Archive for the ‘Citações’ Category

O Patriotismo segundo Eça de Queiroz

Sábado, Agosto 28th, 2010

[Eça de Queiroz, Por Obséquio Retire-se do Meu Personagem, Babel, 2010]

Uma “Carta a Pinheiro Chagas”, datada de 14.12.1880 – destrutiva do destinatário – que é um verdadeiro manifesto. De uma actualidade radical, apesar do tom de optimismo pedagógico da época.

Em nós outros não é por gorjeios de rouxinol parlamentar, por apóstrofes balbuciadas aos pés das Molucas, por soluços de um peito sufocado de êxtase, por serenadas e endechas, que se traduz o amor do país; é por emoções pequeninas, triviais e caseiras, que pouca relação têm com a estrondosa tomada de Ormuz: emoções de burguês que vive no estrangeiro, ao canto solitário do seu lume solteirão.” (45)

É que há duas espécies de patriotismo, meu caro Chagas.

Há em primeiro lugar o nobre patriotismo dos patriotas: esses amam a pátria, não dedicando-lhe estrofes, mas com a serenidade grave e profunda dos corações fortes. Respeitam a tradição, mas o seu esforço vai todo para a nação viva, a que em torno deles trabalha, produz, pensa e sofre: e, deixando para trás as glórias que ganhámos nas Molucas ocupam-se da pátria contemporânea, cujo coração bate ao mesmo tempo que o seu, procurando perceber-lhe as aspirações, dirigir-lhe as forças, torná-la mais livre, mais forte, mais culta, mais sábia, mais próspera, e por todas estas nobres qualidades elevá-la entre as nações. Nada do que pertence à pátria lhes é estranho: admiram decerto Afonso Henriques, mas não ficam para todo o sempre petrificados nessa admiração: vão por entre o povo, educando-o e melhorando-o, procurando-lhe mais trabalho e organizando-lhe mais instrução, promovendo sem descanso os dois bens supremos – ciência e justiça.

(…)

Dão-lhe [à pátria] sobretudo o que as nações necessitam mais, e o que só as faz grandes: dão-lhe a verdade. A verdade em tudo, em história, em arte, em política, nos costumes. Não a adulam, não a iludem: não lhe dizem que ela é grande porque tomou Calecut, dizem-lhe que é pequena porque não tem escolas. Gritam-lhe sem cessar a verdade rude e brutal. (…) Eis o nobre patriotismo dos patriotas.

O outro patriotismo é diferente: para quem o sente, a pátria não é a multidão que em torno dele palpita na luta da vida moderna – mas a outra pátria, a que há trezentos anos embarcou para a Índia, ao repicar dos sinos, entre as bênçãos dos frades, a ir arrasar aldeias de mouros e traficar em pimenta. Esse, a sua maneira de amar a pátria é tomar a lira e dar-lhe lânguidas serenadas. Esse sobe à tribuna de Parlamento ou ao artigo de fundo, e de lá exclama, com os olhos em alvo e o lábio em luxúria (…) – Deixa lá … Tu tomaste Cochim.

É esse patriotismo que, quando alguém salta uma verdade, acode de mão à cinta (…) - Olá, que injúria é essa à pátria? Pois não sabes tu, ignorante, que nós somos ainda temidos na Índia?

(…)

Este patriotismo (…) eu chamar-lhe-ia entre nós patriotice.” (32-35)

Essa patriotice tem no ma-schamba levado este nome.

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A tripartição

Sexta-feira, Agosto 27th, 2010

[G. Steiner, Nostalgia do Absoluto, Gradiva (2003 [1974])]

Devo sugerir, com hesitação, mas, espero, alguma seriedade, que a famosa divisão da consciência psicológica humana – id, ego, superego – deve muito à divisão em cave, quartos e sotão da casa da classe média vienense na viragem do século XIX para o XX.” (25).

(muito a propósito, ver a entrada anterior)

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Jack London e a vuvuzela portuguesa

Domingo, Junho 6th, 2010

Paulo Querido narra a “introdução” da vuvuzela em Portugal, a campanha da petrolífera GALP para “acompanhar” o mundial da bola deste ano. Para os incautos que ainda não a conhecem: a vuvezela é horrível, o vuvuzelar é um atentado. Ao sossego alheio, ao bem-estar público, à ordem natural das coisas, à moral e bons costumes, à ecologia. Em resumo: é satânico (aka fascista ou comunista, para os mais dados à política e menos às espiritualidades).

A história da introdução desta corneta em Portugal (que espero venha a desfalecer rapidamente) “diverte-me” por duas coisas: pois conheço o seu obreiro – com o qual tenho até mediado parentesco espiritual – há mais de um quarto de século (a velocidade do tempo é, também ela, coisa satânica) e gosto de saber que continua a mexer, seja lá como for, com a pasmaceira circundante; e porque confirma isto de que aos meus patrícios basta acenar com qualquer banha-da-cobra (aka gadgets) que eles correm logo a comprar. Crise ou não crise, como sobreviver se não se tiver o que o vizinho do lado já tem? Como recusar aos “filhinhos”, aquele casalinho ranhoso (até tatuado e escarafunchado em piercings, ou a caminho disso) gerado lá em casa, o que os outros “meninos” da turma já têm?, não irão eles crescer deficientes sem todas as “vuvuzelas” do bazar?

