Depois deste desenho que provocou a ira de alguns sectores islâmicos Zapiro respondeu. Em grande. Aliás, à Zapiro.
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Depois deste desenho que provocou a ira de alguns sectores islâmicos Zapiro respondeu. Em grande. Aliás, à Zapiro.
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Este desenho de Zapiro incendiou muçulmanos na África do Sul – em última análise comprovando o próprio desenho. E a discussão ainda vai no adro da mesquita. Na concepção dos adversários de Zapiro, o Conselho Judicial[?] Muçulmano, os crentes islâmicos sul-africanos tiveram um papel importante na luta pela democracia e liberdade de expressão e como tal não podem ser assim insultados. Temos assunto …
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por ABM (12 de Maio de 2010)
Em cima, cópia de vídeo de uma sessão de estratégia argumentativo-angariadora de uma equipa da Igreja Universal do Reino de Deus, creio que no Brasil, divulgada há dias e que terá sido gravada em Janeiro deste ano.
A abordagem dos sacerdotes (?) é um tanto predadora, mais que o “tá à pidir” habitual, mas enfim. Quem editou a peça obviamente aproveitou para arrear umas cacetadas.
Ainda que ateu de sofá é-me incómoda a visita de Bento XVI a Portugal em pleno centenário da República. Foi a I República, muito mata-frades, exageradamente elogiada, porque contraposição ao salazarismo? Com toda a certeza. Serão de louvar e festejar as violentas relações que então teve com a igreja católica? Não me parece. Mas a república tornou-se o regime político aceite em Portugal e tem uma superioridade intelectual radical sobre qualquer monarquismo (e nem sequer a comparo com a indigência arrivista e analfabeta dos ditos “miguelistas”, uma desova de gente a querer dourar os berços de palha avoengos). E na república se gerou, a mal muitas vezes, uma (abençoada) progressiva laicização do “mui católico” Portugal.
Por isso me parece de um grande mau-gosto revanchista esta iniciativa da hierarquia católica de levar o Papa a Fátima neste 2010. Poderia e deveria ter o Estado português, sem qualquer conflito diplomático, transportado essa visita para o ano seguinte. E porque a igreja trabalha a muito longo prazo nem poderia invocar a pressão dos calendários. Com essa negociação, simbólica, diplomática, sublinhar-se-ia o carácter importante, histórico e actual, acolhido mas sempre negociado da igreja na sociedade portuguesa e face ao seu próprio Estado. Mas este, os seus principais vultos, navegam desnorteados – e não apenas no que às finanças diz respeito. Um Presidente da República que sempre se simulou apolítico (um homem honesto mas encerrado nesta contradição de termos que muito lhe envenena o entendimento), um Primeiro-Ministro mero politiqueiro, homem da cabotagem de contrabando. E partidos cruciais degenerados. Também por esse desnorte se gerou esta tola tolerância de ponto para receber o Papa, uma simbólica adesão em completa contramão ao que um pensar político exigiria.
[Um desnorte que não é só da elite política. Junto vem, como muito bem diz Pacheco Pereira "À falta de anticlericalismo popular, há agora uma nova forma de anticlericalismo intelectual de parte da esquerda « fracturante ». [o que causa] … um surto de imbecilidade considerável“, também ele germinado na abstenção do poder político em demarcar-se (simbolicamente e não só) face à igreja. Um surto de tontice identitária que já aqui referi e que agora tem expoente máximo nesta patética “petição”. Que, mais uma vez, denota a truculenta intolerância e radical ignorância da falsa esquerda portuguesa, o reaccionarismo visceral (acima de tudo corporativo) dos seus defensores. Note-se bem na recorrência deste desvio linguístico: são exactamente os constantes defensores do dever de aceitação social das opções identitárias e do relativismo dos estatutos – da urgência em chamarmos Mohammad a um qualquer João pós-conversão mística, Maria ao mesmo João se assim decidida(o) ou “comandante Marcos” se ao mesmo João lhe der para isso – que insistem em negar, com paupérrima malícia, que o prelado Joseph Ratzinger se transformou em Bento XVI (ou 16). O que, como deveria ser óbvio, nega qualquer pertinência ao que vêm dizendo ou apoiando ao longo dos anos, dia-a-dia, em particular ess(t)es da verborreia bloguística.]
Mas o pior não é o furibundismo, intelectualmente descabido, dos letrados em estratégias pessoais identitárias lutando contra a homogeneidade. O sinal mais do desnorte ainda é este: Ricardo Rodrigues, deputado do partido do governo, recebe jornalistas nas instalações da Assembleia da República e com o escudo da (agora centenária) República por trás (inscrita na mobília, vejam o filme) rouba-lhes, “à má-fila” como antes se dizia, os gravadores. Inacreditável? Nem tanto. Pois os seus pares o consideram inimputável, porventura porque imprescindível ao país. E pior ainda, sobre este roubo cometido nas instalações às quais preside nada tem a dizer o próprio Presidente da Assembleia da República, segundo o qual “a relação entre qualquer deputado e qualquer jornalista é uma relação tão íntima, directa e insondável como a do confessionário“. Solidariedades étnicas, pois ambos açorianos, e muito dados a esses “regionalismos”? Ou a vigência, triturante, do paradigma eclesiástico, as coisas sendo realmente a resolver no confessionário, entre pecador(es), Deus e os seus homens? No segredo dentre-estes?
Honestamente deste tipo de gente que esclarecido comportamento poderíamos esperar? Antes o Papa que tal sorte …
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Sempre recebi essas mensagens, mas o facto de nos últimos meses ter aumentado a sua frequência, me levou a pensar mais sobre o assunto.
Antes, um pouco de contexto:
Apesar de toda uma educação formal nos bastidores moçambicanos da igreja católica colonial nos anos 60 – a igreja arqui-conservadora dos senhores cardeal Cerejeira e o então bispo Custódio Alvim Pereira, e de a mãe BM ter sido quase toda a sua vida uma católica dedicada, eu não sou religioso.
Nunca fui.
Simplesmente, nunca acreditei que existisse um ou mais deuses no universo. Não acredito que um ou mais deuses tenha passado mensagens transcendentais e códigos de conduta celestiais para que nós, que sobrevivemos precaria e perenemente à superficie da terra, nós, descendentes prolíficos de um punhado de austrolopitecus quaisquer que sobraram em África de uma qualquer série de razias naturais que em tempos ainda não identificados assolaram o planeta, possamos saber o que é isso de viver uma vida decente e moral, que saibamos o que é a diferença entre o certo e o errado.
Para isso, a razão, a moral e o bom senso bastam a maior parte do tempo.
Mais: qualquer pessoa, crente ou não, que leia um bom livro de história, rapida e facilmente constatará que da corporização e codificação das religiões ao longo dos séculos tem resultado tanto bem como mal.
Em nome das respectivas deificações e específicos paradigmas, cometeram-se as maiores carnificinas, as maiores injustiças, entre os seres humanos.
E se calhar evitaram-se males piores.
E também se fez muito bem.
Ao mesmo tempo, obrigo-me, por princípio, e na esperança de alguma reciprocidade, a respeitar quem acredita que existe um ou mais deuses e as mensagens que supostamente constituem a expressão do que essas entidades quererão que seja feito pelos homens que nelas acreditam. Faço-o primariamente pela constatação básica de que, normalmente, as religiões organizadas podem ser formidáveis catalisadores do bem para muita gente boa e moral.
Algo muito fácil para mim, que tive a relativa sorte de crescer e viver em países mais ou menos plurais política e religiosamente.
E, ao nível pessoal, também constato que muito boa gente aguenta-se psicologicamente perante os por vezes pesados desafios da vida por sentir que existe esse apoio que a sua religião presta.
Bom para eles e elas.
Onde a coisa começa a andar mal é quando este ou aquele crente, esta ou aquela religião, começa a sentir que a sua verdade é a única verdade universal, que se aplica a mim, e que quem não está com ela está contra ela.
Essa intolerância, que se expressa das variadíssimas formas, é perigosa e fomentadora de problemas. Muitos. Há quem diga que hoje em dia se vive mais uma confrontação entre essas visões do homem e do divino. Nalgumas,aparentemente ínfimas franjas destas audiências, resolve-se as disputas à bomba e em espectáculos de assassínios em massa, o palco os media cada vez mais interligados e globalizados.
