Entries Tagged 'Portugal-Moçambique' ↓

Então vão passar a andar a horas? Ou, pelo menos, a dias?

Na capital moçambicana, Fernando Pinto adiantou que a TAP está interessada em abrir, no imediato, um quarto voo semanal entre entre Lisboa e Maputo. «O potencial turístico de Moçambique é enorme», afirmou o presidente da TAP..

***********

Ah, e ao ler isto percebo porque é que hoje à tarde a Mtomoni tanto transbordava para a Engels e a Nyerere. A Tap (dizem-me que até houve exposição alusiva) e o tão esperado congresso de Agentes de Viagens Lusófonos, qu’agora isto é que se vai desenvolver.

Hum, um certo coiso de cargo cult? Cantarolo “os tempos já mudaram”. Continuam a mudar, claro, mas já mudaram desde a canção. É como as gentes.

Alegre e Moçambique

Há alguns dias o meu total espanto diante da RTP, um episódio da visita de Armando Guebuza a Portugal. Também nisso reparou o Luís Carlos Patraquim, na sua coluna “A Esquina do Tempo” que envia de Lisboa para publicação no Savana.

Em compita para serem recebidos pelo dirigente moçambicano estiveram os candidatos presidenciais portuguesas. Mário Soares e Cavaco Silva relevam [sic] o sentido estratégico das relações Portugal/África e depois Portugal/Moçambique, Portugal/países da CPLP. Com o inédito do protesto de Manuel Alegre apontando o dedo à falha do protocolo de Estado. Reivindicou uma amizade antiga e o princípio de que, em democracia, não há vencedores antecipados. O presidente moçambicano virou centro de disputa entre os candidatos lusos. Manuel Alegre também queria ser recebido. Guebuza estava no centro de uma visibilidade que os “presidenciáveis” portugueses exigiam. É uma espécie de eixo que se desloca, inclina.” (Savana, 4 Novembro 2005)

Talvez um pouco forçado o tom com que traça o facto. Mas também eu notei esse “espécie de eixo que se desloca, inclina“. Pelo menos naquela polémica sobre a retórica protocolar - e forma é conteúdo. Não que venha mal, acho até um projecto interessante, o “multipolarismo”. Interessante não, necessário. Um projecto a fazer.

Mas é (foi) óbvio que não era disso que Manuel Alegre falava, não era esse redesenhar o seu objectivo. Pois se fosse o caso tê-lo-ia explicitado, uma linha de pensamento, um futuro. Nada disso, ali apenas o queixume do minuto de televisão, do “panache” cutucado. Episódio mero impensamento, mero autocentramento, mera cabotagem fluvial. Por mais que este episódio seja marginal ao correr português do lá em Portugal, que lhes seja até invisível, esta foi óbvia demonstração da pequenez política de Alegre.

Reportagem do Expresso sobre Moçambique

Via Chuinga pode-se ler (gratuitamente) reportagem do Expresso sobre Moçambique. Enfim, cada vez mais me convenço que jornalista é mesmo mutante, ser já diminuído devido a agentes letais.

Por cá consta, talvez mais um boato, que Balsemão quer aqui abrir um jornal. Assim será? Se assim for esperemos que mande gente melhor. Ou pelo menos com óculos, que isto de misturar estigmatismo com miopia não dá em nada.

Do futuro

Num Portugal que se expandiu e bastante guerreou ao longo da sua história há um pensar sobre os que morreram nessas guerras longínquas que, assim grosso modo, oscila entre dois polos.

Um deles, dito mais conservador, valoriza a identidade comum, indiferencia um interno, baliza um projecto nacional unânime (por vezes chamado patriótico), e saúda objectivos e realizações desse passado. A este às vezes chamou-lhe gesta ou epopeia, e nisso costuma aplicar-lhe várias maísculas, estas como se fortalezas de sentimentos. Exalta, claro, os caídos nesses passos, consagrando heroísmos, os célebres e os anónimos, vistos como agentes de um desígnio. Nisso se respeitam e se recordam os nossos mortos. Símbolos do que somos, heranças para os que se seguem nesta História que se quer perene pois orgulhosa.

Um outro, dito mais progressista, lembra uma identidade comum sobre um diferenciado interno, de poderes e de classes feito, baliza os projectos nacionais (quase nunca chamados patrióticos) como se plurais frutos dos conflitos entre diferentes grupos, e assim contextualizados critica objectivos e realizações desse passado. A este às vezes chama-lhe expansão ou descobertas, e nisso costuma aplicar-lhe várias aspas, estas como se vassouras de sentimentos. Exalta, claro, os caídos nesses passos, consagrando heroísmos, mas mais atento aos anónimos, até vistos como vítimas de poderes mobilizadores. Nisso se respeitam e recordam os nossos mortos. Símbolos do que fomos, heranças para os que se seguem na História que se quer perene pois reflexiva.

Será demasiado simples chamar a isto a persistência das religiões dos ancestrais. É mais, qualquer que seja o poiso de onde se fala, olhar e usar o(s) (ante)passado(s) para imaginar o presente e construir o futuro. Mais ou menos criativamente, consoante o paladar.

Pemba, Cemitério Militar da Commonwealth, I Guerra Mundial

cemiterio1.jpg

cemiterio8.jpg

cemiterio7.jpg

cemiterio9.jpg

Pemba, Talhão Militar Português

cemiterio3.jpg

cemiterio5.jpg

cemiterio2.jpg

cemiterio6.jpg

cemiterio41.jpg

Um país* que não cuida dos seus mortos desistiu de o ser.

*ver comentários.

Ilha de Moçambique

Nunca o Ma-Schamba teve tantos visitantes como neste dia de aniversário, decerto porque muitos foram os turbo-leitores (a quem abaixo agradeço, reconhecido). Na expectativa que alguns ainda regressem aqui deixo algo que há muito está pendurado.

Tive ao longo de uns poucos anos alguma coisa a ver com a Ilha de Moçambique, coisa de trabalho diga-se. Muito me apraz uma capelinha que por lá subsiste, e que se lixe a modéstia. Mas, no correr do tempo, muito ouvi dos meus patrícios sobre o quanto e o como fazer na Ilha, entre mais ou menos pomposas deslocações e camarões. Um dia, numa conferência da UNESCO sobre a reabilitação da Ilha de Moçambique, aqui decorrida, até ouvi um qualquer desavergonhado patrício bem pago anunciar o donativo de um milhão e meio de contos pelo Ministério do Ambiente. Disse-o sem pestanejar, o escroque…Mas enfim, isso foi passado.


