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Agosto 9th, 2008 — Sociedade portuguesa
Em Lisboa um assalto a um banco com sequestro. Dois assaltantes, trabalhadores da construção civil ali em part-time. Já identificados (o Expresso entrevista um primo de um assaltante ali em contacto com a polícia durante o assalto). A polícia decide abatê-los. Parece uma medida pedagógica, para que hipotéticos sequestradores pensem bem no que se meterão (”se a moda pega”!). Que custaria deixar partir os pilhas-galinhas, para onde poderiam escapar a médio prazo? O Estado tem o monopólio da violência legítima. Mas não da exagerada.
A televisão pública passa 15 minutos do seu telejornal a mostrar o rescaldo do assalto. Com particular pormenor, e repetidamente, os tiros certeiros. O reality show da morte - afã que a própria blogosfera louva. Um nojo imoral. Uma estupidez. Gente que nem pensa.
Há algumas semanas Portugal parou a discutir uma cena de tiroteio entre ciganos e negros. Foi um aqui d’el rei/ó da guarda. Na voz de muitas boas almas também porque alguns chamaram ciganos e negros aos envolvidos, assim denotando racismo, preconceito. Assim levando a que se tomassem negros e ciganos como globalmente marginais. Agora não se escutam as boas almas protestando com o facto de se chamarem “brasileiros” aos assaltantes abatidos. Melhor prova que as boas almas não pensam, que o verdadeiro preconceito nelas habita (”negro” ou “cigano” parece mal, “brasileiro” não faz mal”). Mero movimento nacional feminino d’hoje.
Agosto 1st, 2008 — Sociedade portuguesa
Para a minha boa amiga MS, efémera co-autora do ma-schamba, e que esta semana mais uma vez me imputou reaccionarice aguda, imaginação fértil quanto a comunistas debaixo da cama e moçambicanite crítica nas coisas da nossa lusa pátria (tudo isso culpas do Acordo Ortográfico, claro).
Refuto tudo isso. E dou exemplo, para ilustrar onde está a reaccionarice, a imaginação fértil quanto a papões debaixo da cama e da necessidade crítica às coisas da nossa lusa pátria.
O caso narrado no Público veio a saber-se falso (transcrevo abaixo, que as ligações aos jornais tendem a ser perecíveis). Correu o boato de que uma juiza botou uma sentença em termos preconceituosos contra os ciganos. De imediato acorreu a Alta-Comissária para a Imigração e o Diálogo Intercultural, Rosário Farmhouse, invectivando a (afinal inocente) juiza.
A gente acha bem, lamenta o engano mas aliviados pelo facto de tudo não ter passado de um erro, pois um tribunal a exprimir-se naqueles termos discriminatórios seria inaceitável. Mas assim a gente não se engana enganando-se, nisto do seguir pressurosos os itens politicamente correctos do aparente multiculturalismo.
Pois se há alguém que não deve falar - apressadamente ou não - num caso daqueles é uma Alta-Comissária para a Imigração. Sobre ciganos portugueses? De facto o que a intervenção da Alta-Comissária implica é difusão da imagem de uma “estrangeirice” cigana, de um deficit de nacionalidade, de uma “imigração”. Preconceito de raça, preconceito de cor, preconceito cultural. Mais do que tudo preconceito contra o nomadismo (fundo cultural de uma população sedentarizada). Quantas gerações serão necessárias para saírem da categoria estatal “imigrante”. Apagar fogo com gasolina? Sim, mas não só por erro. Pela perenidade dos preconceitos mais infames travestidos de roupagem democrática, maquilhados pela distracção impensante: a tal “esquerda” sempre ambidextra.
Onde está o Wally reaccionário, querida MS?
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Juíza de Felgueiras disse que estilo de vida dos ciganos era “pouco higiénico”
Comissária para a Imigração vai queixar-se de sentença sobre comunidade cigana
30.07.2008 - 19h47 Lusa
O Alto-Comissariado para a Imigração e o Diálogo Intercultural vai queixar-se ao Conselho Superior da Magistratura da sentença de uma juíza de Felgueiras que considera o estilo de vida dos ciganos como pouco higiénico e “subsídio-dependente”.