Tudo isto lembra-me um texto do grande Jack London, coisa com mais de um século já, portanto ainda anterior ao dito “audiovisual”:

Desperdício comercial. Consideremos o capítulo da publicidade. Para realizar aquela que inunda as ruas de papelada, profana a atmosfera, polui o campo, viola a santa intimidade familiar, emprega-se um verdadeiro exército: redactores, fabricantes de papel, impressores, coladores de cartazes, pintores, marceneiros, douradores, mecânicos, etc. Sabe-se que os fabricantes de sabão e de produtos farmacêuticos chegam a gastar meio milhão de dólares por ano em publicidade. Este desperdício comercial apresenta-se sob variadas formas, uma das quais diz respeito as artigos que são feitos para serem vendidos, e não para servir, como os alimentos falsificados e as mercadorias de pacotilha; ou, parafraseando Matthew Arnold, lâminas de barbear que não cortam, fatos que não vestem bem, relógios que nunca funcionarão.”

(Jack London, O Vagabundo e Outras Histórias, Dinossauro Edições, 1995, p. 74. Tradução de Ana Barradas)

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Máquina do Tempo

Sexta-feira, Maio 28th, 2010

Regressar a Tom Sawyer é uma verdadeira máquina do tempo. O que me leva a repetir-me, porque está isto na “biblioteca juvenil”, por que é que nos juvenilizam os livros e assim os abandonamos? O que está neste Tom Sawyer que não seja adulto? Será a paixão quase mortal entre Tom e Becky? Ou a maldade, cruelmente castigada, de Injun Joe? A cobiça que a tanto risco e coragem conduz, e que será magnificamente recompensada? O que haverá mais radicalmente adulto do que a confrontação (final) entre os ideais de liberdade de Tom Sawyer, afinal urbano e integrável, e Huck Finn, o radical libertário. O verdadeiro libertário, diga-se, tão necessário nestes hojes de institucionalizações, de (falsos) Tom Sawyers:

“Não me digas nada, Tom. Já o tentei e não resultou. Não resulta, Tom. Não é para mim, não estou habituado a isso. A viúva é boa para mim e minha amiga, mas não consigo aguentar aqueles hábitos. Todas as manhãs me faz levantar à mesma hora, obriga-me a lavar e a pentear; não me deixa dormir no barracão de lenha; tenha de usar aquelas malditas roupas que me sufocam, Tom, porque parece que o ar não consegue passar através delas; e são tão bonitas que não me posso sentar, nem deitar, nem rebolar no chão quando as tenho vestidas. (…) Ali dentro não posso apanhar uma mosca nem mascar. Tenho de andar calçado durante todo o domingo. A viúva só come ao som de uma sineta, vai-se deitar ao som de uma sineta, levanta-se ao som de uma sineta. Naquela casa, é tudo tão horrivelmente regular que o corpo de uma pessoa não o consegue aguentar. (…) E a comida é demasiado fácil, não me interessa muita comida assim. (…) A viúva não me deixa fumar, não me deixa gritar, não me deixa bocejar, não me deixa espreguiçar, nem coçar ao pé de outras pessoas. (…) E ainda pior, está sempre a rezar. (…) Tive de fugir, Tom, tive mesmo de fugir!

Não, Tom, não me interessa ser rico e não quero viver naquelas malditas casas onde parece que falta o ar. Gosto dos bosques e do rio e das barricas, e é aqui que vou ficar. O resto que vá para o diabo! Já tínhamos as espingardas e o esconderijo, e tínhamos combinado ser ladrões. (…)

Tom aproveitou aquela oportunidade:

-Ouve lá, Huck, ser rico não me vai impedir de ser ladrão.

- Não! Estás mesmo a falar a sério, Tom?

- Tão sério como estar aqui à tua frente. Mas Huck, não te podemos aceitar na quadrilha se não fores respeitável.

A alegria de Huck pareceu desaparecer.

- Não me deixas entrar, Tom? Mas deixaste-me ser pirata, não deixaste?

- Sim, mas isso é diferente. Um ladrão é alguém que tem uma categoria mais alta do que um pirata. Isso é uma coisa que todas as pessoas sabem. Em muitos países, até têm elevadas posições de nobreza, entre duques e coisas assim.” (294-295)

[Mark Twain, As Aventuras deTom Sawyer, Edições Nelson de Matos (Tradução de Maria João Freire de Andrade)]

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Sobre a escola e professores

Quinta-feira, Abril 22nd, 2010

Um livro de interessante leitura, ainda que me tenha provocado várias discordâncias. Incluindo uma questão actual, pois aborda a crise escolar não como efeito de uma tecnocracia pedagoga (em Portugal conhecida pelo redutora noção de “falantes de eduquês”) mas como fruto da predominância de uma constelação ideológica hiperindividualista, na sua essência um radical economicismo de fachada libertária, direi eu. Neste âmbito aborda a questão do estatuto social do professor, da sua decadência, como fruto deste contexto – o qual provoca também as reacções da classe professoral, de aparência corporativa mas também ela de raiz ideológica. E refere também como a escola, sob uma roupagem igualitária, e exactamente por causa dessa roupagem que provém de um determinado ideário, se afirma como uma reprodutora de desigualdades sociais, no fundo como um seu instrumento, em contramão às suas aparências discursivas e aos rótulos ideológicos dos seus defensores.