Tenho em casa esta revista institucional, datada de Dezembro de 2003. Nela Pedro Santana Lopes, então presidente da Comissão Executiva da União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa (UCCLA) anunciou:

“A recuperação da Fortaleza de São Sebastião é uma obra que muito nos orgulhamos. Lembro que quem primeiro me alertou foi o anterior Cardeal Patriarca de Lisboa, era eu Secretário de Estado da Cultura (1990-1994). O senhor D. António Ribeiro estava de regresso de uma visita à Ilha e ficara impressionado com o estado de degradação da Fortaleza, a primeira erguida pelos portugueses no Índico. Falou-me de como era importante a sua recuperação, até por se tratar de um dos maiores atractivos turísticos da Ilha. Entretanto a Fortaleza foi declarada pela UNESCO como Património Histórico da Humanidade. E, neste momento, estamos em vias de firmar um acordo com a UNESCO para a recuperação da Fortaleza. A UCCLA participa com 600 mil dólares e a cooperação japonesa com um milhão de dólares“.

Estou satisfeito. E orgulhoso. Quando começam as obras?

Portugal-Moçambique

Ainda aqui não o tinha referido. Para quem quer informações sobre Moçambique, e também sobre as relações Portugal-Moçambique, o sítio da Associação Portugal-Moçambique está muito completo e recomenda-se.

A visitar.

Interpretações

“…Estou a falar dessa coisa do futebol. Do Euro 2004.

Embora eu não seja apreciador de futebol, como sabes, também não tenho nada contra quem gosta de jogar ou assistir. E, portanto, acho perfeitamente natural que muitos moçambicanos estejam entusiasmados a ver os jogos na televisão.

O que já acho menos agradável é notar que grande parte dos moçambicanos parece ter feito sua a equipa de Portugal. E não é por ter alguma coisa contra esse país. Muito pelo contrário é um país de que gosto. Só que esta adesão generalizada dos moçambicanos no apoio à equipa portuguesa me parece um cortão umbilical mal cortado. Ou, talvez, cortado e voltado a amarrar….”

Machado da Graça,
Correio da Manhã, nº 1855, 24.06.04

Comentar criticando este trecho, com o qual discordo não palavra por palavra, não letra por letra, sim de haste de letra a traço de letra, exige mais do que eu posso dar a um blog. Exigiria um livro talvez, se quisesse ser comentário mesmo.

Assim só para o café a tomar deixo-te, Machado (como é bom variar, referir alguém sem ter que fazer a “ligação” informática), duas pequenas ideias:

- que no processo da construção de uma “moçambicanidade” o jogo de identidades/alteridades já não se depara com o polo antagónico “Portugal” como norteador.

Épocas…crescimento…história…nacionalismo…pós-colonialismo…(outros)neo-colonialismos. [repito-me: tanta coisa para dizer]

- que será interessante ires ler na biografia do Mário Coluna o episódio em que ele foi interrogado pela PIDE: vê as causas e interroga o argumento d’hoje.

Abraço, até ao tal café.

Uma visão de Portugal

[Se não tiver tempo/paciência para ler este texto, que é tentativa de contextualização, siga sff directo à transcrição de parcela de carta de leitor do jornal “Notícias”, “Historieta portuguesa”. Uma pérola, garanto. Hilariante]

Uma das componentes mais interessantes do diário “Notícias” é sua secção “Cartas dos Leitores”. Vários assuntos são aí abordados, em especial sociais e políticos. A secção é um belo barómetro da situação política do país, acho-a um universo documental riquissimo para a análise da história recente. Mas a sua interpretação exigirá a análise das estratégias de autoria.

Surgem cartas assinadas pelos leitores, como é óbvio. Muitas outras sob pseudónimos. Alguns recorrentes e até reconhecíveis. Outros incógnitos (ou seja, anónimos). Dizem-me que por vezes esses pseudónimos desconhecidos são utilizados por elementos da própria redacção, ou por colaboradores muito próximos. Não o posso garantir, apenas transcrever uma opinião corrente no público leitor e até no meio profissional jornalístico.
Esta questão da autoria liga-se com os objectivos finais das comunicações. O não assumir público dos escritos prender-se-á com dois factores: o cuidado do cidadão que quer opinar ou denunciar mas que não se quer ver envolvido em questiúnculas; e, bem mais subtil, o possibilitar ao jornal “Notícias” veicular factos e opiniões algo distintas da linha editorial que quer explícita.

Entre outros há dois aspectos que quero aqui realçar:

1. a recorrência com que textos sobre questões políticas surgem assinados por pseudónimos (reconhecíveis ou não) radicalmente bantus. [a questão dos nomes nunca poderá ser entendida se não se considerar a prática de atribuição forçada de nomes “cristãos” por parte da administração colonial]

Não posso deixar de associar esta prática à tentativa de criação de uma autoria especificamente africana, isenta das influências portuguesas-coloniais, insuspeita de qualquer “assimilação” colonial ou pós-colonial. Ou seja, a imagem de uma voz absolutamente africana, uma visão essencial, não contaminada. Em suma, uma africanidade não corrompida pela modernidade “assimilacionista”, de teor colonial ou globalizada. A voz de África, a voz de um Moçambique puro e, portanto, legítima nas suas opiniões.

Entenda-se, ainda que prefira ver os textos identificados acho este recurso retórico legítimo. Mesmo que critique, intelectualmente, a visão essencialista que lhe está na origem.

Mas não posso deixar de notar um facto paradoxal. Alguns destes escritos implicam ainda uma estratégia de simplificação. Não tanto da escrita, mas sim um empobrecimento do conteúdo, algo que o calão moçambicano poderia chamar de “confusionismo”. Ou seja, há uma construída ligação de ignorância e da tal “pureza africana”, que se produz através da diminuição do saber do próprio autor. Que põe o pseudónimo a escrever sob uma espécie de “pretoguês” intelectual, como se o tal “essencial” autor local fosse incapaz de um efectivo conhecimento da realidade global, que ultrapasse os seus limites empíricos.

Involuntariamente decerto, temos nestes textos um dramático exemplo de (auto)racismo, um racismo de classe evidente, no qual os autores, letrados moçambicanos, desvalorizam as potencialidades cognitivas do seu próprio povo, se rural, se não-assimilado.

2. a recorrente presença do tema “Portugal”, com o ex-colono surgindo como objecto de polémica. Quanto à História colonial, quanto à actual presença aqui de interesses e cidadãos portugueses. É normal, a relação colonial deixou uma difícil herança, estranho seria o contrário.

Mas o tema “Portugal” serve ainda para a discussão política, é por vezes matéria-prima para a argumentação da vida política interna, e amíude com notório exagero da actual influência portuguesa em Moçambique.