A Alta-Comissária para a Imigração e o Diálogo Intercultural (ACIDI), Rosário Farmhouse, escusou-se a comentar a sentença, mas disse que as considerações “genéricas” sobre a comunidade cigana têm um “teor marcadamente xenófobo”. “Fiquei, estou absolutamente perplexa como é que numa sentença se fazem acusações tão genéricas relativas a uma comunidade, tomando a parte pelo todo. Uma coisa é adjectivar a conduta dos arguidos (da qual me abstenho) e outra coisa é tomar toda uma comunidade com cerca de 50 mil pessoas pelo comportamento destas cinco pessoas, destes cinco arguidos”, disse Rosário Farmhouse.
A Alta-Comissária avançou ainda que, depois de recebida e analisada a sentença, o ACIDI vai remeter uma queixa da juíza ao Conselho Superior da Magistratura, órgão de gestão, administração e disciplina dos juízes. “Assim que tivermos a sentença, e depois de analisada, ponderamos a hipótese de fazer uma queixa ao Conselho Superior da Magistratura”, afirmou a responsável, que disse ainda ser a primeira vez que o organismo que dirige apresenta uma queixa semelhante.
“Só tenho a lamentar que neste Ano Europeu do Diálogo Intercultural, em 2008, seja possível assistirmos em Portugal a afirmações deste teor, marcadamente xenófobo”, reforçou Rosário Farmhouse. “Realmente estou espantada, estou perplexa e assim que tiver a sentença vamos de certeza tomar uma posição mais frontal. Assim que tivermos a sentença e depois de analisada iremos remeter uma queixa”, frisou.
“Pessoas mal vistas socialmente”
A juíza Ana Gabriela Freitas, do Tribunal de Felgueiras, proferiu ontem uma sentença em que considera que a comunidade cigana tem um estilo de vida com “pouca higiene”, é “traiçoeira” e “subsídio-dependente”. “Pessoas mal vistas socialmente, marginais, traiçoeiras, integralmente subsídio-dependentes de um Estado a quem pagam desobedecendo e atentando contra a integridade física e moral dos seus agentes”. Foi desta forma que a juíza Ana Gabriela Freitas, do 2º Juízo do Tribunal Judicial de Felgueiras, se referiu aos cinco elementos de etnia cigana acusados de agredir diversos agentes da GNR.
Ana Gabriela Freitas, na leitura da sentença, teceu considerações não só aos cinco acusados da agressão aos agentes da GNR de Felgueiras, mas também generalizou a toda a comunidade cigana. “Está em causa o desrespeito da autoridade e, por arrastamento, a própria administração da Justiça como flui com particular ingência dos recentes acontecimentos da Cova da Moura, Aziaga do Besouro, Quinta da Fonte e ainda culminando com a agressão selvática dos agentes da PSP em Abrantes”, referiu a juíza na fundamentação da sentença.
Na base da sentença estão acontecimentos ocorridos no dia 7 de Janeiro de 2006. Um grupo de cidadãos de etnia cigana estava a fazer uma festa no Bairro João Paulo II, em Felgueiras, com música alta e disparo de tiros com armas de fogo. A GNR foi chamada ao bairro, a que a Juíza chama “Cova da Moura cigana”, para pedir silêncio. Contudo, moradores e agentes da GNR envolveram-se em agressões físicas e verbais.
Na sentença, Ana Gabriela Freitas deu como provado que, durante os acontecimentos, “as mulheres e as crianças guincharam selvaticamente e bateram e chamaram nomes” aos agentes. Os cinco homens de etnia cigana foram todos condenados a penas de prisão efectiva e ao pagamento de indemnizações mas recorreram da sentença. Para elaborar a sentença, “socorreu-se o tribunal das regras de experiência no que toca ao elemento intelectual e volitivo do dolo inevitavelmente associado aos useiros e vezeiros comportamentos desviantes e percursos marginais dos arguidos e do seu pouco edificante estilo de vida”.
