Um livro de interessante leitura, ainda que me tenha provocado várias discordâncias. Incluindo uma questão actual, pois aborda a crise escolar não como efeito de uma tecnocracia pedagoga (em Portugal conhecida pelo redutora noção de “falantes de eduquês”) mas como fruto da predominância de uma constelação ideológica hiperindividualista, na sua essência um radical economicismo de fachada libertária, direi eu. Neste âmbito aborda a questão do estatuto social do professor, da sua decadência, como fruto deste contexto – o qual provoca também as reacções da classe professoral, de aparência corporativa mas também ela de raiz ideológica. E refere também como a escola, sob uma roupagem igualitária, e exactamente por causa dessa roupagem que provém de um determinado ideário, se afirma como uma reprodutora de desigualdades sociais, no fundo como um seu instrumento, em contramão às suas aparências discursivas e aos rótulos ideológicos dos seus defensores.
O texto é dedicado a França mas do pouco que sei da situação portuguesa poderá em parte ser-lhe aplicado. Não tanto em Moçambique, onde as questões relativas à educação são – vastamente – outras. Mas também aqui será de atentar, em particular no que respeita nos cuidados face à apetência pela importação de modelos pedagógicos, também eles produtos globalizáveis, aplanadores das múltiplas diferenciações, como bem sofremos.

[Gilles Lipovestky, Jean Serroy, A Cultura-Mundo. Resposta a Uma Sociedade Desorientada, Edições 70, 2010]
“Sob a bandeira da democratização, a nova época cultural é profundamente inigualitária: permite o sucesso de uns, aqueles cujo enquadramento familiar coloca limites à invasão e ao poder dissolvente da cultura cool, e é fatal para outros, para todos os que, não dispondo do contributo das suas famílias, também não beneficiam de qualquer apoio institucional para se formarem e educarem.” (189) “É necessário voltar a dizê-lo: a nossa escola não está bem.” (189) “A escola assistiu à implantação de métodos que viraram as costas aos controlos disciplinares, à austeridade do trabalho e às obrigações impessoais da repetição e da memorização. Em nome da felicidade da criança, da individualidade e da espontaneidade da expressão de si, as formas de controle e de aprendizagem antigas foram substituídas por “métodos activos”, sem dúvida simpáticos, mas cujo preço se revelou elevado em matéria de formação escolar. As mesmas razões estiveram na origem de um processo mais ou menos profundo de demissão dos pais, particularmente prejudicial para a escola, para a educação e, sobretudo, para a própria criança. Foi assim que a cultura consumista-hedonista-individualista minou a escola da disciplina.” (187) A escola “requer uma reacção e, sem dúvida, uma reforma intelectual profunda para a reorientar e a colocar em condições de poder honrar as suas promessas de formação e de mobilidade social. É necessário denunciar os desvios dum certo pedagogismo e [...] reestruturar a desorientação e a desorganização (educativa e psicológica) enormes que têm origem na sociedade de hiperconsumo.” (189) “A escola deve certamente elevar o aluno acima do que preenche a sua vida e do que conhece no seu quotidiano” (190)
“Na tradição educativa, o pólo central sempre foi a autoridade do professor [...] Isso perdeu-se, o que provoca problemas.” (190) “…há que reestabelecer o seu [do professor] reconhecimento social, o que requere a recuperação a recuperação da imagem do professor [...] Só a reabilitação do professor na sua função social lhe pode devolver o lugar que é seu de direito. Isto requer uma revisão global da grelha salarial, o que não pode ser realizado sem que haja uma redefinição do estatuto e das responsabilidades do professor [...] É uma questão delicada. Logo que se pensa em abordá-la, suscita o protesto unânime duma classe de professores que consegue a proeza de aparentar maioritariamente ideias progressistas em todas as matérias e ser inflexivelmente conservadora quando se trata do seu próprio estatuto.” (192)
Lendo este capítulo de imediato me lembrei de uma reportagem jornalística, que li há pouco tempo e a qual então muito me impressionou e que pensei aqui referir. Passou tempo, o jornal foi para o lixo, e assim caiu a nota. Mas a ela regresso, pois exactamente centrada na questão do estatuto social do professor (em Portugal).
Há cerca de um mês Portugal comoveu-se com o suicídio de um professor, explicitamente exasperado com a sua situação profissional e com o tipo de (des)articulação que tinha com os seus alunos – muito típica, ao que consta. De seguida o Público publicou uma reportagem da jornalista Romana Borja-Santos dedicada ao caso. Nela escreveu, por exemplo, ”Na véspera das aulas com aquela turma, Luís ficava nervoso.” E por aí adiante. Confesso que me comovera a sorte daquele colega, e como tal cheguei já chocado à leitura. Mas ainda mais o fiquei ao ler que nem depois de morto recebia o respeito público, o de ser apelidado. É um sintoma, todos sabemos que há uma tradição indita mas explícita dos mídia de graduarem sociologicamente os seus interlocutores ou objectos, uma sobrevivência de tempos onde a retórica era menos igualitária. Os “populares”, o “povo chão”, os “malteses”, como em tempos menos politicamente correctos se dizia, são sempre apresentados apenas pelo nome próprio, são desapelidados (o “Joaquim”, a “Maria”, quanto muito, em caso de idosos, o “sô Mário”, a “dona Celeste”). E ali, postumamente, o meu colega era apenas o “Luís”. Mostrando bem o que é um professor hoje em dia, um mero “popular”.
Longe vão os tempos da deferência para com os professores, como por exemplo a que era votada a Rómulo de Carvalho. Eles (nós) são (somos) hoje o lumpen-letrado. Como nos tempos de Eça, na sua ficção, o eram os jornalistas. Algo deverá mudar mesmo. Pois para que algo ou alguém possa “… elevar o aluno acima do que preenche a sua vida e do que conhece no seu quotidiano” (como dizem Lipovtsky e Serroy) com toda a certeza que não será enquanto nomeados desta forma. Não será este “José” ou o colega “Luís” ou todos os outros desapelidados que o poderemos fazer. Apelidemo-nos! Será um começo para que nos apelidem.
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