Eu não escondo as minhas convicções, mas também não faço delas propaganda. Não está no centro do meu universo. A maior parte do tempo, estou calado.
E por isso não me surpreende nada quando, ocasionalmente, alguém que eu conheça relativamente bem me aborde sobre assuntos de religião, assunto que, de facto, estudei, ao contrário de muito boa gente, que fala do que não sabe.
Mas no mundo da internet, onde se trocam milhares de mensagens por ano, existe uma forma de propagação da fé que me tem vindo a ser encaminhada, por pessoas que até conheço bem, e que de certa forma me surpreende.
Com a recessão económica, constato que a sua frequência aumentou.
São aquelas longas mensagens, frequentemente apresentações de slides com música “celestial” a acompanhar, em que o autor (não necessariamente o emissor da mensagem, que apenas se associa pelo gesto de a re-enviar) me exorta a ler a palavra do seu deus, a fazer isto ou aquilo, com promessas de vida eterna feliz e a garantia de uma ida súbita para o inferno se eu não re-enviar a mesma dentro de x minutos para toda a gente que está registada no meu (parco) ficheiro de endereços de correio electrónico ou, ainda pior, se eu simplesmente apagar a mensagem.
Ora, por definição, eu sou quase absolutamente imune à evangelização religiosa exógena, venha ela de quem vier e sob que forma vier. E nos meus 50.3 anos de vida, já praticamente vi, li e ouvi tudo, desde a vigorosa proliferação das religiões mais estabelecidas até ao fenómeno da tele-evangelização inovadora, inventada nos Estados Unidos quando eu lá vivia, e que se foi espalhando pelo mundo, incluindo a sua explosão em Portugal nos anos 90 do século passado e em Moçambique a seguir.
Consistente com a minha abordagem ao assunto, não reajo. Não é algo que me concerne particularmente. Nalguns casos leio o que me é enviado, noutros não, e tudo apago. Discreta e respeitosamente.
Ao mesmo tempo, não entendo o fenómeno, que vem acompanhado de outros fenómenos menores de superstição organizada, astrologia, profecias do fim do mundo, etc. Pois não é assim que eu penso e se calhar apenas indica que quem me conhece, não conhece tão bem como possa parecer ao início.
Mas enviar algo deste tipo, que à partida presumo ser um assunto sério para quem envia, com a ligeireza com que por vezes assisto, é algo um pouco desconcertante. Pois, algo paradoxalmente, eu trato este assunto com pouca ligeireza.
Mais: será mesmo possível, hoje em dia, converter ou de alguma forma influenciar alguém, em termos religiosos, enviando uma carrada de mensagens com conteúdos religiosos, profecias, ameaças de inferno, promessas do cumprimento de desejos, etc?
Não creio.
Mas se o exmo. Leitor acredita nestas coisas, peço que re-envie nos próximos dez minutos esta crónica a quinze dos seus melhores amigos senão esteja certo de que as duas piores coisas que lhe possam acontecer na vida (escolha agora) irão acontecer nas próximas 24 horas, sem apelo nem agravo.
[João Bénard da Costa, Nós, os Vencidos do Catolicismo, Edições Tenacitas, 2003]
Edição em livro de um texto publicado no jornal Independente em 1997. Em registo de memórias pessoais fica o percurso de uma franja da burguesia lisboeta católica oposicionista ao Estado Novo, um núcleo que veio a ser conhecido como “católicos progressistas” (apesar do seu desgosto pelo termo), e do seu progressivo afastamento face à hierarquia católica, primeiro, e ao próprio catolicismo, depois. Um retrato de época muito interessante – e não só por aqui se encontrar traçada a juventude de inúmeras personagens que vieram a ser relevantes nas décadas seguintes na sociedade portuguesa. Também nisso denotando a influência que a igreja católica tinha à altura no país e na formação das suas elites.
Deixo três excertos. O primeiro, referente à juventude do autor, que poderá ser extrapolado (e que, porventura, ele-próprio terá extrapolado ao longo da vida) como visão do mundo bem para além do “cristianismo” a que se refere directamente, e que assim aborda a rábula do “lado correcto”, do raciocínio bipolar ainda hoje tão recorrente em Portugal; o segundo, que resume o incómodo sofrido por Bénard da Costa (e seu grupo?), teórico-teológico; e um terceiro que não escolho por qualquer anacrónica comicidade mas porque deixará entrever da justeza e pertinência de tantas das posições da igreja católica apostólica romana face à sociedade contemporânea:
“… cedo, demasiado cedo na vida, aprendi que as ameaças ao cristianismo não vinham de um só lado, mas de dois. Só aparentemente opostos.” (21)
“O Concílio – pensava eu nesse tempo – ao introduzir … a noção essencial de Igreja como Povo de Deus (completando o tradicional conceito de Corpo Místico) vinha dizer a cada cristão que cada um de nós era Igreja … contruída com pedras vivas, numa comunidade de pessoas em que Cristo era o factor unitário, o valor vital fundamental, a norma viva e o único princípio de autoridade. Esse factor, esse valor, essa norma, esse princípio, deixavam de residir na Hierarquia ou no Clero e passavam a estar em cada um de nós. Daí que eu alargasse muito o conceito, então em voga, de “fim do constantinismo”. Em vez de ver nele, apenas, o fim da identificação da religião com o Estado ou o fim da identificação do cristianismo com uma civilização, eu via também na expressão o fim da identificação da fé individual com a fé na Igreja, o fim de uma visão dela como superestruturaa, que envolvesse, protegesse e sustentasse cada um dos seus membros. Secularmente, a Igreja abrigara-se sob a protecção do Estado para se defender. Secularmente, também, o cristão abrigara-se sob a protecção da Igreja com idêntico intuito. Chegara a altura de abandonar ambos os abrigos …” (88-89)
“Foi o caso da pastoral sobre a Modéstia Cristã, que deu origem a um dos episódios que mais recordo desses tempos. No verão de 56, os bispos resolveram dissertar sobre a dita modéstia, julgando chegada a altura de se unirem aos cabo de mar para acabarem, nas praias, com homens de tronco nu e mulheres de fatos de banho de duas peças (ainda não se falava de biquinis). Evidentemente, o assunto era ingrato … Se já ninguém tinha muita pachorra para enfiar uma camisola interior quando o cabo se aproximava, menos ainda se considerava que o assunto devesse merecer a atenção do venerando episcopado.” (31)
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Bento XVI, topo da hierarquia da igreja católica apostólica romana e chefe de estado do Vaticano, desloca-se a Portugal este ano, também no intuito de ir em peregrinação a Fátima, local onde os crentes daquela congregação religiosa (e não só) acreditam terem acontecido aparições milagrosas. Do meu incómodo face a esta visita ao local dessa superstição politicamente induzida em pleno ano de comemoração do centenário da regime republicano português já aqui o explicitei. Sem radicalismos a República deveria ter intentado transferir a visita para o ano subsequente. O simbolismo pode não ser tudo … mas é quase tudo.
A propósito desta visita encontro um grupo no facebook: Nós, laicos, não queremos pagar a visita de Ratzinger a Portugal. Por lá gente (minha) conhecida, alguns até vivendo sob galões académicos muito justamente alcançados (e que, presumem e intentam significar, habilidades de reflexão). E por lá estão na habitual patusquice, mais ou menos truculenta. Começam por chamar Ratzinger a Bento XVI, uma torpe e ignara tentativa de desvalorização – que um antropólogo (ou historiador, ou sociólogo ou qualquer aparentado profissional) refute a realidade da mudança de nome individual aquando de uma particular mudança de estatuto deveria implicar um despedimento com justa causa. E não estou, por mais antipático que possa parecer, a ironizar. Mais, as bactérias ideológicas transbordam em feias borbulhas: nenhum desses patuscos chama Ulianov ao velho Lenine, ou refuta similares processos de auto-denominação ao panteão dos seus heróis (ainda que alguns matizados no célebre “apesar de …”). A denominação do grupo intenta ainda, num contexto de crise económica, deixar o subentendido que a visita será paga pelo erário público português – lá está a patusquice mentirosa, a manchar o CV público da rapaziada libertária. Finalmente, a verdadeira angústia e/ou repúdio é que Bento XVI vá a Portugal e opine sobre questões internas, as para eles verdadeiramente importantes, as “fracturantes” – avaliação que denota bem o “véu ideológico” que lhes cobre e colhe o pensar.
