Stereoscópio de Lourenço Marques, fim do século XIX, vista da Baía
por ABM (Cascais, 6 de Janeiro de 2010)
Hoje à hora de jantar, por razões assaz obscuras, o Dr Micael (10.5 anos de idade) deu-lhe na cabeça de rezar para pedir a benção de Deus para várias coisas, depois de comermos o mais epicúrio jantar de toda a minha vida (tenho que dizer estas coisas para o caso da Patroa vir espreitar isto no Maschamba, sorry).
Depois de pedir saúde e longa vida para a mãe, pai, avó, irmã, padrasto (eu), cães, cadelas, avestruz e a professora, eu sugeri-lhe (suscitando a imediata ira da mãe, que leva estas coisas muito a sério) que pedisse sorte para a mãe ganhar o Euromilhões e assim ficarmos ricos de uma assentada.
Combati indignado a acusação de abuso do favor Divino dizendo que pedir umas massas ao Senhor lá em cima não era um pecado per se.
E, enquanto rapidamente se passou para a questão de o que é que cada um faria se fosse rico, eu lembrei-me da velha canção que fui apanhar no Iutúbe há bocadinho, que para os mais velhos deve ser vagamente familiar: Topol, representando o pobre judeu russo Reb Tévje em Um Violista no Telhado, 1971, cantando Se eu Fosse Rico.
Que eu vi num cinema de Lourenço Marques lá para 1972.
2. Crise. Qualquer emigrado português sabe que ir à “terra” é para ouvir os constantes lamentos dos amigos, da família, dos populares, com a “crise”, e etc. e tal. Mais agora, com a desgraça internacional a repercutir-se nos dois milhões de portugueses abaixo do limiar da pobreza, mais de dez por cento de desempregados, o país sem luz ao fundo do tunel, sem projecto. E depois … basta ver o potlatch radical dos últimos dias antes do tal solstício dito Natal! Basta perguntar no talho, no café (o bolo-rei), na livraria, na loja de brinquedos, nos restaurantes e afins, etc e tal vinícolas e isso, o obrigatório “então, e este ano como vai?”. Crise? Já lá vai, que “estamos melhor que o ano passado”. Crise? Como crise se a felicidade está ali mesmo, nos balcões dos chópings? E tudo segue, no dia 26 abrem os saldos e as multidões reiniciam o seu caminho de cigarras. O vazio (versão portuguesa do conradiano “horror”).
[Fotografia de inscrição ao Teatro Politeama, Lisboa, Dezembro 2009]
3. A gula. Crise? E é um “trocadilho” fácil, o com esta campanha de época, o tome atenção aos AVCs que encheu os painéis das cidades. Crise? Só se for a da gula, essa motriz dos AVCs. No fundo o símbolo da Europa Ocidental, obesa, no seu estertor. As causas? Exactamente a tal falta de visão, de preocupação. De razão. Tudo isso do a cada um o seu sapatinho, e nada mais … Aliás, a cada um o seu sapatão.
4. Paulo Duarte, afirma-se de origens humildes, foi um futebolista modesto e não enriqueceu, é agora o seleccionador do Burkina-Faso. Deu uma entrevista ao jornal Record. Interessantíssima, muito para além do patois futeboleiro habitual. De como olha o país africano para onde, surpreendentemente, foi trabalhar há já dois anos. E de como reconhece que para preconceitos era ele que os carregava ao início. Mas mais do que isso, também ele de longe a re-olhar os seus patrícios: “Se as queixas, por isto ou por aquilo, fossem modalidade olímpica, os portugueses estariam cobertos de ouro. Somos muito assim. Completamente. As dificuldades da vida são muitas, para toda a gente, mas há coisas que não podemos esquecer: a maior parte dos portugueses que vive mal tem uma casa, duas televisões, um vídeo, dois telemóveis, dois carros, um emprego, mal remunerado mas temos, tem água, tem luz, tem gás, tem comida na mesa, tem roupas adequadas ao clima. Com maior ou menor dificuldade, chegue o dinheiro ou não ao fim do mês, tem isso tudo“. Sei que é muito fácil apupar este tipo de visão. Mas seria conveniente que os habitantes de um país que não produz o que tanto consome pensassem um pouco no facto de que a sua ladaínha lamurienta não encanta (enfeitiça) os que de longe os assistem. Fica o meu desejo das maiores felicidades a Paulo Duarte, homem a pensar. Força Burkina-Faso!
5. Quadra natalícia: Eu também! Pois se o mito sublinha o amor transposto para o espírito de dádiva neste emigrante o real é a volúpia da posse, sacos de auto-prendas esquecendo-me dos “entes queridos”, esvaziando-me o porta-moedas extinto que foi, e já em tempos, o cartão de crédito, malfeitoria ocidental. Malditas livrarias ….
6. Saúde. Viver em flat e enfrentar tantas proibições tabagísticas em locais públicos: assim a fumar bem menos.
7. Oferta infantil. Uma enorme oferta de espectáculos e actividades infantis. Gloriosa. Diz quem sabe que este Corcunda de Notre Dame foi do melhor que já viu, e já viu várias coisas.
8.Cultura. Na revista “Os Meus Livros” (nº 82, ano 7, 12.2009) a coluna “Caldeirada de Letras” (p. 52) contém um acertado texto da autoria de Luís Graça: “Astérix Ortografix“. A propósito da edição do “O Aniversário de Astérix e Obélix, o Livro de Ouro” (fraquinho, já agora) uma crítica as novas traduções dos nomes das personagens, um incompetente ataque à tradição asterixiana. (Algo que em tempos já aqui referi).
9. Surpresa. Encontro o Bartis (ok, o Bar Artis) reaberto. Um ícone do Bairro Alto, ali à Diário de Notícias, agora com nova gerência (propriedade dos donos do velho restaurante “Sinal Vermelho”), a vender apenas produtos portugueses (quer um whisky, um gin, um vodka? Beba aguardentes vinícolas – aprecio o acto). Mas mais do que isso – e ainda que lamentando isso do balcão estar agora ao fundo da sala – de louvar a reabertura de um local biográfico. Mesmo que já sem o seu velho proprietário, o célebre Mário, e – aí sim, lamentavelmente – desprovido da lendária Paula, rutilante alma. Mas está lá o Bartis ….
10. Inteligência: a primeira auto-prenda, logo no dia da chegada, este “De Marx a Darwin. A Desconfiança das Ideologias” (Gradiva, 2009), um para mim desconhecido livro de Onésimo Teotónio Almeida. O autor é um homem inteligente, o livro idem. Uma delícia, sobre paradigmas cientificos, suas características e limites, e ainda da hipotética relação da ciência com a religião, da ética com a lei. Para mais muitíssimo acessível (efeitos da tal inteligência). Deixo uma citação. Que é letal para alguns meio lusos, e não é preciso recuar ao guterrismo: “Nem tudo na ética está codificado na lei, a lei civil é apenas a imposição da obrigatoriedade de uma ética mínima para o funcionamento das sociedades. Mas se a ética transcende a lei, e por vezes choca com ela, ambas têm os mesmos alicerces. Os debates legais resultam de confrontos entre valores éticos, de combates morais, e nem todos conseguem reunir consensos que se traduzem no estabelecimento de normas legais (ou, pura e simplesmente, de leis sancionadas pelos tribunais e pelas forças do Estado que velam pelo seu cumprimento), contudo muitos valores morais não precisam de ser codificados em lei. Há normas éticas aceites pela maioria que nunca foram consignadas em nenhuma legislação. Os ventos da história e o rumo de cada cultura acaba conseguindo para esta ou aquela norma ética um estatuto legal. Mas nunca a lei cobre todo o domínio da ética, até porque nela, a ética, há um mínimo que suporta legislação (o domínio do dever), porém existe um outro bem mais vasto, o da virtude – a arethé grega – que não poderá nunca ser legislado.” (125)
11. Drama. Rui Santos sobre o Sporting. O jornalista em causa capta pouca adesão – como o prova o baixo número de subscritores das suas incessantes petições informáticas, abundamentemente publicitadas em inúmeras horas televisivas (basta compará-las com as petições lançadas in-blog para comprovar essa sua fragilidade). No entanto a sua denúncia sobre a destruição do Sporting Clube de Portugal por parte do núcleo socioeconómico, em tempos albergado sob o epíteto “Projecto Roquette”, é inultrapassável. E de registar pois estabelecida em jornal de grande divulgação. E, por extrapolação, diz muito sobre o Portugal de hoje, esse da cega aceitação de auto-anunciadas elites sublinhada pela “falta de alternativas”.
12. Capitalismo. A edição portuguesa está pelas “ruas da amargura”. Sob a tutela dos interesses comerciais, de grupos editoriais desligados da cultura (e, porque multinacionais, do contexto nacional). E esmagada pela pressão oligopolista dos grandes potentados livreiros, também eles apenas virados ao lucro. Assim se apaga a hipótese da edição ensaística e apenas subsiste a chamada “literatura leve”, a capa brilhante, o conteúdo inexistente, a forma “plana” – em particular expressa nos registos da “exo-ajuda” e do chamado “romance histórico”.
