Quando em 1990 vim viver temporariamente para Portugal (mais uma vez), mas desta vez dos Estados Unidos, em termos comunicacionais Portugal ainda estava, comparativamente falando, na idade média.
Já nessa altura, em Cambridge, uma cidadezinha vizinha de Boston, eu tinha em casa televisão por cabo com acesso a uns cem canais, incluindo a CNN. A internet ainda era ficção científica para a quase totalidade da humanidade e o melhor que havia para enviar informações era um aparelho de fax, que eu de facto tinha em casa desde 1988 (pago a peso de ouro) para enviar semanalmente as crónicas que eu escrevia para um pequeno jornal local, que preparava num computador Apple e imprimia numa impressora laser (dantes, escrevia numa máquina de dactilografar e mandava os textos pelos correios).
Em Portugal nessa altura quase ninguém tinha aparelhos de fax em casa, quando muito surripiavam uns aos amigos às escondidas, no emprego. Quase ninguém tinha um computador em casa e mesmo no emprego ainda era uma coisa muito rara. Impressoras laser, nem pensar. Não havia televisão por cabo e as notícias eram aquilo que a RTP decidia que eram notícias e o que os jornais publicavam, com imagens a preto e branco, consoante o partido ou a tendência ideológica dos seus patocinadores.
Meia dúzia de privilegiados (eu incluído, num decrépito apartamento na baixa de Lisboa) possuiam um gigantesco prato no telhado, de onde, com considerável dificuldade técnica, sintonizavam meia dúzia de canais por satélite, entre as quais a CNN. Apesar das minhas explicações, as minhas vizinhas octagenárias com bigode receavam ser afectadas pelos raios de micro-ondas emitidos pela antena e discutiam se eu obtivera uma autorização do governo para meter aquilo ali.
Na televisão portuguesa, o José Rodrigues dos Santos iniciava com alguma dificuldade a sua carreira como jornalista televisivo, depois de uns tempos como correspondente da BBC e fazendo uns biscates para a RTP e a CNN.
Na altura, em média, a população portuguesa via a RTP, ouvia a Rádio Renascença e lia o Diário de Notícias. Tudo num vago manto de cinzentismo em que se destacavam a erudição arrogante do Expresso e o espalhafato gozão do Independente. Aníbal Cavaco Silva há poucos anos surgira do nada e em breve terminava o seu segundo mandato como primeiro ministro e com uma maioria absoluta.
Em Portugal nessa altura choviam diariamente milhões de contos (na altura eram contos) da CEE e uns dias antes da segunda eleição parlamentar no fim de 1991, Portugal inaugurava aquilo que eu chamaria – citando a legendária frase de Alan Greenspan, então chairman do Federal Reserve Board norte-americano – a sua fase inenarrável de irrational exuberance – preparando a fase seguinte do desastre socialista e da longa estagnação da economia portuguesa. Pouco depois houve o orgasmo celebratório nacional prematuro chamado Expo 98, em que os portugueses decidiram que finalmente valia a pena mesmo ser-se português.
As ratazanas do regime refastelavam-se e enchiam as barrigas e as contas offshore.
E logo a seguir começou a lenta, penosa, dolorosa travessia do deserto moral, social, fiscal e económico. Na verdade, na altura ninguém deu por nada, pois estava-se a entrar na Era dourada do Euro, das taxas baixas, das casas compradas com um telefonema ao amigo no banco, dos carros bons ao preço da uva mijona, da gasolina a metade do preço da Coca-Cola . Inflamado com o sucesso da nova auto-estrada A1 (wow, Lisboa ao Porto em duas horas em vez de seis horas num caminho de cabras) e com a novidade do acesso aos mercados de capitais estrangeiros, o governo decidira que a coisa decente a fazer a seguir era construir mais auto-estradas para tudo quanto é de sítio, de Bragança para Beja, de Viseu para Aveiro. E mais um aeroporto. E mais pontes, e mais, e mais.
Tudo concessionado, tudo em parcerias público-privadas, tudo em regime de gasta-agora-paga-depois.
Tudo e todos, governos, pessoas, empresas, recorrendo alegremente ao crédito, desta vez o estrangeiro. Foi o novo Brasil, a nova África. Passou a ser normal o até o braquicéfalo do vizinho atrasado mental brogesso que não pagava o condomínio ir fazer férias na neve em Março e apanhar banhos em Cuba em Maio. Passou a ser normal falar-se em projectos de milhões como se fosse a coisa mais natural do mundo. A propaganda socialista, alternada com a complacência da oposição, declamava a chegada da nova era de prosperidade e justiça social. Bairros da lata inteiros eram demolidos e nas televisões via-se a senhora cigana ressabiada a receber as chaves para o seu apartamento novinho em folha, pago pela generosa partilha da prosperidade apercebida dos contribuintes. Sócrates até inventou mais tarde regras para dar aos pobres dinheiro dos nossos impostos só por o serem.
Pois afinal nós éramos ricos. Não?
Foi uma festa.
Só que ninguém estava a pagar a conta.
Em Moçambique, a Renamo e o que restava da Frelimo ainda se tentavam decapitar, apesar dos ventos de 1989 soprarem fortemente. Num subúrbio de Roma, em breve, sem ninguém reparar, a liderança da Frelimo, muito mais bem preparada e conectada, negociaria a sua vitória.
A modernidade comunicacional portuguesa começou na madrugada de 16 de Janeiro de 1991, quando, a propósito da decisão do ditador iraquiano Saddam Hussein de invadir a obscura e medieval ex-colónia do Kuwait uns meses antes, os Estados Unidos decidem ripostar com uma formidável “Coligação dos Justos” e um ataque directo ao Iraque, antes que este invadisse a Arábia Saudita e nos tivesse a todos bem agarrados pelos petrolíferos tomates.
Os locais comentaristas da treta, futuros quadros dos blocos da esquerda, acusavam isto de ser uma nova manifestação do neo-imperialismo americano. Estúpidos, declamavam sem saber: “nós portugueses não precisamos do petróleo para ter democracia e prosperidade”. Nessa noite a RTP interrompe a sua emissão regular e começa a passar dez horas seguidas de imagens do bombardeamento aéreo dos Estados Unidos a Bagdad feita pela CNN.
Para a CNN, do meu colega de faculdade Ted Turner, a cobertura da guerra do Iraque foi a coroação da sua estratégia de globalização. Fundada em meados de 1980 a partir de uma obscura e medíocre “super-estação” meio pirosa do estado norte-americano da Geórgia, a WTBS, que era do pai e que fora a primeira estação a emitir por satélite para todos os Estados Unidos, através das crescentes redes de satélites e de cabo que proliferavam pelos EUA, a CNN inaugurava a era das notícias internacionais por televisão, 24 horas por dia.
Em Portugal, cujos hábitos noticiosos televisivos eram mais do que questionáveis, duma formalidade doentia e de conteúdos quase estritamente governamentalizados, geridos por profissionais feitos a pulso (ainda não ocorrera a explosão de cursos de “comunicação social”) o súbito surgimento do novo formato foi um choque.
Claramente, as pessoas reagiram ao imediatismo fulgurante das bombas a caírem no terreno do Senhor Saddam ao vivo nas suas salas de visita e colavam-se horas a fio a tentar perceber o que é que o senhor da CNN dizia, no que o jovem jornalista José Rodrigues dos Santos assistia, traduzindo isto e aquilo.
Mas rapidamente, e face ao feed constante das imagens e das informações vindas de todas as capitais relevantes do mundo, tornou-se necessário haver algum debate e contextualização feitos em casa e em língua portuguesa. E é aí que surge do nada um novo herói da televisão portuguesa: Nuno Rogeiro.
Em 1991, Nuno Rogeiro era, por falta de melhor definição, uma espécie de equivalente televisivo da máquina de pesquisa Google. De fato e gravata e com uma trunfa característica, o então professor, cronista e comentador (não haviam então sites, nem blogues nem redes sociais nem jornais online) surgia sempre oportunamente nas câmaras da RTP (a SIC e a TVI ainda estavam na fase de planeamento e não havia Zon TV Cabo nem telemóveis populares nem nada disso) e cobria a ignorância mentacapta de quase todos os jornalistas a soldo da estação, discorrendo longa e livremente sobre tudo: onde ficava o Iraque, quem era Saddam, o que dizia Bush pai, porque é que os americanos atacavam pelo Sul e não pelo Norte, quantos aviões estavam envolvidos nos raids aéreos, o que é que a Turquia iria fazer. Tornou-se inesquecível nessa altura quando, a propósito de ter dado a Saddam para atirar uns mísseis de médio alcance chamados Scud para dentro do território de Israel, faz na televisão descrições detalhadas do que eram os Scud, para que serviam os Scud, quais eram as suas atribuições técnicas e alcance, que tipo de carga podiam levar.
Isto hoje é tudo pré-história. Rogeiro evoluiu, cortou o cabelo e tem um programa de entrevistas muito interessante na SIC e escreve umas coisas na Sábado. Toda gente em Portugal hoje tem telefones móveis, televisão por cabo em casa, computadores, internet e canais de notícias nacionais e estrangeiros à distância de um toque no aparelhinho de controlo remoto. José Rodrigues dos Santos consagrou-se e continua a ler as notícias enquanto vende livros sobre mega-conspirações. Como Santana Lopes, a CNN ainda anda por aí.
Nós temos o Maschamba.
Desses tempos, só fica a asfixia da vasta dívida acumulada, da quase falência do governo, das decisões que vão ter que ser tomadas e agora o poder executivo nas mãos periclitantes do governante mais mediático-dependente de toda a história de Portugal.
Para acompanhar os próximos episódios e o desfecho desta saga, agora podemos, a partir do sofá em casa e no computador, ver tudo a cores e ao vivo, e ler as opiniões e aferir os factos.
Só nos falta fazer isso com uma boa dose de desassombro, e de bom senso. Para o futuro que se avizinha, estes serão atributos para os quais não há tecnologias e nem riqueza que valham.
Jorge Vara exibe o seu primeiro carro em Lourenço Marques, 1 de Setembro de 1938
por ABM (23 de Fevereiro de 2010)
Tendo crescido em Moçambique, como toda a gente ali, habituei-me a viajar em automóveis com volante à direita e com o trânsito pela esquerda.
Uns anos mais tarde, descobri que a maior parte do resto do mundo, incluindo na “metrópole” (Portugal) se conduzia pelo lado direito da estrada. O que era curioso mas nada de especial.
Em 1978, por dez dólares e com a ajuda do pai BM, que me deu umas lições básicas, tirei a minha carta de condução nos Estados Unidos da América, onde vivia, e onde se conduzia pela direita, as ruas eram largas e bem sinalizadas e as regras muito simples.
Nunca tive problemas nenhuns até voltar a Moçambique na segunda metade dos anos 90 e me sentei pela primeira vez a conduzir pela esquerda. O problema era com os meus reflexos: quando vinha de férias ou de serviço a Portugal, por mais que uma vez, sem pensar duas vezes, quando dava por mim estava a conduzir no lado esquerdo da estrada, para desespero dos sempre tão corteses motoristas portugueses, que aproveitavam logo para fazer comentários à minha ascendência feminina em termos pouco laudatórios.
Como passageiro, ainda hoje quando estou mais distraído, é comum, querendo eu entrar num carro quando estou fora de Moçambique, dirigir-me para o lado…do condutor.
Porque é que se conduz em Moçambique pelo lado esquerdo? a resposta é fácil: porque se conduzia à esquerda em todos os países com que faz fronteira, cujas regras de condução derivam dos padrões estabelecidos pela Grã-Bretanha.
Em Portugal europeu conduzia-se pelo lado esquerdo da estrada. Segundo um interessantíssimo historial deste tema num blogue brasileiro, foram os franceses no tempo da sua revolução que inventaram o padrão da condução pelo lado direito, cerca de 1794.Como a seguir invadiram quase tudo à sua volta, levaram essa regra com eles. Depois das guerras napoleónicas, a regra da condução pela esquerda na Europa permaneceu nos países que mais resistiram a tirania francesa; o Reino Unido, o império austro-húngaro e … Portugal. Claro que ajudou que na realidade, para ajudar os portugueses a organizarem-se contra os franceses, a Inglaterra naquela altura praticamente ocupou Portugal, o que durou uns anos. E o costume ficou.
Foi só após a primeira república ter caído de podre e ter sido instaurada a Ditadura (na altura só, e com “D” maiúsculo, Salazar sendo ainda uma incógnita), é que, de uma assentada, tudo mudou. Em meados de 1928, um ano após criada a Junta Autónoma de Estradas, foi legislado o primeiro código da estrada português e, pelo decreto n.º 18.406, de 31 de Maio de 1928, estabalecida a circulação pela direita nas estradas. Até então, a circulação automóvel em Portugal e nas suas colónias era feita pela esquerda, copiando a prática britânica.
Assim, a partir das 5 horas da manhã de 1 de Junho de 1928 em Lisboa, e à meia noite no resto de Portugal continental, para os cerca de 31 mil condutores com carta de condução e cerca de 28.000 automóveis então existentes, passou a ser obrigatória a circulação rodoviária pelo lado direito das estradas. O mesmo aconteceu na Guiné, em Angola e Timor e, presume-se, na Fortaleza de São João Baptista de Ajudá.
Mas em Macau, Goa e Moçambique, tendo em atenção as suas situações específicas, manteve-se a condução pelo lado esquerdo das estradas.
Em 1975, na sequência da anexação de Timor pela Indonésia – onde se conduz pela esquerda, o sentido da condução foi alterado. Não sei como ficaram as coisas em Dili e arredores depois da independência.
Há vinte anos Mandela saía da prisão. O absurdo (mas muito racional) regime racista desmanchava-se. Ainda foi a tempo, now is the time disse-se logo a partir daí – até 1994. Quando foi eleito presidente.
Antes uma situação insustentável internamente. Uma imensa campanha internacional (abaixo o hino – festivo – cantado nos 80s). E o fim do comunismo e da Guerra Fria.
A minha recensão de Caderno de Memórias Coloniais, escrito por Isabela Figueiredo.
Introdução
De entre a publicação de textos bio e autobiográficos – ou “memoriais” – que se têm e vão publicando sobre a África de língua oficial portuguesa, antes e depois das independências, há que referir que se tem visto pouco e um pouco de tudo.
No caso de Moçambique, com poucas excepções, essas manifestações têm sido, desde talvez a primeira, Moçambique, Terra Queimada (redigida pelo enigmático Eng. Jorge Jardim, logo em 1976) de índole essencialmente, ou principalmente, política e/ou social. Isso tem ocorrido quer em Portugal, quer em Moçambique, quer, em tempos na África do Sul, onde alguns trabalhos importantes e interessantes têm sido publicados. Trabalhos como o de João Cabrita, Jacinto Veloso, Uria Simango, Adelino Serras Pires, Ricardo Saavedra e outros, alguns dos quais têm sido referidos neste blogue.
Mas, reconhecidamente, enormes lacunas permanecem por explorar de entre os diferentes pontos de vista possíveis e os protagonistas dessas histórias. Com algumas raras excepções, a abordagem por escrito – ou publicada – configura um quase total muro de silêncio sobre esse passado.
O que é curioso, dada a relativa relevância do assunto para as pessoas tocadas pelo assunto da presença portuguesa naquele território entre 1890 e 1975 – peculiarmente designados em Portugal como “retornados” – e em especial nos quarenta anos entre 1958 e 1995, quatro décadas em que se operaram mudanças radicais em Moçambique.