No levantamento sócio-económico da vida dos arguidos, Ana Gabriela Freitas escreveu no processo que as condições habitacionais “são fracas, não por força do espaço físico em si, mas pelo estilo de vida da sua etnia (pouca higiene)”. Desta forma, Ana Gabriela Freitas salientou ainda não se vislumbrar “a menor razão para acolher a rábula da ‘perseguição e vitimização dos ciganos, coitadinhos!”.
Julho 19th, 2008 — Sociedade portuguesa
Culpa de avós havidos, livros lidos, tios lembrados, pais aí, manos e primos sempre. Isto de acreditar de um cavalheiro não se dizer como tal, por não precisar. E de, pois se assim sendo, nunca fazer batota. Não modelo de virtudes - apenas não apreciador de trapaça, coisa incomodativa, até pobremente popular. Daí que, pedigree talvez, tamanho desprezo por portistas, ainda mais no agora festejando coisas do acesso à bola europeia. Nomes sonantes, nomes compostos? Até duplas consoantes (bastardos de cockneys, nada mais, coisa óbvia)? Bloguistas ufanos? Quasi-políticos ou até mesmo?
Gente baixa, disfarçando-se de irónicos, brincalhões, “rapaziada”, palmada nas costas, “francesinha” e arroto?. O Technorati mostra-os. Na sua vileza - muito para além da bola. Essa que usam como biombo. Da sua escroqueria “genética”. De valores, entenda-se. Povoléu.
Escarro. [E aflijo-me, imagino os filhos dessa gentalha daqui a anos, rondando-me a Carolina, “Tio, o meu pai tem um link para o seu blog“]. Urghh (e nós sem colónias febris para os deportarmos …).
Junho 18th, 2008 — Sociedade portuguesa
The Star Tracker: pelo nome não parecerá mas é uma rede profissional de portugueses (tendencialmente) no estrangeiro.
Junho 10th, 2008 — Sociedade portuguesa
Dez anos passados. Há dez anos os portugueses comemoraram o 10 de Junho na presença de um seu Secretário de Estado, julgo que o da Presidencia, então Vitalino Canas. Desse evento aqui deixei a minha memória: de governantes portugueses nunca assisti a tanta falta de sentido de Estado. Mas mais ainda, nunca assisti a tamanha mediocridade intelectual.
Mas o que me ocorre é algo diferente. Então Canas passeou em Maputo uma vaidade pessoal pungente e uma absurda insensibilidade para a política externa. E ninguém lhe disse nada, protegido que estava pelo escudo simbólico do poder. Nem uma crítica, nem um remoque.
Dez anos depois outro Secretário de Estado, agora o das Comunidades propriamente dito, aterra em Maputo para comemorar o dia de Portugal. Este é António Braga, responsável pela tutela que não só atrasou como emudeceu as eleições para o orgão representativo das comunidades portuguesas. Com toda a certeza que ninguém lhe dirá nada sobre o assunto. De novo o muro simbólico do poder, embrulhado no fato-e-gravata, tailleur ou vestido curto, onde pontificam algumas comendas, à volta dos pastéis, chamussas e bolos-miniaturas. Parece mal incomodar, não é assim?
Algo muda em dez anos?
PS: são os funcionários da UEM que me vêm dizer, pois é dia de Portugal: “doutor, quem não tem tvcabo nem DSTV já não recebe a RTP-África há mais de 2 meses” - ou seja a maioria dos telespectadores. “Comunique isso lá na Embaixada, sff.”
Hesito. Valerá a pena falar a esta gente?
