Archive for the ‘Sociedade portuguesa’ Category

Adenda sobre os moralismos que falam

Quinta-feira, Setembro 2nd, 2010

Com toda a certeza que neste momento o mais importante em Moçambique não é referir o que lá longe se diz sobre o país e sua situação. Mas abaixo deixei um suave resmungo sobre os moralismos, internos e externos. E logo me caem no ecrã alguns exemplos disso, tão ocos que não consigo evitar pontapeá-los – ainda que saiba ser fútil perda de energia. Mas o tom ufano das suas certezas é tão irritante que me exige as caneladas.

1. O 2+2=5 indexa textos sobre as manifestações de Maputo. Por aí chego à opinião de Francisco Louçã, o “coordenador” do Bloco de Esquerda. Os mais veteranos leitores do ma-schamba dirão que reajo à minha “bête noire”. Porventura sê-lo-à. Mas é inenarrável. Eis como termina o acórdão da sua sentença: “Quando visitei Maputo, há uns anos e na véspera de uma cimeira africana, encontrei logo ao sair do aeroporto a construção acelerada de um muro elevado, que bloqueava um grande bairro de barracas: era para que os delegados estrangeiros não vissem a miséria. Este é o retrato da pobreza e da prepotência: oculta-se a miséria porque não se acaba com a miséria.”

Sei que os comunistas têm um fetiche com muros e que, desde que alguns caíram, têm com eles uma relação edipiana. Mas lendo este naco de prosa avanço para o método comparativo – é legítimo, não está Louçã a parodiar o método indutivo? E lembro-me do grande Carlos Lopes. Sportinguista, campeão olímpico, várias vezes campeão europeu, três vezes campeão mundial de corta-mato. Em 1985 foi campeão mundial no vale do Jamor [acima o recorte recuperado aqui]. Ora para acolher esse mundial o governo português de então construíra um enorme muro (um tapume) para esconder o miserável amontoado de barracas de refugiados timorenses (sim, esse pelos quais quinze anos depois os portugueses se vestiram de branco e karaokaram o lânguido “ai timor”) ali plantado. Será esse episódio significativo para definir, explicar ou até apenas ilustrar o sistema político e suas articulações socioeconómicas no Portugal de então e subsequente? Não, não é, por mais ridículo e afrontoso que o episódio então tenha surgido.

Quer-se pegar num ponto e nele basear uma conclusão? Ok, pegue-se, mesmo. Conheça-se e entenda-se. Na praça do aeroporto de Mavalane (Maputo) um dos seus topos articula com a zona do caniço. Na sua extremidade estava até, se bem me lembro, uma lixeira. A zona foi tapada com cenários de grande dimensão, com dizeres em francês, para simular a Kinshasa de Mobutu. Eram os cenários de Ali, de Michael Mann, filme em grande parte rodado em Maputo. Os quais foram ficando após a conclusão dos trabalhos. Algum tempo depois foram retirados. E fez-se o pequeno muro, ao longo de uma curva, tentando manter alguma “estética” da praça, agora “habituada” a um outro visual (um visual de “cimento”, chamar-se-ia aqui), como se “hall” de entrada da cidade. É risível? Sim, um pouco. Mas é isso demonstrativo, denotativo, ilustrativo de uma situação política estrutural? Afirmar isso é uma pura demagogia, básica. E desmontada por qualquer corrida entre Mavalane e a drenagem (ou seja, a imediata continuação desse caminho principal de saída do aeroporto), feita numa paisagem similar, de caniço, e sem outros muros. Para que agita o coordenador a sua palavra leve e vã? Ou, como diz o outro, “porque não te calas?”.

2. Henrique Fialho – que é dono de um excelente blog – cita (assim subscrevendo) outro naco moralista a explicar as coisas de Maputo (e com toda a certeza a receber a concordância da blogo-inteligência lusa left-wing e/ou conimbricense): “Por que não aumentam o preço dos veículos todo-o-terreno, das casas de alta cilindrada, desses artigos a que o povo não chega para conseguir comprar pão e pagar água, electricidade e transportes?”. Não me vou por a discutir a diferença entre preços tabelados e não tabelados, neste eixo de argumentação talvez fosse um sofisma. Nem a resmungar outra vez contra os textos medievais, mais ou menos cristãos, dos “ricos” vs “pobres”. Nem a argumentar sobre o peso simbólico dos “for-bai-for”, esse anti-cristo da esquerda parva europeia. Só vou lembrar a complexidade do mercado automóvel em Moçambique, a chegada dos recondicionados japoneses via Dubai (e como isso é ilustração das malhas que a economia global tece) e, já agora, do aumento dos preços dos carros novos. E do enorme aumento dos preços das casas em Maputo. Factos ambos que têm explicações e efeitos múltiplos, sociais e económicos e muito se articulam com as redes do poder político. Mas que servem para assinalar essa pequenina coisa da empiria que, chatice, torna mais complicadas as coisas. E nisso torna lixo a pompa das tiradas moralistas, cheias de invectivas e de si-mesmas. E ridículos os aplausos à missa.

