Entries Tagged 'Sida' ↓
Março 28th, 2009 — Religião, Sida
Sobre sida, preservativos e a hierarquia católica, em particular o Papa, abaixo estão alguns textos. Expressando também o espanto por forma e conteúdo das declarações do Papa em África terem sido tão bem acolhidos – recepção que ecoa, por um lado, a máxima “o respeitinho é muito bonito” e, por um outro, o facto de muitos muito falarem mas só do pequeno mundo que lhes é a paróquia (ou até mesmo a mera sacristia).
Para esses, “respeitadores” (até os da vertente “multicultural”), será interessante olharem-se nas declarações do bispo de Viseu sobre o preservativo. Pode ser que aprendam algo. Sobre eles próprios.
Março 24th, 2009 — Religião, Sida
Março 22nd, 2009 — Religião, Sida
Acabo de ver em diferido. No último minuto do último Quadratura do Círculo (aqui audível) António Lobo Xavier, com extrema ponderação a dizer o fundamental, o necessário sobre as afirmações do Papa relativas à utilização do preservativo no combate ao sida. Como é óbvio, sem ponta de anti-clericalismo ou fundamentalismo ateu. Ou do seu pobre inverso, o catolicismo de barricada. Livre pois de reaccionarismo cultural. Apenas clarividente. Cosmopolita.
Março 21st, 2009 — Religião, Sida, Sociedade portuguesa
Aos críticos das declarações do Papa sobre sida e preservativos, nesta sua deslocação a África, Francisco José Viegas chama “flibusteiros” e alarves, Paulo Pinto Magalhães considerou ineptos, e Vasco Pulido Valente resolveu-os histéricos. São exemplos de conhecidos bloguistas, entre tantos outros, ecoando o impacto da questão em Portugal.
Haverá dois níveis da análise disto:
1. o rasteiro, à imagem da argumentação alheia. Vasco Pulido Valente resolve a questão, largando a típica superficialidade que tanto lhe aplaudem: “Muito pelo contrário, do ponto de vista dele [Papa], era ali, numa situação extrema e manifestamente ambígua, que devia reafirmar o que julga ser a verdade.”
A inteligência da afirmação é totalmente similar a alguma que defenda as afirmações da Nobel da Paz Wangari Maathai que considera ser o sida uma criação europeia (aliás, branca) para destruir África. Ou que defenda o cardeal de Maputo quando este considera que a epidemia é espalhada propositadamente pelos países europeus, por via de medicamentos e preservativos. Pois se acreditam nestas verdades não têm eles o direito (até mesmo o dever) de a divulgar? – dir-se-á que são meros dislates, que não são comparáveis. Há provas científicas disso? Ou, tal como eu, crê-se que são dislates?
Ou serão eles criticáveis e o Papa acriticável? Ainda infalível ou como se tal, mero vestígio simbólico dessa velha crença dogmática?
Mas isso não é o fundamental sobre estas declarações generalizadas.
2. O que é notável é a forma de apropriação da questão (da sua “nacionalização”). De tudo o que li o mais elucidativo é este comentário de Suzana Toscano, que João Gonçalves reproduziu: “Tornámo-nos uma sociedade de grande sentido prático mas de reduzido sentido de valores.”. Ora é exactamente aqui que está a questão: qual sociedade? Quais valores, quais sentidos? (por favor, agora a “aldeia global” de mcluhan não, há limites para o esparvorar).
Esta aparente evidência, e recorrentemente afirmada (já de si muito discutível, pois na prática é um mero avatar da invectiva à laicização, mesclado com a velha utopia da idade de ouro passada) demonstra exactamente de que falam e do como falam. Na prática não interessam os assuntos tratados. Estes são apenas matéria para discorrer sobre a tal sociedade (a própria, como é óbvio). E, nessa, proceder ao constante jogo topológico: se num outro blog, outro partido, outro jornal, outro grupo, alguém favorece ou contraria algum facto, então urge contrapor, vincar as posições mútuas, o inter-distanciamento, a inter-dependência. Ser.
O real, esse, interessa apenas para o jogo. Que não é mera retórica. É, afinal, o só real.
3. Finalmente. As declarações do Papa em África sobre o preservativo são marcadas por contextos comunicacionais (que começa – e isto para os do “anti-intelectualismo”, que gostam de gozar com o que não lhes cabe na algibeira – pela simples opção da língua em que fala), neste caso estrondosos. E por um contextos interpretativos. Nesse sentido os seus efeitos (que são procurados, estrategizados, claro), as suas traduções, não são os de uma paróquia burguesa portuguesa.
Quem incompreende isso, quem não quer atentar nisso, esse sim é um inepto, um histérico verborreico. Um pirata.
Março 19th, 2009 — Religião, Sida
O Papa está em visita a vários países africanos, tendo-se referido à questão do sida. Sobre isso escreveu João Gonçalves [I, II] e em ambos deixei comentário.
Os blogoanos passam e só me resta repetir-me. Sobre sida o que me ocorreu já aqui está.
Março 18th, 2009 — Religião, Sida
Novembro 11th, 2007 — Africa Austral, Sida, África do Sul
Está no Domingo de hoje o eco de um artigo no
Guardian sobre as posições de Mbeki relativas ao Sida. Continua sendo, como refere o seu biógrafo oficial, um “dissidente do Sida”. Continua agitando e promovendo um documento por ele elaborado já nesta década no qual defende nada curiosas teses:
o vírus HIV não é o causador da doença;
os investigadores da doença são quais cientistas nazis dos campos de concentração;
os africanos que aceitam a visão da ciência médica sobre a doença são vítimas de uma auto-infligida mentalidade de escravos.