Recorde-se que nesse período de quatro décadas, observou-se a formação de uma resistência organizada e militar ao regime português em Moçambique e o início de uma guerra de guerrilhas no Norte do território, o pronunciamento militar em Lisboa em Abril de 1974, o aumento das tensões até Setembro, o anúncio do Acordo de Lusaka e os subsequentes eventos em Lourenço Marques entre Setembro e Outubro, na sequência dos quais iniciou-se a saída da esmagadora maioria dos portugueses e brancos (e de muitos moçambicanos) daquele território, a independência sob a égide da liderança da Frente de Libertação de Moçambique e a implantação de um regime marxista-leninista de linha dura, suportado pelos países da cortina de ferro enquanto a economia entrou em rápido declínio, se assistiu ao surgimento de conflitos com a Rodésia de Ian Smith (a que se seguiu a implantação de um regime de maioria negra liderado por Robert Mugabe) e a África do Sul de John Vorster. Assistiu-se de seguida ao início do que se veio a tornar numa guerra civil sangrenta, suportada pelo regime sul-africano, e, finalmente, ocorreu a renúncia formal, pelo regime moçambicano, ao marxismo-leninismo, a morte de Samora Machel e, já após a queda do muro de Berlim, a libertação de Nelson Mandela, o Acordo de paz em Roma que marcou o fim da guerra civil em Moçambique, seguido pela negociação e implantação de um regime democrático na África do Sul.
Em termos editoriais, esse interesse tem-se revelado, ainda que efemeramente, principalmente em Portugal, onde se apercebe uma audiência, essencialmente não académica, se não tanto com interesse neste tópico na globalidade, pelo menos com o interesse e suficientes números para justificar (no caso de Angola também) as sucessivas edições de livros de história e ilustrações gráficas com sucesso comercial – de que se distinguem os trabalhos de João Loureiro e Moderno Tropical (Ana Magalhães e Inês Gonçalves) uma recente edição fotográfica em hardcover, sobre a arquitectura moderna nos antigos territórios portugueses, ao custo de 40 euros cada cópia.
No campo da análise e do debate em redor dos últimos anos da administração portuguesa de Moçambique, das circunstâncias que levaram à independência do país em Junho de 1975 e os anos que se seguiram, as poucas visões e opiniões publicadas têm sido habitualmente marcadas por posicionamentos ideológicos e controvérsia.
Em Moçambique, compreensivelmente, essas posições manifestam-se tipicamente algo anti-portuguesas, anti-coloniais e críticas do sistema vigente até à independência, promotoras do “heroicismo libertador”e da criação de um “novo Moçambique”, a partir das cinzas do velho Moçambique, erradicando, nalguns casos literalmente, qualquer vestígio desse passado, dessa influência e dessa presença.
Em Portugal, publicaram-se obras mais académicas ou de análise político-estratégica, mas poucas, e quanto a biografias e memórias por parte dos antigos residentes, cujas experiências quer em Moçambique quer subsequentemente nos destinos para onde foram residir poderão ter interesse humano e histórico, senão literário, o silêncio tem sido quase absoluto.
Nesta complexa dialéctica, degladiam-se visões contrastantes e desenvolve-se, a certo nível, uma luta pela “verdade”, em que se assistem a esforços mútuos e sucessivos de branqueamento do que era e do que aconteceu. O branqueamento, por parte de alguns dos brancos/portugueses, de quão ofensivo podia ser e em muitos casos foi em geral, o sistema e a sociedade antes da independência; o branqueamento do que foi a ditadura comunista e a hostilidade para com os brancos e portugueses e principalmente para com os moçambicanos (de que destaco mulatos, indianos, etc) em Moçambique logo após a independência e nos anos que se seguiram; o branqueamento, em Portugal, da simples realidade de que em 1974 os poderes constituídos, com a quase total indiferença ou a aprovação tácita da população, pura e simplesmente abandonaram à sua sorte centenas de milhares de famílias portuguesas e moçambicanas e os seus descendentes, muitos já sem raízes em Portugal, a milhares de quilómetros de distância, completamente à mercê dos arbítrios de jovens guerrilheiros marxistas-leninistas tornados líderes governamentais, constituídos em ditadura. O branqueamento do facto de que se vivia em Portugal uma ditadura com quatro décadas, e que sobre toda a realidade colonial se sobrepunha essa maior realidade, aceite ou imposta de que, como disse Oliveira Salazar, “a Nação não se discute”. O branqueamento, finalmente, do facto que o projecto colonial nunca foi nem era per se dos “colonos” nem que estes nunca foram os seus principais beneficiários (como aliás se viu posteriormente): bem ou mal, com mais ou menos democracia, este era o projecto centenário de uma nação europeia, que falhou em constatar no que se passava no mundo e, numa das suas horas de mudança mais cruciais, em lidar condignamente com o fim previsível do capítulo colonial, e em assumir os custos dessa retirada em sangue e em dinheiro – e tomar conta dos que supostamente eram os seus.
Não há nesta história heróis nem criminosos. Quando muito, apostou-se num projecto e num ideal que acabaram mal. E muitos sofreram, em todas as partes, principalmente os agora cidadãos dos países que alguns gostam de referir serem nossos irmãos, cabendo a esta e as próximas gerações sararem as feridas que se mantêm abertas.
Se por mais nenhuma outra forma, fatalmente, o tempo, o distanciamento e a morte dos seus protagonistas de tal se encarregarão. Já está a acontecer.
Ficará a luta pela verdade.
O Caderno de Memórias Coloniais
É neste contexto global que, com base em várias peças colocadas na imprensa nos últimos dias, surgiu recentemente a publicação, por uma obscura editora sediada em Coimbra, de uma obra soi disant de cariz memorialista, intitulada Caderno de Memórias Colóniais (aqui, CMC), pela mão de Isabela Figueiredo, uma ex-jornalista e professora portuguesa, nascida na actual Maputo em 1963, que cresceu no maior anonimato na Matola desse período e que deixou Moçambique definitivamente com 12 anos, a 22 de Novembro de 1975, para não mais voltar.
Há vinte anos, publicara uma obra, também sobre o tema africano colonial, premiada, mas de que hoje não reza a história.
O seu relato, em formato de uma sequência de textos numerados, cobre o que supostamente viu e sentiu entre os sete e os doze anos de idade.
O Tema de CMC Segundo a Crítica e a Autora
A acreditar pelos textos e entrevistas de Fernanda Câncio, uma articulista do Diário de Notícias, de Eduardo Pitta, um intelectual e poeta de origem moçambicana na revista Ler (transcrito para um blogue com o mesmo nome), de Francisco José Viegas, e de Alexandra Prado Coelho num suplemento do Público, os temas desta obra seriam, mais ou menos por esta ordem, o passado pessoal da autora e um diálogo post-mortem com o pai racista, uma caracterização sua do racismo da sociedade lourenço-marquina entre 1970 (quando efectivamente a autora inicia no seu texto o fio à meada, assumidamente biográfica) e o assumir de um estatuto de “retornada” já em Portugal e no final dos anos 70, com vários comentários feitos com referências posteriores.
À cautela, há algumas nuances no que surge através dos comentários e afirmações feitas nas entrevistas, quer da autora, quer dos seus comentadores.
Sobre CMC, Eduardo Pitta referiu no seu texto na Ler que, apesar de uma certa abundância de informação sobre o período, “faltava, porém, um relato na primeira pessoa. Foi isso que fez Isabela Figueiredo (…), sem poupar nos detalhes”, considerando que CMC “é uma obra imprescindível para compreender o sentido (ou sem sentido) da nossa presença em África”.
Na sua peça, publicada no DN no dia 9 de Janeiro de 2010, Fernanda Cânciorefere que CMC “é uma carta de amor a um pai racista”(…)“é a história de uma retornada que assume o racismo português” que “desfaz o postal da África colonial mitificada”. Cita a autora, segundo a qual “comecei a escrever e a gostar do que estava a escrever. Achei que estava a sair bem, Com ternura mas também com violência. Claro que tenho medo de ser mal interpretada. Mas sinto muito alívio. Libertei-me de um fardo que carreguei comigo a vida toda.” O fardo? Ela prossegue: “a verdade é que nós vivíamos num país onde se podia atropelar um negro e não ir para a prisão”.
Câncio refere que a autora foi mais longe: “houve uma espécie de justiça nos massacres dos brancos. Mesmo se ela sabe que quando em Setembro de 1974 mataram famílias conhecidas à catanada, espalhando-lhes os restos pelas machambas, animais e pessoas, tudo o que era branco, à mistura, só por sorte inaudita ela e os pais não fizeram parte das contas”. E cita novamente a autora: “nós não podiamos dar-nos com os pretos e tudo o que eu queria era dar-me com eles”.
Inescapável, o tema do pai, em que Câncio refere o seguinte; “o homem enorme que a pegava ao colo e a levava para todo o lado, para as obras onde era electricista e onde dirigia “os seus muitos pretos” e os agredia com palavras e porrada, para as tardes de camarão grelhado e penalties com os outros homens em que aprendeu a linguagem do racismo, (…). À laia de explicação para a sua escrita, a autora refere a Câncio “tinha de gostar dos meus pais e ao mesmo tempo lidar bem com a minha consciência”.
Na sua peça, Francisco José Viegas, autor do romance Lourenço Marques, considera que CMC é “um dos livros mais tentadores da estação”. E ainda que a autora “é rápida no gatilho, escreve muito, muito bem – melhor do que todos os rendilhados que andam por aí, em súplicas desatendidas.”
Na entrevista com Alexandra Prado Coelho no Público, a autora referiu razões e motivações por detrás da obra, Cita-se abaixo, e na primeira voz.
Sobre o contexto em que escreve a obra, são de relevo, para se entender a obra:
“Foi preciso esperar muito tempo, que o meu pai morresse, que eu fizesse o luto dele, que fizesse uma série de anos de psicanálise, para ter vontade de escrever o que está aí. São coisas que precisava de dizer”
Sobre o assassínio de portugueses e brancos em Setembro de 1974:
“Quando foram os massacres que se seguiram à independência compreendi que era a justa retribuição.”
Sobre a sua solidão e conhecimento da realidade que a rodeava:
“O que acontece é que eu não tinha autorização para brincar com outras crianças, era muito protegida pelos meus pais, provavelmente por ter sido uma filha tardia. Vivia muito encerrada com a minha mãe em casa.”
Sobre o pai e a realidade sobre a qual escreveu:
“O meu pai foi um mediador entre mim e a realidade. Eu conhecia a realidade através dele e do mundo que ele trazia até mim. Portanto só posso culpar o meu pai. O colonialismo é o meu pai, a discriminação é o meu pai, porque foi o meu pai que eu vi fazer isso. Eu andava sempre com ele. Ele gostava muito de mim, levava-me para todo o lado.”
E ainda:
“Acho que nunca falei verdadeiramente com o meu pai sobre como ele me decepcionou por ser um racista.”
E ainda:
“Porque é que eu bato tanto no meu pai aqui? É pela questão do abandono? Não, é porque ele foi mesmo um grande filho da mãe. E porque fez coisas que não devia ter feito, porque as fez à minha frente, porque me magoou, e porque eu nunca lhe disse isso directamente e devia ter dito. E se digo com alguma violência é porque essa violência ainda não está totalmente gasta.”
Finalmente, mais um comentário extra-livro que ajude o leitor talvez a melhor entender o que escreveu:
“Fico muito zangada sempre que vou a uma livraria e sou confrontada com um livro sobre essa imagem [idílica de África] – e depois começo a ler como era bom comer papaia, e como tínhamos uns criados que tratavamos muito bem, e como as roupinhas dos nossos filhos iam todas para eles. Acredito que haja pessoas que não tenham participado activamente em acções destas [de discriminação e violência], mas foram cúmplices, como na Alemanha.”
Presume-se que a autora acima se refere às pessoas que viveram na Alemanha Nazi.
A Crítica
Stritu factu, com alguma sobreposição em alguns dos temas acima relevados, depois de uma leitura atenta dos textos de CMC, e pedindo desculpas a alguns exmos leitores que já o referiram, e pelo que nalguns casos já referi eu próprio, acredito que o tema central desta obra não é o colonialismo na Lourenço Marques colonial. Nem tanto a natureza impia do racismo colonial na velha Lourenço Marques. Nem nehuma confrontação titânica com pesadas consciências sobre um passado supostamente tenebroso.
Este livro não é sobre a experiência colonial de centenas de milhares de pessoas que viveram em África entre 1960 e 1974 e os milhões de moçambicanos que, a breve trecho, bem ou mal, integraram um Moçambique soberano e independente.
Não são as memórias de uma menina simpática e inocente que cresce e apreende a beleza e o amor que a rodeiam num mundo hostil e que não compreende. Não é o Bonjour Tristesse de uma Françoise Sagan.
Nem é sobre algum vislumbre de empatia e solidariedade com o destino e a miséria e a exploração e a humilhação a que muitos moçambicanos negros (os poucos que a autora refere ter visto na sua caixinha de loucuras) tiveram que se sujeitar perante a prepotência racista e neurótica de gente como os seus pais – e que ainda hoje, quarenta anos depois de independência, ocasionalmente se vê, nem sempre alinhada em termos de raça ou cultura, pelo contrário.
Só quem não conhece, só quem não sabe, só quem é que não vê, é que não percebe.
Não.
Este livro é principalmente, quase unicamente, sobre ódio puro e destilado entre duas figuras trágicas. Entre dois monstros horríveis.
É um discurso sintetizado e coisificado de dois seres perturbados, limado ao longo dos anos, em que, morta uma das partes, e não tendo havido uma tão apetecida catarse, foi, para o consolo e consumo egoísta e algo psicótico da parte remanescente, cuspido para o papel, que agora é apresentado, sob a pretensa forma de “arte”.
Quase tudo o resto é apenas, em pano de fundo colonial, um estratagema, um exercício de exibicionismo, um vulgar drag show para mostrar que gosta de chocar, que não se importa de chocar, que não tem barreiras, que pode gritar o que quiser. Os “pretos” aqui são apenas marionetes da tragicomédia, E nós pagamos o bilhete de entrada. Eu paguei.
O primeiro e principal monstro, é a autora, tão obviamente perturbada, tão quixotescamente transfigurada numa menina loira, delicada e sensível com sete, dez anos de idade (acredite quem quiser) que supostamente vivia fechada numa verdadeira caixa de horrores escondida numa Matola (então) distante, bucólica e rural, e que, com o único fito de tentar chocar e surpreender de uma maneira ou outra o leitor completamente desprevenido (nenhum dos críticos citados parece minimamente perturbado pela forma e conteúdo do que aborda, homenagem lhes seja feita), desfere, ataca, arranha, grita, insulta, achincalha, rasga quase tudo e todos. Nada lhe escapa, nem, no fim, especialmente, ela. Obcecada pelo sexo, obcecada pela raça, uma voyeur politicamente correcta do ocaso do Império. Os brancos são lixo. Os negros não são nada. Para ela a vida aos sete, oito, nove dez anos de idade, é uma orgia pérfida de revolta e sedução, em doses iguais, naquela casinha perdida na Matola.
A abordagem não impressiona por um segundo. Se o relato era verdade, era caso de polícia. Se é apenas literatura memorialista, aprende-se muito pouco. Talvez apenas que, em qualquer comunidade, incluindo as coloniais, há extremos que devem ser exorcizados. Não vão as criancinhas acabar assim, patologias por resolver.
