé e a fortaleza de S. Tiago. Tudo o mais tinha desaparecido – só água lamacenta em turbilhões devastadores.
Acordei encharcado. Não era água, mas suor. Não consegui voltar a adormecer. Acordado o resto da noite por tremenda insónia, resolvi arborizar toda a serra que forma as bacias dessas ribeiras. Continuei a sonhar, desta vez acordado. Quase materializei a imaginação; via-me por aquelas chapas nuas e erosionadas, com batalhões de homens, mulheres e máquinas, semeando urze e louro, plantando castanheiros, nogueiras, pau-branco e vinháticos; corrigindo as barrocas com pequenas barragens de correcção torrencial, canalizando talvegues, desobstruindo canais. E vi a serra verdejante; a água cristalina deslizar lentamente pelos relvados, saltitando pelos córregos enchendo levadas. Voltei a ouvir os cantares dolentes dos regantes pelos socalcos ubérrimos das vertentes. Foram dois sonhos. Nenhum deles era real; felizmente para o primeiro; infelizmente para o segundo.
Oxalá que nunca se diga que sou profeta. Mas as condições para a concretização do pesadelo existem em grau mais do que suficiente.
Os grandes aluviões são cíclicos na Madeira. Basta lembrar o da Ribeira da Madalena e mais recentemente o da Ribeira de Machico. Aqui, porém, já não é uma ribeira, mas três, qualquer delas com bacias hidrográficas mais amplas e totalmente desarborizadas. Os canais de dejecção praticamente não existem nestas ribeiras e os cones de dejecção etão a níveis mais elevados do que a baixa da cidade. As margens estão obstruídas por vegetação e nalguns troços estão cobertas por arames e trepadeiras. Agradável à vista mas preocupante se as águas as atingirem. Estão criadas todas as condições, a montante e a jusante para uma tragédia de dimensões imprevisíveis (só em sonhos).
Não sei como me classificaria Freud se ouvisse este sonho. Apenas posso afirmar sem necessidade de demonstrações matemáticas que 1 mais 1 são 2, com ou sem computador. O que me deprime, porém, é pensar que o segundo sonho é menos provável de acontecer do que o primeiro. Dei o alarme – pensem nele.
Quando em 1990 vim viver temporariamente para Portugal (mais uma vez), mas desta vez dos Estados Unidos, em termos comunicacionais Portugal ainda estava, comparativamente falando, na idade média.
Já nessa altura, em Cambridge, uma cidadezinha vizinha de Boston, eu tinha em casa televisão por cabo com acesso a uns cem canais, incluindo a CNN. A internet ainda era ficção científica para a quase totalidade da humanidade e o melhor que havia para enviar informações era um aparelho de fax, que eu de facto tinha em casa desde 1988 (pago a peso de ouro) para enviar semanalmente as crónicas que eu escrevia para um pequeno jornal local, que preparava num computador Apple e imprimia numa impressora laser (dantes, escrevia numa máquina de dactilografar e mandava os textos pelos correios).
Em Portugal nessa altura quase ninguém tinha aparelhos de fax em casa, quando muito surripiavam uns aos amigos às escondidas, no emprego. Quase ninguém tinha um computador em casa e mesmo no emprego ainda era uma coisa muito rara. Impressoras laser, nem pensar. Não havia televisão por cabo e as notícias eram aquilo que a RTP decidia que eram notícias e o que os jornais publicavam, com imagens a preto e branco, consoante o partido ou a tendência ideológica dos seus patocinadores.
Meia dúzia de privilegiados (eu incluído, num decrépito apartamento na baixa de Lisboa) possuiam um gigantesco prato no telhado, de onde, com considerável dificuldade técnica, sintonizavam meia dúzia de canais por satélite, entre as quais a CNN. Apesar das minhas explicações, as minhas vizinhas octagenárias com bigode receavam ser afectadas pelos raios de micro-ondas emitidos pela antena e discutiam se eu obtivera uma autorização do governo para meter aquilo ali.
Na televisão portuguesa, o José Rodrigues dos Santos iniciava com alguma dificuldade a sua carreira como jornalista televisivo, depois de uns tempos como correspondente da BBC e fazendo uns biscates para a RTP e a CNN.
Na altura, em média, a população portuguesa via a RTP, ouvia a Rádio Renascença e lia o Diário de Notícias. Tudo num vago manto de cinzentismo em que se destacavam a erudição arrogante do Expresso e o espalhafato gozão do Independente. Aníbal Cavaco Silva há poucos anos surgira do nada e em breve terminava o seu segundo mandato como primeiro ministro e com uma maioria absoluta.
Em Portugal nessa altura choviam diariamente milhões de contos (na altura eram contos) da CEE e uns dias antes da segunda eleição parlamentar no fim de 1991, Portugal inaugurava aquilo que eu chamaria – citando a legendária frase de Alan Greenspan, então chairman do Federal Reserve Board norte-americano – a sua fase inenarrável de irrational exuberance – preparando a fase seguinte do desastre socialista e da longa estagnação da economia portuguesa. Pouco depois houve o orgasmo celebratório nacional prematuro chamado Expo 98, em que os portugueses decidiram que finalmente valia a pena mesmo ser-se português.
As ratazanas do regime refastelavam-se e enchiam as barrigas e as contas offshore.
E logo a seguir começou a lenta, penosa, dolorosa travessia do deserto moral, social, fiscal e económico. Na verdade, na altura ninguém deu por nada, pois estava-se a entrar na Era dourada do Euro, das taxas baixas, das casas compradas com um telefonema ao amigo no banco, dos carros bons ao preço da uva mijona, da gasolina a metade do preço da Coca-Cola . Inflamado com o sucesso da nova auto-estrada A1 (wow, Lisboa ao Porto em duas horas em vez de seis horas num caminho de cabras) e com a novidade do acesso aos mercados de capitais estrangeiros, o governo decidira que a coisa decente a fazer a seguir era construir mais auto-estradas para tudo quanto é de sítio, de Bragança para Beja, de Viseu para Aveiro. E mais um aeroporto. E mais pontes, e mais, e mais.
Tudo concessionado, tudo em parcerias público-privadas, tudo em regime de gasta-agora-paga-depois.
Tudo e todos, governos, pessoas, empresas, recorrendo alegremente ao crédito, desta vez o estrangeiro. Foi o novo Brasil, a nova África. Passou a ser normal o até o braquicéfalo do vizinho atrasado mental brogesso que não pagava o condomínio ir fazer férias na neve em Março e apanhar banhos em Cuba em Maio. Passou a ser normal falar-se em projectos de milhões como se fosse a coisa mais natural do mundo. A propaganda socialista, alternada com a complacência da oposição, declamava a chegada da nova era de prosperidade e justiça social. Bairros da lata inteiros eram demolidos e nas televisões via-se a senhora cigana ressabiada a receber as chaves para o seu apartamento novinho em folha, pago pela generosa partilha da prosperidade apercebida dos contribuintes. Sócrates até inventou mais tarde regras para dar aos pobres dinheiro dos nossos impostos só por o serem.
Pois afinal nós éramos ricos. Não?
Foi uma festa.
Só que ninguém estava a pagar a conta.
Em Moçambique, a Renamo e o que restava da Frelimo ainda se tentavam decapitar, apesar dos ventos de 1989 soprarem fortemente. Num subúrbio de Roma, em breve, sem ninguém reparar, a liderança da Frelimo, muito mais bem preparada e conectada, negociaria a sua vitória.
A modernidade comunicacional portuguesa começou na madrugada de 16 de Janeiro de 1991, quando, a propósito da decisão do ditador iraquiano Saddam Hussein de invadir a obscura e medieval ex-colónia do Kuwait uns meses antes, os Estados Unidos decidem ripostar com uma formidável “Coligação dos Justos” e um ataque directo ao Iraque, antes que este invadisse a Arábia Saudita e nos tivesse a todos bem agarrados pelos petrolíferos tomates.
Os locais comentaristas da treta, futuros quadros dos blocos da esquerda, acusavam isto de ser uma nova manifestação do neo-imperialismo americano. Estúpidos, declamavam sem saber: “nós portugueses não precisamos do petróleo para ter democracia e prosperidade”. Nessa noite a RTP interrompe a sua emissão regular e começa a passar dez horas seguidas de imagens do bombardeamento aéreo dos Estados Unidos a Bagdad feita pela CNN.
Para a CNN, do meu colega de faculdade Ted Turner, a cobertura da guerra do Iraque foi a coroação da sua estratégia de globalização. Fundada em meados de 1980 a partir de uma obscura e medíocre “super-estação” meio pirosa do estado norte-americano da Geórgia, a WTBS, que era do pai e que fora a primeira estação a emitir por satélite para todos os Estados Unidos, através das crescentes redes de satélites e de cabo que proliferavam pelos EUA, a CNN inaugurava a era das notícias internacionais por televisão, 24 horas por dia.
Em Portugal, cujos hábitos noticiosos televisivos eram mais do que questionáveis, duma formalidade doentia e de conteúdos quase estritamente governamentalizados, geridos por profissionais feitos a pulso (ainda não ocorrera a explosão de cursos de “comunicação social”) o súbito surgimento do novo formato foi um choque.
Claramente, as pessoas reagiram ao imediatismo fulgurante das bombas a caírem no terreno do Senhor Saddam ao vivo nas suas salas de visita e colavam-se horas a fio a tentar perceber o que é que o senhor da CNN dizia, no que o jovem jornalista José Rodrigues dos Santos assistia, traduzindo isto e aquilo.
Mas rapidamente, e face ao feed constante das imagens e das informações vindas de todas as capitais relevantes do mundo, tornou-se necessário haver algum debate e contextualização feitos em casa e em língua portuguesa. E é aí que surge do nada um novo herói da televisão portuguesa: Nuno Rogeiro.
Em 1991, Nuno Rogeiro era, por falta de melhor definição, uma espécie de equivalente televisivo da máquina de pesquisa Google. De fato e gravata e com uma trunfa característica, o então professor, cronista e comentador (não haviam então sites, nem blogues nem redes sociais nem jornais online) surgia sempre oportunamente nas câmaras da RTP (a SIC e a TVI ainda estavam na fase de planeamento e não havia Zon TV Cabo nem telemóveis populares nem nada disso) e cobria a ignorância mentacapta de quase todos os jornalistas a soldo da estação, discorrendo longa e livremente sobre tudo: onde ficava o Iraque, quem era Saddam, o que dizia Bush pai, porque é que os americanos atacavam pelo Sul e não pelo Norte, quantos aviões estavam envolvidos nos raids aéreos, o que é que a Turquia iria fazer. Tornou-se inesquecível nessa altura quando, a propósito de ter dado a Saddam para atirar uns mísseis de médio alcance chamados Scud para dentro do território de Israel, faz na televisão descrições detalhadas do que eram os Scud, para que serviam os Scud, quais eram as suas atribuições técnicas e alcance, que tipo de carga podiam levar.
Isto hoje é tudo pré-história. Rogeiro evoluiu, cortou o cabelo e tem um programa de entrevistas muito interessante na SIC e escreve umas coisas na Sábado. Toda gente em Portugal hoje tem telefones móveis, televisão por cabo em casa, computadores, internet e canais de notícias nacionais e estrangeiros à distância de um toque no aparelhinho de controlo remoto. José Rodrigues dos Santos consagrou-se e continua a ler as notícias enquanto vende livros sobre mega-conspirações. Como Santana Lopes, a CNN ainda anda por aí.
Nós temos o Maschamba.
Desses tempos, só fica a asfixia da vasta dívida acumulada, da quase falência do governo, das decisões que vão ter que ser tomadas e agora o poder executivo nas mãos periclitantes do governante mais mediático-dependente de toda a história de Portugal.
Para acompanhar os próximos episódios e o desfecho desta saga, agora podemos, a partir do sofá em casa e no computador, ver tudo a cores e ao vivo, e ler as opiniões e aferir os factos.
Só nos falta fazer isso com uma boa dose de desassombro, e de bom senso. Para o futuro que se avizinha, estes serão atributos para os quais não há tecnologias e nem riqueza que valham.
Morreu o cidadão cubano Orlando Zapata Tamayo, preso político. V. dirá que não o conhecia, que nunca dele tinha ouvido ou lido. E eu acredito. V. dirá que não é nisto em que acredita, nem isso que sonha. E eu acredito. Mas quando V. me entra sala de aula dentro, carregando a efígie de Ernesto Guevara, na t-shirt, no emblema, na boina, até – por raras vezes - tatuada, eu encho-me de repugnância. Perceba V., talvez agora, quando lhe peço para ir ler sobre Guevara, sobre os guevaristas, sobre o que logo fizeram, sobre o que continuam a fazer. Perceba V. que essa t-shirt, esse emblema, essa tatuagem, querem dizer e disseram exactamente o contrário do que V. pensa. Perceba V. que esses guevaristas que V. ouve, que V. respeita, o tratarão, se V. continuar a ser o que parece ser, como trataram todos os que antecederam este Orlando Zapata Tamayo e todos os que lhe sucederão. Perceba V., e isso perceba bem, que também tem um guevara dentro de si. Pois todos temos a besta dentro de nós. Só precisamos de com ela ter cuidado, controlá-la. Assassiná-la.
Por falar nisso, caro aluno, rasgue essa merda de t-shirt. Não vá algum pobre miserável recuperá-la do lixo quando dela V. se libertar. Quando V. crescer. Livre. E rasgue, de vez, o respeito que possa ter por quem lhe canta guevarismos.
Envio as minhas saudações à comunidade portuguesa na área de jurisdição deste Consulado Geral e gostaria de informar que S.Exa o Primeiro Ministro de Portugal, Eng. José Sócrates, visitará oficialmente Moçambique, nos próximos dias 3, 4 e 5 de Março, acompanhado de vários outros membros do Governo e de uma delegação de empresários.
Sem prejuízo de informações adicionais que entretanto serão enviadas, gostaria desde já de salientar a intenção de o Primeiro- Ministro se encontrar na ocasião com a Comunidade Portuguesa, no dia 3 de Março, primeiro dia da visita.
Toda a comunidade portuguesa está convidada para este encontro. Porém, por motivos de segurança, as pessoas que nele tencionarem participar deverão estar munidas do respectivo convite, para exibir à entrada, facilitando a entrada no recinto. Os convites deverão ser levantados neste Consulado-Geral, a partir da próxima quinta-feira, dia 25 de Fevereiro, dentro do horário de abertura ao público, ou seja, das 8,30 às 14 horas.
[Comunicação divulgada pela Cônsul-Geral de Portugal em Maputo, a excelente Graça Gonçalves Pereira. E aqui transcrita por jpt]
Para o exmo. leitor que quer ver em que é que os portugueses são mesmo mesmo (mesmo mesmo) muito bons, o semanário Economist de ontem tem um rebuçado para si.
Olhe para o quadro em cima, preparado a partir de dados compilados e trabalhados pela OCDE, com base em dados para 2005, e preste atenção.
A barra azul mostra a (maior probabilidade) que o filho de um pai com uma educação superior tem de, ele também, obter uma educação superior, comparado com as mesmas probabilidades do filho de um pai que não tenha uma educação superior.
A barra amarela mostra a probabilidade (independentemente da educação) que o filho de um pai com educação superior tem de assegurar um emprego com um salário mais elevado, comparado com as mesmas probabilidades no caso do filho de um pai que não tenha uma educação superior.
Conclusão? cito um leitor da revista que viu o mesmo quadro: “o Reino Unido e Portugal são nepotismos oligárquicos onde uma pessoa nem sequer precisa da fachada de um grau académico [...] para arranjar um emprego confortável e bem pago”.
E o meu remate: “porque tem um papázinho muito bem educado e muito bem conectado que ajuda a arranjar um empregozinho bom para o filho, independentemente de o filho ser ter uma educação universitária ou não”.
Regra geral isso chamamos em Portugal uma “cunha”, neste caso intergerações.
No que os portugueses são os campeões nesta lista de países.
Gostava de explicar aos exmos leitores que geralmente não gosto de ouvir música no rádio. Tirando as estações de música clássica, desde sempre. Tolero o ocasional devaneio musical mas muito pouco, O que gosto de ouvir na rádio é gente a falar: jornalistas, entrevistados, comentadores, escritores, pessoas que telefonam, debates, etc.
Nos Estados Unidos existe um formato de estação de rádio para isto: chama-se talk radio. Dão notícias, entrevistas, programas em que as pessoas telefonam, programa da manhã com notícias e anedotas para quem está a ir no carro para o emprego, a mesma coisa quando estão a regressar a casa, programas para depois do jantar, conversas a meio da noite. Hoje pouca gente sabe que o Sr. Larry King, que mundialmente é conhecido por fazer entrevistas de meia hora ou uma hora na CNN, tornou-se conhecido nos EUA porque durante anos e anos e anos ele fazia todas as noites da semana, com repetição do melhor programa no sábado à noite, numa cadeia de estações chamada Mutual Broadcasting Network, da meia noite e seis minutos até às cinco da manhã um programa ao vivo. Eram magníficos e muito, muito maus, para o meu sono. Só anos mais tarde é que ele passou para a televisão com a CNN.
Em Portugal, só a estação TSF se aproxima vagamente desse formato (e por isso a escuto mais que as outras todas juntas) e mesmo assim, tirando raras excepções, não é uma estação de talk radio. Nem sequer de notícias é: quando houve um tremor de terra de 6.0 na escala Richter há umas semanas no continente português, eles continuaram a transmitir música gravada como se nada se tivesse passado até ao cimo da hora, quase meia hora depois do safanão. E quando dão notícias, repetem a mesma lenga-lenga ad aeternum, que deve ser para os que tinham os ouvidos entupidos há cinco minutos atrás. As entrevistas são pouquíssimas para o que podiam fazer e demasiado curtas.
Mas o que me irrita mais é que passam música. E com que critérios não sei. Tanto se lhes dá para uma balada dum roqueiro qualquer, como uma salsada moderna que eu não conheço e que, sinceramente, pagaria para não ouvir. Quando começa aquela mistórdia musical sem eira nem beira, tenho o problema adicional que é que o meu velho e delapidado carro tem um rádio que não muda de estação facilmente. Tenho que andar aos murros nos teclados até me aparecer outra estação, e em geral as escolhas são de fugir. Outro dia apanhei umas beatas a rezar o terço vez após vez na Rádio Renascença.
O que me surpreende (e já volto à música). Qualquer vertebrado pensante já se deve ter apercebido do que aconteceu ao mundo nos últimos dez anos. Toda a gente praticamente tem acesso quase gratuito exactamente, precisamente, aos tipos de música que gosta de ouvir. Poder gravá-la via computador ou por uma variedade de meios, e estar uma vida a ouvir Amália, o Frank, o Puccini ou lá o que quiserem é uma banalidade da vida actual. As audiências fragmentaram-se e portanto quem continua a apostar em programação generalista está a dar – na minha humilde opinião – tiros para o ar. A vantagem de uma talk radio é que é barata, tragável se bem gerida e eu acho que muita gente havia de gostar de ouvir programas interessantes.
E note-se – surpresa – é em português. Feita por portugueses. Como este blogue.
Claro que há uma coisa que em Portugal não funcionaria – e eu suspeito que é por isso que verdadeiramente não há talk radio em Portugal. É que para se ter bom talk radio tem que haver lá gente com cor e com cabeça. E em Portugal regra geral quem tem cor não tem cabeça, e quem tem cabeça não tem cor (nenhuma). É qualquer coisa étnico-cultural daqui. E em Portugal quase todos vivem para pretender que têm cabeça, mesmo que não tenham. Por exemplo, nunca vi país na terra com mais carros pretos, cinzentos escuros e azuis escuros como este. Se se for a um centro comercial num domingo numa tarde de inverno, presume-se que todos vieram de um funeral, quer pela cor sorumbática da roupa, quer pela atitude sério-sorumbática das multidões. O português não consegue rir para quem não conhece à sua volta. Deve ter medo que lhe levem os dentes.
Pior ainda, nenhum meio de comunicação social em Portugal regra geral aposta em “personalidades” – a não ser que sejam cómicos gays (na base de que é impossível serem levados a sério) pois que essas são para matar na primeira oportunidade.
A verdade é que, para se ser personalidade, um requisito básico é que tem que se a ter. E tê-la, neste país, significa que, mais cedo ou mais tarde, tem que se dizer esta ou aquela verdadinha que vai infalivelmente seriously piss off o sôr ministro ou o rei da batata frita, que telefona ao patrão da estação a insultar o gajo ou então, como agora está na moda, telefona a uma qualquer holding chamada Going On, que compra a estação (como faz o patego estúpido do anúncio do Euromilhões) e mete lá um mentecapto a fazer relatos de touradas. Como os portugueses individualmente são seres humanos sublimes mas no agregado são um fenómeno keynesiano de estupidez colectiva induzida exponencial, comem, comem e calam.
Aliás, regra geral o consumidor e o cidadão aqui quase sempre come e cala. Com tudo. Os professores são incompetentes? come e cala. O supermercado vende batatas que apodrecem em dois dias? nimguém vai andar de carro 20 minutos em bichas até ao supermercado fazer o gerente comer as batatas que vendeu. O médico não parece saber o que faz? paga-se e não se bufa. O défice este ano vai estoirar? para o ano há-de ser melhor, alguém que resolva. O vizinho do lado não paga as cotas do condomínio há três anos e comprou um carro novo há dois meses? não esquecer de fazer sempre aquele estranho (e unicamente português) cumprimento simpático mudo à saída no corredor a dizer “olá!” mas que na realidade significa “ó meu grandessíssimo filho da puta como estás tu?”
Por tudo isso, frequentemente sinto que, como os meus concidadãos, o colectivo português vive um quotidiano de entrelinhas acinzentadas, sempre resguardado, sempre à espera da próxima catanada, da próxima sacanice, ou da próxima oportunidade de obter algo em troca de nada, sendo a base da felicidade quando não se leva com ela mais vezes do que é normal, ou quando se constata que os outros (e os outros são todos os outros menos os “amigos”) estão pior que nós. Sendo que o normal é levar com as desgraças em cima. Aí, tem-se pena.
Ah, adoro estas generalizações. É tudo mentira, não é? ok.
E nesta questão da desgraça, o país tornou-se num esquema de pirâmide: a sujeira estes dias democratizou-se, vai do mais baixo ao mais alto nível da sociedade.
Voltando ao rádio, o tema que gostava de fechar aqui. De há uns meses para cá, nas vezes quando me deu para escutar a tal de TSF, comecei a reparar em três coisas.
A primeira, foi que começaram a passar música portuguesa com uma frequência suspeita. Ao princípio pensei que se tinham enganado, que tinham posto a senhora da limpeza a tomar conta da estação, ou que tinham ficado estúpidos e não tinham reparado no ecletismo das suas audiências. Em Alcoentre toda a gente sabe que o que vende é música pimba, fados e a as canções da Ágata a chorar o milésimo desgosto de amor sobre o homem da vida dela que (para variar) se pirou pela vigésima vez com a empregada ucraniana. Em Cascais e Lisboa já não é bem assim. Ainda por cima, as músicas que tocam, que são medíocres quase sem excepção, são de gente que não conheço, cujo estilo não gosto e cujas mensagens nada me dizem.
A segunda coisa que reparei, e que me deixou ainda mais apreensivo, foi que, mesmo quando mudava de estação, acontecia o mesmo, ou seja, levava com uma espécie de música pimba de vanguarda, e habitualmente a mesma que estava a dar na TSF.
A terceira, e de longe a mais desconcertante, foi quando me apercebi que, juntamente com a música pimba de vanguarda portuguesa, começaram a juntar-lhe a mesma gente, mas desta vez ou a tocar em ou em inglês, ou ainda mais surpreendemente, começaram a passar músicas americanas e inglesas, tocadas em inglês, mas por portugueses (!).
Não sei como explicar ao exmo leitor o que é ouvir o these boots are made for walking (a grande canção de Nancy Sinatra, sff de ver em cima) cantados vinte vezes na TSF, pela actriz Maria de Medeiros, irmã da agora deputada socialista residente em Paris e que vem a Lisboa de vez em quando receber o taco e atender as sessões do parlamento. Ou as baladas britânicas do jovem David Fonseca, simpático e esforçado mas para mim uma versão cultural do que é o milho transgénico para a alimentação.
Pois só a noite passada é que esclareci este mistério. Afinal eu não estava a alucinar. É que os poderes constituídos aqui do burgo, em 2006, passaram uma lei qualquer a obrigar as estações de rádio portuguesa a passar 25 a 40 por cento da música que vai para o ar por….. leia-se (decalco de uma peça da RTP):
A lei da Rádio determina que as rádios estão sujeitas ao cumprimento de quotas no que respeita à programação de música portuguesa, que uma portaria de Abril de 2007 fixou em 25 por cento.
O cálculo das percentagens é apurado mensalmente e tem como base o número de composições difundidas por serviço de programas no mês anterior.
A lei estabelece ainda que 60% da emissão de música nacional deve ser preenchida por música composta ou interpretada em língua portuguesa por cidadãos dos Estados membros da União Europeia.
A lei prevê o pagamento de coimas entre os 3 e os 15 mil euros para as estações locais e entre 30 e 50 mil euros nas estações nacionais.
Quando eu vivia fora de Portugal, achava alguma piada e respeitava o facto de que as estações que emitiam para as comunidades portuguesas, quase só passavam fados, música pimba e aqueles clássicos do tempo da Maria Cachucha. Pois era aquilo ou o vasto mar estrangeiro que nos rodeava. Agora, que se tenha importado o costume e que se tenha dele feito lei em Portugal é que foi novidade. Ou seja, em vez dos artistas daqui competirem honestamente pelo privilégio de me tentarem impingir a sua arte, o governo da república socialista portuguesa espeta-nos como uma espécie de IVA cultural em cima e somos obrigados a comer o que nos servem.
Mas como gente como eu não aguenta aquilo, e usando as regras impostas, inventou a música estrangeira, cantada em língua inglesa, por portugueses.
Já não bastava a porcaria do acordo ortográfico e os subsídios aos famosos filmes nacionais que rigorosamente ninguém vê. Esta liberdade socratiana está-se a revelar um verdadeiro assombro cultural.
Felizmente, há a minha teimosia em fazer o que me apetece e a tecnologia. Imitei o que qualquer teenager português hoje faz sem sequer pensar. Por cinco euros e 99 cêntimos, recentemente comprei uma espécie duma cassete com um fiozinho, que liga o meu velho rádio a um aparelhinho que cá se chama um MP3 (mas que na realidade é um MP4), onde gravei na internet não sei quantos gigabytes de: Sinatra, Nat King Cole, Chico Buarque, Óscar Peterson, Walter Wonderley, The Beatles, Mozart, etc etc etc. Até lá tenho o Poker Face da Lady Gágá.
E agora, quando acabam as notícias da TSF no meu carro, a programação passou a ser a minha. Em casa, pela internet e o computador, oiço a LM Radio a partir de Maputo.
Isto antes que eu comece a ouvir a Maria de Medeiros a arranhar o My Way do Frank numa estação portuguesa.