O texto é dedicado a França mas do pouco que sei da situação portuguesa poderá em parte ser-lhe aplicado. Não tanto em Moçambique, onde as questões relativas à educação são – vastamente – outras. Mas também aqui será de atentar, em particular no que respeita nos cuidados face à apetência pela importação de modelos pedagógicos, também eles produtos globalizáveis, aplanadores das múltiplas diferenciações, como bem sofremos.

[Gilles Lipovestky, Jean Serroy, A Cultura-Mundo. Resposta a Uma Sociedade Desorientada, Edições 70, 2010]

Sob a bandeira da democratização, a nova época cultural é profundamente inigualitária: permite o sucesso de uns, aqueles cujo enquadramento familiar coloca limites à invasão e ao poder dissolvente da cultura cool, e é fatal para outros, para todos os que, não dispondo do contributo das suas famílias, também não beneficiam de qualquer apoio institucional para se formarem e educarem.” (189) “É necessário voltar a dizê-lo: a nossa escola não está bem.” (189) “A escola assistiu à implantação de métodos que viraram as costas aos controlos disciplinares, à austeridade do trabalho e às obrigações impessoais da repetição e da memorização. Em nome da felicidade da criança, da individualidade e da espontaneidade da expressão de si, as formas de controle e de aprendizagem antigas foram substituídas por “métodos activos”, sem dúvida simpáticos, mas cujo preço se revelou elevado em matéria de formação escolar. As mesmas razões estiveram na origem de um processo mais ou menos profundo de demissão dos pais, particularmente prejudicial para a escola, para a educação e, sobretudo, para a própria criança. Foi assim que a cultura consumista-hedonista-individualista minou a escola da disciplina.” (187) A escola “requer uma reacção e, sem dúvida, uma reforma intelectual profunda para a reorientar e a colocar em condições de poder honrar as suas promessas de formação e de mobilidade social. É necessário denunciar os desvios dum certo pedagogismo e [...] reestruturar a desorientação e a desorganização (educativa e psicológica) enormes que têm origem na sociedade de hiperconsumo.” (189) “A escola deve certamente elevar o aluno acima do que preenche a sua vida e do que conhece no seu quotidiano” (190)

Na tradição educativa, o pólo central sempre foi a autoridade do professor [...] Isso perdeu-se, o que provoca problemas.” (190) “…há que reestabelecer o seu [do professor] reconhecimento social, o que requere a recuperação a recuperação da imagem do professor [...] Só a reabilitação do professor na sua função social lhe pode devolver o lugar que é seu de direito. Isto requer uma revisão global da grelha salarial, o que não pode ser realizado sem que haja uma redefinição do estatuto e das responsabilidades do professor [...] É uma questão delicada. Logo que se pensa em abordá-la, suscita o protesto unânime duma classe de professores que consegue a proeza de aparentar maioritariamente ideias progressistas em todas as matérias e ser inflexivelmente conservadora quando se trata do seu próprio estatuto.” (192)

Lendo este capítulo de imediato me lembrei de uma reportagem jornalística, que li há pouco tempo e a qual então muito me impressionou e que pensei aqui referir. Passou tempo, o jornal foi para o lixo, e assim caiu a nota. Mas a ela regresso, pois exactamente centrada na questão do estatuto social do professor (em Portugal).

Há cerca de um mês Portugal comoveu-se com o suicídio de um professor, explicitamente exasperado com a sua situação profissional e com o tipo de (des)articulação que tinha com os seus alunos – muito típica, ao que consta. De seguida o Público publicou uma reportagem da jornalista Romana Borja-Santos dedicada ao caso. Nela escreveu, por exemplo, ”Na véspera das aulas com aquela turma, Luís ficava nervoso.” E por aí adiante. Confesso que me comovera a sorte daquele colega, e como tal cheguei já chocado à leitura. Mas ainda mais o fiquei ao ler que nem depois de morto recebia o respeito público, o de ser apelidado. É um sintoma, todos sabemos que há uma tradição indita mas explícita dos mídia de graduarem sociologicamente os seus interlocutores ou objectos, uma sobrevivência de tempos onde a retórica era menos igualitária. Os “populares”, o “povo chão”, os “malteses”, como em tempos menos politicamente correctos se dizia, são sempre apresentados apenas pelo nome próprio, são desapelidados (o “Joaquim”, a “Maria”, quanto muito, em caso de idosos, o “sô Mário”, a “dona Celeste”). E ali, postumamente, o meu colega era apenas o “Luís”. Mostrando bem o que é um professor hoje em dia, um mero “popular”.

Longe vão os tempos da deferência para com os professores, como por exemplo a que era votada a Rómulo de Carvalho. Eles (nós) são (somos) hoje o lumpen-letrado. Como nos tempos de Eça, na sua ficção, o eram os jornalistas. Algo deverá mudar mesmo. Pois para que algo ou alguém possa “… elevar o aluno acima do que preenche a sua vida e do que conhece no seu quotidiano” (como dizem Lipovtsky e Serroy) com toda a certeza que não será enquanto nomeados desta forma. Não será este “José” ou o colega “Luís” ou todos os outros desapelidados que o poderemos fazer. Apelidemo-nos! Será um começo para que nos apelidem.