Tudo isto embrulhado numa prosa ridícula que é de uma tal pobreza, de uma tal falta de graça, de contexto, de sustentabilidade intelectual, de equilíbrio emocional, que desafiam a inteligência e a sensibilidade de quem como eu teve o rasgo de, avisado, comprar o que só posso qualificar como o pior conjunto de verborreia pretensamente sobre a era colonial em Moçambique que jamais vi. Aquilo é um desatino em cadeia. Esta obra não é uma memória. É a memória de um grito lancinante de ódio contra um pai em relação a quem havia muito e quiçá omitido, unfinished business.
A exploração, a miséria, o racismo generalizado, o tal pano de fundo em que surpreendentemente tão diligentemente circula e que tanto faz por pintar que parte o pincel, com a excepção rara de foder o filho do vizinho preto na Matola, de cujo nome não recorda, ao contrário do idiota do Luisinho branco (ah mas este tem nome) que por cima dela se deitou.
Ainda por cima a autora tem o gáudio de, à propos, vir referir que está convencida de que é muito boa a escrever. Que tem algo para nos dizer de especial. Que dos seus insanes, vulgares, pirotécnicos regorgitares sobre a sua aparentemente doentia e psicótica, sexualmente perturbada versão luso-tropical de Voando Sobre um Ninho de Cucos em cenário colonial, está a fazer literatura. Literatura memorialista.
Ai sim?
Mas naturalmente: ganhou um prémio qualquer em 1988 (há 21 anos) e enquanto olhava para ele na prateleria em sua casa, ficou a perceber que, se mais nada saberia fazer na vida para além de nutrir um impenitente, incontido, incontível, ingerível, inexorcizável ódio pelo pai, “apercebeu-se” que o que escrevia tinha alguma qualidade. E como no júri em 1988 estavam a Agustina, o Dinis e a Ondina, que lhe deram o único grande, inebriante prazer na vida – o de um elogiozinho e de umas palavras de encorajamento que a posteriori só posso qualificar de tragicamente equivocados – e depois de uns test flights assistidos por meia dúzia de aficcionados num blogue perdido na internet, achou por bem presentear o seu veneno destilado ao público. E como a Fernanda aplaudiu, e o Eduardo Pitta condescendeu, e o Francisco Viegas recomendou – isto é mais do que bom.
É três vezes bom.
Só pode. Pois quem somos nós os outros para julgar poder apreciar?
A outra figura trágica deste compilar de ódios generalizados, com ressalvas, pois é apenas protagonizado pela sua mão, é o (defunto) pai, cuja relação com a filha – a fazer-se uma leitura atenta – está no centro de uma vasta, doentia, distorcida, forma de apreender a realidade e de lidar com ela. Por essa lente disforme, com uma ajudazinha da mãe na casa da Matola, tudo capta na inocência dos seus reputados e cristalinos sete, oito anitos de idade. A inocência na gaveta. Como o pai era um racista encartado (filha dixit) logo todos os brancos, toda a cidade branca, era como ele. Como o pai tinha desvarios, assim era tudo o resto. O pai, o corpo do pai, o cheiro do pai, o músculo do pai, o não sei quê do pai….
Convém um voo rasante para o exmo leitor se poder inteirar do sabor dos textos de que falo e do ambiente deste Ninho de Cucos da Matola:
Breve excerto do texto 2: “Os brancos iam às pretas. As pretas eram todas iguais e eles não distinguiam a Madalena Xinguile da Emília Cachamba (…) As pretas tinham a cona larga, diziam as mulheres dos brancos (…) A das brancas não, era estreita, porque as brancas não eram umas cadelas fáceis, porque a cona sagrada das brancas só lá tinha chegado o do marido (…) As pretas não eram sérias, as pretas tinham a cona larga, as pretas gemiam alto, porque as cadelas gostavam daquilo. Não valiam nada”.
Início do Texto 3, supostamente sobre a sexualidade do pai dela e a dela, tema favorito para quem ainda não percebeu: “Foder. O meu pai gostava de foder. Eu nunca vi mas via-se. “. E mais adiante, “Quando o meu pai me levantava no ar como se fosse uma coisa, ou me transportava às cavalitas, sentia-me fraca perante a força total, dominada, possuída por ele”. Mais tarde, no texto 24: “Sem me ensinar, o meu pai iniciava-me no prazer que já havia despontado com o estranho fogo do meu padrinho”. No Texto 28, para equilibrar, anuncia que “a Domingas foi quem me masturbou pela primeira vez”.
Hum.
No texto 4, esta pérola, que para variar repete duas vezes, referindo-se à cidade de Lourenço Marques “…era um enorme campo de concentração de negros sem identidade, sem a propriedade do seu corpo, sem existência”.
Tópico do Texto 5: The first fuck (a da autora com o tal de Luisinho – branco – sete anos de idade, mal explicado, pai descobre e dá-lhe um enxerto de pancada) e que começa assim, para variar: “Foder. Essa descoberta tornou-se algo que me envergonhava e desejava”.
No texto 10: Mais sexo. “Quase” engravida do “filho do vizinho preto”. Aos dez anos de idade.
No texto 11: “… o olhar dos negros, nunca fica, para os colonos, isento de culpa: olhar um branco, de frente, era provocação directa; baixar os olhos, admissão de culpa. Se um negro corria, tinha acabado de roubar; se caminhava devagar, procurava o que roubar.”
No texto 14: Sobre a Marília, a quem a autora dá uma bofetaba mas que, como ela era branca e a Marília mulata, a Marília engoliu e calou-se. Isto na Escola Especial em Lourenço Marques.
No texto 17, sobre a guerra no Norte e as tropas portuguesas: “Também havia soldados pretos. Faziam-nos comandos, para irem à frente e morrerem primeiro; assim se poupava um branco. Que os pretos morressem na guerra era mal menor. Era lá entre eles”.
Há 16 páginas às voltas com a saída de Moçambique em 1975 (textos de 29 a 33). Medíocre.
No texto 34 há um parágrafo inteiro, que constitui o segundo parágrafo inteiro, do texto de Fernanda Câncio no DN. Alguém se esqueceu de pôr lá as aspazinhas e fiquei a pensar que era da autoria de Câncio. Afinal era da autora. E aqui vai: “Todos os lados possuem uma verdade indesmentível. Nada a fazer. Presos na sua certeza absoluta, nenhum admitirá a mentira que edificou para caminhar sem culpa ou caminhar, apenas. Para conseguir dormir, acordar, comer, trabalhar. Para continuar. Há inocentes-inocentes e inocentes-culpados. Há tantas vítimas entre os inocentes-inocentes como entre os inocentes-culpados. Há vítimas-vítimas e vítimas-culpados. Entre as vítimas há carrascos. “
Texto 40: quatro páginas sobre o corpo do pai. As pernas, a barriga, etc. Fico sem palavras.
Texto 41: agora é a vez de alguém que vem por via da mãe, uma mulher, que terá dito, já “retornada”, cito “ Os negros, os cabrões, os filhos da puta. Vim de lá há um ano. Nunca deixei que me faltassem ao respeito. Chamavam-me mamã, chamavam-me tia, e eu dizia-lhes não sou tua mãe, que eu não sou puta. Nem tia, ó meu cabrão. E não me assaltas que eu não sou branca e estrangeira e ponho a polícia atrás de ti, meu escarumba de merda.”
Perto do final, um texto indicado como post chamado Fígado de Porco refere-se ao primeiro aborto que a autora fez, não se sabe quando. Parece que o que saiu pareceu-lhe fígado de porco. Mas este já é tema extra-colonial, é uma espécie de bónus. Não indica quem a pôs assim.
E no meio do texto 41, o que para mim é o grand finale, o que a autora, na sua análise, destila disto tudo: “Um branco que viveu o colonialismo será um branco que viveu o colonialismo até ao dia da morte. E toda a minha verdade é para eles uma traição. Estas palavras, uma traição. Uma afronta à memória do meu pai. Mas com a memória do meu pai podemos bem os dois.”
Tirem-me deste filme doentio.
E como exorcismo merecido, leia-se Noémia de Sousa, José Craveirinha, Mia Couto, Luis Bernardo Honwana, Luis Carlos Patraquim, Calane da Silva, Albino Magaia, Nelson Saúte, Ungulani Baka Kosa, António Pinto de Abreu, Leite de Vasconcelos, Paulina Chiziane, José Eduardo Agualusa. E, last but not least, Carlos Serra. E o meu irmão Amâncio Miguel.
São gente que demonstra que, por mais que todos os electricistas da Matola houvessem atentado contra a dignidade de um povo, por mais humilhações por que tenha passado, ele superou e ressurgiu forte e sorridente.
Quanto aos “retornados”, deixe-os em paz. Eles têm as suas histórias, que não são estas.
Disfarçado de dono de um veleiro de passagem por Cascais, e após breve e inócua aventura na Livraria Bulhosa no Cascais Villa, peregrinei até à quiçá mais próspera e dotada FNAC do Cascais Shopping, com a Dulce Gouveia a reboque, para comprar a grande obra recente da Escritora de origem moçambicana, publicada pela Editora sediada em Coimbra.
Mas na secção dos livros dou logo de caras com o José Rodrigues dos Santos no corredor, que é máfia moçambicana do melhor e estes dias uma espécie de versão lusa do Dan Brown. Com ele não há cá memórias para ninguém. Antes que ele pensasse que eu ia ao livro dele sobre a Al-Khaeda, que se encontra à venda em todas (mas todas) as livrarias, grandes superfícies, aeroportos e até por baixo de vãos de escada, escapuli-me pelo café da loja para o outro lado e fui ter com uma daquelas meninas simpáticas da FNAC que usam um coletezinho verde e nos ajudam a encontrar os livros.
“Olá, boa tarde. Procuro o novo best seller daquela escritora nascida em Moçambique Isabela Figueiredo e não encontro”.
“Só um momento, sefachavor”.
Clic clic clic clic no computador.
“Sim, devemos ter ainda uma cópia na loja, deixe-me ir ver”.
E desapareceu.
15 minutos à espera.
Após o que a menina surgiu do nada com um livrinho pequenino na mão.
“Quanto é?”
“15 euros”.
“15 euros! Bolas. Deixe-me cá ver”.
E peguei no volume. E inspeccionei-o.
Preliminarmente.
Na verdade o livro é algo estranho.
A seguir à capa e a contra-capa, tem quatro folhas verde-alface sem nada, duas de cada lado, que deve ser para o leitor precavido tomar apontamentos. No fim, a seguir à folha verde-alface, diz uma nota que foi composto numa empresa gráfica na bela Vila Nova de Famalicão, “34 anos após o regresso da autora a Portugal”. Ok. Suponho que uma anotação válida para quem ao chegar ao fim do livro ainda não se tiver apercebido desse facto da vida da autora, ou que não saiba fazer contas de subtraír (pois 2009-34 = 1975) infelizmente um provável infortúnio com o estado da educação nos dias que correm.
Só que na pala interior da capa tem mais uma foto simpática da Isabela, esta circa 2009 e sans Bóbbi, e mais uma notinha a dizer que ela nasceu em Lourenço Marques em 1963, que em 1975 veio para Portugal, e que nunca mais voltou.
Espera aí: se aqui diz que ela nasceu lá, que veio para cá e que nunca mais voltou, porque é que no fim do livro diz que ela regressou a Portugal?
É um mistério. Assumo que deve fazer parte da complexa e mística dialética subjacente aos conteúdos ali abordados. Ora veja-se.
Ela nasce e cresce em Moçambique.
Mas ao viajar para Portugal em 1975, regressa.
Ora isto é para mim uma alegoria fantástica.
Tem umas fotografias: na capa (a foto ali no topo) a Isabela avec Bóbbi. Depois duas piquininas de Lourenço Marques nos tempos e que mal se conseguem ver, e a seguir vêm: a Isabela a segurar o rádio de papá debaixo de uma papaeira, a Isabela vestida de saloia portuguesa num barco, a Isabela a fazer pose num parque, a Isabela na marginal de Lourenço Marques e a Isabela na comunhão.
Na página 7, presume-se que para dar o tom do que está para vir, três citações, uma de Paulo Auster a falar do pai (o do Paulo Aster), e duas do italiano Primo Levi, a mastigar a presumível fungibilidade da Memória Humana. Bem, ou pelo menos a dele.
E, presume-se, por osmose subliminar associativa, a da Isabela.
A menção do americano Paulo Auster confunde-me e levanta-me imediatas suspeitas quanto à proeminência fotográfica do Bóbbi. Pois na sua Timbuktu, não a africana mas uma mitológica e utópica urbe, são as memórias do rafeiro Mr. Bones que descascam, numa odisseia tão deprimente como cativante, a existência de Willy Christmas, um homem infeliz e falhado, que morre à porta da casa onde o seu ídolo, Edgar Allan Poe, vivera. Será isso? O que acha, quais as memórias de Bóbbi da sua dona e da Lourenço Marques que a viu nascer e crescer? será que Bóbbi também regressou?
Primo Levi suscitou-me ainda maior supresa. Pois a sua escrita, sendo judeu e tendo passado pelos maiores horrores da carnificina Nazi, incluindo quase um ano em Auschwitz-Birkenau, é mais conhecida pelo conteúdo memorialista desse período – memórias que o perseguiram até à morte. Em 1987, o grande Elie Wiesel, que era professor na Universidade de Boston, onde estudei gestão e um pouco sobre o judaísmo nessa altura e durante dois anos, e ele próprio um sobrevivente do horror Nazi, disse que, quando morreu – e referindo-se às suas peristentes e pungentes memórias – Levi na verdade morrera em Auschwitz mas quarenta anos depois.
Que associações poderá haver entre a obra e o percurso de Primo Levi e este livro de Isabela? A curiosidade avoluma-se dentro de mim.
Procurei, e descubro que o livro não tem índice. Tem, isso sim, em 136 páginas (as que estão numeradas), textos sequenciados, de 1 a 43. Sem títulos. Só os números.
E na verdade, aí me apercebi, afinal aquilo não é só um livro (daí, decorrem, presume-se, os 15 euros).
Logo a seguir ao texto Número 43, depois de uma folha com umas das fotos piquininas de Lourenço Marques que não se vê bem, tem outra onde apenas figura, a meio, a singela e solitária frase, que se presume dedicatória: “À memória do meu pai”.
Repare-se no detalhe: não é em memória do pai. É à memória do pai.
Hum.
E a seguir tem uma página que diz, na vertical, com o texto a apontar na direcção da lomba do livro, em letras garrafais “Adenda” onde, aí sim- surpresa!- tem um índice, mas um indicando o que vem a seguir (aos textos numerados de 1 a 43): seis textos descritos como posts, incluindo o intrigantemente títulado Falta dinamitar o Cristo-Rei e logo abaixo o assaz mais invocativo de assunto gastronómico, Fígado de Porco; e, finalmente, Uma conversa com Isabela, que inclui, um pouco como nas (brevemente findas) conversas do Professor Marcello na RTP aos domingos à noite, e à margem das doze páginas do texto da entrevista propriamente dita (feita por não se sabe quem) as sugestões dela de dez livros, cinco datas e cinco lugares.
Portanto, isto é o que se pode chamar um pacote completo.
Que agora é meu.
Por, afinal, uns modestos 15 euros.
E que, feito o investimento e aguçada a curiosidade, vou ler este fim de semana, de fio a pavio.
E de que logo darei conta aos exmos leitores, após reler também a prosa canciana et al.
Para tirarmos esta coisa a limpo de uma vez por todas.
Nunca meti os pés na Índia, e muito menos em Goa, o ponto fulcral e crucial da segunda exploração marítima portuguesa no séc. XVI, de que a Ilha de Moçambique era de importância vital mas apenas como ponto de apoio.