[Ernesto "Che" Guevara no Congo (não resisto a chamar a atenção para a encenação da fotografia)]
Na sequência de textos sobre os contactos entre Ernesto Guevara e a direcção da Frelimo, no âmbito das iniciativas que aquele dirigente do movimento comunista teve em África (ver 1, 2, 3 [e ainda esta referência]) João Cabrita deixou abaixo um comentário que, pelo seu interesse, aqui transcrevo:
1. Se bem que a definição apresentada por Machado da Graça sobre o conceito de “foco” esteja correcta, no caso do Congo tinha um outro sentido. Tratava-se da ideia enunciada por Che Guevara sobre a “criação de dois, três muitos Vietnames”. Os Estados Unidos já estavam no Vietname, e a ideia dos cubanos era criar um conflito de idênticas proporções em África, a partir do Congo, e também expandir o já existente em vários países da América Latina. No raciocínio cubano, isto atrairia os Estados Unidos a novas zonas de conflito, o que acabaria por debilitá-los.
Um eventual envolvimento da Frelimo no esquema cubano não significaria necessariamente que todo o exército da guerrilha moçambicana tivesse de ser transferido da Tanzânia e do interior de Mocambique para o Congo. Imagine-se o tremendo problema logísitico que não se criaria se todos os efectivos militares existentes (Frelimo, MPLA, ZAPU, ANC, etc.) optassem por essa via. Sob o ponto de vista estratégico era de todo o interesse manter acesos os conflitos em Moçambique, Angola, Rodésia, Namíbia e África do Sul, dispersando-se assim as forças contrárias.
2. Machado da Graça diz não ter ainda visto nada que o convencesse de que a ligação de Mondlane aos Estados Unidos era “institucional, com o governo americano, e não meramente afectiva com o país de origem da mulher e onde estudou”.
No meu estudo, que citei no artigo publicado no Zambeze, servi-me de documentação oficial do Departamento de Estado norte-americano, e de outra obtida na Biblioteca John F. Kennedy e na Biblioteca do Congresso (totalizando cerca de 400 páginas). Nela estão estampados de forma inequívoca os profundos laços existentes entre Mondlane e a Administração Kennedy. As ligações mantiveram-se mesmo durante a presidência de Lyndon Johnson.
Poderia mencionar, entre outros, os despachos trocados entre a embaixada americana em Dar es Salam e o Departamento de Estado, um deles, com a data de 29 de Junho de 1962, a transmitir um recado de Mondlane para Wayne Fredericks, adjunto do subsecretário de Estado para os assuntos africanos: Mondlane “necessita desesperadamente de fundos para consolidar a independência da Frelimo em relação ao Gana e aos países do bloco comunista”, dado que ele, Mondlane, “já despendeu todas as poupanças pessoais”.
Um outro exemplo, foi o financiamento concedido pela Fundação Ford para construção do Instituto Mocambicano (IM) em Dar-es-Salam, destinado a reforçar a periclitante posição de Mondlane face às correntes antagónicas que ele havia derrotado na corrida à presidência da Frelimo. As diligências começaram por ser feitas por Mondlane junto do ministro da justiça (Robert Kennedy) e terminaram no gabinete do ministro da defesa, Robert McNamara, que antes de ter integrado a Administração Kennedy havia sido director executivo da Corporação Ford. Cito de uma nota de Robert Kennedy para Mennen Williams, assistente do Secretário de Estado norte-americano, datada de 11 de Abril de 1963: “…Mondlane needs about 50 grand to keep the lid on his people and also stay on top. That seems to me a small investment.” No fim, o “investimento” da Fundação Ford orçou em $96,000.
E quem foi trabalhar para administração do IM foram pessoas como a Sra. Betty King, funcionária do African-American Institute em Dar-es-Salam. Parte do corpo docente do IM foi rectrutado pelo Corpo da Paz. É do domínio público que o African-American Institute é uma instituição do governo americano (tal como o Peace Corps) e que entre outras coisas publica o «Africa Report», revista que se distinguiu pela forma como promoveu a imagem de Mondlane. O articulista cubano da «Prensa Latina» não escrevia à toa.
3. Não creio que o socialismo advogado por Mondlane correspondesse ao stalinismo do regime de Machel. Posteriormente à experiência stalinista da Frelimo, Janete Mondlane declarou que o marido “não teria concordado com as decisões tomadas após a independência, muitas das quais associadas à violação da ideia do direito à liberdade individual”.
Relacionado com esta questão recupero um livro -mais do que recomendável para analisar tantas outras questões mais vastas:
[Amélia Souto, Caetano e o Ocaso do "Império". Administração e Guerra Colonial em Moçambique durante o Marcelismo (1968-1974), Afrontamento, 2007]
“Pouco depois da luta armada se ter iniciado, Che Guevara fez uma viagem de 3 meses a África (chegou em Dezembro de 1964 a Dar es Salaam) assinalando o interesse de Havana pela luta que se desenvolvia no continente, sobretudo no Zaire. Em Fevereiro de 1965, Guevara visitou os escritórios da Frelimo, onde teve um encontro com Eduardo Mondlane. Este encontro foi tempestuoso. Segundo Gleijeses [Piero Gleijeses, Conflicting Missions: Havana, Washington anda Africa, 1959-1976, Chapel Hill, Univ. South Carolina Press, 2002], Fidel Castro ainda recordava isso doze anos mais tarde, altura em que, num encontro com Erich Honecker, presidente da Alemanha Democrática, afirmou: “Os diferendos que nós tivemos com a Frelimo remontam ao tempo quando [...] Che Guevara se encontrou com Eduardo Mondlane. A irritação de Mondlane perante a insistência de Che Guevara de que a Frelimo devia enviar os seus guerrilheiros para serem treinados no Zaire conduziu a um choque pessoal entre ambos.” Um outro aspecto que originou este choque relacionou-se com o exagero da Frelimo em relação às suas proezas militares (uma tentação que Fidel Castro evitou durante a guerra com Baptista) e perante as quais Che, que não era um bom diplomata, expressou o seu cepticismo, mas fê-lo de uma forma que ofendeu profundamente Mondlane. A conversa adquiriu um tom áspero que os dividiu.* Embora Cuba considerasse a Frelimo como um dos movimentos de guerrilha mais fortes de África, a quem desejava dar maior apoio, este primeiro encontro deixou marcas que nunca foram ultrapassadas totalmente durante a luta, tendo permanecido o mau sentimento gerado pelo encontro, “no qual o Che considerou Mondlane pouco digno de confiança, e Mondlane considerou Che irreverente e desrespeitoso”. Apesar disso, Cuba ofereceu-se para enviar instrutores para os campos da Frelimo na Tanzânia, ou directamente para Moçambique, oferta essa que a Frelimo recusou por ser seu princípio enviar guerrilheiros para treino no exterior, em vários países, incluindo Cuba, sendo os chineses os únicos instrutores estrangeiros que a Frelimo permitiu na Tanzânia. Mas Cuba apoiou a Frelimo, não só treinando alguns dos seus quadros mas também fornecendo armamento, alimentação e uniformes.
*Esta versão é confirmado por Marcelino dos Santos que participou no encontro (era então Vice-Presidente da Frelimo) e que refere terem surgido pontos de vista diferentes relacionados com a preparação da guerra e o seu desenvolvimento.” (pp. 209-210)
A propósito das recentes entradas sobre os contactos de Ernesto Guevara (dito “Che”) com a Frelimo Amélia Souto, que muito honra o ma-schamba com as suas visitas, enviou-me esta fotografia de uma reunião na Tanzânia do referido dirigente comunista com membros da direcção da Frelimo – onde se pode reconhecer Samora Machel.
“Estive agora a ler o texto do Cabrita sobre Mondlane e o Che. Ele põe as divergências entre os dois, como apresentadas pelo Helder Martins, como questões de lana caprina. Nomeadamente a questão do tipo de guerrilha a desenvolver. Ora eu creio que esta questão não era, de forma nenhuma, coisa sem importância. Era uma questão fundamental. O que não tira importância aos outros aspectos que o Cabrita levanta no seu artigo nem, de facto, os contradiz.
Mas qual era a divergência entre Mondlane e o Che? O Guevara aprendeu a fazer guerrilha em Cuba e, depois da vitória dos guerrilheiros, sistematizou a sua experiência num livro, que eu devo ter para aí em qualquer lado. Era a teoria do foco guerrilheiro. Segundo ele a guerrilha devia conseguir intalar-se numa parte da área a libertar e depois, a partir de lá, ir libertando o resto do território. No caso cubanbo o foco teria sido a Sierra Maestra. Depois disso ele procurou transferir esta teoria do foco para áreas muito maiores. Quando morreu, na Bolívia, a ideia era conquistar o poder naquele país e, a partir dele, exportar a revolução para os vários países vizinhos com quem a Bolívia tem fronteiras. Ora foi isso, também, o que veio propor em África. Aqui o foco seria no Congo e todos os movimentos de libertação deveriam apoiar os congoleses até conquistarem o poder naquele país e, depois, dele partiriam para a libertação dos vizinhos. Isso implicaria, se bem percebo, que a Frelimo deixasse de lutar em Moçambique e fosse reforçar o contingente no Congo. Só depois deste libertado se passaria para outros e, um dia, se chegaria a Moçambique.
E, ao que sei, foi a isto que Mondlane se opôs, defendendo que a luta da Frelimo era dentro de Moçambique, para libertar os moçambicanos, e não no Congo. Se houve tudo o mais que o Cabrita afirma, não sei, mas diria que uma coisa pode não contradizer a outra mas apenas complementarem-se.
[Entretanto] Muito se tem falado da ligação de Mondlane aos Estados Unidos, mas ainda não vi nada que me convencesse de que a ligação era institucional, com o governo americano, e não meramente afectiva com o país de origem da mulher e onde estudou. Mas um facto é que, no final da sua vida, ele declarou numa entrevista que a Frelimo estava cada vez mais socialista, um socialismo do tipo marxista-leninista. De qualquer forma, o artigo do Cabrita traz mais dados para a compreensão dessa época, o que é bom.”
O meu amigo e leitor maschambiano João Cabrita enviou-me um artigo dele sobre as relações entre Guevara e Eduardo Mondlane, publicado aqui há uns anos no jornal Zambeze. O artigo foi despoletado pela polemica causada com a publicação das memorias de Hélder Martins num livro chamado Porquê Sakrani.
Aqui fica para vosso deleite:
DE HÉLDER MARTINS: “PORQUÊ SAKRANI?”
Livro de memórias suscita polémica
Hélder Martins, histórico da Frelimo, médico de profissão, pedagogo inovador, depois de Janet Mondlane e Nadja Manghezi com O meu coração está nas mãos de um negro, lançou-se na narrativa da gesta libertadora moçambicana, passando para o papel as suas memórias. Porquê Sakrani – Memórias dum médico duma guerrilha esquecida é o título de um exaustivo trabalho, de leitura fácil mas cativante, lançado o ano passado nas bancas nacionais e estrangeiras. Tal como o título sugere, o livro é o testemunho de Hélder Martins sobre a fase da luta armada contra o colonialismo. Um livro que promete ser polémico, pelo menos relativamente a um “grande tema”, como o autor lhe chama. Trata-se da visita de Che Guevara ao escritório da FRELIMO. Hélder Martins insistiu em contar essa apaixonante faceta da história recente de África pois que, como ele afirma no livro, “muitos anos mais tarde, ouvi e li versões disparatadas desse acontecimento, por pessoas, que não estiveram presentes.” E remata Martins: “Portanto, a minha versão é por testemunhas directas (primárias) e produzida pouco tempo depois dos factos.”
Recentemente, o director deste jornal teve oportunidade de entrevistar um outro autor moçambicano e um dos temas focados foi precisamente o encontro de Che Guevara com a direcção da Frente de Libertação de Moçambique. Trata-se João Cabrita, autor de Mozambique: The tortuous road to democracy, que apresentou na altura uma versão radicalmente oposta desse encontro; quiçá “disparatada”, na óptica de Martins. A pedido do ZAMBEZE, João Cabrita preparou o seguinte artigo, e nele reitera a posição anteriormente defendida, avançando com novos dados sobre o “grande tema”.
***
Num livro de memórias de publicação recente,[1] Hélder Martins referiu-se à disputa havida entre Cuba e a Frelimo no decurso dum encontro entre Eduardo Mondlane e Che Guevara, realizado em Dar-es-Salam em Fevereiro de 1965. O autor fez questão de deixar claro que decidira referir-se ao assunto dado que “anos mais tarde, tinha ouvido e lido versões disparatadas desse acontecimento, por pessoas que não estiveram presentes ao encontro”.
A versão de Hélder Martins, segundo ele conta, baseia-se em “testemunhas directas (primárias) e produzida pouco tempo depois dos factos.” Em suma, Hélder Martins refere que a disputa que opôs Eduardo Mondlane a Cuba centrou-se na rejeição de conceitos de luta de guerrilha defendidos pela delegação cubana, e no mal-estar causado por Che Guevara por ter levantado dúvidas quanto à autenticidade dos comunicados de guerra emitidos pela Frelimo.
Tal como outros membros da Frelimo, Hélder Martins incorre no erro de se atribuir a essa disputa questões de lana-caprina, tais como conceitos de luta de guerrilha e comunicados de guerra empolados, quando a causa fundamental gira em torno da recusa de Eduardo Mondlane em participar num ambicioso plano que Cuba pretendia executar na África Austral com o apoio dos movimentos de libertação. Tratava-se de um plano que, no fundo, punha em cheque os interesses dos Estados Unidos, país em relação ao qual Eduardo Mondlane era um fiel aliado.
O facto de não se ter assistido ao encontro de Dar-es-Salam, não impede, que na presença de documentos oficiais e do testemunho das partes intervenientes, se possa fazer um juízo da situação e avançar com conclusões que, até prova em contrário, não podem, do pé para a mão, ser rotuladas de “disparatadas”.
É interessante referir que Hélder Martins também não esteve presente ao encontro de Dar-es-Salam pois segundo relata no livro apenas chegou à Tanzânia em Março de 1965. O que não deixa ser caricato, é que, no seu livro de memórias, Hélder Martins fez questão de frisar que a sua versão sobre a disputa entre Mondlane e Cuba se fundamentou naquilo a que ele próprio referiu como “fofocas” contadas por pessoas que acidentalmente iam a Dar-es-Salam, mas que ele se sentiu à-vontade em descrever como fontes “primárias”, não identificando, todavia, nenhuma delas. Qualquer investigador concordará que no campo da pesquisa, as “fofocas” não colhem.
O PLANO DE CUBA
A intervenção militar cubana em África não se tratou de uma iniciativa pessoal de Che Guevara. Ela obedecia a um plano concebido ao mais alto nível pelo governo de Cuba e que contava com o apoio da China, da União Soviética e de outros países do chamado bloco de Leste. Em África, Cuba dispunha do apoio da Argélia, do Gana e da Tanzânia, entre outros países.
O objectivo cubano consistia em servir-se da luta que vinha sendo travada no Congo-Kinshasa, na sequência do assassinato de Patrice Lumumba, para promover um conflito de grandes proporções na região austral do continente, em particular nos territórios ainda sob dominação colonial (Angola, Moçambique, Rodésia do Sul e Namíbia) e, numa fase posterior, na África do Sul. Em última instância, pretendiam os dirigentes cubanos atrair os Estados Unidos a mais uma zona de conflito, para além dos que já se desenrolavam no sudoeste asiático e começavam a ganhar forma na América Latina. Tal como afirmou Che Guevara ao presidente egípcio, Abdel Nasser, em Abril de 1965:
“Creio que irei para o Congo pois neste momento é a zona mais quente do mundo. Com o apoio dos africanos, através do Comité [de Libertação da OUA] na Tanzânia, e com dois batalhões de cubanos, acredito que podemos desferir um golpe contra os imperialistas no coração dos seus interesses no Katanga.”[2]
Che Guevara viria a entrar no Congo-Kinshasa, através da Tanzânia, em Abril de 1965. Liderava um contingente militar de cerca de 200 homens, com a particularidade de todos eles serem cubanos de origem negra. Uma outra coluna de efectivos cubanos de idêntico número, liderada por Jorge Risquet, foi desdobrada no Congo-Brazzaville. Segundo o já citado estudo de Piero Gleijeses sobre a intervenção militar cubana em África, a missão da coluna de Risquet era prestar apoio à guerrilha do MPLA, defender Brazzaville na eventualidade dum ataque a partir do Congo-Kinshasa, e actuar como força de reserva de apoio à coluna de Che Guevara.
Para além das forças de guerrilha opostas ao regime de Kinshasa, o plano cubano apresentado por Che Guevara aos movimentos de libertação em Dar-es-Salam em Fevereiro de 1965, teve a aprovação do MPLA, do ANC da África do Sul, assim como da guerrilha ruandesa liderada por Joseph Mundandi, e de forças opostas aos regimes da Guiné-Equatorial e dos Camarões. O apoio subsequente de Cuba ao PAIGC viria a revelar-se de particular importância para os avanços na luta contra a ocupação colonial portuguesa na Guiné-Bissau.
A Frelimo de Eduardo Mondlane opôs-se a esse plano, o que aliás não constituía novidade para Che Guevara. Segundo Juan Benemelis, ex-funcionário do Ministério dos Negócios Estrangeiros cubano, aquando da sua passagem por Accra em Janeiro de 1965, o presidente Kwame Nkrumah transmitiu a Che Guevara “as suas reservas sobre Eduardo Mondlane”.[3] Idêntica advertência foi feita a Che Guevara por Pablo Rivalta, embaixador cubano em Dar-es-Salam. Ainda de acordo com Benemelis, que foi o primeiro encarregado de negócios na embaixada cubana em Dar-es-Salam, o embaixador Rivalta advertiu Che Guevara de que os acampamentos de treino de guerrilheiros da FRELIMO na Tanzânia, estavam ‘contaminados’ por membros do ‘Corpo da Paz’. No entanto, Rivalta informa Che Guevara que dentro da Frelimo poderia contar com “Marcelino dos Santos, como um elemento de toda a confiança.” Rivalta havia conhecido Marcelino dos Santos durante um encontro da União Internacional de Estudantes em Praga.
Não era apenas o Gana e o governo de Cuba que viam Eduardo Mondlane como revolucionário pouco consequente. Já em Outubro de 1964, Noureddine Djoudi, embaixador da Argélia na Tanzânia e representante do seu país no Comité de Libertação da OUA em Dar-es-Salam, se havia referido ao primeiro presidente da Frelimo como “um fantoche americano, a quem faltava espírito de militância, e era incapaz de liderar um movimento revolucionário.”[4]
Mondlane não só se recusa a apoiar a intervenção militar cubana no Congo-Kinsahasa, como também rejeita o apoio de Cuba para a prossecução da luta armada emMoçambique, não obstante a escassez de meios materiais com que a Frelimo se vinha debatendo desde a sua fundação em 1962. Pablo Rivalta, numa mensagem expedida de Dar-es-Salam para Che Guevara no Congo-Kinshasa a 19 de Agosto de 1965, fala da necessidade de se alterar o plano sobre o uso de instrutores militares cubanos que a pedido de Julius Nyerere haviam chegado à Tanzânia para o treino de guerrilheiros da Frelimo em Tabora.[5]
Rivalta viria a clarificar o teor da sua mensagem em declarações prestadas a três autores cubanos que integraram o contingente de Che Guevara no Congo-Kinshasa. Rivalta é citado pelos autores como tendo dito que
“alguns companheiros que o Che pensava enviar para Moçambique não puderam ir porque os contactos que tínhamos estabelecido com o governo da Tanzânia e com os moçambicanos disseram que não era ainda o momento, e o Che deu-me ·instruções para que fossem para o Congo e para o Congo os enviei.”[6]
Uma outra prova da recusa sistemática de Eduardo Mondlane em alinhar com o plano cubano, surge em Outubro de 1965. Numa derradeira tentativa de salvar do colapso o contingente militar cubano destacado no Congo-Kinshasa, o próprio Fidel Castro deu instruções a Jorge Risquet para promover um encontro com os dirigentes da Frelimo e do MPLA em Brazzaville, durante o qual devia voltar a insistir junto da Frelimo para que apoiasse o plano. Segundo Benemelis:
“Na reunião de 8 de Outubro (de 1965) com os movimentos de libertação das colónias portuguesas, Castro faz um último esforçopara salvar o foco africano. A delegação cubana compromete-se a ajudar o MPLA e a Frelimo, com a condição de as mesmas se unirem ao Che, no Congo. Não obstante, a FRELIMO moçambicana, na pessoa de Eduardo Mondlane, evita o compromisso. A anterior disputa Guevara-Mondlane, meses antes, centrou-se no mesmo dilema: Mondlane negou-se a colocar a FRELIMO como fonte deabastecimento do comando guerrilheiro de Che.”[7]
A posição irredutível de Eduardo Mondlane foi transmitida por Marcelino dos Santos que participou no encontro de Brazzaville.
MONDLANE E OS ESTADOS UNIDOS
A intervenção militar cubana nos dois congos em 1965 coincide com uma série de acções que os Estados Unidos vêm desenvolvendo no campo militar, político e diplomático no sentido de manter a sua influência na região. Mondlane é um elo importante nos esforços diplomáticos encetados por Washington.
O estudo de Piero Gleijeses revela que em finais de 1964, a Administração Johnson, promoveu o recrutamento de forças mercenárias na Rodésia e na África do Sul, assim como na Bélgica e na França, as quais, sob o comando de Mike Hoare, foram enviadas para o Congo-Kinshasa a fim de salvarem o regime de Moses Tshombe da derrocada face aos avanços da guerrilha simba e à impotência das forças governamentais. A acção das forças mercenárias, segundo demonstra Gleijesses, citando documentos oficiais norte-americanos obtidos ao abrigo da Lei de Liberdade de Informação, foi de primordial importância para a derrota da guerrilha simba e o colapso da intervenção militar cubana no Congo-Kinshasa. Entre outros factores que contribuíram para o fracasso da intervenção cubana incluem-se as profundas divisões no seio do movimento de guerrilha congolês, a decisão do governo tanzaniano em retirar o apoio à rebelião congolesa, e o golpe de estado ocorrido na Argélia em Junho de 1965.
O contingente cubano viria a abandonar o Congo Kinshasa em Novembro de 1965, cerca de 7 meses após ter infiltrado o território congolês. Aviões soviéticos da Aeroflot procederam ao transporte do contingente de Dar-es-Salam para Havana.
Paralelamente à acção militar no Congo-Kinshasa, os Estados Unidos desenvolvem, em parceria com Eduardo Mondlane, uma iniciativa diplomática tendente a levar Portugal a solucionar o problema de Moçambique pela via pacífica. Em Julho de 1965, por ocasião da visita de Robert Kennedy à África Austral e Oriental, Mondlane discutiu a situação em Moçambique com o antigo ministro da Justiça americano e outros dirigentes norte-americanos em Dar-es-Salam. Mondlane confidenciou a Wayne Fredericks, subsecretário de Estado para os assuntos africanos, que caso Portugal concordasse com um plebiscito sobre o futuro das colónias, os termos desse plebiscito seriam menos importantes do que o processo político que ele iria despoletar. Efectivamente, Mondlane admitia que uma eventual independência de Moçambique não necessitaria de fazer parte do plebiscito. Para Mondlane, uma escolha simples entre Moçambique permanecer como província ultramarina portuguesa ou como membro duma comunidade Lusófona era por si só um significativo passo em frente.
Na sequência deste encontro, o Departamento de Estado apresentou uma proposta a Salazar em Agosto de 1965. O embaixador norte-americano em Lisboa, George Anderson, é quem entrega a proposta concertada na base no encontro de Dar-es-Salam no mês anterior. Salazar mantém a mesma posição irredutível.[8]
Em face do que acaba de ser exposto, torna-se óbvio e claro que seria um contra-senso o presidente da Frelimo apoiar a intervenção militar cubana no Congo-Kinshasa. E se não apoiou, não foi por questões de lana-caprina atrás mencionadas, mas sim por que uma aliança com Cuba nãocondizia com a maneira de ser de um dirigente que desde a sua subida ao poder se havia demarcado dos desígnios do bloco comunista em relação ao continente africano.
E a prova de que o distanciamento de Eduardo Mondlane era em relação a Cuba e não a Che Guevara propriamente dito, foi que mesmo depois da sua morte na Bolívia, o presidente da Frelimo continuou a manifestar a mesma posição, nomeadamente em conferências na Universidade de Dar-es-Salam e em entrevistas com correspondentes estrangeiros.
Cuba não perdoaria Mondlane por ter proferido “declarações injuriosas” contra Che Guevara numa entrevista concedida a jornalistas norte-americanos do «Liberation News Service». Foi por intermédio da agência noticiosa estatal, Prensa Latina, que as autoridades cubanas acertariam contas. Num extenso artigo sugestivamente intitulado “Presidente da Frelimo desmascarado”, e posteriormente publicado no «Juventud Rebelde» e transmitido pela Rádio Havana Cuba, a Prensa Latina começa por se referir a Mondlane como alguém “que viaja aos Estados Unidos com mais frequência do que um embaixador do Departamento de Estado”. Depois, estabelece uma diferença entre Che Guevara e Mondlane:
“O Che e o Senhor Mondlane realmente diferem em tudo. Em primeiro lugar, o senhor jamais entrou em Moçambique paracombater junto da guerrilha a cuja formação ofereceu obstinada resistência após a fundação da Frelimo. O senhor escolheu Washington e outras grandes capitais como ‘campo de batalha’enquanto o Comandante Guevara seleccionou a Sierra Maestra primeiro, e depois as montanhas bolivianas, onde combateu até à morte.”[9]
Segundo Fidel Castro, Eduardo Mondlane viria a retractar-se, se bem que as relações entre o primeiro presidente da Frelimo e Cuba permanecessem sempre distantes. De passagem por Berlin Oriental a 3 de Abril de 1977, Castro manteve um encontro com Erich Honecker, no decurso do qual informa o dirigente da antiga RDA sobre as conversações que acabara de manter com Samora Machel na cidade da Beira. As palavras proferidas por Fidel Castro provam uma vez mais que a disputa entre Cuba e Eduardo Mondlane tem causas muito mais profundas do que a versão de Hélder Martins, apoiada em “fofocas”:
“Havia diferenças entre nós e a Frelimo, que datavam do tempo em que a Frelimo estava baseada na Tanzânia, e onde o Che Guevara conversou com Mondlane. Nessa altura, Mondlane não concordou com o Che, e disse-o publicamente. Posteriormente, publicaram-se em Cuba artigos de imprensa contra Mondlane. Mais tarde, Mondlane retractou-se, mas apenas a nível interno pelo que as coisas permaneceram mais ou menos no ar.”[10]
Mas já em relação a Samora Machel, Castro tinha uma outra opinião, em tudo diferente daquela que o governo cubano havia manifestado em relação a Eduardo Mondlane por intermédio do jornal «Juventud Rebelde», órgão oficial da União da Juventude Comunista de Cuba:
“Na realidade, Samora Machel foi para mim uma surpresa. Passei a considerá-lo com um revolucionário inteligente que tomava posições claras e mantinha um bom relacionamento com as massas. Ele causou-me muito boa impressão. Conversámos durante dia emeio. (…) Antes disso não sabíamos ao certo qual a influência que os chineses exerciam sobre ele. Ele agora está mais próximo da União Soviética e de outros países socialistas.”[11]
[2]Piero Gleijeses, Conflicting Missions: Havana, Washington, and Africa, 1959-1976, The University of North Caroline Press, 2002.
[3]Juan F. Benemelis, Castro – Subversão e terrorismo em África, Europress, Odivelas 1986
[4]“Telegrama Confidencial” expedido pela Embaixada dos Estados Unidos em Dar-es-Salam a 15 de Outubro de 1964. (Documento obtido ao abrigo da Lei de Liberdade de Informação e citado em João M Cabrita, Mozambique – The Tortuous road to democracy, Palgrave, 2000.)
