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Por aí

Biocombustíveis e aumento de preços dos bens alimentares: excelente post no De Rerum Natura, e ligando a literatura “dura” respeitante à matéria. Perfeito para quem olha estas novas plantações de “companhias concessionárias” (magestáticas?).

[Já agora, o De Rerum Natura, pelas suas características - forma, conteúdo, excelência - mais do que um blog é um semanário.] [E o Desnorte fica-lhe bem como suplemento musical]

No A Natureza do Mal explicita-se que  “é o melhor mundo possível” com uma série de obras de Michael Borremans: 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7. Bloguismo notável.

Jpn comemora os cinco anos do Respirar o Mesmo Ar com um belo texto.

Usos da religião: uma pérola.

(Quase) Uma semana de Pretória.

1. Das medicinas privada e pública. Na privada (sul-africana) douta opinião do tira-tudo, acompanhada da lista de honorários - nem grande coisa diga-se. Na pública (santa terrinha) douta (e fraterna) opinão do espera-e-não-tira, sem honorários claro. Os óbvios malefícios do Serviço Nacional de Saúde. [O casal paterno, talvez porque óbvio socialista, tira nada.]

2. A Exclusive Books [entenda-se, a hiper-FNAC lá do sítio] de Neilspruit é melhor do que a Brooklyn Mall (Pretoria) e quase do que a de Sandton (JHB).


Onde vive a “elite” de lá, afinal em Trás-os-Montes?

3. Decadência sul-africana.

Não há novo livro de Madam & Eve.

4. Qualquer coisa sul-africana.

Cheira a Zuma.

5. Maputo (no regresso, mas antes também). No BB (belo blog) Solvstag cita-se Miguel Esteves Cardoso. Ler e comprovar que no Shamwari (ao talho Polana) se serve a melhor cerveja de pressão (aka “imperial”) da cidade.

6.
Maputo (no regresso, a ler e ouvir de Portugal). O meu ex-Presidente (e por isso sempre respeitado) Pedro Santana Lopes muito bem, baldando-se por ter sido trocado pelas malas da família Mourinho. E a minha surpresa com alguma da muito minha gente a não perceber, tamanha lhe é a clubite rosa, de que se trata mesmo da “a infantilização assassina que nos assola como uma praga …”, diga-se neste caso a futebolização.

7. Maputo (no regresso, a ler e ouvir de Portugal). Por falar em bola, eis o sossego da sociedade civil, a “auto-estima” lusa, a exigir outro Trapattoni “campeão”. O apito rubro? Sócrates (o inventor dos dez estádios do Europeu, então o arauto da sociedade [da construção] civil]) agradecerá.

8. Maputo (no regresso, a ler e ouvir de Portugal). Mentira pura nas palavras de Ruben A. Há imensa gente que atende o telefone. Portanto, pois

9. Maputo. E então, muito caro leitor frequente, deseja algum comentário face à polémica relativa às afirmações do arcebispo de Maputo sobre o Sida e suas origens? Menezes, meu caro leitor, Menezes …

[ainda que … em estando gravado se poderá dizer “nada de novo sob este céu” - os brancos de tudo têm culpa (sua condição semi-divina, dir-se-ia); e o preservativo como a arma do deboche não-marital. É o pacote habitual, amancebando-se (não sacramentalmente, já agora) com as ideias populares, de que é na camisinha que mora a doença e que são os brancos que a trouxeram para ficarem com estas belas terras. Contudo a Terra move-se, ainda que a Igreja Católica se atrase.]

10. E falando de coisas bem importantes. “Old age”, diz-me o mecânico, meneando a cabeça até pesaroso, face às múltiplas mazelas do meu

Musso. O nosso fim avizinha-se? Que será de mim?

No Nação Coragem um raro texto sobre a Igreja Maná, essa “curiosa” empresa propriedade de um português daqui oriundo. A qual vem passando ao lado da atenção geral, para seu lucro.

Mandar em Deus?

Uma das características do crescente bloguismo em Moçambique é a inexistencia de picardias inter-blogs, uma placidez que tambem vem de quase todos se conhecerem, ate via vizinhanca e amizade. Ainda bem.

Mas quando Carlos Serra eleva o extremo normativismo que vem habitando o seu blog ao ponto de dar ordens a deus (”Nenhum deus tem o direito de excluir quem quer que seja da sua casa.”) eu, ainda que sendo ateu, confesso que tenho saudades do “porradismo bloguistico” que vigora na minha terra.