Recordo que a primeira fase da exploração lusa das rotas marítimas foi o Norte de África, que correu mais ou menos (às vezes menos bem) até à maior derrota militar de 900 anos de história portuguesa, Alcácer-Quibir, em Agosto de 1578, que só tem comparação na sua dimensão épica com igualmente épica e inenarrável vergonha (mais política e moral que militar) que foi a forma da retirada formal de Portugal de África e de Timor em 1975.
Mas, bons portugueses, quase tudo esquecemos e tudo perdoamos. Quando muito, ruminamos na calada da noite em blogues como este e depois vamos dormir, na enferna convicção da consciência ventilada.
Uma espécie de peido emocional.
Ou, mais prosaicamente, uma catarse num quarto escuro e fechado.
Como alguns dos restantes territórios sob soberania portugues até aos anos 60 e 70 do século findo, Goa era de certa forma mais um anacronismo de uma potência pós-decadente. Já há séculos que para quase nada servia, só dava despesa, Portugal pouco ou nada fazia lá, tinha meia dúzia de gatos pingados na sua guarnição, a paisagem aquele latinismo exótico, doce e delapidado, a economia irrelevante e, mais importante, não havia maneira de evitar o embate de uma Índia independente, orgulhosa e anti-colonial. Nehru fartou-se de avisar e de mandar recados, alguns até simpáticos, mas o Dr. Oliveira Salazar pelos vistos tinha que manter, e manteve, a consistência da sua postura.
A tomada de Goa e restantes territórios da Índia Portuguesa em 1961 não foi coisa assim tão insípida como se possa pensar. Mais tarde soube que em Moçambique, por exemplo, a comunidade de ascendência indiana foi quase decapitada por causa dos eventos na Índia. Muita gente foi encarcerada, maltratada, muitos foram explusos e despojados dos seus bens, ou simplesmente presos e usados como moeda de troca pelos (principalmente) militares portugueses então feitos prisioneiros pelo exército indiano, com até uma mãozinha do omnipresente Jorge Jardim pelo meio. Dos poucos que ficaram atrás, e seus descendentes, as feridas resultantes desse trauma perduraram até hoje.
Alguns goeses viajaram no sentido oposto, para Moçambique, onde tentaram refazer as suas vidas. Conheci alguns. E talvez seja minha mania, mas sempre me ficou a impressão de serem pessoas com uma cultura e profundidade espiritual que contrastava de todo com a elevada quantidade de carapaus de corrida que iam desaguar a Lourenço Marques, vindos da Metrópole, com a mania de que iam ensinar os locais brancos e pretos como é que se comia com o garfo e a faca.
Uma dessas pessoas que me ficou gravada cá dentro foi uma professora de História que tive no segundo ano da Escola Preparatória, a infame Escola General Machado na Polana, para onde eu tinha que marchar todos os dias as sete da manhã com um horripilante colete verde-garrafa estilo militar e basicamente levar porrada nas aulas de educação física do famoso e temeroso professor Trepa Torres. Ela era uma pessoa sublime, cultíssima, uma mulher conhecedora do mundo, uma docente de cinco estrelas. E que era goesa. Claro que na altura eu não fazia a mínima ideia do que era Goa nem onde ficava e muito menos que os indianos na altura já tinha surripiado aquilo a Portugal. Pouco tempo depois, quando saí de Moçambique para estudar em Coimbra, encontrei-a no avião da TAP (um Boeing 747, nada menos) de mala aviada para Portugal, para ela uma segunda fuga. Sorumbaticamente, prestei-lhe os meus respeitos e despedi-me quando desembarcámos em Lisboa. Nunca mais a vi.
Pelo meio, não sabendo bem porquê, sempre tive uma visão quase idílica de Goa e das suas gentes e culturas, em parte espelhando os ecos moçambicanos. Mais tarde apercebi-me de algo ainda mais supreendente, que era a elevada consideração em que aparentemente são tidos na Índia e no Reino Unidos alguns descendentes mais sonantes dos Goeses, cujos nomes são, nalguns casos, de matriz portuguesa. E ainda que, sendo o subcontinente indiano uma enormidade, que Goa, a pequenina Goa dos portugueses em que pouco ou nada se fizera em quinhentos anos, aparecia como a jóia da coroa e o local de passeio das classes mais abastadas da Índia, do seu turismo internacional.
Uma menção especial para Gujarat, mais a Norte, a seguir a Mumbai, a velha Bombaím, dada por João IV como dote da sua filha Catarina de Bragança à Inglaterra de Carlos II em meados do século XVII. Lidei bastante com homens de negócios de lá e seus descendentes, em Angola e Moçambique, e foi sempre um prazer.
Portanto aquilo era o paraíso na terra e a minha imagem do paraíso na terra é mais ou menos o que está na fotografia lá em cima.
Basicamente, portanto, sem as vacas a passear nem os vendedores de quinquilharias que a Senhora Baronesa, com o seu afincado olho antropológico e a máquina digital, descortinou.
Mas enfim. As coisas nunca são exactamente como pensamos, não é?
Pois ponha-se a vaquinha na praia que eu continuarei a pensar que há-de haver por lá aquele cantinho do paraíso que eu sempre suspeitei haver.
2. Crise. Qualquer emigrado português sabe que ir à “terra” é para ouvir os constantes lamentos dos amigos, da família, dos populares, com a “crise”, e etc. e tal. Mais agora, com a desgraça internacional a repercutir-se nos dois milhões de portugueses abaixo do limiar da pobreza, mais de dez por cento de desempregados, o país sem luz ao fundo do tunel, sem projecto. E depois … basta ver o potlatch radical dos últimos dias antes do tal solstício dito Natal! Basta perguntar no talho, no café (o bolo-rei), na livraria, na loja de brinquedos, nos restaurantes e afins, etc e tal vinícolas e isso, o obrigatório “então, e este ano como vai?”. Crise? Já lá vai, que “estamos melhor que o ano passado”. Crise? Como crise se a felicidade está ali mesmo, nos balcões dos chópings? E tudo segue, no dia 26 abrem os saldos e as multidões reiniciam o seu caminho de cigarras. O vazio (versão portuguesa do conradiano “horror”).
[Fotografia de inscrição ao Teatro Politeama, Lisboa, Dezembro 2009]
3. A gula. Crise? E é um “trocadilho” fácil, o com esta campanha de época, o tome atenção aos AVCs que encheu os painéis das cidades. Crise? Só se for a da gula, essa motriz dos AVCs. No fundo o símbolo da Europa Ocidental, obesa, no seu estertor. As causas? Exactamente a tal falta de visão, de preocupação. De razão. Tudo isso do a cada um o seu sapatinho, e nada mais … Aliás, a cada um o seu sapatão.
4. Paulo Duarte, afirma-se de origens humildes, foi um futebolista modesto e não enriqueceu, é agora o seleccionador do Burkina-Faso. Deu uma entrevista ao jornal Record. Interessantíssima, muito para além do patois futeboleiro habitual. De como olha o país africano para onde, surpreendentemente, foi trabalhar há já dois anos. E de como reconhece que para preconceitos era ele que os carregava ao início. Mas mais do que isso, também ele de longe a re-olhar os seus patrícios: “Se as queixas, por isto ou por aquilo, fossem modalidade olímpica, os portugueses estariam cobertos de ouro. Somos muito assim. Completamente. As dificuldades da vida são muitas, para toda a gente, mas há coisas que não podemos esquecer: a maior parte dos portugueses que vive mal tem uma casa, duas televisões, um vídeo, dois telemóveis, dois carros, um emprego, mal remunerado mas temos, tem água, tem luz, tem gás, tem comida na mesa, tem roupas adequadas ao clima. Com maior ou menor dificuldade, chegue o dinheiro ou não ao fim do mês, tem isso tudo“. Sei que é muito fácil apupar este tipo de visão. Mas seria conveniente que os habitantes de um país que não produz o que tanto consome pensassem um pouco no facto de que a sua ladaínha lamurienta não encanta (enfeitiça) os que de longe os assistem. Fica o meu desejo das maiores felicidades a Paulo Duarte, homem a pensar. Força Burkina-Faso!
5. Quadra natalícia: Eu também! Pois se o mito sublinha o amor transposto para o espírito de dádiva neste emigrante o real é a volúpia da posse, sacos de auto-prendas esquecendo-me dos “entes queridos”, esvaziando-me o porta-moedas extinto que foi, e já em tempos, o cartão de crédito, malfeitoria ocidental. Malditas livrarias ….
6. Saúde. Viver em flat e enfrentar tantas proibições tabagísticas em locais públicos: assim a fumar bem menos.
7. Oferta infantil. Uma enorme oferta de espectáculos e actividades infantis. Gloriosa. Diz quem sabe que este Corcunda de Notre Dame foi do melhor que já viu, e já viu várias coisas.
8.Cultura. Na revista “Os Meus Livros” (nº 82, ano 7, 12.2009) a coluna “Caldeirada de Letras” (p. 52) contém um acertado texto da autoria de Luís Graça: “Astérix Ortografix“. A propósito da edição do “O Aniversário de Astérix e Obélix, o Livro de Ouro” (fraquinho, já agora) uma crítica as novas traduções dos nomes das personagens, um incompetente ataque à tradição asterixiana. (Algo que em tempos já aqui referi).
9. Surpresa. Encontro o Bartis (ok, o Bar Artis) reaberto. Um ícone do Bairro Alto, ali à Diário de Notícias, agora com nova gerência (propriedade dos donos do velho restaurante “Sinal Vermelho”), a vender apenas produtos portugueses (quer um whisky, um gin, um vodka? Beba aguardentes vinícolas – aprecio o acto). Mas mais do que isso – e ainda que lamentando isso do balcão estar agora ao fundo da sala – de louvar a reabertura de um local biográfico. Mesmo que já sem o seu velho proprietário, o célebre Mário, e – aí sim, lamentavelmente – desprovido da lendária Paula, rutilante alma. Mas está lá o Bartis ….
10. Inteligência: a primeira auto-prenda, logo no dia da chegada, este “De Marx a Darwin. A Desconfiança das Ideologias” (Gradiva, 2009), um para mim desconhecido livro de Onésimo Teotónio Almeida. O autor é um homem inteligente, o livro idem. Uma delícia, sobre paradigmas cientificos, suas características e limites, e ainda da hipotética relação da ciência com a religião, da ética com a lei. Para mais muitíssimo acessível (efeitos da tal inteligência). Deixo uma citação. Que é letal para alguns meio lusos, e não é preciso recuar ao guterrismo: “Nem tudo na ética está codificado na lei, a lei civil é apenas a imposição da obrigatoriedade de uma ética mínima para o funcionamento das sociedades. Mas se a ética transcende a lei, e por vezes choca com ela, ambas têm os mesmos alicerces. Os debates legais resultam de confrontos entre valores éticos, de combates morais, e nem todos conseguem reunir consensos que se traduzem no estabelecimento de normas legais (ou, pura e simplesmente, de leis sancionadas pelos tribunais e pelas forças do Estado que velam pelo seu cumprimento), contudo muitos valores morais não precisam de ser codificados em lei. Há normas éticas aceites pela maioria que nunca foram consignadas em nenhuma legislação. Os ventos da história e o rumo de cada cultura acaba conseguindo para esta ou aquela norma ética um estatuto legal. Mas nunca a lei cobre todo o domínio da ética, até porque nela, a ética, há um mínimo que suporta legislação (o domínio do dever), porém existe um outro bem mais vasto, o da virtude – a arethé grega – que não poderá nunca ser legislado.” (125)
11. Drama. Rui Santos sobre o Sporting. O jornalista em causa capta pouca adesão – como o prova o baixo número de subscritores das suas incessantes petições informáticas, abundamentemente publicitadas em inúmeras horas televisivas (basta compará-las com as petições lançadas in-blog para comprovar essa sua fragilidade). No entanto a sua denúncia sobre a destruição do Sporting Clube de Portugal por parte do núcleo socioeconómico, em tempos albergado sob o epíteto “Projecto Roquette”, é inultrapassável. E de registar pois estabelecida em jornal de grande divulgação. E, por extrapolação, diz muito sobre o Portugal de hoje, esse da cega aceitação de auto-anunciadas elites sublinhada pela “falta de alternativas”.
12. Capitalismo. A edição portuguesa está pelas “ruas da amargura”. Sob a tutela dos interesses comerciais, de grupos editoriais desligados da cultura (e, porque multinacionais, do contexto nacional). E esmagada pela pressão oligopolista dos grandes potentados livreiros, também eles apenas virados ao lucro. Assim se apaga a hipótese da edição ensaística e apenas subsiste a chamada “literatura leve”, a capa brilhante, o conteúdo inexistente, a forma “plana” – em particular expressa nos registos da “exo-ajuda” e do chamado “romance histórico”.
Prova dessa superficialização produzida nas grandes superfícies encontro-a na FNAC do Chiado, chego à secção dos livros e deparo-me com o primeiro escaparate – aquele que me recebe e me despedirá, dentro de algum tempo, portanto o que mais apelará à aquisição. Uma das faces para a literatura nacional (prosa) considerada relevante (os peixotos, cachapas, saramagos, lobos antunes, tordos e torgas e isso). A outra face de prosa estrangeira, e não resisti a transcrevê-la, para aqui comprovar o “estado da arte” a que se chegou, do esmagamento cultural por via do comércio (do capitalismo, por assim dizer). São 18 colunas, cada qual com quatro livros, novas edições (traduções) ou recentes reedições. Por mim recenseadas, como denúncia. Apresento apenas os autores, para economia de ma-schamba. Eis então o painel do escaparate melhor situado:
1. Bernhard; Bernhard; Mishima; Mishima. 2. Beckett; Walser; Walser; Mme Lafayette. 3. Hesse; Hesse; Jane Austen; Jane Austen. 4. Hemingway, Dumas, Diderot, Dickens. 5. Iris Murdoch, Iris Murdoch, Rilke, Colette. 6. Susan Sontag, V. Wolff, V. Wolff, Lampedusa. 7. Thoreau, Flannery O’Connor, Orwell, Orwell. 8. Maugham, Mann, Beckett, Mailer. 9. Daphne du Maurier, Céline, Saint-Exupery, Walty. 10. Flaubert, Yourcenar, Yourcenar, Hsek (?). 11. Kafka (X4). 12. Aitmatov, Kafka (X3). 13. Jack London, Boris Vian, Victor Hugo, Lautréamont. 14. Proust, Proust, Calvino, Calvino. 15. Calvino (X4). 16. Calvino, Pasternak ,Turgueneev, Gogol. 17. Tolstoi, Zweig, Svevo, Bulgakov. 18. Dostoievski, Dostoievski, Lidmila Ulitsvaia (?, será assim?, não conheço), E. Waugh.
Lastimável. Esta prática comercial, esta subjugação editorial. O primado da mediocridade. Efeitos, necessários entenda-se, do capitalismo. Vil.
13. O Charme Discreto da Burguesia. Olivais-Sul, Lisboa, Dezembro de 2009.
14. Império. A Ler (nº 86, Dezembro de 2009), coluna “Booktailoring”, de Paulo Ferreira e Nuno Seabra Lopes. Procurando um registo cómico em futebolês (o dia em que os humoristas escreverem em raguebês ou golfês será bem arejado…) o texto ”Um jogo entre linhas“ que aponta os “jogadores mais influentes do mercado editorial português em 2009“. Não vou discutir os critérios. Apenas o eco da minha reacção: “tenho que ter cuidado, pareço da patrulha ideológica“, resmungo-me. Pois na “selecção nacional” deles lá estão o Agualusa e o Mia Couto. Sim, eu sei que na selecção de futebol estão o Liedson, o Pepe e o Deco. Mas nesta, na literária, não há brasileiros. É, na cabeça dos humoristas, uma selecção portuguesa de Portugal, mas afinal uma transpiração da pobre lusofonia. Ou seja, e isto muito para além dos escritores em causa, da cabeça dos humoristas ninguém retira(ou) o Império. Nem na Ler… Absurdo. Mas um absurdo sintomático.