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Os reaccionários das neo-robinsonadas

Segunda-feira, Abril 19th, 2010

 

Há algum tempo por cá passou investigador patrício. Trazia o meu nome, que lhe tinha sido dado por colegas, e talvez até amigos, comuns. Contacto feito fomos “beber um copo”, jantar até julgo recordar. Na conversa foi dizendo que de quando em vez lia o blog, que era “porreiro” – os blogs, ainda que na sua leveza, são identitários, e nisso convém ser simpático. Depois, na sequência, continuou explicitando que os tais colegas portugueses lhe tinham dito que eu, jpt, era um “tipo porreiro“. “Muito reaccionário” mas porreiro. Engoli o “putaqueospariu” pois não havia ali grande intimidade. Fiz o que me pareceu o sorriso conveniente, o meu amarelo esbatido não se terá notado no negrume da noitada. Para mim, só para mim, resmunguei o “cambada de travestidos para o can-can celulítico das boas-causas“… E lembrei-me agora da conversa (se calhar por ter visto um filme de um “reaccionário”). Fica para o tal investigador, que talvez ainda por aqui passe apesar de regressado à sede, e que até me pareceu um alguém “porreiro” e não “reaccionário”, uma até longa citação, de livro agora lido, cheio de defeitos, desiquilibrado. Mas que aponta os traços fundamentais desses seus colegas, o corpo ideológico, identificando-lhes as suas meras causas, impotentes na auto-análise ou a ela indiferentes, gente apenas “reaccionários das neo-robinsonadas” – e os quais, entenda-se, subsistem como tal e assim querem continuar, cada um pavoneando-se à custa do seu “sexta-feira” – o desindustrializado, desglobalizado. Do qual nunca, mas nunca, querem prescindir. Até para o “defenderem”, pobre indígena …

[Gilles Lipovetsky, Jean Serroy, A Cultura-Mundo. Resposta a Uma Sociedade Desorientada, Edições 70, 2008]

Com o hipercapitalismo desaparece a proeminência do político, característica da antiga modernidade. Actualmente, ninguém se opõe à cultura-mundo do mercado, excepto a coligação desarmónica e heteróclita do altermundialismo, que, como é evidente, não tem capacidade para apresentar uma verdadeira alternativa. Sem doutrina nem teoria geral, agrupando num conjunto heteróclito correntes de pensamento muito diferentes umas das outras, em que terceiro-mundistas se encontram lado a lado com soberanistas, marxistas, trotskistas, ecologistas, católicos sociais, anti-imperialistas e utopistas de todas as cores, a corrente altermundialista apresenta-se como uma frente de recusa cujas críticas não esboçam qualquer solução coerente, qualquer programa susceptível de substituir de maneira construtiva o sistema em vigor. Reunidas na sua maior parte sob a bandeira do anticapitalismo, as suas tropas só existem devido ao capitalismo, que as federa devido à oposição que nelas suscita. Os inimigos da mundialização levantam questões a que não dão qualquer solução efectiva.” (50)

Já não temos a revolução como horizonte histórico, mas mantemos a sua retórica e a sua atitude, que, de resto, convivem bem com o hipercapitalismo de consumo. (…) Alardeando ser uma crítica radical, no fundo não é mais do que a organização do espectáculo “dissidente” a alimentar as páginas dos media. (…) A contestação radical ao capitalismo de consumo, perfeitamente recuperável e recuperada pelo marketing à espreita da criatividade permanente, não serve de contrapeso à cultura-mundo do hipercapitalismo. “(52)

Embora a nossa época se caracterize pelo desenvolvimento de uma nova economia de mercado, também somos testemunhas duma nova época de individualismo.” (58) “Estamos no momento em que estes obstáculos [ao individualismo como fundamento da ordem social e política] foram afastados. Esta é a novidade do nosso ciclo. Tal como há uma desregulação económica que deixa o mercado livre para desempenhar o seu papel com muito menos restrições, também desapareceu, em grande medida, aquilo que funcionava tradicionalmente como um travão à individualização. Os valores hedonistas, a oferta cada vez maior de consumo e de comunicação e a contracultura concorreram para a desagregração dos enquadramentos colectivos (família, Igreja, partidos políticos e moralismo) e, ao mesmo tempo, para a multiplicação dos modelos de existência. Daí o neo-individualismo de tipo opcional, desregulado e não-compartimentado. A “vida à escolha” tornou-se emblemática deste homo individualis desenquadrado, liberto das imposições colectivas e comunitárias … é o hiperindividualismo. Esta nova liberdade de que os indivíduos beneficiam apenas levou ao limite a sua desorientação e, desde logo, no que diz respeito ao domínio político.” (60)

Apagamento das culturas de classe, recuo dos sentimentos de pertença a uma colectividade, fragilização da vida profissional e afectiva, destabilização dos papéis e das identidades sexuais, afrouxamento dos laços familiares e sociais, enfraquecimentos dos enquadramentos religiosos: todos estes factores acentuaram fortemente o sentimento de isolamento dos seres humanos, a sua insegurança interior, as experiências de fracasso pessoal e as crises subjectivas e intersubjectivas. Quanto mais o indivíduo é livre e senhor de si, mais parece vulnerável, frágil e desarmado interiormente.” (68)