Ja agora, Serra da tambem instruções ao bispo de Maputo: “Assim, D. Francisco Chimoio, crítico tenaz da homossexualidade, deve aprender a levar os homossexuais a gostar da Bíblia. E de Deus.”. Eu, nao catolico (e ateu) dispenso-me, apesar de dela poder discordar e criticar, de instruir a hierarquia catolica. Mas aceito que um catolico, nessa condicao (e so nessa condicao - a igreja catolica nao e’ vinculativa, portanto todos podemos opinar mas nao podemos exigir) se arrogue ao direito de o fazer. ‘E nessa condicao catolica que vejo o esclarecido Serra intervir neste tom. Que quero ver, melhor dizendo.

Mas se assim for, espanta-me esta originalidade teologica. A de um bloguista ordenando a Deus (maiscula apropriada a quem nele cre) o que fazer.

Palimpsesto?

Globalização: Virgem (significados e significantes)

Uma estatua da Virgem, ao centro da praca, fronteira a igreja. Algo absolutamente inusitado em Mocambique. Dizem-me que duas vezes por ano ha procissao, desde a Matola ate aqui, Namaacha. A visitar, claro.

As crendices e o multiculturalismo do Estado Português

Manchester City-Charlton, do 1-0 ao 3-1 terão sido uns vinte minutos enquanto pouco-almoço tardio em pós-grande piscina. Se já 3-1, e eu pouco atento, então zapo e na RTP-I, essa do meu Estado, em directo de Fátima, uma entrevista a um cidadão português que se auto-proclama mais-que-todos-os-outros, Duarte Bragança de seu nome. Ele ali, sob que critério nunca sei, bem como tantos outros da televisão pública, todo o dia acompanhando o caixão dessa antiga pastora Lúcia. Um concentrado da indigência, da indigência estatal, da demissão radical.

Que as pessoas acreditem na religião, pronto, que fazer? Que acreditem num deus construtor mais-ou-menos à imagem do homem, pronto, que fazer? Que acreditem que esse tal deus construtor mais-ou-menos à imagem do homem engravidou, por meios espirituais, uma mulher judia há uns milhares de anos, pronto, que fazer? Que acreditem que um judeu qualquer era “filho”, germinado, de um deus construtor mais-ou-menos à imagem do homem, pronto, que fazer? Que acreditem que desde então essa senhora, Maria, entretanto falecida, se dedique a acompanhar e a visitar este vale de lágrimas, pronto, que fazer? Que acreditem que, entre as centenas ou milhares de vezes que se diz que a tal senhora apareceu às pobres gentes, algumas são verdadeiras e outras não, pronto, que fazer? Que acreditem que uma dessas verdadeiras aparições da entretanto falecida mãe-virgem do filho do deus construtor mais-ou-menos-à-imagem-do-homem foi aos três pobres patetas indigentes em Fátima em 1917, pronto, que fazer? E que as pessoas desde então se juntem em Fátima, umas de rastos, umas de rojo, outras como muito bem querem, porque as tais criancinhas, contrariamente a tantas outras, viram mesmo a tal senhora fantasma, mãe virgem do filho do tal deus contrutor mais-ou-menos à imagem do homem, pronto, que fazer? Eu posso desprezar profundamente, e desprezo, os aldrabões do clero que promovem estas crendices mais rasteiras, mas pronto, que fazer?

Agora que a tv do meu Estado, laico, laico, passe um dia a transmitir o transporte do caixão de uma velha freira, enquanto apela explicitamente (”estamos a transmitir para todo o mundo”) a que a igreja católica promova a pobre velha lá na sua enciclopédia dos mortos ilustres, já fia mais fino. Que a tv do meu Estado, laico, dê entrevista neste contexto, como se reforçando a tralha, a um pobre homem que se entende mais-que-todos-os-outros, a ele legitimando e não contrários, isso fia mais fino.

Isto é um concentrado de indignidades, um compêndio de imbecilidade? Não só, isto é um projecto, explícito, pensado. Tem causa e causas. Que os pobres crentes acreditem naquelas-tralhas-todas tá bem, que fazer?, pobre gente procurando coito. Que o meu Estado promova tamanha indigência, que passe da notícia ao apoio, então há que fazer. Afrontar de imediato essa cáfila de obscurantistas. A tralha das crendices. E também a tralha monárquica, sempre lá atrás aquando destes estercos.

Há, definitivamente, que impor limites a esta ditadura do multiculturalismo, do relativismo. O facto de pobres gentes seguirem estas crendices, o facto de más gentes promoverem estas crendices, não é razão para que um Estado laico as aceite, as promova, se torne ele próprio arauto de crendices, negue a sua história e a sua doutrina.