15. O jornal I é o melhor jornal nas bancas. Já no Verão passado me parecera tal. Agora confirmam-me tal alguns amigos. Alguns até acompanham a opinião com um “é de direita mas …”. Mas digo eu, que o vejo sem publicidade e oferecido nas bombas da Galp. Mau sinal? A ver se se aguenta …
16. Delícia. Inúmeras bancas de livros em saldo (aliás, monos), um “apelo às dádivas”. Nelas sempre se encontram exemplares desta bela colecção “Horas Extraordinárias” que o Independente foi publicando há alguns anos. Cada vez que em Lisboa lá carrego alguns. Agora é a vez (a 2,5 euros, imagine-se) de adquirir este saborosíssimo “Bilhetes de Colares de A.B. Kotter (1993-1998)“, “porventura” de José Cutileiro. Obrigatório regressar a esta Quinta da Beldroega, sita na Várzea de Colares, seus habitantes e visitantes, ponto máximo de observação deste país. Pelo olhar-mestre do Senhor Doutor Kotter, traduzido pelo ex-comando J. Fonseca, fiel à máxima de que “Como a leitora sabe, eu nunca me imiscuo na política deste maravilhoso país que tão generosamente me acolhe no seu seio. Não cabe a um estrangeiro fazê-lo; menos ainda a um estrangeiro sem razões de queixa.” (66). Ainda que com ele se possa discordar, por vezes, como aqui: “Já tentei explicar-lhe que o snobismo não é tão mau como parece porque, vistas bem as coisas, sempre é o contrário da inveja…”. Discordância que, se seguida, levaria por caminhos muito diversos. Mas mais do que a justificar a corrida aos monos…
17. Política. Nenhum dos meus amigos – desses que cada vez menos encontro -, nenhum dos meus familiares, nenhum dos teclistas lidos in illo tempore, enfim nenhum desses que tanto vituperaram (vituperámos) o “fontismo” cansado, travestido de “desenvolvimento”, do primeiro-ministro Cavaco Silva tem agora uma palavra irritada contra o proto-fontismo de José Socrates. Mas para quê falar, se é para falar encastrado?
18. Jonhy Lyndon (ex-Rotten). Amália. Coração Independente (no CCB). Não sou um amaliano, ainda que nela possa actualizar (reconheço, até acabrunhado) a expressão “de ir às lágrimas”. Pois ainda que não o seja (amaliano) saí preenchido da exposição. Para logo quem ali a meu lado me iluminar, como sempre na vida, num até desdenhoso “não aprendi nada”. E é isso, saio do amalianismo (no meu caso amador) e constato, a exposição não é um diálogo com Amália, é uma missa (certo, a haver divindade que seja ela), apenas uma missa. Ela adoraria. Mas está morta, não haverá outra forma de ser olhada?
Depois o tal diálogo com a mulher, a personagem, a artista, o mito - que se pretenderia? – é atirado para um “posfácio”, de arte contemporânea. Nesse pacote, mas que assim surge externo, in-dialogante, um bailado (Ana Rito) muito interessante, a peça de Joana Vasconcelos também. E uma instalação visual óptima de Bruno de Almeida. Mas mesclado com coisas-obras a parecerem modismo para “espantar a classe média baixa”. Francamente, não há paciência para quem atira um xaile para o chão e diz “arte!”. Olhar um cilindro branco com espelho atrás, “um artista (Amália) solitário no palco”. Em 2009? Ali tanta ruptura, tanta inovação como o busto realista atrás apresentado (Joaquim Valente), coisa de meados de XX, que foi muito ao gosto da representada. Honestamente uma desilusão. Pelo auto-centramento da exposição, que se pretende encantória. E pela tralha avulsa que se lhe colou à maneira de olhar actual – com as excepções referidas. Sempre me convenço que o epíteto “contemporâneo” faz eclipsar o espírito crítico, analítico. Cilindros brancos, mesas luz com banheiras coloridas, peças atiradas no chão. Hoje?
Coisas que sempre me fazem lembrar aquela entrevista do Jonhy Lyndon (ainda Rotten?) ao Philippe Manoeuvre, publicada na Rock & Folk cerca de 1982. Dizia o Rotten: “ser punk em 1980 é igual a ser hippie em 1976″… Xailes no chão?!
19. Sahara Ocidental. Uma militante esteve em greve de fome defendendo a causa do Sahara Ocidental, protestando contra a ocupação marroquina. A representação diplomática de Rabat em Lisboa concedeu uma entrevista ao jornal “i”, anunciando que Marrocos é “o polícia da Europa”. O silêncio europeu face à ocupação colonial do Sahara Ocidental passa por esta “política real”. Confesso que nada sei sobre a situação efectiva na região (no país, por outras palavras), acredito até que o terrível fundamentalismo “alqaediano” seja um papão agitado por Marrocos para colher o apoio à sua velha expansão – como os leitores saberão ninguém falava de Al Qaeda e muito poucos falavam de “fundamentalismo”/”integrismo” islâmico quando Marrocos procedeu à ilegal anexação daquele território. Ou o seu inverso.
Mas enfim, são contas do difícil e imbrincado rosário da história. A mim interessa-me a reacção em Portugal. Nos jornais e na TV, nas conversas, ninguém ecoa a posição do Estado - o qual desde o governo Socrates assumiu a posição mais próxima da política colonial marroquino. É óbvio que o “distante” assunto a ninguém interessará, Marrocos está nos confins, parece-me até antípoda. À esquerda ninguém diz nada, nem mesmo o BE, onde Marrocos será quanto muito o locus de umas ganzas a legalizar, que isso dos princípios é uma canseira. O PCP silencia, mas é óbvio: para um partido sempre ao lado dos poderes coloniais e dos regimes monárquicos não se deveria esperar uma interrogação sobre a política diplomática portuguesa nesta questão. Ninguém questiona a questão. O fait-divers da senhora à fome acabou, entretanto o escritor José Saramago foi lá apoiar (à revelia do seu partido, à revelia de António Costa, o socialista de quem é apoiante) porque é uma ”causa justa” e pronto. Aliás, prontos …
20.Excelência. No canal Mezzo (que pena não haver em Maputo) um fantástico programa sobre Rafael Campallo, bailarino que desconhecia. Grande, grande …
21. O Antigo Regime. O álbum, merecido, celebrando o centenário da Escola Secundária de Camões (ex-Liceu Camões). Ainda que me arrepie sempre que ouço loas ao dito liceu (apesar dele próprio). Que é sempre agitado como se ícone dos “bons tempos” em que havia cultura, e educação que a sustentasse e reproduzisse, em Portugal. Ou seja, antes do povo estudar e, até, gerar professores. Tudo isso em discursos de ”progressistas”, até gente oposicionista germinada no velho Liceu – mas que verdade, verdadinha, suspira por trechos do dr. Salazar, em particular aquele de que ao povo basta ensinar a contar e a assinar. Quebrado isso ficámos como estamos. Que “eles” até a “doutores” vão.
22. A desistência. Visito, acompanhando uma ínclita comitiva, a exposição do fotógrafo Korda. Celebrizado pela iconográfica fotografia de Ernesto Guevara, de sua autoria. Muito interessante, pelo que demonstra da produção do culto de personalidade do ditador comunista Fidel Castro, do qual Korda foi acompanhante durante a década de 1960s. Fantástica a sua entrevista, a forma como glorifica o próprio Ernesto Guevara, um absoluto contrasenso (assista-se às suas declarações, elogiando a “punição” que Guevara lhe fez).
Fidel Castro como ícone, até bíblico. A mão na terra produtiva, a pegada de Fidel, o seu “gigantismo”. A sua beleza sensual. Fascinante, como interpretável. Como produto e produtor de fascínio.
Certo que se Korda fosse eslavo ou han teria tido problemas, acusações de “cosmopolitismo” (como aventou um amigo meu) não lhe faltariam. Basta ver esta fotografia, onde duas presumíveis beldades, até lânguidas, escutam no escuro as palavras solarengas do comandante, deixando imaginar outras prédicas, mais íntimas. Coisas deste discurso construtor do “fidelismo”, de Fidel Castro, muito dadas ao tom local, mas também à específica característica de Korda.
Mas para além dos seus méritos estéticos e jornalísticos surpreende que esta exposição, demonstrativa da arte glorificadora de Korda, que surge sob tutela da também estatal Casa da América Latina num espaço também estatal (Cordoaria Nacional), seja apresentada sem qualquer contextualização distanciada, sem referência enquadradora. Nada nos textos que a acompanham, talvez (mas desconfio que não) no catálogo – que muito presumivelmente será apenas encomiástico. Espantosa desistência. Dias passados comento esta minha estranheza numa mesa polvilhada de académicos, a nenhum pareceu estranha tamanha distracção “fidelista”, obviamente significante. Nem mesmo quando lhes disse ser Korda um pouco a Leni Riefenstahl do regime cubano, ou que diante de qualquer produtor de mitos e ícones se presume criar distância cognitiva, não apenas fascínio e adesão – coisas que tão bem “sabem” para outros casos. Um simpaticíssimo alto quadro do ministério da Cultura, ali entre variados acepipes, rematou que “a exposição é daquelas que se recebem”. E pronto! Desistência, pura e simples. E a gente assiste.
23. A gravata. Penso que foi no jornal “Sol”, uma pequena nota irónica sobre Francisco Louçã. Que o coordenador do BE aportara no parlamento usando gravata, ao contrário do seu significante traje político, esse que reclama dessassombro (e, claro, posição de classe). Para logo nos “sossegar”, afinal era apenas o dia em que o deputado cumpria provas públicas académicas e nesse campo fazia questão de cumprir as normas de vestuário. Passa tudo num sorriso, as pessoas dirão que é do espectro das decisões pessoais, etc. Mas este pequeno episódio, o respeito pela gravatinha no seio da corporação profissional ao invés da liberdade encenada no traje política, este pequeno episódio mostra bem a hipocrisia do senhor professor. O corporativismo fala mais alto, em maquilhagem de pequena-burguesia.
24. O escritor de escaparate. Já no pós-Natal mas ainda a caminho de mais uma comensalidade pantagruélica. No rádio do carro, enquanto subimos ali em Monsanto, capta-se uma conversa com escritor – desses que está em todos os escaparates natalícios, diga-se. Diz ele, face a pergunta da radiofónica voz: “a literatura é o que tem que ser!”. Abismado com tanta profundidade aumento um pouco o volume, para ouvir no que aquilo irá dar, e logo ouço mais uma pergunta “V. disse no seu blog que a literatura portuguesa não é apoiada pelas livrarias. Que vontade de escrever isso lhe dá?”, ao que responde o escritor, voz arrastada, sofrida, ”Nenhuma“. A meu lado, enfastiada, a senhora pergunta-me “queres ouvir isto?” e eu, mais assim como eu, logo riposto: “tira essa merda!”.
25. Envelhecimento. Ligo o carro e na rádio reconheço os acordes da “Fanfarra para um homem comum” e logo surge a “You can’t always get what you want” dos Stones. Elevo, e bem, o som e segue a canção-ícone, rock-barro da minha gente. Acto contínuo a bela rapariga a meu lado põe-me na boca …. uma castanha assada.
26. Tetro, de Coppola, é um soberbo, lindíssimo, filme sobre Buenos Aires. Fantástico. A história é um pastel, a deriva patagónica um must de pirosice. Convém ver. Mas sem som nem legendas.
27. Cardinalice. O Cardeal de Lisboa invectiva a “indiferença, agnosticismo e ateísmo” na sua homilia natalícia. Interrogo-me onde vai ele buscar essa ideia da igualdade entre “indiferença” e “ateísmo”. Que ”indiferença”? A prática, a ética, a solidária, a reflexiva? Um argumento vácuo, inaceitável, e que não cola com a imagem de profundidade intelectual que Policarpo sempre apresentou. Sem rodeios, é uma parvoíce ao nível daqueles que reduzem a igreja católica a fogueiras da inquisição e a erecções pedófilas. José Policarpo tem o direito (em determinada acepção terá até o dever) de combater o ateísmo e o agnosticismo. Mas tem toda a obrigação de matizar as suas argumentações e invectivas. E exactamente quando a sociedade presta homenagem a Manuel Clemente, bispo do Porto, enquanto homem de cultura elogiando-lhe a fina análise. Um deslize cardinalício, ao invés do momento vivido. A colher, claro, o silêncio do comum …
28. Homem em Fúria, de Tony Scott, competente filme de TV. Seria uma excelente peça de cinema de samurai, acho, não fosse o seguidismo ao paradigma psicologista, assim desvanecendo a profundidade abissal do protagonista. Um diálogo excelente: “Velho: Na igreja dizem que devemos perdoar; Creasy (Denzel Washington): Perdoar-lhes é com Deus. O meu trabalho é proporcionar-lhes o encontro.”
29. Acordo Ortográfico. ORecord é o jornal que logo aderiu ao Acordo Ortográfico. Se dúvida houvesse sobre o substrato intelectual desta parvoíce provinciana a entusiasmada adesão de tão pobre jornal cessa qualquer hipótese de dúvida. Eduardo Pitta acha que os detractores do Acordo Ortográfico são “encenadores” que dão pontapés na gramática, e com ele concorda Filipe Nunes Vicente, outro grande-bloguista. Recordo que as maiores polémicas neste ma-schamba vieram desses meus actos pontapeadores e, envergonhado, lamento-os bem como à falência das minhas tentativas teatrais. Vou ali ler o Record – pode ser que por lá me expliquem que esta deriva homográfica lusófona nada tem a ver com um fundo tonto de apelo à gesta da “presença” e “expansão” da língua portuguesa, que nada tem a ver com a inexistência de verdadeira reflexão económica sobre os seus futuros resultados para a edição internacional em português (mas apenas em “desejos pensantes”), que nada tem a ver com a tonta e iletrada ideia feita da distinção radical entre a fala e a escrita (a “escrita é uma convenção” dizem os imbecis, convictos que a fala, em última análise, não o é; a “grafia não influencia a fala”, dizem “professores” sem perceberem que assim invalidam a sua tarefa).
Bem, pelo menos parece o Miguel Veloso marcou um golo e diz-se que vai para a Fiorentina ou Barcelona, e o jornal deve falar disso …
30. Decadência Nacional. Cada vez mais difícil, talvez até mesmo impossível, encontrar uma “bica” (aliás, “café”, “expresso”, “italiana”) decente. Os estabelecimentos comerciais especializaram-se em servir zurrapas. Café Chinês?
31. Família. Em dois dias seguidos dois artigos interessantes, os de Miguel Pacheco, “Não São Sermões Sobre a Vida Íntima e Martim Avillez de Figueiredo, sobre a questão da “família”. Em ambos choco com este meu preconceito, o de que o discurso jornalístico aparece mais superficial do que o académico ou de reclamação intelectual. É aqui o inverso, total. Pois em ambos é explícita a ideia, ao contrário dos discursos dominantes, da necessidade e da virtude da família. Ultrapassando as velhas querelas hiper-liberais e hiper-marxistas, da família como local agente de repressão e reprodutor da exploração, do maléfico Pai-Padrasto Castrador e da malvada Mãe-Madrasta Castrada Castradora, do discurso da libertação do sacrossanto indivíduo face às algemas comunitário-familiares, da ultrapassagem da repressão por via do sacrossanto Estado-sociedade, local de protecção, produção e reprodução. Afinal instituição virtuosa, falível claro, de produção e interacção de valores sociais.