[5]Ernesto Che Guevara, The African Dream – The diaries of the revolutionary war in the Congo, The Harvill Press, Londres 2000.
[6]Paco Ignacio Taibo II, Froilán Escobar, Félix Guerra, O ano em que estivemos em parte nenhuma – A guerrilha africana de Ernesto Che Guevara, Campo da História, Porto 1995.
[8]“Telegrama Secreto” expedido da Embaixada dos Estados Unidos, Dar-es-Salam, 29 de Julho de 1965; “Memorando Secreto” relativo à conversa entre o embaixador Anderson e Salazar, 22 de Outubro de 1965, citados em Cabrita, op cit
[9]Teofilo Acosta, Desenmascarado el presidente del Frelimo, Juventud Rebelde, Havana 21 de Maio de 1968 p3
[10]A transcrição do discurso de Fidel Castro foi encontrada nos arquivos do antigo Partido Unificado da Alemanha. Está disponível na Internet : http://cwihp.si.edu
Vem muito a propósito do que em Portugal se vai dizendo sobre “liberdade de expressão”. E do como dizem. E do quem diz o que diz como diz. Orwell num texto dedicado ao totalitarismo (“The prevention of literature“, de 1945). E há sessenta anos a falar de hoje. E dos actuais pretendentes a mandarim, também.
“To keep the matter in perspective, let me repeat what I said at the beginning of this essay: that in England the immediate enemies of truthfulness, and hence of freedom of thought, are the Press lords, the film magnates, and the bureaucrats, but that on a long view the weakening of the desire of liberty among the intellectuals themselves is the most serious symptom of all. (…)
Meanwhile totalitarianism has not fully triumphed anywhere. Our own society is still, broadly speaking, liberal. To exercise your right of free speech you have to fight against economic pressure and against strong sections of public opinion, but not, as yet, against a secret police force. You can say or print almost everything so long as you are willing to do it in a hole-and-corner way. But what is sinister, as I said at the beginning of this essay, is that the conscious enemies of liberty are those to whom liberty ought to mean most. The big public do not care about the matter one way or the other. They are not in favour of persecuting the heretic, and they will not exert themselves to defend him. The are at once too sane and too stupid to acquire the totalitarian outlook. The direct, conscious attack on intellectual decency comes from the intellectuals themselves.”
[Vasco Pulido Valente,A República Velha (1910-1917) , Gradiva, 1997]
Foi o ABM a lembrar-se do “República Velha”, de Vasco Pulido Valente. E logo o fui buscar da estante. Depois, e porque o centenário da República já se festeja, e também porque as enormes Histórias de Portugal actuais (a de José Mattoso e a de João Medina) estão na longínqua Lisboa, fui reler o livro, a ver se me situo na efeméride. Mas nem tanto. Ainda assim entre algumas coisas retiro duas ideias, sendo a primeira a referência à lenda de Nossa Senhora de Fátima, a qual aqui transcrevo para alegria dos mais crentes, principalmente para os que já se afadigam na expectativa da próximas visita de Sua Santidade a Portugal, decerto que inscrita – de forma muito particular – nas comemorações do centenário da instauração da República. É uma longa citação mas vale a pena:
“Perante a óbvia fraqueza do Partido Democrático e, ao mesmo tempo, a sua intolerável violência a Igreja tomava, sem vacilar, a cabeça da oposição política. Os republicanos moderados estavam desfeitos e, aparentemente resignados. O movimento monárquico oficial tinha recebido ordem de Londres para se abster enquanto a guerra durasse. A Igreja católica ocupou o vazio.
Cem anos antes, em 1822, a causa realista fora reanimada por um milagre. A Virgem aparecera a duas pastorinhas em Carnide, para lhes dizer que Portugal sobreviveria à impiedade maçónica. Sob o patrocínio de D. Carlota Joaquina, grandes peregrinações se fizeram aos locais sagrados, em que Deus garantira a dízima, os bens dos conventos e a perenidade das classes dominantes. Povo e nobreza associaram-se nessa devoção, destinada a exorcizar a “pestilenta cáfila dos pedreiros” e a promover o ódio às Cortes, onde eles “campeavam”. Quanto a insurreição armada começou uns meses depois, trazia já consigo uma sobrenatural legitimidade.
Em 1915 e 1916 os pastorinhos Lúcia … Jacinta e Francisco …, viram oito vezes, em vários sítios da freguesia de Fátima, um anjo, que declarou ser o anjo de Portugal. Ao princípio, o anjo não era muito nítido e não dizia nada. Pouco a pouco, porém, foi-se definindo e explicando. De acordo com a ortodoxia, estas visitas preparavam os acontecimentos de mais consequências que se seguiram. (…) Entre Maio e Outubro de 1917 a Virgem apareceu quatro vezes (…) Alegadamente, a Virgem comunicou que a Segunda Guerra Mundial seria “horrível”, uma ideia muito compreensível quando a primeira mostrava diariamente o seu horror, e preveniu também que a Rússia revolucionária se preparava para subverter o mundo, coisa que os jornais de Lisboa publicavam na primeira página, dia sim, dia não, desde Fevereiro. As profecias (…) resumiam as preocupações e a angústia do conservadorismo português da época. (…) reflectiam perfeitamente as opiniões e os sentimentos do padre médio, esmagado pelo triunfo terreno do mal, tremendo com a perspectiva de novas catástrofes e sonhando com a eventual conversão dos pecadores. Que Deus partilhasse as aflições dos inimigos da República era uma coisa insusceptível de espantar o clero português de 1917.” (pp. 115-117)
E há uma segunda característica deste livro que fala comigo. Isto décadas depois de ter aprendido isso da “objectividade” e “subjectividade” no discurso das ciências sociais, suas fronteiras e namoros. É que o tom de Vasco Pulido Valente é – constantemente, e à excepção deste curto “… gente séria, católica e ordeira que o radicalismo de Afonso Costa horrorizava.” (p. 25) decerto inconsciente avatar de um certo “bom povo português” – de um enorme desprezo pelos agentes da história. Populares ou graúdos, políticos e anónimos, monárquicos ou republicanos de qualquer tendência, turba ou cáfila, é tudo gente “patética”, “miserável”, incompetente. São páginas e páginas de uma enorme superioridade do narrador, de uma enorme moralização (des-valorização) sobre o que (quem) fala. Ora aprendemos nós a desconfiar dos “engajados”, dos “exotizados” (então tontos antropólogos apaixonados pelos seus nativos – dantes – ou pelas suas minorias exploradas/discriminadas – hoje - é um festival constante) para cair na esparrela inversa? Ou seja, na mesma? Bah…! Vai o livro directamente para a fila de trás da estante – apesar da história da freguesia de Fátima.
Dos anais da história: fotos da visita do revolucionário de Cuba à sede da Frelimo, em Dar-es-Salaam, capital da Tanzânia, no dia 14 de Fevereiro de 1965.
Para a semana faz 45 anos que aconteceu.
Tanto quanto se soube, nada resultou desta visita.
Nestes últimos dias no ma-schamba tem-se falado mais de colonialismo do que nos anteriores seis anos que as nossas courelas já levam. Muito, mas não só, a propósito do livro de memórias de Isabela Figueiredo (que, vê-se, mexeu na colmeia. Advertidamente, acho). Livro que a jornalista Vanessa Rato aventa ser um momento fulcral na história intelectual portuguesa, anunciando o advento (ou a possibilidade) de um pensamento pós-colonial em Portugal. Talvez por isso, pela percepção ou sensação desse episódio único, tanto aqui têm falado os bloguistas, os comentadores (os residentes e não só) e, até, alguns outros bloguistas que para cá têm feito ligações (mais ou menos abonatórias). Dando-me, ao fim destas semanas, a sensação de já ter os cromos opinativos todos (e isto sem sentido pejorativo), os mais fáceis e os mais difíceis. A caderneta completa! Mas fui compreendendo o meu erro. Pois se a continuidade (muito bem-vinda) de comentários me levou a desconfiar desse sucesso, demonstrando afinal a incompletude, foi a tal referência à actual emergência da reflexão “pós-colonial” em Portugal que me fez entender o meu erro. Pois, e por arrastamento, por analogia ou homofonia, se se quiser, isto levou-me a perceber esta questão no seio do pensamento pós-moderno.
Tento explicar-me. Sou um homem do tempo das cadernetas de cromos, essas “grandes narrativas” conclusivas, com princípio, meio e fim, conclusivas e argumentáveis. Ainda que algo incompetente no assunto, reconheço, pois apenas completei as colecções “Mundial de 1974” – no qual Johan Cruyff e sua Laranja Mecânica foram injustiçados pela vil Alemanha -,
e uma esplêndida e mui expressiva “História de Portugal“, da qual guardo ainda memórias muito vivas, constantes, em particular dos cromos da muito dumeziliana Deuladeu Martins botando pão muralhas fora, dos cotos de Navas de Tolosa, do pavoroso e zarolho (Dumézil também?) Geraldo Sem-Pavor ao assalto em Évora, do entalado Martim Moniz ali às portas de Lisboa, e claro que do Nosso Senhor Jesus Cristo planando nos céus da Batalha de Ourique abençoando Afonso Henriques, seus homens e, obviamente, todo o Portugal que aí vinha. Para além do último e destacado cromo, o alusivo ao Presidente do Conselho, Professor Marcello Caetano, que Deus tivesse na Sua santa guarda.
Ora o que ultimamente me tem revelado a minha filha é que o paradigma “cromo” faleceu. A grande narrativa terminável, conclusiva, a encerrar de modo contíguo em apropriada caderneta, é coisa do passado. Deparamo-nos hoje com uma versão diversa, uma contínua actividade de troca, inacabável, dos stickers. Seja em versão Hannah Montana seja nos “fofos“. Sendo que os rapazes [lá está, a vil ideologia de género a moldar as jovens mentes, a discipliná-los para os papéis sociais a que aderirão julgando-os naturais] têm uma panóplia de viçosos super-heróis para fruirem da mesma actividade.
Nesta incessante troca de itens não se vislumbra conclusão, não estão eles numerados nem catalogados. Nem são arrumáveis por predeterminada ordem, cada coleccionador(a) preenche e repreenche criativamente os múltiplos suportes (livros, pastas, cadernos, folhas, paredes, frigoríficos, sei lá) que vai escolhendo. O limite, conceptual e estético, seria o céu não fosse tudo isto ser mediado, entenda-se reprimido, pelas bolsas (aliás, cartões de crédito) paterno-maternais [a tal ideologia de género que sobrevaloriza o termos "paternais" tem que ser combatida]. Estamos diante de uma corrente total de dádivas, sem objectivo nem finalidade para além delas próprias. Barro para um novo (pós-moderno? pós-colonial?) ensaio sobre o dom, com toda a certeza.
Assim esclarecido (actualizado) pela minha filha regresso ao blog e à temática colonial, e mais descansado. Que penso eu, bloguista aqui fundador e que nada tenho falado do colonialismo, do que para aqui se vai dizendo? (o colonialismo ou não, o racismo ou não, o Eusébio ou não, o Monstro Sagrado ou não?, o electricista da Matola ou não, o que os portugueses deixaram ou não, o Bloco de Esquerda ou não, etc. ou não?). Não posso achar, nem resumir. Não porque me faltem cromos na caderneta. Mas porque ela, afinal, não existe. Apenas posso, agora (desde Dezembro de 2009) que parece que começou o pensamento pós-colonial em Portugal, aproveitar para meter uns stickers (versão “fofos”) na porta do frigorífico e uns outros no blog. Para o blog seguem estes, nada raros:
Num texto de 1936 George Orwell (autor muito simpático a largo espectro de leitores) escreveu. “Here was I, the white man with his gun, standing in front of the unarmed native crowd – seemingly the leading actor of the piece; but in reality I was only an absurd puppet pushed to and fro by will of those yellow faces behind. I perceived in this moment that when the white man turns tyrant it is his own freedom that he destroys. He becomes a sort of hollow, posing dummy, the conventionalized figure of a sahib. For it is the condition of his rule that he shall spend his life in trying to impress the “natives”, and so in every crisis he has got to do what “natives” expect of him. He wears a mask, and his face grows to fit it.” (George Orwell, “Shooting an Elephant“, 1936, Inside The Whale and Other Essays, Penguin Books, p. 95). Repito, é um texto de 1936.
Entretanto na página Facebook de um prezada colega encontrei este filme que de imediato me fez lembrar este livro, comprado recentemente na Livraria Sá da Costa (ao Chiado, Lisboa) pela quantia de 0,5 euros.
[Aimé Césaire, Discurso Sobre o Colonialismo, Sá da Costa, 1978. Tradução de Noémia de Sousa, prefácio de Mário de Andrade]
Podemos hoje olhar para o livro, na realidade um panfleto com todas as características desse tipo de documento, publicado originalmente em 1955 (e retomando um texto de 1950), com grande distância. Césaire era ainda membro do Partido Comunista Francês, explicitamente crente na filosofia de história comunista (e o panfleto termina com uma profissão de fé típica, hoje anquilosada), a qual até contradiz parte do argumento multilinear que defende (as “possibilidades” de desenvolvimento que imagina). Defende o afrocentrismo de Cheikh Anta Diop (que não será ele próprio reactivo?), hesita (apesar de tudo) na refutação radical do conceito de filosofia bantu do padre Tempels, mi(s)tifica o comunitarismo das sociedades africanas ante-coloniais (“Eram sociedades democráticas, sempre. Eram sociedades cooperativas, sociedades fraternais.” (27), e chega a pontapear Marco Polo como exemplo do colonialismo. Mas se não o lermos anacronicamente (como ele o fez ao pobre de Marco Polo) encontramos um diagnóstico acutilante. É só escolher para citar. Escolho dois trechos: um, porque muito orwelliano, e porque vem a propósito do que aqui (ma-schamba) vem sendo dito: “Será preciso estudar, primeiro, como a colonização se esmera em descivilizar o colonizador, em embrutecê-lo, na verdadeira acepção da palavra, em degradá-lo …” (17) “…a colonização desumaniza, repito, mesmo o homem mais civilizado; que a acção colonial, a empresa colonial, a empresa colonial, a conquista colonial, fundada sobre o desprezo pelo homem indígena e justificada por todo esse desprezo, tende, inevitavelmente, a modificar quem a empreende (…) É esta acção, este ricochete da colonização, que importava assinalar.“ (24).
E escolho outro trecho dedicado a alguns dos comentadores. O autor segue Lévi-Strauss e Leiris (então figuras centrais no pensamento antropológico em francês), adversários da ideia de supremacia cultural (e seu corolário, a ideologia do “progresso) – coisa que, sessenta anos depois continua a não entrar na cabeça de muito boa gente, uns porque acham que ele (progresso) é muito bom e entendível, outros porque confundem isto com um tal de “relativismo”. Disse Césaire (repito, traduzido por Noémia de Sousa, introduzido por Mário de Andrade e publicado em Portugal pela Sá da Costa em 1978, e vendido em finais de 2009 no centro de Lisboa por 0,5 euros):
“Falam-me de progresso, de “realizações”, de doenças curadas, de níveis de vida elevados acima de si próprios. Eu, eu falo de sociedades esvaziadas de si próprias, de culturas espezinhadas, de instituições minadas, de terras confiscadas, de religiões assassinadas, de magnificiências artísticas aniquiladas, de extraordinárias possibilidades suprimidas. Lançam-me à cara factos, estatísticas, quilometragens de estradas, de canais, de caminhos de ferro. Mas eu falo de … milhões de homens arrancados aos seus deuses, à sua terra, aos seus hábitos, à sua vida, à vida, à dança, à sabedoria. Falo de milhões de homens a quem inculcaram sabiamente o medo, o complexo de inferioridade, o tremor, a genuflexão, o desespero, o servilismo. Lançam-me em cheio aos olhos toneladas de algodão ou de cacau exportado, hectares de oliveiras ou de vinhas plantadas. Mas eu falo … de economias adaptadas à condição do homem indígena desorganizadas, de culturas de subsistência destruídas, de subalimentação instalada, de desenvolvimento agrícola orientado unicamente para benefícios das metrópoles, de rapinas de produtos, de rapinas de matérias-primas. (…) Falam-me de civilização, eu falo de proletarização e de mistificação.” (26)
Tenho mais stickers. Este é um muito wallersteiniano trabalho sobre a economia colonial.
[Carlos Fortuna, O Fio da Meada. O Algodão de Moçambique, Portugal e a Economia-Mundo (1860-1960), Afrontamento, 1993]
Cola bem ao texto anterior, pois o que aqui se trata é da ligação profunda da economia da cultura forçada de plantas comerciais em África e do processo de industrialização português (metropolitano). Para alguns poderá servir para deixar de fazer uma história especulativa, contra-factual, essa do “Ah, se Marcello tivesse actuado… Ah, se Salazar tivesse tido outra visão”. Sim, podiam ter tido. Mas não tiveram pois “é(era) a economia, estúpido!”. [Já agora, dá para colaborar no entendimento sobre a indústria portuguesa no seio da União Europeia ...] Servirá, acima de tudo, para compreender que Portugal era um país colonial, não um país com colónias.
[Lídia Jorge, A Costa dos Murmúrios, Círculo de Leitores, 1988]
Voltando à primeira forma, essa de ver quem e como eram os colonos inseridos no pacote “sistémico”. Há um quarto de século a escritora Lídia Jorge, que veio a tornar-se figura importante na ficção portuguesa, escreveu este romance passado na Beira colonial. Traçou um quadro complexo da sociedade colonial de então, da (ir)relação havida com o mundo colonizado, um meio até contraditório (veja-se a evolução da personagem protagonista, Eva-Evita), assim influenciando as mentes dos portugueses (metropolitanos ou residentes), numa flutuação das concepções. Contrariamente ao que os blogodesenhadores actuais muito gostam não incidiu particularmente sobre “as conas das negras” (a burguesia é sempre espantável) mas encetou o livro com a célebre paisagem dos múltiplos carregamentos de cadáveres de negros, envenenados por álcool metílico, e dos discursos e sensações gerados sobre isso. Um pastel bem mais impressionável, e significante, para os menos espantáveis, diga-se.
[Adelino Serras Pires & Fiona Claire Capstick, The Winds of Havoc, St. Martin's Press, 2001]
Um belíssimo sticker é este, a propósito de sabermos das memórias, dos interstícios do mundo colonial. São as memórias de Serras Pires (que têm edição portuguesa, presumo que na Europa-América), homem do mundo, de relativas posses, uma personagem bem conhecida, com a característica de serem muitíssimo legíveis (a co-autora, Fiona Capstick é uma profissional da escrita). Colono filho de colono, Serras Pires teve (e ainda tem) uma vida cheia, figura carismática. [Para os adeptos da caça este é um livro incontornável]. Muito interessante a forma como aqui se explicita, sistemática e conscientemente, a visão benéfica da África colonial, e de como no livro se subentende, e entende, as particulares modalidades de relacionamento (por um lado sistémico, por outro lado pessoalizado) de relacionamento com os africanos “originários”, como agora se diz. Mas traz também as flutuações de relacionamento intra-mundo colonial – são recorrentes e profundas as críticas à governação colonial, aos mandarins metropolitanos, ao BNU (a finança todo-poderosa) e, excelente, “aos a sul do Save” (questão que largas décadas depois, e com tão diferentes actores, ainda se coloca). Um episódio marcou-me na leitura do livro – o pai Serras Pires, velho colono inaugural na região do Guro adoece, já idoso, ao fim de trinta anos na região. Tem que ser evacuado de urgência mas não sobreviverá à viagem de carro até à Beira. É então necessário evacuá-lo de avião mas não há pista de aterragem no Guro. Será construída durante uma noite, por mobilização popular. Cabe a história no modelo? Explica o colonialismo? Se sim, cristalizamo-la e embandeiramo-la? Se não, censuramo-la?
São os meus stickers. Do após-colonialismo. Quanto aos do pós-colonialismo, não tenho grande curiosidade. Valem-me tanto como a tralha avulsa da “vocação milenar” ou da “gesta pátria”. Ou menos, que nem lhes acho interesse museológico. E estes stickers, e mais alguns que meti na porta do frigorífico (aka, geleira), valem-me para os próximos tempos. Daqui a seis anos, se ainda houver ma-schamba, volto a botar sobre colonialismo e após-colonialismo. Mas não, espero (que a esclerose não me ataque), sobre o pós-colonialismo.
coisa que em blog como este se veste de monotemática, impede-me de continuar a botar textos sobre o que aqueceu o ma-schamba nos últimos largos dias. Mas nas catacumbas dos comentários a discussão(*) continua. Acabo de lá deixar – por alturas do 80º comentário – o que noutro contexto seria um “post” dedicado ao racismo e a Portugal (e sua intelectualidade dita de “esquerda”). Ou, por outras palavras, dedicada aos alçapões do “obscurantismo” sectário de onde não ascende alguma da intelligentsia (minha) patrícia.
jpt
Adenda: Leitora amiga queixou-se que abrir uma caixa de comentários com 80 itens é um processo moroso, apelando a que facilitássemos a leitura. Assim sendo copiei o comentário em causa e coloquei-o na caixa de comentários desta entrada, onde o acesso é mais rápido. Não querendo com isso encerrar a outra caixa, onde a discussão abrangia várias questões.
(*) Um reducionismo ma-schambístico deplorável. Pois ao mesmo tempo que se discutiu o conteúdo do “Caderno de Memórias Coloniais” continuam a chegar contributos e comentários para o texto “A “Casa do Capitão”, na baía de Inhambane”.
Descubro que Rui Bebiano, dono do excelente A Terceira Noite, integrou o Arrastão tal como já o havia feito o bom do Bruno Sena Martins. Supreende-me, o Arrastão que conheci no seu início era um sítio horroroso, de uma demagogia até dolorosa e não o imaginava como o local para bloguistas deste teor. Mas porventura com estas entradas será agora um local a seguir, apesar do seu fundador. Descubro isso através do texto “Do Outro Lado do Tempo” [reproduzido no Arrastão], que se refere ao ma-schamba, enquanto local de “cegos ou preconceituosos” [ligando directamente a um texto do ABM que também foi referido no Bibliotecário de Babel, ainda que em termos neutrais (a ligação foi retirada, quero crer que por causa dos problemas de servidor que ontem aqui tivemos)]. Tudo isto devido à mais longa polémica sobre livros que este blog já conheceu.
No seu texto Rui Bebiano afirma a complexidade da sociedade colonial e os processos de construção da sua memória (silêncio por um lado, mi(s?)tificação por outro) em Portugal. Quasi-termina, e muito bem, com a clarividência que lhe é habitual: “Os portugueses que povoaram o império colonial, ou «o nosso ultramar», não podem ver o seu passado apagado, esquecido, ou então pintado com as cores apenas agradáveis que a descolonização teria manchado. Ele conteve também experiências amargas, difíceis, perturbantes, por vezes únicas. Reconhecer esta diversidade só valoriza esse passado ...”. Posto isto deste lado “lado/blog” - onde habitam a “cegueira” e os “preconceitos” – ocorre-me opinar.
Entendo que a construção da memória colonial passou por um discurso explícito à época das independências (e implícito desde então) que por um lado denota e por um outro lado procura instalar uma dupla fractura na sociedade portuguesa, e que está para além das memórias dos ex-colonos, da sua visão. A primeira é topológica: é notório que alguns sectores ideologicamente mais ligados ao momento colonial purificam esse passado, reproduzindo o mito do “bom colono” até à exaustão, assentes numa bondosa visão ontológica ou culturalista do “português” (ainda que esta concepção resvale transversalmente – e surpreendentemente? – na sociedade portuguesa, veja-se o influente tardolusotropicalismo de Boaventura Sousa Santos). Noção que casa, em comunhão de alimentos, com a nostalgia mitificadora que Bebiano identifica.
Mas também é certo que desde o retorno das comunidades portuguesas em África houve um movimento inverso, o da sua demonização generalizada, a imagem do ”explorador dos pretos”. Essa aversão terá sido causada pela noção social dos custos da guerra e, também, da muda mágoa da derrota. Mas, fundamentalmente, nessa invectiva o colonialismo, suas causas e benefícios, foi remetido para a “sociedade colona” e para os reduzidos estratos possidentes (grupos económicos nacionais, na sua maioria também então expropriados via nacionalização, donde culpabilizados). Deste modo o colonialismo foi extirpado da sociedade metropolitana, uma higienização homogeneizadora e auto-mitificadora que a apresentava como martirizada pelo fascismo (e pelo próprio colonialismo) - o carácter estruturalmente colonial da socioeconomia portuguesa foi assim torneado. Essa amputação benéfica, até moralizante, traduziu-se na criação de um “Outro” (pouco)interno, o colono. O silêncio memorialista de décadas da população retornada que Bebiano refere, a sua rápida e silenciosa integração no Portugal de então (“supostamente indolor“, como bem diz) terão sido também (é minha mera opinião) respostas a essa aversão concidadã (e, evidentemente a necessidades socioeconómicas, de não ficar “a viver no passado”). Mas a aversão foi e é também ideologicamente produzida e reproduzida pelos sectores mais adversos ao Estado Novo colonial, que assim simbolizavam e balizavam a sua recusa do passado. Até hoje.
Assim sendo falar dessas memórias tem sido desde esse tempo não tanto falar do passado recente colonial mas, e fundamentalmente, traçar uma topologia de discursos sobre o Portugal actual. Utilizando a história (quasi-alheia) para nos situarmos “neste” ou “naquele” lado. Quase sempre encastrados na areia.
Parece-me pois normal que a produção de discursos sobre o passado colonial e, muito em particular, a produção de discursos de recepção aos discursos sobre esse passado levante reacções acaloradas e adesões inesperadas. Não tanto por uma súbita curiosidade historiográfica, mas fundamentalmente porque (ainda!) são motrizes de auto-posicionamentos individuais e colectivos no espectro político. E, porque assim a história surge como mero objecto para manipulação actual, nisso se vai coisificando o passado colonial e, por maioria de razão, coisificando os seus interagentes sociais: os colonos e os colonizados, nas suas multiplicidades contextuais.
Mas para além dessa fractura “sistémica” entre o Portugal vítima e o Portugal colono, houve a proposta de uma segunda fractura, sociológica, a identificar. Nesse caminho, nesse “luto colonial” como Alfredo Margarido chamou ao silêncio português sobre África, sublinhou-se uma noção implícita e indita, a da excentricidade da população colona. Por um lado a afirmação da sua ”sobreportugalidade”, por parte das vozes mais saudosas da “gesta nacional”, considerando-a gente sobrecapaz, agente de grandes feitos, uma imagem que convive (paradoxalmente?) com discursos que afirmam a mediocridade do povo português residente, um contexto político-discursivo que tantas vezes baseia nesse elitismo a sua inimizade à efectiva democraticidade do país.