Prova dessa superficialização produzida nas grandes superfícies encontro-a na FNAC do Chiado, chego à secção dos livros e deparo-me com o primeiro escaparate – aquele que me recebe e me despedirá, dentro de algum tempo, portanto o que mais apelará à aquisição. Uma das faces para a literatura nacional (prosa) considerada relevante (os peixotos, cachapas, saramagos, lobos antunes, tordos e torgas e isso). A outra face de prosa estrangeira, e não resisti a transcrevê-la, para aqui comprovar o “estado da arte” a que se chegou, do esmagamento cultural por via do comércio (do capitalismo, por assim dizer). São 18 colunas, cada qual com quatro livros, novas edições (traduções) ou recentes reedições. Por mim recenseadas, como denúncia. Apresento apenas os autores, para economia de ma-schamba. Eis então o painel do escaparate melhor situado:
1. Bernhard; Bernhard; Mishima; Mishima. 2. Beckett; Walser; Walser; Mme Lafayette. 3. Hesse; Hesse; Jane Austen; Jane Austen. 4. Hemingway, Dumas, Diderot, Dickens. 5. Iris Murdoch, Iris Murdoch, Rilke, Colette. 6. Susan Sontag, V. Wolff, V. Wolff, Lampedusa. 7. Thoreau, Flannery O’Connor, Orwell, Orwell. 8. Maugham, Mann, Beckett, Mailer. 9. Daphne du Maurier, Céline, Saint-Exupery, Walty. 10. Flaubert, Yourcenar, Yourcenar, Hsek (?). 11. Kafka (X4). 12. Aitmatov, Kafka (X3). 13. Jack London, Boris Vian, Victor Hugo, Lautréamont. 14. Proust, Proust, Calvino, Calvino. 15. Calvino (X4). 16. Calvino, Pasternak ,Turgueneev, Gogol. 17. Tolstoi, Zweig, Svevo, Bulgakov. 18. Dostoievski, Dostoievski, Lidmila Ulitsvaia (?, será assim?, não conheço), E. Waugh.
Lastimável. Esta prática comercial, esta subjugação editorial. O primado da mediocridade. Efeitos, necessários entenda-se, do capitalismo. Vil.
13. O Charme Discreto da Burguesia. Olivais-Sul, Lisboa, Dezembro de 2009.
14. Império. A Ler (nº 86, Dezembro de 2009), coluna “Booktailoring”, de Paulo Ferreira e Nuno Seabra Lopes. Procurando um registo cómico em futebolês (o dia em que os humoristas escreverem em raguebês ou golfês será bem arejado…) o texto ”Um jogo entre linhas“ que aponta os “jogadores mais influentes do mercado editorial português em 2009“. Não vou discutir os critérios. Apenas o eco da minha reacção: “tenho que ter cuidado, pareço da patrulha ideológica“, resmungo-me. Pois na “selecção nacional” deles lá estão o Agualusa e o Mia Couto. Sim, eu sei que na selecção de futebol estão o Liedson, o Pepe e o Deco. Mas nesta, na literária, não há brasileiros. É, na cabeça dos humoristas, uma selecção portuguesa de Portugal, mas afinal uma transpiração da pobre lusofonia. Ou seja, e isto muito para além dos escritores em causa, da cabeça dos humoristas ninguém retira(ou) o Império. Nem na Ler… Absurdo. Mas um absurdo sintomático.
15. O jornal I é o melhor jornal nas bancas. Já no Verão passado me parecera tal. Agora confirmam-me tal alguns amigos. Alguns até acompanham a opinião com um “é de direita mas …”. Mas digo eu, que o vejo sem publicidade e oferecido nas bombas da Galp. Mau sinal? A ver se se aguenta …
16. Delícia. Inúmeras bancas de livros em saldo (aliás, monos), um “apelo às dádivas”. Nelas sempre se encontram exemplares desta bela colecção “Horas Extraordinárias” que o Independente foi publicando há alguns anos. Cada vez que em Lisboa lá carrego alguns. Agora é a vez (a 2,5 euros, imagine-se) de adquirir este saborosíssimo “Bilhetes de Colares de A.B. Kotter (1993-1998)“, “porventura” de José Cutileiro. Obrigatório regressar a esta Quinta da Beldroega, sita na Várzea de Colares, seus habitantes e visitantes, ponto máximo de observação deste país. Pelo olhar-mestre do Senhor Doutor Kotter, traduzido pelo ex-comando J. Fonseca, fiel à máxima de que “Como a leitora sabe, eu nunca me imiscuo na política deste maravilhoso país que tão generosamente me acolhe no seu seio. Não cabe a um estrangeiro fazê-lo; menos ainda a um estrangeiro sem razões de queixa.” (66). Ainda que com ele se possa discordar, por vezes, como aqui: “Já tentei explicar-lhe que o snobismo não é tão mau como parece porque, vistas bem as coisas, sempre é o contrário da inveja…”. Discordância que, se seguida, levaria por caminhos muito diversos. Mas mais do que a justificar a corrida aos monos…
17. Política. Nenhum dos meus amigos – desses que cada vez menos encontro -, nenhum dos meus familiares, nenhum dos teclistas lidos in illo tempore, enfim nenhum desses que tanto vituperaram (vituperámos) o “fontismo” cansado, travestido de “desenvolvimento”, do primeiro-ministro Cavaco Silva tem agora uma palavra irritada contra o proto-fontismo de José Socrates. Mas para quê falar, se é para falar encastrado?
18. Jonhy Lyndon (ex-Rotten). Amália. Coração Independente (no CCB). Não sou um amaliano, ainda que nela possa actualizar (reconheço, até acabrunhado) a expressão “de ir às lágrimas”. Pois ainda que não o seja (amaliano) saí preenchido da exposição. Para logo quem ali a meu lado me iluminar, como sempre na vida, num até desdenhoso “não aprendi nada”. E é isso, saio do amalianismo (no meu caso amador) e constato, a exposição não é um diálogo com Amália, é uma missa (certo, a haver divindade que seja ela), apenas uma missa. Ela adoraria. Mas está morta, não haverá outra forma de ser olhada?
Depois o tal diálogo com a mulher, a personagem, a artista, o mito - que se pretenderia? – é atirado para um “posfácio”, de arte contemporânea. Nesse pacote, mas que assim surge externo, in-dialogante, um bailado (Ana Rito) muito interessante, a peça de Joana Vasconcelos também. E uma instalação visual óptima de Bruno de Almeida. Mas mesclado com coisas-obras a parecerem modismo para “espantar a classe média baixa”. Francamente, não há paciência para quem atira um xaile para o chão e diz “arte!”. Olhar um cilindro branco com espelho atrás, “um artista (Amália) solitário no palco”. Em 2009? Ali tanta ruptura, tanta inovação como o busto realista atrás apresentado (Joaquim Valente), coisa de meados de XX, que foi muito ao gosto da representada. Honestamente uma desilusão. Pelo auto-centramento da exposição, que se pretende encantória. E pela tralha avulsa que se lhe colou à maneira de olhar actual – com as excepções referidas. Sempre me convenço que o epíteto “contemporâneo” faz eclipsar o espírito crítico, analítico. Cilindros brancos, mesas luz com banheiras coloridas, peças atiradas no chão. Hoje?
Coisas que sempre me fazem lembrar aquela entrevista do Jonhy Lyndon (ainda Rotten?) ao Philippe Manoeuvre, publicada na Rock & Folk cerca de 1982. Dizia o Rotten: “ser punk em 1980 é igual a ser hippie em 1976″… Xailes no chão?!
19. Sahara Ocidental. Uma militante esteve em greve de fome defendendo a causa do Sahara Ocidental, protestando contra a ocupação marroquina. A representação diplomática de Rabat em Lisboa concedeu uma entrevista ao jornal “i”, anunciando que Marrocos é “o polícia da Europa”. O silêncio europeu face à ocupação colonial do Sahara Ocidental passa por esta “política real”. Confesso que nada sei sobre a situação efectiva na região (no país, por outras palavras), acredito até que o terrível fundamentalismo “alqaediano” seja um papão agitado por Marrocos para colher o apoio à sua velha expansão – como os leitores saberão ninguém falava de Al Qaeda e muito poucos falavam de “fundamentalismo”/”integrismo” islâmico quando Marrocos procedeu à ilegal anexação daquele território. Ou o seu inverso.
Mas enfim, são contas do difícil e imbrincado rosário da história. A mim interessa-me a reacção em Portugal. Nos jornais e na TV, nas conversas, ninguém ecoa a posição do Estado - o qual desde o governo Socrates assumiu a posição mais próxima da política colonial marroquino. É óbvio que o “distante” assunto a ninguém interessará, Marrocos está nos confins, parece-me até antípoda. À esquerda ninguém diz nada, nem mesmo o BE, onde Marrocos será quanto muito o locus de umas ganzas a legalizar, que isso dos princípios é uma canseira. O PCP silencia, mas é óbvio: para um partido sempre ao lado dos poderes coloniais e dos regimes monárquicos não se deveria esperar uma interrogação sobre a política diplomática portuguesa nesta questão. Ninguém questiona a questão. O fait-divers da senhora à fome acabou, entretanto o escritor José Saramago foi lá apoiar (à revelia do seu partido, à revelia de António Costa, o socialista de quem é apoiante) porque é uma ”causa justa” e pronto. Aliás, prontos …
20.Excelência. No canal Mezzo (que pena não haver em Maputo) um fantástico programa sobre Rafael Campallo, bailarino que desconhecia. Grande, grande …
21. O Antigo Regime. O álbum, merecido, celebrando o centenário da Escola Secundária de Camões (ex-Liceu Camões). Ainda que me arrepie sempre que ouço loas ao dito liceu (apesar dele próprio). Que é sempre agitado como se ícone dos “bons tempos” em que havia cultura, e educação que a sustentasse e reproduzisse, em Portugal. Ou seja, antes do povo estudar e, até, gerar professores. Tudo isso em discursos de ”progressistas”, até gente oposicionista germinada no velho Liceu – mas que verdade, verdadinha, suspira por trechos do dr. Salazar, em particular aquele de que ao povo basta ensinar a contar e a assinar. Quebrado isso ficámos como estamos. Que “eles” até a “doutores” vão.