O que estes patuscos querem esquecer é que o estado português terá despesas com esta visita como o tem com incontáveis visitas de chefes de estado a Portugal. E que estes lá chegam, quase sempre, para opinar e negociar sobre causas fracturantes (ou coaligantes) na sociedade portuguesa. Económicas, financeiras, políticas, sociais. Mas a isto dizem nada, pois nesses casos lhes falta o folclorismo que lhes anima o clicanço e, até por vezes, o teclanço. O que estes patuscos querem esquecer (pelos menos os académicos, vulgo intelectuais) é que todos os meses recebem salário em troca do seu pensamento. E que as invectivas de “conservadorismo” ou “reaccionarismo” sempre dedicadas a quem não encontra nenhuma piada nas suas constantes e exasperadas tentativas de torna-juventude só a eles fazem justiça. Pois vivem de pobres ideias-feitas. Apanhadas na “rave” em que julgam estar, entre “shots” de slogans.
E nestas palhaçadas o peso, estruturante ainda que sempre actualizável, da igreja católica apostólica romana na sociedade portuguesa vai-se mantendo. Muito para além do saracoteante engraçadismo dos “intelectuais” d’hoje.
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por ABM (Cascais, 6 de Janeiro de 2010)
Hoje à hora de jantar, por razões assaz obscuras, o Dr Micael (10.5 anos de idade) deu-lhe na cabeça de rezar para pedir a benção de Deus para várias coisas, depois de comermos o mais epicúrio jantar de toda a minha vida (tenho que dizer estas coisas para o caso da Patroa vir espreitar isto no Maschamba, sorry).
Depois de pedir saúde e longa vida para a mãe, pai, avó, irmã, padrasto (eu), cães, cadelas, avestruz e a professora, eu sugeri-lhe (suscitando a imediata ira da mãe, que leva estas coisas muito a sério) que pedisse sorte para a mãe ganhar o Euromilhões e assim ficarmos ricos de uma assentada.
Combati indignado a acusação de abuso do favor Divino dizendo que pedir umas massas ao Senhor lá em cima não era um pecado per se.
E, enquanto rapidamente se passou para a questão de o que é que cada um faria se fosse rico, eu lembrei-me da velha canção que fui apanhar no Iutúbe há bocadinho, que para os mais velhos deve ser vagamente familiar: Topol, representando o pobre judeu russo Reb Tévje em Um Violista no Telhado, 1971, cantando Se eu Fosse Rico.
Que eu vi num cinema de Lourenço Marques lá para 1972.
1. Inverno. Um calor de estalagmites.
2. Crise. Qualquer emigrado português sabe que ir à “terra” é para ouvir os constantes lamentos dos amigos, da família, dos populares, com a “crise”, e etc. e tal. Mais agora, com a desgraça internacional a repercutir-se nos dois milhões de portugueses abaixo do limiar da pobreza, mais de dez por cento de desempregados, o país sem luz ao fundo do tunel, sem projecto. E depois … basta ver o potlatch radical dos últimos dias antes do tal solstício dito Natal! Basta perguntar no talho, no café (o bolo-rei), na livraria, na loja de brinquedos, nos restaurantes e afins, etc e tal vinícolas e isso, o obrigatório “então, e este ano como vai?”. Crise? Já lá vai, que “estamos melhor que o ano passado”. Crise? Como crise se a felicidade está ali mesmo, nos balcões dos chópings? E tudo segue, no dia 26 abrem os saldos e as multidões reiniciam o seu caminho de cigarras. O vazio (versão portuguesa do conradiano “horror”).
[Fotografia de inscrição ao Teatro Politeama, Lisboa, Dezembro 2009]
3. A gula. Crise? E é um “trocadilho” fácil, o com esta campanha de época, o tome atenção aos AVCs que encheu os painéis das cidades. Crise? Só se for a da gula, essa motriz dos AVCs. No fundo o símbolo da Europa Ocidental, obesa, no seu estertor. As causas? Exactamente a tal falta de visão, de preocupação. De razão. Tudo isso do a cada um o seu sapatinho, e nada mais … Aliás, a cada um o seu sapatão.
4. Paulo Duarte, afirma-se de origens humildes, foi um futebolista modesto e não enriqueceu, é agora o seleccionador do Burkina-Faso. Deu uma entrevista ao jornal Record. Interessantíssima, muito para além do patois futeboleiro habitual. De como olha o país africano para onde, surpreendentemente, foi trabalhar há já dois anos. E de como reconhece que para preconceitos era ele que os carregava ao início. Mas mais do que isso, também ele de longe a re-olhar os seus patrícios: “Se as queixas, por isto ou por aquilo, fossem modalidade olímpica, os portugueses estariam cobertos de ouro. Somos muito assim. Completamente. As dificuldades da vida são muitas, para toda a gente, mas há coisas que não podemos esquecer: a maior parte dos portugueses que vive mal tem uma casa, duas televisões, um vídeo, dois telemóveis, dois carros, um emprego, mal remunerado mas temos, tem água, tem luz, tem gás, tem comida na mesa, tem roupas adequadas ao clima. Com maior ou menor dificuldade, chegue o dinheiro ou não ao fim do mês, tem isso tudo“. Sei que é muito fácil apupar este tipo de visão. Mas seria conveniente que os habitantes de um país que não produz o que tanto consome pensassem um pouco no facto de que a sua ladaínha lamurienta não encanta (enfeitiça) os que de longe os assistem. Fica o meu desejo das maiores felicidades a Paulo Duarte, homem a pensar. Força Burkina-Faso!
5. Quadra natalícia: Eu também! Pois se o mito sublinha o amor transposto para o espírito de dádiva neste emigrante o real é a volúpia da posse, sacos de auto-prendas esquecendo-me dos “entes queridos”, esvaziando-me o porta-moedas extinto que foi, e já em tempos, o cartão de crédito, malfeitoria ocidental. Malditas livrarias ….
6. Saúde. Viver em flat e enfrentar tantas proibições tabagísticas em locais públicos: assim a fumar bem menos.
7. Oferta infantil. Uma enorme oferta de espectáculos e actividades infantis. Gloriosa. Diz quem sabe que este Corcunda de Notre Dame foi do melhor que já viu, e já viu várias coisas.
8. Cultura. Na revista “Os Meus Livros” (nº 82, ano 7, 12.2009) a coluna “Caldeirada de Letras” (p. 52) contém um acertado texto da autoria de Luís Graça: “Astérix Ortografix“. A propósito da edição do “O Aniversário de Astérix e Obélix, o Livro de Ouro” (fraquinho, já agora) uma crítica as novas traduções dos nomes das personagens, um incompetente ataque à tradição asterixiana. (Algo que em tempos já aqui referi).
9. Surpresa. Encontro o Bartis (ok, o Bar Artis) reaberto. Um ícone do Bairro Alto, ali à Diário de Notícias, agora com nova gerência (propriedade dos donos do velho restaurante “Sinal Vermelho”), a vender apenas produtos portugueses (quer um whisky, um gin, um vodka? Beba aguardentes vinícolas – aprecio o acto). Mas mais do que isso – e ainda que lamentando isso do balcão estar agora ao fundo da sala – de louvar a reabertura de um local biográfico. Mesmo que já sem o seu velho proprietário, o célebre Mário, e – aí sim, lamentavelmente – desprovido da lendária Paula, rutilante alma. Mas está lá o Bartis ….