Há quem chame a isto conservadorismo. Lembra-me o Jonhy Rotten (já Lyndon?): “ser punk em 1980 …” (onde é que eu já li isto? …).
32. Frases feitas? Um repasto, entre antropólogos e excelsas iguarias, no caminho entre enchidos fidedignos, sopa de rabo-de-boi, conduto incomensurável, doçaria relevante, reservas variadas e vintages culminantes. Algo a que, ali, estou há décadas habituado. Com emigrantes à mesa a conversa passa ao “estado do país”, claro. Donde ao casamento homossexual, que o resto foi resumido, como sempre, num “isto está mau” – mas que ninguém interprete este condicionamento do discurso popular como uma estratégia do governo, que é de esquerda, donde bom. Pessoa que há décadas muito me é querida e também minha mestra nas coisas antropológicas, talvez até causa quase-única desta minha formação, remata-me “O casamento é um contrato entre dois indivíduos“. Vacilo, e partirei destruído para casa. Pois se vindo de quem vem aquele libelo individualista … tudo aquilo que estudei, da reprodução estratégica de laços de filiação e de descendência, de articulação entre grupos sociais, de transferência de património (em sentido lato), de composição e recomposição familiar, tudo isso para onde foi, o que era? Nada, afinal a nossa sociedade é apenas um campo onde interagem indivíduos, livres, racional e radicalmente autónomos que contratualizam. Virtuosamente.
Vindo de quem vem? Já no carro, ao volante, entre a azia silenciosa e a flatulência reprimida, constato-me duas décadas de vida profissional enganada. Novo ano que aí vem – e até já veio – exige-me pois vida nova, profissão nova. Pois se a outra, a da até agora, inexiste afinal. Não dormirei, e desde então a insónia constante. Para onde ir? Que fazer? Ou antes, com que indivíduos contratualizar?
33. Ideias Feitas?. “À mesa, entre antropólogos e excelsas iguarias, no caminho entre enchidos fidedignos, sopa de rabo-de-boi, conduto incomensurável, doçaria relevante, reservas variadas e vintages culminantes. Algo a que, ali, estou há décadas habituado. Com emigrantes à mesa a conversa passa ao “estado do país”, claro. Donde ao casamento homossexual – que o resto foi resumido, como sempre, num “isto está mau” – mas que ninguém interprete este condicionamento do discurso popular como uma estratégia do governo, que é de esquerda, donde bom. Pessoa [outra] que há décadas muito me é querida, e também minha mestra nas coisas antropológicas, talvez até causa quase-única desta minha formação” [in blog ma-schamba, post "(N)A "Pátria Amada" (ponto 32)], explica-me, simpática e até solidária com as minhas falhas de formação (e tantas ela colmatou nos bons velhos tempos), a diferença entre o matrimónio religioso, de vínculo indissolúvel, e o casamento civil, coisa moderna e passível de ser dissolvido. Por opção própria, por economia de discurso, não lhe dá nenhum enquadramento de história institucional, mas não posso aprender tudo no mesmo dia. Estava eu, portanto, a ouvir pela enésima vez esta profunda argumentação – e ainda não tínhamos chegado à questão das sufragistas, mas haveríamos de lá aportar – quando um conviva comensal rematou, glorioso: “vínculo indissolúvel?! Ah, mas isso é o que defendem os sindicalistas!! Afinal são iguais, a Igreja e os Sindicatos“.
Um vintage, este meu amigo, há décadas que vai vintage! Pena é que não meu mestre …
34. O cadáver da Antropologia. Ao sábado ouvir Bach na Gulbenkian, ao domingo Haydn no CCB. Para além do encantamento da música – um registo em que me perco completamente, por falta de capacidade interpretativa, uma delícia – deixo-me, como sempre, a “olhar” público e músicos. Olhar esta disciplina, que faz milhares de músicos aprenderem a reproduzir e interpretar partituras de tons e sons velhas de séculos, atentos às suas diversas matizes, e ainda, até, criando-lhes novas formas. Disciplina que passam a milhares e até milhões de ouvintes, que vão sendo treinados a escutar (alguns até a entender). Disciplina essa a qual poderá ser chamada “civilização”, forma vasta de controle, molde gigantesco de sentir e ser. É um fim-de-semana bom para isso, isto de partilhar espaço civilizacional com patrícios relativamente diversos – nas formas do saberem os seus corpos, de controlarem tosses, espirros, flatulências, agitações, sentimentos, amores, aplausos. Mais “burgueses” à Praça de Espanha, mais “populares” (menos “cívicos”, menos ”civilizados”) em Belém, que tudo isto é um processo longo de aprender.
Mas de repente, ali a meio da Criação, de Haydn, entre tosses múltiplas e aplausos fora-de-tempo no seio dos ainda algo in-disciplinados, lembro-me da minha queridíssima amiga e mestra. Que é isso? Questionar-me sim, mas apenas sobre as contratualizações que ali nos uniam. Nada mais há a questionar, a inquirir. Paguei bilhete, é o meu contrato. Outros pagaram ainda impostos, é outro contrato. Todos comprámos produtos dos patrocinadores, mais contratos jurídicos. E basta, deixo-me a ouvir a música, incompreendendo. Feliz.
35. A cremação da dita e ainda das suas primas. O Jornal de Letras, já institucional presença. Tem defeitos, mas é melhor que exista. Muito estatal, no ponto de vista, nas formas de associação e financiamento. Também por isso local dos sinais dos tempos. Na última edição (nº 1024) vários artigos sobre a década agora terminada, “dez anos de letras, artes e ideias“. Extensas indexações de poesia e prosa literária, artes plásticas, música erudita e pop, cinema, dança e teatro. Ambiente, ensaio e ideias (sobre estas dois textos) também. Não discuto os critérios, gente sábia a escrever. Mas surge-me questão. No mundo das “ideias” ainda há referência para uma ciência social, a História. Até par as sua versão história intelectual (já agora, saúdo as referências a obras que me são bem queridas, “História do Pensamento Filosófico Português”, coordenada por Pedro Calafate, “Portugal Extemporâneo” de Carlos Leone). Depois … Eduardo Lourenço, mais alguns ensaios, o “Portugal Medo de Existir” (“os portugueses são …”).
Entenda-se, dois artigos sobre “ideias”, um sobre “ensaios”. Nem uma referência a trabalhos portugueses de Antropologia, de Sociologia, de Psicologia, de Geografia, de Linguística, de … olhando bem nem de Economia, nem tampouco de outra área de investigação. Ideias durante a década? Ideias sobre Portugal e sobre o mundo? Nada a referir. [Vou escrevendo e pensando que sobre Ciências Exactas/Naturais idem, idem. Mas haverá ideias aí?, dirão os especialistas do JL].
É o Jornal de Letras! Sinais dos tempos? Claro, como comprovei nesta minha deslocação.
36. Inhambane. Para lá sigo. Intentando, entre sol e calma, encontrar um novo rumo. Entenda-se, novos contratos. Apenas jurídicos, claro.
Apeteceu-me hoje deixar uma pergunta aqui aos leitores da maschamba, na esperança de finalmente ser iluminada.
Andei aqui há uns anos pelo Mali, país absolutamente mágico e de gentes afáveis e hospitaleiras. Viajei pelas suas diferentes regiões e, claro, pelo País Dogon, que parece quase um museu vivo etnográfico. Apetece-se ficar por lá, escondido do tempo. Todas as aldeias que visitei apresentavam, num local mais ou menos central, uma estrutura construída por grandes lajes sobrepostas que a elevam do chão e com uma cobertura espessa de ramos e palha assente em pilares de pedras empilhadas. Estas estruturas são o ponto fulcral das aldeias. É lá que geralmente se encontra o chefe da aldeia; é lá que os homens se reúnem para conversar, jogar, debater questões relevantes para a comunidade e aconselhar-se com os mais idosos ou com o chefe da aldeia. Há-os simples e há os pesadamente ornamentados. As mulheres têm as suas casas próprias de que falarei num outro post aqui na maschamba.
É um local muito aprazível. O chão de laje, amaciado por anos de uso, é fresco e convidativo. Geralmente, uma das lajes tem as cavidades necessárias para se jogar o que na Ásia se chama mancala e de que não me lembro agora os diversos nomes já ouvidos em África (shame on you AL!!!). Trata-se de um jogo que já vi jogar (e joguei) em diversas partes do mundo; umas vezes com tábua própria, outras vezes com simples covinhas feitas no chão, que vão sendo enchidas e esvaziadas de pedrinhas, conchas, sementes… As regras variam de sítio para sítio, mas o objectivo geralmente é “comer” as peças do adversário.
A cobertura da estrutura é geralmente muito espessa e protege do sol e do calor; a ausência de paredes permite uma ventilação desimpedida; o pé direito destas estruturas é pouco mais de 1 metro. Pensei que fazia sentido, pois o tecto baixo impedia a incidência dos raios solares, proporcionando uma sombra maior. Até que um dos velhos numa aldeia me explicou educadamente que não teria sido isso que se tinha em mente. Disse-me ele não ser este um espaço para pressas, para um entra e sai desarvorado. Ter que entrar agachado e permanecer sentado lembra a quem chega que ali se fala, mas também se ouve. E com tempo! Mais ainda, sendo a estrutura um espaço de debate para questões importantes da aldeia e sendo a natureza humana aquilo que é, espera-se que durante esses debates os ânimos se exaltem. E, pessoas exaltadas tendem a levantar-se e a gesticular. Sempre que tal acontece o exaltado bate invariavelmente com a cabeça no tecto, acalmando assim de imediato os ânimos. Nada de dizer bojardas e sair porta fora, não senhor!
Agora vem a parte que mais me espantou. O nome destas estruturas é toguna ou casa-palavra. Assim, tal e qual, no mais puro português. Nome que nem sequer sofria de qualquer abastardamento da pronúncia francesa, língua oficial do Mali. Nada de cásá-pálavrá, mas sim cása-palávra com a fonética portuguesa toda no sítio devido. Intriguei-me, perguntei de onde viria tal nome e ninguém me soube dizer. Nem no Museu Nacional em Bamako consegui encontrar explicação. Já “googlei” o nome e nada! Será que algum dos leitores do maschamba me consegue esclarecer?
Já há 10 anos. Então a gigantesca onda de desvairo lisboeta – um desvairo que se queria estratégico, ainda para mais -, mal-educado e desonesto, iletrado e inculto, socialista e nepotista (coisas todas que agora afinal blogo-elogiadas como “lendas vivas”, que não há limite para desvergonha dos blogo-intelectuais “orgânicos”), esse desvairo todo junto, e por caminhos oblíquos pois “deus escreve X por linhas tortas”, trouxe os Xutos a Maputo. Lembro, lembrarei, o meu acabrunho radical de então (“como é isto possível?” face à filhadaputice feita norma, feita futura “lenda viva” – que um tipo aos 30 anos, que um tipo aos 45 anos, ainda não acredita que não haja limites para o esterco humano). E lembro como o tal acabrunhado jpt o deixou de estar: num grande jantar no mercado do peixe, a Isabel R. organizadora, com o Vitorino a cozinhar uma bela de uma massada de peixe, o jpt a oferecer os bebes e os comes, o Sérgio Godinho a conversar como um senhor (interessado) que é, os X a serem banda rock on the road, o pessoal em massa à mesa, e a Princesa de Pemba a oferecer uma fantástica festa em sua casa, ali à Malhangalene. E no dia seguinte, muito me lembro, post-acabrunhado, de estar na FACIM a ver os X – estava lá o meu chefe fantástico, inesquecível que é, (e o seu filho). Fugindo eu para a segunda fila, de pé face ao palco, ali ao lado do inconfundível Hernâni, nós os únicos de X bem ao alto – “vi-te lá na frente“, haveria de dizer o Kalu no “atrásdopalco” onde o desvairo já nem estava, que “fino” sempre acha ser, só os “X”.
Já há dez anos, tão já, mas também tão depois do “1 de Agosto de 1984″ no “rock rendez-vous” e tantas outras vezes. Já há dez anos mas ainda então, já então, a aprender que “Todas as tuas explosões redundam em silêncio“.
Os mais novos nem devem conseguir imaginar como era. Tempos em que não só não havia computadores portáteis como também não havia internet – disponível, claro, que a invenção ocorrera algures. Nem tampouco telemóveis. Os correios não funcionavam (como hoje não funcionam, diga-se), os telefones fixos eram de ligação via operadora (e não funcionavam). Estar longe era mesmo estar longe.
Será preciso dizer que ideias de mp3 ou similares eram ficção científica. Era tempo de CDs e, ainda, cassetes. No natal de 94, em Pemba, no Viking no Desportivo, o Bagorro (estará vivo?) gravou-me, a pedido, insistente, uma cassete com estas duas músicas, roufenhas ficaram, desci à baixa da cidade, aquele calor de abrasar o parco caminho, a ter que subir aquelas escadas de volta à alta, não só ao Desportivo do shiva, do soares, do viking, mas também ao prédio dos búlgaros onde me aboletara a convite do Grande Engenheiro de Pemba, lá fui aos correios da baixa enviar a dita cassete. Uns tempos depois foi recebida na longínqua Lisboa e incompreendida (“está maluco” causou o kitsch ali inscrito, inacessíveis que eram os mata-bichos de rum e sanduíches de ovo, matizados a castle morna, corolários de loucas madrugadas). Fica aqui a memória dessa perdida cassete …. porque o piroso está sempre, apenas, nos pirosos.
Será influência do carro, velho musso amassado, riscado, já deficitário de bem visíveis artefactos. Talvez da roupa, claro, as gangas puídas, as camisas usadas, mesmo que ainda não passajadas. E o ar, um perfil amarrotado tal e qual o estado das vestes, a cara devastada, quiçá condizente com o coração que a persegue. E ainda o ser ali já hábito, diário até, sempre nestes propósitos. Tudo isso justificará o chegar-se às vizinhanças do prédio polana, os arrumadores a acorrerem, um deles, o mais próximo, solícito no “arruma aqui, aqui“, o outro mais adiante, entre batiks, a chamar, “maguerre“, “oh maguerre, aqui é melhor“, compete pela moeda mas sabe-se em desvantagem, mais longe que está, é pois mais do que isso toda aquela sua insistência, “maguerre, vem para aqui…tem lugar para ti, maguerre“, uma provocação a pôr tudo aquilo em causa, quem sabe?.
O português arruma o carro, enquanto tira a moeda para o mais próximo, olha aquele outro que se aproxima, em despreocupado registo cara-de-pau. Hesita, sei que está a interpretar o sentido, adivinho-lhe até alguma (auto)ironia. Mas, por que não?, irrito-me: “V. está-me a faltar ao respeito! Eu conheço-o de algum lado?!”, armo-me de mais velho. O arrumador surpreende-se, ar traquinas, até põe a mão na boca, o colega finge “você. não tem respeito aqui pelo amigo?”. E eu avanço, sei que ridículo, agora maguerrizado. Em definitivo?