Uma continuada visão em Mbeki e em vários dos seus seguidores sul-africanos, com eco em tantos membros das elites africanas (a Nobel da Paz Wangari Maathai, o cardeal de Maputo são sonantes exemplos) – representam uma transferência letrada das visões populares sobre o Sida (e a estas alimentam), mas não só. Nelas se reconhece um profundo anti-capitalismo confuso (pois brotado em políticos de acção pró-capitalista), traduzido em aparente recusa do capitalismo da indústria farmacêutica, sinal óbvio da confusão ideológica dessas elites políticas (dramático caso em Mbeki, ainda assim dos grandes líderes africanos actuais).
Mas mais do que isso, dois outros vectores a sustentarem esta “teoria conspiratória do Sida”, avatar contemporâneo da “teoria conspiratória da história”: por um lado, um óbvio, profundo, dramático, ressentimento com o “ocidente”, com o “homem branco” – aqui anunciado como genocida perene, autor da epidemia que dizima as populações do continente. Há uma doença avassaladora em África? Pois a responsabilidade, autoria e gestão, é dos brancos. Esta é uma constatação constante. E, por muito que seja historicamente compreensível tal angústia com os antigos colonos, ela é no caso presente patética (e pateta). E, para além da questão do Sida, este fundo moral e ideológico dificilmente será constitutivo de algo positivo – o “inimigo externo” como culpável de tudo não me parece grande argumento de desenvolvimento e de justiça social. E, neste caso, de saúde pública. Mas esta culpabilização rácica apela ainda a outra consideração, a de um actual e futuro espartilho para aqueles que recusam as categorias raciais como explicativas da acção humana: incrustados que parecem estar entre os racistas de várias cores, propondo estes supremacias racionais e civilizacionais (como acontece entre o trogloditismo de tez branca) e supremacias “históricas” e morais (como agita o trogloditismo de tez negra) [e aqui nem refiro outros locais do espectro de cores].
Finalmente, esta concepção constante de que os fenómenos têm uma “mão visível” subjacente, que a desordem (a doença mortal, neste caso a pandemia) é originada por uma vontade humana malévola, é a constante de uma cosmovisão feitícica, a sua actual demonstração religiosa, essa que elege o feitiço esconso como motor da acção social (muitos há, e até antropólogos encartados que chamam a isto fatalismo – e daí ao postular de um atavismo apenas lhes custa um dos seus pequenos passos -, símbolo de que não percebem nada disto). Ou seja, um entendimento geral subordinado a um extremo homocentrismo, em que as causas dos fenómenos têm que ser os indivíduos, mortos ou vivos, na sua constante e imortal interacção.
Por esta mesmo tão interessante – apesar do drama do Sida, apesar da tristeza racista – é ver as elites mais “modernizadoras” (como Mbeki) e mais cristãs (como os representantes do Vaticano) actuarem no quadro cosmológico tão perseguido pela actual revolução religiosa em África. Interessante de olhar enquanto se espera um novo Copérnico que aqui descentre o universo deste pobre pó que são os homens – não tão omnipotentes assim, nem quando vivos nem quando espíritos.
Setembro 29th, 2007 — Sida
Pois, há quem
tenha ouvido as declarações do Cardeal de Maputo sobre a disseminação do vírus do Sida através dos preservativos, algo produzido propositadamente por dois países europeus para exterminar os africanos. Num país devastado pela doença (dita, correctamente, pandemia) e com um enorme esforço para a combater, que reacção terá o Vaticano – o clero depende do Vaticano, não do Estado, um aparte para os mais enfurecidos e por isso distraídos – face a estas opiniões publicitadas?
Será que preferirá valorizar o recente esforço na colecta do dízimo aos católicos?
Setembro 29th, 2007 — Politica Portuguesa, Religião, Sida, África do Sul
(Quase) Uma semana de Pretória.
1. Das medicinas privada e pública. Na privada (sul-africana) douta opinião do tira-tudo, acompanhada da lista de honorários – nem grande coisa diga-se. Na pública (santa terrinha) douta (e fraterna) opinão do espera-e-não-tira, sem honorários claro. Os óbvios malefícios do Serviço Nacional de Saúde. [O casal paterno, talvez porque óbvio socialista, tira nada.]
2. A Exclusive Books [entenda-se, a hiper-FNAC lá do sítio] de Neilspruit é melhor do que a Brooklyn Mall (Pretoria) e quase do que a de Sandton (JHB).

Onde vive a “elite” de lá, afinal em Trás-os-Montes?
3. Decadência sul-africana.
Não há novo livro de Madam & Eve.
4. Qualquer coisa sul-africana.
Cheira a Zuma.
5. Maputo (no regresso, mas antes também). No BB (belo blog) Solvstag cita-se Miguel Esteves Cardoso. Ler e comprovar que no Shamwari (ao talho Polana) se serve a melhor cerveja de pressão (aka “imperial”) da cidade.
6.