Missa essa cheia de crentes. Muito comunitários, diga-se. Cheios de benzeduras e vade retros. E sermões entre-laudatórios.

jpt


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SOBRE A CULTURA DE TRABALHO AFRICANA

Sexta-feira, Agosto 13th, 2010

por ABM (Sexta-feira, 13 de Agosto de 2010)

Na edição de Agosto da revista Prestígio, que por estas alturas já deve estar a circular em Maputo, li um interessante comentário feito por Rui Guerra, despoletado por uma afirmação de Mo Ibrahim, empresário sudanês (e uma espécie de estrela depois de instituir um prémio que já beneficiou Joaquim Chissano) que, num discurso que fez numa visita recente a Maputo, fez uma daquelas declarações arrebatadoras e abrangentes que todos costumamos fazer sentados à volta dum café em privado, mas que na realidade dificilmente resistem uma análise ponderada.

Este tipo de análise é muito comum na cultura portuguesa. Invariavelmente começa mais ou menos assim: “o problema de Portugal é….”. E disparam em todas as direcções, no espaço, no modo e no tempo, desde a permanência exagerada do predilecto ditador do século XX, até ao assassínio dos Távoras, o derrube da monarquia, o extremismo de Afonso Costa, a manutenção extemporânea das colónias e a fixação no futebol (entre outras).

A minha favorita é que o problema de Portugal é estar no seu DNA a mania das elites vigentes em Lisboa alegremente alternarem-se ou derrubarem-se impenitentemente, não em defesa dos interesses dos que lá vivem, mas dos seus próprios interesses, fazendo uma pirueta desssa realidade e vendendo-a como uma qualquer gloriosa revolução imparável, moderna e civilizadora que a todos beneficiará e que perpetuará a existência da nação – até que mais uma crise qualquer faça surgir os senhores que se seguem. É uma espécie de nacionalismo feito à medida. Não aconetce nada durante quarenta anos, e de repente um terramoto 8.0 na escala de Richter.

É a história vista um pouco como as sucessivas camadas de uma cebola, com uma pitada de marxismo atirada ao barulho.

Mas voltando ao Rui Guerra e ao Mo.

Segundo o Rui, a afirmação da hora de Mo foi que o problema de África era que “os africanos não têm uma cultura de trabalho”.

Se calhar acertadamente, mas só parcialmente assim.

Rui Guerra não concorda e rebate Mo, em três frentes. Refere os milhões de mamanas e os agricultores no mato que trabalham que nem cães e de sol a sol.

Refere ainda que o fazem, apesar de na maioria dos casos não terem minimamente condições para o fazerem e ainda menos para prosperarem.

E refere que se calhar (e a meu ver, o que se esperaria precisamente de Mo Ibrahim) o dedo se devia ser apontado às elites locais e à sua deficiente liderança.

Rui Guerra conclui referindo que, não havendo nem condições nem recompensa adequada pelo trabalho, que não existe motivação para trabalhar – donde se conclui que, por outros caminhos, ele “afenal” concorda com a aferição do Sr. Ibrahim.

O que Rui Guerra está a dizer corresponde àquele velho ditado africano, segundo o qual se não há banana, não há macaco.

Com base na minha alguma experiência na área do trabalho, em Moçambique, em Portugal, em Angola e nos estados Unidos, este tópico dava para escrever um livro.

Mas como aqui no Maschamba o nosso Senador urge-nos para nos deixarmos de discursos e ir directo aos assuntos (a sua razão principal é que defende que os Maschambianos não têm pachorra para andar a ler textos demasiadamente espessos) farei apenas algumas anotações.

E referirei, por maioria de razão, apenas Moçambique.

Primeiramente, há que ver que – e já referi esse tema nesta casa mais que uma vez – que há dois Moçambiques, o das cidades e o do mato.

Focarei apenas na cidade, que conheço melhor.