Junho 5th, 2008 — Futebol, Sociedade portuguesa
Post para alguns dos meus amigos que por aqui passam:
Portugal. Vinte e tal anos. Há década e meia foi publicado o “Golpe de Estádio“, de Marinho Neves. Má prosa, má onda. Mas a trafulhice abordada só pecava por defeito. Vinte e tal anos de falsificações de apostas desportivas, de pressões, aldrabices, de guardas abeis e de carlos pinhões agredidos. De influências políticas, de construtores e afins, negócios e regionalizações. Vinte e tal anos. Mais calmos, mais senhoriais nos últimos anos. Mas arrogantes na mesma, desonestos na mesma, uma arrogância que passaram aos que os apoiam, ilustres jornalistas, romancistas, poetas, quadros, políticos, amigos, sempre no sorriso do “os árbitros roubam mas a equipa ajuda“. Como se por ser futebol pudessem por parênteses na honestidade pessoal, como se o futebol seja o biombo para mostrarem o lixo de gente que depois fingem não ser, num torpe não-sentido “é só futebol”. Deve ser o futebol uma escola de virtudes? Não! Mas por que há-de ser um escarrador? Vinte anos com Guterres ainda recém-chegado, homem nunca da bola, na praça do município a comemorar o bicampeonato, a mostrar-se o que era. Vinte anos com Loureiro do PSD a visitar o S. Bento de Guterres do PS com as criancinhas de Gondomar. Vinte anos de política, negócios e bola, esta na qual “os árbitros roubam mas a equipa ajuda“. E, já agora, sempre com a desculpa do Inocêncio Calabote na ponta da língua, quando a conversa se espraia.
Vinte anos que vão continuar. Mas sabe bem ver essa escumalha zangada com a UEFA. E já lá vem o nacionalismo, que devem ser tratados como os outros ladrões, amnistiados entenda-se. É exactamente por serem portugueses, é exactamente por patriotismo, que tanto sabe bem. Que com o mal dos outros posso eu bem. Com o mal nosso é que custa, com a escumalha nossa é que custa. Não a escumalha que ganha dinheiro com isto. Sim a escumalha adepta, bloguista, do convívio, até amiga, essa do riso alvar, do sorriso mariola, do “os árbitros roubam mas a equipa ajuda“.
És tu, meu(s) amigo(s)? Lembras-te de me teres dito isso? Lembras-te da minha irritação? Lembras-te de quando se fala das redes que tudo isto aguentou me dizeres “bem, isso é outra coisa“, e depois até concordares, nem que fosse para me calar? Lembras-te disso, lembras-te de seres tão português? É de ti que falo quando digo “escumalha”. E até de mim, pois mesmo assim teu amigo, até abrindo-te a porta da casa (ainda que trancando as pratas, digo-te agora, que num batoteiro não se confia totalmente). Mas apesar de tudo não tão podre como tu. Porque se “os árbitros roubam a equipa que se foda”. Coisa que tu nunca hás-de compreender. Porque és uma merda. Um “árbitro” em potência.
Por isso é tão porreiro hoje estares chateado. Com a UEFA. Ainda que daqui uns dias tudo volte a estar bem. Para ti. Para os “árbitros”.
Junho 1st, 2008 — Futebol, Paternidade, Sociedade portuguesa
Toca o telefone, um amigo a perguntar se estou a ver televisão. “Não?”, então que a ligue, vai-me anunciando os milhares à volta da selecção de partida para a Suíça, os motardes imigrados por lá também à espera no aeroporto, a RTP-A/I transmitindo em directo o delírio colectivo. Quem me telefona não é um inimigo da bola, a desculpa da chamada até foi o comentário à contratação do dia (”Postiga?, então o que achas?”), mas o que é demais tresanda, isto para não dizer que fede, que é mesmo isso, mas as homofonias são desagradáveis quando se quer manter o nível.