Está a decorrer bem, bastante gente, vários conhecidos e até amigos, conversa-se, arranco-me sorrisos que não são falsos, os canapés estão agradáveis, o vinho tinto não morde a língua e ainda menos a garganta. Intelectuais, não exactamente orgânicos, e seu público. O microfone, que ali esperou algum tempo, é ocupado pelas palavras, as primeiras de circunstância as seguintes afixando conteúdo. Avançando um pouco chega a crítica ao silêncio dos intelectuais americanos, incapazes de afrontarem o surto patrioteiro que por lá grassa, inexistentes na oposição à guerra do Iraque – saúda-se a excepção de Chomsky, mas esse, lamenta-se, ausente do espaço mediático. De resto uma inexistência intelectual que por lá grassa. Depois contrasta-se tal situação com a China, sociedade onde no seu espaço [entenda-se bem, no seu espaço] os intelectuais se podem exprimir livremente sobre o real.
Ouço. Olho à volta para confirmar o que ouvi. A meu lado o meu amigo nem pestaneja, hierático como o venho conhecendo. Atrás de mim as caras nada reagem, entre o concordantes e (sonho?) o distraídas. Recuo até ao balcão, bebo em dois tragos um copo de vinho (esse mesmo, o que não morde). Antes de voltar ao meu sítio de peão bebo, rápido, mais dois copos. Sinto-me, como talvez nunca em Moçambique me terei sentido, estrangeiro. “Um Estranho em Terra Estranha”, recordarei em balcão vizinho uma hora depois, entre gente que nem atentou.
Este homem passa décadas a ler isso da epistemologia, da metodologia. Mas não aprendo. As leituras não me resolvem a dúvida: um tipo desonesto com quem contacta, que aldraba a empiria que o rodeia, poderá ter análises sociais válidas? Um tipo que rouba o vizinho não manipulará, obrigatoriamente, o real (a amostra, se for disso caso) para embelezar as conclusões, arredondá-las ao gosto do freguês?
Gosto da indução, assente em minudências, ajuda a pensar, evita as grandes teorias [Grandes Narrrativas, chamaram-lhes]. Nisto lembro sempre um ilustre, para aí há uma década. Uma semana de trabalho bem paga, mais estadia e pocket money. Por inerência acompanhei-o, almoço e jantar, jantar e almoço, almoço e jantar. Nem uma menção de ir à carteira. Eu, até envergonhado com aquilo, a pagar do meu bolso. No fim, finalmente, segue para Mavalane. E eu a passar pelo hotel para que o recepcionista me avise, até atrapalhado: “doutor, tem uma conta no bar em seu nome” “O quê?”, “pois, aquele hóspede disse que o doutor viria pagar“, uma coisa de 60 dolares, uns whiskies com os amigos, o teixeira – que nem ali esteve – que os pagasse. Paguei, claro, tamanho o nojo. Académico.
Será isto o tal ponto de vista hermenêutico? Deste lamaçal sairão boas análises, a ler e ouvir?
À Mtomoni, o meu dealer habitual. Na entrada anunciam-me um carregamento de vinho chileno. Impingem-mo, diga-se. Uma marca em particular, ao que parece mui louvada pelos clientes chilenos que ali têm acorrido. Torço o nariz pois com aquele preço até o BomBarril deve brilhar na comparação. Vence-me a curiosidade folclórica, escolho uma outra de tinto. Junto-lhe meia dúzia de cervejas (está um calor de abacaxis) e uma caixote (18 litros) da melhor água do mundo. Avanço para a caixa registadora e, em sorriso, aviso “espero que o vinho seja bom, custa-me o mesmo que 18 litros de água“, 10 euros a garrafa, 10 euros a caixa. Risos do outro lado, “mais vale beber o vinho“, estamos de acordo …
Avanço para o carro, já estou a telefonar, desafio amigos para nos sentarmos diante de um queijo a experimentar este vinhol e a associá-lo a outros, se para isso avançar o palato. Mas deixo-me pensar, gasto – e sem qualquer problema moral, diga-se – num garrafa de vinho (e barata, relativamente barata) o mesmo que em 18 litros de água importada. Sei lá porquê lembro que tanto trabalho com gente sem água, que se borra até ao sangue com a merda da água que bebe, que calcorreia kms diários para o bidon de água, crianças esmagadas sob litros desse barro, velhas a tropegarem nisso, e eu anteontem com Manjate em Cafumbe, nem a 10 kms da capital de distrito, em entrevista matinal com 8 mulheres e uma outra a entrar aos gritos no quintal, vem agora do curandeiro, do citewe dela só percebo o pranto desabrido, o “maman” tão repetido, roja-se no chão desalvorada, a dor desarticulando-a, vem agora do curandeiro, que o menino dela já não é de oiro, o intérprete interpreta, ela arrepanha-se em gritos (“fatalismo”? não me venham com “fatalismos” caralho!!), lamenta, lamenta, lamenta ”era o meu filho, era o meu filho, com quem vou brincar agora?!”, que tinha começado com diarreia na véspera e agora, agora mesmo, logo pela manhã, sem avisar nem se esperar morrera-se na cabana do curandeiro. Saio da machessa, do quintal, os intérpretes preocupados, “a entrevista está estragada!?” e eu “que se foda a entrevista!”, vou andar a fumar, andar no falso mato até me virem chamar, que não gosto que me vejam assim, e mais a puta da cólera, a merda da água, por todo o lado a merda da água.
Estou aqui, fumo também, o vinho chileno será uma zurrapa, 370 paus, os 18 litros de água nem tanto. Enquanto já guio para casa e vou a pensar nos luckys lukes da imputação, franciscanos latinos vermelhos, puritanos escandinavos rosas, entristecidos austrais já sem cor, todos esses que vêm o mal nas diferenças, não me vou por a falar de Veblen, nem da economia política da corrupção do Elísio Macamo – com o qual não concordo em muito, mas pelo menos está a pensar para além da moralzita da catequese. Repito, estou farto de lucky lukes da crítica – dedo em riste no mal dos outros, no mal do Belo Horizonte, no mal do 4X4, no mal do Bilene, no mal das barrigas lustrosas, no mal de tudo o que não têm e até teriam e, tantas vezes, no mal do que também têm. Enquanto bebem água (até a porcaria da Namaacha, se for preciso), enquanto bebem vinho (se o pastor deixar, claro). Assim entreparentizando-se do mundo – pois o mal é dos outros, o corrupto é o Outro, o barrigudo é o Outro, o bom é o povo do chapa, pobrezinho coitadinho, quase como eles – que também não são má gente – se não fossem tão desinstruídos.
Lucky Lukes entreparentizando-se do mundo para não acertarem na própria sombra. Que ao mal chamam Neilspruit ou Sommerschild B porque para eles é essa a fronteira, porque para eles é essa a diferença. Que ao mal resolvem como distinção – nem percebem que a distinção é outra, a “villa” é não se cagarem de sangue, e mesmo quando cagam é do hemorroidal ou do cancro do cólon. Que são eles os ricos, que têm água, mesmo da mineral – e vinho, até. São eles a fronteira, estão eles para além da fronteira, já milionários.
Há ricos e pobres? Há. Há “corruptos”? Há. A riqueza é má? Não (ai, ai, por muito que custe aos não absolutamente ricos). A “corrupção” é má? Não.
Alcatrão e penas … em cima de um carril. Para mim, claro.
Ele fez um blog – sempre tinha umas coisas para dizer … Texto em texto foi fazendo a sua rede, gente interligada nas entre-leituras, alguns elogios recolheu, uma ou outra polémica. Animou-se, nos apreços recolhidos, nos contadores ascendentes. Como de dia o trabalho foram-se as noites estendendo assim, até excitantes. Ela assistiu, de ínicio até curiosa daquele que nem (re)conhecia. Depois enfadada, nem tv o substituía. Nas noites decorridas recolhia-se, sorumbática, em leituras de leito. Depois cansou-se, em silêncio abriu um blog. Não tanto feminino, como outras, mas coisa mais romântica, ali poético, acolá esteta, as teclas a escorregarem os sentidos para o erótico leve, tudo isso sob o anonimato de pseudónimo, caro a uma senhora que se preze quando nessas lides. Veio a “linkar” o marido, até lhe surgiu nos comentários, quase atrevida, simpática, elogiosa. Daí à troca de e-mails foi rápido, dele a iniciativa, a imaginar alma gémea ou na sua busca, em sinceros agradecimentos. Para essa conversa desde logo transpôs ela os calores que lhe animavam o blog, e ele de degrau em degrau manteve o diálogo, em escalada de franquezas e desafios.
Hoje, dia dos namorados, jantam juntos. Cada um ao seu computador animam-se na excitação do chat. Assim infiéis.
Partida para o natal familiar, eu e filha em Mavalane, controle de bagagem de mão e restante quinquilharia. Raio X para trás e o polícia pergunta-me quanto dinheiro levo, “dois mil e tal meticais” digo, o simples do hábito e do sem nada a esconder. De imediato ele e o colega crispam as caras, pobres réplicas do Motumbela, num “venha ali para o canto“. Lá vamos, eu e a miúda, a qual nos seus cinco anos se assusta num “papi, o que é que foi?”. Ainda não foi nada, mas vão ser dois ou três minutos de mímica e conversa de chacha – eles, vigorosos, apontam para o cartaz aquele do limite de metical exportável (500 meticais) num “não pode levar o dinheiro, tem que o deixar“. Eu, de carteira na mão num “nem são dois mil, são dois mil e duzentos” – a dizer-lhes do formalismo deles, que 500 meticais foi limite para quando o metical valia bem mais, que agora não é grande quantia, que os meus dois mil e picos equivalem a 80 dolares (bem mais, já agora, do que os dolares que poderia levar se os tivesse), coisa de ir aos ATMs levantar dinheiro e passeá-lo no bolso, nas compras de natal. Eles insistem, ilegalidade pura a obrigar-me a deixar o dinheiro, a miúda insiste, no caminho do chorosa, “papi, o que é que foi?“, eu começo a irritar-me (“por que é que não menti?”) e também insisto, no formalismo daquilo tudo, na desvalorização do dinheiro, no “daqui a quinze dias regresso de férias, precisarei de dinheiro no bolso, por isso é que o tenho“, no que não estou a exportar a moeda nacional – e nisso nunca desvalorizando a soberania naquela, óbvia, afirmação de que no meu destino ninguém quererá o metical que ali levo.Nada a fazer, a ilegalidade obrigar-me-á a largar o dinheiro. Cidadão cumpridor exponencia-se-me a irritação, as palavras vão respeitadoras mas o enfado nelas já não os engana do que estou a pensar: “isto é um exagero, há mais de dez anos que ando para trás e para a frente, nunca exportei nem capital, nem moeda“. Afinal nada mais do que o argumento da veterania – e com ele logo se lhe muda a expressão, esquecendo o assunto partem para um breve “Ok, faça boa viagem!”. Um ainda deixa “E boas festas“, ali ambíguas, se com ou sem interrogação. “Ahh!” resolvo-a, “obrigado“. Avançamos à sala de embarque, a Carolina ainda se interroga “papi, o que foi?” e eu “nada, querida“, que ela é muito nova para perceber estas coisas de mera veterania.
Não seria melhor mudar o limite de metical transportável? Apenas isso?
Abaixopoderei ter aparentado desmerecer os protocolos político – diplomáticos. Mas será uma mera aparência, apenas me desgostei com a superficialidade jornalística. Pois os protocolos significam … A esse respeito lembro-me de uma história exemplar que há anos me foi contada, durante uma recepção, pelo então embaixador britânico (Alto Comissário, ainda insistem a dizer), devastado com o incidente.Corria 1999 e a Raínha Isabel II veio a África, visitando três países: presumo que o Quénia, depois a África do Sul e, para terminar, Moçambique. Aqui curta visita, mas muito simbólica, pois o país tinha recentemente aderido à Commonwealth no seu particular estatuto de único membro que não foi possessão britânica. E lembro ainda do frisson que cruzou a cidade na expectativa da ilustre visita.
O perfil da deslocação era explícito quanto seu conteúdo simbólico. Saindo de Joanesburgo a comitiva aterraria em Maputo logo de seguida, cerca do meio-dia, participaria num banquete oferecido pelo então Presidente Chissano e de imediato partiria para Londres, numa visita particularmente cronometrada. Assim aconteceu.
O avião real aterrou em Mavalane, a comitiva dirigiu-se ao Hotel Polana onde Isabel II e o príncipe consorte descansaram breves momentos nos aposentos reservados para o efeito. Às 13 horas saíram para o almoço presidencial, cruzaram de novo o reverente Polana e entraram na limusine estacionada à porta, encabeçando a comitiva que se deslocava para a Ponta Vermelha, o embaixador no carro imediatamente seguinte, precedidos da tradicional escolta motorizada, essa que mistura simbólico estatutário com a necessária segurança.
Entrado no carro o casal real presumiu que a escolta se movimentasse, decerto que esta obedecendo a ordens. Mas aí ficaram, esperando. Então Filipe, o príncipe consorte, saíu do carro, dirigindo-se para a escolta (ali estacionada ao portão do hotel), braço no ar gesticulando, o embaixador aflito correndo atrás dele, “o homem é muito alto“, veio-me ele a dizer sublinhando o efeito cénico (e, presumo eu, já imaginando o seu futuro profissional num bunker de Argel ou Cabul). Protestava, desabrido, o príncipe “Ou avançamos já ou seguimos de imediato para o aeroporto!”, assim originando de imediato a partida da comitiva para o destino previsto.
“Dois minutos“, foi a espera, “dois minutos, se tanto“, lamentava-se o embaixador. Ainda aflito.
Mas, claro, conhecedor das linguagens do protocolo. Significantes, hiper-significantes.
(chapa “Já Vou”, pós-Beira – já agora, atente-se na lomba e curva que se lhe avizinha em completa contra-mão, isto para além da tralha, humana e não só, que o preenche)
(com um abraço para o Tó Oliveira)
Da Beira ao Dondo: manda-nos parar a polícia de trânsito. Carro de aluguer, minha sorte pois não estou ao volante, finjo-me desinteressado. O polícia, documentos vistoriados, entra a matar no motorista: “Pode provar que não tem um impedimento para guiar de óculos escuros? Isso é uma infracção …” – e se eu tremo de estupefacção vai-se desculpando, dócil, o motorista, “desconhecia a regra” deixa-se implorar. Mas a autoridade continua, inflexível, implacável nos seus cuidados, “ainda por cima transportando passageiros, a correr esses riscos, não vê uma pedra no chão e tropeça, como é?!”, até se quer poeta. Saio do carro, a fingir fumar, para que possam eles acordar em paz, sem o mulungo a perturbar. Havemos de seguir …Inchope: o carro avaria, cai a cruzeta (“começam bem os vinte dias“, embrulho eu em palavrões). Uma hora depois ali apanho o “chapa” para Chimoio. Lá dentro bem visível o letreiro “Lotação oficial: 15″ – entenda-se 13 passageiros mais cobrador e motorista.
Gondola: mais polícia na estrada, mandados parar. Somos, conto detalhadamente, 26 pessoas, de tão espremidas e curvadas que instável só mesmo o veículo (“estou a ficar velho para isto“, já tinha pensado). Aberta a porta de correr o polícia manda que saiam os sete ou oito passageiros que ali seguem (mais ou menos) em pé, pede-lhes “identificação”. Depois a nós todos, os lá de dentro, que fila por fila à distância lhe agitamos os BIs (Dire no meu caso). Tudo em ordem, manda que todos reentrem e que siga o “chapa”.
Os dias passam, tempo já de regresso. Guro: quebrado de vez o carro de aluguer em Nhacolo, apanho o “chapa” para Chimoio. O mesmo formato, a mesma “lotação oficial” com certeza. Ali depois de Catandica polícia na estrada. Somos 23, se não contar com as duas galinhas nem o bebé de colo. Indiferente à porta de correr emperrada que tanto custa a abrir a autoridade manda sair os que vão em pé, à excepção da criança nesse propósito, o cobrador aperta-lhe a mão ali nas traseiras do carro e podemos seguir. Risos dos passageiros que vão junto às janelas desse lado, “este cobrador é muito vivo“, ouço.