10. Inteligência: a primeira auto-prenda, logo no dia da chegada, este “De Marx a Darwin. A Desconfiança das Ideologias” (Gradiva, 2009), um para mim desconhecido livro de Onésimo Teotónio Almeida. O autor é um homem inteligente, o livro idem. Uma delícia, sobre paradigmas cientificos, suas características e limites, e ainda da hipotética relação da ciência com a religião, da ética com a lei. Para mais muitíssimo acessível (efeitos da tal inteligência). Deixo uma citação. Que é letal para alguns meio lusos, e não é preciso recuar ao guterrismo: “Nem tudo na ética está codificado na lei, a lei civil é apenas a imposição da obrigatoriedade de uma ética mínima para o funcionamento das sociedades. Mas se a ética transcende a lei, e por vezes choca com ela, ambas têm os mesmos alicerces. Os debates legais resultam de confrontos entre valores éticos, de combates morais, e nem todos conseguem reunir consensos que se traduzem no estabelecimento de normas legais (ou, pura e simplesmente, de leis sancionadas pelos tribunais e pelas forças do Estado que velam pelo seu cumprimento), contudo muitos valores morais não precisam de ser codificados em lei. Há normas éticas aceites pela maioria que nunca foram consignadas em nenhuma legislação. Os ventos da história e o rumo de cada cultura acaba conseguindo para esta ou aquela norma ética um estatuto legal. Mas nunca a lei cobre todo o domínio da ética, até porque nela, a ética, há um mínimo que suporta legislação (o domínio do dever), porém existe um outro bem mais vasto, o da virtude – a arethé grega – que não poderá nunca ser legislado.” (125)
11. Drama. Rui Santos sobre o Sporting. O jornalista em causa capta pouca adesão – como o prova o baixo número de subscritores das suas incessantes petições informáticas, abundamentemente publicitadas em inúmeras horas televisivas (basta compará-las com as petições lançadas in-blog para comprovar essa sua fragilidade). No entanto a sua denúncia sobre a destruição do Sporting Clube de Portugal por parte do núcleo socioeconómico, em tempos albergado sob o epíteto “Projecto Roquette”, é inultrapassável. E de registar pois estabelecida em jornal de grande divulgação. E, por extrapolação, diz muito sobre o Portugal de hoje, esse da cega aceitação de auto-anunciadas elites sublinhada pela “falta de alternativas”.
12. Capitalismo. A edição portuguesa está pelas “ruas da amargura”. Sob a tutela dos interesses comerciais, de grupos editoriais desligados da cultura (e, porque multinacionais, do contexto nacional). E esmagada pela pressão oligopolista dos grandes potentados livreiros, também eles apenas virados ao lucro. Assim se apaga a hipótese da edição ensaística e apenas subsiste a chamada “literatura leve”, a capa brilhante, o conteúdo inexistente, a forma “plana” – em particular expressa nos registos da “exo-ajuda” e do chamado “romance histórico”.
Prova dessa superficialização produzida nas grandes superfícies encontro-a na FNAC do Chiado, chego à secção dos livros e deparo-me com o primeiro escaparate – aquele que me recebe e me despedirá, dentro de algum tempo, portanto o que mais apelará à aquisição. Uma das faces para a literatura nacional (prosa) considerada relevante (os peixotos, cachapas, saramagos, lobos antunes, tordos e torgas e isso). A outra face de prosa estrangeira, e não resisti a transcrevê-la, para aqui comprovar o “estado da arte” a que se chegou, do esmagamento cultural por via do comércio (do capitalismo, por assim dizer). São 18 colunas, cada qual com quatro livros, novas edições (traduções) ou recentes reedições. Por mim recenseadas, como denúncia. Apresento apenas os autores, para economia de ma-schamba. Eis então o painel do escaparate melhor situado:
1. Bernhard; Bernhard; Mishima; Mishima. 2. Beckett; Walser; Walser; Mme Lafayette. 3. Hesse; Hesse; Jane Austen; Jane Austen. 4. Hemingway, Dumas, Diderot, Dickens. 5. Iris Murdoch, Iris Murdoch, Rilke, Colette. 6. Susan Sontag, V. Wolff, V. Wolff, Lampedusa. 7. Thoreau, Flannery O’Connor, Orwell, Orwell. 8. Maugham, Mann, Beckett, Mailer. 9. Daphne du Maurier, Céline, Saint-Exupery, Walty. 10. Flaubert, Yourcenar, Yourcenar, Hsek (?). 11. Kafka (X4). 12. Aitmatov, Kafka (X3). 13. Jack London, Boris Vian, Victor Hugo, Lautréamont. 14. Proust, Proust, Calvino, Calvino. 15. Calvino (X4). 16. Calvino, Pasternak ,Turgueneev, Gogol. 17. Tolstoi, Zweig, Svevo, Bulgakov. 18. Dostoievski, Dostoievski, Lidmila Ulitsvaia (?, será assim?, não conheço), E. Waugh.
Lastimável. Esta prática comercial, esta subjugação editorial. O primado da mediocridade. Efeitos, necessários entenda-se, do capitalismo. Vil.
13. O Charme Discreto da Burguesia. Olivais-Sul, Lisboa, Dezembro de 2009.
14. Império. A Ler (nº 86, Dezembro de 2009), coluna “Booktailoring”, de Paulo Ferreira e Nuno Seabra Lopes. Procurando um registo cómico em futebolês (o dia em que os humoristas escreverem em raguebês ou golfês será bem arejado…) o texto ”Um jogo entre linhas“ que aponta os “jogadores mais influentes do mercado editorial português em 2009“. Não vou discutir os critérios. Apenas o eco da minha reacção: “tenho que ter cuidado, pareço da patrulha ideológica“, resmungo-me. Pois na “selecção nacional” deles lá estão o Agualusa e o Mia Couto. Sim, eu sei que na selecção de futebol estão o Liedson, o Pepe e o Deco. Mas nesta, na literária, não há brasileiros. É, na cabeça dos humoristas, uma selecção portuguesa de Portugal, mas afinal uma transpiração da pobre lusofonia. Ou seja, e isto muito para além dos escritores em causa, da cabeça dos humoristas ninguém retira(ou) o Império. Nem na Ler… Absurdo. Mas um absurdo sintomático.
15. O jornal I é o melhor jornal nas bancas. Já no Verão passado me parecera tal. Agora confirmam-me tal alguns amigos. Alguns até acompanham a opinião com um “é de direita mas …”. Mas digo eu, que o vejo sem publicidade e oferecido nas bombas da Galp. Mau sinal? A ver se se aguenta …
16. Delícia. Inúmeras bancas de livros em saldo (aliás, monos), um “apelo às dádivas”. Nelas sempre se encontram exemplares desta bela colecção “Horas Extraordinárias” que o Independente foi publicando há alguns anos. Cada vez que em Lisboa lá carrego alguns. Agora é a vez (a 2,5 euros, imagine-se) de adquirir este saborosíssimo “Bilhetes de Colares de A.B. Kotter (1993-1998)“, “porventura” de José Cutileiro. Obrigatório regressar a esta Quinta da Beldroega, sita na Várzea de Colares, seus habitantes e visitantes, ponto máximo de observação deste país. Pelo olhar-mestre do Senhor Doutor Kotter, traduzido pelo ex-comando J. Fonseca, fiel à máxima de que “Como a leitora sabe, eu nunca me imiscuo na política deste maravilhoso país que tão generosamente me acolhe no seu seio. Não cabe a um estrangeiro fazê-lo; menos ainda a um estrangeiro sem razões de queixa.” (66). Ainda que com ele se possa discordar, por vezes, como aqui: “Já tentei explicar-lhe que o snobismo não é tão mau como parece porque, vistas bem as coisas, sempre é o contrário da inveja…”. Discordância que, se seguida, levaria por caminhos muito diversos. Mas mais do que a justificar a corrida aos monos…
17. Política. Nenhum dos meus amigos – desses que cada vez menos encontro -, nenhum dos meus familiares, nenhum dos teclistas lidos in illo tempore, enfim nenhum desses que tanto vituperaram (vituperámos) o “fontismo” cansado, travestido de “desenvolvimento”, do primeiro-ministro Cavaco Silva tem agora uma palavra irritada contra o proto-fontismo de José Socrates. Mas para quê falar, se é para falar encastrado?