E a da sua “importugalidade”, a da sua bestialização exploratória, ao invés das mais pacíficas (solidárias) populações metropolitanas e/ou então imigradas para o mundo industrializado. Esta imagem é gerada num contexto político-discursivo (e de investigação) que valoriza a voz e os percursos dos estratos mais baixos da sociedade (melhor dizendo, valoriza os discursos sobre a voz e os percursos dos estratos mais baixos da sociedade), por isso mesmo desapaixonando-se de um contexto colono, sempre ou elite ou intermédio na sociedade colonial exploratória. Essa excentricidade, esse verdadeiro ”expatriamento” dos colonos enquanto tal, funcionou e funciona como uma des-identificação. O ónus da “sobreportugalidade” não é suportável, pela sua evidente inexistência, pela confrontação (esmagadora) que provoca às biografias. E o estigma da “bestialização” apenas poderia provocar um tribalismo “pied-noir” ou, como foi o caso, o desenlaçamento comunitário – salvo alguns núcleos convivenciais, até tardios, mas sem repercussões de índole socioeconómicas e, muito menos, políticas. Incrementando os mecanismo de mitificação do passado, sobredimensionando as reacções às construções históricas, sejam elas positivas ou negativas.
Nesse sentido o mundo português colonial (pela sua mitificação, positiva ou negativa, pela santificação ou pela demonização, seja pela sua sobreportugalidade seja pela sua importugalidade) é expelido de Portugal, e o Outro Colonial é reificado. E esses processos funcionam através da mesma metodologia, assentam em generalizações, produtoras e reprodutoras de desconhecimento histórico. Similitudes que cruzam aparentes divergências ideológicas.
Ao falar-se do livro de Isabela Ferreira, ao ler-lhe o blog inicial, ao ouvi-la agora, o que encontro é exactamente o mesmo tipo de operação intelectual: a generalização (culturalista? ontológica?, há que ler o livro para lhe entender as forças motrizes, muitas vezes apenas discerníveis na retórica) produtora de desconhecimento. Uma generalização aposteriorística (como já em texto anterior aqui disse). Para quem diga que isso é inultrapassável no discurso (literário ou outro) importa sublinhar/repetir que o aqui se trata é o da projecção no passado de questões ideológicas e políticas actuais, um passado imaginado (literário que seja) para falar do hoje, do fincar o respectivo posicionamento – e daí as adesões e efusões que tanto tem provocado. Seja a autora sejam muitos dos leitores.
O livro aborda a realidade colonial. Bebiano diz-nos que esse passado “conteve também experiências amargas, difíceis, perturbantes, por vezes únicas.”, uma “violência latente ou explícita do quotidiano“. Com toda a certeza. Para além da violência colonial (que era e é a essência de uma situação colonial, sistémica) é notório que essas são características que todas sociedades históricas contêm, sejam as ameríndias que Rousseau não conheceu seja a rotineira “república dos relógios de cuco” de Orson Welles. Descrever essas experiências assente em generalizações, em imputações culturalistas, em negação da multiplicidade histórica, postulando um qualquer “nós”, bom ou mau, para além das empirias? Não me ofenderá se houver génio (seja lá o que isso for) literário. Por isso muito estou curioso em ler o livro. Há genialidade? Fantástico, não interessarão as generalizações empobrecedoras. Mas se não a houver, se estivermos apenas diante de uma prosa ((boa, média, má) mortal que pretende descrever um passado, imputar e invectivar esse passado assente em generalizações preconceituosas então isso é, quanto muito, panfletarismo. Mais ou menos catártico, mais ou menos teatralizado. Produtor de cegueiras, reprodutor de preconceitos. Des-conhecedor. Do tal mundo expelido de Portugal. E que assim não é reintegrado, auto-compreendido, pese a retórica “desveladora” que anuncia e que o recebe. E, como tal, des-conhecedor do próprio objecto Portugal.
A expulsão do mundo colonial, da sua voz, do encontrar as nuances para além do pólos “beleza tropical” / “violador de pretas”, é uma incapacidade de olhar a multiplicidade colona – e, frise-se, nisso também se afirmando a incapacidade epistemológica ou literária (consoante o discurso) de olhar a multiplicidade colonizada. Mas essa coisificação do colonizado (que aliás é o que mais me interessa nesta trama toda), esse desinteresse analítico por África que é estruturante em Portugal é questão que, ainda que ligada a todos estes factores, exigiria um outro texto. Essa incapacidade, esse desinteresse (ideológico?), pelo “mundo” colono (e, por arrastamento, pelo “mundo colonizado”) denota-se no próprio texto de Bebiano. “Só pelos meados da década de 1990 surgiram os primeiros estudos e recolhas de testemunhos, e só agora, quase quarenta anos passados sobre o fim do conflito, se tornou normal ouvir ex-militares, ou as suas famílias, a falarem de forma livre dessa experiência durante tanto tempo calada. Percebe-se finalmente que tudo foi menos simples, e menos insignificante para a vida das pessoas envolvidas, do que se pensava com o cheiro a pólvora ainda nas narinas.”. Ou seja, o que Bebiano anuncia - com toda a certeza en passant, como é normal no registo blog, ainda que ele seja um bloguista de excelência - é que o olhar sobre África sobre o qual atenta é o olhar metropolitano sobre África, dos soldados (na sua esmagadora maioria metropolitanos, e é notoriamente a eles que o autor se refere). Se pegarmos na sua excelente obra “O Poder da Imaginação. Juventude, Rebeldia e Resistência nos Anos 60” (Angelus Novus, 2003) este movimento já se encontra. A juventude portuguesa em África (pp. 156-160), as suas práticas e imaginários, sua ligação com o sistema português, são brevemente lidos através dos olhos dos letrados (oficiais?) metropolitanos ali deslocados. Entenda-se, a sociedade colona como tal inexiste na reflexão, como se ela não pertencesse à dimensão portuguesa da ”cultura-mundo” (p. 13) ou, pelo menos, fosse verdadeiramente significante para a reflexão [poder-se-á dizer, e concordarei de imediato, que todo o trabalho tem os seus limites de objecto. Mas aqui parecem-me inditos e/ou provocados por este contexto intelectual. Ou a memória está-me a trair muito].
Entenda-se, também aí ela – a sociedade colona – está expulsa do que é o objecto (Portugal). É certo que o movimento colonizador foi tardio (como mostra Claudia Castelo em “Passagens Para África.”, Afrontamento, 2007), mas nos anos 60 havia já uma enorme população não-metropolitana, na maioria de primeira geração mas também de múltiplas gerações em África. E como tal, basta(s) juventude(s) e seus discursos. Não chamo isto para criticar Bebiano, misturar o registo de blogs com livros profissionais, apoucá-lo, menosprezá-lo. Pelo contrário, friso que muito gostei deste seu livro (e quem seria eu para o questionar, se fosse caso contrário). Apenas convoco essa dimensão para referir que até num intelectual possante como Bebiano se encontra (pelo menos nesta sua obra e, secundariamente, neste seu pequeno “post”) a matriz estruturadora destes preconceitos ideológicos sobre o mundo colono, desta “outrização” colona, da sua expulsão do verdadeiramente significante, de um higienismo societal feito projecto ideológico no regime democrático português. A qual assenta, repito-me até à exaustão, na mera utilização de generalizações a la carte. Talvez por isso agora este agrado, a defesa entusiasmada, com a obra aparecida. Que é mais-do-mesmo, afinal. Só que, agora, do “lado certo”. Para aquele “lado”, claro.
Finalmente. Pode o meu caro ABM ter caído no caldeirão laurentino dos “preconceitos” e, pese embora o seu riquíssimo trajecto biográfico, não passar de um irremediável “cego” com prosápias. Posso eu mesmo, pela minha biografia, ininteligência ou até pela raiva contra tudo contra o que me parece neo-comunismo europeu de fachada libertária (ainda que, concedo, às vezes nem o seja), estar viciado em goladas dessa poção preconceituosa que me condena às trevas da “cegueira”. [A nossa AL está isenta pois não concorda connosco no olhar sobre a produção de Isabela Figueiredo]. Mas é nestas trevas pre-conceituosas em que vegeto que me ocorre que Rui Bebiano, e talvez alguns outros, sofrem de uma ligeira miopia. Ou melhor, de um pequeno astigmatismo, que é coisa bem diferente. Nada que não se possa resolver, facilmente, com umas meras próteses oculares. Isto se não continuar(em) a pensar que o erro é o outro.
Depois há os outros que o(s) seguem. Mas esse é o comboio descendente. Vêm à gargalhada. “Uns por verem rir os outros. E outros sem ser por nada.” E não há óculos que lhes sirvam. Estão como hão-de ir. Assim como eu e o ABM, pelos (in)vistos!
ADENDA: em comentário Rui Bebiano esclarece que no seu texto apenas ligou explitamente ao ma-schamba o termo “preconceituosos pelo que a consideração de “cegueira” não foi sua intenção. Aqui deixo a nota, agradecendo o esclarecimento e lamentando a minha extensão interpretativa.
jpt
[Não sou capaz de escrever numa tarde algo deste tipo que seja mais legível ou coerente. A própria arrumação peca. Mas o "tempo bloguístico" implica a sua colocação agora, senão perderia a sua justificação. Daí o tamanho e sisudez, a repetição e o esburacamento. E, temo, a ilegibilidade. Ainda assim está botado.]
ADENDA SEGUNDA: uma semana depois de ter escrito este texto ouvi toda a entrevista radiofónica de Isabela Figueiredo, feita por Carlos Vaz Marques. Após isso deixei neste texto do ma-schamba um comentário nela baseado. Mas ficará melhor arrumado aqui, como será óbvio a quem ainda aqui volte. Abaixo fica a sua transcrição:
“Ainda que em contradição com o que disse acima regresso aos comentários deste texto sem ser em diálogo directo com outros comentadores. Mas só ontem ouvi toda a espantosa entrevista radiofónica de Isabela Figueiredo realizada por Carlos Vaz Marques. E como não escreverei nenhum texto (post) sobre o assunto [outros machambeiros resmungariam, estou certo, devido a cansaço] quero, pelo menos aqui, deixar alguns pontos: um, que já tinha referido, mas que nunca é demais lembrar, é o do seu absolutismo intelectualmente incontrolado: “todos os homens eram como o meu pai [aka, horríveis], alguns até piores”, algo surpreendente – e não é uma expressão literária, é uma opinião, portanto não tem requebros retóricos ou formais que a defenda. [as "citações" são aproximações ao discurso oral, mas procuram ser o mais fieis que me é possível].
Depois há a sua recorrente, e “lamentosa”, afirmação “eu estava lá, eu era colonialista, eu fui colonialista, eu assumo”. Para uma pessoa que viveu em Moçambique até aos doze anos (por mais que tivesse dado uma estalada numa outra) isto é surreal. Ou seja, denota uma teatralização do seu estatuto, uma sobrevalorização pessoal que apenas – só pode – quer funcionar como instrumento de legitimação empírica do discurso. Pobre afirmação e legitimação. E, entenda-se, a reclamação de “colonialista” para uma menina de 12 anos, ainda para mais reclamada 35 anos depois, é de uma indìgència intelectual, de uma ignorância pungente sobre tudo o que é reflexão sobre aquele sistema histórico, e não apenas semântica – algo pouco aceitável para quem afirma ter passado as últimas décadas envolta nesta sua característica biográfica (alguém me poderá vir dizer que IF quer ser a Gunther Grass portuguesa, mas nem sorriso isso provocará).
Finalmente, a cereja em cima do bolo. IF diz que reconhece logo, e ainda hoje, os moçambicanos no meio de outros africanos (negros). Pois eles são lindos, têm uma cor fantástica, especial, têm características emocionais e estéticas únicas, tudo isso por ela (só por ela?) imediata, visceral, espontaneamente reconhecível – sei que os meus amigos moçambicanos (negros e não só) que aqui tenham chegado (ou que a tenham ouvido) já se estão a rir (e, com toda a certeza, a afiarem a língua para os óbvios impropérios de retórica machista que este tipo de discurso provoca). Mas vamos ficar no registo sério: ouvir este discurso é ouvir o típico discurso racialista, a da homogeneização alheia, a da des-individualização alheia (bonitos?, todos? a mesma cor da pele? todos? simpáticos? todos? agradáveis? todos? etc? todos?). É este discurso generalizador que IF utiliza para os colonos (portugueses, brancos, horríveis, infectos) e para os ex-colonizados (moçambicanos, negros, lindos, bem-cheirosos). É este discurso racialista, húmus de todo o racismo, que usa para o contexto moçambicano. Paternalista, desconhecedor. Acima de tudo racista na sua negação da multiplicidade estética, emocional, comportamental, afinal individual.
IF é apenas mais uma das pessoas que pensa assim, mal e pauperrimamente, sobre os outros, neste caso sobre os moçambicanos – já encontrei inúmeras pessoas com este tipo de discurso, o desvalorizador do alheio (neste caso do negro), da sua irredutível diversidade humana – mesmo que, e é uma das versões, disfarçado (até inconscientemente) pelo elogio colectivo, por um olhar “simpático” sobre o magma alheio. O que me surpreende não é que IF assim pense, assim escreva, assim fale. Há tantos e tantas assim.
O que me surpreende (pouco) e entristece (também já pouco) é que no meu país um meio literário, cultural, até jornalístico, que se reclama de um eixo intelectual e político moderno (ou pósmoderno), democrata [alguns até libertários], unanimemente anti-colonial e crítico do conteúdo colonial português, que esse meio acolha acriticamente estes dislates, um discurso neles assente. Elogiam-no, defendem-no e (como em recente artigo no suplemento cultural do jornal Público, de Vanessa Rato) é-lhe até aventado o estatuto de iniciador de um discurso pós-colonial em Portugal. Esta adesão será conjuntural por um lado – um pouco de “estação”, um pouco por efeitos de grupos (blogo)mediáticos – mas é por outro lado indiciadora de um contexto intelectual dominante: está no Público, está nos jornais, está na rádio (o desvelo de Carlos Vaz Marques é óbvio), está nos blogs – até o Respirar o Mesmo Ar do meu amigo, e co-bloguista do Olivesaria, jpn surge a reclamar a excelência disto.
Dislates da autora. Pouco importante. Mas que gigantesco manto de ignorância no meu Portugal todo este pequeno fenómeno vem desvendar. E isso sim é lamentável. Doloroso. Porque estrutural.”
[Numa ida rápida ao Google note-se a recepção entusiástica em blogs bem diversos ideologicamente - assim demonstrando a trasversalidade desta perspectiva superficial, que se pensa crítica, sobre o período colonial português: vejam-se como exemplos os O Insurgente, Elevador da Bica, XicoNhoca, Divas e Contrabaixos, o já referido A Terceira Noite, Irmaolucia, Da Literatura . Para uma diferente postura, leituras acolhedoras do texto literário mas sem subscrições acríticas vejam-se, por exemplo, Defender o Quadrado e Peão (este último é um post de Cláudia Castelo, acima referida e a quem eu desconhecia a prática bloguística). Entretanto A. Teixeira reagiu ao facto de eu o ter integrado no conjunto de leitores entusiásticos (sob este ponto de vista), considerando que desentendi este seu texto, intepretando-o abusivamente. Lamento se o tresli. E aceito que tal fiz, a intenção é a do autor não a do passante: fica aqui a (minha) mão estendida à palmatória.]
Apontado como único, excelso homem da finança e inteligência, aguardado membro da elite sportinguista, como tal da elite socioeconómica portuguesa. Homem único, solução dita única. Querem que dele ser dele crítico é estar contra o país, a nação, no mero bota-abaixismo. Perdão, não é disso que se trata: querem que dele ser crítico é estar contra o Sporting, a nação, no mero bota-abaixismo.
Logo que eleito Bettencourt cachecolizou-se, em demagogia rasteira, no ridículo oralilolé que aqui se recorda. Daí para a frente tem sido o despautério radical. Tentou bater num adepto. Depois invectivou alguns sócios de cretinos e assim presumiu todos os outros, ao anunciar terroristas internos, em delírio persecutório. Culminou negando o carácter democrático do clube, num “posso, quero e mando” completamente desaustinado. E desajustado, seja da história dos clubes portugueses seja da sociedade actual.
Depois cachecolizou-se de novo e escolheu Ricardo Sá Pinto como director (de crise), decerto que por ser ídolo das claques, dessa “mística” dos afinal “cretinos”. Conhecido por em tempos ter batido no seleccionador nacional. Mas, nunca esquecer, recomendável no seio dos ilustres: afinal foi o único homem do futebol presente no “casamento real”. Plebeu, é certo, mero “sá” e mero “pinto”, sem galicismos ou ostrogodismos no nome. Mas visita d’el-rei.
Agora, assumindo o cachecolismo ideológico do seu presidentem Ricardo Sá Pinto esqueceu-se de defender os profissionais a seu cargo e assumiu como seu o mal-estar do público virando-se contra os seus jogadores, acabando à pancada com o jogador Liedson. Demite-se!
José Eduardo Bettencourt, o esperado, o único, o ideólogo do cachecolismo, o último representante deste conglomerado de interesses da elite que lesou o Sporting Clube de Portugal em centenas de milhões de euros nos últimos quinze anos, continuará. Pois é a única solução, a única alternativa. Dizem os crentes.
Que melhor exemplo do futebolismo? Do mundo do futebol como espelho, cristalino, de Portugal? Do efeito do discurso das soluções únicas, indiscutíveis, das escatologias ameaçadas, dos vultos iluminados (“o mais bem preparado de todos”, dizia há tempos um bloguista amigo a propósito de um avatar desta tralha), das ideologias cachecolizadas, demagogias rasteiras? Da cretinização daqueles que se irritam?
Bettencourt continuará. Os avatares desta tralha também. Ricardo Sá Pinto pelo menos jogava à bola …
A minha recensão de Caderno de Memórias Coloniais, escrito por Isabela Figueiredo.
Introdução
De entre a publicação de textos bio e autobiográficos – ou “memoriais” – que se têm e vão publicando sobre a África de língua oficial portuguesa, antes e depois das independências, há que referir que se tem visto pouco e um pouco de tudo.
No caso de Moçambique, com poucas excepções, essas manifestações têm sido, desde talvez a primeira, Moçambique, Terra Queimada (redigida pelo enigmático Eng. Jorge Jardim, logo em 1976) de índole essencialmente, ou principalmente, política e/ou social. Isso tem ocorrido quer em Portugal, quer em Moçambique, quer, em tempos na África do Sul, onde alguns trabalhos importantes e interessantes têm sido publicados. Trabalhos como o de João Cabrita, Jacinto Veloso, Uria Simango, Adelino Serras Pires, Ricardo Saavedra e outros, alguns dos quais têm sido referidos neste blogue.
Mas, reconhecidamente, enormes lacunas permanecem por explorar de entre os diferentes pontos de vista possíveis e os protagonistas dessas histórias. Com algumas raras excepções, a abordagem por escrito – ou publicada – configura um quase total muro de silêncio sobre esse passado.
O que é curioso, dada a relativa relevância do assunto para as pessoas tocadas pelo assunto da presença portuguesa naquele território entre 1890 e 1975 – peculiarmente designados em Portugal como “retornados” – e em especial nos quarenta anos entre 1958 e 1995, quatro décadas em que se operaram mudanças radicais em Moçambique.
Recorde-se que nesse período de quatro décadas, observou-se a formação de uma resistência organizada e militar ao regime português em Moçambique e o início de uma guerra de guerrilhas no Norte do território, o pronunciamento militar em Lisboa em Abril de 1974, o aumento das tensões até Setembro, o anúncio do Acordo de Lusaka e os subsequentes eventos em Lourenço Marques entre Setembro e Outubro, na sequência dos quais iniciou-se a saída da esmagadora maioria dos portugueses e brancos (e de muitos moçambicanos) daquele território, a independência sob a égide da liderança da Frente de Libertação de Moçambique e a implantação de um regime marxista-leninista de linha dura, suportado pelos países da cortina de ferro enquanto a economia entrou em rápido declínio, se assistiu ao surgimento de conflitos com a Rodésia de Ian Smith (a que se seguiu a implantação de um regime de maioria negra liderado por Robert Mugabe) e a África do Sul de John Vorster. Assistiu-se de seguida ao início do que se veio a tornar numa guerra civil sangrenta, suportada pelo regime sul-africano, e, finalmente, ocorreu a renúncia formal, pelo regime moçambicano, ao marxismo-leninismo, a morte de Samora Machel e, já após a queda do muro de Berlim, a libertação de Nelson Mandela, o Acordo de paz em Roma que marcou o fim da guerra civil em Moçambique, seguido pela negociação e implantação de um regime democrático na África do Sul.
Em termos editoriais, esse interesse tem-se revelado, ainda que efemeramente, principalmente em Portugal, onde se apercebe uma audiência, essencialmente não académica, se não tanto com interesse neste tópico na globalidade, pelo menos com o interesse e suficientes números para justificar (no caso de Angola também) as sucessivas edições de livros de história e ilustrações gráficas com sucesso comercial – de que se distinguem os trabalhos de João Loureiro e Moderno Tropical (Ana Magalhães e Inês Gonçalves) uma recente edição fotográfica em hardcover, sobre a arquitectura moderna nos antigos territórios portugueses, ao custo de 40 euros cada cópia.
No campo da análise e do debate em redor dos últimos anos da administração portuguesa de Moçambique, das circunstâncias que levaram à independência do país em Junho de 1975 e os anos que se seguiram, as poucas visões e opiniões publicadas têm sido habitualmente marcadas por posicionamentos ideológicos e controvérsia.
Em Moçambique, compreensivelmente, essas posições manifestam-se tipicamente algo anti-portuguesas, anti-coloniais e críticas do sistema vigente até à independência, promotoras do “heroicismo libertador”e da criação de um “novo Moçambique”, a partir das cinzas do velho Moçambique, erradicando, nalguns casos literalmente, qualquer vestígio desse passado, dessa influência e dessa presença.
Em Portugal, publicaram-se obras mais académicas ou de análise político-estratégica, mas poucas, e quanto a biografias e memórias por parte dos antigos residentes, cujas experiências quer em Moçambique quer subsequentemente nos destinos para onde foram residir poderão ter interesse humano e histórico, senão literário, o silêncio tem sido quase absoluto.
Nesta complexa dialéctica, degladiam-se visões contrastantes e desenvolve-se, a certo nível, uma luta pela “verdade”, em que se assistem a esforços mútuos e sucessivos de branqueamento do que era e do que aconteceu. O branqueamento, por parte de alguns dos brancos/portugueses, de quão ofensivo podia ser e em muitos casos foi em geral, o sistema e a sociedade antes da independência; o branqueamento do que foi a ditadura comunista e a hostilidade para com os brancos e portugueses e principalmente para com os moçambicanos (de que destaco mulatos, indianos, etc) em Moçambique logo após a independência e nos anos que se seguiram; o branqueamento, em Portugal, da simples realidade de que em 1974 os poderes constituídos, com a quase total indiferença ou a aprovação tácita da população, pura e simplesmente abandonaram à sua sorte centenas de milhares de famílias portuguesas e moçambicanas e os seus descendentes, muitos já sem raízes em Portugal, a milhares de quilómetros de distância, completamente à mercê dos arbítrios de jovens guerrilheiros marxistas-leninistas tornados líderes governamentais, constituídos em ditadura. O branqueamento do facto de que se vivia em Portugal uma ditadura com quatro décadas, e que sobre toda a realidade colonial se sobrepunha essa maior realidade, aceite ou imposta de que, como disse Oliveira Salazar, “a Nação não se discute”. O branqueamento, finalmente, do facto que o projecto colonial nunca foi nem era per se dos “colonos” nem que estes nunca foram os seus principais beneficiários (como aliás se viu posteriormente): bem ou mal, com mais ou menos democracia, este era o projecto centenário de uma nação europeia, que falhou em constatar no que se passava no mundo e, numa das suas horas de mudança mais cruciais, em lidar condignamente com o fim previsível do capítulo colonial, e em assumir os custos dessa retirada em sangue e em dinheiro – e tomar conta dos que supostamente eram os seus.
Não há nesta história heróis nem criminosos. Quando muito, apostou-se num projecto e num ideal que acabaram mal. E muitos sofreram, em todas as partes, principalmente os agora cidadãos dos países que alguns gostam de referir serem nossos irmãos, cabendo a esta e as próximas gerações sararem as feridas que se mantêm abertas.
Se por mais nenhuma outra forma, fatalmente, o tempo, o distanciamento e a morte dos seus protagonistas de tal se encarregarão. Já está a acontecer.
Ficará a luta pela verdade.
O Caderno de Memórias Coloniais
É neste contexto global que, com base em várias peças colocadas na imprensa nos últimos dias, surgiu recentemente a publicação, por uma obscura editora sediada em Coimbra, de uma obra soi disant de cariz memorialista, intitulada Caderno de Memórias Colóniais (aqui, CMC), pela mão de Isabela Figueiredo, uma ex-jornalista e professora portuguesa, nascida na actual Maputo em 1963, que cresceu no maior anonimato na Matola desse período e que deixou Moçambique definitivamente com 12 anos, a 22 de Novembro de 1975, para não mais voltar.
Há vinte anos, publicara uma obra, também sobre o tema africano colonial, premiada, mas de que hoje não reza a história.
O seu relato, em formato de uma sequência de textos numerados, cobre o que supostamente viu e sentiu entre os sete e os doze anos de idade.
O Tema de CMC Segundo a Crítica e a Autora
A acreditar pelos textos e entrevistas de Fernanda Câncio, uma articulista do Diário de Notícias, de Eduardo Pitta, um intelectual e poeta de origem moçambicana na revista Ler (transcrito para um blogue com o mesmo nome), de Francisco José Viegas, e de Alexandra Prado Coelho num suplemento do Público, os temas desta obra seriam, mais ou menos por esta ordem, o passado pessoal da autora e um diálogo post-mortem com o pai racista, uma caracterização sua do racismo da sociedade lourenço-marquina entre 1970 (quando efectivamente a autora inicia no seu texto o fio à meada, assumidamente biográfica) e o assumir de um estatuto de “retornada” já em Portugal e no final dos anos 70, com vários comentários feitos com referências posteriores.
À cautela, há algumas nuances no que surge através dos comentários e afirmações feitas nas entrevistas, quer da autora, quer dos seus comentadores.
Sobre CMC, Eduardo Pitta referiu no seu texto na Ler que, apesar de uma certa abundância de informação sobre o período, “faltava, porém, um relato na primeira pessoa. Foi isso que fez Isabela Figueiredo (…), sem poupar nos detalhes”, considerando que CMC “é uma obra imprescindível para compreender o sentido (ou sem sentido) da nossa presença em África”.
Na sua peça, publicada no DN no dia 9 de Janeiro de 2010, Fernanda Cânciorefere que CMC “é uma carta de amor a um pai racista”(…)“é a história de uma retornada que assume o racismo português” que “desfaz o postal da África colonial mitificada”. Cita a autora, segundo a qual “comecei a escrever e a gostar do que estava a escrever. Achei que estava a sair bem, Com ternura mas também com violência. Claro que tenho medo de ser mal interpretada. Mas sinto muito alívio. Libertei-me de um fardo que carreguei comigo a vida toda.” O fardo? Ela prossegue: “a verdade é que nós vivíamos num país onde se podia atropelar um negro e não ir para a prisão”.
Câncio refere que a autora foi mais longe: “houve uma espécie de justiça nos massacres dos brancos. Mesmo se ela sabe que quando em Setembro de 1974 mataram famílias conhecidas à catanada, espalhando-lhes os restos pelas machambas, animais e pessoas, tudo o que era branco, à mistura, só por sorte inaudita ela e os pais não fizeram parte das contas”. E cita novamente a autora: “nós não podiamos dar-nos com os pretos e tudo o que eu queria era dar-me com eles”.