Bem, lá vou eu ligar a televisão. Ali está a Carolina (a minha filha que fez seis anos esta semana) a escrever uma carta - sua autonómica decisão - aos avós a dizer-lhes que tem saudades da família e de Portugal. Enquanto escreve eu fico a ver um avião da TAP na pista do aeroporto da Portela a preparar-se para levantar voo enquanto um locutor e o professor Marcelo, em mangas de camisa e de cachecol da selecção portuguesa, vão comentando sobre a importância do evento futuro e desta partida dos jogadores. Alguns minutos se vão arrastando e enquanto o avião (”um Airbus” modelo não sei quantos, avisam, sob o comando do “comandante Coutinho“, sossegam-nos) se vai posicionando o professor Marcelo - que um dia quis ser primeiro-ministro do país, imagine-se - anuncia o efeito bandeirístico que regressa, rejubila com a atenção nacional, etc. O tal Airbus do comandante Coutinho (mui decente profissional, estou certo, e que não tem culpa desta maluqueira toda) estanca no início da pista aguardando o sinal da torre do controle, explica-nos o locutor (para a gente não descrer que a selecção voará para o Euro, presumo), e dentro de pouco o professor Marcelo (insisto, que um dia quis ser primeiro-ministro, imagine-se) irá dizer-nos, preocupado, que o avião está a rolar tempo demais, a custar-lhe descolar, e repete-o, provocando-nos um pequeno frissonzito, “deus queira que tudo corra bem” pensará a pátria, e assim correu, vá lá, lá seguiram eles. Mas ainda antes disso, ainda com o comandante Coutinho, digníssimo profissional, esperando a “luz verde” para arrancar, e nós expectantes desse sempre arriscado momento, não é assim?, a Carolina - repito, em autonómica decisão de escrever uma patriótica carta, “cheia de saudades de Portugal” e “dos avós“, que a avó Marília “me deixa fazer tudo” e o “avô António faz maluquices” -, e a Carolina, dizia eu, interrompe o seu afã pátrio, vira-se para mim armando olhar crítico, e até surpreso de me ver a ver aquilo, e dispara com entoação “ó pai, os aviões não são importantes!”.
Fico-me a sorrir. Se se mantiver assim a esta, quando crescer, não há-de o professor Marcelo enganar com as suas vichyssoises. Palhaçada … ao que um homem desce. Ao que este desceu. E tantos com ele …
Maio 11th, 2008 — Sociedade portuguesa
Isto das biografias empurram-nos os pensamentos. Velhotes quarentões, muito reaccionários (nos seus papelinhos, nas suas carreirazitas, nas suas coisinhas corporativas, nas suas filhasdaputice egocêntricas, nos seus etcs que a gente vai ouvindo, ouvindo e rindo em esgar) chegam a este mês e enchem-se do galicismo “pavé”, oui oui, oh, oh, “sous le pavé la plage”. Pavé? Ah, o pavé do Paris-Roubaix, as birras e aventuras do Joaquim Agostinho quando nele, a lenda que ele construíu, se fez. No Verão, em tempos de “plage”. É isso a biografia, o lembrar de coisas que fazem lenda.
Abril 28th, 2008 — Sociedade portuguesa

Sobre a aguardente de medronho, vero hidromel, marco civilizacional perseguido pelo vil norte-europeu cerealífero, já aqui a brindei e defendi. Mas decerto que não tanto como ela o merece, esmagada que tem vindo a ser pelo arrivismo whiskizeiro - que não há neo-burguês que não se empaturre de jb, cutty sark, famous grouse ou coisa assim - e pela sahelização da Península Ibérica - que não há serra que lhe resista. Enfim, medra o medronho entre a espada do norte e a parede do sul …
Ciente que a melhor bebida espirituosa que já bebi foi um medronho de Monchique condignamente envelhecido pelo produtor comovo-me, e esperanço-me, com a reportagem que leio na revista do jornal Sol desta semana. Ao medronho, já!
Março 28th, 2008 — Sociedade portuguesa
Encontro académico em Maputo sobre a língua portuguesa, em Moçambique e no mundo. Boas comunicações, participação elevada, alunos e conferencistas de várias universidades - um sucesso a creditar aos organizadores. Súbito um intelectual renomado levanta-se e diz algo como “isto é como o que aconteceu com os Lusitanos: foram colonizados pelos romanos e depois decidiram (sic) escolher o latim como sua língua porque esta era mais válida (ou capaz, não recordo). Hoje, aqui, o processo é o mesmo“. O público riu-se, apreciando esta analogia histórica. Que é, como se diz agora, uma inverdade. Uma total manipulação histórica com intuitos políticos (não apenas um piadismo fácil) - nem a analogia do Império Romano funciona, nem o conceito de “colonialismo” aproveitado aos diferentes fenómenos históricos se adequa, nem, fundamentalmente, há qualquer evidência histórica dos processos decisórios de uma qualquer entidade política lusitânica na apropriação de uma língua externa. Em suma, é um dito errado, conscientemente errado. As analogias históricas podem-se utilizar para ilustrar, para induzir conhecimento e/ou reflexão - ou então para, como é o caso, obscurecer. O que me surpreendeu no momento é que o regime oficial patrocine este tipo de registo intelectual.