18. Jonhy Lyndon (ex-Rotten). Amália. Coração Independente (no CCB). Não sou um amaliano, ainda que nela possa actualizar (reconheço, até acabrunhado) a expressão “de ir às lágrimas”. Pois ainda que não o seja (amaliano) saí preenchido da exposição. Para logo quem ali a meu lado me iluminar, como sempre na vida, num até desdenhoso “não aprendi nada”. E é isso, saio do amalianismo (no meu caso amador) e constato, a exposição não é um diálogo com Amália, é uma missa (certo, a haver divindade que seja ela), apenas uma missa. Ela adoraria. Mas está morta, não haverá outra forma de ser olhada?
Depois o tal diálogo com a mulher, a personagem, a artista, o mito - que se pretenderia? – é atirado para um “posfácio”, de arte contemporânea. Nesse pacote, mas que assim surge externo, in-dialogante, um bailado (Ana Rito) muito interessante, a peça de Joana Vasconcelos também. E uma instalação visual óptima de Bruno de Almeida. Mas mesclado com coisas-obras a parecerem modismo para “espantar a classe média baixa”. Francamente, não há paciência para quem atira um xaile para o chão e diz “arte!”. Olhar um cilindro branco com espelho atrás, “um artista (Amália) solitário no palco”. Em 2009? Ali tanta ruptura, tanta inovação como o busto realista atrás apresentado (Joaquim Valente), coisa de meados de XX, que foi muito ao gosto da representada. Honestamente uma desilusão. Pelo auto-centramento da exposição, que se pretende encantória. E pela tralha avulsa que se lhe colou à maneira de olhar actual – com as excepções referidas. Sempre me convenço que o epíteto “contemporâneo” faz eclipsar o espírito crítico, analítico. Cilindros brancos, mesas luz com banheiras coloridas, peças atiradas no chão. Hoje?
Coisas que sempre me fazem lembrar aquela entrevista do Jonhy Lyndon (ainda Rotten?) ao Philippe Manoeuvre, publicada na Rock & Folk cerca de 1982. Dizia o Rotten: “ser punk em 1980 é igual a ser hippie em 1976″… Xailes no chão?!
19. Sahara Ocidental. Uma militante esteve em greve de fome defendendo a causa do Sahara Ocidental, protestando contra a ocupação marroquina. A representação diplomática de Rabat em Lisboa concedeu uma entrevista ao jornal “i”, anunciando que Marrocos é “o polícia da Europa”. O silêncio europeu face à ocupação colonial do Sahara Ocidental passa por esta “política real”. Confesso que nada sei sobre a situação efectiva na região (no país, por outras palavras), acredito até que o terrível fundamentalismo “alqaediano” seja um papão agitado por Marrocos para colher o apoio à sua velha expansão – como os leitores saberão ninguém falava de Al Qaeda e muito poucos falavam de “fundamentalismo”/”integrismo” islâmico quando Marrocos procedeu à ilegal anexação daquele território. Ou o seu inverso.
Mas enfim, são contas do difícil e imbrincado rosário da história. A mim interessa-me a reacção em Portugal. Nos jornais e na TV, nas conversas, ninguém ecoa a posição do Estado - o qual desde o governo Socrates assumiu a posição mais próxima da política colonial marroquino. É óbvio que o “distante” assunto a ninguém interessará, Marrocos está nos confins, parece-me até antípoda. À esquerda ninguém diz nada, nem mesmo o BE, onde Marrocos será quanto muito o locus de umas ganzas a legalizar, que isso dos princípios é uma canseira. O PCP silencia, mas é óbvio: para um partido sempre ao lado dos poderes coloniais e dos regimes monárquicos não se deveria esperar uma interrogação sobre a política diplomática portuguesa nesta questão. Ninguém questiona a questão. O fait-divers da senhora à fome acabou, entretanto o escritor José Saramago foi lá apoiar (à revelia do seu partido, à revelia de António Costa, o socialista de quem é apoiante) porque é uma ”causa justa” e pronto. Aliás, prontos …
20. Excelência. No canal Mezzo (que pena não haver em Maputo) um fantástico programa sobre Rafael Campallo, bailarino que desconhecia. Grande, grande …
21. O Antigo Regime. O álbum, merecido, celebrando o centenário da Escola Secundária de Camões (ex-Liceu Camões). Ainda que me arrepie sempre que ouço loas ao dito liceu (apesar dele próprio). Que é sempre agitado como se ícone dos “bons tempos” em que havia cultura, e educação que a sustentasse e reproduzisse, em Portugal. Ou seja, antes do povo estudar e, até, gerar professores. Tudo isso em discursos de ”progressistas”, até gente oposicionista germinada no velho Liceu – mas que verdade, verdadinha, suspira por trechos do dr. Salazar, em particular aquele de que ao povo basta ensinar a contar e a assinar. Quebrado isso ficámos como estamos. Que “eles” até a “doutores” vão.
22. A desistência. Visito, acompanhando uma ínclita comitiva, a exposição do fotógrafo Korda. Celebrizado pela iconográfica fotografia de Ernesto Guevara, de sua autoria. Muito interessante, pelo que demonstra da produção do culto de personalidade do ditador comunista Fidel Castro, do qual Korda foi acompanhante durante a década de 1960s. Fantástica a sua entrevista, a forma como glorifica o próprio Ernesto Guevara, um absoluto contrasenso (assista-se às suas declarações, elogiando a “punição” que Guevara lhe fez).
Fidel Castro como ícone, até bíblico. A mão na terra produtiva, a pegada de Fidel, o seu “gigantismo”. A sua beleza sensual. Fascinante, como interpretável. Como produto e produtor de fascínio.
Certo que se Korda fosse eslavo ou han teria tido problemas, acusações de “cosmopolitismo” (como aventou um amigo meu) não lhe faltariam. Basta ver esta fotografia, onde duas presumíveis beldades, até lânguidas, escutam no escuro as palavras solarengas do comandante, deixando imaginar outras prédicas, mais íntimas. Coisas deste discurso construtor do “fidelismo”, de Fidel Castro, muito dadas ao tom local, mas também à específica característica de Korda.
Mas para além dos seus méritos estéticos e jornalísticos surpreende que esta exposição, demonstrativa da arte glorificadora de Korda, que surge sob tutela da também estatal Casa da América Latina num espaço também estatal (Cordoaria Nacional), seja apresentada sem qualquer contextualização distanciada, sem referência enquadradora. Nada nos textos que a acompanham, talvez (mas desconfio que não) no catálogo – que muito presumivelmente será apenas encomiástico. Espantosa desistência. Dias passados comento esta minha estranheza numa mesa polvilhada de académicos, a nenhum pareceu estranha tamanha distracção “fidelista”, obviamente significante. Nem mesmo quando lhes disse ser Korda um pouco a Leni Riefenstahl do regime cubano, ou que diante de qualquer produtor de mitos e ícones se presume criar distância cognitiva, não apenas fascínio e adesão – coisas que tão bem “sabem” para outros casos. Um simpaticíssimo alto quadro do ministério da Cultura, ali entre variados acepipes, rematou que “a exposição é daquelas que se recebem”. E pronto! Desistência, pura e simples. E a gente assiste.
23. A gravata. Penso que foi no jornal “Sol”, uma pequena nota irónica sobre Francisco Louçã. Que o coordenador do BE aportara no parlamento usando gravata, ao contrário do seu significante traje político, esse que reclama dessassombro (e, claro, posição de classe). Para logo nos “sossegar”, afinal era apenas o dia em que o deputado cumpria provas públicas académicas e nesse campo fazia questão de cumprir as normas de vestuário. Passa tudo num sorriso, as pessoas dirão que é do espectro das decisões pessoais, etc. Mas este pequeno episódio, o respeito pela gravatinha no seio da corporação profissional ao invés da liberdade encenada no traje política, este pequeno episódio mostra bem a hipocrisia do senhor professor. O corporativismo fala mais alto, em maquilhagem de pequena-burguesia.
