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HENRIQUE BANZE

por ABM (12 de Março de 2010)

Na altura da visita de José Sócrates a Maputo para firmar as relações com Moçambique e assinar uma resma de acordos, e de uma emissão especial ao vivo a partir de Maputo para o mundo via as cadeias da RTP (neste caso, visto no canal principal da RTP em Portugal continental), o actual vice-ministro dos Negócios Estrangeiros moçambicano, Henrique Banze, concedeu uma rara entrevista. Bem disposto, à vontade, sublimemente eloquente, o senhor vice-ministro mandou uma dose industrial de simpatia bem moçambicana, sem por um momento omitir o que de sério havia para dizer nesta ocasião. Em bom português, deu um baile.

Ao contrário do entrevistador, que bem se esforçou, mas que me pareceu um erro de casting.

A emissão foi feita a partir da velha estação de Caminhos de Ferro de Maputo, que este ano faz cem anos.

A RTP, essa celebrava os seus 53 anos.

João Mosca sobre a Cooperação Portugal- Moçambique

[João Mosca, Economicando, Maputo, Alcance Editores, 2009]

João Mosca é um dos mais significativos intelectuais moçambicanos, alguém que é sempre urgente ler. Este recente livro é uma colectânea de textos na sua maioria publicados no jornal Savana, aos quais junta alguns produzidos para encontros académicos. A sua arrumação indicia as temáticas abordadas: ensino superior, investigação, economia, agricultura e cooperação. O seu quadro de reflexão sobre o país, e que tão presente sempre surge nos seus textos, é anunciado na introdução:

A formação e a exercício da actividade académica … e a interdisciplinaridade apreendida, conduziram ao que se pode designar por “suicídio” da formação de base. Compreendi os debates no seio da área de conhecimento da economia e dos ataques de outras ciências aos economicismos tecnocráticos e à incapacidade da economia, como qualquer outra ciência, de interpretar, explicar e encontrar soluções para a complexidade das realidades no quadro dos limites rígidos do objecto de cada uma das ciências.

Procurei um “suicídio” difícil. No lugar de abandonar a economia e estudar outras ciências (…), preferi a via da crítica à economia para, a partir dela, incorporar conhecimentos de outras áreas na tentativa de uma formação interdisciplinar.” (7)

Acabo de comprar o livro, li apenas alguns textos e, ainda que de alguns outros tenha memória da sua publicação em jornal, não posso fazer mais do que aconselhar a sua leitura. Como português e como antigo cooperante encetei a leitura pelo texto “Cooperação Portugal-Moçambique. A estratégia de não ter estratégia?” – apresentado na III conferência internacional de Lisboa sobre “Europa e a Cooperação com África”, organizada pelo IEEI. Para quem tenha algum interesse nas questões da “cooperação” portuguesa com Moçambique, ou em geral, é um texto insubstituível. Uma apuradíssima análise das dimensões institucionais, políticas e ideais presentes nesta área de actividade do Estado português, e na própria sociedade – faltará, em meu entender, uma profundidade similar no olhar sobre as dinâmicas da interacção moçambicana neste campo, algo que será compreensível dado o texto ter sido apresentado num plenário em Portugal.

Repito, para quem se interesse pela actividade de “cooperação” é obrigatório ler este texto (pp. 152-157). Dele poderia aqui deixar algumas transcrições mas opto por uma, breve, que reflecte algo que ao longo dos anos tanto tem estado presente, até em demasia, no ma-schamba. Ideia que parece simples, pacífica, mas que na realidade real tanto é esquecida apesar de ser racionalmente cristalina:

A dimensão e capacidade financeira portuguesa e a perda de oportunidade de protagonismo em alguns assuntos importantes da história recente moçambicana, sugere que Lisboa necessita reanalisar a cooperação com Maputo, devendo fazê-lo sem pensar nas supostas vantagens culturais e históricas.” (p. 157)

jpt

Os 68 Parabéns de Eusébio

por ABM (Cascais, 25 de Janeiro de 2010)

O antigo jogador de futebol Eusébio completa hoje 68 anos de idade.

Aproveito assim para abordar brevemente esta figura do desporto português e moçambicano.

Ao contrário do clã BM, eu nunca liguei quase nada ao futebol, que em Moçambique antes da independência era uma total obsessão para muita gente. Fui a muitos jogos de futebol em Lourenço Marques, mas mais como castigo e para não causar distúrbios em casa aos fins de semana.

Olhando retrospectivamente, o futebol estabelecia uma das diferenças visíveis entre a África portuguesa e as colónias e ex-colónias inglesas, que rodeavam Moçambique, onde os desportos seguiam padrões raciais e culturais muito específicos. Na África do Sul, o futebol era, e ainda é, regra geral, um desporto predominantemente de e para os negros, enquanto que os brancos se cingiam quase exclusivamente ao râguebi e ao cricket e desprezavam o futebol como “desporto de preto”. Presumo que pouca gente então se apercebeu que o piropo também se dirigia aos portugueses, que aos olhos de muitos dos boers e dos sul-africanos brancos, eram uma raça “cafrealizada” – os kaffirs from the sea, como diziam alguns (touché).