Muito francamente duvido da efectiva eficiência deste tipo de argumentação, o da afirmação de laços particulares de alguns grupos sociais, políticos, religiosos moçambicanos com interesses portugueses. Nem que seja pelo facto da maioria da população moçambicana já não ter como referência existencial o colonialismo. E até pelas dificuldades do quotidiano, este já tão distante dessa realidade histórica.

Vem isto a propósito de uma deliciosa e paradigmática carta de leitor (sob pseudónimo) publicada em duas partes (17 e 19 de Abril de 2004), carta de apoio a um dos partidos políticos e crítica de um outro. Mas também crítica da presença portuguesa e das relações havidas com forças políticas locais. E, também, crítica dos assimilados, considerados como tendencialmente próximos do partido adversário.

Abaixo transcrevo a sua parte introdutória, “Historieta Portuguesa”. Por ela se afirma a raíz das dificuldades moçambicanas, a mediocridade do colonialismo português. E também a dos assimilados. Ambos passíveis de apoiar o partido adversário.

Paradigmática carta pois ao ler a deliciosa prosa é óbvio que o seu autor domina a história de Portugal e que a aprendeu pela cartilha do Estado Novo, percebe-se pelos factos invocados e pela linguagem utilizada. Será portanto, na linguagem local, um “assimilado”. Mas deliberadamente tudo confunde para se livrar desse epíteto, assim ainda legitimando a crítica a essa hoje já abstracta entidade “assimilado”.

[Esta minha conclusão após ler e fruir a carta foi-me confirmada por várias pessoas que identificam o autor. Aliás frequentador habitual da esplanada da Associação de Escritores, pelo que muito provavelmente já partilhámos mesa e até bebidas]

Finalmente não posso deixar de sublinhar um ponto espantoso: a carta, um verdadeiro texto pós-moderno como afirmava uma amiga minha, apresenta uma concepção original da expansão portuguesa (e ibérica, já agora). Tudo derivou da busca de afrodisíacos. Freud não diria melhor.

Façam favor, leiam “Historieta Portuguesa” (minha transcrição, todos os erros que não estejam assinalados com sic são da minha responsabilidade)

Atitudes e Comportamentos Ridículos
Kandayane Wa Matuva Kandiya
Notícias, 17 de Abril de 2004

1. Historieta Portuguesa

Uma das piores senão a pior desgraça que há cinco séculos abateu o Povo Moçambicano, foi o de ter sido colonizado por portugueses.

Oriundos de um pequenino país da Europa, produto da fusão de vários povos, acabaram sendo conhecidos por Lusitanos.

Encravado no extremo sudeste [sic] da Península Ibérica, Portugal foi várias vezes feito colónia ou província Castelhana, depois de ter sido sucessivamente esgravatado por Iberos, Celtas, Fenícios, Gregos, Cartagineses, Romanos, Vândalos, Suevos, Alanos, Visigodos, e por fim ainda hoje se podem encontrar naquele país, vestígios dos seus últimos colonizadores, os Muçulmanos, também conhecidos nessa época por Sarracenos, Árabes, Maometanos e Mouros.

Trazendo consigo recalcamentos de vários sofrimentos não podiam ter encontrado melhor campo para descarregar e semear as suas mágoas, as desilusões e enfim a sua fúria senão no pobre Povo Moçambicano.
Mal se tornou independente da Espanha pelo tratado de Zamora assinado entre D. Afonso Henriques e o Rei de Espanha lá para os anos 1149 por aí, e apercebendo-se da sua pequenez no tamanho e na forma, Portugal decidiu desde logo tornar-se grande à custa de conquistar, subjugar e dividir para reinar outros povos, imitando os seus anteriores suseranos romanos e, pedaço a pedaço, os “Tugas” como hoje são apelidados formaram um “grande império português” que, partindo da praia do Restelo iniciou uma marcha longa cujo destino seria a Índia, contornando e conquistando quase todos os povos da parte ocidental do Continente Africano, desembocando depois em Moçambique.

Quer dizer, o conceito de poder e grandeza para os portugueses de então, não era em termos de possuir ou armazenar riqueza, tal como ouro, carvão ou gás de Moçambique que sempre jazeram no subsolo inexploráveis (sic), muito menos o petróleo ou os diamantes angolanos que também sempre existiram, mas apenas e só apenas descobrir o caminho marítimo para a Índia, para de lá carregar para Europa piri-piri e outras especiarias culinárias, tais como gegimbre (sic), açafrão, colorau servindo apenas de entreposto comercial! Ridículo não é?
Mas foi assim mesmo: a noção de riqueza e grandeza para os portugueses de então, não consistia na busca e/ou descoberta e estar sobre o seu domínio as areias pesadas de Angoche, Moebase e Chibuto em Moçambique, Mancarra, olém de dedém ou borracha da Guiné, cacau em São Tomé e Príncipe, ou pelo menos algumas palancas em Angola que fariam delirar de encanto aos (sic) visitantes do Jardim Zoológico de Lisboa, não senhor!

Apenas e só apenas espezinhar outros povos e levar para Portugal, pimenta, cravo e títulos honoríficos para os seus reis. Por exemplo, um dos seus reis o Rei D. João II, quiçá o mais sanguinário dos reis portugueses, teve a alcunha ou o cognome de “Princípe Perfeito”, após ter ordenado o abate de muitos dos seus adversários, mandando igualmente ao cadafalso o Duque de Bragança e apunhalado com as suas próprias mãos o Duque de Viseu e assim ficou Rei e Senhor absoluto de tudo, passando depois a usar pomposamente os títulos de “Rei de Portugal e dos Algarves, d’aquém e d’além mar em África, Senhor da Guiné, da Conquista e Navegação, da Etiópia, Arábia, Pérsia e Índia”.

Assim, El-Rei, ficava sumptuoso e altivamente arrogante gabaroso e amalham (sic) ao ponto de “chutar” alguns poderes para os seus “vice-reis” lá para as Índias, após ter descoberto o tão almejado caminho marítimo e levar a Lisboa, malaguetas e outros afrodisíacos!

Com este tipo de colonizadores, outra sorte não podia nos calhar senão a pior.

Colónias Balneares

Da Ilha regressam amigos, mais do que agradados.” e narrando o seu passeio. Pelo meio não esquecem de referir, e com entusiasmo apesar de serem gente entendida, o por lá terem encontrado as Férias em Português, montadas pelo Instituto Camões.
Surpreendem-se com o meu esgar, nem o entendem. “Os miúdos estavam todos contentes” afirma-me o meu amigo, cuja presença da mulher, ali a anuir, obviamente torna menos cáustico. Efeitos que elas têm, e ainda bem.
Eu a resmungar, tanta coisa estruturante e tanta coisa festiva a pedirem para serem feitas para articular culturas entre-países, visões assim mútuas, abrir as cabeças. E disso tudo que pensa, que conceptualiza, que executa o meu Estado? Junta as criancinhas, coitadinhas, pobrezinhas, leva-as para as actividades lúdicas ali junto à praia, elas divertem-se, uma comida extra claro está, até leite presumo.