24. O escritor de escaparate. Já no pós-Natal mas ainda a caminho de mais uma comensalidade pantagruélica. No rádio do carro, enquanto subimos ali em Monsanto, capta-se uma conversa com escritor – desses que está em todos os escaparates natalícios, diga-se. Diz ele, face a pergunta da radiofónica voz: “a literatura é o que tem que ser!”. Abismado com tanta profundidade aumento um pouco o volume, para ouvir no que aquilo irá dar, e logo ouço mais uma pergunta “V. disse no seu blog que a literatura portuguesa não é apoiada pelas livrarias. Que vontade de escrever isso lhe dá?”, ao que responde o escritor, voz arrastada, sofrida, ”Nenhuma“. A meu lado, enfastiada, a senhora pergunta-me “queres ouvir isto?” e eu, mais assim como eu, logo riposto: “tira essa merda!”.
25. Envelhecimento. Ligo o carro e na rádio reconheço os acordes da “Fanfarra para um homem comum” e logo surge a “You can’t always get what you want” dos Stones. Elevo, e bem, o som e segue a canção-ícone, rock-barro da minha gente. Acto contínuo a bela rapariga a meu lado põe-me na boca …. uma castanha assada.
26. Tetro, de Coppola, é um soberbo, lindíssimo, filme sobre Buenos Aires. Fantástico. A história é um pastel, a deriva patagónica um must de pirosice. Convém ver. Mas sem som nem legendas.
27. Cardinalice. O Cardeal de Lisboa invectiva a “indiferença, agnosticismo e ateísmo” na sua homilia natalícia. Interrogo-me onde vai ele buscar essa ideia da igualdade entre “indiferença” e “ateísmo”. Que ”indiferença”? A prática, a ética, a solidária, a reflexiva? Um argumento vácuo, inaceitável, e que não cola com a imagem de profundidade intelectual que Policarpo sempre apresentou. Sem rodeios, é uma parvoíce ao nível daqueles que reduzem a igreja católica a fogueiras da inquisição e a erecções pedófilas. José Policarpo tem o direito (em determinada acepção terá até o dever) de combater o ateísmo e o agnosticismo. Mas tem toda a obrigação de matizar as suas argumentações e invectivas. E exactamente quando a sociedade presta homenagem a Manuel Clemente, bispo do Porto, enquanto homem de cultura elogiando-lhe a fina análise. Um deslize cardinalício, ao invés do momento vivido. A colher, claro, o silêncio do comum …
28. Homem em Fúria, de Tony Scott, competente filme de TV. Seria uma excelente peça de cinema de samurai, acho, não fosse o seguidismo ao paradigma psicologista, assim desvanecendo a profundidade abissal do protagonista. Um diálogo excelente: “Velho: Na igreja dizem que devemos perdoar; Creasy (Denzel Washington): Perdoar-lhes é com Deus. O meu trabalho é proporcionar-lhes o encontro.”
29. Acordo Ortográfico. O Record é o jornal que logo aderiu ao Acordo Ortográfico. Se dúvida houvesse sobre o substrato intelectual desta parvoíce provinciana a entusiasmada adesão de tão pobre jornal cessa qualquer hipótese de dúvida. Eduardo Pitta acha que os detractores do Acordo Ortográfico são “encenadores” que dão pontapés na gramática, e com ele concorda Filipe Nunes Vicente, outro grande-bloguista. Recordo que as maiores polémicas neste ma-schamba vieram desses meus actos pontapeadores e, envergonhado, lamento-os bem como à falência das minhas tentativas teatrais. Vou ali ler o Record – pode ser que por lá me expliquem que esta deriva homográfica lusófona nada tem a ver com um fundo tonto de apelo à gesta da “presença” e “expansão” da língua portuguesa, que nada tem a ver com a inexistência de verdadeira reflexão económica sobre os seus futuros resultados para a edição internacional em português (mas apenas em “desejos pensantes”), que nada tem a ver com a tonta e iletrada ideia feita da distinção radical entre a fala e a escrita (a “escrita é uma convenção” dizem os imbecis, convictos que a fala, em última análise, não o é; a “grafia não influencia a fala”, dizem “professores” sem perceberem que assim invalidam a sua tarefa).
Bem, pelo menos parece o Miguel Veloso marcou um golo e diz-se que vai para a Fiorentina ou Barcelona, e o jornal deve falar disso …
30. Decadência Nacional. Cada vez mais difícil, talvez até mesmo impossível, encontrar uma “bica” (aliás, “café”, “expresso”, “italiana”) decente. Os estabelecimentos comerciais especializaram-se em servir zurrapas. Café Chinês?
31. Família. Em dois dias seguidos dois artigos interessantes, os de Miguel Pacheco, “Não São Sermões Sobre a Vida Íntima e Martim Avillez de Figueiredo, sobre a questão da “família”. Em ambos choco com este meu preconceito, o de que o discurso jornalístico aparece mais superficial do que o académico ou de reclamação intelectual. É aqui o inverso, total. Pois em ambos é explícita a ideia, ao contrário dos discursos dominantes, da necessidade e da virtude da família. Ultrapassando as velhas querelas hiper-liberais e hiper-marxistas, da família como local agente de repressão e reprodutor da exploração, do maléfico Pai-Padrasto Castrador e da malvada Mãe-Madrasta Castrada Castradora, do discurso da libertação do sacrossanto indivíduo face às algemas comunitário-familiares, da ultrapassagem da repressão por via do sacrossanto Estado-sociedade, local de protecção, produção e reprodução. Afinal instituição virtuosa, falível claro, de produção e interacção de valores sociais.
Há quem chame a isto conservadorismo. Lembra-me o Jonhy Rotten (já Lyndon?): “ser punk em 1980 …” (onde é que eu já li isto? …).
32. Frases feitas? Um repasto, entre antropólogos e excelsas iguarias, no caminho entre enchidos fidedignos, sopa de rabo-de-boi, conduto incomensurável, doçaria relevante, reservas variadas e vintages culminantes. Algo a que, ali, estou há décadas habituado. Com emigrantes à mesa a conversa passa ao “estado do país”, claro. Donde ao casamento homossexual, que o resto foi resumido, como sempre, num “isto está mau” – mas que ninguém interprete este condicionamento do discurso popular como uma estratégia do governo, que é de esquerda, donde bom. Pessoa que há décadas muito me é querida e também minha mestra nas coisas antropológicas, talvez até causa quase-única desta minha formação, remata-me “O casamento é um contrato entre dois indivíduos“. Vacilo, e partirei destruído para casa. Pois se vindo de quem vem aquele libelo individualista … tudo aquilo que estudei, da reprodução estratégica de laços de filiação e de descendência, de articulação entre grupos sociais, de transferência de património (em sentido lato), de composição e recomposição familiar, tudo isso para onde foi, o que era? Nada, afinal a nossa sociedade é apenas um campo onde interagem indivíduos, livres, racional e radicalmente autónomos que contratualizam. Virtuosamente.
Vindo de quem vem? Já no carro, ao volante, entre a azia silenciosa e a flatulência reprimida, constato-me duas décadas de vida profissional enganada. Novo ano que aí vem – e até já veio – exige-me pois vida nova, profissão nova. Pois se a outra, a da até agora, inexiste afinal. Não dormirei, e desde então a insónia constante. Para onde ir? Que fazer? Ou antes, com que indivíduos contratualizar?
33. Ideias Feitas?. “À mesa, entre antropólogos e excelsas iguarias, no caminho entre enchidos fidedignos, sopa de rabo-de-boi, conduto incomensurável, doçaria relevante, reservas variadas e vintages culminantes. Algo a que, ali, estou há décadas habituado. Com emigrantes à mesa a conversa passa ao “estado do país”, claro. Donde ao casamento homossexual – que o resto foi resumido, como sempre, num “isto está mau” – mas que ninguém interprete este condicionamento do discurso popular como uma estratégia do governo, que é de esquerda, donde bom. Pessoa [outra] que há décadas muito me é querida, e também minha mestra nas coisas antropológicas, talvez até causa quase-única desta minha formação” [in blog ma-schamba, post "(N)A "Pátria Amada" (ponto 32)], explica-me, simpática e até solidária com as minhas falhas de formação (e tantas ela colmatou nos bons velhos tempos), a diferença entre o matrimónio religioso, de vínculo indissolúvel, e o casamento civil, coisa moderna e passível de ser dissolvido. Por opção própria, por economia de discurso, não lhe dá nenhum enquadramento de história institucional, mas não posso aprender tudo no mesmo dia. Estava eu, portanto, a ouvir pela enésima vez esta profunda argumentação – e ainda não tínhamos chegado à questão das sufragistas, mas haveríamos de lá aportar – quando um conviva comensal rematou, glorioso: “vínculo indissolúvel?! Ah, mas isso é o que defendem os sindicalistas!! Afinal são iguais, a Igreja e os Sindicatos“.