A vida em cidades como Maputo, apesar de oferecerem oportunidades (e por isso atraem crescentes multidões vindas do mato, onde ainda está a viver Deus sabe como a esmagadora maioria da população), apesar de tudo ainda constitui um enorme desafio. Em geral, há infelizmente muito menos oportunidades de trabalho do que a procura. Permanecem enormes disparidades nas diferentes esferas de actividade, excesso de procura nos trabalhos menos qualificados e falta de quadros em muitas outras áreas.

Isso significa que há gente muito bem paga pelo que faz, e gente estupidamente mal paga. Por exemplo os empregados domésticos, onde os salários são uma anedota em termos do que proporcionam em termos de condições de vida aos trabalhadores. Viver com menos de cem dólares por mês em Maputo é menos que sobreviver.

Ou esperar que um caixa de um banco que ganha 300 dólares por mês e que vive com a mulher e três filhos numa palhota no outro extremo do Zimpeto, apareça todos os dias às sete e meia da manhã no local de trabalho com um fato impecável, sorridente e pronto para uma jorna (mas- tiro o chapéu a Rui Guerra – a minha experiência é que eles e elas apareciam, e faziam o seu trabalho, condignamente).

Mas esta é a lei da oferta e da procura. Não há como dar a volta ao assunto e por isso a situação persiste. E vai durar muito tempo ainda antes que o cenário se altere.

E segundo, apontarei dois aspectos relativamente claros que nem por isso são “africanos” per se mas que creio têm relevância.

O primeiro aspecto tem que ver com o equilíbrio da relação que as pessoas com a  empresa onde trabalham (e o trabalho que faz) e com a sua vida pessoal e familiar. Na África do Sul, na Europa (Portugal mais ou menos) e nos Estados Unidos, pareceu-me haver uma maior dedicação das pessoas em relação às empresas onde trabalham, muito frequentemente em detrimento da sua vida pessoal e familiar.

O que é relativamente fácil: são relativamente bem pagas, têm boas condições de vida, os países onde vivem têm toda uma infra-estrutura desenvolvida e estão bem treinadas. Têm água e electricidade 24/24 horas em casa, não falta gasolina, a comida está no supermercado, coisas desses género.

Em Moçambique, apesar daquela deliciosa relação de trabalho instituída pela legislação de origem portuguesa a qual, por exemplo, os empresários sul-africanos nunca jamais irão entender, nem sempre é assim. Pelo contrário. As dificuldades são significativas, quer para as pessoas que trabalham, quer para o seu círculo familiar alargado e rede de amigos. E as pessoas nem sempre estão bem formadas para as funções que desempenham ou têm condições de trabalho. Ou para aprenderem.

Isto de o emprego não ser a religião número um de cada um não é necessariamente mau (e se calhar é mais saudável a longo prazo que a paranóia induzida que se vê no mundo mais industrializado).

Mas para os Mo Ibrahims deste mundo, cuja vida é quase singularmente medida pelo que fazem no emprego, essa percepção de um maior distanciamento é logo convertido em falta de cultura de trabalho.

O que me traz ao segundo aspecto, que está relacionado com o primeiro.

Em Moçambique, regra geral, a família e os amigos importam. E as redes de amizades e de familiares são muito mais extensas que as unidades familiares nucleares que se vêm na Europa e noutros países, onde a “família” (como todas as empresas se espremem para promover, em seu interesse) é a imediata (pais, filhos e irmãos) mais a empresa onde trabalham e quem lá trabalha. Uma morte, uma doença, um problema, despoleta muito mais depressa uma ausência (física ou virtual) em Moçambique, do que o que, regra geral, se vê nuns EUA e na Europa.

E faz algum sentido que assim seja. Em África, muito mais que em países com perfis muito diferentes devido à sua muito maior riqueza, natureza dos mercados de trabalho e hábitos e estruturas de apoio sociais, hoje em dia há muito menos necessidade, e, logo, dependência, das redes familiar e de amigos como sustentáculos de sobrevivência de última instância. Numa aflição, numa situação de desemprego, em África, são a família e os amigos que nos valem antes que tudo o mais. Ignorar isso é brincar com o fogo.

A meu ver a maneira adequada de lidar com isto é entender o contexto, dialogar com as pessoas com respeito e tentar reconciliar os interesses das partes. Às vezes é delicado, às vezes é exequível, e às vezes é ridículo (por exemplo, o pai do trabalhador não pode morrer três vezes num ano, isso é batota).

