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Mais vale ler tarde …

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Sailor e Lula estavam sentados a uma mesa do canto à janela do Café Forget-Me-Not, saboreando umas bebidas. Lula bebia um chá gelado com três cubos de açúcar e Sailor tinha um High Life, que bebia directamente da garrafa. Ambos encomendaram ostras fritas com salada de repolho e estavam a apreciar a paisagem. Havia uma lasca de lua e um céu cinzento escuro com pinceladas vermelhas e amarelas por sobre a escuridão do oceano que se espraiava como se estivesse de costas.

- Esta água faz-me lembrar a banheira do Buddy Favre - disse Sailor.

- O qu’é que estás a dizer? - perguntou Lula.

- O parceiro do meu pai na caça aos patos, Buddy Favre, costumava tomar banho todas as noites. O Buddy era um gajo atarracado com bigode e pera e uns olhos em bico que o faziam parecer o diabo, mas era um gajo porreiro. Era mecânico de camiões, trabalhava com maquinaria pesada, com camiões de dezoito rodas, e depois do trabalho ficava um nojo. Por isso, à noite, quando vinha p’ra casa, metia-se numa banheira cheia de “Twenty Mule Team Borax” e a água ficava um caldo cinzento e preto, tal como o oceano tá esta noite. O meu pai ia p’rá casa dele, sentava-se numa cadeira na casa de banho e beberricava I.W. Harper enquanto o Buddy tomava banho e às vezes levava-me com ele. O Buddy fumava erva todas as noites, enquanto tomava banho. Oferecia ao meu pai, mas ele amarrava-se no whisky.”

[Barry Gifford, Coração Selvagem, Quetzal, pp. 38-39 (tradução de Isabel Motta)]

Releitura desiludida

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[E. M. Forster, Um Quarto com Vista, Editorial Labirinto, 1986 (tradução de Salvato Telles de Menezes e Paula Cristina R. Simões)] 

Releitura desiludida, decerto a idade (minha) a desmerecer a trama que acompanhou o auto-desvendar da menina do vestido cor de cereja. Ficam alguns trechos…

[E uma má tradução, tipo apologetically por apologeticamente, mais algum empastado que se prevê não original, até um mau anglofóno como eu o imagina. E, o que lhe é mais vasto, a irritação de não se traduzirem os termos de tratamento (Mr., Miss, Mrs.) - é costume quando do inglês mas não quando de outras línguas. Por vezes se o original é francês mas nunca se em polaco, mandarim ou swahili. Norma, não presumível familiaridade do leitor com a língua original, é o que se pretende. Ou não?]

Dentro de casa, tomando chá com a velha Mrs. Buttersworth, reflectiu na impossibilidade de adivinhar o futuro com o mínimo de precisão; na impossibilidade de analisar a vida. Basta uma falha no cenário, o olhar de alguém no público, a irrupção deste para o palco, e tudo aquilo que planeámos deixa de ter sentido ou, paradoxalmente, uma justificação plena.” (155)

O reino da música não faz parte deste mundo. Nele só têm lugar aqueles que foram rejeitados igualmente pela formação, intelecto e cultura. A pessoa vulgar começa a tocar e atinge, sem dificuldade, o empírico. Maravilhados, olhamos para cima, reparamos como ela se nos escapa e reconhecemos que a poderíamos adorar e amar se traduzisse as suas visões em palavras, as suas experiências em acções terrenas. Talvez não o possa fazer, de certeza que não.” (37)

Só os loucos são firmes e resolutos.

[Montaigne, Da Educação das Crianças, Três Ensaios, Vega, p. 44]

“- Um dos rapazes estava a explicar-me … - disse Vidal.
- Aquele das borbulhas?
- Não, o mais novo, aquele com ar de bagre.
- Tanto faz.
- Explicava-me que, por trás desta guerra ao porco, há boas razões.
- Falaram do crescimento da população e de que o número de velhos inúteis está sempre a aumentar.
- As pessoas matam por estupidez ou por medo.
- No entanto o problema dos velhos inúteis não é uma fantasia. Lembra-te da mãe de Antónia, a senhora a quem chamam Soldadote.
Arévalo não o ouvi; num tom monocórdico, declarou:
- Nesta guerra, os miúdos por ódio contra o velho que vão ser. Um ódio bastante assustado
(118)

