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Setembro 26th, 2005 — Ramalho Ortigão, Rue Catinat, Sociedade portuguesa
Em linguagem e pensares do seu tempo, a lembrar-me coisas do presente no lá, esteja esse mais “republicano” ou mais “sidonista”:
“Paralisadas na sua psychologia todas as faculdades e todas as virtudes que dão a um agregado humano a posse collectiva de si mesmo e a consciencia de um fim que justifique - como em todos os organismos - a sua existencia, perdida a fé, perdida a coragem, perdida a alegria, o povo portuguez appela para o milagre, absorve-se no messianismo, subordina todos os seus actos e todos os seus pensamentos no regresso do “rei desejado” ou do “rei encoberto”…”
[Ramalho Ortigão, Últimas Farpas, Paris/Lisboa/Rio Janeiro/S. Paulo/ Belo Horizonte, Livraria Aillaud & Bertrand/Livraria Francisco Alves, 1915, p. 58]
Setembro 25th, 2005 — Bloguismo, Daniel Defoe, Rue Catinat
“We had no such thing as printed newspapers in those days to spread rumours and report of things, and to improve them by the invention of men, as I lived to see practised since.”
[Daniel Defoe, A Journal of the Plague Year, N.Y., Dover Pub., 2001, p. 1]
Setembro 24th, 2005 — Eça de Queiroz, Rue Catinat
“No meio d’isto agita-se um dos typos caracteristicos da provincia, o influente de eleições…
O influente ordinariamente é proprietario … Antigo cavador de enxada, enriqueceu, tem ambições, quer ser da junta da parochia, da junta de Repartidores, e mais tarde, n’um futuro glorioso, vereador! Já não usa jaqueta, nem tamancos. Tem uma casa pintada de amarello, calça um par de luvas pretas, e fala na soberania nacional. Em vesperas de eleições todos o vêem, montado na sua mula pelos caminhos das freguezias, ou, nos dias de mercado, misturado entre os grupos, gesticulando, berrando, com uma importância tremenda. Dispõe ordinariamente de 200 ou 300 votos: são os seus creados de lavoura, os seus devedores, os seus empreiteiros, aquelles a quem livrou os filhos do recenseamento, a bolsa do augmento da decima, ou o corpo da cadeia. A auctoridade passa-lhe a mão por cima do hombro, fala-lhe vagamente do habito de Christo. Tudo o que ele pede é satisfeito, tudo o que ele lembra é realisado. As leis afastam-se para ele passar. As suas fazendas não são collectadas à junta: é o influente! Os criminosos por quem se empenha são absolvidos: é o influente! Se são prohibidos no concelho os arrozaes, elle pode tel-os: é o influente! Se são prohibidos os portes de arma, elle é exceptuado: é o influente! Só elle caça nos meses defesos: é o influente! Só a sua rua é calçada: é o influente! …
Ele reina, e o seu reino assenta sobre a cousa que … é ainda a mais solida - a corrupção.”
(Junho 1871)
[Eça de Queiroz, Uma Campanha Alegre, Lisboa, Companhia Nacional Editora, 1890, pp. 89-90]
Setembro 23rd, 2005 — Eugénio de Andrade, Rue Catinat
O que dói não é um álamo
Não é a neve nem a raiz
da alegria apodrecendo nas colinas.
O que dói
não é sequer o brilho de um pulso
ter cessado,
e a música, que trazia
às vezes um suspiro, outras um berço.
O que dói é saber.
O que dói
é a pátria, que nos divide e mata
antes de se morrer
[Eugénio de Andrade, “A Casais Monteiro, Podendo Servir de Epitáfio“, setembro 1972, Epitáfios, Lisboa, Limiar, 1984]
Setembro 22nd, 2005 — Eugénio de Andrade, Rue Catinat
…
não há fúfia universitária ou machão
fardado que não diga que a pátria
é a língua ou a puta que os pariu
[Eugénio de Andrade, “A Vitorino Nemésio, Alguns Anos Depois“, Epitáfios, 1983]
Agosto 25th, 2005 — Bloguismo, Pierre Bourdieu, Rue Catinat
“A vaidade de atribuir à filosofia, às declarações dos intelectuais, efeitos tão imensos como imediatos parece-me constituir o exemplo por excelência daquilo a que Schopenhauer chamava o “cómico pedante”, entendendo por isso o ridículo em que incorre quem efectua uma acção que não está compreendida no seu conceito, como um cavalo de teatro que defecasse.”