Moçambique está a passar por uma fase muito acelerada de mudança, de transição de uma sociedade agrária e pouco qualificada, para uma sociedade moderna, em que convivem bolsas de modernidade com bolsas tradicionais de onde as primeiras emergiram. Se calhar mais do que noventa por cento de quem vive numa cidade moçambicana hoje tem pelo menos avós que viviam no mato e eram analfabetos. Os poucos que adquiriam autonomia e conforto financeiro fazem-no há relativamente pouco tempo. Os laços tradicionais e familiares estão presentes.

Portanto a evolução de valores faz-se gradualmente. As tradições importam. Têm uma razão de ser. Uma lógica concreta.

Mas no fim do dia, concordo com o argumento final do Rui: se houver um trabalhador qualificado (ou qualificável via programas credíveis de capacitação, o que permanece um enorme desafio a todos os níveis), trabalho aliciante e um salário que suporte uma vida decente, há cultura de trabalho. Não me venham lá com tretas. Nisso, África não difere do resto do mundo.

Pelo contrário, para certas funções o trabalho deve e tem que ser mais remunerado às vezes que em outros países. É mais uma vez a regra da procura e da oferta.

Rui Guerra tem razão em ruminar: Mo Ibrahim poderia ter sido mais generoso no comentário que fez. Aquilo é quase fazer pouco dos pobres.

Decerto devem ter sido todas essas centenas de milhões dólares que Mo tem na sua conta bancária que, momentaneamente, obscureceram a sua conhecida e, creio, genuína empatia para com os seus irmãos africanos.


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Olhar o Mundo

Terça-feira, Agosto 10th, 2010

[Mapa-mundi de Paolo del Pozzo Toscanelli (Florença, 1397-1482)]

Da imprensa (re-blogada) portuguesa chegam dois textos sobre a temática “cultura”. Leio algumas reacções adversas ao  texto de Pacheco Pereira sobre o “culturalês”: um patois que JPP deliciosamente exemplifica em adenda. Mas são ambos textos pobres, típicas ilustrações do velho ditado “com a verdade me enganas” – em Portugal há no campo artístico estratégias (retóricas) de distinção/legitimação que são vácuas e até pungentes? E depois? Onde não as há (houve)? A estratégia ilustrada é acarinharmos o cânone – em particular se vetusto – e pontapear a mole “cultura actual” para as traseiras do quintal? Chamando a carrinha da Câmara Municipal (ou do Conselho Municipal, se em Moçambique onde questões similares se podem levantar ainda que com diferentes incidências – e em semana de inauguração da importante Bienal do MUVART a questão da “legitimidade artística” regressa aqui à actualidade) para carregar tal tralha para a lixeira? Ou é debater, polemizando, os conteúdos propostos e as estratégias assumidas, combatendo e/ou promovendo as apropriações, as legitimações? Uma pena tudo isto, a vertigem polemista conduz JPP a um reducionismo, a um “politicismo”, que não cola com a sua densidade.

Mas empobrecedor é também o facto de que se sobre esse seu ditirambo recaem algumas (indignadas) atenções e um par de gargalhadas concordantes já sobre este texto de Manuel Maria Carrilho se escuta o eco do silêncio. Exactamente onde se avança o olhar político sobre a cultura, sobre virtualidades e potencialidades da prática cultural, assim convocando elaborações (e obras, já agora). Mas aí a facilidade do protesto ou da risonha anuência já não cola. Também por isso o tal … inteclar generalizado.

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A Revolução Cultural Portuguesa de XXI

Segunda-feira, Agosto 2nd, 2010

[José Gil, Portugal, Hoje. O Medo de Existir, Relógio d'Água, 2004]

Um emigrado visita sazonalmente a pátria amada e vai, cada vez mais de longe, vendo grandes e pequenas mudanças. Dada a distância a muitas será cego, a outras incompreende. Mas há algumas que se tornam evidentes. Compreendo agora que a maior transformação portuguesa de XXI se originou na reacção da sociedade civil a uma invectiva intelectual. Em meados da década José Gil publicou, com grande sucesso público, o seu ensaio “Portugal, Hoje. O Medo de Existir“. Muito vendeu, muito debate provocou. Tamanho eco aconteceu que José Gil foi até considerado pela imprensa francesa como um dos 25 intelectuais mais influentes do mundo.

Gil afirmou então que em Portugal dominava o medo da inscrição (no fundo, da acção): “O medo é uma estratégia para nada inscrever. Constitui-se, antes de mais, como medo de inscrever, quer dizer, de afrontar as forças do mundo desencadeando as suas próprias forças de vida. Medo de agir, de tomar decisões da norma vigente, medo de amar, de criar, de viver. Medo de arriscar. A prudência é a lei do bom senso português. O medo que reinava no antigo regime passou a um outro registo, sem desertar dos corpos.” (78-79) Ou seja, argumentava Gil que os portugueses viviam sob o signo da não-inscrição, algo que lhes vigorava nos próprios corpos, ao nível do quotidiano individual.

