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Arte Invisivel

(excerto de “3 Tempos” de Gemuce)

(excerto de “Intolerance“, de Abdoulaye Konaté)

(excerto de “Cuba Livre“, de N’dilo Mutima)

Malhas que a “cooperação” tece … Uma pequena caixa intitulada “Art Invisible”, contendo três volumes cada um dos quais dedicados a um país: Moçambique, Angola e Mali. Uma edição da ARCO 2006 (Feira Internacional de Arte Contemporânea) procurando divulgar artistas inovadores destes países, gente incluída no movimento artístico contemporâneo africano. O critério das opções nacionais é político-diplomático, o patrocínio é assumidamente destinado a países com os quais Espanha tem “estreitas relações de cooperação”. Refiro este ponto para sublinhar que não será fácil encontrar alguma coerência no projecto, trata-se da justaposição de autores artistas africanos que procuram a expressão contemporânea, essa talvez etnia cronológica ou atitudinal. Não obsta isso a que os pequenos objectos em questão seja muito interessantes. O pequeno volume dedicado a Moçambique contém um texto de Jorge Dias (ideólogo-mor do Movimento de Arte Contemporânea local) e uma representação de artistas que se vêm salientando. Neste particular campo parece-me que a referência mais feliz se centra nas iniciativas de Gemuce, em especial o seu “jogo da democracia” cuja patente tarda em ser realidade - não como realidade “industrial” mas como corolário da atitude da instalação. E cuja provocação tem passado ao lado, tamanha a surpreendente placidez com que as “aventuras contemporâneas” artísticas têm aqui sido recebidas.

(Anésia Manjate, “Passaste por Aqui”, 2006)

(Rui Assubuji, Maputo 2004)

(Gemuce, Jogo Democracia, 2005)

(Rui Assubuji)

Sim, já aqui deixei esta Velha que o Kiko captou algures, e que nos é oferecida no livro colectivo Imagem Passa Palavra.

Mas trago-a outra vez, por ela que tanto o justifica, mas também pelo texto que a acompanha, “A Velha a Rir“. A autora, Hélia Correia, é escritora, não lhe exijo requebros e cuidados de ensaísta, de gente das academias, a esculpirem conceitos antes das botaduras (e quantas vezes assim a tudo esfarelarem). Escritora, Hélia Correia, é aqui apenas um espelho, do ainda seu tempo, da ainda sua gente. Diz ela, desta Velha que o Kiko apanhou:

Esta velha pertence a um grupo humano que nunca se afastou demais do chão. Nem sei se haverá nela cristianismo, mas a sua aliança espiritual faz-se decerto com natureza e os antepassados que ela integra. Não é inteiramente um indivíduo, porque pertence ao corpo da aldeia, respira, sofre e alegra-se em uníssono. Alguma coisa envolve as casas e as famílias, um calor de matilha, a concordância genética do sangue. E tudo se alicerça na memória e na grande energia da linguagem com mais longevidade e arquitectura do que as nossas cidades tecnológicas” (Imagem Passa Palavra, p. 118).

Confesso que já nem me intriga a persistência desta ideia do africano em comunhão com a natureza, uma comunhão que é também com os seus, pois eles próprios tão naturais. Tamanha que esse “indivíduo” ainda não brotou em gente magma. Nem tampouco despontou esse deus, cristão claro, deus superior porque apartado do meio envolvente, natureza e antepassados; e que destes aparta, que se crê num deus produtor de indivíduos, que a sua graça é também a razão, uma estranha teologia tantas vezes inconsciente, mas enfim…

Esta constante crença no homem natural em África, deficitário pois claro, surge por vezes negativa, apenas racista ou somente sofredora com a, ainda assim, magestosa selva a la Conrad - e isso que tanto se nota por cá, com tanta gente chamando “mato” aquilo que foi desmatado (e cultivado) pela população.

Mas, e como neste caso, surge também como se positiva, num fado do bom selvagem. Como o encontram não sei - ao ler isto saltou-me, do fundo da memória, uma Hélia Correia aqui vinda em 1997 por mão do Travessias/Identidades, em absoluto êxtase naturalista com esta “África tão pura” que encontrava nos meandros dos prédios de Maputo.