Surpreendeu-me pois a II República portuguesa é contemporânea do desenvolvimento das suas ciências sociais - a historiografia, a sociologia, a antropologia, etc., tiveram um enorme desenvolvimento. E como tal que ela própria continue, por via oficial, a aceitar e a divulgar este tipo de discurso “ensaístico”, desprovido de fundamentação e investigação. As generalizações, em boa forma literária por vezes, do “eu acho que”. A opinão que dá jeito, quantas vezes. Mas que nem sequer tem, nos dias de hoje, os frutos ideológicos que em outros tempos adquiria - a concorrência na produção intelectual é maior e os produtos bem mais apurados.
Mas depois, em casa, dessurpreendo-me. Lembro o meu Portugal que torna uma conversa de café como “Portugal. O Medo de Existir” de José Gil como um must de análise profunda (filosófica, chamaram-lhe), que agita o apreço pelo ensaio desgarrado (e anacrónico - leia-se “Monstros” de José Gil, um comparativismo selvagem a la XIX, que faz corar de vergonha um comprador minimamente informado). Lembro a direita portuguesa, tradicionalmente adversa às ditas ciências (vê-se no bloguismo, e de modo lamentável, até doloroso: o trauliteirismo ignaro de tantos grão-bloguistas seria absolutamente pavoroso se pior não fosse o facto de serem tão blogolidos) continua enlameada com o anti-intelectualismo (elitista, “os cultos somos nós, da classe certa”, ou seja um mero “nós” bempensante) ainda actual e com a ignorância salazarista (”socio” cheirava a “socialista” daí que houvesse que impedir o desenvolvimento de qualquer coisa que se lhe parecesse).
E deixo-me a concluir, é este ensaísmo militante, o conversar in-justificado, o livre-arbítrio da opinião (por vezes a soldo, outras não) que ainda satisfaz. Para alguns podendo parecer, como foi o caso, desvalorizado diante da “concorrência” presente. Mas nunca esquecendo que o recurso à retórica populista ganha visibilidade, apaga efeitos da reflexão alheia.
Deito-me a blogar, a ver como vai o país. E lá está - tantos falam (há um cinzentismo no bloguismo português, uma enorme franja a reboque dos jornais - tique que se estende ao moçambicano, diga-se, aqui a querer-se substituir aos jornais, mas por diversas razões) do caso da “aluna e da professora”. E tantos “ensaiam”, explicam “sociologicamente” o acontecido sem mais do que os impropérios das opiniões próprias. Concluo nisso de tanto do bloguismo opinativo português (tal como o ilustre intelectual aqui comitivo) ser fruto do mesmo Portugal. Da direita trauliteira, anti-científica. Mesmo que se pense dela tão longe.
Março 19th, 2008 — Portugal-Moçambique, Sociedade portuguesa
Abaixo refiro que agora me lembrei de uma velha entrada do ma-schamba (10.02.2008), dedicada ao cemitério militar de Pemba, referindo-o como facto social total. Pensando melhor acho que este é um bom momento para a lembrar ainda mais. Recolocando-a. A versão original tem texto, talvez interessante para quem descreia do culto dos antepassados ou lhe encontre um excessivo tom patrioteiro. Mas aqui ficam só as fotografias. Falam melhor do que o bloguista.
Pemba, Cemitério Militar da Commonwealth, I Guerra Mundial




Pemba, Talhão Militar Português





Março 15th, 2008 — Sociedade portuguesa
Falso alarme: no Quase em Português grande ofensa pela intromissão estatal em Portugal na actividade de inculcar metais em corpos alheios e de impregnar de tinta as peles alheias. Afinal é uma mera medida higiénica para regular a actividade comercial. Ainda não é desta que se encerra a actividade e se prendem tatuados e espetados. Portugal, um país onde num restaurante não me posso servir de um galheteiro mas posso ser servido por um indivíduo pejado de metais salientes. Pobre, vil, e materialista, noção de higiene. E não há qualquer argumentação racional que sustente isto. (A crítica do evolucionismo etnocêntrico da velha noção “civilização” veio a dar nisto).