Maputo (no regresso, a ler e ouvir de Portugal). O meu ex-Presidente (e por isso sempre respeitado) Pedro Santana Lopes muito bem, baldando-se por ter sido trocado pelas malas da família Mourinho. E a minha surpresa com alguma da muito minha gente a não perceber, tamanha lhe é a clubite rosa, de que se trata mesmo da “a infantilização assassina que nos assola como uma praga …”, diga-se neste caso a futebolização.
7. Maputo (no regresso, a ler e ouvir de Portugal). Por falar em bola, eis o sossego da sociedade civil, a “auto-estima” lusa, a exigir outro Trapattoni “campeão”. O apito rubro? Sócrates (o inventor dos dez estádios do Europeu, então o arauto da sociedade [da construção] civil]) agradecerá.
8. Maputo (no regresso, a ler e ouvir de Portugal). Mentira pura nas palavras de Ruben A. Há imensa gente que atende o telefone. Portanto, pois …
9. Maputo. E então, muito caro leitor frequente, deseja algum comentário face à polémica relativa às afirmações do arcebispo de Maputo sobre o Sida e suas origens? Menezes, meu caro leitor, Menezes …
[ainda que ... em estando gravado se poderá dizer "nada de novo sob este céu" - os brancos de tudo têm culpa (sua condição semi-divina, dir-se-ia); e o preservativo como a arma do deboche não-marital. É o pacote habitual, amancebando-se (não sacramentalmente, já agora) com as ideias populares, de que é na camisinha que mora a doença e que são os brancos que a trouxeram para ficarem com estas belas terras. Contudo a Terra move-se, ainda que a Igreja Católica se atrase.]
10. E falando de coisas bem importantes. “Old age”, diz-me o mecânico, meneando a cabeça até pesaroso, face às múltiplas mazelas do meu

Musso. O nosso fim avizinha-se? Que será de mim?
Janeiro 10th, 2007 — Sida
Dois pequenos textos interessantes: um sobre o Sida em Mocambique e outro sobre a memória do comércio de escravos em Zanzibar. Interessantes também pela forma como sendo textos pacíficos, permitem tanto asnear na leitura (é ir-lhes aos comentários).
Agosto 22nd, 2006 — Africa Austral, Sida
Barack Obama, the only black United States senator, criticised South African leaders on Monday for their slow response to HIV/Aids, saying they were wrong to contrast “African science and Western science.” Aids activists say Health Minister Manto Tshabalala-Msimang is creating deadly confusion by pushing traditional medicines and a recipe of garlic, beetroot, lemon and African potatoes to combat HIV/Aids while underplaying the role of anti-retrovirals (ARVs). “The minister of health here has tended to equate traditional medicines to anti-retrovirals, so on the treatment side the information being provided by the minister of health is not accurate,” he said. “It is not an issue of Western science versus African science, it is just science and it’s not right,” Obama told reporters outside an HIV/Aids clinic in Cape Town’s Khayelitsha township.”
Uma das mais enigmáticas questões na vizinha África do Sul é a retórica (e a prática?) do seu governo face ao sida. A consideração da pobreza como causa da doença – o que sendo, em determinado registo, uma verdade é absolutamente letal em termos de campanha de prevenção. E a valorização da dieta “africana” como curativa – mais uma vez, é uma verdade relativa, mas suicidário em termos de estratégias dilatórias do inimigo principal, a morte.
É muito reduzido o que conheço do “ambiente moral” do poder ANC, esse que implica a recorrente afirmação destes argumentos, e a recusa em matizar as declarações públicas. É pois nesse registo de superficialidade de conhecimento (e de rapidez de escrita e reflexão) que associo estes discursos a alguns factores ideológicos, que não se encontrarão apenas na RAS mas que ali assumem particular visibilidade.
Por um lado o anti-ocidentalismo/anti-americanismo, produzindo o mito da doença como causada pelos ocidentais, para destruição de África. Ainda recentemente, e para espanto geral, ecoado pela Nobel da Paz, a queniana Wangari Maathai, e algo que tantas vezes se ouve no seio das populações. Como seu corolário a desvalorização (prática) das causas efectivas da transmissão da doença, assim obscurendo os métodos de prevenção. Associando-se-lhe um anti-capitalismo (e até, por vezes, uma ideologia anti-industrialista, confusamente ligado a um necessário “regresso às origens” auto-valorizador, auto-indutor de desenvolvimento), talvez algo retórico, mas que conjuntamente com o factor anterior se prende com o profundo mal-estar com as questões da notória dependência político-económica de África (e o regresso, nada encapotado, das teorias dependentistas – essas que, paradoxalmente, esvaziam de humanidade “agencial” os próprios africanos, no fundo um reaccionarismo ocidentalocêntrico, um altercentrismo, que escapa aos seus locutores). Anti-capitalismo/industrialismo esse que, neste caso, implica a desvalorização dos medicamentos em prol dos produtos biológicos (a dieta).
E, sem de tudo isso estar desligado, um endogenismo, a reclamação do primado das forças próprias. Um paradigma, claro que válido para tantas dimensões da realidade, mas que submerso neste caldeirão ideológico surge como valorizando a (certo que benéfica) batata-”africana”, et al, contra os anti-retrovirais químicos-”ultramarinos”. Um endogenismo que, amíude, alimenta um, surpreendente (?) regresso do “nativismo“, a valorização dos saberes locais, indígenas. Mais uma vez uma verdade relativa, uma ideologização do reconhecimento, utilização (e salvaguarda, já agora) da pluralidade cognitiva. Assim substituindo uma histórica subvalorização (e perseguição) por uma desejada sobrevalorização, de contornos muito dúbios. E muito do discurso público (e até académico) sobre as relações entre a medicina formal (dita biomedicina) e medicina(s) tradicional(ais) encerra-se neste amplexo esganador.