Enquanto o seguia pelo corredor, Vidal comentou:
- Arévalo estava a dizer-me, doutor, que esta guerra é um fenómeno que está a acabar.
- Creia-me – respondeu o médico, sacudindo tristemente a cabeça: - o serviço de psiquiatria não é suficiente para atender os jovens. Todos lá vão por causa do mesmo problema: apreensão de tocar nos velhos. Uma verdadeira repulsa.
- Asco? Parece-me natural.
- A mão recusa-se, meu caro senhor. Há um facto novo irrefutável: a identificação dos novos com os velhos. Através desta guerra, eles entenderam de uma maneira íntima, dolorosa, que todos os velhos são o futuro de um jovem. Deles próprios, talvez! Outro facto curioso: invariavelmente o jovem elabora a seguinte fantasia; matar o velho equivale a suicidar-se
.
” (203)

Adolfo Bioy Casares, Diário da Guerra dos Porcos, Cavalo de Ferro, 2006 (1969), (traducao de Sofia de Castro Rodrigues e Virgílio Tenreiro Viseu)

Tudo aquilo continuaria, aquelas ondas, aquelas rosas do mar a abrigarem pétalas secas pelo sol na areia. Se eu morrer, tudo isto continuará. E ressentiu-se por isso acontecer.”

(Truman Capote, Travessia de Verão, D. Quixote, 101, tradução de Manuel Cintra)

Embora fosse tímida e quase incapaz, quando apresentada inesperadamente a alguém, de dizer fosse o que fosse, tinha uma admiração imensa pelos outros. Ser o que eles eram seria maravilhoso, mas ela estava condenada a ser apenas ela própria e só podia, à sua maneira silenciosa de entusiasmo, sentar-se cá fora num jardim, aplaudindo essa sociedade humana de que se encontrava excluída. Pedaços de poesia subiam numa prece de louvor dos seus lábios: eram realmente adoráveis e bons os sobreviventes, e sobretudo corajosos, vencendo a noite e os pântanos, uma companhia de aventureiros que, arrostando os perigos, continuava a sua viagem.”

(…)

Ficaram os quatro sentados, olhando para a mesma casa, para a mesma árvore, para o mesmo tonel; só que tendo espreitado por cima do muro para dentro do balde, ou melhor tendo visto de relance Londres, do outro lado, continuando indiferentemente o seu caminho, Sasha já não se sentia capaz de derramar por cima do mundo inteiro a sua nuvem de ouro. (…) Sasha olhou para a sólida e segura casa construído no estilo da Rainha Ana (…) e aquela festa não era mais que uma quantidade de gente em traje de cerimónia

(Virgínia Woolf, “O Resumo” in A Casa Assombrada, Relógio d’Água, 1988 tradução de Miguel Serras Pereira, 71-72)

Mr. Samgrass told me he was drinking too much all last term.”
“Yes, but not like that – never before.”
“Then why now? here? with us? All night I have been thinking and praying and wondering what I was to say to him, and now, this morning, he isn’t here at all. That was cruel of him, leaving without a word. I don’t want him to be ashamed – it’s being ashamed that makes it all so wrong of him.”
“He’s ashamed of being unhappy”, I said.”
(131)

When I was a girl we comparatively poor, but still much richer than most of the world, and when I married I became very rich. It used to worry me, and I thought it wrong to have so many beautiful things when others had nothing. Now I realize that it is possible for the rich to sin by coveting the privileges of the poor. The poor have always been the favourites of God and his saints, but I believe that it is one of the special achievements of Grace to sanctify the whole of life, riches included. Wealth in pagan Rome was necessarily something cruel; it’s not any more”

I said something about a camel and the eye of a needle and she rose happily to the point.