Um vintage, este meu amigo, há décadas que vai vintage! Pena é que não meu mestre …
34. O cadáver da Antropologia. Ao sábado ouvir Bach na Gulbenkian, ao domingo Haydn no CCB. Para além do encantamento da música – um registo em que me perco completamente, por falta de capacidade interpretativa, uma delícia – deixo-me, como sempre, a “olhar” público e músicos. Olhar esta disciplina, que faz milhares de músicos aprenderem a reproduzir e interpretar partituras de tons e sons velhas de séculos, atentos às suas diversas matizes, e ainda, até, criando-lhes novas formas. Disciplina que passam a milhares e até milhões de ouvintes, que vão sendo treinados a escutar (alguns até a entender). Disciplina essa a qual poderá ser chamada “civilização”, forma vasta de controle, molde gigantesco de sentir e ser. É um fim-de-semana bom para isso, isto de partilhar espaço civilizacional com patrícios relativamente diversos – nas formas do saberem os seus corpos, de controlarem tosses, espirros, flatulências, agitações, sentimentos, amores, aplausos. Mais “burgueses” à Praça de Espanha, mais “populares” (menos “cívicos”, menos ”civilizados”) em Belém, que tudo isto é um processo longo de aprender.
Mas de repente, ali a meio da Criação, de Haydn, entre tosses múltiplas e aplausos fora-de-tempo no seio dos ainda algo in-disciplinados, lembro-me da minha queridíssima amiga e mestra. Que é isso? Questionar-me sim, mas apenas sobre as contratualizações que ali nos uniam. Nada mais há a questionar, a inquirir. Paguei bilhete, é o meu contrato. Outros pagaram ainda impostos, é outro contrato. Todos comprámos produtos dos patrocinadores, mais contratos jurídicos. E basta, deixo-me a ouvir a música, incompreendendo. Feliz.
35. A cremação da dita e ainda das suas primas. O Jornal de Letras, já institucional presença. Tem defeitos, mas é melhor que exista. Muito estatal, no ponto de vista, nas formas de associação e financiamento. Também por isso local dos sinais dos tempos. Na última edição (nº 1024) vários artigos sobre a década agora terminada, “dez anos de letras, artes e ideias“. Extensas indexações de poesia e prosa literária, artes plásticas, música erudita e pop, cinema, dança e teatro. Ambiente, ensaio e ideias (sobre estas dois textos) também. Não discuto os critérios, gente sábia a escrever. Mas surge-me questão. No mundo das “ideias” ainda há referência para uma ciência social, a História. Até par as sua versão história intelectual (já agora, saúdo as referências a obras que me são bem queridas, “História do Pensamento Filosófico Português”, coordenada por Pedro Calafate, “Portugal Extemporâneo” de Carlos Leone). Depois … Eduardo Lourenço, mais alguns ensaios, o “Portugal Medo de Existir” (“os portugueses são …”).
Entenda-se, dois artigos sobre “ideias”, um sobre “ensaios”. Nem uma referência a trabalhos portugueses de Antropologia, de Sociologia, de Psicologia, de Geografia, de Linguística, de … olhando bem nem de Economia, nem tampouco de outra área de investigação. Ideias durante a década? Ideias sobre Portugal e sobre o mundo? Nada a referir. [Vou escrevendo e pensando que sobre Ciências Exactas/Naturais idem, idem. Mas haverá ideias aí?, dirão os especialistas do JL].
É o Jornal de Letras! Sinais dos tempos? Claro, como comprovei nesta minha deslocação.

36. Inhambane. Para lá sigo. Intentando, entre sol e calma, encontrar um novo rumo. Entenda-se, novos contratos. Apenas jurídicos, claro.
jpt
(por uma AL mistificada) –
Lembram-se do Filipe da Mafalda? Aquele miúdo dentuça sempre com uma enorme angústia, que odeia os trabalhos de casa e que não sabe bem como se posicionar na vida? Pois nestas questões como a dos minaretes suíços é assim que me sinto – filipovada!
Se bem entendi, o referendo foi exigido pelo Swiss People’s Party de cariz nacionalista, que vê nos minaretes “o símbolo de um crescente poder político Muçulmano que poderá um dia transformar a Suíça numa nação Islâmica” (?!?!?!). Embora tal receio me pareça absurdo e eivado de xenofobia, acho que os suíços têm o direito de terem os medos que escolheram ter. Tal como acho que têm o direito de decidir o que põem ou não põem no seu país, quer agrade ou não aos outros. A democracia tem destas coisas e ou bem que se assume que o povo sabe escolher e se consulta em eleições e referendos; ou bem que se assume que o povo pouco ou nada sabe e, portanto, ignora-se e governa-se.
Pessoalmente acho que estão a dar tiros nos pés e que os receios de hoje semeiam os terrores de amanhã. Tem JPT razão quando menciona as questões importantes que este tema levantou, mas eu continuo filipovada! O que subjaz nisto tudo é a demonização de uma religião julgada exclusivamente pela lente do fundamentalismo, da burkha e da excisão feminina. É assim como julgar o catolicismo exclusivamente pela lente da inquisição. E neste processo também nos esquecemos que nos anos 70 o terror era irlandês, alemão e italiano; e que os MacVeighs actuais são evangelistas; e que cristãos e católicos também promovem a imposição do seu credo com as suas missões. E enquanto nos vamos esquecendo disto, esquecemos os milhões de muçulmanos que connosco convivem pacificamente e que cada vez têm menos espaço para expressar a sua dissidência. E assim alegremente, de amnésia em amnésia vamos radicando e fazendo radicar identidades e alimentando o fundamentalismo que tanto criticamos e receamos.
Clamamos agora que esta proibição é um atentado à liberdade religiosa. Mas a proibição dos minaretes não se estende à proibição de mesquitas (estas sim local de culto) que, de qualquer forma, já existem mesmo sem minaretes. E que, a proibição da construção de minaretes não implica a interdição da liberdade de culto que, neste caso, se pratica na mesquita e não no dito minarete. Minarete esse que nem existia nas mesquitas primordiais e continua a não existir em muitas das mesquitas modernas. Aliás a função do minarete é proporcionar um ponto alto de onde se possam chamar os fiéis para as orações. Assim como os campanários e os sinos nas igrejas de outras denominações religiosas e que em Portugal, por exemplo, tanta arrelia têm dado em certas freguesias. Gente haveria que certamente até votaria contra a existência dos campanários e dos sinos, houvesse ele um referendo semelhante em Portugal. E fosse ele assim, queria ver se a ONU e as Amnistias e os iluminados deste mundo também se pronunciariam sobre a intolerância das nossas beatas ou dos nossos médicos. Mas isto sou eu, claro!, que até sou parcial porque se me perguntassem, preferia mil vezes ser acordada pelo muezzin com a chamada do Ezan do que com o Ave-Maria fanhoso que pontua as badaladas horárias dos campanários das nossas igrejas:
Não sei quem são os dissidentes, críticos, apoiantes, delatores ou promotores deste debate do achobem/achomal, mas vistas bem as coisas apetece-me perguntar: “anda tudo parvo?” Desde quando é que a empena de um templo equaciona liberdade religiosa?