Um outro (e aqui último) ponto, também ideologicamente ligado. A afirmação do ocidentalocentrismo da(s) ciência(s) e da necessidade de erigir conceitos, problemáticas (metodologias) africanas. Reconhecido o carácter histórico, social, contextual da produção científica, das relações de poder que esta encerra, que as constituem (e poluem) reclama-se ciência local – a medicina africana, a sociologia africana, os etcs africanos. E quem reclama da universalidade (tendencial) do discurso científico, localmente aplicável, localmente reformulável, sempre actualizável, afronta-se com o muro de beco constítuido pela afirmação (acusação) da característica também ocidentalocêntrica desse universalismo pretendido.
Enigmática questão, iniciei eu, esta a da conceptualização do poder sul-africano sobre o sida, esse que vai devastando o país e o continente. E das similitudes que se encontram no discurso público alhures – entenda-se que um discurso sobre o sida com estes contornos não se encontra nas altas esferas políticas moçambicanas (e se, por mera hipótese, existir pelo menos não tem expressão pública). Enigmática questão pois parece-me que a conjugação de um conjunto de questões todas elas válidas (entenda-se, questionáveis, discutíveis), acima elencadas, se torna húmus para um inconceptualização. E que, ainda por cima, não parece corresponder a qualquer interesse passível de ser confrontado, associado, com o drama da sida.
Entretanto neste caso como em tantos outros, na África do Sul muitos destoam destas posições afinal simplistas (ainda que não simples). Com eles, claro, Nelson Mandela. O Homem…
Dezembro 4th, 2005 — Imprensa Portuguesa, Sida
“Agora Existo“, um documentário da jornalista Anabela Saint Maurice (RTP) rodado em Outubro em Moçambique, sobre a realidade do Sida aqui. Transmitido na RTP-África no 1º de Dezembro para assinalar o Dia Mundial da Sida.
O olhar jornalístico europeu sobre África é relativamente padronizado. O português é-lhe exemplo talvez máximo. Tudo moralista, das boas intenções às boas impressões, uma mistura de “denuncionismo”, “coitadismo” e “exotismo”, um caldo de pitoresco entre capulanas, raparigas sorridentes, estropiados das minas, corruptos e famintos, com pôr-de-sol em terra batida por pano de fundo, com maior ou menos enfoque nas aventuras havidas pelos ditosos jornalistas em causa. Tudo isso resultando em produtos oscilando entre o indigente e o até abjecto. Produzindo sensações e, mais que tudo, desconhecimento.
Também por isso, mas acima de tudo pelo seu valor intrínseco, que até se desmerece em comparações com o padrão habitual, muito é de saudar este documentário da RTP, “Agora Existo” de Anabela Saint-Maurice. Abordando a realidade dos seropositivos em Moçambique (com excertos em Naamacha, Beira, Caia, Chiure, Ibo – um rápido “da Naamacha ao Ibo” qual metáfora do célebre “do Rovuma ao Maputo”) Saint-Maurice trouxe a vida dos doentes, suas dificuldades, as irredutíveis e as esperançosas, sem a sua vitimização usual, essa que “desagencia” os indivíduos, os naturaliza desumanizando, passivizando-os. Gente doente fazendo pela vida, reclamando a vida, estrategizando pela vida. Curandeiros doentes lutando contra a doença, ali sem exotismo (e o como deve ser difícil a um europeu de passagem evitá-lo neste caso), putas meninas sem preservativo e sem denuncianismo, poligamia também, hospitais no o como existentes, nisso do mostrar o real actual e o que talvez venha a ser. Sem a lágrima fácil, vendo gente a andar, mesmo que por vezes trôpega. E isso sem que haja fechar dos olhos, penso que as imagens da praga de ratos na enfermaria feminina do Hospital da Beira ficarão na história. Saint-Maurice não facilitou. Um belissimo programa. Vénia.
Vejam. E se alguém que por aqui passe conhece a jornalista diga-lhe, sff, que há bloguista que gostou.
Novembro 4th, 2005 — Sida

(autoria de Pedro A. Manteiga)
Este “Toni” é a página de banda desenhada que integra a TVzine, a revista da programação da Tvcabo moçambicana, uma das poucas revistas do país.
O que chama a atenção para esta bd não será a sua reduzida qualidade estética. Enfim, é uma tentativa. O que o torna absurdo é a mensagem. Em 2005 a continuação de uma campanha contra o SIDA assente no apelo à abstinência sexual. Como a reprodução é má eis algumas das deixas do tal “Toni”: “Vocês devem abster-se do sexo. São muito jovens e …” … “Não praticar relações sexuais é o único método seguro para evitar DTS HIV/SIDA e gravidez indesejada“.
O Sida é uma praga, um drama terrível em Moçambique. As campanhas de sensibilização parecem falhar (parecem pois as percentagens de infectados continuam a aumentar. Mas que seria sem elas?). Nesta situação muitos procuram disseminar mensagens de sensibilização e mensagens de esperança. Mas não será já tempo de perceber quais as mensagens inúteis? E, pior, quais as mensagens contra-producentes?