A hipermodernidade corresponde também a uma nova época do consumo, assinalada quer pelo processo de individualização, quer pela desregulação. (…)  É por isso que esta personalização vai a par da dessincronização dos usos colectivos: o espaço-tempo do consumo tornou-se o do próprio indivíduo.” (70) “Daí uma maior latitude dos consumidores: paralelamente ao “turbocapitalismo” desregulado e globalizado, afirma-se um “turboconsumidor”, ou seja, um consumidor liberto do peso do ethos, dos hábitos e das tradições ...” (71)

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SALVAR A PÁTRIA, POR HENRIQUE MONTEIRO

Quarta-feira, Abril 14th, 2010

por ABM (14 de Abril de 2010)

O director do semanário lisboeta Expresso escreveu na edição de 13 de Março de 2010:

Quando comecei a trabalhar, a pátria precisava de ser salva dos desvarios do PREC e por isso pagámos mais impostos.

Depois, nos anos 80, houve um choque petrolífero, salvo erro, e tivemos de voltar a salvar a pátria.

Veio o FMI, ficámos sem um mês de salário e pagámos mais impostos.

Mais tarde, nos anos 90, houve mais uns problemas e lá voltámos a pagar mais, para a pátria não se afundar.

Por alturas do Governo de Guterres fui declarado ‘rico’ e perdi benefícios fiscais que eram, até então, universais, como o abono de família. Nessa altura, escrevi uma crónica a dizer que estava a ficar pobre de ser ‘rico’…

Depois, veio o Governo de Durão Barroso, com a drª Manuela Ferreira Leite, e lembraram-se de algo novo para salvar a pátria: aumentar os impostos!

Seguiu-se o engº Sócrates, também depois de uma bem-sucedida campanha (como a do dr. Barroso) a dizer que não aumentaria os impostos. Mas, compungido e triste e, claro, para salvar a pátria, aumentou-os! Depois de uma grande vitória que os ministros todos comemoraram, por conseguirem reequilibrar o défice do Estado, o engº Sócrates vê-se obrigado a salvar a pátria e eu volto a ser requisitado para abrir mão de mais benefícios (reforma, prestações sociais, etc.), e – de uma forma inovadora – pagando mais impostos.

Enquanto a pátria era salva, taxando ‘ricos’ como eu (e muitos outros, inclusive verdadeiros pobres), os governantes decidiram gastar dinheiro. Por exemplo, dar aos jovens subsídios de renda… por serem jovens; ou rendimento mínimo a uma pessoa, pelo facto de ela existir (ainda que seja proprietária de imóveis); ou obrigar uma escola pública a aguentar meliantes; ou a ajudar agricultores que se recusam a fazer seguros, quando há mau tempo; ou a pedir pareceres para o Estado, pagos a peso de ouro, a consultores, em vez de os pedir aos serviços; ou a dar benefícios a empresas que depois se mudam para a Bulgária; ou a fazer propaganda e marketing do Governo; ou a permitir que a Justiça seja catastrófica; ou a duplicar serviços do Estado em fundações e institutos onde os dirigentes (boys) ganham mais do que alguma vez pensaram.


E nós lá vamos salvar o Estado, pagando mais. Embora todos percebamos que salvar o Estado é acabar com o desperdício, o despesismo, a inutilidade que grassa no Estado. Numa palavra, cortar despesa e não – como mais uma vez é feito – aumentar as receitas à nossa custa.


Neste aspecto, Sócrates fez o caminho mais simples. Fez exactamente o contrário do que disse, mas também a isso já nos habituámos. Exigiu-nos que pagássemos o défice que ele, e outros antes dele, nunca tiveram a coragem de resolver.



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VERDADE INTEMPORAL

Quarta-feira, Abril 14th, 2010

por ABM (14 de Abril de 2010)

Em tempos de crise e para quem já não se lembra bem porquê, partilho este lindo azulejo, à venda por 1 euro e 89 cêntimos na loja do Sr. Luis em Aveiras de Cima.


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TEMPOS MODERNOS por Tiziano Terzani

Quarta-feira, Abril 14th, 2010

“Boa gente, os marinheiros! Mas também eles destinados a desaparecer. Já nem se chamam por esse nome. «Marinheiros», «grumetes» e «mestres» foram abolidos e no lugar deles, por razões sindicais, surgiu uma nova categoria, a dos «não-graduados polivalentes», homens para todo o serviço.
Passa-se o mesmo com a sabedoria dos marinheiros, acumulada ao longo dos séculos. O mundo moderno não sabe o que fazer dela. Hoje os instrumentos fazem tudo. Antigamente, um marinheiro tinha de esforçar a vista para reconhecer, numa certa encrespação das ondas, a presença de um cardume de peixes, para ver de longe se uma enseada era navegável, ou para se aperceber a tempo de um baixio em que o navio poderia encalhar. Agora todo esse trabalho é confiado aos sonares e aos radares, que de ano para ano se tornam mais precisos.
Contudo, quanto conhecimento se perde! Quantas antenas naturais caem da cabeça do homem, para serem substituídas por antenas electrónicas!
«É tudo automático. Já não é preciso olhar para o mar!» dizia o capitão, desconsolado. E o mar, quando se olha para ele, é extraordinário! A todas as horas é diferente, tem cores diferentes, intensidades diferentes, diferente consistência, sons diferentes, movimentos diferentes, espéctaculos diferentes.
Uma vez foram os golfinhos a nadar ao lado do navio, outra vez uma baleia que mergulhou, ágil, como que assustada com a nossa monstruosidade, depois, os cardumes de peixes voadores entretidos a brincar com a quilha e os tubarões que-diziam os marinheiros-, naquela época, iam acasalar e reproduzir-se ao largo do Djibuti.