[Colónia Balnear “Um Lugar ao Sol”, sito na Costa de Caparica. Pertença da Fundação Nacional para a Alegria no Trabalho (FNAT). Fotografia do arquivo Inatel]

“Férias em Português”, há-de haver fotos várias, hão-de sair nos suplementos institucionais, os pretinhos felizes, e tão agradecidos estão eles. Provando também o quanto se faz pelo ensino da língua pelo mundo fora, claro está, vejam-nos tão bem, fruindo no português apesar das tantas dificuldades que vivem no dia-a-dia, tão apetitosos do saber são eles.

Mas não se lhes dá apenas o jogo, o brincar, que eles tanto desconhecem, também têm “formação” em coisas sérias e boas, valores para o pensar e agir, para que venham eles a ser melhores adultos. Para que prossigam mais.

[Colónia Balnear Marechal Carmona, na Foz do Arelho, pertença da Fundação Nacional para a Alegria no Trabalho (FNAT). Fotografia do arquivo Inatel]
Não há tino? Não há cabeças? As perguntas são inúteis, os anos passam e também as caras. Mas não as ideias.
Pois nada mais conseguem pensar que montar filial da Colónia Balnear “O Século”. E pior, bem pior, é que até estão convictos. E continuam.

Relações entre portugueses e moçambicanos. Se alguma das visitas tiver curiosidade sobre o que penso eu das relações entre portugueses e moçambicanos pus um texto de vinte páginas sobre o assunto aqui.

Just in case…como dizem os outros

Relações entre portugueses e moçambicanos. Se alguma das visitas tiver curiosidade sobre o que penso eu das relações entre portugueses e moçambicanos pus um texto de vinte páginas sobre o assunto aqui.
Just in case…como dizem os outros

Ha ngonhama ya mbangu lowo

[preâmbulo: são dezenas os empresários portugueses, vários os ministros, camionetas de jornalistas, os dirigentes multiplicam-se. Nos jornais de lá (dn, dn) anuncia-se até o regresso dos portugueses a (esta) África. Já vi isto, já ouvi isto. É noite pai, tarde, e apetecia-me estar aí contigo para bebericarmos um rum devagarinho, e lamentar-me que estou a ficar velho, a desabafar este tanto “já visto” e tu a rires “velho? então e eu nestes oitenta?”. Porque só tu me farias mais novo agora, noite já, com tanto “já visto”.
Então, e a propósito disso, lê lá, se tiveres paciência, o longo]HA NGONHAMA YA MBANGU LOWÔ

No final do século foi quando começaram a chegar. Nessa altura parecia-lhes já arrumada a longínqua casa e, se bem que ninguém o clamasse à boca cheia, muitos acreditavam que estava de novo chegado o momento de romper mundos, ditando-lhes alhures alguns rumos.

Logo abundaram pela cidade. Afável a baía e ondulante o clima poucos arriscavam nortes ou interiores. Eram gentes de bem e de mal ou mesmo de nem tanto, armados de poucos ou grandes anseios que nenhum lhes diminuía o afã, uns apenas em novo ensaio, uns outros já em últimas e até desesperadas tentativas. A alguns acompanhavam-nos as mulheres, famílias a reclamarem o destino, mas muitos arribavam sós, cedo e com azáfama procurando filhos na terra como se viessem eles a ser âncora neste porto, assim tornando-o abrigo seguro. E em todos a sensação da mudança feita na distância, mas isso é da natureza humana, o sentir o andar como se fazer fosse.

Nessa época também eu cheguei, a empresa a oferecer-me boas condições pois necessitavam de alguém para as relações públicas, artes que constava serem incipientes por estas paragens. Por lá perdido no meio do pelotão nem hesitei, aproveitei e saltei, deixando a mulher mal disposta em casa. Resmunguei-lhe, não sei bem porquê, que “navegar é preciso e mais qualquer coisa” e vim aos dólares.

Lembro que esses eram tempos até de turistas, quantos recém-casados a fingirem um desflorar em terras exóticas, como se o verde local lhes viesse a fertilizar as alianças, perpetuando-lhes os apetites e os gozos. Com eles se cruzavam, já mais cansados, os romeiros da saudade aqui vindos a lamber feridas, cheirando uma terra à qual teimavam em chamar sua, indecisos se paraíso ou inferno. Tinham-lhes já passado, pelos menos então, quaisquer raivas antigas, não que a emoção os aclarasse, seriam antes os ares índicos e talvez o alívio de terem chegado ao chegar, que isso de sobreviver é difícil e não para todos.

Com azáfama também se apresentavam os governantes, deles havia constante trânsito, dizia-se que para criar clima pois era de consenso ser já tempo de se cicatrizarem velhas feridas, então chamadas equívocos. E tão enleante era o ambiente que amiúde chegavam administradores e proprietários, ágeis a desenhar lucros em rápidas e agitadas incursões. E logo rodas de convívio sortido, aquelas onde se ia fazendo o bem olhando a quem, animavam restaurantes e prostíbulos, exultantes nos comentários à última visita, à reunião havida, ao negócio encetado, ao investimento do mês, à parceria delineada, aos rumores das novidades. Tal como se tudo isso a todos pertencesse, como se o seu brilho dourado a todos alumiasse.

Lamentos havia-os, mas eram mais os resmungos devidos aos surpreendentes inesperados do dia a dia. E também os das famílias, queixas da alguma insegurança então que fora do casulo e da falta de locais de convívio legítimo. Mas nisso eram mais as senhoras, desde logo cansadas de sofrer os confortos da criadagem e dessa árdua tarefa de resguardarem os maridos dos ânimos dos patrícios aqui solteiros, por opção ou geografia, sempre estes desinquietadores das calmarias conjugais.

Foi pois com alegria geral que se soube da aquisição do Cine-Teatro da cidade, sítio invejado ali à rua da presidência, dizia-se que há anos pelo Estado desusado. Era o agrado com mais um feito da comunidade, mas mais ainda a expectativa do entretenimento em vidas que corriam monótonas, distracções inclusive com coisas “muito nossas”, postais da terra a mitigar saudades. Lesto foi o alindar da sala, a maquinaria a chegar de fora e a juntar-se a estofaria e limpezas, para que tudo pudesse brilhar no que veio a ser uma agitada inauguração, rara ocasião então aproveitada por quem pôde para provar elegâncias. Também eu fui convocado para a gala, apesar de recém-chegado já me sentia alguém na cidade, um director, quando entrava nos restaurantes havia até quem se levantasse, por vezes pagavam-me as contas na noite e, inclusive, já me tinha sido possível corresponder a um ou outro favor.