Campanha pela abstinência sexual? Afirmar o preservativo como inseguro? Talvez inconsciência do desenhador, talvez ecos dos fundamentalismos cristãos. Mas a roçar o inaceitável. E a direcção da revista que diz?
Agosto 10th, 2005 — Sida
Diz o estudo de agora que em 16,7% dos adultos. Aqui, na cidade grande, em 20%. Fico com o silêncio.
Dezembro 1st, 2004 — Sida
Dia de lembrar que perdi três alunos com a puta da doença. E do estúpido contra-natura que é perder assim os nossos mais novos.
Dia de lembrar tanta gente a dizer-me, anos a fio Moçambique dentro, que a doença não existe, “coisa dos brancos”, “invenção para não termos filhos”. E do até caústico “é preciso descascar a banana para a comer”.
Dia de lembrar essa noite de distrito fronteiriço com um director local a dizer-me que por lá “entre 50% a 60% estão infectados”, partilhando nós as cervejas quentes do barzeco local, entre as quase putas e seus homens. E da minha bebedeira final, ali aos bordos a imaginar-me entre zombies.
Dia de lembrar os sussurros sobre a ou b ou c ou d ou e ou …, gente conhecida, por aí com a doença, a aguentar-se, a aguentar-se…
Dia de lembrar o que penso(amos), no dia-a-dia, quando passam esses tão mais magros.
Dia de lembrar os medicamentos que chegam em sigilo para as meninas-família, essas que também compram a pílula.
Dia de lembrar a palidez entre-whisky desse amigo acabado de saber os resultados do rastreio nos alunos dos liceus burgueses em Maputo.
Enfim, dia até de recuar a lembrar o Pifo, o primeiro tipo que vi com ela, apanhada nos meados dos 80s em Amsterdam, regressado ao bairro para morrer devagar, e a quem só me restava não o deixar ser o último a fumar o charro.
E dia, também, de lembrar a meia dúzia de “que se foda” de solteiro, fins de noite de imortal, que não haveria de ser daquela.
Dia de dizer que o resto é pó…
Dezembro 1st, 2004 — Sida
Mais do que tudo …e o resto é pó.
Novembro 10th, 2004 — Sida
Paulo Pinto Mascarenhas e, principalmente,
Pedro Marques Lopes vêm matizar a opinião do PMD. E no
Ford Mustang está uma boa crítica, em meu entender, ainda que não concorde com grande parte.
Sei que o que vou para aqui escrever vai soar arrogante. Mas, e falo acima de tudo dos 4 primeiros textos referidos, esta discussão sublinha-me uma sensação crescente nas visitas à maioria dos blogs políticos portugueses – há uma constante apropriação da realidade para afirmar e comprovar as respectivas ideias. E não o oposto. O real vai perdendo importância. E, ao mesmo tempo, as ideias vão-se ficando crenças. E fica um enorme desinteresse. E, se calhar, este é um carapuço que se me aplica.
Nesta troca de posts fico-me com uma sensação: o Sida nada interessa, mera matéria-prima para reforçar as auto-imagens de cada um sobre a sacra ou maldita Igreja. E nem mesmo esta, na sua prática, interessará. A não ser que sossegue as respectivas imagens.
Enfim, a propósito da querela Sida e Igreja Católica em África, e até pela sensação referida, boto de novo um texto já ma-schambado em 5 de Fevereiro (quando isto tinha tão menos visitas). Ainda que não se adeque completamente.
*******
A Sida e a Igreja Católica em África
Apontamento rápido (e muito pouco cuidado) a propósito do que disseram no Vaticano sobre companhias farmacêuticas e a Sida em África. [Se quiser veja comentários anteriores no Aviz e no Valete Fratres]. A partir de Moçambique algumas questões:
1. Tal como noutros países africanos – exceptuando o referido bem-sucedido caso ugandês, de apelo à abstinência, “fidelidade” (odeio o termo, mas descreve), e “camisa-de-vénus” (acho óptimo o termo) apenas em última instância – as campanhas de prevenção falham e o Sida continua galopante.
Desconheço a realidade ugandesa. E será de estudá-la para saber como é que a mensagem passou, que contexto de divulgação e de recepção teve. E tentar reproduzir. Mas urge actuar, e não há nada pior do que estudos apressados para induzir à acção. Daí que…
As campanhas de prevenção falham, independentemente dos meios e métodos utilizados. Porque serão mal desenhadas é uma das razões, mas não pode ser a única.
2. Diz-se que a Igreja Católica é responsável. Se-lo-á em parte. Sou ateu mas nada anti-clerical, esclareço. Mas acho abominável o cabeça-na-areia em que ela se encerrou.
Mas há algo nesta discussão de muito eurocêntrico, melhor dizendo, catolicocêntrico. Aqui a maioria da população não é cristã. Professa as religiões dos espíritos ancestrais (às quais antes se chamava animismo, noto aqui para facilitar). 20% é islâmica. E os cerca de 30% de cristãos estão espalhados entre várias igrejas, estando as protestantes africanas em rápida expansão, atendendo entre outras coisas à sua superior capacidade sincrética com as religiões locais. Tal como o islamismo. E ainda (e aqui diferentemente do culto muçulmano) à sua reclamada capacidade em intervir directa e imediatamente nos destinos pessoais – daí a prevalência dos cultos no Espírito Santo, conceptualizado nas cosmologias locais como superior aos espíritos locais e portanto potência protectora dos ataques de espíritos ancestrais próprios e alheios, bem como dos constantes ataques dos indivíduos vivos e vizinhos (chamem-lhe feitiçaria para facilitar).