À frente, Vandúzi: mais polícia, somos 26 já sem as galinhas que saíram algures. De novo para fora os que vêm em pé. O polícia espreita os passageiros sentados, passeia lentamente o olhar desinteressado por todos nós. Cruza-me como se nada fosse e, de súbito, aponta o jovem a meu lado, “identificação”. Este mostra-lha e ele torna a olhar, lenta e atentamente, todos nós, fila a fila. De repente ilumina-se, lesto regressa a mim de dedo em riste como se só agora me tivesse visto, “identificação”. Mulungu, já tenho o Dire na mão e mostro-lho, chateado com a pantomina, claro. Está a contento, manda todos subir, regressamos aos 26 sem galinhas, a não ser que alguém mais tenha entrado, e lá vamos que o Chimoio é já ali.
Beira. A capa do Savana desta semana, a queda do embondeiro, o que nem a guerra fez faz tudo isto agora, o fim do Xitonhana. Como poderia uma empresa de transportes, por lendária que fosse, aguentar assim?
E também acaba hoje a mostra do acervo do Instituto Camões em Maputo, 42 obras de autores moçambicanos e portugueses que expuseram naquelas instituição (presumo que desde 2000, como explicita a documentação referente à anterior mostra semelhante, dado que esta não tem referências de datação). Um bom momento para olhar a actividade de “cooperação” que a instituição vem fazendo desde então no domínio das artes plásticas. E a próxima mostra poderia trazer algo mais profundo sobre essa actividade bem como sobre o contexto em que decorre, e ainda sobre os autores representados, mera proposta minha.
Estou de saída para o casamento e, porque hoje padrinho, sou levado a atentar nas dimensões capilares que me coroam, talvez já excessivas face ao estatuto que me apresto a ostentar. Como resolver a questão?, orfão que estou de barbeiro desde o póstumo encerramento do “zé maria”, na 25 de Setembro ao Banco de Moçambique, e da minha desistência em frequentar aquela barbearia na Lenine, é certo que de muita dignidade barbearística mas de escassíssima afabilidade para com clientes do meu (feno?)tipo.Estou pressionado por estas ambições de elegância e já meio-dia, apresta-se a cerimónia, escasso par de horas dela me separa. Engulo os meus preconceitos, este irado paradigma anti-cabeleireiros, este pró-barbeiros – esses onde mulher só entra se mãe de petiz ou quando manicure (e neste caso, enfim …), esses de (extra)ordinarios odores do baratismo das loções aplicadas, esses da partilha da caspa alheia, único homoerotismo qu’a gente reconhece em público … Engulo os meus preconceitos, dizia, e lá me dirijo ao “não-sei-quê cabelos internacionais”, anunciado na TV e tudo, a ver se me tosquiam a contento, ainda que sabendo-a dessas casas onde homens e mulheres se juntam nos desbastes, já para não falar em todas essas suspeitíssimas actividades de tatuagens, extensões, pinturas, inculcações metálicas, massagens e até outras que nem imagino.
Caio então nas mãos de um jovem “internacional”, assim a modos que hip-hoper ou raper ou assim uma coisa, o cujo de máquina na mão não se sai mal, não fora os excessos humorísticos na fala, os quais sofro acreditando que aquela será a cultura local. Já que aquilo até nem vai mal peço-lhe que me escanhoe, as faces também não me parecem em estado digno do patrocinato em que vou incorrer. Muda-me então de cadeira e de mãos. Um outro raper avança e inicia esse episódio, corriqueiro cume da sua carreira, esse de escanhoar a contento o seu cliente. Para trás reclinado vou sentindo que nem tudo corre bem, mas confio apesar dos ardores. Quando a metade esquerda do pescoço aparenta estar terminada ergo-me um pouco, uma mirada no espelho. O horror! Sou um Cristo de Gibson, um lençol de sangue ocupa-me, sem falhas, a cara – irrompo num pau-sa-do “O que ‘e esta merda, pá!!!!?” e o agora adolescente geme “ah, o senhor tem a barba muito rija“, e eu num estado de desespero “Ouça lá, você nem um corte me pode fazer e faz-me isto??!!! você é louco ou quê??”. A criança sai então a correr e logo regressa com uma toalha com àgua quente, um pacho para me sarar. E logo urro eu, tal a temperatura que me escalda a cara, queimada mesmo, as imediatas manchas. “Desculpe, desculpe..” tartamudeia o infecto feto.
Cristão, ainda que ateu, não o apedrejo, até lhe exijo que complete a outra face, ainda que num mero sentido descendente, e que se livre do mais pequeno beliscar. Em casa terminarei o harmonizar (possível) daquele agora pântano sanguinolento. E logo dali saio. Aliás, saio pagando a conta que me apresentam, 200 meticais. Um imbecil crime daqueles e ainda cobram … de tão estupefacto que nem protesto. Trata-se de fugir dali, 24 Julho acima, compor-me em casa que a festa urge.
Resmungando lá vou para a cerimónia, feliz esta, divertida e sentida. E durante o dia ouvindo constantes perguntas “o que lhe/te aconteceu“, tantas as manchas vermelhas, as algumas crostas, as várias queimaduras.
Assim sendo, e particularmente dedicado a todos os taralhoucos clientes do não-sei-quê Hair International, aqui fica o meu testemunho sobre a nobre arte da barbearia, pujante, ainda que ameçada pelo imbecil novo-riquismo cabeleirístico. Há barbeiros, continuemos com eles. Haja Homens …
(Namialo)
(Ilha de Mocambique)
(Barbearia Hip-Hop, Quelimane)
(Barbearia Tucha, Quelimane)
(Salao Barbearia Leny, Nacala)
(Barbearia Bem Vindo, Nacala)
(Barbearia Sul-Kivu, Nacala)
(Barbearia Nova Familia, Nacala)
(Barbearia Central, Namialo (?))
(Namialo. Nota: atente-se na conjugacao cromatica)
Ha uns blogotempos em argumentacao com o JPN sobre as modas no meu pais botei um texto de rajada.Um ano e meio depois sou convocado para um jantar de comemoracao dos 20 anos de licenciatura da minha turma inicial da Faculdade. La em Lisboa. Nao posso ir, tenho muita pena como eh obvio, tambem sou necrofilo (e auto-necrofilo, entenda-se). Sao os pesados custos da emigracao. E lembro-me da tralha entao escrita, discorre sobre coisa semelhante ainda que o tema central seja outro. Mas nao importa, fica aqui a parte sem polémica (para o texto completo basta ir ver a ligação) . Como sei que ha pelo menos duas desses convivas (ola nao-comentadora, ola Filipe) aqui vai. Com desejos que se divirtam, na janta e no depois.
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Falando com o JPN
[Trazendo dos comentários daqui]
JPN, imagina os 25 anos de fim de curso liceal num liceu qualquer. P.ex. na antiga Escola Secundária dos Olivais, vulgo Viveiros, agora Eça de Queirós (com s). Almoço, os alunos de então a ver se se encontram, reconhecem. Eu vou, até anunciei no blog. Tu idem. Havemos de nos cruzar, sem nos vermos há anos. Eu chego, 90 e tal kgs, camisa aberta até ao umbigo, o tal cordão, um bocado lânguido com as antigas colegas, hás-de reparar durante o dia, bastante extrovertido até. Não catalogas, não julgas (aprecias)? Não te afastarás até, talvez em busca de outros?
A Luísa (lembras-te da Luísa?) já não tão bela, agora não mignone mas atarracada, mini-saia apesar dos também kgs, baton a mais, pechisbeques vários, tanto sentimento e beijos com os velhos colegas. Tu não idem? O Carlos (sabes?) agarrado ao sg filtro ainda, talvez ainda às ganzas isso não sabemos, com expectoração – nem se levanta, cospe para o lenço de pano. Tu não notas? A Mizé também se assoa, num lenço de pano. Tu não notas? O Orlando, o velho Orlando, depois do frango, a ele só sairam asas, palita abundantemente os dentes, retira o palito, olha, esfrega-o no prato, e recomeça. O Mendes trouxe a mulher, esta assim com um ar enfim, e chama-lhe “gajinha”, até conta como conheceu a “gajinha”. Tu gostas? O Finezas nota-se que deve estar bem, bem vestido, director, fala de carros e do apartamento em sítio bom, bem como das férias, distribui cartões de visita, se precisarmos de alguma coisa… Tu não catalogas? O ZéTó não engana, não saiu. Tu não lamentas? Tu não julgas? A Joana continua linda, está uma senhora, elegante, bem vestida, simpática. Tu não notas, não gostas? Já a Fátima, a Fátinha, tão bonita que era, agora matrona, bebeu umas cervejas e fala muito com o … olha com o Flávio, o marido dela, que não é dali, até bufa. Tu não reparas? O Flávio, esse de África, já bebeu, o botão do umbigo já se desapertou, mete a mão no joelho da fátinha, tão bonita que era, riem-se ambos, o marido dela que não é dali já bufa, tu não notas. A mulher do Flávio … como é possível, parece uma senhora (sublinho o parece) como é que está com aquele bimbo? (tu não dizes? tu não dizes o “parece” que eu te sublinhei?), ali enfadada. O Castro está careca e puxa os cabelos de um lado para tapar a careca. tu não reparas? Tu não reparas? O Santos, o santos da portela, está em forma, nem barriga, nem brancas, a idade não lhe passa em cima. Tu não notas, não invejas, não comentas? O velho professor de história está lá, um caco, tu não te assustas? O Albino é gay, está como os outros, mas é gay e tu não notas mesmo nada disto que notas nos outros, não podes notar, não queres notar, não queres classificar, não queres moralizar.
Nem seis horas serao, acho, ha ja duas que conduzo na noite-alvorada, Vilanculos algo para tras, desejos de Maputo ao almoco. Nesta hora ermo sou o primeiro a cruzar, nos vagares da curiosidade e do evitar toda esta carga de pedra espalhada estrada fora. Na berma, coberto por uma capulana, jaz o cadaver ali velado por dois assustados companheiros de viagem, o mais novo lentamente dele agitando as multiplas moscas sempre abutres. Paro, indago sobre o que se passou, nem me conseguem explicar bem, so lembram que o motorista, este que jaz, travou e desabaram no pos-curva. “Esta morto?”, nem pergunto, mas que nao, ferido na cabeca. Ao meu espanto, percebido, logo dizem “a capulana e para proteger das moscas”. E a isso sobreergue-se ele, para mim qual Lazaro, num fragil, sumido, “estou a precisar de uma boleia”, coisa obvia, tem um lanho gigantesco na fronte, como se um canibal de saca-rolhas tivesse encetado algo, tudo semi-escondido em trapos enrolados.
Que fazer?, vai ser um recuo de para ai 60 kms ate ao hospital mais proximo, Vilanculos. E sem pensar nessas coisas de outros sitios, isso do nao mexer em feridos, em especial se na cabeca. La monta, ao colo do ainda-puto ajudante, que o outro fica a guardar aquilo tudo, alguem mandaremos para o ajudar. Embrulha-se o doente no meu guarda-roupa, num meu entre a compaixao e nao me ensanguente ele o carro todo. Avancamos, comigo a pensar nessas coisas destes sitios, que se o homem se morre estou fodido, de atropelador a assassino sera um breve passo, que branco com morto na estrada soa a equacao certa.
Voamos, estrada vazia, ate ao hospital, coisa pouca em tempo medido. O homem la vai gemendo, a custo, e geme pouco para meu gosto. Chegados e o costume, ninguem para carregar, la o deitamos no banco de espera. A enfermeira, de servico naquela manha cedo, nao o e, apenas ajudante, deduzo, a demorar-se nas decisoes, enquanto nao lhe chega o chefe, este sim enfermeiro. Este la vem, quer-me o auto da policia. Eu ja vi tudo, bom dia, mas nao ha auto algum, encontrei na estrada, venho entregar o ferido. O ainda-puto ajudante esta mudo, transido. Insistem, sem auto nao ha nada, e a responsabilidade e minha – ja me estou a irritar, “ouca la o homem ainda se morre”, nao sera melhor tratar dele? E mais a mais, estou com pressa, vou para Maputo, cumpri o meu papel, esta-vos entregue, amanhem-se, bom dia, boa sorte. “Que nao, nao, nao” diz-me o bata branca, e eu ja vou nos alguns cem meticais na mao para o ainda-puto ali mudo se desemerdar, avisados que ja foram colegas da empresa no cruzamento da via para a cidade. E estou nisso quando ate me informam que “vou chamar a policia, voce atropelou o homem”.
Pronto, bem sabia, nao ha nada a fazer, ja sabia, bem sabia, tinha que acabar assim. Mas o bata-branca nao vai ficar sem o “oh seu filho da puta” que esta ali a merecer. E com boa entoacao, redonda, ate rolica, o levou, afinal assim a despertar o ainda-puto ajudante, afinal a desfazer-se em “nao, nao, ele so esta a ajudar” “so deu boleia”. So assim, so com estes sos do ainda-puto, la vao carregar o motorista, por enquanto ali inerte. Nisso nem o vejo no passar a porta que ja estou a ir para o Maputo.
Espero que te tenhas safo. Ou seja, na mao daqueles batas-brancas espero que tenhas tido sorte. Muita.
(texto modificado, acrescentado) Sei que é um bocado hermético o que deixo a seguir, acho que nem aqueles que assim visados, e que aqui visitam, o perceberão. Portanto, um texto inútil: mas irrita-me a patrimonialização das relações – está inscrita no português, e nada subterrânea, “o meu amigo”, “o meu tio”, “o meu vizinho”. Mas não é só por via disso que isto surge. Agitar as amizades (“nossas”) ou conhecimentos (“nossos”), afixá-la/os, como mero património é desagradável. Como marcador identitário, como estratégia identitária, é repelente. Não moralmente repelente, mas sim intelectualmente.
Vai esta repelência intelectual (não moral, repito, que para isso há bem pior) também associada a quem se demarca por um sítio. Por quem usa os locais calcorreados como se seus, por quem patrimonializa os territórios – claro é que não falo de propriedade fundiária. Aqui ainda por cima não escondido pelo uso de português, pois o “meu local x” é ênfase rara, caímos quase sempre no “eu sou de ..” ou no “eu estou em …”. Mas isso não impede o uso dos sítios como distinção, estratégia patrimonial. Tudo isto culminando nuns “eu que ando por X, vejam, e que sou amigo de Y”.
Nessa ânsia patrimonial, publicitando, suportando-se, nos “amigos deles” “nos locais deles”, óbvia é a coisificação do que (momentaneamente) os rodeia. Sempre me interrogo, na tal ânsia de ascensão assim tornando, reduzindo, em coisas havidas as gentes e os contextos que cruzam, como os podem compreender? Pois logo se impõe o que na academia se chama reificação, e no vulgo fussanguice. Enfim, seja qual for o nome dado resta uma mera estratégia incompreensiva. Por mais louros que recolha.
Diz-se disto name-dropping, quando se trata de aspirantes às elites urbanas. Mas também, e é disso que aqui falo, há essa gente que vai nesse caminho no bico-dos-pés mas por outras vias, e que assim acaba a hastear o resto real que diz seu como exótico, mostrando-se-nos nele. Uma mera estrategia ascencional assim via “exotic-dropping“. Aí cai a repelência. Fica, meramente, o ridículo. Que me envergonha.