(P. Bourdieu, Meditações Pascalianas, Oeiras, Celta, 1998, p. 2)
Agosto 14th, 2005 — Lev Tolstoi, Rue Catinat
“A lisonja constante, ostensiva, contrária à evidência, das pessoas que o rodeavam, tinha feito com que ele [Imperador Nicolau] já não visse as suas contradições, já não estabelecesse correspondências entre, por um lado, as suas acções e palavras e, por outro, a realidade, a lógica e o simples bom senso, mas estava absolutamente convencido de que todas as suas ordens, mesmo que fossem disparatadas, injustas e incompatíveis entre si, se tornavam sensatas, justas e compatíveis só por serem emitidas por ele“.
[Lev Tolstoi, Khadji-Murat, Lisboa, Cavalo de Ferro, p. 110]
Agosto 14th, 2005 — Lev Tolstoi, Rue Catinat
“Ninguém sequer falava do ódio pelos russos. O sentimento que experimentavam todos os tchetchenos, das crianças aos velhos, era mais forte do que ódio. Não era ódio, mas sim uma recusa em reconhecer aqueles cães como seres humanos e era tanta a aversão, a repugnância e a perplexidade perante a crueldade absurda destas criaturas que a vontade de as destruir, tal como a vontade de destruir ratazanas, aranhas venenosas e lobos, era um sentimento tão natural como o instinto de conservação“.
[Lev Tolstoi, Khadji-Murat, Lisboa, Cavalo de Ferro, p. 124]
Julho 28th, 2005 — Ensino, Rue Catinat
“O erotismo, encoberto ou declarado, em fantasia ou em actos, encontra-se intimamente ligado ao acto de ensinar, à fenomenologia da relação entre Mestre e discípulo. Este facto elementar tem sido trivializado através de uma fixação no assédio sexual. Mas continua a ser central. Como poderia ser de outro modo? O pulso do ensino é a persuasão. O professor solicita atenção, concordância e, idealmente, divergência colaborativa … A dinâmica é a mesma: construir uma comunidade de comunicação, uma coerência de sentimentos, paixões e rejeições partilhados. Na persuasão, na solicitação, seja ela do tipo mais abstracto e teórico - a demonstração de um teorema matemático, o ensino do contraponto musical - verifica-se um inelutável processo de sedução, voluntário ou acidental … Na emissão e recepção, o psicológico e o físico são absolutamente inseparáveis (veja-se uma aula de ballet). O processo exige o envolvimento da mente e do corpo.”
[George Steiner, As Lições dos Mestres, Gradiva, pp. 30-31]
Junho 29th, 2005 — Montaigne, Rue Catinat
Só os loucos são firmes e resolutos.
[Montaigne, Da Educação das Crianças, Três Ensaios, Vega, p. 44]
Junho 28th, 2005 — Montaigne, Rue Catinat
“Não é só preciso juntar o saber à alma, é preciso incorporá-lo nela; não é só borrifá-la, é preciso tingi-la; e se não a transforma, se não melhora o seu estado imperfeito, então vale certamente muito mais deixá-lo onde está…
Se a alma não fica com melhores movimentos, se o juízo não fica mais são, então era melhor que o aluno passasse o tempo a jogar a pela: ao menos o corpo tornar-se-ia mais ágil. Vejam como volta, no fim de quinze ou dezasseis anos: não há nada mais difícil do que tirar dele alguma utilidade. Tudo o que se reconhece, em matéria de aumento, é que o latim e o grego o tornaram mais altivo e mais presunçoso do que o que tinha saído de casa. Devia trazer o espírito cheio e apenas o traz inchado; sopraram-lho, não lho desenvolveram.”
[Montaigne, “Do Professorado“, Três Ensaios, Vega, 21-17]
Junho 27th, 2005 — Miguel Torga, Rue Catinat
“Deve ser bom escrever em plena liberdade, como é bom colher um fruto da própria árvore e mastigá-lo. Mas que sabor, que triunfo, escrever com liberdade debaixo da tirania! Cada palavra, cada pensamento, é um risco que se corre, um desafio que se lança. Não há sossego de fora que se tenha, noite que se durma em paz. Mas lá na última morada do ser, na consciência profunda da dignidade humana, que segurança, que serenidade! A verdade, com todas as atribulações, foi servida. A vida pode continuar.”