Rápido se tornou o Cine-Teatro palco do bulício da cidade no hábito generalizado da sessão de cinema intrometida no quotidiano e prestando-se a falsos acasos, encontros ditos ocasionais pois bem se sabia os dias certos em que cada um ali se apresentava entre o irrisório de filmes. Pelo fastio da vida e no gozo da recente notabilidade fiz-me presença assídua, as estreias semanais, os concertos de beneficência e até as inúmeras conferências onde se discutiam futuros e obrigações do país. Além disso a minha administração, sempre atenta à imagem, instruiu-me a que fosse eu pródigo em patrocínios pois estes sempre nos iriam dar bom nome na praça, cativar boas vontades locais, “deles e nossas” sorria-me o Administrador Delegado, e tudo isso me impunha lugar cativo nos eventos.

E assim me fui sentindo amigo da casa, bem-vindo nas portas gratuitas e sorrisos abertos do pessoal, gente ali estabelecida há muito, alguns ainda dos idos coloniais, que as compras ao Estado sempre trazem o trabalho de antanho, aqueles que sentem a casa como sua e que nem pensam em partir, ainda para mais dali, com tanta falta de empregos e sendo estes nada duros, abrigados de chuvas e imponderáveis.

Nisso fui crescendo amizade com a gerente, uma conterrânea meio balzaquiana aqui encalhada saberia deus porque razões que nunca lhas perguntei. Por ela pude confirmar que corria bem o negócio, e nesses bons augúrios cedo se rumorejaram expansões, velhos cinemas lá pelos nortes, “tudo para reconstruir” claro, mas também diferentes arrojos, jornais, revistas, até um canal de televisão. E com a fronteira tão vizinha ali para sul, sonhavam-se outros passos cuja ambição excitava até os clientes.Foi então passando algum tempo, imperceptível como é este sempre que se agita. Nesse curso certo dia dei conta que os olhos da gerente vinham mudando de cores, iam indo num caleidoscópio, uns dias acordavam azuis, noutros castanhos, para logo voltarem ao verde, seguiam ao preto, e não tinham nisso descanso. Essas deambulações incomodaram-me mas hesitava, como alertá-la sem lhe despertar preocupações? E era caso sério, apenas ela não atentava no ocorrido, os próprios funcionários se inquietavam, ali bem expostos a tais miríades de cores. Isso adivinhei nos seus silêncios, que deles não poderia esperar que me dedicassem confissões ou preocupações, branco doutor que era e para mais da própria gerente amigo. No passar dos dias ainda questionei o antigo responsável Nhamtumbo, ali sempre informal influência, mas o velho, mirrado, largou-me um vago sorriso sem denúncias de grande interesse, e apenas anuíu em concordar em que era aquilo bem estranho, num “ai senhor doutor, são estas coisas modernas, nunca tinha visto…”.

Tendo-me deixado a matutar sobre toda aquela situação súbito compreendi que os próprios filmes iam piorando, não só eram eles segundas escolhas mas mesmo dessas vinham agora as cópias riscadas ou mesmo cortadas, enquanto o novo projector se afirmava cada vez mais renitente ao trabalho, e até o gerador se tornava menos solícito, sempre pronto a interromper sessões. E, cúmulo, mesmo as chuvas quando se abriam tomavam conta da sala, há pouco tão orgulhosa. Com tudo isto ia o negócio decaindo, ainda sem reclamações da sede nem murmúrios na clientela, se bem que esta cada vez mais esparsa. Seriam apenas os percalços tropicais?, interroguei-me, então ainda mais intrigado com o arco-íris na mulher. Mas calei-me, nada comentei, pois não eram assuntos da minha competência, e a vida de cada um é de cada um.

Finalmente algum espelho terá sido clarividente, que dos acontecimentos lá se apercebeu a gerente. Inquiriu e para o esclarecimento das causas ter-lhe-ão valido algumas solidariedades femininas, após as quais veio ter comigo, que da vizinhança tinha feito poiso para lhe ir distribuindo alguns conselhos de modo a que capinasse ela a vida. Ao que lhe afiançavam tudo aquilo, desvarios cromáticos e mecânicos, silêncios e vazios, se devia ao facto do antigo responsável ser leão, e ter entretanto redobrado as suas felinas actividades. E, pasmada o dizia, sendo isso do conhecimento geral dele fugiam os clientes, temores redobrados nas falsas noites que o cinema fingia, todas aquelas imagens de sonho tornadas assim fábricas de pesadelos.

“Que fazer com o leão?” angustiava-se a gerente. Despedi-lo, e de imediato, foi a minha proposta, mas ela a retorquir-me que o não poderia fazer, não tinha para isso justa causa, ao que ainda opus “e que raio de lei do trabalho é esta, se ser leão não é justa causa para despedimento?”, quem protegeria os direitos das vítimas? Mas ela, aflita, a negar-se, nem pensar em despedir o leão, isso implicaria recurso para o tribunal e como poderia ela reportar à longínqua sede “despedi o funcionário tal que é leão”, não haveria de ser compreendida, haveria um espanto lisboeta e decerto seria também ela dispensada.

Mas apesar dessa discordância insistia ela na minha opinião. Assim instigado alertei-a para a necessidade de inverter o rumo das coisas, trabalhar a opinião pública, pelo que lhe propus uma campanha publicitária que torneasse alguns dos malefícios sem que fosse muito explícita, pois era delicado o problema. Aventei então uma reprise, “O Rei Leão”, delícia da meninada grande, apresentação emoldurada por anúncios afiançando que era esse “ha ngonhama ya mbangu lowô”, o ronga para “o único leão deste lugar”. E que entretanto ao outro leão fossem dadas férias, direito de todos e matéria que não levantaria quaisquer reparos. Assim talvez se reduzissem as suas acções, avisado ele da compreensão alheia, assustado até, e com isso regressasse o público.

Mas em breve constatei que se a afluência tinha aumentado um pouco da serenidade do olhar da gerente não havia melhoras. E passo a passo foram regressando, implacáveis, as outras incongruências. Para mais pouco tempo depois aportou um director, aqui deslocado para estudos de expansão pois as más notícias ainda não tinham soado na sede. Mas não lhe era longa a estadia e, súbito, uma manhã cedo fui chamado pela vizinhança, apelo urgente que chegara a revolução!