Inescapável, o tema do pai, em que Câncio refere o seguinte; “o homem enorme que a pegava ao colo e a levava para todo o lado, para as obras onde era electricista e onde dirigia “os seus muitos pretos” e os agredia com palavras e porrada, para as tardes de camarão grelhado e penalties com os outros homens em que aprendeu a linguagem do racismo, (…). À laia de explicação para a sua escrita, a autora refere a Câncio “tinha de gostar dos meus pais e ao mesmo tempo lidar bem com a minha consciência”.
Na sua peça, Francisco José Viegas, autor do romance Lourenço Marques, considera que CMC é “um dos livros mais tentadores da estação”. E ainda que a autora “é rápida no gatilho, escreve muito, muito bem – melhor do que todos os rendilhados que andam por aí, em súplicas desatendidas.”
Na entrevista com Alexandra Prado Coelho no Público, a autora referiu razões e motivações por detrás da obra, Cita-se abaixo, e na primeira voz.
Sobre o contexto em que escreve a obra, são de relevo, para se entender a obra:
“Foi preciso esperar muito tempo, que o meu pai morresse, que eu fizesse o luto dele, que fizesse uma série de anos de psicanálise, para ter vontade de escrever o que está aí. São coisas que precisava de dizer”
Sobre o assassínio de portugueses e brancos em Setembro de 1974:
“Quando foram os massacres que se seguiram à independência compreendi que era a justa retribuição.”
Sobre a sua solidão e conhecimento da realidade que a rodeava:
“O que acontece é que eu não tinha autorização para brincar com outras crianças, era muito protegida pelos meus pais, provavelmente por ter sido uma filha tardia. Vivia muito encerrada com a minha mãe em casa.”
Sobre o pai e a realidade sobre a qual escreveu:
“O meu pai foi um mediador entre mim e a realidade. Eu conhecia a realidade através dele e do mundo que ele trazia até mim. Portanto só posso culpar o meu pai. O colonialismo é o meu pai, a discriminação é o meu pai, porque foi o meu pai que eu vi fazer isso. Eu andava sempre com ele. Ele gostava muito de mim, levava-me para todo o lado.”
E ainda:
“Acho que nunca falei verdadeiramente com o meu pai sobre como ele me decepcionou por ser um racista.”
E ainda:
“Porque é que eu bato tanto no meu pai aqui? É pela questão do abandono? Não, é porque ele foi mesmo um grande filho da mãe. E porque fez coisas que não devia ter feito, porque as fez à minha frente, porque me magoou, e porque eu nunca lhe disse isso directamente e devia ter dito. E se digo com alguma violência é porque essa violência ainda não está totalmente gasta.”
Finalmente, mais um comentário extra-livro que ajude o leitor talvez a melhor entender o que escreveu:
“Fico muito zangada sempre que vou a uma livraria e sou confrontada com um livro sobre essa imagem [idílica de África] – e depois começo a ler como era bom comer papaia, e como tínhamos uns criados que tratavamos muito bem, e como as roupinhas dos nossos filhos iam todas para eles. Acredito que haja pessoas que não tenham participado activamente em acções destas [de discriminação e violência], mas foram cúmplices, como na Alemanha.”
Presume-se que a autora acima se refere às pessoas que viveram na Alemanha Nazi.
A Crítica
Stritu factu, com alguma sobreposição em alguns dos temas acima relevados, depois de uma leitura atenta dos textos de CMC, e pedindo desculpas a alguns exmos leitores que já o referiram, e pelo que nalguns casos já referi eu próprio, acredito que o tema central desta obra não é o colonialismo na Lourenço Marques colonial. Nem tanto a natureza impia do racismo colonial na velha Lourenço Marques. Nem nehuma confrontação titânica com pesadas consciências sobre um passado supostamente tenebroso.
Este livro não é sobre a experiência colonial de centenas de milhares de pessoas que viveram em África entre 1960 e 1974 e os milhões de moçambicanos que, a breve trecho, bem ou mal, integraram um Moçambique soberano e independente.
Não são as memórias de uma menina simpática e inocente que cresce e apreende a beleza e o amor que a rodeiam num mundo hostil e que não compreende. Não é o Bonjour Tristesse de uma Françoise Sagan.
Nem é sobre algum vislumbre de empatia e solidariedade com o destino e a miséria e a exploração e a humilhação a que muitos moçambicanos negros (os poucos que a autora refere ter visto na sua caixinha de loucuras) tiveram que se sujeitar perante a prepotência racista e neurótica de gente como os seus pais – e que ainda hoje, quarenta anos depois de independência, ocasionalmente se vê, nem sempre alinhada em termos de raça ou cultura, pelo contrário.
Só quem não conhece, só quem não sabe, só quem é que não vê, é que não percebe.
Não.
Este livro é principalmente, quase unicamente, sobre ódio puro e destilado entre duas figuras trágicas. Entre dois monstros horríveis.
É um discurso sintetizado e coisificado de dois seres perturbados, limado ao longo dos anos, em que, morta uma das partes, e não tendo havido uma tão apetecida catarse, foi, para o consolo e consumo egoísta e algo psicótico da parte remanescente, cuspido para o papel, que agora é apresentado, sob a pretensa forma de “arte”.
Quase tudo o resto é apenas, em pano de fundo colonial, um estratagema, um exercício de exibicionismo, um vulgar drag show para mostrar que gosta de chocar, que não se importa de chocar, que não tem barreiras, que pode gritar o que quiser. Os “pretos” aqui são apenas marionetes da tragicomédia, E nós pagamos o bilhete de entrada. Eu paguei.
O primeiro e principal monstro, é a autora, tão obviamente perturbada, tão quixotescamente transfigurada numa menina loira, delicada e sensível com sete, dez anos de idade (acredite quem quiser) que supostamente vivia fechada numa verdadeira caixa de horrores escondida numa Matola (então) distante, bucólica e rural, e que, com o único fito de tentar chocar e surpreender de uma maneira ou outra o leitor completamente desprevenido (nenhum dos críticos citados parece minimamente perturbado pela forma e conteúdo do que aborda, homenagem lhes seja feita), desfere, ataca, arranha, grita, insulta, achincalha, rasga quase tudo e todos. Nada lhe escapa, nem, no fim, especialmente, ela. Obcecada pelo sexo, obcecada pela raça, uma voyeur politicamente correcta do ocaso do Império. Os brancos são lixo. Os negros não são nada. Para ela a vida aos sete, oito, nove dez anos de idade, é uma orgia pérfida de revolta e sedução, em doses iguais, naquela casinha perdida na Matola.
A abordagem não impressiona por um segundo. Se o relato era verdade, era caso de polícia. Se é apenas literatura memorialista, aprende-se muito pouco. Talvez apenas que, em qualquer comunidade, incluindo as coloniais, há extremos que devem ser exorcizados. Não vão as criancinhas acabar assim, patologias por resolver.
Tudo isto embrulhado numa prosa ridícula que é de uma tal pobreza, de uma tal falta de graça, de contexto, de sustentabilidade intelectual, de equilíbrio emocional, que desafiam a inteligência e a sensibilidade de quem como eu teve o rasgo de, avisado, comprar o que só posso qualificar como o pior conjunto de verborreia pretensamente sobre a era colonial em Moçambique que jamais vi. Aquilo é um desatino em cadeia. Esta obra não é uma memória. É a memória de um grito lancinante de ódio contra um pai em relação a quem havia muito e quiçá omitido, unfinished business.
A exploração, a miséria, o racismo generalizado, o tal pano de fundo em que surpreendentemente tão diligentemente circula e que tanto faz por pintar que parte o pincel, com a excepção rara de foder o filho do vizinho preto na Matola, de cujo nome não recorda, ao contrário do idiota do Luisinho branco (ah mas este tem nome) que por cima dela se deitou.
Ainda por cima a autora tem o gáudio de, à propos, vir referir que está convencida de que é muito boa a escrever. Que tem algo para nos dizer de especial. Que dos seus insanes, vulgares, pirotécnicos regorgitares sobre a sua aparentemente doentia e psicótica, sexualmente perturbada versão luso-tropical de Voando Sobre um Ninho de Cucos em cenário colonial, está a fazer literatura. Literatura memorialista.
Ai sim?
Mas naturalmente: ganhou um prémio qualquer em 1988 (há 21 anos) e enquanto olhava para ele na prateleria em sua casa, ficou a perceber que, se mais nada saberia fazer na vida para além de nutrir um impenitente, incontido, incontível, ingerível, inexorcizável ódio pelo pai, “apercebeu-se” que o que escrevia tinha alguma qualidade. E como no júri em 1988 estavam a Agustina, o Dinis e a Ondina, que lhe deram o único grande, inebriante prazer na vida – o de um elogiozinho e de umas palavras de encorajamento que a posteriori só posso qualificar de tragicamente equivocados – e depois de uns test flights assistidos por meia dúzia de aficcionados num blogue perdido na internet, achou por bem presentear o seu veneno destilado ao público. E como a Fernanda aplaudiu, e o Eduardo Pitta condescendeu, e o Francisco Viegas recomendou – isto é mais do que bom.
É três vezes bom.
Só pode. Pois quem somos nós os outros para julgar poder apreciar?
A outra figura trágica deste compilar de ódios generalizados, com ressalvas, pois é apenas protagonizado pela sua mão, é o (defunto) pai, cuja relação com a filha – a fazer-se uma leitura atenta – está no centro de uma vasta, doentia, distorcida, forma de apreender a realidade e de lidar com ela. Por essa lente disforme, com uma ajudazinha da mãe na casa da Matola, tudo capta na inocência dos seus reputados e cristalinos sete, oito anitos de idade. A inocência na gaveta. Como o pai era um racista encartado (filha dixit) logo todos os brancos, toda a cidade branca, era como ele. Como o pai tinha desvarios, assim era tudo o resto. O pai, o corpo do pai, o cheiro do pai, o músculo do pai, o não sei quê do pai….
Convém um voo rasante para o exmo leitor se poder inteirar do sabor dos textos de que falo e do ambiente deste Ninho de Cucos da Matola:
Breve excerto do texto 2: “Os brancos iam às pretas. As pretas eram todas iguais e eles não distinguiam a Madalena Xinguile da Emília Cachamba (…) As pretas tinham a cona larga, diziam as mulheres dos brancos (…) A das brancas não, era estreita, porque as brancas não eram umas cadelas fáceis, porque a cona sagrada das brancas só lá tinha chegado o do marido (…) As pretas não eram sérias, as pretas tinham a cona larga, as pretas gemiam alto, porque as cadelas gostavam daquilo. Não valiam nada”.
Início do Texto 3, supostamente sobre a sexualidade do pai dela e a dela, tema favorito para quem ainda não percebeu: “Foder. O meu pai gostava de foder. Eu nunca vi mas via-se. “. E mais adiante, “Quando o meu pai me levantava no ar como se fosse uma coisa, ou me transportava às cavalitas, sentia-me fraca perante a força total, dominada, possuída por ele”. Mais tarde, no texto 24: “Sem me ensinar, o meu pai iniciava-me no prazer que já havia despontado com o estranho fogo do meu padrinho”. No Texto 28, para equilibrar, anuncia que “a Domingas foi quem me masturbou pela primeira vez”.
Hum.
No texto 4, esta pérola, que para variar repete duas vezes, referindo-se à cidade de Lourenço Marques “…era um enorme campo de concentração de negros sem identidade, sem a propriedade do seu corpo, sem existência”.
Tópico do Texto 5: The first fuck (a da autora com o tal de Luisinho – branco – sete anos de idade, mal explicado, pai descobre e dá-lhe um enxerto de pancada) e que começa assim, para variar: “Foder. Essa descoberta tornou-se algo que me envergonhava e desejava”.
No texto 10: Mais sexo. “Quase” engravida do “filho do vizinho preto”. Aos dez anos de idade.
No texto 11: “… o olhar dos negros, nunca fica, para os colonos, isento de culpa: olhar um branco, de frente, era provocação directa; baixar os olhos, admissão de culpa. Se um negro corria, tinha acabado de roubar; se caminhava devagar, procurava o que roubar.”
No texto 14: Sobre a Marília, a quem a autora dá uma bofetaba mas que, como ela era branca e a Marília mulata, a Marília engoliu e calou-se. Isto na Escola Especial em Lourenço Marques.
No texto 17, sobre a guerra no Norte e as tropas portuguesas: “Também havia soldados pretos. Faziam-nos comandos, para irem à frente e morrerem primeiro; assim se poupava um branco. Que os pretos morressem na guerra era mal menor. Era lá entre eles”.
Há 16 páginas às voltas com a saída de Moçambique em 1975 (textos de 29 a 33). Medíocre.
No texto 34 há um parágrafo inteiro, que constitui o segundo parágrafo inteiro, do texto de Fernanda Câncio no DN. Alguém se esqueceu de pôr lá as aspazinhas e fiquei a pensar que era da autoria de Câncio. Afinal era da autora. E aqui vai: “Todos os lados possuem uma verdade indesmentível. Nada a fazer. Presos na sua certeza absoluta, nenhum admitirá a mentira que edificou para caminhar sem culpa ou caminhar, apenas. Para conseguir dormir, acordar, comer, trabalhar. Para continuar. Há inocentes-inocentes e inocentes-culpados. Há tantas vítimas entre os inocentes-inocentes como entre os inocentes-culpados. Há vítimas-vítimas e vítimas-culpados. Entre as vítimas há carrascos. “
Texto 40: quatro páginas sobre o corpo do pai. As pernas, a barriga, etc. Fico sem palavras.
Texto 41: agora é a vez de alguém que vem por via da mãe, uma mulher, que terá dito, já “retornada”, cito “ Os negros, os cabrões, os filhos da puta. Vim de lá há um ano. Nunca deixei que me faltassem ao respeito. Chamavam-me mamã, chamavam-me tia, e eu dizia-lhes não sou tua mãe, que eu não sou puta. Nem tia, ó meu cabrão. E não me assaltas que eu não sou branca e estrangeira e ponho a polícia atrás de ti, meu escarumba de merda.”
Perto do final, um texto indicado como post chamado Fígado de Porco refere-se ao primeiro aborto que a autora fez, não se sabe quando. Parece que o que saiu pareceu-lhe fígado de porco. Mas este já é tema extra-colonial, é uma espécie de bónus. Não indica quem a pôs assim.
E no meio do texto 41, o que para mim é o grand finale, o que a autora, na sua análise, destila disto tudo: “Um branco que viveu o colonialismo será um branco que viveu o colonialismo até ao dia da morte. E toda a minha verdade é para eles uma traição. Estas palavras, uma traição. Uma afronta à memória do meu pai. Mas com a memória do meu pai podemos bem os dois.”
Tirem-me deste filme doentio.
E como exorcismo merecido, leia-se Noémia de Sousa, José Craveirinha, Mia Couto, Luis Bernardo Honwana, Luis Carlos Patraquim, Calane da Silva, Albino Magaia, Nelson Saúte, Ungulani Baka Kosa, António Pinto de Abreu, Leite de Vasconcelos, Paulina Chiziane, José Eduardo Agualusa. E, last but not least, Carlos Serra. E o meu irmão Amâncio Miguel.
São gente que demonstra que, por mais que todos os electricistas da Matola houvessem atentado contra a dignidade de um povo, por mais humilhações por que tenha passado, ele superou e ressurgiu forte e sorridente.
Quanto aos “retornados”, deixe-os em paz. Eles têm as suas histórias, que não são estas.
Disfarçado de dono de um veleiro de passagem por Cascais, e após breve e inócua aventura na Livraria Bulhosa no Cascais Villa, peregrinei até à quiçá mais próspera e dotada FNAC do Cascais Shopping, com a Dulce Gouveia a reboque, para comprar a grande obra recente da Escritora de origem moçambicana, publicada pela Editora sediada em Coimbra.
Mas na secção dos livros dou logo de caras com o José Rodrigues dos Santos no corredor, que é máfia moçambicana do melhor e estes dias uma espécie de versão lusa do Dan Brown. Com ele não há cá memórias para ninguém. Antes que ele pensasse que eu ia ao livro dele sobre a Al-Khaeda, que se encontra à venda em todas (mas todas) as livrarias, grandes superfícies, aeroportos e até por baixo de vãos de escada, escapuli-me pelo café da loja para o outro lado e fui ter com uma daquelas meninas simpáticas da FNAC que usam um coletezinho verde e nos ajudam a encontrar os livros.
“Olá, boa tarde. Procuro o novo best seller daquela escritora nascida em Moçambique Isabela Figueiredo e não encontro”.
“Só um momento, sefachavor”.
Clic clic clic clic no computador.
“Sim, devemos ter ainda uma cópia na loja, deixe-me ir ver”.
E desapareceu.
15 minutos à espera.
Após o que a menina surgiu do nada com um livrinho pequenino na mão.
“Quanto é?”
“15 euros”.
“15 euros! Bolas. Deixe-me cá ver”.
E peguei no volume. E inspeccionei-o.
Preliminarmente.
Na verdade o livro é algo estranho.
A seguir à capa e a contra-capa, tem quatro folhas verde-alface sem nada, duas de cada lado, que deve ser para o leitor precavido tomar apontamentos. No fim, a seguir à folha verde-alface, diz uma nota que foi composto numa empresa gráfica na bela Vila Nova de Famalicão, “34 anos após o regresso da autora a Portugal”. Ok. Suponho que uma anotação válida para quem ao chegar ao fim do livro ainda não se tiver apercebido desse facto da vida da autora, ou que não saiba fazer contas de subtraír (pois 2009-34 = 1975) infelizmente um provável infortúnio com o estado da educação nos dias que correm.
Só que na pala interior da capa tem mais uma foto simpática da Isabela, esta circa 2009 e sans Bóbbi, e mais uma notinha a dizer que ela nasceu em Lourenço Marques em 1963, que em 1975 veio para Portugal, e que nunca mais voltou.
Espera aí: se aqui diz que ela nasceu lá, que veio para cá e que nunca mais voltou, porque é que no fim do livro diz que ela regressou a Portugal?
É um mistério. Assumo que deve fazer parte da complexa e mística dialética subjacente aos conteúdos ali abordados. Ora veja-se.
Ela nasce e cresce em Moçambique.
Mas ao viajar para Portugal em 1975, regressa.
Ora isto é para mim uma alegoria fantástica.
Tem umas fotografias: na capa (a foto ali no topo) a Isabela avec Bóbbi. Depois duas piquininas de Lourenço Marques nos tempos e que mal se conseguem ver, e a seguir vêm: a Isabela a segurar o rádio de papá debaixo de uma papaeira, a Isabela vestida de saloia portuguesa num barco, a Isabela a fazer pose num parque, a Isabela na marginal de Lourenço Marques e a Isabela na comunhão.
Na página 7, presume-se que para dar o tom do que está para vir, três citações, uma de Paulo Auster a falar do pai (o do Paulo Aster), e duas do italiano Primo Levi, a mastigar a presumível fungibilidade da Memória Humana. Bem, ou pelo menos a dele.
E, presume-se, por osmose subliminar associativa, a da Isabela.
A menção do americano Paulo Auster confunde-me e levanta-me imediatas suspeitas quanto à proeminência fotográfica do Bóbbi. Pois na sua Timbuktu, não a africana mas uma mitológica e utópica urbe, são as memórias do rafeiro Mr. Bones que descascam, numa odisseia tão deprimente como cativante, a existência de Willy Christmas, um homem infeliz e falhado, que morre à porta da casa onde o seu ídolo, Edgar Allan Poe, vivera. Será isso? O que acha, quais as memórias de Bóbbi da sua dona e da Lourenço Marques que a viu nascer e crescer? será que Bóbbi também regressou?
Primo Levi suscitou-me ainda maior supresa. Pois a sua escrita, sendo judeu e tendo passado pelos maiores horrores da carnificina Nazi, incluindo quase um ano em Auschwitz-Birkenau, é mais conhecida pelo conteúdo memorialista desse período – memórias que o perseguiram até à morte. Em 1987, o grande Elie Wiesel, que era professor na Universidade de Boston, onde estudei gestão e um pouco sobre o judaísmo nessa altura e durante dois anos, e ele próprio um sobrevivente do horror Nazi, disse que, quando morreu – e referindo-se às suas peristentes e pungentes memórias – Levi na verdade morrera em Auschwitz mas quarenta anos depois.
Que associações poderá haver entre a obra e o percurso de Primo Levi e este livro de Isabela? A curiosidade avoluma-se dentro de mim.
Procurei, e descubro que o livro não tem índice. Tem, isso sim, em 136 páginas (as que estão numeradas), textos sequenciados, de 1 a 43. Sem títulos. Só os números.
E na verdade, aí me apercebi, afinal aquilo não é só um livro (daí, decorrem, presume-se, os 15 euros).
Logo a seguir ao texto Número 43, depois de uma folha com umas das fotos piquininas de Lourenço Marques que não se vê bem, tem outra onde apenas figura, a meio, a singela e solitária frase, que se presume dedicatória: “À memória do meu pai”.
Repare-se no detalhe: não é em memória do pai. É à memória do pai.
Hum.
E a seguir tem uma página que diz, na vertical, com o texto a apontar na direcção da lomba do livro, em letras garrafais “Adenda” onde, aí sim- surpresa!- tem um índice, mas um indicando o que vem a seguir (aos textos numerados de 1 a 43): seis textos descritos como posts, incluindo o intrigantemente títulado Falta dinamitar o Cristo-Rei e logo abaixo o assaz mais invocativo de assunto gastronómico, Fígado de Porco; e, finalmente, Uma conversa com Isabela, que inclui, um pouco como nas (brevemente findas) conversas do Professor Marcello na RTP aos domingos à noite, e à margem das doze páginas do texto da entrevista propriamente dita (feita por não se sabe quem) as sugestões dela de dez livros, cinco datas e cinco lugares.
Portanto, isto é o que se pode chamar um pacote completo.
Que agora é meu.
Por, afinal, uns modestos 15 euros.
E que, feito o investimento e aguçada a curiosidade, vou ler este fim de semana, de fio a pavio.
E de que logo darei conta aos exmos leitores, após reler também a prosa canciana et al.
Para tirarmos esta coisa a limpo de uma vez por todas.
O futuro augura novas oportunidades para todos nós - lá fora
por ABM (Cascais, 16 de Janeiro de 2010)
Cartaz que encontrei à porta do elevador do centro comercial Cascais Villa, no centro da Vila de Cascais, onde fui beber um sumo de frutas nacional e um croquete e visitar a loja local da Livraria Bulhosa para procurar um livro (sobre isso ver o texto seguinte).
Nele, o Wall Street Institute tenta vender o seu produto, associando-o aos grandes atributos conhecidos do povo português dentro e fora de fronteiras e que neste momento são ferramenta essencial do progresso em curso.
Na Bulhosa disseram que não tinham o tal de livro mas que “estava no computador”, podiam mandar vir de Lisboa, espera de três dias, tinha que voltar.
Sim sim, obrigado. Mas um best seller daqueles e não tinham na loja? afinal? mas tinham o do José Rodrigues dos Santos sobre os Al-Caídos, não? “ah desse temos muitos”.
Claramente, um problema de distribuição.
Dado o preço de estracionar um carro neste centro comercial, que é entre o usuário e o escandaloso, e estando eu em poupanças, tentarei de futuro ir lá o menos possível.
Fernanda Câncio, a putativa (segundo certa imprensa) namorada do actual primeiro-ministro português, José Sócrates, e fogosa escriba num Diário de Notícias infelizmente cada vez menos de referência, escreveu um curioso texto – que saiu na sua edição de hoje – sobre uma sra chamada Isabela, que, depreendo da leitura, como muitos de nós saiu um pouco a pontapé do Moçambique pós- independente e revolucionário aos 12 anos de idade, e sobre um livrinho que ela escreveu e que acabou de ser publicado, que dá pelo nome algo enigmático de Caderno de Memórias Coloniais.
Que não li.
Mas li o comentário de Câncio, que sempre vale alguma coisa e que me deixou algo mistificado.
Vamos por partes.
Deixou-me algo mistificado porque a Fernanda que, como já vi outras pessoas dizer noutras ocasiões, deve perceber tanto da realidade colonial como eu de física nuclear, começa por colocar legiões de “retornados” num vasto manicómio virtual, todos mentirosos e todos vivendo numa ilusão colectivamente induzida com o fito de não enfrentar uma inconfessável série de “crimes contra a Humanidade”, que, lá vai o argumento, só pode ser o que (no meu caso) os nossos pais e avós andaram todos lá pelas Áfricas durante séculos a cometer contra os nativos. Voluntária e até empenhadamente e, no caso do pai da Isabela, com requintes de malvadez.
Isso a acrescentar àquela outra Grande Ilusão Colectiva dos brancos e portugueses da África portuguesa (nunca os de cá, coitados) claro, a de que aquilo era “nosso”. Que se sabia perfeitamente que não era, especialmente a posteriori.
Bem, todos – especifique-se – menos a sua amiga Isabela.
No seu caso, Fernanda diz que a Isabela baseou os Cadernos nos seus escritos, alguns dos quais foi colocando num blogue de que nunca ouvi falar antes na minha vida, que alimenta regularmente e que se chama – algo deceptivamente – Mundo Perfeito. Bem, não pode ser assim tão perfeito como isso, se a imagem de cabeçalho que a Isabela escolheu para a porta do seu blogue é um corpo de mulher de cuecas e com cabeça de cão, sentada numa estufa com flores. É uma invocação que diz muito. Para mim uma alegoria de um mundo perfeito ( aquilo a que Sir Thomas More chamou em tempos de Utopia )podia ser a fotografia acima – mais ou menos. E ainda tem à porta da estufa retinintes e polidos avisos sobre os seus direitos de autora, que, na minha experiência na internet, são ah tão simpáticos como não valem um caracol furado. Neste meio a ofensa não se combate com avisos, combate-se com unhas e dentes.
Ou ignora-se.
Ora eis algo que não me ocorrera antes, isto de ter um blogue na internet, onde vou escrevinhando umas coisinhas e um belo dia, imagino que para aqueles que não têm internet, arranjo uma editora e escarrapacho tudo outra vez numa publicação, à laia de The Best of Maschamba. Bem, sempre tira a impressão fungível e a desconfortável sensação de estar sózinho num submarino e que as palavras que aqui escrevemos em suporte incompreensivelmente electrónico, pareçam um pouco menos aquilo que os americanos chamam pissing in the wind (no nosso vernacular, fazer chichi ao vento). Tenho que falar com o nosso Senador e a Sra Baronesa em reunião de Conselho de Machamba, mas receio que, numa futura edição do Caderno de Memórias Maschambianas, eu seja sumariamente relegado para uma recôndita nota de rodapé.
E lá se iria a etérea sensação da imortalidade literária.
Mas podia oferecer cópias dos livrinhos pelo Natal, o que com um blogue, admita-se, não se pode fazer.
A mistificação do comentário publicado no DN sobre a Isabela tem que ver com a evocação de um passado moçambicano que mais parece uma longa e pesada sessão de terapia duma branca com sentimentos negativos sobre a sua experiência africana e, quiçá, sobre o seu estatuto de retornada num Portugal revolucionário e recém-exorcizado da sua experiência colonial-bélica. Pelo meio, vagueiam ideias da injustiça daquilo tudo, o trauma do (presumo) rescaldo do 7 de Setembro de 1974 e ainda o fantasma do pai, que, recita, chamava coisas feias aos colonizados com pele mais escura e que, num contexto em que – creio – ninguém tinha “direitos”, tinham ainda menos que os colonizados mais clarinhos. A Fernanda, cuja experiência africana (e muito menos moçambicana) repito, desconheço por completo, arremata, no que presumo possa apenas ser uma infeliz exaltação literária, dizendo que vivia-se (em Moçambique) num país onde se podia atropelar um negro e não ir para a prisão. Pois. E esqueceu-se de referir que comíamos meninos pequenos para o matabicho.