22. A desistência. Visito, acompanhando uma ínclita comitiva, a exposição do fotógrafo Korda. Celebrizado pela iconográfica fotografia de Ernesto Guevara, de sua autoria. Muito interessante, pelo que demonstra da produção do culto de personalidade do ditador comunista Fidel Castro, do qual Korda foi acompanhante durante a década de 1960s. Fantástica a sua entrevista, a forma como glorifica o próprio Ernesto Guevara, um absoluto contrasenso (assista-se às suas declarações, elogiando a “punição” que Guevara lhe fez).
Fidel Castro como ícone, até bíblico. A mão na terra produtiva, a pegada de Fidel, o seu “gigantismo”. A sua beleza sensual. Fascinante, como interpretável. Como produto e produtor de fascínio.
Certo que se Korda fosse eslavo ou han teria tido problemas, acusações de “cosmopolitismo” (como aventou um amigo meu) não lhe faltariam. Basta ver esta fotografia, onde duas presumíveis beldades, até lânguidas, escutam no escuro as palavras solarengas do comandante, deixando imaginar outras prédicas, mais íntimas. Coisas deste discurso construtor do “fidelismo”, de Fidel Castro, muito dadas ao tom local, mas também à específica característica de Korda.
Mas para além dos seus méritos estéticos e jornalísticos surpreende que esta exposição, demonstrativa da arte glorificadora de Korda, que surge sob tutela da também estatal Casa da América Latina num espaço também estatal (Cordoaria Nacional), seja apresentada sem qualquer contextualização distanciada, sem referência enquadradora. Nada nos textos que a acompanham, talvez (mas desconfio que não) no catálogo – que muito presumivelmente será apenas encomiástico. Espantosa desistência. Dias passados comento esta minha estranheza numa mesa polvilhada de académicos, a nenhum pareceu estranha tamanha distracção “fidelista”, obviamente significante. Nem mesmo quando lhes disse ser Korda um pouco a Leni Riefenstahl do regime cubano, ou que diante de qualquer produtor de mitos e ícones se presume criar distância cognitiva, não apenas fascínio e adesão – coisas que tão bem “sabem” para outros casos. Um simpaticíssimo alto quadro do ministério da Cultura, ali entre variados acepipes, rematou que “a exposição é daquelas que se recebem”. E pronto! Desistência, pura e simples. E a gente assiste.
23. A gravata. Penso que foi no jornal “Sol”, uma pequena nota irónica sobre Francisco Louçã. Que o coordenador do BE aportara no parlamento usando gravata, ao contrário do seu significante traje político, esse que reclama dessassombro (e, claro, posição de classe). Para logo nos “sossegar”, afinal era apenas o dia em que o deputado cumpria provas públicas académicas e nesse campo fazia questão de cumprir as normas de vestuário. Passa tudo num sorriso, as pessoas dirão que é do espectro das decisões pessoais, etc. Mas este pequeno episódio, o respeito pela gravatinha no seio da corporação profissional ao invés da liberdade encenada no traje política, este pequeno episódio mostra bem a hipocrisia do senhor professor. O corporativismo fala mais alto, em maquilhagem de pequena-burguesia.
24. O escritor de escaparate. Já no pós-Natal mas ainda a caminho de mais uma comensalidade pantagruélica. No rádio do carro, enquanto subimos ali em Monsanto, capta-se uma conversa com escritor – desses que está em todos os escaparates natalícios, diga-se. Diz ele, face a pergunta da radiofónica voz: “a literatura é o que tem que ser!”. Abismado com tanta profundidade aumento um pouco o volume, para ouvir no que aquilo irá dar, e logo ouço mais uma pergunta “V. disse no seu blog que a literatura portuguesa não é apoiada pelas livrarias. Que vontade de escrever isso lhe dá?”, ao que responde o escritor, voz arrastada, sofrida, ”Nenhuma“. A meu lado, enfastiada, a senhora pergunta-me “queres ouvir isto?” e eu, mais assim como eu, logo riposto: “tira essa merda!”.
25. Envelhecimento. Ligo o carro e na rádio reconheço os acordes da “Fanfarra para um homem comum” e logo surge a “You can’t always get what you want” dos Stones. Elevo, e bem, o som e segue a canção-ícone, rock-barro da minha gente. Acto contínuo a bela rapariga a meu lado põe-me na boca …. uma castanha assada.
26. Tetro, de Coppola, é um soberbo, lindíssimo, filme sobre Buenos Aires. Fantástico. A história é um pastel, a deriva patagónica um must de pirosice. Convém ver. Mas sem som nem legendas.
27. Cardinalice. O Cardeal de Lisboa invectiva a “indiferença, agnosticismo e ateísmo” na sua homilia natalícia. Interrogo-me onde vai ele buscar essa ideia da igualdade entre “indiferença” e “ateísmo”. Que ”indiferença”? A prática, a ética, a solidária, a reflexiva? Um argumento vácuo, inaceitável, e que não cola com a imagem de profundidade intelectual que Policarpo sempre apresentou. Sem rodeios, é uma parvoíce ao nível daqueles que reduzem a igreja católica a fogueiras da inquisição e a erecções pedófilas. José Policarpo tem o direito (em determinada acepção terá até o dever) de combater o ateísmo e o agnosticismo. Mas tem toda a obrigação de matizar as suas argumentações e invectivas. E exactamente quando a sociedade presta homenagem a Manuel Clemente, bispo do Porto, enquanto homem de cultura elogiando-lhe a fina análise. Um deslize cardinalício, ao invés do momento vivido. A colher, claro, o silêncio do comum …
28. Homem em Fúria, de Tony Scott, competente filme de TV. Seria uma excelente peça de cinema de samurai, acho, não fosse o seguidismo ao paradigma psicologista, assim desvanecendo a profundidade abissal do protagonista. Um diálogo excelente: “Velho: Na igreja dizem que devemos perdoar; Creasy (Denzel Washington): Perdoar-lhes é com Deus. O meu trabalho é proporcionar-lhes o encontro.”
29. Acordo Ortográfico. ORecord é o jornal que logo aderiu ao Acordo Ortográfico. Se dúvida houvesse sobre o substrato intelectual desta parvoíce provinciana a entusiasmada adesão de tão pobre jornal cessa qualquer hipótese de dúvida. Eduardo Pitta acha que os detractores do Acordo Ortográfico são “encenadores” que dão pontapés na gramática, e com ele concorda Filipe Nunes Vicente, outro grande-bloguista. Recordo que as maiores polémicas neste ma-schamba vieram desses meus actos pontapeadores e, envergonhado, lamento-os bem como à falência das minhas tentativas teatrais. Vou ali ler o Record – pode ser que por lá me expliquem que esta deriva homográfica lusófona nada tem a ver com um fundo tonto de apelo à gesta da “presença” e “expansão” da língua portuguesa, que nada tem a ver com a inexistência de verdadeira reflexão económica sobre os seus futuros resultados para a edição internacional em português (mas apenas em “desejos pensantes”), que nada tem a ver com a tonta e iletrada ideia feita da distinção radical entre a fala e a escrita (a “escrita é uma convenção” dizem os imbecis, convictos que a fala, em última análise, não o é; a “grafia não influencia a fala”, dizem “professores” sem perceberem que assim invalidam a sua tarefa).
Bem, pelo menos parece o Miguel Veloso marcou um golo e diz-se que vai para a Fiorentina ou Barcelona, e o jornal deve falar disso …
30. Decadência Nacional. Cada vez mais difícil, talvez até mesmo impossível, encontrar uma “bica” (aliás, “café”, “expresso”, “italiana”) decente. Os estabelecimentos comerciais especializaram-se em servir zurrapas. Café Chinês?
31. Família. Em dois dias seguidos dois artigos interessantes, os de Miguel Pacheco, “Não São Sermões Sobre a Vida Íntima e Martim Avillez de Figueiredo, sobre a questão da “família”. Em ambos choco com este meu preconceito, o de que o discurso jornalístico aparece mais superficial do que o académico ou de reclamação intelectual. É aqui o inverso, total. Pois em ambos é explícita a ideia, ao contrário dos discursos dominantes, da necessidade e da virtude da família. Ultrapassando as velhas querelas hiper-liberais e hiper-marxistas, da família como local agente de repressão e reprodutor da exploração, do maléfico Pai-Padrasto Castrador e da malvada Mãe-Madrasta Castrada Castradora, do discurso da libertação do sacrossanto indivíduo face às algemas comunitário-familiares, da ultrapassagem da repressão por via do sacrossanto Estado-sociedade, local de protecção, produção e reprodução. Afinal instituição virtuosa, falível claro, de produção e interacção de valores sociais.
Há quem chame a isto conservadorismo. Lembra-me o Jonhy Rotten (já Lyndon?): “ser punk em 1980 …” (onde é que eu já li isto? …).