E, acima de tudo, porque oferecem protecção contra o omnipresente Sida, uma nova praga que exige uma protecção nova.
[Não é para aqui, mas acho que nestes decénios a grande revolução em África é a religiosa].
Daí que centrar a reflexão sobre o Sida na problemática do Vaticano é estar a discutir o Vaticano, não o Sida. Atacando-o ou defendendo-o, a partir de posições próprias. Porque a Igreja Católica é um dos elementos em campo, e quantas vezes não o mais audível. E porque mesmo quando presente a população católica catoliciza-se à sua maneira – o que todas as populações católicas o fizeram – relativizando a palavra, a doutrina, da Igreja. E, importante, porque o clero no terreno também molda a sua mensagem muito mais do que a hierarquia o faz.
3. A prevenção falha. Encontrar razões para isso desespera quem as procura. À falta de melhor dizemo-las “culturais”. São-no também: eu encontrei do Niassa a Ressano Garcia (do norte a sul) a crença de que o Sida é apanhada exactamente pelo uso dos preservativos, em especial pelo contacto com o seu óleo. Estupidez? Mas o raciocínio provém da racionalidade empírica: pois se antes de chegarem os preservativos não havia Sida. Mais, o Sida é uma invenção dos brancos para acabar com os pretos, para os impedir de ter filhos, e assim tomar as terras. Absurdo? Talvez (atenção, em tempos também se falou da origem provir de uma fuga dos arsenais biológicos), mas se o branco sempre foi o agressor/conquistador? Ouvi a este propósito uma frase eloquente: “se os nosso avós fodiam assim e os nossos pais também fodiam assim, como vamos nós fazer?”
[NOTA Novembro: ver homologia com espantosas declarações da recente Nobel da Paz, sinal de como alguma "inteligência" africana conceptualiza as relações Norte-Sul]
4. Razões sociais. A população, em particular rural – mas a urbana é ainda rural – precisa e quer muitos filhos (tal e qual a europeia até há algumas décadas, não esquecer). Porque a mortalidade é elevada e é preciso assegurar descendência. Porque filhos são mão-de-obra (retirem daqui o marxista “exploração” por favor). Porque filhos são alianças com os seus futuros sogros e parentes. Porque filhos são segurança na velhice, para seus pais e parentela (segurança social, não?). E, acima de tudo, porque é bom ter filhos. Sexo com preservativo é impedir a procriação, como é isso possível?
5. Mas então que sejam fiéis, dirão. Mas há a poligamia, que é tão ancorada como a nossa monogamia. Mas há o divórcio fácil, muito em particular no norte matrilinear ou no sul quando os casamentos não são lobolados (o lobolo é o pagamento à família da noiva – não é uma compra, é uma legitimação da relação, é tanto uma compra como o nosso dote era a compra do noivo). E o levirato e o sororato, em que viúvos ou viúvas casam com irmãs ou irmãos dos conjuges falecidos, assim continuando alianças, estatutos sociais e protecções mútuas. E há uma esperança de vida baixissima, que multiplica os viúvos em idade sexual muito activa. E há grandes deslocações populacionais bem como as migrações laborais (para as cidades, para a África do Sul – [e este é outro assunto, as actuais barreiras sul-africanas ao mineiro moçambicano, depois de tanta solidariedade]) que multiplicam a necessidade sexual e as hipóteses de posterior contaminação familiar. E há uma moral sexual (felizmente, apesar do Sida) bem mais aberta do que a tradicional euro-burguesa. E há a expansão da comercialização do sexo, até diferente da prostituição. Apanhei machambeiros de aldeias recônditas queixando-se de que agora as vizinhas, também machambeiras, lhes pedem 5 mil meticais por sexo (40 escudos, mas é dinheiro que se veja). Enfim, há uma série de factores para um sexo múltiplo, as quais não passam pela “infidelidade” nem pela “inconsciência”.
6. Há também o peso das Igrejas. Disse atrás que as igrejas cristãs defendem contra o destino, nele actuam. E também defendem do Sida. Vituperam o pecado. Os pastores invectivam o pecado, a infidelidade (que leva ao Sida), e os ambientes que a possibilitam, potenciam. Ambientes cujo pacote é o fumo, a bebida, o preservativo. A mensagem é não fumar, não beber, não usar preservativo, não ser infiel. Tudo é pecado, tudo isto é de renegar. – e aqui é espantoso, óbvio efeito dos preconceitos de quem faz as campanhas que estas igrejas não sejam integradas no esforço de prevenção, de molde a mudar um pouco a mensagem.
Será perceptível para um europeu (imerso em publicidade variada) o efeito contrário que campanhas de cartazes (out-doors, no português de Portugal) pelo preservativo têm? Pois se em tanto lugar (e tanto) os únicos cartazes publicitários que existem são os cigarros, a cerveja e os preservativos. E colocados nos mesmos sítios. Magnífico contra-senso, associar todos os símbolos do pecado (até a Coca-Cola ou a Sparletta poderão aparecer, os refrescos que também acompanham as noites pecaminosas).