Decorre que com a independência tudo isso acabou. E que com os assassínios de brancos por representantes armados da maioria negra nos arredores de Lourenço Marques em 1974 fez-se, apenas, justiça. Ai sim Fernanda? hum, sorte, então eu ter sobrevivido aquela pouca vergonha toda, e não graças à sua boa vontade.
Há aqui dois aspectos que me induzem a pensar que talvez este tipo de intro-retrospecção tenha que ser trabalhado um bocadinho mais.
O primeiro aspecto é que, segundo a Fernanda, cuja retórica para estes efeitos, aceite-se, é mais ou menos irrelevante, a Isabela saíu de Lourenço Marques em 1975 com 12 anos de idade. Se calhar viajámos os dois no mesmo avião da TAP em alturas diferentes, só que eu tinha 15 anos de idade, diferença que importa para efeitos desta discussão. Pelo menos eu já não era virgem, naquele e em muitos outros aspectos da vida.
Ora, para alguém que saíu de Lourenço Marques em 1975 com 12 anos de idade, a análise global da situação que a Fernanda diz que a Isabela faz, a crer-se biográfica e despida de preconceitos e análises que só possam ter sido posteriormente adquiridos, devem ser deveras de assombrar, vindos de uma miúda. A minha irmã mais nova, que tinha a mesma idade e teve o mesmíssimo percurso que a Isabela, mal sabia jogar ao berlinde. E lá em casa ainda estamos à espera dos seus cadernos.
Mas admita-se que pode ser que seja a nua verdade no seu caso pessoal, em que a forma como pinta o pai assusta mais que o papão colonial-racista. O que refere dava para horas e horas (e horas e horas) de sessões de psicoterapia.
Mas não logra por um segundo pintar uma realidade maior.
O segundo aspecto é que, por minha parte – e já o tentei explicar uma vez ao JPT e sob pena de me repetir – ao contrário de alguns eu vivi lá, e no meu microcosmo o pai BM e a quase totalidade das pessoas com quem contactava, não chamava nomes a ninguém, branco ou preto, eu não era inibido de me dar com ninguém com base na cor da pele e, se não disputo (mas não desta maneira) a sustentabilidade do tal “ídilio colonial” de Lourenço Marques que a Fernanda diz que não existia (existia, sim, que chatice), pintar essa era e todas as vastas e complexíssimas relações pessoais, económicas, sociais e raciais de Moçambique no fim da era colonial em Lourenço Marques com um simples rótulo de “racismo” e “abuso” é totalmente descabido. É falso. É absurdo. É ridículo. É uma fraude moral, intelectual e histórica. É projectar os seus preconceitos actuais, ignorar as suas causas e tentar justificar moralmente os seus efeitos e a pulhice que veio a seguir, e em que de longe as maiores vítimas – surpresa – foram sempre, e quase só, milhões de moçambicanos, que de uma ditadura passaram directamente para outra, não muito diferente.
Especialmente se se está a falar no começo dos anos 70, em Lourenço Marques.
Claro que lá havia racismo. Claro que havia injustiça, incluindo a racial. Claro que tinha que acabar. Que tinha que mudar. Claro que havia gente como o pai da Isabela. Se calhar até pior. Claro que aquilo era uma ditadura, com tentáculos em Portugal, um anacromismo total num mundo já quase sem impérios coloniais e em que os países comunistas activamente armavam e patrocinavam os que combatiam o que sobrava de colonialismo no mundo. Ser colonial a partir de 1950 tinha o seu custo em lágrimas, suor e sangue. Salazar estava disposto a pagá-lo, outros não. Em 1974, venceram estes.
Mas cuidado ao pintar tudo de negro. O pior racismo que vi na minha vida não foi em Moçambique, foi nos Estados Unidos quando para lá fui viver em 1977. Portugal hoje não é muito melhor. Quotidianamente vejo as maiores injustiças serem cometidas em Portugal hoje que não se distinguem assim tanto das injustiças que haviam em Lourenço Marques e que há em toda a parte. As injustiças económicas que se observavam há quarenta anos em Moçambique, aliás, ainda se mantêm em larga parte. Pois não é de um dia para o outro que se capacitam milhões de pessoas pobres, rurais e analfabetas que vivem de subsistência no mato e se lhes proporciona, e aos seus filhos, condições para ascensão social e económica.
O crime, se é que se pode dizer assim, não era do que a Isabela diz que vislumbrou aos dez anos de idade e muito menos dos tiques racistas do seu partido pai, que não conheci. É de um país que estava na mão de um ditador que escolheu manter um statu quo décadas depois da altura em que deveria ter iniciado medidas para atempadamente preparar e entregar o poder político e a gestão da nação moçambicana aos seus filhos, descomplexadamente e de cabeça erguida.
Provavelmente quer eu quer a Isabela teríamos lá ficado, a viver em paz e sossego e estaríamos a ajudar a construir esse novo país, em vez de andarmos à esmola de familiares hostis e dependentes de amizades que se calhar nunca o foram, olhando no espelho à noite e inventando na mente que aqui pertencíamos.
E a ter que tentar engolir de terceiros a tese de conspiração de que o que ali porventura encontrámos de bom e belo – e que hoje é apenas uma memória, só isso – não foi, não podia ser, que estamos a mentir aos outros e, pior, a nós próprios.
Vão à merda.
Dito isto tudo, acho que um dia destes lá vou ter que ir procurar o tal de livro para ver mesmo do que é que a Isabela está a falar.
O exmo leitor que desculpe a imagem, só queria ver se andava mesmo à roda.
Enquanto serenamente lia os meus e-mails ao fim desta manhã, a estação de rádio lisboeta TSF transmitia ao vivo do parlamento português a gritaria que pelos vistos antecedeu a votação (e posterior aprovação, a crer nas notícias) de um diploma que, a ser ratificado pelo presidente da República, extende, com uma aparente interdição à adopção, o casamento civil a pessoas do mesmo sexo.
A interdição à adopção por estas pessoas é, parece-me um preciosismo algo insípido senão inconstitucional por via do Tribunal Europeu dos Direitos do Homem, que, na actual conjuntura manda mais que o que quer que seja que os parlamentos da União Europeia legislem. Mas, hipoteticamente, se então se levar até às últimas consequências esse raciocínio, o Estado deveria também tomar providências para confiscar os filhos a qualquer pai ou mãe que pratiquem aquilo com alguém da mesma persuasão sexual.
Decorre, não é?
A parte que achei mais piada foi aquela em que, aludindo a uma sugestão creio que de um senhor qualquer do PSD, que o tal de casamento civil não fosse chamado “casamento civil”, um outro senhor qualquer do PS perguntou, alarmado, que anotação se inseriria então, quanto ao estado civil, nos bilhetes de identidade dos, presume-se, felizes usufrutuários (e usufrutuárias) desta medida.
Recordo que as actuais opções são: solteiro (SOLT), casado (CAS), divorciado (DIV) e víuvo(VIU).
Atenta, a Patroa postula que os gays são todos gajos porreiros mas um tanto destravados e concorda que o nome deve ser reservado para a Heteromaioria e sugere o termo “contrato de união”.
Sendo que nesse caso a abreviatura a aparecer no BI seria, naturalmente … “CU”.
Como os exmos leitores podem ver, enquanto se afunda alegre e suavemente numa lama de dívidas e de insustentabilidades, o desemprego já a 10.3% e a agravar-se, o país dos lusos enfrenta decisões traumatizantes como esta: qual a abreviação a pôr no BI para isto do casamento das pessoas do etc e tal.
Também a crer nas notícias, o carnaval ainda vai durar uns tempos até que o assunto esteja resolvido.
Confesso que o que me chocou mais (num contexto em que já quase nada me choca, claro) foi quando há alguns anos passou-se uma fascinante legislação a regular uma coisa fantasmaglórica chamada “união de facto”. Essa, sim, um verdadeiro atentado ao casamento civil, mas na altura poucos sequer comentaram. E está na lei.
Boa sorte a todos.
Interessante coincidência foi ter-me hoje apercebido, via a BBC World Television há bocado, e que confirmei, de que, na nação africana do Uganda, a conversa vai precisamente na direcção contrária: para além de legislação draconiana contra quaisquer vislumbres de homosexualidade na população, os legisladores ali queriam afinar ainda mais a coisa para incluir, entre outros embelezamentos que incluiam a pena de morte para certos actos de violência lá tidos como parte do que lá consideram “homosexualidade”, os seguintes:
- a proibição e criminalização da discussão da homosexualidade em público.
- a proibição e criminalização do aluguer de casas ou apartamentos a casais do mesmo sexo (presumo que espreitando à noite pela janela para ver se os ditos andam a fazer aquilo).
Precise-se que, nos termos do código civil local, qualquer manifestação de homosexualidade neste momento já é ilegal e punível por lei, nalguns casos com a pena de prisão perpétua.
Segundo a notícia que li, pressionados pelos EUA e pela União Europeia, que acham aquilo um bocadinho exagerado, os políticos ugandeses, que afinal são todos uns gajos porreiraços e boa gente, estão a pensar atenuar vagamente a coisa um nadinha apenas, para calar os doadores que no fundo os sustentam, passando tudo o que é morte por fuzilamento para uma mais amigável pena de prisão perpétua.
Como aquilo é mais ou menos uma ditadura, quem vai decidir tudo no fim é o presidente, o Senhor Museveni, que já teve o seu país nas notícias por melhores assuntos que perseguir os seus cidadãos que fazem aquilo. uns com os outros.
* descrição do acto sexual na língua ronga, falada no extremo sul de Moçambique.
2. Crise. Qualquer emigrado português sabe que ir à “terra” é para ouvir os constantes lamentos dos amigos, da família, dos populares, com a “crise”, e etc. e tal. Mais agora, com a desgraça internacional a repercutir-se nos dois milhões de portugueses abaixo do limiar da pobreza, mais de dez por cento de desempregados, o país sem luz ao fundo do tunel, sem projecto. E depois … basta ver o potlatch radical dos últimos dias antes do tal solstício dito Natal! Basta perguntar no talho, no café (o bolo-rei), na livraria, na loja de brinquedos, nos restaurantes e afins, etc e tal vinícolas e isso, o obrigatório “então, e este ano como vai?”. Crise? Já lá vai, que “estamos melhor que o ano passado”. Crise? Como crise se a felicidade está ali mesmo, nos balcões dos chópings? E tudo segue, no dia 26 abrem os saldos e as multidões reiniciam o seu caminho de cigarras. O vazio (versão portuguesa do conradiano “horror”).
[Fotografia de inscrição ao Teatro Politeama, Lisboa, Dezembro 2009]
3. A gula. Crise? E é um “trocadilho” fácil, o com esta campanha de época, o tome atenção aos AVCs que encheu os painéis das cidades. Crise? Só se for a da gula, essa motriz dos AVCs. No fundo o símbolo da Europa Ocidental, obesa, no seu estertor. As causas? Exactamente a tal falta de visão, de preocupação. De razão. Tudo isso do a cada um o seu sapatinho, e nada mais … Aliás, a cada um o seu sapatão.
4. Paulo Duarte, afirma-se de origens humildes, foi um futebolista modesto e não enriqueceu, é agora o seleccionador do Burkina-Faso. Deu uma entrevista ao jornal Record. Interessantíssima, muito para além do patois futeboleiro habitual. De como olha o país africano para onde, surpreendentemente, foi trabalhar há já dois anos. E de como reconhece que para preconceitos era ele que os carregava ao início. Mas mais do que isso, também ele de longe a re-olhar os seus patrícios: “Se as queixas, por isto ou por aquilo, fossem modalidade olímpica, os portugueses estariam cobertos de ouro. Somos muito assim. Completamente. As dificuldades da vida são muitas, para toda a gente, mas há coisas que não podemos esquecer: a maior parte dos portugueses que vive mal tem uma casa, duas televisões, um vídeo, dois telemóveis, dois carros, um emprego, mal remunerado mas temos, tem água, tem luz, tem gás, tem comida na mesa, tem roupas adequadas ao clima. Com maior ou menor dificuldade, chegue o dinheiro ou não ao fim do mês, tem isso tudo“. Sei que é muito fácil apupar este tipo de visão. Mas seria conveniente que os habitantes de um país que não produz o que tanto consome pensassem um pouco no facto de que a sua ladaínha lamurienta não encanta (enfeitiça) os que de longe os assistem. Fica o meu desejo das maiores felicidades a Paulo Duarte, homem a pensar. Força Burkina-Faso!
5. Quadra natalícia: Eu também! Pois se o mito sublinha o amor transposto para o espírito de dádiva neste emigrante o real é a volúpia da posse, sacos de auto-prendas esquecendo-me dos “entes queridos”, esvaziando-me o porta-moedas extinto que foi, e já em tempos, o cartão de crédito, malfeitoria ocidental. Malditas livrarias ….
6. Saúde. Viver em flat e enfrentar tantas proibições tabagísticas em locais públicos: assim a fumar bem menos.
7. Oferta infantil. Uma enorme oferta de espectáculos e actividades infantis. Gloriosa. Diz quem sabe que este Corcunda de Notre Dame foi do melhor que já viu, e já viu várias coisas.
8.Cultura. Na revista “Os Meus Livros” (nº 82, ano 7, 12.2009) a coluna “Caldeirada de Letras” (p. 52) contém um acertado texto da autoria de Luís Graça: “Astérix Ortografix“. A propósito da edição do “O Aniversário de Astérix e Obélix, o Livro de Ouro” (fraquinho, já agora) uma crítica as novas traduções dos nomes das personagens, um incompetente ataque à tradição asterixiana. (Algo que em tempos já aqui referi).
9. Surpresa. Encontro o Bartis (ok, o Bar Artis) reaberto. Um ícone do Bairro Alto, ali à Diário de Notícias, agora com nova gerência (propriedade dos donos do velho restaurante “Sinal Vermelho”), a vender apenas produtos portugueses (quer um whisky, um gin, um vodka? Beba aguardentes vinícolas – aprecio o acto). Mas mais do que isso – e ainda que lamentando isso do balcão estar agora ao fundo da sala – de louvar a reabertura de um local biográfico. Mesmo que já sem o seu velho proprietário, o célebre Mário, e – aí sim, lamentavelmente – desprovido da lendária Paula, rutilante alma. Mas está lá o Bartis ….
10. Inteligência: a primeira auto-prenda, logo no dia da chegada, este “De Marx a Darwin. A Desconfiança das Ideologias” (Gradiva, 2009), um para mim desconhecido livro de Onésimo Teotónio Almeida. O autor é um homem inteligente, o livro idem. Uma delícia, sobre paradigmas cientificos, suas características e limites, e ainda da hipotética relação da ciência com a religião, da ética com a lei. Para mais muitíssimo acessível (efeitos da tal inteligência). Deixo uma citação. Que é letal para alguns meio lusos, e não é preciso recuar ao guterrismo: “Nem tudo na ética está codificado na lei, a lei civil é apenas a imposição da obrigatoriedade de uma ética mínima para o funcionamento das sociedades. Mas se a ética transcende a lei, e por vezes choca com ela, ambas têm os mesmos alicerces. Os debates legais resultam de confrontos entre valores éticos, de combates morais, e nem todos conseguem reunir consensos que se traduzem no estabelecimento de normas legais (ou, pura e simplesmente, de leis sancionadas pelos tribunais e pelas forças do Estado que velam pelo seu cumprimento), contudo muitos valores morais não precisam de ser codificados em lei. Há normas éticas aceites pela maioria que nunca foram consignadas em nenhuma legislação. Os ventos da história e o rumo de cada cultura acaba conseguindo para esta ou aquela norma ética um estatuto legal. Mas nunca a lei cobre todo o domínio da ética, até porque nela, a ética, há um mínimo que suporta legislação (o domínio do dever), porém existe um outro bem mais vasto, o da virtude – a arethé grega – que não poderá nunca ser legislado.” (125)
11. Drama. Rui Santos sobre o Sporting. O jornalista em causa capta pouca adesão – como o prova o baixo número de subscritores das suas incessantes petições informáticas, abundamentemente publicitadas em inúmeras horas televisivas (basta compará-las com as petições lançadas in-blog para comprovar essa sua fragilidade). No entanto a sua denúncia sobre a destruição do Sporting Clube de Portugal por parte do núcleo socioeconómico, em tempos albergado sob o epíteto “Projecto Roquette”, é inultrapassável. E de registar pois estabelecida em jornal de grande divulgação. E, por extrapolação, diz muito sobre o Portugal de hoje, esse da cega aceitação de auto-anunciadas elites sublinhada pela “falta de alternativas”.
12. Capitalismo. A edição portuguesa está pelas “ruas da amargura”. Sob a tutela dos interesses comerciais, de grupos editoriais desligados da cultura (e, porque multinacionais, do contexto nacional). E esmagada pela pressão oligopolista dos grandes potentados livreiros, também eles apenas virados ao lucro. Assim se apaga a hipótese da edição ensaística e apenas subsiste a chamada “literatura leve”, a capa brilhante, o conteúdo inexistente, a forma “plana” – em particular expressa nos registos da “exo-ajuda” e do chamado “romance histórico”.
Prova dessa superficialização produzida nas grandes superfícies encontro-a na FNAC do Chiado, chego à secção dos livros e deparo-me com o primeiro escaparate – aquele que me recebe e me despedirá, dentro de algum tempo, portanto o que mais apelará à aquisição. Uma das faces para a literatura nacional (prosa) considerada relevante (os peixotos, cachapas, saramagos, lobos antunes, tordos e torgas e isso). A outra face de prosa estrangeira, e não resisti a transcrevê-la, para aqui comprovar o “estado da arte” a que se chegou, do esmagamento cultural por via do comércio (do capitalismo, por assim dizer). São 18 colunas, cada qual com quatro livros, novas edições (traduções) ou recentes reedições. Por mim recenseadas, como denúncia. Apresento apenas os autores, para economia de ma-schamba. Eis então o painel do escaparate melhor situado:
1. Bernhard; Bernhard; Mishima; Mishima. 2. Beckett; Walser; Walser; Mme Lafayette. 3. Hesse; Hesse; Jane Austen; Jane Austen. 4. Hemingway, Dumas, Diderot, Dickens. 5. Iris Murdoch, Iris Murdoch, Rilke, Colette. 6. Susan Sontag, V. Wolff, V. Wolff, Lampedusa. 7. Thoreau, Flannery O’Connor, Orwell, Orwell. 8. Maugham, Mann, Beckett, Mailer. 9. Daphne du Maurier, Céline, Saint-Exupery, Walty. 10. Flaubert, Yourcenar, Yourcenar, Hsek (?). 11. Kafka (X4). 12. Aitmatov, Kafka (X3). 13. Jack London, Boris Vian, Victor Hugo, Lautréamont. 14. Proust, Proust, Calvino, Calvino. 15. Calvino (X4). 16. Calvino, Pasternak ,Turgueneev, Gogol. 17. Tolstoi, Zweig, Svevo, Bulgakov. 18. Dostoievski, Dostoievski, Lidmila Ulitsvaia (?, será assim?, não conheço), E. Waugh.
Lastimável. Esta prática comercial, esta subjugação editorial. O primado da mediocridade. Efeitos, necessários entenda-se, do capitalismo. Vil.
13. O Charme Discreto da Burguesia. Olivais-Sul, Lisboa, Dezembro de 2009.
14. Império. A Ler (nº 86, Dezembro de 2009), coluna “Booktailoring”, de Paulo Ferreira e Nuno Seabra Lopes. Procurando um registo cómico em futebolês (o dia em que os humoristas escreverem em raguebês ou golfês será bem arejado…) o texto ”Um jogo entre linhas“ que aponta os “jogadores mais influentes do mercado editorial português em 2009“. Não vou discutir os critérios. Apenas o eco da minha reacção: “tenho que ter cuidado, pareço da patrulha ideológica“, resmungo-me. Pois na “selecção nacional” deles lá estão o Agualusa e o Mia Couto. Sim, eu sei que na selecção de futebol estão o Liedson, o Pepe e o Deco. Mas nesta, na literária, não há brasileiros. É, na cabeça dos humoristas, uma selecção portuguesa de Portugal, mas afinal uma transpiração da pobre lusofonia. Ou seja, e isto muito para além dos escritores em causa, da cabeça dos humoristas ninguém retira(ou) o Império. Nem na Ler… Absurdo. Mas um absurdo sintomático.
15. O jornal I é o melhor jornal nas bancas. Já no Verão passado me parecera tal. Agora confirmam-me tal alguns amigos. Alguns até acompanham a opinião com um “é de direita mas …”. Mas digo eu, que o vejo sem publicidade e oferecido nas bombas da Galp. Mau sinal? A ver se se aguenta …
16. Delícia. Inúmeras bancas de livros em saldo (aliás, monos), um “apelo às dádivas”. Nelas sempre se encontram exemplares desta bela colecção “Horas Extraordinárias” que o Independente foi publicando há alguns anos. Cada vez que em Lisboa lá carrego alguns. Agora é a vez (a 2,5 euros, imagine-se) de adquirir este saborosíssimo “Bilhetes de Colares de A.B. Kotter (1993-1998)“, “porventura” de José Cutileiro. Obrigatório regressar a esta Quinta da Beldroega, sita na Várzea de Colares, seus habitantes e visitantes, ponto máximo de observação deste país. Pelo olhar-mestre do Senhor Doutor Kotter, traduzido pelo ex-comando J. Fonseca, fiel à máxima de que “Como a leitora sabe, eu nunca me imiscuo na política deste maravilhoso país que tão generosamente me acolhe no seu seio. Não cabe a um estrangeiro fazê-lo; menos ainda a um estrangeiro sem razões de queixa.” (66). Ainda que com ele se possa discordar, por vezes, como aqui: “Já tentei explicar-lhe que o snobismo não é tão mau como parece porque, vistas bem as coisas, sempre é o contrário da inveja…”. Discordância que, se seguida, levaria por caminhos muito diversos. Mas mais do que a justificar a corrida aos monos…
17. Política. Nenhum dos meus amigos – desses que cada vez menos encontro -, nenhum dos meus familiares, nenhum dos teclistas lidos in illo tempore, enfim nenhum desses que tanto vituperaram (vituperámos) o “fontismo” cansado, travestido de “desenvolvimento”, do primeiro-ministro Cavaco Silva tem agora uma palavra irritada contra o proto-fontismo de José Socrates. Mas para quê falar, se é para falar encastrado?
18. Jonhy Lyndon (ex-Rotten). Amália. Coração Independente (no CCB). Não sou um amaliano, ainda que nela possa actualizar (reconheço, até acabrunhado) a expressão “de ir às lágrimas”. Pois ainda que não o seja (amaliano) saí preenchido da exposição. Para logo quem ali a meu lado me iluminar, como sempre na vida, num até desdenhoso “não aprendi nada”. E é isso, saio do amalianismo (no meu caso amador) e constato, a exposição não é um diálogo com Amália, é uma missa (certo, a haver divindade que seja ela), apenas uma missa. Ela adoraria. Mas está morta, não haverá outra forma de ser olhada?
Depois o tal diálogo com a mulher, a personagem, a artista, o mito - que se pretenderia? – é atirado para um “posfácio”, de arte contemporânea. Nesse pacote, mas que assim surge externo, in-dialogante, um bailado (Ana Rito) muito interessante, a peça de Joana Vasconcelos também. E uma instalação visual óptima de Bruno de Almeida. Mas mesclado com coisas-obras a parecerem modismo para “espantar a classe média baixa”. Francamente, não há paciência para quem atira um xaile para o chão e diz “arte!”. Olhar um cilindro branco com espelho atrás, “um artista (Amália) solitário no palco”. Em 2009? Ali tanta ruptura, tanta inovação como o busto realista atrás apresentado (Joaquim Valente), coisa de meados de XX, que foi muito ao gosto da representada. Honestamente uma desilusão. Pelo auto-centramento da exposição, que se pretende encantória. E pela tralha avulsa que se lhe colou à maneira de olhar actual – com as excepções referidas. Sempre me convenço que o epíteto “contemporâneo” faz eclipsar o espírito crítico, analítico. Cilindros brancos, mesas luz com banheiras coloridas, peças atiradas no chão. Hoje?
Coisas que sempre me fazem lembrar aquela entrevista do Jonhy Lyndon (ainda Rotten?) ao Philippe Manoeuvre, publicada na Rock & Folk cerca de 1982. Dizia o Rotten: “ser punk em 1980 é igual a ser hippie em 1976″… Xailes no chão?!
19. Sahara Ocidental. Uma militante esteve em greve de fome defendendo a causa do Sahara Ocidental, protestando contra a ocupação marroquina. A representação diplomática de Rabat em Lisboa concedeu uma entrevista ao jornal “i”, anunciando que Marrocos é “o polícia da Europa”. O silêncio europeu face à ocupação colonial do Sahara Ocidental passa por esta “política real”. Confesso que nada sei sobre a situação efectiva na região (no país, por outras palavras), acredito até que o terrível fundamentalismo “alqaediano” seja um papão agitado por Marrocos para colher o apoio à sua velha expansão – como os leitores saberão ninguém falava de Al Qaeda e muito poucos falavam de “fundamentalismo”/”integrismo” islâmico quando Marrocos procedeu à ilegal anexação daquele território. Ou o seu inverso.
Mas enfim, são contas do difícil e imbrincado rosário da história. A mim interessa-me a reacção em Portugal. Nos jornais e na TV, nas conversas, ninguém ecoa a posição do Estado - o qual desde o governo Socrates assumiu a posição mais próxima da política colonial marroquino. É óbvio que o “distante” assunto a ninguém interessará, Marrocos está nos confins, parece-me até antípoda. À esquerda ninguém diz nada, nem mesmo o BE, onde Marrocos será quanto muito o locus de umas ganzas a legalizar, que isso dos princípios é uma canseira. O PCP silencia, mas é óbvio: para um partido sempre ao lado dos poderes coloniais e dos regimes monárquicos não se deveria esperar uma interrogação sobre a política diplomática portuguesa nesta questão. Ninguém questiona a questão. O fait-divers da senhora à fome acabou, entretanto o escritor José Saramago foi lá apoiar (à revelia do seu partido, à revelia de António Costa, o socialista de quem é apoiante) porque é uma ”causa justa” e pronto. Aliás, prontos …
20.Excelência. No canal Mezzo (que pena não haver em Maputo) um fantástico programa sobre Rafael Campallo, bailarino que desconhecia. Grande, grande …
21. O Antigo Regime. O álbum, merecido, celebrando o centenário da Escola Secundária de Camões (ex-Liceu Camões). Ainda que me arrepie sempre que ouço loas ao dito liceu (apesar dele próprio). Que é sempre agitado como se ícone dos “bons tempos” em que havia cultura, e educação que a sustentasse e reproduzisse, em Portugal. Ou seja, antes do povo estudar e, até, gerar professores. Tudo isso em discursos de ”progressistas”, até gente oposicionista germinada no velho Liceu – mas que verdade, verdadinha, suspira por trechos do dr. Salazar, em particular aquele de que ao povo basta ensinar a contar e a assinar. Quebrado isso ficámos como estamos. Que “eles” até a “doutores” vão.