(…)

Enquanto estivemos a bordo do navio, tínhamos sempre a sensação de estar a assistir a qualquer coisa que terminava.
Até que um dia essa sensação se definiu: a nossa viagem era um funeral. Pouco depois de termos dobrado o Cabo Guardafui, «olha e foge», o radiotelegrafista recebeu uma mensagem dos sindicatos convidando a tripulação a fazer greve, pois a sociedade estatal proprietária do Trieste estava em negociações para a sua venda. No regresso, o navio já pertenceria a uma multinacional qualquer, que lhe daria outro nome, o registaria em qualquer país conveniente e substituiria os italianíssimos «não-graduados polivalentes» por marinheiros asiáticos, talvez chineses, pagos a menos de 50 dólares por mês.
Portanto, aquela era a última viagem de um dos poucos navios ainda com a bandeira italiana.
Sentado à popa, perguntava-me quanto tempo poderá ainda durar um mundo asssim, regido exclusivamente pelos critérios incultos, desumanos e imorais da economia. Ao avistar a sombra de ilhas longínquas, imaginava uma ainda habitada por uma tribo de poetas, ali conservados para quando, após a Idade Média do materialismo, a humanidade tiver de recomeçar a introduzir outros valores na sua vida.”

in Disse-me um Advinho, de Tiziano Terzani

PSB


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Salve-se Quem Puder, segundo Durrell

Sexta-feira, Março 26th, 2010

[Lawrence Durrell, Salve-se Quem Puder, Ulisseia, 1985. Tradução de Daniel Gonçalves]

Aos grandes autores apontam-se-lhes, por vezes, “livros menores”. Este Durrell li-o há vinte anos e não gostei (“menor”, claro). Agora peguei-lhe para uma viagem (tamanho adequado) e para confirmar da velha impressão – ou até piorá-la. Nove pequenos episódios narrando a vida da missão diplomática britânica na imaginária Vulgária, estado comunista dos Balcãs. À procura do registo cómico mas entre Durrell e a diplomacia só restava o sarcasmo. Este, como sempre, “menor” (lá está). Ainda assim fica-me uma citação, ilustração que me faz recordar gente (não-diplomata) que cruzei no século passado – para as quais, diga-se, só restaria mesmo o sarcasmo:

Se se fizer a uma história do Foreign Office, é ao estrangeiro que será preciso ir buscar os seus brasões. A alguns nunca foi feita a justiça que lhes era devida – como esses infelizes Reggie e Mercy Mucus, o par do British Council. Morreram no cumprimento do seu dever, comidos pelos lobos. A despeito de um nevão que caía, insistiram em atravessar um lago gelado carregados com uma edição popular das obras de Shakespeare; dirigiam-se a qualquer remota aldeia insalubre onde a sua clientela de pastores de porcos os esperava impacientemente, ansiosa por ingerir toda essa cultura estrangeira. Em vão! Em vão!” (114)

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No coração de uma terra

Quarta-feira, Março 24th, 2010

[J.M.Coetzee, No Coração Desta Terra, D. Quixote, 2005 (1977), tradução de Maria João Delgado]

Foi o bloguismo (recente) que me fez regressar a este livro, quando para ele encontrei espaço no meio da pilha, a segunda ficção publicada por Coetzee. Onde eu e qualquer leitor navegamos ao sabor da corrente da imaginação aparentemente psicótica da filha-Magda, narradora protagonista, encerrada numa herdade (farm) na savana desertificada (veld) sul-africana. Mundo rude, mundo colonial (explicitamente), de silêncios opressores afinal seu terreno de liberdade – de vida, de tortuosa imaginação. Do que ela realmente fez ou faz não sabemos, apenas optamos por uma versão dita ou indita. Do que ela e seu pai fazem ou não fazem não sabemos, apenas optamos por uma versão dita ou indita. Do que ela e seus criados/empregados fazem ou não fazem não sabemos, apenas optamos por uma versão dita ou indita. Um estado de aparente loucura que é afinal aquela normalidade. Sem culpabilidade ou culpabilizações. Enorme como o tal veld. Opressor como o tal veld.