“But of course” she said, “it’s very unexpected for a camel to go through the eye of a needle, but the gospel is simply a catalogue of unexpected things. It’s not to be expected that an ox and an ass should worship at the crib. Animals are always doing the oddest things in lives of the saints. It’s all part of the poetry, the Alice-in-Wonderland side, of religion.” (122-123)

[Evelyn Waugh, Brideshead Revisited, Penguin, 1960]

Graças a ela enfrentei pela primeira vez o meu ser natural enquanto decorriam os meus noventa anos. Descobri que a minha obsessão de que cada coisa estivesse no seu lugar, cada assunto no seu tempo, cada palavra no seu estilo, não era o prémio merecido de uma mente ordenada mas, pelo contrário, um sistema completo de simulação inventado por mim para ocultar a desordem da minha natureza. Descobri que não sou disciplinado por virtude, mas como reacção contra a minha negligência; que pareço generoso para encobrir a minha mesquinhez, que passo por prudente por ser pessimista, que sou conciliador para não sucumbir às minhas cóleras reprimidas, que só sou pontual para que não se saiba que pouco me importa o tempo alheio.” (62)

[Gabriel Garcia Marquez, Memória das Minhas Putas Tristes, 2007 (tradução de Maria do Carmo Abreu]

Do seu posto de observação privilegiado (Salzburgo fica perto da fronteira entre a Áustria e a Alemanha), Zweig observara, atónito, as rápidas transformações sociais provocadas pela crise económica e financeira do pós-guerra: “Que época selvagem, anárquica, inverosímil, a daqueles anos em que, com a desvalorização do dinheiro, todos os outros valores na Áustria e na Alemanha começaram a resvalar! Um período de êxtase entusiástico e de vertigem descontrolada, uma mistura única de impaciência e fanatismo“. […] E especifica: “Tudo o que era extravagante e incontrolável conheceu uma época de ouro: teosofia, ocultismo, espiritismo, sonambulismo, antroposofia, quiromancia, grafologia, ioga indiano e misticismo paracelsiano. Tudo o que prometesse estados de extrema intensidade para além do que então se conhecia, todo o tipo de estupefacientes, mórfio, cocaína e heroína, tudo se vendia num instante; mas peças de teatro sobre o incesto e o parricídio, na política, ou o comunismo ou o fascismo, constituíam os únicos temas apetecidos, pelo seu extremismo; incondicionalmente banida estava, em contrapartida, qualquer forma de normalidade, de moderação“. [Stefan Zweig, O Mundo de Ontem, p. 331].

[António Mega Ferreira, O Deserto Ocidental, Lisboa, Assírio & Alvim, 2007, pp. 118-9]

Diz-me você na sua carta que muito boa gente, no nosso século, sem chegar à ideia de conjura dos Judeus, que depende demasiado da vontade para poder dispensar as provas, nem por isso deixou de analisar capitalismo e bolchevismo como duas faces da mesma medalha, a duma modernidade obcecada pelo individualismo produtivista, por oposição à comunidade cristã ou volkisch. … penso mesmo que se trata duma das construções sábias da filosofia por onde se pode ser levado à ideologia anti-semita, como o Judeu a construir a figura de síntese do capitalismo e do bolchevismo. No seu país, Carl Schmitt dar-me-ia disso uma boa ilustração. Mas não concluo daí que a isso se resuma a obra dele!” (Furet, 85)

(Francois Furet & Ernst Nolte, Fascismo e Comunismo, Gradiva)

Conrad polaco

Prince Roman é um conto visto como “obra menor” em Conrad. Mas é o único que mergulha na sua Polónia natal. E que, se calhar por isso, assume explicitamente um tom autobiográfico - o narrador (o inominado “speaker … of Polish nationality“) é Conrad, que recupera um episódio da sua infância para encetar o episódio. Daí talvez o tanto da sua cosmovisão que é deixada, e vincada, nesta pequena história. Sublinhada pelo recordar da (sua) amputação pessoal que a distância provoca:

And this familiar landscape associated with the days without thought and without sorrow, this land the charm of which he felt without even looking at it, soothed his pain, like the presence of an old friend who sits silent and disregarded by one in some dark hour of life.”

[Prince Roman, Selected Short Stories, Wordsworth, 1997, 212]

Obra menor, será. Um menor neste contexto. Maiorizando-se, assim.

Roman Sanguszko, príncipe.