Profundo foi o impacto deste ensaio no seio da população. Talvez caso único na história das ideias em Portugal. Pois implicou uma reacção, verdadeira revolução cultural. A sociedade civil, aparentemente muda, reagiu. E, em massa, inscreveu. Em cada corpo a inscrição (acção) tornou-se causa. Fenómeno a que os intelectuais e analistas residentes me parecem pouco atentos. Pois hoje em dia não há amanuense que não apresente arabescos cravados, inscrevendo a sua máscula irreverência, nem matrona que não desnude flores-de-lótus ou cavalos marinhos, feita odalisca prometendo delírios orientais. O bimbo, a bimba, são um “must”. Impantes.

Não sei se seria destas inscrições que José Gil falava, se terá o famoso filósofo sido bem compreendido por leitores e restantes. Mas enfim, que causou inscrições causou. Uma vaga. Espera-se pois, e reflectindo o efeito sociopolítico do autor, o surgimento de um novo ensaio. Inscrito?

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Acabar com as reprovações na escola

Domingo, Agosto 1st, 2010

Tenho uma filha com oito anos. Andou desde os dois anos numa pequena escola particular em Maputo, chamada Escola Canadiana, onde vigora o velho método Montessori, com ensino em inglês. Chegada aos sete anos transitou para a Escola Portuguesa de Moçambique, para a segunda classe. Esta é uma escola pública, gerida pelo Ministério da Educação português. Funciona muito bem (pelo menos no nível do ensino primário, que acho agora chamar-se básico): excelentes directores (supra-disponíveis), excelentes professores (activos, interessados), belíssimas instalações – costumamos dizer que em Portugal não há escolas destas.

Ora nesse contexto a nossa princesa rapidamente entrou em aguda crise. Queixava-se que nada aprendia. Que ali se falava do que ela aprendera com cinco anos. Após pouco tempo foi transferida para a terceira classe, avançaram-na um ano apesar da renitência dos pais. Flana pela aprendizagem sem dificuldades (e o pai queixa-se disso). É a princesa Teixeira sobredotada? Nada! Burra total não será, mas é uma miúda normal. Mas vem de um outro sistema e deparou-se com uma escola que, ainda que funcionando muito bem, trabalha com um sistema de ensino muito pouco exigente. Muito pouco dinamizador. Muito pouco despertador. Chegada de uma pequena escola que labora diferentemente logo se deparou com essa realidade. Vive, por enquanto, dos rendimentos. Não só? Talvez. Mas pelo menos em parte.

Ok, violo a privacidade familiar (e se calhar recolho alguma animosidade na dita escola, apesar dos merecidos elogios). Mas faço-o invocando uma legitimação empírica – o sistema de ensino português é de baixa rotação. De reduzida exigência. Foi isso que esta pequena família constatou agora mesmo. Ponto final parágrafo. Porque não há possibilidade de contra-argumentar face a esta radical evidência.

Que a ministra da educação Isabel Alçada, que é uma senhora muito respeitável, venha propor o fim das reprovações, que proponha não que se baixe a fasquia mas que, pura e simplesmente, se retire a fasquia é totalmente suicidário. Pior ainda, é demencial. Reprovar alunos não resolve o assunto? Porventura. Então que se criem formas outras. Mas não assim.

Porquê este caminho tresloucado? Pela vigência de paradigmas pedagógicos? Porventura. Mas não só. O que vigora é o “ambiente moral” do país, o vale quase tudo para a aparência de um qualquer “sucesso”. Importa recordar, sem demagogia mas sim antropologicamente, analisando as práticas reais e consignadas – até sacralizadas pelo poder – que vivemos com um primeiro-ministro que mafiou a sua licenciatura. Que torneou o insucesso escolar. O caminho passo a passo faz-se assim. Com a cobarde cumplicidade daqueles que, por eles próprios, não mafiam. Mas calam e marcham conjuntamente. Porquê?

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A Agenda Cultural da Câmara Municipal de Lisboa

Sexta-feira, Julho 30th, 2010

Nunca fui a uma tourada. Das raras vezes que, ao longo dos anos, entrevi alguma na televisão lembrei-me daquela personagem, julgo que do D. H. Lawrence, que gritava “viva o touro”. O toureio a cavalo tem beleza estética mas há várias outras modalidades de equitação que a possuem, e até mais. Confesso alguma simpatia pela cultura de camaradagem máscula dos grupos de forcados e sua dimensão socializadora (excessos incluídos). Mas não tanta com os ademanes do toureio pedestre. Enfim, passa-me a “festa brava” ao lado.