Magda louca? “Como é que posso ser enganada quando raciocino com tanta clareza?” (217), consciente de que “A liberdade excessiva é a única coisa que me pode limitar…” (32)? Magda louca?, a pós-hegeliana: “A certeza do amo quanto à sua própria realidade reside na consciência do escravo. Mas a consciência do escravo é uma consciência dependente. Assim, o amo não está seguro da realidade da sua autonomia. A sua realidade repousa numa consciência inessencial e nos seus actos inessenciais. Estas palavras referem-se ao meu pai, à maneira brusca como lidava com os criados, à sua rispidez inútil.” (223)? Magda louca, diante desses que “fazem a sua labuta de ombros curvados numa tentativa de se esquivarem aos excessos de mau humor.” (17)? Mas louca?, ou tacteando a razão, ela que ”Na falta de qualquer relação com os seres humanos, é inevitável que eu sobrevalorize a imaginação e espere que, através dela, as coisas mais triviais adquiram uma aura transcendente” (29). Pois apenas ela e o pai, visceralmente unidos pois únicos ali, um mundo assim sem mais “ninguém” que seja “alguém”: ”De seis em seis dias, quando os nossos ciclos coincidem – o dele de dois dias, o meu de três – e quando esvaziamos as nossas tripas no balde-latrina atrás das figueiras, partilhamos o mau cheiro das fezes frescas um do outro, ele o meu fedor, eu o fedor dele. Deslizando a tampa de madeira para o lado, escarrancho-me em cima do seu poio infernal, sanguíneo, brutal, do que as moscas gostam, pintalgado, de certeza, de carne mal digerida, mal mastigada antes de deglutida. Em contrapartida, o meu (e aqui imagino-o com as calças nos joelhos, torcendo o nariz o mais que pode enquanto as moscas volteiam furiosamente no espaço escuro debaixo dele) é escuro, verde-oliva, cor de bílis, compacto porque demasiado reprimido, velho, cansado. Gememos, e puxamos, limpamo-nos, cada um à sua maneira, com quadrados de papel higiénico comprado nas lojas – marca de distinção -, arranjamo-nos e voltamos cá para fora. Depois, cabe a Hendrik a incumbência de verificar o balde e, se não estiver vazio, esvaziá-lo num buraco que foi cavado longe de casa, lavá-lo e voltar a colocá-lo no lugar. Não sei exactamente onde é que o balde é entornado; mas, algures na fazenda, há um buraco onde, enroladas uma na outra, a cobra vermelha do pai e a preta da filha se abraçam, dormem e se dissolvem.” (59) Esta sim, a verdadeira versão.

Um livro enorme. Sobre o mundo. Não só aquele mundo. Mas também esse, o tal colonial referido. Entre pai e filha vivido. Sofrido e amado. Dá para entender?, isso da pobreza alheia?

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Bénard da Costa e o catolicismo

Quarta-feira, Março 17th, 2010

[João Bénard da Costa, Nós, os Vencidos do Catolicismo, Edições Tenacitas, 2003]

Edição em livro de um texto publicado no jornal Independente em 1997. Em registo de memórias pessoais fica o percurso de uma franja da burguesia lisboeta católica oposicionista ao Estado Novo, um núcleo que veio a ser conhecido como “católicos progressistas” (apesar do seu desgosto pelo termo), e do seu progressivo afastamento face à hierarquia católica, primeiro, e ao próprio catolicismo, depois. Um retrato de época muito interessante – e não só por aqui se encontrar traçada a juventude de inúmeras personagens que vieram a ser relevantes nas décadas seguintes na sociedade portuguesa. Também nisso denotando a influência que a igreja católica tinha à altura no país e na formação das suas elites. 

Deixo três excertos. O primeiro, referente à juventude do autor, que poderá ser extrapolado (e que, porventura, ele-próprio terá extrapolado ao longo da vida) como visão do mundo bem para além do “cristianismo” a que se refere directamente, e que assim aborda a rábula do “lado correcto”, do raciocínio bipolar ainda hoje tão recorrente em Portugal; o segundo, que resume o incómodo sofrido por Bénard da Costa (e seu grupo?), teórico-teológico; e um terceiro que não escolho por qualquer anacrónica comicidade mas porque deixará entrever da justeza e pertinência de tantas das posições da igreja católica apostólica romana face à sociedade contemporânea:

“… cedo, demasiado cedo na vida, aprendi que as ameaças ao cristianismo não vinham de um só lado, mas de dois. Só aparentemente opostos.” (21)

O Concílio – pensava eu nesse tempo – ao introduzir … a noção essencial de Igreja como Povo de Deus (completando o tradicional conceito de Corpo Místico) vinha dizer a cada cristão que cada um de nós era Igreja … contruída com pedras vivas, numa comunidade de pessoas em que Cristo era o factor unitário, o valor vital fundamental, a norma viva e o único princípio de autoridade. Esse factor, esse valor, essa norma, esse princípio, deixavam de residir na Hierarquia ou no Clero e passavam a estar em cada um de nós. Daí que eu alargasse muito o conceito, então em voga, de “fim do constantinismo”. Em vez de ver nele, apenas, o fim da identificação da religião com o Estado ou o fim da identificação do cristianismo com uma civilização, eu via também na expressão o fim da identificação da fé individual com a fé na Igreja, o fim de uma visão dela como superestruturaa, que envolvesse, protegesse e sustentasse cada um dos seus membros. Secularmente, a Igreja abrigara-se sob a protecção do Estado para se defender. Secularmente, também, o cristão abrigara-se sob a protecção da Igreja com idêntico intuito. Chegara a altura de abandonar ambos os abrigos …” (88-89)

Foi o caso da pastoral sobre a Modéstia Cristã, que deu origem a um dos episódios que mais recordo desses tempos. No verão de 56, os bispos resolveram dissertar sobre a dita modéstia, julgando chegada a altura de se unirem aos cabo de mar para acabarem, nas praias, com homens de tronco nu e mulheres de fatos de banho de duas peças (ainda não se falava de biquinis). Evidentemente, o assunto era ingrato … Se já ninguém tinha muita pachorra para enfiar uma camisola interior quando o cabo se aproximava, menos ainda se considerava que o assunto devesse merecer a atenção do venerando episcopado.” (31)

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Manuel Viegas Guerreiro, Rudimentos de Língua Maconde

Sexta-feira, Fevereiro 19th, 2010

A recente edição de Fábulas de Cabo Delgado leva-me de volta a este livro de Manuel Viegas Guerreiro, Rudimentos de Língua Maconde (Lourenço Marques, Instituto de Investigação Científica de Moçambique, 1963), um trabalho produzido no âmbito da célebre pesquisa coordenada por Jorge Dias e que culminou na vasta obra “Os Macondes de Moçambique”, algo inserido na Missão das Minorias Étnicas do Ultramar.