Quanto ao referendo, acho que os Suíços estão de parabéns! Parece-me muito bem que se façam referendos mesmo para questões que possam ser consideradas triviais; sempre é melhor que ir-se reduzindo a cidadania e a participação democrática ao acto eleitoral. E achava muito bem que por aqui se fizesse um referendo sobre a construção da bendita igreja do Restelo, cujo design me parece mais apropriado para um casino temático em Las Vegas, sei lá, com o nome de Noah’s Flood ou Biblical Waters, ou qualquer coisa no género. Senão soubesse melhor, diria mesmo que o projecto teria sido concebido pelo Sol Kerzner na ressaca de um episódio epifânico. Mas hey!, isto sou só eu; pelos vistos há quem goste! E já agora, o que está planeado para aquele campanário que tão alto se elevará sobre Lisboa? Uma aparelhagem capaz de atirar decibéis até Moscavide? E não acham que o campanário até parece um minarete disfarçado? Será que vem aí uma conspiração de surdos ou estará aqui o símbolo de um ecumenismo incipiente?
PS: Não querendo estragar a festa de anos da Maschamba tinha agendado este post, tendo-me esquecido no processo da diferença horária. Por lapso o post acabou por ser publicado ainda estava eu a editá-lo, facto para que fui alertada por ABM. Está agora acabado. Portanto, se já viu este post por aqui ligeiramente diferente não foi um poltergeist que invadiu o seu computador.
Em referendo os suíços proibiram a construção de minaretes no seu país. Apesar de existirem apenas quatro. Muito haverá para discorrer sobre esta intolerante democrática decisão popular.
Há muitas reacções sobre o assunto. Algumas laudatórias e/ou contextualizadoras. Outras, a maioria, críticas da intolerância revelada. Não posso deixar de opinar sobre o que acho mais interessante deste episódio: mais uma vez são exactamente os sectores euro-ocidentais mais intolerantes para com a “cultura” euro-ocidental que mais defendem a tolerância para com a “cultura” exo-euro-ocidental.
Um paradoxo nada simples? Nem tanto, apenas a perenidade do “remorso do homem branco”. Em plena era neo-comunista, com todas as suas necessárias reformulações.
Sobre a tolerância democrática? A liberdade de culto religioso? O processo histórico que os originou? Os processos de formação e reprodução das identidades culturais e fisionomias políticas? Tudo questões importantíssimas. Mas questões a abordar independentemente dessas vertentes. Porque elas são, pura e simplesmente, poluentes. Nascidas e ornamentadas do culto contra a tolerância e a liberdade. Apesar das retóricas.
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“If atheism is a religion, then abstinence is a sexual position.”
(Encontrado nos comentários a este texto da Palmira ao qual cheguei via Lutz.)
jpt
(maquete da futura Igreja católica no Alto do Restelo, em Lisboa)
por ABM (Alcoentre, 23 de Novembro de 2009)
Tenho assistido com algum indisfarçável gozo, ao aparecimento, no discurso público, das críticas à construção de uma igreja católica nova no Alto do Restelo, a coliona que se situa mais ou menos por detrás da Torre de Belém em Lisboa.
A maquete do que vai ser constrúido, e que foi oferta dum arquitecto chamado Troufa Real, está ali em cima.
O futuro edificio é suposto evocar Francisco Xavier, um Navarrense (em sua vida, viu desolado o Reino de Navarra ser absorvido por Leão e Castilha, onde ficou até hoje) que deambulou pela Europa e que com Inácio de Loyola e mais uns compadres fundou a Companhia de Jesus (uma espécie de Opus Dei que depois foi corrida a pontapé de Portugal), até que o então Papa o despachou para Lisboa e o colocou ao serviço de João II, que queria espalhar a fé pelos nativos nos vários cantos por onde os seus súbditos andavam a fazer pilhagens e negociatas.
A caminho de Goa em 1540, Xavier permaneceu durante seis meses na Ilha de Moçambique, por causa dos ventos adversos. Consta que gostou e até quis ficar em África a pregar mas o capitão do navio em que seguia disse que as instruções do rei eram para o colocar em Goa e ele lá foi.
Nos doze anos seguidos, Francisco de Xavier andou um pouco por toda a parte a tentar pregar o catolicismo até morrer em Dezembro de 1552 de um “febrão” num buraco qualquer na China onde os portugueses comerciavam. Depois de uma série de peripécias, os seus restos mortais (menos um osso, que ia para o Japão mas ficou em Macau) foram faustosamente depositados numa igreja em Goa, onde estão. Desde 1622 que é um santo da Igreja Católica e o padroeiro dos missionários.
A maior parte dos portugueses pensam que ele era português. Pois.
Bem, com esta inspiração do São Francisco Xavier, baseado aparentemente na ideia peregrina de que haverá uma relação entre a colina por detrás de onde fica a Torre de Belém e os Descobrimentos dos portugueses e os seus esforços de evangelização, o arquitecto concebeu uma igreja que é suposto ser uma nau a navegar nas ondas e quanto ao minarete acho que perdi algo na explicação. Com 100 metros de altura (altura do Prédio de 33 Andares na baixa de Maputo) promete ser um mamarracho dos antigos. Talvez bom para alugar às empresas de serviços telefones móveis pois a cobertura da zona será excelente e sempre daria uma renda à igreja. Como se não fosse suficiente, o nosso arquitecto, que parece rivalizar com Tomás Taveira na criatividade, juntou-lhe as cores garridas que se podem ver na imagem acima.
Admitamos que aquilo parece mais uma igreja revivalista-africanista-adventista em Las Vegas que uma igraja para Bétinhos do Alto do Restelo.
Mas – hey – quem sou eu para fazer mais do que escrever o que penso e subscrever (a convite do meu cúmplice em matérias de arquitectura, o Dr Nuno C Mendes) uma destas coisas muito em voga na internet estes dias – um abaixo-assinado electrónico no feicebúque?
O que considero curioso é que pelos vistos, apesar de Portugal estar pejado de igrejas e afins, não há uma decente no Alto do Restelo, um recanto chiquérrimo e abastado que baste da Cidade de Lisboa. Numa entrevista ao prestigiado Correio da Manhã de Lisboa (não o de Maputo, que é do Refinaldo Xilengue) o padre local, António Colimão, refere que aquela zona fora autonomizada da paróquia de Santa Maria de Belém (lá em baixo) e as missas andavam a ser celebradas num (que horror) barracão. Por isso falou com o Troufa Real e com a sua congregação, que deslindou uns míseros três milhões de euros, sacou um terreno grátis da Câmara Municipal de Lisboa e deitou mãos à obra. Aquilo levou uns dez a quinze anos até chegar agora à fase da construção.
Por isso, o bom padre não entende bem porque é que as pessoas agora deram para contestar a obra.
Bem, senhor padre, talvez seja porque ninguém realmente tinha olhado a sério para a sua catedral xaveriana à estilo de Macau/Las Vegas, não é?
Claro que a Igreja Católica Portuguesa vive um dilema em Portugal. Como referi, o país está repleto de edifícios religiosos, alguns com quase mil anos ou mais. Mas hoje estão todos nos sítios errados e efectivamente são mais museus e monumentos que igrejas. Não são locais conducivos à partilha da fé e do convívio que se pretende e se espera no Século XXI. A maior parte são frios, escuros, pouco funcionais. Custam um balúrdio obsceno para manter e para pouco mais servem do que oficiar missas, casamentos, baptizados e funerais. Nestes dias, mais funerais que outra coisa.
Acresce que, especialmente nos últimos quarenta anos, tem havido grandes alterações na localização da população, que se urbanizou em redor de Lisboa e do Porto. No vasto subúrbio destas duas cidades, há poucas igrejas, enquanto que nas zonas rurais é quase uma em cada esquina, e todas às moscas. Em Alcoentre City, por exemplo, há várias igrejas, frequentadas por meia dúzia de beatas e apenas um padre, que corre as capelas regularmente (até há pouyco num Audi A4, wow) a dar uma missita aqui e outra ali. Aliás, nunca lhe pus a vista em cima uma vez em 20 anos, o que diz muito dos tempos que correm, pois antigamente o padre da paróquia era um membro visível da comunidade (as minhas fontes revelaram-me confidencialmente que Alcoentre agora tem um novo padre, igualmente invisível).
Portanto que o Sr. Padre do Alto do Restelo queira ter a sua igreja é perfeitamente normal. Agora, não se surpreenda que as pessoas achem que o que vai ser construído pareça um casino chinês de Macau em dia de festa de fim de ano.
Dizem-me que Deus perdoa tudo, mas não sei se vai deixar esta passar.