Não tanto as campanhas contra ela. Que levantam questões interessantes. Pois são sintomáticas de um entendimento da acção por “causas justas”. A defesa do touro, por si só, e o ataque à “barbárie” da tourada obscurece (propositada ou distraidamente) a questão muito mais vasta do tratamento dos animais nas economias industrias e urbanas. Mas mais do que isso esta questão levanta as dimensões obscuras da atitude multiculturalista vigente no meio político e ideológico mais adverso ao toureio. Por um lado sempre disponíveis para aceitarem expressões “culturais” alheias, o que não passa da expressão actual do velho “exotismo” – para mais se essas, por via das migrações actuais, se deslocarem para novos redutos, o “culpado Ocidente”. E, por outro lado, repelindo a tradição própria. Ou seja, multiculturalismo sim, mas não integrando as formulações “culturais” endógenas.

Mas mais fundo do que isso esta luta contra a tradição toureira demonstra um ponto, sempre esquecido na politização do “multiculturalismo”. A de que as expressões vigentes são palco de constantes conflitos legitimadores, de afirmações (daí a adversidade ou a defesa da tourada). E que a defesa da “cultura” alheia implica, quase sempre, a afirmação da sua cristalização, o esbater dos respectivos conflitos, o apoio à legitimação de concepções em confronto com outras. Fruto não só do desconhecimento da intensidade e complexidade das culturas e sociedades, dos seus conflitos internos. Mas acima de tudo da pressa em opinar, em defender. Da pressa em estar com a “causa justa”. Do facilitismo em encontrar o touro, perdão, a vítima.

Arrazoado meu que me surgiu na minha ida a Lisboa. Recolhi a “agenda cultural” de Lisboa (Julho de 2010).

É uma muito útil produção da Câmara Municipal de Lisboa, de vertente socialista (vereadora municipal de cultura Catarina Vaz Pinto; director da publicação e também director municipal de cultura, Francisco Motta Veiga). Bem organizada, tendencialmente exaustiva, é uma louvável iniciativa e realização – e acho importante louvar o que o Estado faz bem, face ao (nosso) hábito de sempre nele bater. Mas é também, por ela própria e pelo que denota, muito sintomática do “ambiente moral” (ideológico) que se vive.

Folhei-a com atenção (128 páginas) marcando o que desejaríamos ver. Alguns dias depois atravessei para a margem sul do Tejo e de imediato reparei nos cartazes alusivos a touradas. E notei que em Lisboa não havia nenhuma tourada prevista para Julho. Mês de tantos turistas, mês de emigrantes de férias (e a emigração de agora não é dos confins de Trás-os-Montes que parte), mês de tempos livres. E nem uma tourada na capital. Não que eu a elas desejasse ir, mas estranho(ei). Não há touradas em Lisboa? Ou não aparecem na Agenda Cultural da Câmara Municipal? E se não há mesmo não poderiam elas, como expressão cultural, ser incentivadas, até com apoio camarário?

Já em Maputo leio que o parlamento catalão proibiu as touradas em 2012 (para gáudio dos “bonscausistas” nacionais). Não sei até que ponto não será uma “des-espanholização” autonómica, não conheço o contexto (nem a história do toureio em Espanha). Mas a ideia completa-se-me, estarão já as touradas “proibidas” na Lisboa desta autarquia, e também, quiçá, por indução da vereação?

Antes, e dirão que é má vontade minha, reparo que a referida Agenda tem 7 páginas dedicadas a bibliotecas e arquivos. Mais elogios, não fica apenas pelo espectáculo e pelo habitual roteiro de museus. Em destaque, foto de página e breve historial, um centro de documentação dedicado à causa homossexual. Qual o mal? Nenhum. É apenas uma agenda cultural municipal a denotar o “ambiente moral” vigente, a topografia do legítimo. E a denotação não é crime, nem erro nem maldade. É apenas denotação.

Sei que para alguns aqui está a denotação de um bloguista homófobo e “faeneiro”. Mas esse é o problema do bloguismo, os touros quando entram não foram picados e ainda assim vêm em pontas.