7. E há o silêncio sobre a Sida, a vergonha. Há tempos um irmão de Samora Machel veio anunciar que estava a morrer de Sida (diz-se que influenciado por Graça Machel, aqui uma referência). Foi elogiado mas também muito criticado. Silêncio que começa a ser combatido, o último jornal Savana ocupa a capa com a fotografia de um entrevistado com o título “Sou seropositivo há dez anos”. Finalmente luta-se em público contra o grande inimigo: a invisibilidade do Sida. Pois durante anos não se via, dado que as pessoas morrem de outra coisa. Mas hoje, com mortos em quase todas as famílias, essa luta ainda que bem-vinda é até anacrónica, a invisibilidade pública do Sida não significa já uma invisibilidade privada. Mas ainda se reproduz, pelo medo, pela vergonha.
8. Volto ao princípio. A prevenção falhou. Com Vaticano ou sem Vaticano. Neste momento a única coisa a fazer, e de novo com Vaticano “pela fidelidade” ou sem o Vaticano, é espalhar os químicos. Criando ou reforçando as redes de saúde pública que permitam o seu acompanhamento, sem as quais tudo isso será inútil. E é decerto por Moçambique ter essa rede, rara em África ainda que tão frágil aos nossos olhos, que aqui se vão espalhar retrovirais.
9. E como a prevenção falhou e os químicos são a única forma de combate mais ou menos rápido há que os “mundializar”, retirá-los dos monopólios de patente. E deixar de ler este assunto segundo os paradigmas da luta contra a Igreja (católica) ou a seu favor, ou contra os grandes grupos da indústria farmacêutica. Não porque sejam questões morais ou políticas, porque até as são. Mas acima de tudo porque essa é uma forma de pensar que neste caso é totalmente desligada da realidade. Devido à distância, talvez. Devido aos preconceitos, com toda a certeza.
Maio 16th, 2004 — Sida
Fevereiro 5th, 2004 — Religião, Sida
Apontamento rápido (e muito pouco cuidado) a propósito do que disse no Vaticano sobre companhias farmacêuticas e a Sida em África. [Se quiser veja comentários anteriores no Aviz e no Valete Fratres]. A partir de Moçambique algumas questões:
1. Tal como noutros países africanos – exceptuando o referido bem-sucedido caso ugandês, de apelo à abstinência, “fidelidade” (odeio o termo, mas descreve), e “camisa-de-vénus” (acho óptimo o termo) apenas em última instância – as campanhas de prevenção falham e o Sida continua galopante.
Desconheço a realidade ugandesa. E será de estudá-la para saber como é que a mensagem passou, que contexto de divulgação e de recepção teve. E tentar reproduzir. Mas urge actuar, e não há nada pior do que estudos apressados para induzir à acção. Daí que…
As campanhas de prevenção falham, independentemente dos meios e métodos utilizados. Porque serão mal desenhadas é uma das razões, mas não pode ser a única.
2. Diz-se que a Igreja Católica é responsável. Se-lo-á em parte. Sou ateu mas nada anti-clerical, esclareço. Mas acho abominável o cabeça-na-areia em que ela se encerrou.
Mas há algo nesta discussão de muito eurocêntrico, melhor dizendo, catolicocêntrico. Aqui a maioria da população não é cristã. Professa as religiões dos espíritos ancestrais (às quais antes se chamava animismo, noto aqui para facilitar). 20% é islâmica. E os cerca de 30% de cristãos estão espalhados entre várias igrejas, estando as protestantes africanas em rápida expansão, atendendo entre outras coisas à sua superior capacidade sincrética com as religiões locais. Tal como o islamismo. E ainda (e aqui diferentemente do culto muçulmano) à sua reclamada capacidade em intervir directa e imediatamente nos destinos pessoais – daí a prevalência dos cultos no Espírito Santo, conceptualizado nas cosmologias locais como superior aos espíritos locais e portanto potência protectora dos ataques de espíritos ancestrais próprios e alheios, bem como dos constantes ataques dos indivíduos vivos e vizinhos (chamem-lhe feitiçaria para facilitar).
E, acima de tudo, porque oferecem protecção contra o omnipresente Sida, uma nova praga que exige uma protecção nova.
[Não é para aqui, mas acho que nestes decénios a grande revolução em África é a religiosa].
Daí que centrar a reflexão sobre o Sida na problemática do Vaticano é estar a discutir o Vaticano, não o Sida. Atacando-o ou defendendo-o, a partir de posições próprias. Porque a Igreja Católica é um dos elementos em campo, e quantas vezes não o mais audível. E porque mesmo quando presente a população católica catoliciza-se à sua maneira – o que todas as populações católicas o fizeram – relativizando a palavra da Igreja. E, importante, porque o clero no terreno também molda a sua mensagem muito mais do que a hierarquia o faz.
3. A prevenção falha. Encontrar razões para isso desespera quem as procura. À falta de melhor dizemo-las “culturais”. São-no também: eu encontrei do Niassa a Ressano Garcia (do norte a sul) a crença de que o Sida é apanhada exactamente pelo uso dos preservativos, em especial pelo contacto com o seu óleo. Estupidez? Mas o raciocínio provém da racionalidade empírica: pois se antes de chegarem os preservativos não havia Sida. Mais, o Sida é uma invenção dos brancos para acabar com os pretos, para os impedir de ter filhos, e assim tomar as terras. Absurdo? Talvez (atenção, em tempos também se falou da origem provir de uma fuga dos arsenais biológicos), mas se o branco sempre foi o agressor/conquistador? Ouvi a este propósito uma frase eloquente: “se os nosso avós fodiam assim e os nossos pais também fodiam assim, como vamos nós fazer?”