22. A desistência. Visito, acompanhando uma ínclita comitiva, a exposição do fotógrafo Korda. Celebrizado pela iconográfica fotografia de Ernesto Guevara, de sua autoria. Muito interessante, pelo que demonstra da produção do culto de personalidade do ditador comunista Fidel Castro, do qual Korda foi acompanhante durante a década de 1960s. Fantástica a sua entrevista, a forma como glorifica o próprio Ernesto Guevara, um absoluto contrasenso (assista-se às suas declarações, elogiando a “punição” que Guevara lhe fez).
Fidel Castro como ícone, até bíblico. A mão na terra produtiva, a pegada de Fidel, o seu “gigantismo”. A sua beleza sensual. Fascinante, como interpretável. Como produto e produtor de fascínio.
Certo que se Korda fosse eslavo ou han teria tido problemas, acusações de “cosmopolitismo” (como aventou um amigo meu) não lhe faltariam. Basta ver esta fotografia, onde duas presumíveis beldades, até lânguidas, escutam no escuro as palavras solarengas do comandante, deixando imaginar outras prédicas, mais íntimas. Coisas deste discurso construtor do “fidelismo”, de Fidel Castro, muito dadas ao tom local, mas também à específica característica de Korda.
Mas para além dos seus méritos estéticos e jornalísticos surpreende que esta exposição, demonstrativa da arte glorificadora de Korda, que surge sob tutela da também estatal Casa da América Latina num espaço também estatal (Cordoaria Nacional), seja apresentada sem qualquer contextualização distanciada, sem referência enquadradora. Nada nos textos que a acompanham, talvez (mas desconfio que não) no catálogo – que muito presumivelmente será apenas encomiástico. Espantosa desistência. Dias passados comento esta minha estranheza numa mesa polvilhada de académicos, a nenhum pareceu estranha tamanha distracção “fidelista”, obviamente significante. Nem mesmo quando lhes disse ser Korda um pouco a Leni Riefenstahl do regime cubano, ou que diante de qualquer produtor de mitos e ícones se presume criar distância cognitiva, não apenas fascínio e adesão – coisas que tão bem “sabem” para outros casos. Um simpaticíssimo alto quadro do ministério da Cultura, ali entre variados acepipes, rematou que “a exposição é daquelas que se recebem”. E pronto! Desistência, pura e simples. E a gente assiste.
23. A gravata. Penso que foi no jornal “Sol”, uma pequena nota irónica sobre Francisco Louçã. Que o coordenador do BE aportara no parlamento usando gravata, ao contrário do seu significante traje político, esse que reclama dessassombro (e, claro, posição de classe). Para logo nos “sossegar”, afinal era apenas o dia em que o deputado cumpria provas públicas académicas e nesse campo fazia questão de cumprir as normas de vestuário. Passa tudo num sorriso, as pessoas dirão que é do espectro das decisões pessoais, etc. Mas este pequeno episódio, o respeito pela gravatinha no seio da corporação profissional ao invés da liberdade encenada no traje política, este pequeno episódio mostra bem a hipocrisia do senhor professor. O corporativismo fala mais alto, em maquilhagem de pequena-burguesia.
24. O escritor de escaparate. Já no pós-Natal mas ainda a caminho de mais uma comensalidade pantagruélica. No rádio do carro, enquanto subimos ali em Monsanto, capta-se uma conversa com escritor – desses que está em todos os escaparates natalícios, diga-se. Diz ele, face a pergunta da radiofónica voz: “a literatura é o que tem que ser!”. Abismado com tanta profundidade aumento um pouco o volume, para ouvir no que aquilo irá dar, e logo ouço mais uma pergunta “V. disse no seu blog que a literatura portuguesa não é apoiada pelas livrarias. Que vontade de escrever isso lhe dá?”, ao que responde o escritor, voz arrastada, sofrida, ”Nenhuma“. A meu lado, enfastiada, a senhora pergunta-me “queres ouvir isto?” e eu, mais assim como eu, logo riposto: “tira essa merda!”.
25. Envelhecimento. Ligo o carro e na rádio reconheço os acordes da “Fanfarra para um homem comum” e logo surge a “You can’t always get what you want” dos Stones. Elevo, e bem, o som e segue a canção-ícone, rock-barro da minha gente. Acto contínuo a bela rapariga a meu lado põe-me na boca …. uma castanha assada.
26. Tetro, de Coppola, é um soberbo, lindíssimo, filme sobre Buenos Aires. Fantástico. A história é um pastel, a deriva patagónica um must de pirosice. Convém ver. Mas sem som nem legendas.
27. Cardinalice. O Cardeal de Lisboa invectiva a “indiferença, agnosticismo e ateísmo” na sua homilia natalícia. Interrogo-me onde vai ele buscar essa ideia da igualdade entre “indiferença” e “ateísmo”. Que ”indiferença”? A prática, a ética, a solidária, a reflexiva? Um argumento vácuo, inaceitável, e que não cola com a imagem de profundidade intelectual que Policarpo sempre apresentou. Sem rodeios, é uma parvoíce ao nível daqueles que reduzem a igreja católica a fogueiras da inquisição e a erecções pedófilas. José Policarpo tem o direito (em determinada acepção terá até o dever) de combater o ateísmo e o agnosticismo. Mas tem toda a obrigação de matizar as suas argumentações e invectivas. E exactamente quando a sociedade presta homenagem a Manuel Clemente, bispo do Porto, enquanto homem de cultura elogiando-lhe a fina análise. Um deslize cardinalício, ao invés do momento vivido. A colher, claro, o silêncio do comum …
28. Homem em Fúria, de Tony Scott, competente filme de TV. Seria uma excelente peça de cinema de samurai, acho, não fosse o seguidismo ao paradigma psicologista, assim desvanecendo a profundidade abissal do protagonista. Um diálogo excelente: “Velho: Na igreja dizem que devemos perdoar; Creasy (Denzel Washington): Perdoar-lhes é com Deus. O meu trabalho é proporcionar-lhes o encontro.”
29. Acordo Ortográfico. ORecord é o jornal que logo aderiu ao Acordo Ortográfico. Se dúvida houvesse sobre o substrato intelectual desta parvoíce provinciana a entusiasmada adesão de tão pobre jornal cessa qualquer hipótese de dúvida. Eduardo Pitta acha que os detractores do Acordo Ortográfico são “encenadores” que dão pontapés na gramática, e com ele concorda Filipe Nunes Vicente, outro grande-bloguista. Recordo que as maiores polémicas neste ma-schamba vieram desses meus actos pontapeadores e, envergonhado, lamento-os bem como à falência das minhas tentativas teatrais. Vou ali ler o Record – pode ser que por lá me expliquem que esta deriva homográfica lusófona nada tem a ver com um fundo tonto de apelo à gesta da “presença” e “expansão” da língua portuguesa, que nada tem a ver com a inexistência de verdadeira reflexão económica sobre os seus futuros resultados para a edição internacional em português (mas apenas em “desejos pensantes”), que nada tem a ver com a tonta e iletrada ideia feita da distinção radical entre a fala e a escrita (a “escrita é uma convenção” dizem os imbecis, convictos que a fala, em última análise, não o é; a “grafia não influencia a fala”, dizem “professores” sem perceberem que assim invalidam a sua tarefa).
Bem, pelo menos parece o Miguel Veloso marcou um golo e diz-se que vai para a Fiorentina ou Barcelona, e o jornal deve falar disso …
30. Decadência Nacional. Cada vez mais difícil, talvez até mesmo impossível, encontrar uma “bica” (aliás, “café”, “expresso”, “italiana”) decente. Os estabelecimentos comerciais especializaram-se em servir zurrapas. Café Chinês?
31. Família. Em dois dias seguidos dois artigos interessantes, os de Miguel Pacheco, “Não São Sermões Sobre a Vida Íntima e Martim Avillez de Figueiredo, sobre a questão da “família”. Em ambos choco com este meu preconceito, o de que o discurso jornalístico aparece mais superficial do que o académico ou de reclamação intelectual. É aqui o inverso, total. Pois em ambos é explícita a ideia, ao contrário dos discursos dominantes, da necessidade e da virtude da família. Ultrapassando as velhas querelas hiper-liberais e hiper-marxistas, da família como local agente de repressão e reprodutor da exploração, do maléfico Pai-Padrasto Castrador e da malvada Mãe-Madrasta Castrada Castradora, do discurso da libertação do sacrossanto indivíduo face às algemas comunitário-familiares, da ultrapassagem da repressão por via do sacrossanto Estado-sociedade, local de protecção, produção e reprodução. Afinal instituição virtuosa, falível claro, de produção e interacção de valores sociais.
Há quem chame a isto conservadorismo. Lembra-me o Jonhy Rotten (já Lyndon?): “ser punk em 1980 …” (onde é que eu já li isto? …).
32. Frases feitas? Um repasto, entre antropólogos e excelsas iguarias, no caminho entre enchidos fidedignos, sopa de rabo-de-boi, conduto incomensurável, doçaria relevante, reservas variadas e vintages culminantes. Algo a que, ali, estou há décadas habituado. Com emigrantes à mesa a conversa passa ao “estado do país”, claro. Donde ao casamento homossexual, que o resto foi resumido, como sempre, num “isto está mau” – mas que ninguém interprete este condicionamento do discurso popular como uma estratégia do governo, que é de esquerda, donde bom. Pessoa que há décadas muito me é querida e também minha mestra nas coisas antropológicas, talvez até causa quase-única desta minha formação, remata-me “O casamento é um contrato entre dois indivíduos“. Vacilo, e partirei destruído para casa. Pois se vindo de quem vem aquele libelo individualista … tudo aquilo que estudei, da reprodução estratégica de laços de filiação e de descendência, de articulação entre grupos sociais, de transferência de património (em sentido lato), de composição e recomposição familiar, tudo isso para onde foi, o que era? Nada, afinal a nossa sociedade é apenas um campo onde interagem indivíduos, livres, racional e radicalmente autónomos que contratualizam. Virtuosamente.
Vindo de quem vem? Já no carro, ao volante, entre a azia silenciosa e a flatulência reprimida, constato-me duas décadas de vida profissional enganada. Novo ano que aí vem – e até já veio – exige-me pois vida nova, profissão nova. Pois se a outra, a da até agora, inexiste afinal. Não dormirei, e desde então a insónia constante. Para onde ir? Que fazer? Ou antes, com que indivíduos contratualizar?
33. Ideias Feitas?. “À mesa, entre antropólogos e excelsas iguarias, no caminho entre enchidos fidedignos, sopa de rabo-de-boi, conduto incomensurável, doçaria relevante, reservas variadas e vintages culminantes. Algo a que, ali, estou há décadas habituado. Com emigrantes à mesa a conversa passa ao “estado do país”, claro. Donde ao casamento homossexual – que o resto foi resumido, como sempre, num “isto está mau” – mas que ninguém interprete este condicionamento do discurso popular como uma estratégia do governo, que é de esquerda, donde bom. Pessoa [outra] que há décadas muito me é querida, e também minha mestra nas coisas antropológicas, talvez até causa quase-única desta minha formação” [in blog ma-schamba, post "(N)A "Pátria Amada" (ponto 32)], explica-me, simpática e até solidária com as minhas falhas de formação (e tantas ela colmatou nos bons velhos tempos), a diferença entre o matrimónio religioso, de vínculo indissolúvel, e o casamento civil, coisa moderna e passível de ser dissolvido. Por opção própria, por economia de discurso, não lhe dá nenhum enquadramento de história institucional, mas não posso aprender tudo no mesmo dia. Estava eu, portanto, a ouvir pela enésima vez esta profunda argumentação – e ainda não tínhamos chegado à questão das sufragistas, mas haveríamos de lá aportar – quando um conviva comensal rematou, glorioso: “vínculo indissolúvel?! Ah, mas isso é o que defendem os sindicalistas!! Afinal são iguais, a Igreja e os Sindicatos“.
Um vintage, este meu amigo, há décadas que vai vintage! Pena é que não meu mestre …
34. O cadáver da Antropologia. Ao sábado ouvir Bach na Gulbenkian, ao domingo Haydn no CCB. Para além do encantamento da música – um registo em que me perco completamente, por falta de capacidade interpretativa, uma delícia – deixo-me, como sempre, a “olhar” público e músicos. Olhar esta disciplina, que faz milhares de músicos aprenderem a reproduzir e interpretar partituras de tons e sons velhas de séculos, atentos às suas diversas matizes, e ainda, até, criando-lhes novas formas. Disciplina que passam a milhares e até milhões de ouvintes, que vão sendo treinados a escutar (alguns até a entender). Disciplina essa a qual poderá ser chamada “civilização”, forma vasta de controle, molde gigantesco de sentir e ser. É um fim-de-semana bom para isso, isto de partilhar espaço civilizacional com patrícios relativamente diversos – nas formas do saberem os seus corpos, de controlarem tosses, espirros, flatulências, agitações, sentimentos, amores, aplausos. Mais “burgueses” à Praça de Espanha, mais “populares” (menos “cívicos”, menos ”civilizados”) em Belém, que tudo isto é um processo longo de aprender.
Mas de repente, ali a meio da Criação, de Haydn, entre tosses múltiplas e aplausos fora-de-tempo no seio dos ainda algo in-disciplinados, lembro-me da minha queridíssima amiga e mestra. Que é isso? Questionar-me sim, mas apenas sobre as contratualizações que ali nos uniam. Nada mais há a questionar, a inquirir. Paguei bilhete, é o meu contrato. Outros pagaram ainda impostos, é outro contrato. Todos comprámos produtos dos patrocinadores, mais contratos jurídicos. E basta, deixo-me a ouvir a música, incompreendendo. Feliz.
35. A cremação da dita e ainda das suas primas. O Jornal de Letras, já institucional presença. Tem defeitos, mas é melhor que exista. Muito estatal, no ponto de vista, nas formas de associação e financiamento. Também por isso local dos sinais dos tempos. Na última edição (nº 1024) vários artigos sobre a década agora terminada, “dez anos de letras, artes e ideias“. Extensas indexações de poesia e prosa literária, artes plásticas, música erudita e pop, cinema, dança e teatro. Ambiente, ensaio e ideias (sobre estas dois textos) também. Não discuto os critérios, gente sábia a escrever. Mas surge-me questão. No mundo das “ideias” ainda há referência para uma ciência social, a História. Até par as sua versão história intelectual (já agora, saúdo as referências a obras que me são bem queridas, “História do Pensamento Filosófico Português”, coordenada por Pedro Calafate, “Portugal Extemporâneo” de Carlos Leone). Depois … Eduardo Lourenço, mais alguns ensaios, o “Portugal Medo de Existir” (“os portugueses são …”).
Entenda-se, dois artigos sobre “ideias”, um sobre “ensaios”. Nem uma referência a trabalhos portugueses de Antropologia, de Sociologia, de Psicologia, de Geografia, de Linguística, de … olhando bem nem de Economia, nem tampouco de outra área de investigação. Ideias durante a década? Ideias sobre Portugal e sobre o mundo? Nada a referir. [Vou escrevendo e pensando que sobre Ciências Exactas/Naturais idem, idem. Mas haverá ideias aí?, dirão os especialistas do JL].
É o Jornal de Letras! Sinais dos tempos? Claro, como comprovei nesta minha deslocação.
36. Inhambane. Para lá sigo. Intentando, entre sol e calma, encontrar um novo rumo. Entenda-se, novos contratos. Apenas jurídicos, claro.
O maior dogma da vida moderna nas sociedades modernas são os filhos – tê-los, criá-los, torná-los adultos e prepará-los para a vida. Já falei sobre isso antes aqui. Para além de estupidamente caro, acaba na prática por ser um processo inteiramente falível, pois os pais hoje não criam nem educam, apenas se limitam a pagar as facturas enquanto trabalham, ficando os filhos ao abandono das créches, das escolas, dos amigos, da televisão e da internet. A relação familiar é algo que se forma no entretanto, pelo mero convívio e a experiência comum, seja ela boa ou má.
Digno de uma boa novela de Charles Dickens.
Mais interessante é a constatação de que, para além do resto, os meninos e as meninas cada vez ficam em casa dos pais mais tempo. Presumivelmente à custa dos papás e das mamãs. Como curiosidade e via o Economist da semana passada, o Eurostat, uma fábrica de estatísticas da União Europeia, publicou os dados que acima se reproduzem, respeitantes a 2007 (portanto antes do recente tombo na economia mundial).
Se bem que mais ou menos dentro da média, os dados indicam que os meninos e meninas portugueses naquele ano ficavam a viver com papá e mamã (ou, com quase a mesma frequência, o papá ou a mamã e mais com quem os respectivos vivem) até quase aos trinta anos de idade.
Trinta anos de idade.
Ou seja, para uma pessoa de meia idade em Portugal (45 a 55 anos de idade) isto representa uma embatida tripla: suporta a compra de uma casa, um carro etc, suporta os filhos até eles terem cerca de trinta anos de idade e ainda suportam os pais, que em Portugal recebem em média reformas de 300 euros por mês.
Quando chegar a sua vez de deixar de trabalhar, não poderá, pois mesmo que quisesse, não poupou nada. Gastou o que tinha e não tinha com a geração acima e a geração abaixo. Que agradecem. Ou não.
Isto faz-me pensar como os tempos mudaram – e dizem-me que não sou exemplo, por ter “saído de casa” cerca dos 15 anos de idade (em parte fruto de inesgotável e interessada generosidade de vários terceiros) e ter começado a trabalhar mais ou menos a tempo inteiro aos 18 anos de idade, incluindo o pagamento das propinas de duas universidades, carro, roupa, comida, etc.
Nos anos 70 éra-se adulto aos 21 anos, com direito a festa com os amigos e até uma “chave dos 21 anos”. Até aí se tudo corresse bem os pais gastavam algum dinheiro com casa, comida e a roupa lavada para a criança/adolescente/jovem adulto. Os estudos eram estatais e com algumas excepções custavam pouco ou nada. Não havia vícios nem necessidades prementes fora disto. Quando acabavam o liceu ou a universidade, e nalguns casos antes, os jovens iam trabalhar. Viviam como podiam e acampavam juntos até haver dinheiro para se fazer mais alguma coisa. Primeiro alugavam um buraco algures, depois tentavam fazer vôos mais altos.
Hoje, é a atitude subjacente a esta permanência prolongada em casa dos progenitores que me chama a atenção.
De certa maneira, convencionou-se aceitável, efectivamente, prolongar a adolescência até aos vinte e tal, trinta anos de idade.
Parece que se pode ter a prerrogativa da vida adulta mas sem os custos, as responsabilidades e os sacrifícios inerentes.
Sendo que, paradoxalmente, hoje em dia cresce-se mais depressa quer física quer emocional, quer intelectualmente que há trinta ou quarenta anos atrás. Ou seja, tirando ao pequeno aspecto de não trabalharem nem terem fundos próprios, os jovens ficam adultos mais cedo.
E hoje os “requisitos de vida normais” para um adolescente ou um jovem adulto são muitos e o seu custo quase astronómico enquanto adicional do que uma casa gasta normalmente.
Os pais, às vezes não sei bem como, pagam tudo.
Mas na esmagadora maioria dos casos há uma barreira que não se pode atravessar: a maior parte dos pais simplesmente não tem recursos suficientes para comprar ou alugar uma casa para o seu rebento de 20-30 anos de idade fazer, também à sua custa, o que bem lhe apetece.
Portanto os meninos e as meninas ficam em casa dos seus pais, numa convivência nem sempre consensual ou saudável.
Frequentemente, adiando a reboque disto tudo a decisão de constituir família, agravando a cada vez mais grave (na Europa e em Portugal) implosão demográfica agora em curso.
Mesmo que estes jovens arranjem um dia uma casa (depois de sair de casa dos pais) terão durante muito tempo a chance de comprar ou alugar um apartamento de uma ou duas assoalhadas, o que dificulta a decisão de fazer crescer a família.
A saída dos filhos de debaixo do ninho familiar não é apenas uma questão logística: é um rito e uma parte fundamental do processo de afirmar a sua independência e de aterrar no mundo real, sem a participação e interferência constante dos pais.
Que, por mais não seja do que serem quem os donos da sua casa e pagarem as contas a estas pessoas, podem interferir muito.
Tirando a oportunidade fortuita de ter uma desculpa para uma espécie de apresentação de cumprimentos anuais a quem de outro modo basicamente nada se disse durante todo o ano, já há muito tempo que não gosto do circo do Natal. Gasta-se dinheiro demais basicamente em coisas que de outro modo ningém no seu perfeito juízo compraria e muito menos ofereceria – e para isso já temos aniversários, sendo que o meu, em Janeiro, vem logo a seguir ao Natal, o que em termos logísticos me deixa em overdose nestes meses e depois em descanso obrigatório durante os restantes dez meses do ano.
Camarões tigre e bacalhau com natas misturado com bocados de camarão - uma novidade da Patroa
Além disso, apesar de ser tudo divino, nesta altura há comida a mais para tão pouco tempo. Eu gosto de comer tanto como qualquer pessoa, mas gosto de comer bem comedidamente. Hoje já não há nada de comedido na altura do Natal. Os jantares são de arromba e a casa transforma-se temporariamente numa pastelaria conventual de tal forma que constitui um perigo para quem não pode ou não deve comer uma série de coisas e que tenta manter um nível de peso normal.
Mais importante, o episódio do Natal ilustra de forma singular a evolução das relações familiares (nenhuma, alguma ou muita) e a entrada do consumismo ao nível familiar.
Normalmente, se as relações familiares não são de comentar durante o ano, no Natal tudo de alguma forma se exacerba – o bom mas especialmente o mau. Eu, infelizmente, sempre fui particularmente sensível ao mau, que tende a contaminar o (pouco de) bom. Um gesto, uma palavra, uma atitude basta, para me fazer pensar que tão bom seria se eu estivesse, em vez de naquele convívio meio forçado, a pescar sózinho com um esquimó no Pólo Norte e a falar do degelo glacial. A ocasião acaba por ser o mesmo que durante o resto do ano, só que mais assim e com as pessoas e as situações à nossa frente para o confirmar.
Quanto ao consumismo, representado pelos “presentes” que se dão e recebem nesta altura, pelo menos no meu caso, já há muito tempo que se passou daquilo que eu considero razoável, e tenho a impressão que isso se passa com muita gente. Para além do caro, do supérfluo, do inútil, do despropositado e do exagerado (os miúdos tipicamente recebem um absurdo em termos de brinquedos, gadgets e equipamento electrónico), muita gente gasta o que não tem ou o que não deve nestes tempos incertos, num frenesim que no fim de contas não passa disso – uma espécie de febre que passa depressa.
Imagino que para muitos crentes cristãos todo este carnaval deve ser no mínimo desconcertante.
As boas notícias é que isto passa sempre e que acabamos por sobreviver este regurgitar colectivo mais ou menos como dantes.
Portanto, mais do que desejar aos exmos leitores que tenham tido um bom Natal, mais desejo que o tenham sobrevivido.
No meu caso, passei uma boa parte do meu tempo quietinho a criar uma coisa chamada The Delagoa Bay Company, um pequeno blogue sobre desporto de Moçambique e de “moçambicanos” quase todo antes da independência. Quase tudo só fotografias, do que apanhei dos tempos, desavergonhadamente incidente sobre o velho Grupo Desportivo Lourenço Marques. Mas tenta ter um pouco de tudo, desde imagens do Frank Martiniuk a meter um cesto pelo Desportivo, à Dulce Gouveia nos seus tempos de combate na piscina e no campo de basquetebol, e ao Mário Albuquerque a encestar pelo Sporting Clube de Lourenço Marques.
E acima de tudo tive o raro e grato prazer e a honra de ter pessoalmente oferecido ao JPT, Senador do Maschamba, as prendas que lhe eram devidas. Que foram reciprocadas com duas magníficas obras, uma delas da sua autoria, sobre Moçambique, o ficheiro dá pelo nome de pimmentel2003 mas a obra dá pelo mais prosaico título de Matuga no Mato: imagens sobre os portugueses em discursos rurais moçambicanos. Leitura de Natal neste blogue.
Esta, sim, uma ocasião de festa.
O pai Natal entrega uma dose de Reserva Sporting para o JPT enfrentar o resto da época futebolística do maior clube de futebol português a usar a côr verde
Agora tenho que me preocupar novamente com as coisas comezinhas da vida, tal como a enorme destruição que o temporal de alguns dias atrás trouxe ao meu reduto no Ribatejo, em que telhados, muros e árvores voaram com os ventos sentidos naquela zona.
Como dizem os franceses, Ah, la vie est belle mais les hommes dont cábe delle…
Dado o facto de que o Senador JPT está sem comunicações e a Sra Baronesa está neste momento molhando os pézinhos nas tépidas águas índicas que banham Goa, prossigo neste crescente solilóquio internético até que um se ligue e a outra tire o pé da praia.
Eu hoje quero referir um assunto a propósito das festividades natalícias.
O Natal era para o pequeno comércio português – e hoje é-o para as grandes superfícies de que a do Bill Gaitas Português (a Sonae Distribuição) é a maior – ou o sopro que salva o ano ou o chantilly que cobre o gelado.
Quando eu vivia nos EUA, era comum os meus amigos portugueses vociferarem o seu desprezo pelo que consideravam o excessivo comercialismo dos americanos no Natal. O que se tornava particularmente curioso pois a maioria deles nunca meteu lá os pés, pelo que deduzo que papagaiavam o que os intelectuais da praça cuspiam para os antecessores dos blogues – aquelas crónicas infindáveis que povoavam os jornais da praça.
Pois agora os portugueses copiaram tão bem os americanos que já estão quase em posição de lhes dar umas lições. Mesmo em tempo de vacas magras e com potencialmente 25 por cento dos que trabalham a perder emprego, o que se vê é o pessoal a gastar como se o mundo fosse acabar amanhã. Os comércios ajudam, vomitando música com temas natalícios para todos os espaços públicos e privados e mais algum, as autarquias gastam o dinheiro dos nossos impostos a colocar luzinhas e presépios na via pública, para ver se entramos no espírito das coisas.
As estações de televisão, que tiveram um annus horribilis em termos de publicidade (pior mesmo, só os jornais) a partir do fim de Novembro começaram já a passar uma impenitente sucessão de anúncios meio porno-eróticos, meio estapafúrdios, tentando impingir-nos a ideia de que a prenda ideal para quem não fazemos a mínima ideia do que oferecer nesta altura de dar alguma coisa, é dar um perfume com que a Charlize Theron é suposto estar borrifada quando ela entra num palacete qualquer nas vestes mais requintadas mas que caem rapidamente enquanto ela, já nua, caminha para o que, presumimos nós dirty old men que estamos a assistir, seja dar uma valente queca num toyboy qualquer na cama que está no quarto ao lado.
Ou o perfume “um milhão” do Paco Rabão, em que um tipo com ar de playboy meio duvidoso que estala os dedos e (mais uma vez) cai logo no chão a roupa de uma menina qualquer que está ali à mão. Pois , pois.
Ou aquela “marquesa” do Ferré Roché que pede ao Ambrósio que lhe apetecia “algo” e em que o Ambrósio, em vez de lhe dar o algo que todos achamos que apetece à marquesa, lhe dá umas bolinhas de chocolate na caixa mais amaricada que eu já vi na história da televisão e ela rebola-se de contente.
Ou ainda uma de várias marcas de whisky que, sendo bebida (dizem as minúsculérrimas legendas em moderação) com aquele grupo de malta porreira chique da boa, que a celebração é tanto mais divertida.