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A grande mudança

Quinta-feira, Julho 29th, 2010

É a grande mudança em Portugal nesta primeira década de XXI. Se, como há décadas cantava Rodrigo, “coentros e rabanetes não vão à mesa do rei“, alguma transformação sociológica aconteceu pois os caracóis tomaram de assalto as mesas lusas. Não há hoje sítio onde não vigore o fedor da molhanga com que são estes bichos recobertos, onde não soe o colectivo sorver dos pequenos cadáveres. À distância estou impossibilitado de entender se é apenas uma questão de in/evolução dos “usos e costumes” deste povo ibérico ou se será uma adaptação da dieta a tempos mais difíceis. Eis, pois, um programa de investigação para a antropologia da alimentação.

[Fotografias de Miguel Manso, publicadas no jornal Público, 18.7.2010]

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Declínio e Queda do Império

Quinta-feira, Julho 29th, 2010

Apontamento recolhido na Avenida de Roma (Julho 2010). Aorta onde, rezam as crónicas de então, habitou a pequena burguesia lisboeta na segunda metade de XX, então muito ciente de si própria e do seu propalado “charme discreto”.

["Clínica do Pêlo", Av. Roma (à antiga Discoteca Roma)]

Nota: Reparar, sff, na concordância cromática entre a clínica (uma cadeia, dizem-me) e a nova pintura do prédio. Caso lhe seja possível o prezado leitor poderá ainda intentar a concordância sonora, pronunciando em sotaque alfacinha o nome do estabelecimento comercial supra-referido.

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Higienismo

Quarta-feira, Julho 28th, 2010

Terminada a refeição peço um whisky. Recebo uma simpática negativa, um “agora já não servimos“. Surpreendo-me, não havia reparado, mas é normal a contenção nestes tempos de crise. Ainda pergunto desde quando se abstêm de tal, e venho a saber que já desde Abril passado. Mas não seja por isso que me vou privar do soporífero, “e vendem?” indago com sorriso altaneiro, até presumo que arqueando a sobrancelha. Mas não, nem isso, não há mesmo bebidas destiladas disponíveis. Isso já me irrita, pois então não são meras poupanças, é intromissão. E irritado sindicalizo-me num “e na executiva, servem?!”, até já me imaginando a cravar uns copos aos conhecidos que sei irem ali à frente. Que sim, diz-me o comissário, para logo avançar, até algo cúmplice, “mas para 36 lugares embarcaram 5 whiskies“. Só!

É óbvio. A TAP, e nisto não irá sozinha, decidiu tomar conta dos clientes. O álcool faz mal, pelo que não se serve. Não é a “conta, peso e medida” de décadas de aviação comercial. É a tolerância zero da beatice dos tempos de hoje. E a gente, infantilizada, a aceitar que tomem conta de nós. Vergando-nos ao higienismo. Esse daqueles que sujam e estragam o que realmente conta. Como sempre é esta torpe beatice.

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Mudar de vida?

Terça-feira, Julho 27th, 2010

Vamos à praia, à Costa da Caparica, a praia do povo. Ali chegados avançamos para o areal e procuramos alugar uma sombra. Esgotadas, temos que ir para o concessionário seguinte. Nesse ainda arranjamos local e abrigamo-nos muito juntos, ainda bem que somos um legítimo casal, que a pouca palha mal amanhada quase nenhuma sombra produz. Pagamos 2 contos e quinhentos (os indígenas assimilados chamam-lhes 12, 5 euros). Vamos à água, polar, e molhamos os pés. E logo regressamos à quasi-sombra onde nos unimos bem juntos, ainda que com algum pudor, em busca da tal sombra. Lemos algo, algo distraídos. Um pouco depois vamos petiscar ao bar de praia. Abarrota, e no calor da esplanada tresanda a sardinhas assadas. Voltamos então ao concessionário vizinho, este com nome de flora local (“Palmeiras”), nele o bar de praia também está cheio, e ali habita o bedum da molhanga do caracol cozido, mas ainda assim temos artes para ocupar uma mesa. Sôfrego bebo duas imperiais, a minha senhora um sumol, para ela uma tosta de galinha e eu a tradicional mista. Pagaremos mais de dois contos e novecentos (o dialecto regional chama-lhes 14 euros e tal). E, acabrunhados, recuamos para o carro, saímos do enorme e apinhadíssimo parque de estacionamento onde pagamos 700 escudos (os locais chamam-lhe 3,5 euros).  Seis contos (trinta euros na “língua de pau” vigente) para ir à praia. À praia do povo. Cheia.

Crise, dizem. Mudar de vida, dizem. Em Portugal.

Adenda: reparo que recolhi a tal “sombra” (a 2 contos e quinhentos). E aqui fica, para que não me acusem de mau-feitio.

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Manifesto (Utópico?)