Grupos de pressão: por falar de argumentação racional, como explicar o apoio ao movimento social constante defendendo a justa causa da liberdade dos homossexuais - e neste particular caso urge assinar esta petição pela vida de um perseguido iraniano - e a perseguição, inclusive prisional, aos casais “incestuosos”? Mera hipocrisia - em particular daqueles que virão, mui cônscios das causas próprias, dizer “ah, mas não é a mesma coisa”. Não é?
Adenda: Sobre “piercings” e isso um comentário de “Lowlander” colocado no Quase em Português: “Se o Estado regulamenta fortemente os produtos cosmeticos que diversas companhias comercializam e que sao utilizados individualmente e no conforto e privacidade dos nossos lares para garantir que, confortavelmente, nao nos envenenamos demasiado depressa, porque diabo de razao que um piercing (que e um procedimento cirurgico de colocacao de uma protese) nao deve tambem ser regulado por forma a defender a saude dos consumidores desse produto e se tem subitamente o absurdo estatuto de “liberdade individual”?“. Ponto final parágrafo.
Fevereiro 9th, 2008 — Sociedade portuguesa
No Quase em Português sou avisado de que já se pode fumar na Portela. “Lá Está”, o infecto e desconfortável espacito que se esperava. Eu continuo a insistir sobre a justeza da instalação nesses equipamentos públicos, em especial nas proximidades dos locais de embarque e desembarque de passageiros, de espaços destinados ao consumo de tabaco. Estes deverão ter ventilação, higiene e conforto condignos à integridade e dignidade dos clientes e dos funcionários que decidam frequentá-los.. Em todos os aeroportos portugueses - porquê só no da Portela? E com o respeito que a empresa que os gere deve aos seus clientes - entenda-se ainda para mais isto, nós não somos “utentes” (esse ideológico termo desvalorizador) somos “clientes”. Cada vez que por lá passo pago (e bem, face ao quase-monopólio que a TAP tem dos voos para Maputo). Pago para ser servido e não para ser tutelado. O serviço é mau, o aeroporto é confuso, a dita “groundforce” é uma merda. Mas mesmo que fosse bom a tutela seria inadmissível.
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Janeiro 26th, 2008 — Sociedade portuguesa
Explico porque intervalo o ma-schamba logo depois de ter mudado de endereço. Estarei ausente de Maputo, só voltarei lá para Fevereiro - sim, só regresso quando ainda não se puder fumar nos aeroportos portugueses.
Agradeço às 190 pessoas que assinaram este minha petição. Mas num país onde nem a alpista pode ser livremente vendida acho que nem vale a pena falar.
“Estes lusitanos são loucos”, diria Goscinny, se estivesse vivo. Assim resta-nos o rude (e torpe?) “estes tugas são loucos”.
Até daqui a duas semanas.
Janeiro 19th, 2008 — Sociedade portuguesa
Portugal. Bloguista amigo pergunta-me se mantenho a Moção por Salas de Fumo nos Aeroportos dado que abaixo fui informado da declaração de intenções da ANA vir a estabelecer zona para fumadores no Aeroporto da Portela. Pois sim, apesar de não estar a ser um sucesso (179 assinantes em quinze dias) mantém-se, mantenho. Pois duvido de “declarações de intenções”, pois duvido que a Direcção-Geral de Saúde (ou outro organismo tutelar) vá verificar se foram estabelecidas ou não as zonas para fumadores. Pois duvido que se estas vierem a ser criadas o sejam com a ventilação, a higiene e o conforto exigíveis (imagino umas jaulas de vidro, infectas e fedorentas), pois assistimos não só a um espírito controleiro como também revanchista (”se és fumador nada mereces”).E, finalmente, pois sendo lisboeta não sou centralista (Portugal é Lisboa e o resto é paisagem?). Sala para fumo no aeroporto de Lisboa e não nos outros?
Há coisas piores do que esta? Há com toda a certeza. Mas também há melhores. E não custa nada optar por estas.