[Miguel Torga, Diário (Vols. V a VIII, Círculo de Leitores, p. 451)
Junho 26th, 2005 — Ramalho Ortigão, Rue Catinat, Sociedade portuguesa
(continuando):
“Segundo os antigos alienistas seria até um estranho caso de delirio parcial collectivo. Os psychiatras modernos rejeitam esse diagnostico, considerando as vesanias e as monomanias não como formas autonomas e distinctas especies morbidas, mas sim como phases clinicas de um delirio chronico iniciado por um accesso de hypocondria geral….
Hoje mesmo … persistem residuos depressivos e taras ancestraes que, ao minimo abalo na elaboração cerebral dos motivos que determinam os seus actos, tornarão o povo portuguez tão genuinamente sebastianista como no tempo dos seus antigos agitadores e profetas …“
(Fevereiro 1911)
[Ramalho Ortigão, “O Sebastianismo Nacional“, Últimas Farpas, Paris/Lisboa/Rio Janeiro/S. Paulo/ Belo Horizonte, Livraria Aillaud & Bertrand/Livraria Francisco Alves, 1915, p. 59]
Junho 20th, 2005 — George Steiner, Rue Catinat
“Surpreendentemente, o Satanás de Job sugere a figura do crítico. Mantém com a Divindade essa intimidade marcada de azedume que é demasiadas vezes a dos críticos com os artistas. Talvez o seu papel tenha sido determinante: talvez Satanás tenha impelido Deus a criar. “Mostra-me”, troveja o crítico e teorizador. E assim que a criação se desdobra diante dos seus olhos, Satanás começa a procurar-lhe os defeitos. Ironiza sobre a auto-satisfação do Criador, sobre o seu “muito bom“.”
[George Steiner, Gramáticas da Criação, Relógio d’Água, p. 61]
Junho 20th, 2005 — Miguel Torga, Rue Catinat
“Época sem mártires, a nossa. Os próprios heróis e santos são funcionários de um ideal. A humanidade empregou-se toda, pois até os desempregados recebem o seu ordenado semanal. De modo que não ficou um indivíduo sequer para abrir um cisma e morrer sobre um madeiro por sua conta e risco.”
[Miguel Torga, Diário (vol. V a VIII), p. 437]
Junho 20th, 2005 — Miguel Torga, Rue Catinat
“A harmonia conjugal é o fiel duma balança de precisão. Ao menor sopro num dos pratos, a agulha oscila e o equilíbrio rompe-se. E coisa curiosa: são precisamente esses imponderáveis perturbadores que levam muitas vezes à irreconciliação e ao fim. Dir-se-ia que a balança não é para grandes pesos, mas apenas para avaliar venenos subtis, que matam a partir do miligrama.”
[Miguel Torga, Diário (volumes V a VIII), Círculo de Leitores, p. 434-5]
Junho 19th, 2005 — Miguel Torga, Rue Catinat
“Coimbra, 22 de Abril de 1949 - O homem citadino não consegue continuadores. O político julga-se insubstituível; o literato cuida que depois dele ninguém mais saberá escrever; o industrial pensa que o seu génio empreendedor estancou as fontes da habilidade comercial.
Só o camponês deixa herdeiros. Exactamente porque nenhum homem de terra se considera uma excepção, pode ensinar naturalmente ao filho todas as aquisições da sua experiência, e torná-lo um igual e um sucessor.”
[Miguel Torga, Diários (volumes V a VIII), Círculo de Leitores, p. 426]
Abril 12th, 2005 — Rue Catinat, V.S. Pritchett
“This is a working river. Hour after hour the radio-telephone is cackling on the tugs. “Calling Sun 17, take the Florian and go in with her. Calling Sun 16, has that little Spaniard moved yet? What’s the matter with her?”. Language, old river hands complain, has become politer on the river. Education, they say, is the curse of everything, and the bad-language joke … has lost its anchorage.”
[V.S. Pritchett, London Perceived, Penguin Books, 78]
Abril 12th, 2005 — Rue Catinat, V.S. Pritchett
“London is a market, has always been a market, and it owes its character to the Thames…the Thames estuary is only a few minutes’ flight or a four or five hours’ sea crossing from the mouths of three great continental rivers - the Elbe, the Scheldt, and the Rhine; and, by the last two, the traditional route from Venice to Amsterdam, the richest seam in Europe, debouches in the North Sea. Opposite these rivers, placed at the crossing of the sea routes, the Thames turned London into a natural entrepôt, and centre for transshipment.”