Terça-feira, Julho 27th, 2010

["Pastéis de Santo António", pastelaria na Costa da Caparica, Portugal, Julho 2010]

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Tattoo you

Segunda-feira, Julho 19th, 2010

Urgências de Santa Maria. Para além da aflição – ou talvez por causa dela – posso aperceber-me da rapidez gentil dos serviços. Médicas dedicadas e atentas. Enfermeiras simpáticas e … bonitas. Depois, já mais acalmado atento no adjunto de enfermagem. Jovem jingão, crista capilar dourada, orelhas escarafunchadas com múltiplos metais. Braços longa e coloridamente tatuados. E imagino aqueles gerontes proto-moribundos entreabrindo a lucidez e deparando-o, como se diabo já acolhendo-os.

Ou, pelo contrário, nestes modernos portugais, ser-lhes-á ele a figura do anjo disponível?

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O Relativismo Cultural e a Conversa Com os Mortos

Sábado, Julho 17th, 2010

Apanhei ontem os restos do programa televisivo Depois da Vida, na TVI. Ao que vi, e me explicam, tudo consiste numa senhora inglesa que fala com os espíritos desejados pelos telespectadores. No meio há uma lusófona intérprete que vai intermediando a comunicação dos caros tele-espectadores com as convocadas almas (algo) penadas.

Fico estupefacto, a licença privada para exercer actividade televisiva, obtida sob o governo do actual presidente da República Cavaco Silva, possibilita isto? Sei que os liberais defendem este ponto de vista. Pois se há consumidores para este tipo de diálogo com o outro-mundo como proibir (ou até criticar) o produto? Sei também que a pujante esquerda multiculturalista (grande parte dela acoitada nos jornais, nos blogs e nas universidades, exactamente como a rapaziada liberal) vibrará com esta pantomina – não é a comunidade crente nesta taralhouquice uma minoria cultural merecendo o apoio público e político para o exercício das suas mui dignas crenças e práticas de comunicação com o além?

Mas apesar desse apoio maioritário das “inteligências” portuguesas, à direita e à esquerda, a esta tralha multicultural ainda me interrogo. Que pensará o presidente da República do caminho que as televisões privadas assumiram desde que lhes deu licença. Afinal era para falar com os mortos? Ou por outra, estará a Presidência da República ao mesmo nível de indigência intelectual no qual vegeta a intelectualice portuguesa? Ou não está, ou seja, ainda existe e em assim sendo terá a energia para se pronunciar sobre este lixo abjecto?

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Lisboa global

Sábado, Julho 17th, 2010

Na esplanada da tasca, vivamente interrompendo a série de incontáveis caracóis, repete alto e bom som a cliente, alfacinha diz o sotaque: “Uaréver [whatever?] que seja!“, “Uaréver [whatever?] que seja!“, “Uaréver [whatever?] que seja!”

Seja, então.

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A TVI e Carlos Queiroz

Sábado, Julho 3rd, 2010

Chego a Lisboa e na primeira noite vejo a TVI – estação que não sintonizo em Maputo. Um programa “desportivo”, dedicado a esquartejar o seleccionador nacional. Ali pontificavam, brandindo cutelos e espetos  bem sanguinolentos, um moderador, um outro jornalista João (seria Querido Manha?), um homem muito bronzeado – e particularmente esfomeado – que me fez lembrar um caceteiro do Famalicão que há 30 anos selvaticamente partiu a perna do grande futebolista Rui Manuel Trindade Jordão. E ainda, fui informado no final do programa, um deputado do PS – do qual não retive o nome.

A propósito de quê? A propósito de quê se chama um deputado para comentar a situação da selecção nacional de futebol? Eduardo, o nosso guarda-redes, Ricardo Carvalho ou Bruno Alves, os nossos centrais, Fábio Coentrão, a nossa revelação, Cristiano Ronaldo, a nossa desilusão, João Moutinho ou Ricardo Quaresma, os nossos ausentes, foram chamados pela TVI para comentar a situação do vice-presidente do grupo parlamentar que rouba gravadores dos jornalistas e que é aplaudido em pé por todo o seu grupo parlamentar (este comentador incluído, claro)? Foram? Se não o foram então por que raio está um “civil”, ainda para mais um escroque desonrado (como, por evidência assumida, o é qualquer deputado ou deputada socialista), a comentar um assunto sobre o qual não tem qualquer competência particular? Porque razão continuam os “simpáticos telespectadores” (dos programas e dos anúncios) a pactuar com esta canalha e a permitir estas manobras de “humanização”?

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