Urge a demissão dos responsáveis da rtp. Obriga-se a queda do seu responsável ministerial. E, ou será demais?, exige-se uma desculpabilização do seu responsável-mor.

Ainda maior dúvida, angústia mesmo

IgrejaPolana.jpg

Maputo, Igreja da Polana.

Quando aqui entro tiro o chapéu. Será isso nova demonstração do meu cobarde relativismo e infecto multiculturalismo? Ou, bem pelo contrário, demonstração de dogmatismo fundamentalista, crente que sou de que apenas um inferior imbecil ignorante não se descobre em encontrando tecto (excepto, claro, se uniformizado)?

Religião

Já há meses o referi mas insisto, que nunca será demais. Gosto imenso da religião que o Uma Por Rolo nos traz.

Regresso ao optimismo pedagógico, a modernidade de novo

Abaixo deixei que me repugna o proselitismo. O das minhas ideias e o das outras. Ele vai-se encontrando, muito quase constante. E muito nesta última semana.

No blog-em-blog sobre New Orleans lá se ouve o troar dessa qual seita evangelista: a desses que acreditam, com vigor, que a sociedade não existe. Crendo na solidão, pureza, do indivíduo, e na inexistência de algo específico que brote da sua associação em grupo. Dizem-se “liberais”, e sê-lo-ão à sua maneira e suas leituras.

Nestes mesmos dias aqui aconteceu a campanha de vacinação. Em Sofala e Tete, principalmente, soou forte a igreja de Joahn Marangue. Apelando aos seus seguidores, e muitos são, a que não fossem vacinados. Mais radicais ainda que Testemunhas de Jeová, e outras igrejas, no que ao manuseamento médico do corpo é permitido. Crendo numa solidão, pureza, do indivíduo, do seu sangue, e na inexistência de algum bem que advenha da sua transfusão ou enriquecimento. Dizem-se “cristãos”, e sê-lo-ão à sua maneira e suas leituras.

O esclarecimento das pessoas fiéis a este tipo de seitas é sonho velho, antes dito “iluminismo”, coisas de quem ainda persegue o “desencantamento do mundo”, no fundo um “optimismo pedagógico”. Ideia, talvez sonho, dita “modernidade”. Hoje, tanto falhanço nesse caminho, tanta crítica já feita, é tempo de deixarmos esse sonho, talvez mera miragem, é tempo do que alguns chamaram “pós-modernidade”.

É tempo de saber que temos que viver com estas seitas, ser um pouco relativistas, eu diria que temos que professar um multiculturalismo matizado no aceitá-las. E nisso até aceitarmos o seu proselitismo, sempre exarcebado, coisas de quem crê, violenta e acriticamente. Pois o bom crente não interroga.

Ser assim consciente de que estas seitas, liberais ou cristãs (e outras que por aí pululam) não se limitam ao obscurantismo. São-no é certo, mas também têm um lado positivo, reconfortam os indivíduos. Guiam-nos, enquadram-nos, dão-lhes um sentido para a vida, uma “visão do mundo”, algo sempre precioso, particularmente em tempos tão conturbados. Se pacíficas nos seus objectivos e práticas devem-se aceitar. Integrar.

E, nessa integração, devemos aprender. Algo sobre essas gentes, sobre as suas ideias mas acima de tudo seus anseios, decerto algo legítimos, ainda que traduzidos neste tipo de discursos. E nesse esforço de compreensão, tradução, talvez possamos conseguir transmitir algumas ideias, nem tanto valores mas pelo menos práticas. Que vacinar é fundamental, que uma transfusão de sangue é importante, que a sociedade existe e influencia, que o preservativo protege. Coisas assim.

Sei que, de certa forma, isto é o regresso do “optimismo pedagógico”. De uma qualquer “modernidade”. Ainda que muito humilde. Mas ambicioso, a ambição dos pequenos passos. Crendo, claro. Com a crença que “isto” pode melhorar. Apesar de parecer obscuro.

 

Igreja Maná

O potentado Igreja Maná, o qual ao que consta irá adquirir posição de relevo na televisão portuguesa TVI, é uma criação de um português originário de Moçambique, Jorge Tadeu, do qual há ainda gente que se recorda.

Aqui perto tem um grande centro, em Whiteriver, Mpumalanga. Ao que consta a sua dimensão excede a da célebre IURD. Tudo isto em cerca de 30 anos, obra de um homem. Sem dúvida, uma grande capacidade empreendedora.