Acorri, solidariedade de imigrados, para me defrontar com um pé de vento que era também de guerra, os funcionários aglomerados e recolhendo a solidariedade transeunte, dezenas de pessoas protestando à porta e acotovelando-se em indignação curiosa. Tudo isto coroando a presença de dois polícias, ali deslocados para defesa dos trabalhadores. Lentamente iam eles agitando um papel reportando a queixa entretanto apresentada, e o qual oscilava em alternância entre director e gerente, estes já cônscios da importância da situação não só pela agitação colectiva mas sabedores de que é por aqui sagrado o papel, pois quando lhe chegam ao corpo os problemas já não têm estes retorno possível. Apesar disso pareciam os agentes disponíveis para uma resolução amigável do assunto, sem particulares incidências ou relatos e porventura com modesto e privado reconhecimento. Mas a população é que não o aceitaria, exigindo eficiente e rápida resolução da questão apresentada.

De mim se esperava um conselho avisado e de imediato me deram conta do conteúdo da queixa. Ali, num português duvidoso mas de cuidadosa dactilografia, erguia-se o auto acusador, expressando a angústia dos funcionários. Nele se denunciavam as ímpias actividades do antigo responsável do pessoal, aquele velho Nhamtumbo, algo de irrefutável pois os queixosos com ele tinham sonhado, indício certo dos ataques que vinha ele desenvolvendo contra os seus colegas.

Encarei o acusado, ali entrecoberto num canto, ainda mais mirrado do tão enrugado que estava, o fundo dos olhos encovados mais distantes do que o habitual, como que refugiando a alma bem num âmago que se queria inacessível. Confrontei-o com as acusações e ele, no tom assustadiço do encurralado, a negar “nada, senhor doutor, eu não fiz nada”. E eu a impor-me, alguém tinha que o fazer e já não seriam os meus dois patrícios, ali descabelados, “mais velho, que anda você a fazer, a querer matar os colegas?”, que vergonha aquela, que teria ele a ganhar com isso, trabalho havia para todos, para quê aquela maldade, e ele já pouco negava, desistindo-se num fastio raivoso “se eles o dizem!, senhor doutor, mas eu não fiz nada”.

Arrastava-se a situação, os polícias ali também desprovidos de atitude, e a gerente aflita, ainda para mais com o director tão incomodado com tudo aquilo, nada preparado para um sublevação popular à porta do seu Cine-Teatro. Urgia fazer uma limpeza, foi a minha única opinião, “vocês têm que chamar alguém de fora para sarar isto”, e ela anuindo entre o compreensiva e o assustada, e, avancei eu, para uma situação tão grave como esta impunha-se chamar um especialista de Inhassoro, zona desses mais poderosos, e o qual logo diria se havia ou não feitiços e decerto se encarregaria de os anular.

O director não desviava os olhos, julgo que avaliava da minha franqueza, mas logo lhe irromperam as dúvidas, até agrestes: “Você está a falar a sério?”, e eu encolhendo-lhe os ombros, insistindo que seria a única coisa a fazer, ao que ele logo se impôs, determinado na sua autoridade e ultrapassando qualquer concordância da sua subordinada, que “era o que faltava, andar agora a recrutar magos para nos resolver as questões”.

Ainda entreolhei a gerente, se bem que não me recorde qual era a cor dos olhos dela nesse dia. Mas então esvaziava-se ela diante do chefe, agora ali a afirmar-se, seria ele a resolver a contenda. E logo me voltou a antiga azia com gente desta, que não há continentes de permeio que os afaste, tão cheios de si mesmos, e amaldiçoei a diarreia que não se lhe chegava, que é sempre com ela que se lhes reduzem as certezas. Assim, e à laia de desistência, fui-lhe dizendo que tudo aquilo era com ele, tinham-me pedido opinião, estava dada e pronto, e concluí numa insistência já inútil “vocês têm aqui um problema laboral, se o quer resolver chame o curandeiro e verá como tudo acalma”.

Cresceu então o director, a reforçar a sua magreza, franzindo ainda mais a cara rósea destes recentes trópicos, aquele eterno casaco azul bem vincado e abandonado pelos ombros. “Ó Teixeira”, chegou-se-me ele ao apelido a modos que a sinalizar a gravidade do momento, que nem sequer aí tínhamos chegado, ali sem “doutores” que é certo tal não se usar entre homens da mesma idade e, julgava ele condescender, do mesmo estatuto, “nem pense nisso, nunca farei tal coisa”. Aí fui lesto, abandonei-lhe um ok despedindo-me daquela conversa sobre a qual se centravam todos os circundantes olhos, enquanto ele, convicto e sonoro, rematava para todos nós em jeito de justificação e já em nome da Companhia “nós também viemos para mudar este país!”.

Ainda levantei as mãos, rendido, e dei-me à saída deixando toda aquela turba a resmungar foradentes a situação, mas não sem deixar a Nhamtumbo uma última invectiva, que estava ele com sorte, mas que deveria parar com aquilo, tinha sido descoberto, nada ganharia com o assunto. E do assunto nada mais ouvi, algum acordo deve ter sido feito, falsos silêncios acredito.

Pouco depois o director regressou à base, que esgotado estaria o motivo da sua visita. E em breve partiu a gerente, já cansada não tanto da terra mas mais de estranhas ameaças, gentes que lhe irrompiam casadentro de arma na mão, nunca se soube se verdadeiras se falsas, que por outros nunca foram vistas, mas que para ela existiam é certo.

Passaram-me alguns anos e com eles novos interesses. Fui ouvindo dizer que o Cine-Teatro se esvaziava, e quando me arriscava a passar perto da porta bem notava que os cartazes iam sendo cada vez mais antigos e desconhecidos, ali postados reforçando um ar de abandono que, súbito, fazia até o folclore das gentes da cidade.

Hoje, com a família já bem longe e a casa em definitivo vazia de qualquer comodidade, o fastio da solidão levou-me ao refúgio do cinema. Cruzei, até cerimonioso, o silêncio da porta, preservado com cuidado pela pouca meia dúzia de clientes, ali todos um pouco com ar de engano. E logo agarrei a parca companhia de um café enquanto procurava nos muitos empregados, em desuso por ausência de quem servir, alguma cara conhecida com quem trocar mero cumprimento que fosse. Mas nada, ninguém do “meu tempo”, todos aqueles trabalhadores tinham partido, já não havia ali alguém para me reconhecer.