32. Frases feitas? Um repasto, entre antropólogos e excelsas iguarias, no caminho entre enchidos fidedignos, sopa de rabo-de-boi, conduto incomensurável, doçaria relevante, reservas variadas e vintages culminantes. Algo a que, ali, estou há décadas habituado. Com emigrantes à mesa a conversa passa ao “estado do país”, claro. Donde ao casamento homossexual, que o resto foi resumido, como sempre, num “isto está mau” – mas que ninguém interprete este condicionamento do discurso popular como uma estratégia do governo, que é de esquerda, donde bom. Pessoa que há décadas muito me é querida e também minha mestra nas coisas antropológicas, talvez até causa quase-única desta minha formação, remata-me “O casamento é um contrato entre dois indivíduos“. Vacilo, e partirei destruído para casa. Pois se vindo de quem vem aquele libelo individualista … tudo aquilo que estudei, da reprodução estratégica de laços de filiação e de descendência, de articulação entre grupos sociais, de transferência de património (em sentido lato), de composição e recomposição familiar, tudo isso para onde foi, o que era? Nada, afinal a nossa sociedade é apenas um campo onde interagem indivíduos, livres, racional e radicalmente autónomos que contratualizam. Virtuosamente.
Vindo de quem vem? Já no carro, ao volante, entre a azia silenciosa e a flatulência reprimida, constato-me duas décadas de vida profissional enganada. Novo ano que aí vem – e até já veio – exige-me pois vida nova, profissão nova. Pois se a outra, a da até agora, inexiste afinal. Não dormirei, e desde então a insónia constante. Para onde ir? Que fazer? Ou antes, com que indivíduos contratualizar?
33. Ideias Feitas?. “À mesa, entre antropólogos e excelsas iguarias, no caminho entre enchidos fidedignos, sopa de rabo-de-boi, conduto incomensurável, doçaria relevante, reservas variadas e vintages culminantes. Algo a que, ali, estou há décadas habituado. Com emigrantes à mesa a conversa passa ao “estado do país”, claro. Donde ao casamento homossexual – que o resto foi resumido, como sempre, num “isto está mau” – mas que ninguém interprete este condicionamento do discurso popular como uma estratégia do governo, que é de esquerda, donde bom. Pessoa [outra] que há décadas muito me é querida, e também minha mestra nas coisas antropológicas, talvez até causa quase-única desta minha formação” [in blog ma-schamba, post "(N)A "Pátria Amada" (ponto 32)], explica-me, simpática e até solidária com as minhas falhas de formação (e tantas ela colmatou nos bons velhos tempos), a diferença entre o matrimónio religioso, de vínculo indissolúvel, e o casamento civil, coisa moderna e passível de ser dissolvido. Por opção própria, por economia de discurso, não lhe dá nenhum enquadramento de história institucional, mas não posso aprender tudo no mesmo dia. Estava eu, portanto, a ouvir pela enésima vez esta profunda argumentação – e ainda não tínhamos chegado à questão das sufragistas, mas haveríamos de lá aportar – quando um conviva comensal rematou, glorioso: “vínculo indissolúvel?! Ah, mas isso é o que defendem os sindicalistas!! Afinal são iguais, a Igreja e os Sindicatos“.
Um vintage, este meu amigo, há décadas que vai vintage! Pena é que não meu mestre …
34. O cadáver da Antropologia. Ao sábado ouvir Bach na Gulbenkian, ao domingo Haydn no CCB. Para além do encantamento da música – um registo em que me perco completamente, por falta de capacidade interpretativa, uma delícia – deixo-me, como sempre, a “olhar” público e músicos. Olhar esta disciplina, que faz milhares de músicos aprenderem a reproduzir e interpretar partituras de tons e sons velhas de séculos, atentos às suas diversas matizes, e ainda, até, criando-lhes novas formas. Disciplina que passam a milhares e até milhões de ouvintes, que vão sendo treinados a escutar (alguns até a entender). Disciplina essa a qual poderá ser chamada “civilização”, forma vasta de controle, molde gigantesco de sentir e ser. É um fim-de-semana bom para isso, isto de partilhar espaço civilizacional com patrícios relativamente diversos – nas formas do saberem os seus corpos, de controlarem tosses, espirros, flatulências, agitações, sentimentos, amores, aplausos. Mais “burgueses” à Praça de Espanha, mais “populares” (menos “cívicos”, menos ”civilizados”) em Belém, que tudo isto é um processo longo de aprender.
Mas de repente, ali a meio da Criação, de Haydn, entre tosses múltiplas e aplausos fora-de-tempo no seio dos ainda algo in-disciplinados, lembro-me da minha queridíssima amiga e mestra. Que é isso? Questionar-me sim, mas apenas sobre as contratualizações que ali nos uniam. Nada mais há a questionar, a inquirir. Paguei bilhete, é o meu contrato. Outros pagaram ainda impostos, é outro contrato. Todos comprámos produtos dos patrocinadores, mais contratos jurídicos. E basta, deixo-me a ouvir a música, incompreendendo. Feliz.
35. A cremação da dita e ainda das suas primas. O Jornal de Letras, já institucional presença. Tem defeitos, mas é melhor que exista. Muito estatal, no ponto de vista, nas formas de associação e financiamento. Também por isso local dos sinais dos tempos. Na última edição (nº 1024) vários artigos sobre a década agora terminada, “dez anos de letras, artes e ideias“. Extensas indexações de poesia e prosa literária, artes plásticas, música erudita e pop, cinema, dança e teatro. Ambiente, ensaio e ideias (sobre estas dois textos) também. Não discuto os critérios, gente sábia a escrever. Mas surge-me questão. No mundo das “ideias” ainda há referência para uma ciência social, a História. Até par as sua versão história intelectual (já agora, saúdo as referências a obras que me são bem queridas, “História do Pensamento Filosófico Português”, coordenada por Pedro Calafate, “Portugal Extemporâneo” de Carlos Leone). Depois … Eduardo Lourenço, mais alguns ensaios, o “Portugal Medo de Existir” (“os portugueses são …”).
Entenda-se, dois artigos sobre “ideias”, um sobre “ensaios”. Nem uma referência a trabalhos portugueses de Antropologia, de Sociologia, de Psicologia, de Geografia, de Linguística, de … olhando bem nem de Economia, nem tampouco de outra área de investigação. Ideias durante a década? Ideias sobre Portugal e sobre o mundo? Nada a referir. [Vou escrevendo e pensando que sobre Ciências Exactas/Naturais idem, idem. Mas haverá ideias aí?, dirão os especialistas do JL].
É o Jornal de Letras! Sinais dos tempos? Claro, como comprovei nesta minha deslocação.
36. Inhambane. Para lá sigo. Intentando, entre sol e calma, encontrar um novo rumo. Entenda-se, novos contratos. Apenas jurídicos, claro.
Tirando a oportunidade fortuita de ter uma desculpa para uma espécie de apresentação de cumprimentos anuais a quem de outro modo basicamente nada se disse durante todo o ano, já há muito tempo que não gosto do circo do Natal. Gasta-se dinheiro demais basicamente em coisas que de outro modo ningém no seu perfeito juízo compraria e muito menos ofereceria – e para isso já temos aniversários, sendo que o meu, em Janeiro, vem logo a seguir ao Natal, o que em termos logísticos me deixa em overdose nestes meses e depois em descanso obrigatório durante os restantes dez meses do ano.
Camarões tigre e bacalhau com natas misturado com bocados de camarão - uma novidade da Patroa
Além disso, apesar de ser tudo divino, nesta altura há comida a mais para tão pouco tempo. Eu gosto de comer tanto como qualquer pessoa, mas gosto de comer bem comedidamente. Hoje já não há nada de comedido na altura do Natal. Os jantares são de arromba e a casa transforma-se temporariamente numa pastelaria conventual de tal forma que constitui um perigo para quem não pode ou não deve comer uma série de coisas e que tenta manter um nível de peso normal.
Mais importante, o episódio do Natal ilustra de forma singular a evolução das relações familiares (nenhuma, alguma ou muita) e a entrada do consumismo ao nível familiar.
Normalmente, se as relações familiares não são de comentar durante o ano, no Natal tudo de alguma forma se exacerba – o bom mas especialmente o mau. Eu, infelizmente, sempre fui particularmente sensível ao mau, que tende a contaminar o (pouco de) bom. Um gesto, uma palavra, uma atitude basta, para me fazer pensar que tão bom seria se eu estivesse, em vez de naquele convívio meio forçado, a pescar sózinho com um esquimó no Pólo Norte e a falar do degelo glacial. A ocasião acaba por ser o mesmo que durante o resto do ano, só que mais assim e com as pessoas e as situações à nossa frente para o confirmar.
Quanto ao consumismo, representado pelos “presentes” que se dão e recebem nesta altura, pelo menos no meu caso, já há muito tempo que se passou daquilo que eu considero razoável, e tenho a impressão que isso se passa com muita gente. Para além do caro, do supérfluo, do inútil, do despropositado e do exagerado (os miúdos tipicamente recebem um absurdo em termos de brinquedos, gadgets e equipamento electrónico), muita gente gasta o que não tem ou o que não deve nestes tempos incertos, num frenesim que no fim de contas não passa disso – uma espécie de febre que passa depressa.
Imagino que para muitos crentes cristãos todo este carnaval deve ser no mínimo desconcertante.
As boas notícias é que isto passa sempre e que acabamos por sobreviver este regurgitar colectivo mais ou menos como dantes.
Portanto, mais do que desejar aos exmos leitores que tenham tido um bom Natal, mais desejo que o tenham sobrevivido.
No meu caso, passei uma boa parte do meu tempo quietinho a criar uma coisa chamada The Delagoa Bay Company, um pequeno blogue sobre desporto de Moçambique e de “moçambicanos” quase todo antes da independência. Quase tudo só fotografias, do que apanhei dos tempos, desavergonhadamente incidente sobre o velho Grupo Desportivo Lourenço Marques. Mas tenta ter um pouco de tudo, desde imagens do Frank Martiniuk a meter um cesto pelo Desportivo, à Dulce Gouveia nos seus tempos de combate na piscina e no campo de basquetebol, e ao Mário Albuquerque a encestar pelo Sporting Clube de Lourenço Marques.