Já disse, não me intriga a persistência destes preconceitos. Nem me choca o evolucionismo ignaro neste tipo de textos tão bem-intencionados, até querendo-se poéticos. Nem o racismo explícito (não, não é implícito!) ainda que tão apreciador e até solidário. Pois textos destes são espelho violento de quem, afinal, não percebe nada do seu próprio meio e do seu próprio eu, e como tal se desnuda no imaginar de tantos deficits alheios.

Imagem Passa Palavra

O projecto IDENTIDADES, almeado por José Paiva, lançou esta semana em Maputo “Imagem Passa Palavra“, um livro que associa obras de 50 artistas plásticos e 50 escritores dos países de língua oficial portuguesa.

IDENTIDADES é um belo projecto de articulação, centralizado na Cooperativa Gesto (Porto), na Faculdade de Belas Artes do Porto e na Escola de Artes Visuais (Maputo). Desde 1996 que tem desenvolvido as suas actividades, de modo constante. E com muito boa onda. Rara. Para além das manifestações artísticas e da interligação pedagógica, esta muito frutuosa, o IDENTIDADES conseguiu por ora incluir a Faculdade de Arquitectura do Porto no projectar da futura Escola de Artes Visuais aqui.

Muito honestamente Paiva e sua gente, bem como a EAV, têm dado um exemplo de como com algum apoio institucional, nada faraónico, se podem produzir belos e duradouros frutos na “cooperação” cultural. E, repito, têm muito boa onda. Em linguagem mais séria, entenda-se mais política, dir-se-á que têm a atitude correcta para quem faz coisas num estrangeiro muito especial. Um estrangeiro mútuo. Enfim, são um case-study. Aliás a ser feito. Que venha a servir para consulta aos candidatos a profissionais!


IDENTIDADES é um movimento artístico, iniciado em 1996, com um programa de intercâmbio cultural entre Moçambique e Portugal. Desde aí tem cumprido diversos projectos e realizações, partilhadas também por pessoas de Brasil e Cabo Verde, países ligados pela língua portuguesa.

Em 200, o IDENTIDADES inicia a sua actividade editorial em livro com o lançamento da “Colectânea Breve da Literatura Moçambicana“. Este livro reúne prosa e poesia (inédita ou não) de escritores moçambicanos, quer jovens, quer consagrados. (…)

A teia de relações que se estabeleceu … animou-nos para a continuação da actividade editorial… Nesta nova obra invertemos a corrente: a imagem foi realizada primeiro, por 50 artistas plásticos…A partir das imagens, os escritores desafiados escreveram 50 textos inéditos, sendo que ficou estabelecido que os “duetos” não deveriam ser formados por pessoas da mesma nacionalidade (…)

Identidades, 2004″.

Do livro retiro algumas ilustrações, ao meu gosto. Para provar que vale a pena? Sim, mas acima de tudo por prazer. E amizade. Assim aqui ficam pequenos excertos, de onde há muito mais.

O Velho ainda legou este:


Minha pausada forma de respirar.
Meu impestanável silêncio absorto.
A cabeça inclinada para o lado inverso
e nos lençóis a imobilidade dos dedos
não significa para a jovem nua deitada à esquerda
que o Zé da viagem aos cios do grande rio Zambeze
regressa ao Zé dos imenso lago Niassa do tédio?

(José Craveirinha)


(Rui Assubuji)

Suleiman Cassamo está, e é sempre bom sabê-lo na escrita. Faz falta. Em especial quando vem dizer: “Agora, o menino ranhoso que mijava no ntehê, nas costas da mãe, é dono do seu nariz. Acredita não ter inventado não só a vela mas também o vento da sua errante navegação. Revê-se na aranha, traçando o seu destino cósmico com a matéria da própria saliva“.


(Ciro Pereira, fragmento)

Guita Jr. numa prosa até longa que lhe desconhecia, com a bela história de “Jesuíno Zaqueu, o Zaqueu para toda a gente da pequena e humilde cidade do sul, cantava cego o seu refrão para os transeuntes surdos da sua canção…Uma existência de total remissão. De pecado.”


(Gemuce, fragmento)

Panguana também veio, para acabar: “E de vez em quando um pássaro que irrompe casa adentro e ensaia um cântico sempre que o poeta, triunfante, olha para o poema acabado e grita: Eureka!”

(Idasse, fragmento)

E muitos outros, daqui e não.

Confesso que estes livros, coisas objecto, colectâneas-encomendas, nunca me dizem assim nada, quase sempre falham. Coisa diferente aqui. Alquimia. Talvez a alquimia do IDENTIDADES.