Pena que eu mal toque em álcool.
No Natal os bancos aproveitam para nos tentar convencer que os Planos de Poupança Reforma, que hoje são um relativo barrete fiscal, apropriado exclusivamente para quem não só não precisa de um mas que ainda tem dinheiro que sobre para fazer um – são coisa a não perder. Obviamente, obedecendo a um plano de ataque previamente preparado pelo departamento de marketing, o meu banco já me ligou esta semana. “Boa tarde sôr dótôr. Vimos saber se o dótôr já fez o seu pêpêérrezinho este ano”.
Se o meu banco não sabe se já eu fiz ou não o meu pêpêérrezinho para este ano, então quem sabe, não é? – pensei. Mas não disse nada.
De resto, as empresas de electrodomésticos, de telemóveis, de televisão por cabo, de cremes para tudo e mais alguma coisa, continuam o seu carnaval. Os anúncios dos cremes de senhoras aumentaram, o que me leva a suspeitar que no Natal isto também vende como rissóis quentes em dia de festa.
Na internet, já comecei a receber alguns emails um pouco elaborados e alusivos à efeméride. Mas, mais interessante, há dias notei (felizmente na caixa de Spam) um aumento na quantidade daqueles emails meio malucos a tentar impingir-nos doses maciças de … Viagra e afins.
Fui pesquisar um pouco e parece que o negócio dos químicos legais todos disparam no Natal e fim de ano.
Sinceramente, não sei bem qual é a relação do Viagra, que é suposto ser um perigoso químico para combater a impotência sexual, e o Natal. Não acredito que seja prenda que se dê a alguém (dentro de uma caixinha de Ferré Roché?) nem supunha que pudesse ser algo que alguém nos tentasse impingir através de emails não solicitados.
Será para a festa de ano novo? possivelmente. Aliás, numa dessas revistas com 400 páginjas de anúncios e que custam três euros e meio para o mercado feminino, que eu li enquanto esperava a minha vez de pagar as compras da comida no hipermercado do Continente de Cascais City há dois dias, vinha um artigo não assinado em que se referia pessoas algures em Portugal, que organizavam “Viagra parties” (cuja descrição poupo aos exmos leitores mas que envolveriam várias pessoas em várias situações em várias posições). Paguei a minha conta do supermercado distraído a pensar no que andavam a ler e fazer as donas de casa e as mulheres trabalhadoras deste país com os seus significant others.
Enfim.
Lá em casa, a árvore de Natal já está luzente e esplendorosa. Temos uma daquelas árvores de plástico, com o ar mais natural deste mundo, que tenho que ir à arrecadação uma vez por ano buscar, desempoeirar e montar, e, também uma vez por ano, desmontar e pôr lá de volta, juntamente com as caixas de berliquoques que se penduram na dita cuja no entretanto. Gosto tanto de empacotar aquela porcaria que já mais do que uma vez pensei em deixar a árvore montada na sala para o ano seguinte. Mas de facto lá para Maio a coisa começa a destoar.
Entretanto a Patroa já puxou do cartão Visa e comprou os presentes para o agregado e cia. Eu nunca compro nada para ninguém, a não ser seja obrigado e tirando o que já anunciei aqui. Para mim, nunca quero nada, pois há muitos anos que já me compenetrei que basicamente já nada quero ou preciso que me possa ser possivelmente oferecido por alguém no Natal. Mesmo no caso de livros, ainda estou, por exemplo, a recuperar da oferta, o ano passado, de um livro sobre como o Anticristo ia tomar conta dos Estados Unidos e levar-nos todos rapidamente para o apocalipse (sendo a solução juntar-me rapidamente a uma seita qualquer e encomendar a alma). Quando mo ofereceu e eu estupidamente fingi um interesse mínimo, o meu amigo ofertante assegurou-me que, de facto, o Obama tinha pinta de Anticristo.
Haja paciência.
Para alguns domésticos o Anticristo é o J. Sócrates. Mas sabem o que diz o velho ditado, não é: “Anticristos da casa não fazem milagres”.
Para a maior parte das pessoas que conheço e de quem objectivamente gosto, a mera ideia de que tenho que andar a fazer listas do que dar a toda a gente confrange-me. Honestamente, nem sei por onde começar.
Mas…hum… deixa-me cá ver…talvez umas garrafinhas de whisky? Ou um perfumezito da Charlize?
Até ontem apenas conhecia o nome de Alfredo Korda vagamente porque, quando morreu em 2001, ele foi apontado como o autor da “fotografia mais reproduzida do mundo” – que eu para variar reproduzo acima mais uma vez. Trata-se de uma imagem de Ernesto Guevara, camarada de armas durante algum tempo do ditador comunista cubano Fidel Castro.
Sempre houve algo na ditadura comunista cubana que me escapou. Nomeadamente, a mistura de romanticismo e de superioridade moral que eles, e muitos os seus acólitos e simpatizantes, ao longo dos anos, conseguiram associar à ditadura, através de furiosos esforços de propaganda onde e quando possível (e elevado ao nível do patético agora com a associação entre o decrepitante Fidel e esse mais do que improvável petro-líder da venezuelana “revolução bolivariana”, Hugo Chávez).
O que me penaliza, pois das poucas vezes que convivi com cubanos lá do regime, genuinamente simpatizei com eles ao nível pessoal, mas se e quando a cassete do regime arranca, perco-me. Já não tenho pachorra.
Nem me atrevo a entrar nas razões porque é que o retrato de Ernesto Guevara, tirado por Korda num comício qualquer em Havana em 1960, foi tão reproduzido e mistificado. A internet está pejada de análises e interpretações. Até já li comparações com as imagens prototipadas de Jesus Cristo de Nazaré. Eu, que já li em detalhe sobre a vida de Guevara, não estou minimamente impressionado. Não sei qual é o fascínio com ele. Na melhor das hipóteses, foi um jovem aventureiro à escala global. Até se lembrou de ir a Dar-es-Salaam em 1965 pregar não sei bem o quê aos jovens nacionalistas da Frelimo. Tentar espalhar a mensagem da revolução comunista? ensinar a mexer numa AK47? se calhar impressionou o jovem Samora, mas depreendo que não aconteceu o mesmo com Mondlane.
Mas, para quem gostar, cito um seu admirador, o jornalista, membro emérito do Partido Comunista e escritor português José Saramago, que por alguma razão gosta muito de falar em espanhol e terá dito, naquela prosápia lírico-ideológica:
“…Che Guevara, si tal se puede decir, ya existía antes de haber nacido, Che Guevara, si tal se puede afirmar, continúa existiendo después de haber muerto. Porque Che Guevara es sólo el otro nombre de lo que hay de más justo y digno en el espíritu humano. Lo que tantas veces vive adormecido dentro de nosotros. Lo que debemos despertar para conocer y conocemos, para agregar el paso humilde
de cada uno al camino de todos.”
Enfim.
Nem sei qual é o fascínio com a ditadura cubana, que, com aquele regime indescritível na parte Norte da Coreia, aqui estamos em 2010 e insistem em resistir ao seu anunciado acaso, badalando as suas falidas virtudes, os anacronismos políticos da história actual.
Se houve justificação para derrubar o regime ditatorial e corrupto de Fulgêncio Baptista em 1959 (de quem, para variar, apanhei a foto em baixo, confortavelmente a jogar golfe com a mulher Marta em Setembro de 1968 no Clube de Golfe do Estoril, a vila em Portugal onde ele viveu em apagado exílio quase até ao fim da vida), se se compararem os sete anos da sua pulhice com os 50 anos da de Fidel, por mais carismático e charmoso que ele possa ser, o diabo leve a escolha. Talvez mais grave no caso de Fidel Castro, pois 50 anos de ditadura cobre quase três gerações de cubanos, tornado menos intolerável nos primeiros trinta pelos subsídios generosos dos comunistas soviéticos mas agora uma caricatura prostituída e dolarizada do “socialismo”.
(The Baptistas golfing in Estoril)
No meio disto, temos o bom Senhor Alfredo Korda, alvo de uma exposição em Lisboa neste momento, que tive a oportunidade de visitar ontem, num daqueles dias de frio e chuva invernal.
Korda foi um fotógrafo decente que nasceu, cresceu e que vivia em Havana, ganhando a sua vida como fotógrafo comercial, quando o seu país sofreu a reviravolta de 1959. Ele simpatizava com Fidel e o que ele dizia naquela altura sobre os ricos e os pobres e a necessidade de dar uma volta às coisas, o que não era difícil pois tudo indica que Cuba era, para além de um exemplo típico do terceiro-mundo latino-americano, uma espécie de prostíbulo da Máfia norte-americana. Por alguma razão, conectaram um com o outro e assim foi que Korda foi fotografando oficiosamente o ditador nas suas andanças até que em 1968 misteriosamente ele “muda de ramo”, passando a fazer fotografia submarina para uma instituiçãozeca qualquer do governo cubano. Para além dumas fotos simpáticas à la National Geographic, daí não rezou história.
(Alfredo Korda posa para la posteridad)
Diana Diaz, a sua filha (e aparentemente uma boa filha) que obviamente respeita o pai e que quer preservar e contextualizar a sua memória e trabalho, presumo que como alguém que era um tipo decente e que testemunhou a história de Cuba a ser feita, à margem da exposição de Lisboa deu algumas dicas sobre o que realmente terá acontecido em Março de 1968 e que diz muito do regime: nessa altura, os comunistas cubanos nacionalizaram todos os negócios privados do país, incluindo o estúdio fotográfico do seu pai, e confiscaram todos os arquivos de negativos dele. Não acredito que o fotógrafo tenha ficado lá muito satisfeito, e Diana ficou sem um património que de direito deveria hoje ser seu.
(é de salientar a algo subrreptícia mas fundamental defesa do seu direito como dono do seu espólio, pelos vistos nas mãos do regime desde 1968, quando, por mais que uma vez, quer Korda quer Diana especificamente referem que o fotógrafo fez todo o trabalho por sua conta, não empregado pelas instituições do regime. Só quem não quer perceber isto é que não entende).
Assim, em 1968 Korda literalmente ficou sem forma de ganhar a vida e teve que ir fazer a tal de fotografia submarina, empregado como funcionário público.
Presumo, assim, (não tenho registo das origens) que uma boa parte das fotos que se podem ver na exposição lá na Cordoaria, seja o que conseguiu escapulir às mãos do estado Cubano mais o que a propaganda deles quis pôr cá fora. Quase todas elas excelentes fotografias. Korda era bom fotógrafo, tinha bom equipamento e teve a oportunidade. Ilustrou uma parte da história de Cuba.
(ABM fotografa Korda a fotografar Fidel a ser observado por duas muchachas)
Talvez mais importante, para mim, houve algo no que Korda fez que me chamou a atenção e que fez parte de uma tendência global. No início dos anos 60 do século passado, Fidel e Castro, juntamente com John F. Kennedy nos EUA – este no outro lado da “barricada” ideológica – foram os primeiros líderes políticos que deliberadamente se deixaram fotografar por detrás da fachada formal e ritualista do poder, inaugurando, numa altura de grande massificação dos mass media visuais enquanto condicionantes da opinião pública, uma era de percepção de uma “aproximação” e de uma “humanização” dos líderes aos olhos da opinião pública, especialmente quando eram jovens e atraentes – Kennedy e Castro devem ter sido os líderes mas jovens e carismáticos dessa era. A partir desta fase, passou a ser normal ver os líderes na sua condição mais mundana, a comer um hamburguer, a fumar um charuto, a dar umas raquetadas de ténis, a coçar o nariz, com os sapatos todos sujos. Os movimentos sociais que se seguiram, de que se distinguiram as convulsões nos EUA (incluindo Woodstock) e em Maio de 1968 em Paris, em que os principais protagonistas foram os jovens, deram credibilidade à ideia de que o mundo pertencia aos jovens e que os “velhos” líderes eram moeda caduca. Creio que, neste contexto, a cara jovial, irreverente e barbuda do Sr. Guevara ilustrava o espírito da era.
Imagens que totalmente enganam, pois nada referem sobre a real mola que faz mover o Poder, que dão a ilusão da intimidade e da proximidade de quem provavelmente nunca sequer se aproximarão nem entenderão, e que resvalam no culto da personalidade.
Também nisso, Korda, creio que quase sem o saber, foi pioneiro.
E a força do seu trabalho foi tal, que por vezes não se sabe diferenciar a mensagem do mensageiro.
Segundo anunciou esta semana o organismo Eurostat, a taxa de desemprego da economia portuguesa no mês de Outubro cifrou-se nos 10.2, a 5ª mais alta da Europa e a mais alta de sempre neste país.
Curiosamente, ou não, estes dados não batem com os dados nacionais publicados através do IEFP, que são mais baixos.
E pela primeira vez na história de Portugal, se se contarem as crianças e jovens estudantes e os reformados, mais gente não trabalha em Portugal do que trabalha. Dos que trabalham, mais do que 2 milhões recebem cerca do chamado salário mínimo nacional. Dos reformados, cerca de 2 milhões recebem uma reforma pelo valor mínimo.
José Sócrates, o primeiro-ministro, diz que as suas políticas levam tempo a fazer efeito e que há que esperar.
Alguns analistas referem que a situação vai piorar.
Abaixo o ABM aconselha a sua actual leitura Portugal – Ensaios de História e de Política, de Vasco Pulido Valente, autor de quem há pouco li Ir pró Maneta, livro onde me diverti e ainda mais aprendi. O ABM refere com particular prazer a leitura do capítulo “A República Velha“. E lembra-me essa leitura, então como opúsculo editado pela Gradiva (1997) – não posso, claro, afiançar que o texto não tenha sido alterado. E nessa memória a ele me associo no apelo à sua leitura (originariamente um artigo publicado em 1992, na Análise Social). Haverá outras versões sobre a República? Com toda a certeza. Mas convirá lembrar que em ano de centenário seremos intoxicados pelas loas do regime – sempre adversárias do conhecimento, pois conhecer o antes aclara o conhecimento do hoje. A II República (ainda que um regime onde há “primeira dama”, com serviços, colaboradores e tarefas, não é uma República, é só uma piroseira) irá embelezar o passado, urge sobre ele ler.
Deixo uma citação. Que tanto diz sobre o agora-mesmo. Tanto mesmo que me permitirei a realçá-lo.
“O PRP tinha transformado a causa da guerra na causa da República. ( …) O problema dele [Afonso Costa] estava só na circunstância despicienda de que nem os Portugueses, em geral, nem os militares, em especial, queriam a guerra. Tratava-se, portanto, de os coagir, tarefa em que sempre brilhavam a experiência e o zelo dos democráticos. Poderá pensar-se que os perigos excediam o razoável. Mas não se deve ignorar que a violência era o modo de vida habitual do PRP e que o fim da operação consistia em conseguir a paz interna através da guerra externa. Como Chagas notava finamente em Paris, quem se atreveria a levantar a mão contra uma República vitoriosa?
O exército (…), resignado a uma pequena presença em África, não queria a intervenção na Flandres. A propaganda belicista tenou mais tarde atribuir esta atitude à mera cobardia da oficialidade. “Heróicos” deputados e jornalistas do PRP, para não falar em médicos e merceeiros, voluntariavam com adequado alarido para o que se denominava sentimentalmente a lama das trincheiras, onde, de resto, raros chegavam. Em contraste, os oficiais, cuja vocação consistia em morrer pela Pátria, se não pela República, recusavam-se a marchar ou marchavam contrariadamente para França. A alegação de cobardia não tem sentido. Em matéria militar, os bravos civis democráticos eram irresponsáveis e portavam-se como os irresponsáveis que eram. Os militares sabiam que o exército português não estava preparado, ou podia ser preparado em tempo útil, para uma campanha na Europa. (…)
Quando no fim de 1917 o desastre se aproximava, alguns dirigentes democráticos e companheiros de caminho, que não estavam ainda completamente cegos, queixaram-se de que o governo não “explicara” a guerra ao país. O que faltava, como de costume, era boa propaganda. (…) Isto presumia, é claro, que a guerra da Flandres podia ser explicada. Mas não podia, porque a sua verdadeira razão, a necessidade de consolidar a República Democrática, embora notória nos círculos informados, tinha de se esconder aos Portugueses e, sobretudo, aos combantentes.” (pp. 91-94)
A 2 de Junho deste ano, Leonor Beleza apresentou ao mundo no nº13 da Rua do Século um livrinho chamado Portugal – Ensaios de História e de Política, com “apenas” 333 páginas, escrito por Vasco Pulido Valente, que eu conhecia apenas de umas excelentes colunas que ele vai publicando aqui no burgo, e que teria como habitualmente passado completamente por baixo do meu radar, não fosse o alerta dado por um amigo, o que me motivou a deixar o conforto da bucólica Alcoentre e venturar-me na loja da Worten no Centro Comercial Colombo em Lisboa e largar 14 euros e meio.
Apesar de estar apenas no segundo ensaio, creio poder dizer em segurança que mais do que valeu o investimento.
Um dos problemas de não ter estado lá quando as coisas aconteceram e de não ser especialista em certos períodos da história de Portugal é que frequentemente, ao ler os livros que nos são supostos fazer entender melhor o que aconteceu e porquê é perder-se o fio à meada e, ainda mais, perdermo-nos na confusão de nomes, datas e lugares. De forma magistral, nestes ensaios o Sr. Pulido Valente dá uma grande ajuda não só a entender o que sucedeu, mas ainda a entender a confusão que foi e o enorme impacto do que aconteceu nos últimos dois séculos da história portuguesa – sem perder o fio à meada.
A parte que já li cobre o período que vai desde o embarque da família real portuguesa para o Brasil, até ao final do que Valente apelida de “A Velha República”.
No ensaio que se debruça sobre o que no fundo foi uma desgastante e sangrenta guerra civil até ao estabelecimento do que veio a ser conhecido como Rotativismo, já nos anos 50 do século XVIII, impressionou não só a violência mas também a solução, o que atestou o nível de desenvolvimento social e económico do país. Foi uma paz pôdre, feita em Lisboa para comprar alguma paz. E só isso.
Mas foi o ensaio relativo à I República que me chocou mais. Tendo nós crescido na república, esta foi invariavelmente celebrada e vendida como uma coisa boa, uma modernização, uma melhoria em relação à monarquia e aos seus privilégios antiquados, que foi derrubada depois do Regicídio e de umas movimentações militares em Lisboa.
Daqui a menos de um ano vão-se celebrar cem anos de regime republicano em Portugal e quero ver o que vai ser dito em celebração da sua excelência.
O relato de Vasco Pulido Valente diz que foi tudo menos isso.
O que considerei curioso. A primeira vez que vi uma bandeira da monarquia (que foi branca e azul durante grande parte do séc. XIX) foi em casa do meu avô paterno MIM na Ilha de São Miguel quando tinha 13 anos e estava de visita “de África”(como ele dizia). Pensava que era uma bandeira de um clube local mas ele logo me corrigiu. Lembrei-me que o meu avô nascera em 1895 e portanto se ele se lembrava dos tempos da monarquia, o que, claro, ele se lembrava. E perguntei-lhe o que é que a monarquia tinha de tão mau que teve que se matar a família real e fazer um golpe de estado. A resposta dele é que pelo menos na monarquia havia ordem e que depois com a república foi uma confusão que ninguém se entendia. E ficou por ali.
Havia muitos aspectos da I República que eu não entendia, especialmente toda a violência que permeou aquela era, o radicalismo praticado e em particular o seu anti-clericalismo quase rábido, que, fazendo a leitura do conteúdo algo asséptico e meramente factual de muitos livros publicados sobre a matéria, não dá para entender muito bem o que se passou.
O texto de Valente sobre essa era é assombroso. Quase assustador. E deprimente. Ele vai ao ponto de considerar (pelos vistos correctamente) esse período como um de terrorismo de Estado, uma ditadura pura e dura por parte de um punhado de republicanos radicais, contra a elite que em Lisboa regia o país, e contra todo o resto do país, onde vivia a esmagadora maioria do que hoje se chama “povo” – pavimentando o caminho para o que Salazar fez a seguir. Foi uma república imposta a fogo e ferro, em que o mero mudar da bandeira e do hino nacional (uma decisão por si só “revolucionária”) acabou por ser um detalhe.
Para quem quiser ver a pouca vergonha que aquilo tudo foi, leia-se este livro, a parte “A República Velha (1910-1917) pp. 47-118.
Acho que finalmente percebi o comentário do meu avô.
William Saffire era, nos meus tempos de estudante norte-americano made in Mozambique, leitura obrigatória no The New York Times. Para além de questões da língua inglesa, em que me tornei mais ou menos bilingue e apreciava como um miúdo numa casa cheia de brinquedos, especialmente nos seus contrastes com a língua portuguesa, que eu aprendi como materna (versão de matriz açoriana) tinha uma percepção interessante sobre o que era a América do seu tempo e além disso as suas colunas eram muito bem escritas e divertidas. Fiquei com tanta pena quando parou como quando Alistair Cooke deixou de fazer as suas geniais crónicas faladas que passavam aos fins de semana no BBC World Service em onda curta e que eu ouvi religiosamente até à última, e que se chamavam Letter from America. Algumas ouvia com o rádio de onda curta aos berros no meio do campo em Alcoentre enquanto arranjava o telhado ou tomava conta do jardim aos sábados e domingos à tarde. Bons tempos.
Em parte por causa destes e outros exemplos que fui recolhendo e saboreando ao longo da vida, adquiri uma certa predilecção por utilizações peculiares das palavras e da linguagem, tema que por si só daria para escrever uma coluna semanal o resto da vida. Especialmente em Portugal.
Pois que não é só o que as palavras dizem que interessa. Frequentemente é o que se pretende que elas digam e ainda mais o manto em seu redor.
E neste contexto, há duas que gostava de referir, uma das quais observo há muito tempo, outra que li ontem à noite numa revista de uma empresa imobiliária – a ERA – que com a Remax têm andado a “americanizar” o processo de vendas de casa em Portugal, por uma módica comissãozinha de entre 4 e 6 por cento do valor do imóvel transaccionado.
A primeira é “trata”. Na maior parte dos países, quando se quer vender uma coisa, põe-se um papel à frente a dizer “vende-se”. Aliás em Portugal quando se quer vender uma casa mete-se um cartaz a dizer “vende-se”. Mas não automóveis. No caso de automóveis toda a gente mete um papel que diz “trata”. “Trata”? mas “trata” o quê? obviamente, trata no sentido em que vende.
Só que a palavra “trata” não quer dizer “vende”. Nunca teve esse significado e creio que, em bom rigor, continua a não ter. Já perguntei aos meus concidadãos sobre o assunto – pois não sou de cá – e a melhor desculpa que ouvi foi que, talvez nos tempos idos do dr. Salazar, os tais em que havia Polícia dos Costumes e quando se tinha que pagar uma licença para uso e porte de um isqueiro, alguém teria inventado uma regra qualquer em que, para se colocar um cartaz no carro a dizer que se pretendia vendê-lo, que era necessário afixar ao mesmo um certo montante de – lembram-se? – sêlos fiscais, comprados na tabacaria mais próxima ou na Fazenda.
Só que os selos fiscais, como o papel azul de 25 linhas, já não existem. E nem sei se esta história é verdadeira. E mesmo que seja isto é tudo ridículo. Mas aqui estamos nós todos no último mês de Dezembro de 2009 e o bom povo português, quiçá por reacção pavloviana pré-salazarenta, depois de várias revoluções políticas, sociais e fiscais, continua a “tratar” os seus carros na rua. Com aquele informalismo tipo desenrasca-chuta-prá-frente-que-a-coisa-se-resolve-na-mesma. O eufemismo tornado em arma contra a eventual intervenção do Estado naquilo que é a coisa mais normal e natural em todo o mundo, que é ajudar a despachar um carro que já não se quer.
O outro termo é igualmente enigmático mas por razões diferentes. Ao folhear as ricamente coloridas 40 páginas da publicação “ERA Proprietários – 2ª edição 2009″ – que esta empresa imobiliária produz a cores em quantidades industriais e que deixa por todos os lados e mais algum (a que eu tenho obtive na Pastelaria Girassol no Estoril ontem à tarde), constatei que uma percentagem muito significativa dos imóveis que estavam à venda simplesmente não indicavam um preço de venda.
No local do preço limitava-se a colocar o fleugmático termo “sob consulta”.
Se bem entendo, ainda que este termo do “sob consulta” faça quase tanto sentido como “trata”, acho que dá para perceber que isto é um termo meio arrepolhudo lusofónico de dizer ao leitor da revista que por alguma razão etérea (a mísera fotografia a cores com 4.2 x 2.5 cm? as hiperbólicas e sucintas descrições do que constitui o imóvel? o desespero do comprador em tentar encontrar algo decente para comprar?) que se quer saber o preço vai ter que pegar no telefone e ligar para um dos vendedores hipertreinados em técnicas de venda da ERA (à americana, ainda por cima”) para o empregado, depois de exigir o nosso nome e número de telefone (creio que para efeitos da comissãozinha) magnânimamente nos comunicar o preço e imediatamente nos recrutar para a nossa “pesquisa” pedindo detalhes sobre o que é que “realmente” estamos à procura, onde e por que preço.
Só que eu não estou interessado – e nem me ocorre à partida – recrutar os exmos senhores vendedores da ERA para me procurarem uma casa para mim, nem de lhes contar a história da minha vida, nem de lhes dar o meu nome e número de telefone. Com todo o devido respeito, eu quero que a ERA se vá lixar. Aliás, folhear a revista deles enquanto bebo uma Coca-Cola Zero na Pastelaria Girassol e como um bitoque tecnicamente não se qualifica sequer como uma “pesquisa”.
Comprar um imóvel em Portugal nos últimos sete anos, para além de para suprir a necessidade de ter um tecto sobre a cabeça (que milagrosamente eu já tenho) tornou-se um negócio ruinoso, pois paga-se demais à entrada, paga-se demais enquanto se tem o imóvel, e paga-se demais à saída, seja por venda, separação ou morte.
O que me impressiona é que a tal de ERA, que, segundo relata o seu sítio na internet, teve início no profundo estado do Kansas nos anos setenta do século passado e que pelos vistos é uma das poucas exportações de sucesso americanas, e que, segundo a revista, em Portugal tem 200 lojas, 2.000 empregados, 100 mil casas “angariadas”, 4 centros de formação, publica 3 milhões de revistas como a que eu li por ano e teve perto de 62 milhões de pageviews, traduzidos em 204 mil horas de navegação no seu sítio por parte dos compradores (isto é apenas um pouco mais que o Maschamba) – faz isto tudo para depois, no fim deste processo e investimento todo, meter uma tal quantidade de imóveis à venda em que indica como preço “sob consulta”.
Naturalmente que o corolário desta observação, que só pode decorrer, é que deve haver muito boa gente neste mercado que cai no truque e que, apesar do manancial comunicacional desta empresa, gasta o seu tempo e dinheiro a telefonar para os senhores da ERA a contar a história da sua vida e a pedir se fachavôr se não se importa diga lá qual é a porcaria do preço.
Pois que se fossem todos como eu a ERA em dez segundos arrepiava caminho. E devem haver muitos vendedores de imóveis que obviamente não se importam de ver o seu património a ser (a meu ver mal) vendido desta forma, em troca de uma comissão que importa em média 5% do valor por que esse património venha a ser vendido.
Não acredito que lá em Kansas City as coisas sejam assim.