E acima de tudo tive o raro e grato prazer e a honra de ter pessoalmente oferecido ao JPT, Senador do Maschamba, as prendas que lhe eram devidas. Que foram reciprocadas com duas magníficas obras, uma delas da sua autoria, sobre Moçambique, o ficheiro dá pelo nome de pimmentel2003 mas a obra dá pelo mais prosaico título de Matuga no Mato: imagens sobre os portugueses em discursos rurais moçambicanos. Leitura de Natal neste blogue.
Esta, sim, uma ocasião de festa.
O pai Natal entrega uma dose de Reserva Sporting para o JPT enfrentar o resto da época futebolística do maior clube de futebol português a usar a côr verde
Agora tenho que me preocupar novamente com as coisas comezinhas da vida, tal como a enorme destruição que o temporal de alguns dias atrás trouxe ao meu reduto no Ribatejo, em que telhados, muros e árvores voaram com os ventos sentidos naquela zona.
Como dizem os franceses, Ah, la vie est belle mais les hommes dont cábe delle…
Lembram-se do Filipe da Mafalda? Aquele miúdo dentuça sempre com uma enorme angústia, que odeia os trabalhos de casa e que não sabe bem como se posicionar na vida? Pois nestas questões como a dos minaretes suíços é assim que me sinto – filipovada!
Se bem entendi, o referendo foi exigido pelo Swiss People’s Party de cariz nacionalista, que vê nos minaretes “o símbolo de um crescente poder político Muçulmano que poderá um dia transformar a Suíça numa nação Islâmica” (?!?!?!). Embora tal receio me pareça absurdo e eivado de xenofobia, acho que os suíços têm o direito de terem os medos que escolheram ter. Tal como acho que têm o direito de decidir o que põem ou não põem no seu país, quer agrade ou não aos outros. A democracia tem destas coisas e ou bem que se assume que o povo sabe escolher e se consulta em eleições e referendos; ou bem que se assume que o povo pouco ou nada sabe e, portanto, ignora-se e governa-se.
Pessoalmente acho que estão a dar tiros nos pés e que os receios de hoje semeiam os terrores de amanhã. Tem JPT razão quando menciona as questões importantes que este tema levantou, mas eu continuo filipovada! O que subjaz nisto tudo é a demonização de uma religião julgada exclusivamente pela lente do fundamentalismo, da burkha e da excisão feminina. É assim como julgar o catolicismo exclusivamente pela lente da inquisição. E neste processo também nos esquecemos que nos anos 70 o terror era irlandês, alemão e italiano; e que os MacVeighs actuais são evangelistas; e que cristãos e católicos também promovem a imposição do seu credo com as suas missões. E enquanto nos vamos esquecendo disto, esquecemos os milhões de muçulmanos que connosco convivem pacificamente e que cada vez têm menos espaço para expressar a sua dissidência. E assim alegremente, de amnésia em amnésia vamos radicando e fazendo radicar identidades e alimentando o fundamentalismo que tanto criticamos e receamos.
Clamamos agora que esta proibição é um atentado à liberdade religiosa. Mas a proibição dos minaretes não se estende à proibição de mesquitas (estas sim local de culto) que, de qualquer forma, já existem mesmo sem minaretes. E que, a proibição da construção de minaretes não implica a interdição da liberdade de culto que, neste caso, se pratica na mesquita e não no dito minarete. Minarete esse que nem existia nas mesquitas primordiais e continua a não existir em muitas das mesquitas modernas. Aliás a função do minarete é proporcionar um ponto alto de onde se possam chamar os fiéis para as orações. Assim como os campanários e os sinos nas igrejas de outras denominações religiosas e que em Portugal, por exemplo, tanta arrelia têm dado em certas freguesias. Gente haveria que certamente até votaria contra a existência dos campanários e dos sinos, houvesse ele um referendo semelhante em Portugal. E fosse ele assim, queria ver se a ONU e as Amnistias e os iluminados deste mundo também se pronunciariam sobre a intolerância das nossas beatas ou dos nossos médicos. Mas isto sou eu, claro!, que até sou parcial porque se me perguntassem, preferia mil vezes ser acordada pelo muezzin com a chamada do Ezan do que com o Ave-Maria fanhoso que pontua as badaladas horárias dos campanários das nossas igrejas:
Não sei quem são os dissidentes, críticos, apoiantes, delatores ou promotores deste debate do achobem/achomal, mas vistas bem as coisas apetece-me perguntar: “anda tudo parvo?” Desde quando é que a empena de um templo equaciona liberdade religiosa?
Quanto ao referendo, acho que os Suíços estão de parabéns! Parece-me muito bem que se façam referendos mesmo para questões que possam ser consideradas triviais; sempre é melhor que ir-se reduzindo a cidadania e a participação democrática ao acto eleitoral. E achava muito bem que por aqui se fizesse um referendo sobre a construção da bendita igreja do Restelo, cujo design me parece mais apropriado para um casino temático em Las Vegas, sei lá, com o nome de Noah’s Flood ou Biblical Waters, ou qualquer coisa no género. Senão soubesse melhor, diria mesmo que o projecto teria sido concebido pelo Sol Kerzner na ressaca de um episódio epifânico. Mas hey!, isto sou só eu; pelos vistos há quem goste! E já agora, o que está planeado para aquele campanário que tão alto se elevará sobre Lisboa? Uma aparelhagem capaz de atirar decibéis até Moscavide? E não acham que o campanário até parece um minarete disfarçado? Será que vem aí uma conspiração de surdos ou estará aqui o símbolo de um ecumenismo incipiente?
PS: Não querendo estragar a festa de anos da Maschamba tinha agendado este post, tendo-me esquecido no processo da diferença horária. Por lapso o post acabou por ser publicado ainda estava eu a editá-lo, facto para que fui alertada por ABM. Está agora acabado. Portanto, se já viu este post por aqui ligeiramente diferente não foi um poltergeist que invadiu o seu computador.
Há muitas reacções sobre o assunto. Algumas laudatórias e/ou contextualizadoras. Outras, a maioria, críticas da intolerância revelada. Não posso deixar de opinar sobre o que acho mais interessante deste episódio: mais uma vez são exactamente os sectores euro-ocidentais mais intolerantes para com a “cultura” euro-ocidental que mais defendem a tolerância para com a “cultura” exo-euro-ocidental.
Um paradoxo nada simples? Nem tanto, apenas a perenidade do “remorso do homem branco”. Em plena era neo-comunista, com todas as suas necessárias reformulações.
Sobre a tolerância democrática? A liberdade de culto religioso? O processo histórico que os originou? Os processos de formação e reprodução das identidades culturais e fisionomias políticas? Tudo questões importantíssimas. Mas questões a abordar independentemente dessas vertentes. Porque elas são, pura e simplesmente, poluentes. Nascidas e ornamentadas do culto contra a tolerância e a liberdade. Apesar das retóricas.
(maquete da futura Igreja católica no Alto do Restelo, em Lisboa)
por ABM (Alcoentre, 23 de Novembro de 2009)
Tenho assistido com algum indisfarçável gozo, ao aparecimento, no discurso público, das críticas à construção de uma igreja católica nova no Alto do Restelo, a coliona que se situa mais ou menos por detrás da Torre de Belém em Lisboa.
A maquete do que vai ser constrúido, e que foi oferta dum arquitecto chamado Troufa Real, está ali em cima.
O futuro edificio é suposto evocar Francisco Xavier, um Navarrense (em sua vida, viu desolado o Reino de Navarra ser absorvido por Leão e Castilha, onde ficou até hoje) que deambulou pela Europa e que com Inácio de Loyola e mais uns compadres fundou a Companhia de Jesus (uma espécie de Opus Dei que depois foi corrida a pontapé de Portugal), até que o então Papa o despachou para Lisboa e o colocou ao serviço de João II, que queria espalhar a fé pelos nativos nos vários cantos por onde os seus súbditos andavam a fazer pilhagens e negociatas.
A caminho de Goa em 1540, Xavier permaneceu durante seis meses na Ilha de Moçambique, por causa dos ventos adversos. Consta que gostou e até quis ficar em África a pregar mas o capitão do navio em que seguia disse que as instruções do rei eram para o colocar em Goa e ele lá foi.
Nos doze anos seguidos, Francisco de Xavier andou um pouco por toda a parte a tentar pregar o catolicismo até morrer em Dezembro de 1552 de um “febrão” num buraco qualquer na China onde os portugueses comerciavam. Depois de uma série de peripécias, os seus restos mortais (menos um osso, que ia para o Japão mas ficou em Macau) foram faustosamente depositados numa igreja em Goa, onde estão. Desde 1622 que é um santo da Igreja Católica e o padroeiro dos missionários.
A maior parte dos portugueses pensam que ele era português. Pois.
Bem, com esta inspiração do São Francisco Xavier, baseado aparentemente na ideia peregrina de que haverá uma relação entre a colina por detrás de onde fica a Torre de Belém e os Descobrimentos dos portugueses e os seus esforços de evangelização, o arquitecto concebeu uma igreja que é suposto ser uma nau a navegar nas ondas e quanto ao minarete acho que perdi algo na explicação. Com 100 metros de altura (altura do Prédio de 33 Andares na baixa de Maputo) promete ser um mamarracho dos antigos. Talvez bom para alugar às empresas de serviços telefones móveis pois a cobertura da zona será excelente e sempre daria uma renda à igreja. Como se não fosse suficiente, o nosso arquitecto, que parece rivalizar com Tomás Taveira na criatividade, juntou-lhe as cores garridas que se podem ver na imagem acima.