In Britain it has been widely noted that Muslims originating from Pakistan in South Asia have in recent years stressed their Islamic identity, distancing themselves from a more neutral “South Asian” racial and cultural ascription, from a politically activist “black” self-labelling, and, most recently, from a nationalist identification as “Pakistanis”. I wish to argue here that this apparent identity shift disguises a continuing tension between different dimensions of a complex cluster of personal identities. Islam, as “high culture” to be defended to all costs, cannot suppress popular cultural traditions rooted in the South Asia and Pakistani nationalist origins of immigrants and their descendents.”

[Pnina Werbner, “Our Blood is Green: cricket, identity and social empowerment among British Pakistanis“, Jeremy MacClancy (org.) Sport, Identity and Ethnicity, Oxford, Berg, 1996]

Síntese

(Agora que já decidiram lá das tricas deles).

Ainda que olhando de longe e achando que a ironia peca (reduz a eficiência): o óbvio.

E eis como um ateu social-democrata concorda com uns católicos reaccionários. ((ponto 1.): Uff, safámo-nos de boa!!!

E eis como um ateu social-democrata concorda com um incréu liberal.

Blogorreia papal

A quem interessará tanta opinarreia?

Esta é a minha vénia de ateu.

Eid Mubarak

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Buttiglione mais ainda

Ao meu texto Rodrigo Moita de Deus dedicou uma nota. Respondo, já atrasado, até fora de moda, que isto de dialogar com blogs colectivos é difícil, ainda para mais se atentarmos na azáfama que vai no Acidental.

Sobre Buttiglione pouco poderei avançar. Acho que a questão é política e não religiosa mas isso já foi escalpelizada até ao queixo, para quê insistir? Concordo com RMD que muitos políticos separaram a religião do exercício do poder (e alguns até em termos absolutos, infelizmente, que há sempre uns mandamentos que conviria não esquecer). E nada tenho contra gente de fé a exercer o poder: o maldito “motor de busca” não me dá acesso às minhas falas de ateu, mas não me vejo numa “condição ateia” face à política (ou a outra coisa qualquer). Mas desconfio de quem se vê numa condição religiosa face ao poder. Mas lá está, isso não é sinónimo de um religioso no poder.

RMD citou Guterres e eu resmunguei. Diz ele que embora católico pouco praticante também se teria ajoelhado face ao Papa. Nem contesto. Eu próprio, ateu não baptizado comporto-me de modo diferente, mais grave, diante dos padres - sorrio ao exemplo, mas ainda há meses, jantando cá em casa com um padre bom amigo, homem especial de décadas aqui, saíu-me um “porra” ou “merda” qualquer, tão habituais me são estes, mas então fiquei atrapalhadissimo, a pedir-lhe desculpa, e o homem a rir-se num “ó zé, deixa-te disso”.

Mas eu não escrevi resmungo por António Guterres se ter ajoelhado diante do Papa. Eu escrevi resmungo porque António Guterres, primeiro-ministro da minha República, se ajoelhou diante do Papa. O que é totalmente diferente. E inadmissível.

Finalmente, e regressando a Buttiglione, apenas porque ele é a fonte desta questão sobre o papel dos católicos na política. Lamento que ninguém que dele se sinta próximo tenha por aqui passado para responder à minha irónica pergunta, serão as viúvas piores mães?

Mas insisto, agora sem ironia: a minha mãe enviuvou muito jovem, com três filhos. Assim viveu cerca de dez anos. Foi má mãe para os meus irmãos? Conviria trazerem-me a teologia para mo explicar. E um viúvo, a criar robots [robots na teologia?]?

Deixemo-nos de coisas, Buttiglione é apenas um ultramontano, anacrónico. De moral execrável. E não é o facto de se escudar numa “condição católica” que lhe apaga esse negrume, moral e intelectual (essa impiedade?). Ou seja, não serve para ser base de uma reflexão sobre as ligações entre a religião católica e a política.

E mais não digo, que se RMD já teme parecer beato também eu já entrevejo o anti-cristo no espelho.

4

Não acho a vida humana inviolável. Sobre ser ateu escrevi, o que me impediria de a sacralizar. Nem proporia uma sociedade actual desprovida de meios de defesa armada.Repugna-me a pena de morte. Mas mesmo esse princípio, dos poucos que sigo, aceito violar. Porquê não abater Eichmann? Beria? Pol Pot? Apenas por princípio.

Mas não sou fundamentalista. Aos meus valores vivo-os incoerentemente.

Numa Missão

Há dez anos (já?) cheguei a Moçambique e fui andando para o norte, boleias, chapas e mochila às costas.