Súbito, saindo da sala ainda iluminada, lanterna desligada na mão, sorrindo-me um “boa noite, senhor doutor” o velho Nhamtumbo. Não resisti, entre o aliviado e o contente dei-lhe também um quente “éh, senhor Nhamtumbo, ainda está aqui?” e ele a acenar o óbvio, “então e os outros, foram-se?”, e ele, seráfico e ainda mais mirrado, a anuir imóvel e longínquo, abandonado num sorriso mudo. “Só ficou você, Nhamtumbo?!”, e ele nada sem negar, “áfinal?!” não pude deixar de rir-lhe, agora com ele solidário.

Saí para a rua, uma noite estrelada, destas daqui, a casa oca e a falta de sono, tudo apelava para que perseguisse a madrugada. Mas, estranho, tive pudor em gastar esta minha última noite índica em passeios solitários, tão desencaminháveis são esses. E de qualquer modo amanhã estarei já, e de vez, recomeçando em Luanda onde, contam, são os bares bem mais animados e tantos os patrícios por ora recém-chegados.

(Agosto 2002)

Usos e Costumes: apropriação ritual de comestíveis

Segue-se abordagem a alguns dos episódios mais hilariantes que vivi em Moçambique, deles tentando retirar explicação de teor antropológico. Para alguns poderá parecer de mau-gosto fazê-lo hoje. Mas não, não procuro qualquer sarcasmo, apenas entender um fenómeno que sendo cómico não se restringe a isso. Escrevo-o aqui por respeito, não por desrespeito. Respeito por nós todos, aqui e acolá. (E em linguagem o mais curta possível, dado que blog). O respeito de tentar compreender o inusitado.

*****************

Em 1997 o Presidente da República Jorge Sampaio visitou Moçambique em visita de Estado e ofereceu uma recepção à comunidade portuguesa. Em 1998 o Primeiro-Ministro António Guterres visitou Moçambique em visita de Estado e também ofereceu uma recepção à comunidade portuguesa. Tive o privilégio de comparecer a ambas. Bonitos eventos, sentidos e elegantes, momentos até rituais de congregação dos nacionais aqui residentes, os quais não constituem uma comunidade, faltando-lhes para isso qualquer organicidade. Facto que será explicável pelas diferentes origens sociais, geográficas e culturais dos patrícios aqui residentes, bem como pelas acentuadas diferenças biográficas, muitas fruto da conturbada história nas últimas décadas dos portugueses em Moçambique.

Mas voltemos às recepções. Ambas assumiram o mesmo molde, com cerca de 3 mil convidados presentes numa tenda gigante colocada nas instalações do Hotel Polana. Foram então servidos vinhos portugueses e queijos da serra, um agradabilissimo menu, ainda para mais com tais produtos dos quais aqui se têm tantas saudades.

Nessas ocasiões surpreendeu-me a quantidade de compatriotas que, quando assim o entendiam, se retiravam acompanhados de queijos da serra debaixo do(s) braço(s), alguns já encetados, outros ainda por inaugurar.

A posteriori, entre o embaraçado e o indignado, alguns convivas de outras extracções afirmavam que tais práticas seriam dos portugueses de origem indiana, aqui bastante numerosos, não esquecer que Goa foi um alfobre do império.

Mas posso afiançar que não é isso verdade. E não há nada de ideológico nesta minha negação. É pura empiria, observação directa, até atenta (e divertida?). Este costume, o da ” apropriação ritual dos queijos da serra” cruza diversas origens geográficas, religiosas e culturais.

Em 2001 o Presidente da República e o Primeiro-Ministro visitaram Moçambique por ocasião da cimeira de chefes de estado da CPLP. Nessa altura foi ofertada uma idêntica recepção, decorrida no complexo Mini-Golf. Algo diferente pois os queijos da serra foram então acompanhados de presuntos. Estes apresentavam-se laminados nos pratos , e com abundância, mas também no seu formato tradicional, pendurados sobre as mesas, servindo de decoração.

Após as conversas breves e os múltiplos cumprimentos típicos destes eventos encostei-me a uma mesa conversando com a dona do estabelecimento, minha conhecida desde os tempos em que aqui cheguei. Estava ela controlando os acontecimentos, ainda que o espaço tivesse sido alugado e, portanto, a sua responsabilidade executiva diminuta.

Enquanto conversávamos pude comprovar ao espanto, até terror, dos seus empregados, várias vezes dirigindo-se-lhe em pânico “D., o que fazemos?, eles [os convidados] estão a carregar os presuntos”, perigando até a decoração. A senhora, estupefacta, ainda procurou o meu conselho, “o que é que eu faço?”, e eu só me ria, “que fazer?”, e ela “ouve, são teus patrícios, tu é que os compreendes, o que é que eu faço?”, até aflita com a confusão e com as hipotéticas reacções. Lá lhe fui passando a minha modesta opinião, de experiência feita, que nada, que se ficasse ela quieta. Então não tinha alugado o espaço? Aquilo era oferecido na recepção, e no entender dos convivas era para levar, não tinha nada a ver com o assunto. Ela que se deixasse ficar. Assim mais sossegados bem se riram, ela e os empregados.

Estes episódios são já tradição. Surgem recorrentemente nas conversas. Narram-me ainda que aquando da visita do Presidente Mário Soares também os convidados saíram de mala cheia. E quando o Presidente Eanes visitou Maputo, em 1981, até pancada houve à porta da recepção.

De todos estes episódios pode-se pois retirar um padrão comportamental. Que ultrapasse o jocoso. Em meu entender este é já um comportamento tradicional, aquilo que a velha etnografia chamava de “usos e costumes”, presente ente alguns extractos da comunidade portuguesa. Que assim representam a concepção que têm da relação havida com os seus (longínquos) representantes eleitos. Quando estes se aproximam extraem-lhes as oferendas, potenciam-nas. Aquilo a que eu, repetindo o acima considerado, teorizo como “a apropriação ritual dos queijos da serra” (e em calhando dos presuntos).

Presumo que isto possa ser interpretado desta forma: largos extractos dos portugueses aqui residentes, porventura não tanto a sua elite económica, sentem-se abandonados ou desprezados pela sociedade ou pelo seu Estado. Fruto da história complexa deste país, da descolonização. E também das levas de migrantes colonos desfavorecidos, dos quais alguns aqui se mantiveram, sempre reclamando algum apoio estatal. E não esquecendo o estigma do “português de segunda”. E também de gente que por cá está e sente uma lassidão nos laços com o Portugal de origem, sempre desejáveis de reafirmar.