Admitamos que aquilo parece mais uma igreja revivalista-africanista-adventista em Las Vegas que uma igraja para Bétinhos do Alto do Restelo.
Mas – hey – quem sou eu para fazer mais do que escrever o que penso e subscrever (a convite do meu cúmplice em matérias de arquitectura, o Dr Nuno C Mendes) uma destas coisas muito em voga na internet estes dias – um abaixo-assinado electrónico no feicebúque?
O que considero curioso é que pelos vistos, apesar de Portugal estar pejado de igrejas e afins, não há uma decente no Alto do Restelo, um recanto chiquérrimo e abastado que baste da Cidade de Lisboa. Numa entrevista ao prestigiado Correio da Manhã de Lisboa (não o de Maputo, que é do Refinaldo Xilengue) o padre local, António Colimão, refere que aquela zona fora autonomizada da paróquia de Santa Maria de Belém (lá em baixo) e as missas andavam a ser celebradas num (que horror) barracão. Por isso falou com o Troufa Real e com a sua congregação, que deslindou uns míseros três milhões de euros, sacou um terreno grátis da Câmara Municipal de Lisboa e deitou mãos à obra. Aquilo levou uns dez a quinze anos até chegar agora à fase da construção.
Por isso, o bom padre não entende bem porque é que as pessoas agora deram para contestar a obra.
Bem, senhor padre, talvez seja porque ninguém realmente tinha olhado a sério para a sua catedral xaveriana à estilo de Macau/Las Vegas, não é?
Claro que a Igreja Católica Portuguesa vive um dilema em Portugal. Como referi, o país está repleto de edifícios religiosos, alguns com quase mil anos ou mais. Mas hoje estão todos nos sítios errados e efectivamente são mais museus e monumentos que igrejas. Não são locais conducivos à partilha da fé e do convívio que se pretende e se espera no Século XXI. A maior parte são frios, escuros, pouco funcionais. Custam um balúrdio obsceno para manter e para pouco mais servem do que oficiar missas, casamentos, baptizados e funerais. Nestes dias, mais funerais que outra coisa.
Acresce que, especialmente nos últimos quarenta anos, tem havido grandes alterações na localização da população, que se urbanizou em redor de Lisboa e do Porto. No vasto subúrbio destas duas cidades, há poucas igrejas, enquanto que nas zonas rurais é quase uma em cada esquina, e todas às moscas. Em Alcoentre City, por exemplo, há várias igrejas, frequentadas por meia dúzia de beatas e apenas um padre, que corre as capelas regularmente (até há pouyco num Audi A4, wow) a dar uma missita aqui e outra ali. Aliás, nunca lhe pus a vista em cima uma vez em 20 anos, o que diz muito dos tempos que correm, pois antigamente o padre da paróquia era um membro visível da comunidade (as minhas fontes revelaram-me confidencialmente que Alcoentre agora tem um novo padre, igualmente invisível).
Portanto que o Sr. Padre do Alto do Restelo queira ter a sua igreja é perfeitamente normal. Agora, não se surpreenda que as pessoas achem que o que vai ser construído pareça um casino chinês de Macau em dia de festa de fim de ano.
Dizem-me que Deus perdoa tudo, mas não sei se vai deixar esta passar.
Sobre sida, preservativos e a hierarquia católica, em particular o Papa, abaixo estão alguns textos. Expressando também o espanto por forma e conteúdo das declarações do Papa em África terem sido tão bem acolhidos – recepção que ecoa, por um lado, a máxima “o respeitinho é muito bonito” e, por um outro, o facto de muitos muito falarem mas só do pequeno mundo que lhes é a paróquia (ou até mesmo a mera sacristia).
Para esses, “respeitadores” (até os da vertente “multicultural”), será interessante olharem-se nas declarações do bispo de Viseu sobre o preservativo. Pode ser que aprendam algo. Sobre eles próprios.
Acabo de ver em diferido. No último minuto do último Quadratura do Círculo (aqui audível)António Lobo Xavier, com extrema ponderação a dizer o fundamental, o necessário sobre as afirmações do Papa relativas à utilização do preservativo no combate ao sida. Como é óbvio, sem ponta de anti-clericalismo ou fundamentalismo ateu. Ou do seu pobre inverso, o catolicismo de barricada. Livre pois de reaccionarismo cultural. Apenas clarividente. Cosmopolita.
Aos críticos das declarações do Papa sobre sida e preservativos, nesta sua deslocação a África, Francisco José Viegas chama “flibusteiros” e alarves, Paulo Pinto Magalhães considerou ineptos, e Vasco Pulido Valente resolveu-os histéricos. São exemplos de conhecidos bloguistas, entre tantos outros, ecoando o impacto da questão em Portugal.
Haverá dois níveis da análise disto:
1. o rasteiro, à imagem da argumentação alheia. Vasco Pulido Valente resolve a questão, largando a típica superficialidade que tanto lhe aplaudem: “Muito pelo contrário, do ponto de vista dele [Papa], era ali, numa situação extrema e manifestamente ambígua, que devia reafirmar o que julga ser a verdade.”
A inteligência da afirmação é totalmente similar a alguma que defenda as afirmações da Nobel da Paz Wangari Maathai que considera ser o sida uma criação europeia (aliás, branca) para destruir África. Ou que defenda o cardeal de Maputo quando este considera que a epidemia é espalhada propositadamente pelos países europeus, por via de medicamentos e preservativos. Pois se acreditam nestas verdades não têm eles o direito (até mesmo o dever) de a divulgar? – dir-se-á que são meros dislates, que não são comparáveis. Há provas científicas disso? Ou, tal como eu, crê-se que são dislates?
Ou serão eles criticáveis e o Papa acriticável? Ainda infalível ou como se tal, mero vestígio simbólico dessa velha crença dogmática?
Mas isso não é o fundamental sobre estas declarações generalizadas.
Esta aparente evidência, e recorrentemente afirmada (já de si muito discutível, pois na prática é um mero avatar da invectiva à laicização, mesclado com a velha utopia da idade de ouro passada) demonstra exactamente de que falam e do como falam. Na prática não interessam os assuntos tratados. Estes são apenas matéria para discorrer sobre a tal sociedade (a própria, como é óbvio). E, nessa, proceder ao constante jogo topológico: se num outro blog, outro partido, outro jornal, outro grupo, alguém favorece ou contraria algum facto, então urge contrapor, vincar as posições mútuas, o inter-distanciamento, a inter-dependência. Ser.
O real, esse, interessa apenas para o jogo. Que não é mera retórica. É, afinal, o só real.
3. Finalmente. As declarações do Papa em África sobre o preservativo são marcadas por contextos comunicacionais (que começa – e isto para os do “anti-intelectualismo”, que gostam de gozar com o que não lhes cabe na algibeira – pela simples opção da língua em que fala), neste caso estrondosos. E por um contextos interpretativos. Nesse sentido os seus efeitos (que são procurados, estrategizados, claro), as suas traduções, não são os de uma paróquia burguesa portuguesa.
Quem incompreende isso, quem não quer atentar nisso, esse sim é um inepto, um histérico verborreico. Um pirata.
O Papa está em visita a vários países africanos, tendo-se referido à questão do sida. Sobre isso escreveu João Gonçalves [I, II] e em ambos deixei comentário.
Os blogoanos passam e só me resta repetir-me. Sobre sida o que me ocorreu já aqui está.
Telejornal português de ontem. Peça sobre a religião e a campanha presidencial americana. Ali relatada a figura dos “directores de fé” dos candidatos democráticos (juro que ouvi. E que não consumo psicotrópicos, apenas analgésicos para a ciática). Ali ecoada a realidade de que estes candidatos se referiram à religião já por centenas de vezes. Ali retransmitidos trechos de entrevistas de ambos: Clinton afirmando que tem vindo a estar, várias vezes, com o Espírito Santo; Obama, veemente, dizendo (é certo que com nuance retórica) que o que está escrito na Bíblia corresponde, substancialmente, à verdade. Depois a jornalista remata dizendo que à direita McCain pouco fala de religião (não infirma a presença de um “director de fé”, apenas deixa presumir).
As “esquerdas” africanas e europeias – racistas e genderistas – nem comentam. Blog para que te quero? A imbecilidade pega-se? Nada – é mesmo mera desonestidade intelectual. Em alguns, concedo, o desejo de não envelhecer, de flanarem nas aparências de hoje. Mas nada mais.
1. Das medicinas privada e pública. Na privada (sul-africana) douta opinião do tira-tudo, acompanhada da lista de honorários – nem grande coisa diga-se. Na pública (santa terrinha) douta (e fraterna) opinão do espera-e-não-tira, sem honorários claro. Os óbvios malefícios do Serviço Nacional de Saúde. [O casal paterno, talvez porque óbvio socialista, tira nada.]
2. A Exclusive Books [entenda-se, a hiper-FNAC lá do sítio] de Neilspruit é melhor do que a Brooklyn Mall (Pretoria) e quase do que a de Sandton (JHB).
Onde vive a “elite” de lá, afinal em Trás-os-Montes?
5. Maputo (no regresso, mas antes também). No BB (belo blog) Solvstag cita-se Miguel Esteves Cardoso. Ler e comprovar que no Shamwari (ao talho Polana) se serve a melhor cerveja de pressão (aka “imperial”) da cidade.