Filólogo e etnógrafo Viegas Guerreiro deixa neste livro uma secção de “Notas Gramaticais” (reconhecidamente devedora do trabalho nesse âmbito dos missionários católicos holandeses e do reverendo Lyndon Harries), uma outra de “Fraseologia“, uma secção de “Vocabulário Maconde-Português” e outra de “Vocabulário Português-Maconde“. Instrumentos úteis, considera na introdução (1963) pois “…os Macondes …Constituem uma população de 100 000 almas … Com ela tem estado em contacto, através do tempo, a gente de língua portuguesa, agora notàvelmente numerosa. Há muito se reclamava a elaboração de um instrumento linguístico que facilitasse o convívio das duas etnias: …” (introdução). Uma refinadíssima delícia intelectual, se enquadrada no tempo e contexto.

Mas o que me fez regressar ao livro foi uma outra secção, a de “Contos e Adivinhas“: 15 contos e 56 adivinhas, em apresentação bilingue, recolhidas em missões ou aldeias, sem notórios arranjos literários – que normalmente padronizam os discursos e, quantas vezes, os levam a terem corolários moralistas. Um precioso documento cosmológico, as adivinhas a deixarem entrever as hierarquias causais e os aparentes paradoxos disponíveis no real. Os contos tendo várias narrativas cosmogónicas, quase-sempre em registo “fábula”, ou seja assentes na interacção de animais. De notar o esclarecimento da recolha, ao não se fixar na tão comum demanda de um fundo mitológico “intocado”, primordial. Disso transcrevo um iluminado exemplo (pp. 68-69), uma “fábula” cosmológica (ordenadora do social) que trabalha com o material (relações sociais) contemporâneas [deixo em itálico expressões centrais expressas em língua maconde, comprovativos que nem sequer um "purismo" linguístico poluía o olhar de Viegas Guerreiro]:

O Lagarto e a Perdiz


Um grande lagarto estava sentado como um senhor, na sua varanda. Passou uma perdiz e saudou-o:

- Bom-dia, tio [Njomba, bondia].

O lagarto não correspondeu. Continuando calado foi queixar-se à Administração. Sairam soldados a amarrar a perdiz, e logo que a apanharam trouxeram-na à Administração. Quando chegaram, disseram assim:

-Levanta-te, lagarto, e fala.

O lagarto levantou-se e disse assim:

- Eu estava sentado na varanda e chegando a perdiz falou-me desta maneira: “Bom-dia”. E é por isso que me vim queixar aqui.

A perdiz replicou:

- Eu dei-te os bons-dias porque a minha mãe me falou assim: “Quando encontrares quem tenha saído de um ovo, estarás na presença de um teu tio”. Tu, lagarto, não saíste de um ovo? A minha mãe não saiu de um ovo? Eu não saí de um ovo? Eu não sou teu sobrinho? A minha mãe não saiu de um ovo?

O lagarto percebeu: “Este que maltratei é meu sobrinho”. Envergonhou-se e tirou muito dinheiro para dar à perdiz. Mas basta, o milando (milando) deles acabou.”

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CITAÇÃO DE MARCUS TULLIUS CICERO

Terça-feira, Fevereiro 16th, 2010

por ABM (Cascais, 16 de Fevereiro de 2010)


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Os dizeres de um jornalista

Quinta-feira, Fevereiro 11th, 2010

Vem muito a propósito do que em Portugal se vai dizendo sobre “liberdade de expressão”. E do como dizem. E do quem diz o que diz como diz. Orwell num texto dedicado ao totalitarismo (“The prevention of literature“, de 1945). E há sessenta anos a falar de hoje. E dos actuais pretendentes a mandarim, também.

To keep the matter in perspective, let me repeat what I said at the beginning of this essay: that in England the immediate enemies of truthfulness, and hence of freedom of thought, are the Press lords, the film magnates, and the bureaucrats, but that on a long view the weakening of the desire of liberty among the intellectuals themselves is the most serious symptom of all. (…)

Meanwhile totalitarianism has not fully triumphed anywhere. Our own society is still, broadly speaking, liberal. To exercise your right of free speech you have to fight against economic pressure and against strong sections of public opinion, but not, as yet, against a secret police force. You can say or print almost everything so long as you are willing to do it in a hole-and-corner way. But what is sinister, as I said at the beginning of this essay, is that the conscious enemies of liberty are those to whom liberty ought to mean most. The big public do not care about the matter one way or the other. They are not in favour of persecuting the heretic, and they will not exert themselves to defend him. The are at once too sane and too stupid to acquire the totalitarian outlook. The direct, conscious attack on intellectual decency comes from the intellectuals themselves.”

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