Nesse sentido esta apropriação de bens comestíveis nos momentos cíclicos em que a sua nacionalidade é reafirmada em eventos festivos e rituais (as visitas de Estado) não pode ser considerada apenas como fenómenos de cupidez e má-criação, para além de apetite. É também uma catarse de uma relação complexa com o seu Estado, uma afirmação daquilo que sentem, uma sensação em que se auto-definem como credores do seu Estado, do seu país. Do abandono em que se reclamam. E, obviamente, da sensação de orfandade que o fim do Império deixou em alguns extractos sociais, e neste caso explicitamente naqueles que não eram os mais favorecidos, nem nisso se tornaram.

Não discuto se terão razão, não é isso que me interessa. Afirmo que o sentem e assim o expressam, ritualmente. E afirmo também que adoram queijos da serra e presunto.

*****************

Hoje o Primeiro-Ministro Durão Barroso chega a Moçambique. E logo à tarde há a recepção à comunidade portuguesa. Estarei presente, honrado com o convite. Mas de olhar antropológico atento, procurando comprovar se o ritual se repete. Com um sorriso, claro está. Mas também compaixão.

Protocolo e os vestidos curtos

A próxima visita do PM português a Moçambique recorda-me um pequeno episódio ocorrido aquando da vinda do PR Jorge Sampaio nos idos de 1997. Por essa ocasião a delegação portuguesa ofereceu um banquete bastante alargado, no qual não tive oportunidade de participar. Mas aqui em Maputo pude assistir à alguma azáfama que o antecedeu.

Foram então convidadas largas centenas de personalidades moçambicanas. Muitas habituais nestas situações. Mas era tal a dimensão que vários dos convivas estavam pouco rotinados a banquetes de Estado. Para mais ofertado por Estado estrangeiro.

Vivi isto um pouco como conselheiro de esplanada, a esses mais desabituados. Lá me apareciam conhecidos num apelo de ajuda: “ó teixeira, V. é que me há-de dizer o que significa isto”. Chegavam agradados com o luso convite, quem não gosta de ser assim reconhecido?, ainda para mais quando dá para chegar a casa a dizer à cara-metade “prepara-te que temos banquete”.

Mas aportavam também com um problema. Convites já recebidos, envelope timbrado, cartão impresso em relevo dourado, prova de “quem é quem!”. Mas coisas de protocolo europeu em África. Pois lá vinha, formalissima indicação do traje de rigor. Inapelável nos homens o fato escuro. Ora para alguns fato sim senhor, agora escuro, preto, é que em terra destes calores não tinham. E lá me chegavam a pedir-me opinião, e eu a deixar-lhes ao critério próprio, que havia de fazer?

Por essa altura trocavam-se os dolares numa loja de roupa na Baixa, a Milano - essa que agora está toda remodelada, modernaça, ali à Clínica Cruz Azul. Um dia passei por lá nesses intuitos e dei com a casa cheia, azáfama grande e inusitada. Encostei-me ao balcão e fiz-me desentendido na pergunta “então, muito movimento hein?”, e os empregados a confirmarem, naqueles dias era um corropio de gente, todos a comprarem fatos pretos e a acertá-los. “É para o banquete”, diziam até cúmplices aqui com este português.

Mas mais preocupante era ainda a questão das senhoras. Pois no dito cartão-convite lá vinha especificado: vestido curto. E eu a adivinhar as inquietações lá nas casas, os maridos encarregados de me virem perguntar, entre intrigados e assustados, “vestido curto? mas curto quanto?, até onde, isto é para mostrar as pernas”, até ao jocoso meio-desconfiado “mas é para se verem as pernas? querem ver as pernas das nossas mulheres?”. Ainda que pouco sábio em tais matérias lá fui acalmando humores e temores, que isto eram coisas de costumes europeus, linguagem a evitar aqueles vestidos arrasta-chão. Que levassem elas saias normais ou então, caramba, os belos vestidos compridos por aqui tão usuais em dia de cerimónia.

Enfim, não houve dúvida, uma pequena distracção do nosso protocolo que veio provocar algumas fortes dores de cabeça em vários casais convidados. E até despesas.
Nos dias seguintes lá ia eu perguntando o “então correu bem?”, e que sim, senhor, tudo normal. Não era nada demais, eram mesmo pouco curtos os vestidos pedidos. Não, não havia nenhuma malandrice ali. Afinal…

Posfácio a contributo…

Ao fim de alguns anos por aqui à rapaziada acabam-se-lhes os contratos, as missões, e tantas delas nem tão bem sucedidas como isso, que isto se foi enchendo de planos e projectos mal-desenhados do optimistas que eram, quiméricos e tudo, e depois as culpas “hão-de ser” de quem para cá veio e não soube fazer o que estava estipulado. E é claro que não vão elas sobrar para administradores ou consultores, que aqui em em breves e ambiciosas deslocações traçaram o como Deveria Ser, num cheios deles próprios a julgarem isso ideias. E por tantas dessas com patrícios a esta terra já me aconteceu chamá-la “Um Cemitério de Quadros”, e sei do que falo, que as minhas ossadas também se dispersaram por aí.
Mas outros partem apenas ao dar-lhes as saudades do rincão, ou fazendo contas às carreiras e aos comboios que temem perdidos, ou aos riscos do cardíaco quase fulminante (”mas que se tivesse sido apanhado a tempo…maldita falta de ambulâncias…”). Enfim, por razão ou outra, lá vão andando de volta à santa terrinha, uns até aliviados, outros entristecidos, isso depende de cada coração… - e também da atitude, que ainda há muita gente que cospe na sopa.
Depois os contactos com os amigos que por cá se fizeram e ficaram vão, e naturalmente, espaçando. Mas passados meses lá nos chegam os conselhos, por lá à mesa nos jantares dos (neo)retornados, ou nos emails que hoje escasseiam ou até nos telefonemas de dias de festa ou de bola. E vêm mesmo dos que daqui saíram roídos de zangas ou saudades: “deixem-se ficar, não voltem, isto está impossível, é uma vida desgraçada…” e quejandos etcs.
Por cá sorrimos a essas lamúrias, que julgamos cúmplices. Pois dão-nos elas alento contra as saudades, aquelas sem tréguas como bem se sabe. Mas adivinhamo-las algo aumentadas, pela amizade de quem nos sabe fora a custo e também pelas saudades de uma luz e de um espaçado tempo que por lá não há.
Mas que dizer quando de amigo nada radical, que daqui saíu por cima e que por lá chegou à mesma altura, me chega um desalento destes? Deixar-me ficar, “amais os meus” está claro. E aqui lembrar, caro Pine, que o quarto dos fundos está à disposição. E que sempre há um pouco mais de caril para juntar à xima, enquanto o quiseres.
Abraço, e manda sempre, que são precisos mais braços para a machamba, tão pouco choveu este ano.