6. Maputo (no regresso, a ler e ouvir de Portugal). O meu ex-Presidente (e por isso sempre respeitado) Pedro Santana Lopes muito bem, baldando-se por ter sido trocado pelas malas da família Mourinho. E a minha surpresa com alguma da muito minha gente a não perceber, tamanha lhe é a clubite rosa, de que se trata mesmo da “a infantilização assassina que nos assola como uma praga …”, diga-se neste caso a futebolização.
7. Maputo (no regresso, a ler e ouvir de Portugal). Por falar em bola, eis o sossego da sociedade civil, a “auto-estima” lusa, a exigir outro Trapattoni “campeão”. O apito rubro? Sócrates (o inventor dos dez estádios do Europeu, então o arauto da sociedade [da construção] civil]) agradecerá.
8. Maputo (no regresso, a ler e ouvir de Portugal). Mentira pura nas palavras de Ruben A. Há imensagente que atende o telefone. Portanto, pois …
[ainda que ... em estando gravado se poderá dizer "nada de novo sob este céu" - os brancos de tudo têm culpa (sua condição semi-divina, dir-se-ia); e o preservativo como a arma do deboche não-marital. É o pacote habitual, amancebando-se (não sacramentalmente, já agora) com as ideias populares, de que é na camisinha que mora a doença e que são os brancos que a trouxeram para ficarem com estas belas terras. Contudo a Terra move-se, ainda que a Igreja Católica se atrase.]
10. E falando de coisas bem importantes. “Old age”, diz-me o mecânico, meneando a cabeça até pesaroso, face às múltiplas mazelas do meu
No Nação Coragem um raro texto sobre a Igreja Maná, essa “curiosa” empresa propriedade de um português daqui oriundo. A qual vem passando ao lado da atenção geral, para seu lucro.
Uma das características do crescente bloguismo em Moçambique é a inexistencia de picardias inter-blogs, uma placidez que tambem vem de quase todos se conhecerem, ate via vizinhanca e amizade. Ainda bem.
Mas quando Carlos Serra eleva o extremo normativismo que vem habitando o seu blog ao ponto de dar ordens a deus (“Nenhum deus tem o direito de excluir quem quer que seja da sua casa.”) eu, ainda que sendo ateu, confesso que tenho saudades do “porradismo bloguistico” que vigora na minha terra.
Ja agora, Serra da tambem instruções ao bispo de Maputo: “Assim, D. Francisco Chimoio, crítico tenaz da homossexualidade, deve aprender a levar os homossexuais a gostar da Bíblia. E de Deus.”. Eu, nao catolico (e ateu) dispenso-me, apesar de dela poder discordar e criticar, de instruir a hierarquia catolica. Mas aceito que um catolico, nessa condicao (e so nessa condicao – a igreja catolica nao e’ vinculativa, portanto todos podemos opinar mas nao podemos exigir) se arrogue ao direito de o fazer. ‘E nessa condicao catolica que vejo o esclarecido Serra intervir neste tom. Que quero ver, melhor dizendo.
Mas se assim for, espanta-me esta originalidade teologica. A de um bloguista ordenando a Deus (maiscula apropriada a quem nele cre) o que fazer.
Uma estatua da Virgem, ao centro da praca, fronteira a igreja. Algo absolutamente inusitado em Mocambique. Dizem-me que duas vezes por ano ha procissao, desde a Matola ate aqui, Namaacha. A visitar, claro.
Manchester City-Charlton, do 1-0 ao 3-1 terão sido uns vinte minutos enquanto pouco-almoço tardio em pós-grande piscina. Se já 3-1, e eu pouco atento, então zapo e na RTP-I, essa do meu Estado, em directo de Fátima, uma entrevista a um cidadão português que se auto-proclama mais-que-todos-os-outros, Duarte Bragança de seu nome. Ele ali, sob que critério nunca sei, bem como tantos outros da televisão pública, todo o dia acompanhando o caixão dessa antiga pastora Lúcia. Um concentrado da indigência, da indigência estatal, da demissão radical.
Que as pessoas acreditem na religião, pronto, que fazer? Que acreditem num deus construtor mais-ou-menos à imagem do homem, pronto, que fazer? Que acreditem que esse tal deus construtor mais-ou-menos à imagem do homem engravidou, por meios espirituais, uma mulher judia há uns milhares de anos, pronto, que fazer? Que acreditem que um judeu qualquer era “filho”, germinado, de um deus construtor mais-ou-menos à imagem do homem, pronto, que fazer? Que acreditem que desde então essa senhora, Maria, entretanto falecida, se dedique a acompanhar e a visitar este vale de lágrimas, pronto, que fazer? Que acreditem que, entre as centenas ou milhares de vezes que se diz que a tal senhora apareceu às pobres gentes, algumas são verdadeiras e outras não, pronto, que fazer? Que acreditem que uma dessas verdadeiras aparições da entretanto falecida mãe-virgem do filho do deus construtor mais-ou-menos-à-imagem-do-homem foi aos três pobres patetas indigentes em Fátima em 1917, pronto, que fazer? E que as pessoas desde então se juntem em Fátima, umas de rastos, umas de rojo, outras como muito bem querem, porque as tais criancinhas, contrariamente a tantas outras, viram mesmo a tal senhora fantasma, mãe virgem do filho do tal deus contrutor mais-ou-menos à imagem do homem, pronto, que fazer? Eu posso desprezar profundamente, e desprezo, os aldrabões do clero que promovem estas crendices mais rasteiras, mas pronto, que fazer?
Agora que a tv do meu Estado, laico, laico, passe um dia a transmitir o transporte do caixão de uma velha freira, enquanto apela explicitamente (“estamos a transmitir para todo o mundo”) a que a igreja católica promova a pobre velha lá na sua enciclopédia dos mortos ilustres, já fia mais fino. Que a tv do meu Estado, laico, dê entrevista neste contexto, como se reforçando a tralha, a um pobre homem que se entende mais-que-todos-os-outros, a ele legitimando e não contrários, isso fia mais fino.
Isto é um concentrado de indignidades, um compêndio de imbecilidade? Não só, isto é um projecto, explícito, pensado. Tem causa e causas. Que os pobres crentes acreditem naquelas-tralhas-todas tá bem, que fazer?, pobre gente procurando coito. Que o meu Estado promova tamanha indigência, que passe da notícia ao apoio, então há que fazer. Afrontar de imediato essa cáfila de obscurantistas. A tralha das crendices. E também a tralha monárquica, sempre lá atrás aquando destes estercos.
Há, definitivamente, que impor limites a esta ditadura do multiculturalismo, do relativismo. O facto de pobres gentes seguirem estas crendices, o facto de más gentes promoverem estas crendices, não é razão para que um Estado laico as aceite, as promova, se torne ele próprio arauto de crendices, negue a sua história e a sua doutrina.
Urge a demissão dos responsáveis da rtp. Obriga-se a queda do seu responsável ministerial. E, ou será demais?, exige-se uma desculpabilização do seu responsável-mor.
Quando aqui entro tiro o chapéu. Será isso nova demonstração do meu cobarde relativismo e infecto multiculturalismo? Ou, bem pelo contrário, demonstração de dogmatismo fundamentalista, crente que sou de que apenas um inferior imbecil ignorante não se descobre em encontrando tecto (excepto, claro, se uniformizado)?
Abaixo deixei que me repugna o proselitismo. O das minhas ideias e o das outras. Ele vai-se encontrando, muito quase constante. E muito nesta última semana.
No blog-em-blog sobre New Orleans lá se ouve o troar dessa qual seita evangelista: a desses que acreditam, com vigor, que a sociedade não existe. Crendo na solidão, pureza, do indivíduo, e na inexistência de algo específico que brote da sua associação em grupo. Dizem-se “liberais”, e sê-lo-ão à sua maneira e suas leituras.
Nestes mesmos dias aqui aconteceu a campanha de vacinação. Em Sofala e Tete, principalmente, soou forte a igreja de Joahn Marangue. Apelando aos seus seguidores, e muitos são, a que não fossem vacinados. Mais radicais ainda que Testemunhas de Jeová, e outras igrejas, no que ao manuseamento médico do corpo é permitido. Crendo numa solidão, pureza, do indivíduo, do seu sangue, e na inexistência de algum bem que advenha da sua transfusão ou enriquecimento. Dizem-se “cristãos”, e sê-lo-ão à sua maneira e suas leituras.
O esclarecimento das pessoas fiéis a este tipo de seitas é sonho velho, antes dito “iluminismo”, coisas de quem ainda persegue o “desencantamento do mundo”, no fundo um “optimismo pedagógico”. Ideia, talvez sonho, dita “modernidade”. Hoje, tanto falhanço nesse caminho, tanta crítica já feita, é tempo de deixarmos esse sonho, talvez mera miragem, é tempo do que alguns chamaram “pós-modernidade”.
É tempo de saber que temos que viver com estas seitas, ser um pouco relativistas, eu diria que temos que professar um multiculturalismo matizado no aceitá-las. E nisso até aceitarmos o seu proselitismo, sempre exarcebado, coisas de quem crê, violenta e acriticamente. Pois o bom crente não interroga.
Ser assim consciente de que estas seitas, liberais ou cristãs (e outras que por aí pululam) não se limitam ao obscurantismo. São-no é certo, mas também têm um lado positivo, reconfortam os indivíduos. Guiam-nos, enquadram-nos, dão-lhes um sentido para a vida, uma “visão do mundo”, algo sempre precioso, particularmente em tempos tão conturbados. Se pacíficas nos seus objectivos e práticas devem-se aceitar. Integrar.