Fiquei-me em Montepuez. Uma malako no restaurante do João, tempos em que não havia electricidade daí que cervejas várias e quentes para ganhar embalo, uma noite no Geptex onde, vá lá, havia água no balde. No dia seguinte visita à administração, “para saudar” e informar ao que vinha, e logo avançar à procura de aldeia onde viver. De preferência junto a estrada com carros, pois então ainda temia que a malária se pegasse fulminante. Mas antes, porque era obrigatório, visitei a célebre missão, padres holandeses há décadas no distrito.

Fui bem recebido, mas por aquele que era já o último, os outros três, velhos, tinham morrido recentemente. Todos de cancro, “se calhar contagioso”, ironizou o padre, alto, rijo nos seus cinquentas, bem-humorado. Lamentou não me ser muito útil, só tinha chegado há dois anos, depois de décadas de Zâmbia (ou Malawi, já não estou certo e o diário está em Lisboa). Os mortos, esses sim, tinham muitos anos daqui, este nem falava bem macua.

Foi buscar as cervejas, até quase frias do gerador, e discorreu sobre macuas e macondes, sobre o fim da guerra (recente então). Tudo ali na varanda, mosquiteiros remendados, casa pobre como sempre o são as missões. E por todo o lado bolas de futebol a remendar e equipamentos puídos. Surpreso indaguei o que era tudo aquilo, riu-se bem lá do fundo, e explicou-me o seu trabalho. A evangelização fazia-a pelo futebol, tinha organizado equipas de jovens em cada aldeia, transportava-as no velho 4X4 da missão e o campeonato lá se realizava: “a minha missão terminará quando Montepuez tiver uma equipa na I divisão nacional”, sorria, quase sonhador. Tal como eu, a ouvir-lhe o rumo, da passagem da ideia de entreajuda, da competição saudável, rasgando ainda um bocado de horizontes a todos aqueles miúdos encerrados em vidas de machamba. Já agora, mas já agora, ligava-os à missão, à sua fé católica, num “a Bíblia vem depois”.

Surpreendi-me, ali original e mesmo algo heterodoxo. Até pelo tom. Disse-lho e aí sim começou a falar, naquele tom irónico da desilusão que vamos aprendendo com a vida. Invectivando os erros da igreja católica em África, resmungando com um Vaticano tão cheio de certezas mas sem nada perceber das realidades, assim incapaz de perseguir os objectivos propalados. Ainda hoje o ouço, certeiro, eu cujo Vaticano é outro mas tão semelhante nas certezas enfatuadas.

E lá seguia ele, criticando o Papa e sua hierarquia, enquistados de rigidez. Sem sentirem os contextos locais e como neles trabalhar, ainda que com todos estes séculos de experiência de evangelização. Sem olharem com olhos de ver as possíveis misturas, numa fé católica ela própria feita de sincretismos outros e aqui apenas a exigirem serem actualizados. Incapazes de actuar na pobreza radical tão ricos se tornaram. E exemplificava com a atitude face à poligamia, que tanta gente afasta da igreja, e já me falava da Sida, num país então pouco alerta, que os refugiados estavam a chegar, carregando-a claro está.

Fiquei atónito. Ateu, ali recém-chegado e a escutar um discurso daqueles. Quase à saída confessei-lhe um “nunca pensei encontrar aqui um discurso destes”. Riu-se, olhos brilhantes, rematando como se tudo justificasse “I’m a dutch!”.

Nunca mais o vi, nesses meses seguintes procurei-o algumas vezes quando regressava a Montepuez mas sempre o desencontrei.

Todos estes anos passados fui até lá. Perguntei por ele, revisita que se me impunha. Alguém, até atrapalhado, disse-mo já partido, que tinha saído à pressa há coisa de dois anos. “À pressa?”, lamentei, logo lembrado do tal cancro (se calhar contagioso), “estava doente?”. Mas não, teve que partir, e diziam-no constrangidos, pois havia muitas queixas de pedofilia. “O Qué?”, recusei, sem poder acreditar, que agora todos o são, não pode ser mais que uma moda. Mas não, infelizmente não eram boatos, queixas muitas, a sua própria hierarquia o mandou embora.

Fico-me na minha desilusão. As belas ideias, a bela palavra. E, afinal, homem como os outros. Como nós.

Pale.

Será que para apanhar um homem a Nato atacaria uma igreja católica? Já nem digo em Lourdes, a dúvida extendo-a até à terra do Trudjman!

E uma capela protestante? Entrariam de tiros na mão? Para apanhar um homem, por crápula que fosse?

Ou, porque uma igreja é coito, prefeririam deixá-lo morrer de velho, na cama? Já nem digo o Trudjman…