4. Razões sociais. A população, em particular rural – mas a urbana é ainda rural- precisa e quer muitos filhos (tal e qual a europeia até há algumas décadas, não esquecer). Porque a mortalidade é elevada e é preciso assegurar descendência. Porque filhos são mão-de-obra (retirem daqui o marxista “exploração” por favor). Porque filhos são alianças com os seus futuros sogros e parentes. Porque filhos são segurança na velhice, para seus pais e parentela (segurança social, não?). E, acima de tudo, porque é bom ter filhos. Sexo com preservativo é impedir a procriação, como é isso possível?
5. Mas então que sejam fiéis, dirão. Mas há a poligamia, que é tão ancorada como a nossa monogamia. Mas há o divórcio fácil, muito em particular no norte matrilinear ou no sul quando os casamentos não são lobolados (o lobolo é o pagamento à família da noiva – não é uma compra, é uma legitimação da relação, é tanto uma compra como o nosso dote era a compra do noivo). E o levirato e o sororato, em que viúvos ou viúvas casam com irmãs ou irmãos dos conjuges falecidos, assim continuando alianças, estatutos sociais e protecções mútuas. E há uma esperança de vida baixissima, que multiplica os viúvos em idade sexual muito activa. E há grandes deslocações populacionais bem como as migrações laborais (para as cidades, para a África do Sul – [e este é outro assunto, as actuais barreiras sul-africanas ao mineiro moçambicano, depois de tanta solidariedade]) que multiplicam a necessidade sexual e as hipóteses de posterior contaminação familiar. E há uma moral sexual (felizmente, apesar do Sida) bem mais aberta do que a tradicional euro-burguesa. E há a expansão da comercialização do sexo, até diferente da prostituição. Apanhei machambeiros de aldeias recônditas queixando-se de que agora as vizinhas, também machambeiras, lhes pedem 5 mil meticais por sexo (40 escudos, mas é dinheiro que se veja). Enfim, há uma série de factores para um sexo múltiplo, as quais não passam pela “infidelidade” nem pela “inconsciência”.
6. Há também o peso das Igrejas. Disse atrás que as igrejas cristãs defendem contra o destino, nele actuam. E também defendem do Sida. Vituperam o pecado. Os pastores invectivam o pecado, a infidelidade (que leva ao Sida), e os ambientes que a possibilitam, potenciam. Ambientes cujo pacote é o fumo, a bebida, o preservativo. A mensagem é não fumar, não beber, não usar preservativo, não ser infiel. Tudo é pecado, tudo isto é de renegar. – e aqui é espantoso, óbvio efeito dos preconceitos de quem faz as campanhas que estas igrejas não sejam integradas no esforço de prevenção, de molde a mudar um pouco a mensagem.
Será perceptível para um europeu (imerso em publicidade variada) o efeito contrário que campanhas de cartazes (out-doors, no português de Portugal) pelo preservativo têm? Pois se em tanto lugar (e tanto) os únicos cartazes publicitários que existem são os cigarros, a cerveja e os preservativos. E colocados nos mesmos sítios. Magnífico contra-senso, associar todos os símbolos do pecado (até a Coca-Cola ou a Sparletta poderão aparecer, os refrescos que também acompanham as noites pecaminosas).
7. E há o silêncio sobre a Sida, a vergonha. Há tempos um irmão de Samora Machel veio anunciar que estava a morrer de Sida (diz-se que influenciado por Graça Machel, aqui uma referência). Foi elogiado mas também muito criticado. Silêncio que começa a ser combatido, o último jornal Savana ocupa a capa com a fotografia de um entrevistado com o título “Sou seropositivo há dez anos”. Finalmente luta-se em público contra o grande inimigo: a invisibilidade do Sida. Pois durante anos não se via, dado que as pessoas morrem de outra coisa. Mas hoje, com mortos em quase todas as famílias, essa luta ainda que bem-vinda é até anacrónica, a invisibilidade pública do Sida não significa já uma invisibilidade privada. Mas ainda se reproduz, pelo medo, pela vergonha.
8. Volto ao princípio. A prevenção falhou. Com Vaticano ou sem Vaticano. Neste momento a única coisa a fazer, e de novo com Vaticano “pela fidelidade” ou sem o Vaticano, é espalhar os químicos. Criando ou reforçando as redes de saúde pública que permitam o seu acompanhamento, sem as quais tudo isso será inútil. E é decerto por Moçambique ter essa rede, rara em África ainda que tão frágil aos nossos olhos, que aqui se vão espalhar retrovirais.
9. E como a prevenção falhou e os químicos são a única forma de combate mais ou menos rápido há que os “mundializar”, retirá-los dos monopólios de patente. E deixar de ler este assunto segundo os paradigmas da luta contra a Igreja (católica) ou a seu favor, ou contra os grandes grupos da indústria farmacêutica. Não porque sejam questões morais ou políticas, porque até as são. Mas acima de tudo porque essa é uma forma de pensar que neste caso é totalmente desligada da realidade. Devido à distância, talvez. Devido aos preconceitos, com toda a certeza.