E, nessa integração, devemos aprender. Algo sobre essas gentes, sobre as suas ideias mas acima de tudo seus anseios, decerto algo legítimos, ainda que traduzidos neste tipo de discursos. E nesse esforço de compreensão, tradução, talvez possamos conseguir transmitir algumas ideias, nem tanto valores mas pelo menos práticas. Que vacinar é fundamental, que uma transfusão de sangue é importante, que a sociedade existe e influencia, que o preservativo protege. Coisas assim.
Sei que, de certa forma, isto é o regresso do “optimismo pedagógico”. De uma qualquer “modernidade”. Ainda que muito humilde. Mas ambicioso, a ambição dos pequenos passos. Crendo, claro. Com a crença que “isto” pode melhorar. Apesar de parecer obscuro.
O potentado Igreja Maná, o qual ao que consta irá adquirir posição de relevo na televisão portuguesa TVI, é uma criação de um português originário de Moçambique, Jorge Tadeu, do qual há ainda gente que se recorda.
Aqui perto tem um grande centro, em Whiteriver, Mpumalanga. Ao que consta a sua dimensão excede a da célebre IURD. Tudo isto em cerca de 30 anos, obra de um homem. Sem dúvida, uma grande capacidade empreendedora.
“In Britain it has been widely noted that Muslims originating from Pakistan in South Asia have in recent years stressed their Islamic identity, distancing themselves from a more neutral “South Asian” racial and cultural ascription, from a politically activist “black” self-labelling, and, most recently, from a nationalist identification as “Pakistanis”. I wish to argue here that this apparent identity shift disguises a continuing tension between different dimensions of a complex cluster of personal identities. Islam, as “high culture” to be defended to all costs, cannot suppress popular cultural traditions rooted in the South Asia and Pakistani nationalist origins of immigrants and their descendents.”
[Pnina Werbner, "Our Blood is Green: cricket, identity and social empowerment among British Pakistanis", Jeremy MacClancy (org.) Sport, Identity and Ethnicity, Oxford, Berg, 1996]
Ao meu textoRodrigo Moita de Deus dedicou uma nota. Respondo, já atrasado, até fora de moda, que isto de dialogar com blogs colectivos é difícil, ainda para mais se atentarmos na azáfama que vai no Acidental.
Sobre Buttiglione pouco poderei avançar. Acho que a questão é política e não religiosa mas isso já foi escalpelizada até ao queixo, para quê insistir? Concordo com RMD que muitos políticos separaram a religião do exercício do poder (e alguns até em termos absolutos, infelizmente, que há sempre uns mandamentos que conviria não esquecer). E nada tenho contra gente de fé a exercer o poder: o maldito “motor de busca” não me dá acesso às minhas falas de ateu, mas não me vejo numa “condição ateia” face à política (ou a outra coisa qualquer). Mas desconfio de quem se vê numa condição religiosa face ao poder. Mas lá está, isso não é sinónimo de um religioso no poder.
RMD citou Guterres e eu resmunguei. Diz ele que embora católico pouco praticante também se teria ajoelhado face ao Papa. Nem contesto. Eu próprio, ateu não baptizado comporto-me de modo diferente, mais grave, diante dos padres – sorrio ao exemplo, mas ainda há meses, jantando cá em casa com um padre bom amigo, homem especial de décadas aqui, saíu-me um “porra” ou “merda” qualquer, tão habituais me são estes, mas então fiquei atrapalhadissimo, a pedir-lhe desculpa, e o homem a rir-se num “ó zé, deixa-te disso”.
Mas eu não escrevi resmungo por António Guterres se ter ajoelhado diante do Papa. Eu escrevi resmungo porque António Guterres, primeiro-ministro da minha República, se ajoelhou diante do Papa. O que é totalmente diferente. E inadmissível.
Finalmente, e regressando a Buttiglione, apenas porque ele é a fonte desta questão sobre o papel dos católicos na política. Lamento que ninguém que dele se sinta próximo tenha por aqui passado para responder à minha irónica pergunta, serão as viúvas piores mães?
Mas insisto, agora sem ironia: a minha mãe enviuvou muito jovem, com três filhos. Assim viveu cerca de dez anos. Foi má mãe para os meus irmãos? Conviria trazerem-me a teologia para mo explicar. E um viúvo, a criar robots [robots na teologia?]?
Deixemo-nos de coisas, Buttiglione é apenas um ultramontano, anacrónico. De moral execrável. E não é o facto de se escudar numa “condição católica” que lhe apaga esse negrume, moral e intelectual (essa impiedade?). Ou seja, não serve para ser base de uma reflexão sobre as ligações entre a religião católica e a política.
E mais não digo, que se RMD já teme parecer beato também eu já entrevejo o anti-cristo no espelho.
Não acho a vida humana inviolável. Sobre ser ateuescrevi, o que me impediria de a sacralizar. Nem proporia uma sociedade actual desprovida de meios de defesa armada.Repugna-me a pena de morte. Mas mesmo esse princípio, dos poucos que sigo, aceito violar. Porquê não abater Eichmann? Beria? Pol Pot? Apenas por princípio.
Mas não sou fundamentalista. Aos meus valores vivo-os incoerentemente.
Há dez anos (já?) cheguei a Moçambique e fui andando para o norte, boleias, chapas e mochila às costas.
Fiquei-me em Montepuez. Uma malako no restaurante do João, tempos em que não havia electricidade daí que cervejas várias e quentes para ganhar embalo, uma noite no Geptex onde, vá lá, havia água no balde. No dia seguinte visita à administração, “para saudar” e informar ao que vinha, e logo avançar à procura de aldeia onde viver. De preferência junto a estrada com carros, pois então ainda temia que a malária se pegasse fulminante. Mas antes, porque era obrigatório, visitei a célebre missão, padres holandeses há décadas no distrito.
Fui bem recebido, mas por aquele que era já o último, os outros três, velhos, tinham morrido recentemente. Todos de cancro, “se calhar contagioso”, ironizou o padre, alto, rijo nos seus cinquentas, bem-humorado. Lamentou não me ser muito útil, só tinha chegado há dois anos, depois de décadas de Zâmbia (ou Malawi, já não estou certo e o diário está em Lisboa). Os mortos, esses sim, tinham muitos anos daqui, este nem falava bem macua.
Foi buscar as cervejas, até quase frias do gerador, e discorreu sobre macuas e macondes, sobre o fim da guerra (recente então). Tudo ali na varanda, mosquiteiros remendados, casa pobre como sempre o são as missões. E por todo o lado bolas de futebol a remendar e equipamentos puídos. Surpreso indaguei o que era tudo aquilo, riu-se bem lá do fundo, e explicou-me o seu trabalho. A evangelização fazia-a pelo futebol, tinha organizado equipas de jovens em cada aldeia, transportava-as no velho 4X4 da missão e o campeonato lá se realizava: “a minha missão terminará quando Montepuez tiver uma equipa na I divisão nacional”, sorria, quase sonhador. Tal como eu, a ouvir-lhe o rumo, da passagem da ideia de entreajuda, da competição saudável, rasgando ainda um bocado de horizontes a todos aqueles miúdos encerrados em vidas de machamba. Já agora, mas já agora, ligava-os à missão, à sua fé católica, num “a Bíblia vem depois”.
Surpreendi-me, ali original e mesmo algo heterodoxo. Até pelo tom. Disse-lho e aí sim começou a falar, naquele tom irónico da desilusão que vamos aprendendo com a vida. Invectivando os erros da igreja católica em África, resmungando com um Vaticano tão cheio de certezas mas sem nada perceber das realidades, assim incapaz de perseguir os objectivos propalados. Ainda hoje o ouço, certeiro, eu cujo Vaticano é outro mas tão semelhante nas certezas enfatuadas.
E lá seguia ele, criticando o Papa e sua hierarquia, enquistados de rigidez. Sem sentirem os contextos locais e como neles trabalhar, ainda que com todos estes séculos de experiência de evangelização. Sem olharem com olhos de ver as possíveis misturas, numa fé católica ela própria feita de sincretismos outros e aqui apenas a exigirem serem actualizados. Incapazes de actuar na pobreza radical tão ricos se tornaram. E exemplificava com a atitude face à poligamia, que tanta gente afasta da igreja, e já me falava da Sida, num país então pouco alerta, que os refugiados estavam a chegar, carregando-a claro está.
Fiquei atónito. Ateu, ali recém-chegado e a escutar um discurso daqueles. Quase à saída confessei-lhe um “nunca pensei encontrar aqui um discurso destes”. Riu-se, olhos brilhantes, rematando como se tudo justificasse “I’m a dutch!”.
Nunca mais o vi, nesses meses seguintes procurei-o algumas vezes quando regressava a Montepuez mas sempre o desencontrei.
Todos estes anos passados fui até lá. Perguntei por ele, revisita que se me impunha. Alguém, até atrapalhado, disse-mo já partido, que tinha saído à pressa há coisa de dois anos. “À pressa?”, lamentei, logo lembrado do tal cancro (se calhar contagioso), “estava doente?”. Mas não, teve que partir, e diziam-no constrangidos, pois havia muitas queixas de pedofilia. “O Qué?”, recusei, sem poder acreditar, que agora todos o são, não pode ser mais que uma moda. Mas não, infelizmente não eram boatos, queixas muitas, a sua própria hierarquia o mandou embora.
Fico-me na minha desilusão. As belas ideias, a bela palavra. E, afinal, homem como os outros. Como nós.