Em Moçambique aquilo era mais um pagode, tudo ao molho e fé em Deus. Toda a gente ia e toda a gente vibrava com o futebol, independentemente das questões raciais, económicas e sociais que os analistas de hoje possam congeminar. Aos fins de semana muita gente ia ver o futebol e durante a semana falava-se do que tinha acontecido no fim de semana anterior. Os jogos eram transmitidos pelo rádio clube em simultâneo em português e em ronga. Nesse aspecto, fazia parte do ídílio africano de que falarei mais tarde e que pelos vistos se tornou desporto das classes literadas de hoje desafiar.

Se no esquema geral das coisas essa paixão partilhada entre brancos e negros na África portuguesa valia o que valia, ela existia e pelo menos baralhava um pouco as cartas em termos da dialéctica de então. Os portugueses do regime usavam-na para apontar credenciais não racistas ao mundo, enquanto que os restantes a desvalorizavam, apontando que praticamente não havia quaisquer moçambicanos negros em posições de poder e influência na nomenclatura nacional e colonial.

Mas, só para chatear – excepto no futebol.

Esta realidade foi a meu ver algo injusta em termos de verdadeiros talentos como Eusébio, Coluna e Hilário (por exemplo, mas há mais, como o Vicente, o Shéu, o Matateu, o Matine, o Abel) cujo valor deveria estar acima destas questões mas acabou, durante algum tempo, por ser questionado por temas que nada têm que ver com o facto de que eram atletas de invulgar talento.

As estrelas que Moçambique produziu foram muitas e brilharam. Outro dia ouvi um comentário que achei interessante e parcialmente correcto, não me lembro de quem, mas que dizia que a primeira “verdadeira” selecção de Moçambique foi a que Portugal levou ao Mundial de 1966 em Londres. Sem descurar os restantes jogadores, o talento moçambicano reunido naquela equipa era verdadeiramente excepcional.

E Eusébio, filho de um senhor branco e de uma senhora negra do Xipamanine (pois…) foi a estrela cadente desse conjunto de homens notáveis. Ao ponto de integrar, nas mentes do povão, com a tal de vidente Lúcia e a fadista Amália Rodrigues, uma espécie de santa trilogia do Portugal da segunda metade do salazarismo: Fátima, Fado e Futebol.

Ele era um deus em Moçambique quando eu era pequeno. Um dia, não sei bem por que razão, nos anos 60, ele visitou a casa onde os meus pais viviam na Polana. Não sei como, a palavra passou que ele estava lá, e em cinco minutos a casa estava rodeada de uma multidão a querer vê-lo e a pedir autógrafos. Diligente, eu passei o meu tempo a recolher livrinhos de autógrafos e levá-los ao Eusébio enquanto ele estava calmamente sentado a falar com o pai BM – e ia assinando os livrinhos.

Como um simbolo inescapável de Portugal, difícil foi, e tem sido, a reconciliação com o regime moçambicano, que, antes e depois da independência, nunca o viu como seu, e que nunca aceitou o portuguesismo de Eusébio – apesar de ele ser logicamente também tão moçambicano como qualquer outro, produto genuíno do Xipamanine e da Mafalala dos anos 50 do século passado.

Também não ajudou o facto de que, ao se nacionalizarem os bens imóveis em 1976, incluíram-se os investimentos que quer Coluna quer Eusébio tinham feito na sua terra. Na base da ideologia e de que não podiam abrir excepções, deixaram-nos mais pobres e mais ressabiados. Coluna, que regressou a Moçambique independente e refez lá a sua vida, ficou quase na miséria. Mas isso é história que dava panos para mangas.

Independentemente de todas essas questões, acho que a História já colocou Eusébio no seu lugar devido: o de ter ele sido um dos maiores talentos do futebol que o mundo jamais viu.

Um talento moçambicano.

E, também por isso, lhe dou hoje, e a nós também, os parabéns.

Lizzie Had a Dog in LM

Lizzie & Bóbbi

por ABM (Cascais, 16 de Janeiro de 2010)

A lógica da breve discussão prévia o impunha e uns meros 15 euros o resolveram.

Disfarçado de dono de um veleiro de passagem por Cascais, e após breve e inócua aventura na Livraria Bulhosa no Cascais Villa, peregrinei até à quiçá mais próspera e dotada FNAC do Cascais Shopping, com a Dulce Gouveia a reboque, para comprar a grande obra recente da Escritora de origem moçambicana, publicada pela Editora sediada em Coimbra.

Mas na secção dos livros dou logo de caras com o José Rodrigues dos Santos no corredor, que é máfia moçambicana do melhor e estes dias uma espécie de versão lusa do Dan Brown. Com ele não há cá memórias para ninguém. Antes que ele pensasse que eu ia ao livro dele sobre a Al-Khaeda, que se encontra à venda em todas (mas todas) as livrarias, grandes superfícies, aeroportos e até por baixo de vãos de escada, escapuli-me pelo café da loja para o outro lado e fui ter com uma daquelas meninas simpáticas da FNAC que usam um coletezinho verde e nos ajudam a encontrar os livros.