This looks like mere fanaticism. But fanaticism is human. Man has adored ferocious divinities. There is ferocity in every passion, even in love itself. The religion of undying hope resembles the mad cult of despair, of death, of annihilation. The difference lies in the moral motive springing from the secret needs and the unexpressed aspiration of the believers. It is only to vain men that all is vanity; and all is deception only to those who have never been sincere with themselves“.

(Prince Roman, Selected Short Stories, Wordsworth, 1997, 218)

Motivo de Conrad

 

 

 

 

 

 

Batalha de Stoczek, de Wojciech Kossak, alusiva à revolta polaca de 1831.

Conrad e a Polónia nobre

Korzeniowski:

The man the Prince was expecting … was of a family of small nobles who for generations had been adherents, servants and friends of the Princes … He remembered the times before the last partition, and had taken part in the struggles of the last hour. He was a typical old Pole of that class, with a great capacity for emotion, for blind enthusiasm; with martial instincts and simple beliefs; and even with the old-time habit of larding his speech with Latin words. And his kindly shrewd eyes, his ruddy face, his lofty brow and his thick, grey, pendent moustache were also very tipical of his kind.” (214)

The aristocracy we were talking about was the very highest, the great families of Europe, not impoverished, not converted, not liberalised, the most distinctive and specialised class of all classes, for which even ambition itself does not exist among the usual incentives to activity and regulators of conduct. The undisputed right of leadership having passed away from them we judged that their great fortunes, their cosmopolitanism, brought about by wide alliances, their elevated station, in which there is so little to gain and so much to lose, must make their position difficult in times of political commotion or national upheaval. No longer born to command - which is the very essence of aristocracy - it becomes difficult for them to do ought else but hold aloof from the great movements of popular passion.” (206-207)

[Prince Roman, Selected Short Stories, Wordsworth, 1997]

Imagem do escudo da revolta polaca de 1831 recolhida aqui.

Adenda: Aristocracia polaca.

Conrad e a prosa


Joseph Conrad:

It was the dead of winter . The great lawn in front was as pure and smooth as an Alpine snowfield, a white and feathery level sparkling under the sun as if sprinkled with diamond-dust, declining gently to the lake - a long, sinuous piece of frozen water looking bluish and more solid than the earth. A cold brilliant sun glided low above and undulating horizon of great folds of snow in which the villages of Ukrainian peasants remained out of sight, like clusters of boats hidden in the hollows of a running sea.”

(Prince Roman, Selected Short Stories, Wordsworth, 1997, pp. 207-208)

Conrad e a Polónia


Jozef Korzeniowski.:

The speaker was of Polish nationality, that nationality not so much alive as surviving, which persists in thinking, breathing, speaking, hoping and suffering in its grave, railed in by a million of bayonets and triple-sealed with the seals of three great empires“.

(Prince Roman, Selected Short Stories, Wordsworth, 1997, 206)

Conrad e o patriotismo

“…patriotism - a somewhat discredited sentiment, because the delicacy of our humanitarians regards it as a relic of barbarism … It requires a certain greatness of soul to interpret patriotism worthily - or else a sincerity of feeling denied to the vulgar refinement of modern thought which cannot understand the august simplicity of a sentiment proceeding from the very nature of things and men“. (Joseph Conrad, Prince Roman, p. 206; versão electrónica disponível aqui).

Private faces in public places
Are wiser and nicer
Than public faces in private places

(W.H. Auden)

“… o rosto, apesar de redondo, tinha as linhas firmes; a pele era fresca, branca e rosada, sem essa mancha azul da barba que desfeia tantos homens aliás simpáticos …” - oops, e eu durante anos de alcunha Barba Azul. Feio …

(citação de José Rodrigues Miguéis, “A importância da risca do cabelo” em Léah e Outras Histórias, Estampa, 1997, 11ª edição, p. 174)

Contribuição para o Natal alheio

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Mas se lhe tivessem dito: será sempre assim enquanto viveres, sempre igual até ao fim, também ele teria despertado. Impossível, teria dito. Algo diferente terá de acontecer, qualquer coisa realmente digna, que nos permita dizer: agora, mesmo que tenha chegado o fim, paciência

[Dino Buzzati, O Deserto dos Tártaros, Cavalo de Ferro, p. 58]