[V. S. Pritchett, London Perceived, Penguin Books, p. 74]
Abril 7th, 2005 — Rue Catinat, Saul Bellow
“A principal ideia do poema é construir e destruir. Não há nada intermédio. Mecanismo é destruir. O dinheiro é claro que é destruir. Quando for cavada a última sepultura, terão de pagar ao coveiro. Se pudéssemos confiar na natureza não teríamos de temer. Ela sustentar-no-ia. A natureza é criadora. Rápida. Pródiga. Inspiradora. Dá forma às folhas. Faz rolar as águas da Terra. O homem é o chefe disto. Todas as criações são a sua herança legal. Não sabemos o que temos dentro de nós. Uma pessoa ou cria ou destrói. Não há neutralidade…”
[Saul Bellow, Agarra o Dia, Fragmentos (tradução Bernardo Antunes Navarro)]
Abril 7th, 2005 — Ciências Sociais, Max Weber, Rue Catinat
Dedicado ao Ideias Para Debate, agradecendo a instalação de uma ligação ao Rue Catinat:
“A racionalização da actividade comunitária não tem (…) por consequência uma universalização do conhecimento relativamente às condições e às relações dessa actividade, mas, o mais das vezes, conduz ao efeito oposto. O “selvagem” sabe infinitamente mais sobre as condições económicas e sociais da sua própria existência do que o “civilizado”, no sentido corrente do termo, das suas.”
[Max Weber, Ensaio Sobre a Teoria da Acção]
Abril 4th, 2005 — George Steiner, Rue Catinat
“Ao contrário do que pretende o cliché, o irmão da morte talvez não seja o sono, mas a arte, e em particular a música. Ao mesmo tempo que exprime na sua essência a vitalidade, a força da vida e o prodígio da crição, a obra de arte é acompanhada por uma dupla sombra: a da sua possível ou preferível inexistência, e a do seu desaparecimento.”
[George Steiner, Gramáticas da Criação, Relógio d’Água]
Abril 2nd, 2005 — Antropologia, Françoise Héritier, Rue Catinat
“…a harmonia nas nossas famílias, e portanto na nossa sociedade, pressupõe que se distanciem os idênticos e se aproximem os diferentes. Ora, a lei tem tendência para denegar o papel do pai …
…Boris Cyrulnik faz notar como, pela atribuição de um abono de estudos aos jovens, o Estado curto-circuita o papel do pai, ocupa o lugar deste, desaloja-o do seu estatuto e sapa, portanto, a sua função separadora ….
O Estado é cada vez mais requerido em suprimento do pai….Se a lei designava … o pai como chefe de família, era para contrabalançar de algum modo a ordem biológica natural que outorga um privilégio exclusivo à mãe na relação com o filho. Hoje, os dois pais são chefes ao mesmo tempo, e um mais que o outro já que o pai não é pai se não for designado como tal pela mãe e se ele aceitar este lugar.”
[Françoise Héritier, “Apresentação”, O Incesto, Pergaminho]
Abril 2nd, 2005 — George Steiner, Rue Catinat
“Walter Benjamim sonhava publicar um livro inteiramente composto de citações. Pelo meu lado, falta-me a originalidade necessária para tanto.”
[George Steiner, Gramáticas da Criação, Lisboa, Relógio d’Água]
Abril 2nd, 2005 — Filosofia, Platão, Rue Catinat
“Assim, também a Musa inspira ela própria e, através destes inspirados, forma-se uma cadeia, experimentando outros o entusiasmo. Na verdade, todos os poetas épicos, os bons poetas, não é por efeito de uma arte, mas porque são inspirados e possuídos, que eles compõem todos esse belos poemas; e igualmente os bons poetas líricos …
Com efeito, o poeta é uma coisa leve, alada, sagrada, e não pode criar antes de sentir a inspiração, de estar fora de si e de perder o uso da razão. Enquanto não receber este dom divino, nenhum ser humano é capaz de fazer versos ou de proferir oráculos. Assim, não é pela arte que dizem tantas e belas coisas sobre os assuntos que tratam, como tu sobre Homero, mas por um privilégio divino, não sendo cada um deles capaz de compor bem senão no género em que a Musa o possui … Nos outros géneros cada um deles é medíocre, porque não é por uma arte que falam assim, mas por uma força divina, porque se soubessem falar bem sobre um assunto por arte, saberiam, então, falar sobre todos.
E se a divindade lhes tira a razão e se serve deles como ministros, como dos profetas e dos adivinhos inspirados, é para nos ensinar, a nós que ouvimos …”
[Platão, Íon (tradução de Victor Jabouille)]