“Olá, boa tarde. Procuro o novo best seller daquela escritora nascida em Moçambique Isabela Figueiredo e não encontro”.

“Só um momento, sefachavor”.

Clic clic clic clic no computador.

“Sim, devemos ter ainda uma cópia na loja, deixe-me ir ver”.

E desapareceu.

15 minutos à espera.

Após o que a menina surgiu do nada com um livrinho pequenino na mão.

“Quanto é?”

“15 euros”.

“15 euros! Bolas. Deixe-me cá ver”.

E peguei no volume. E inspeccionei-o.

Preliminarmente.

Na verdade o livro é algo estranho.

A seguir à capa e a contra-capa, tem quatro folhas verde-alface sem nada, duas de cada lado, que deve ser para o leitor precavido tomar apontamentos. No fim, a seguir à folha verde-alface, diz uma nota que foi composto numa empresa gráfica na bela Vila Nova de Famalicão, “34 anos após o regresso da autora a Portugal”. Ok. Suponho que uma anotação válida para quem ao chegar ao fim do livro ainda não se tiver apercebido desse facto da vida da autora, ou que não saiba fazer contas de subtraír (pois 2009-34 = 1975) infelizmente um provável infortúnio com o estado da educação nos dias que correm.

Só que na pala interior da capa tem mais uma foto simpática da Isabela, esta circa 2009 e sans Bóbbi, e mais uma notinha a dizer que ela nasceu em Lourenço Marques em 1963, que em 1975 veio para Portugal, e que nunca mais voltou.

Espera aí: se aqui diz que ela nasceu lá, que veio para cá e que nunca mais voltou, porque é que no fim do livro diz que ela regressou a Portugal?

É um mistério. Assumo que deve fazer parte da complexa e mística dialética subjacente aos conteúdos ali abordados. Ora veja-se.

Ela nasce e cresce em Moçambique.

Mas ao viajar para Portugal em 1975, regressa.

Ora isto é para mim uma alegoria fantástica.

Tem umas fotografias: na capa (a foto ali no topo) a Isabela avec Bóbbi. Depois duas piquininas de Lourenço Marques nos tempos e que mal se conseguem ver, e a seguir vêm: a Isabela a segurar o rádio de papá debaixo de uma papaeira, a Isabela vestida de saloia portuguesa num barco, a Isabela a fazer pose num parque, a Isabela na marginal de Lourenço Marques e a Isabela na comunhão.

Na página 7, presume-se que para dar o tom do que está para vir, três citações, uma de Paulo Auster a falar do pai (o do Paulo Aster), e duas do italiano Primo Levi, a mastigar a presumível fungibilidade da Memória Humana. Bem, ou pelo menos a dele.

E, presume-se, por osmose subliminar associativa, a da Isabela.

A menção do americano Paulo Auster confunde-me e levanta-me imediatas suspeitas quanto à proeminência fotográfica do Bóbbi. Pois na sua Timbuktu, não a africana mas uma mitológica e utópica urbe, são as memórias do rafeiro Mr. Bones que descascam, numa odisseia tão deprimente como cativante, a existência de Willy Christmas, um homem infeliz e falhado, que morre à porta da casa onde o seu ídolo, Edgar Allan Poe, vivera. Será isso? O que acha, quais as memórias de Bóbbi da sua dona e da Lourenço Marques que a viu nascer e crescer? será que Bóbbi também regressou?

Primo Levi suscitou-me ainda maior supresa. Pois a sua escrita, sendo judeu e tendo passado pelos maiores horrores da carnificina Nazi, incluindo quase um ano em Auschwitz-Birkenau, é mais conhecida pelo conteúdo memorialista desse período – memórias que o perseguiram até à morte. Em 1987, o grande Elie Wiesel, que era professor na Universidade de Boston, onde estudei gestão e um pouco sobre o judaísmo nessa altura e durante dois anos, e ele próprio um sobrevivente do horror Nazi, disse que, quando morreu – e referindo-se às suas peristentes e pungentes memórias – Levi na verdade morrera em Auschwitz mas quarenta anos depois.

Que associações poderá haver entre a obra e o percurso de Primo Levi e este livro de Isabela? A curiosidade avoluma-se dentro de mim.

Procurei, e descubro que o livro não tem índice. Tem, isso sim, em 136 páginas (as que estão numeradas), textos sequenciados, de 1 a 43. Sem títulos. Só os números.

E na verdade, aí me apercebi, afinal aquilo não é só um livro (daí, decorrem, presume-se, os 15 euros).

Logo a seguir ao texto Número 43, depois de uma folha com umas das fotos piquininas de Lourenço Marques que não se vê bem, tem outra onde apenas figura, a meio, a singela e solitária frase, que se presume dedicatória: “À memória do meu pai”.

Repare-se no detalhe: não é em memória do pai. É à memória do pai.

Hum.

E a seguir tem uma página que diz, na vertical, com o texto a apontar na direcção da lomba do livro, em letras garrafais “Adenda” onde, aí sim- surpresa!- tem um índice, mas um indicando o que vem a seguir (aos textos numerados de 1 a 43): seis textos descritos como posts, incluindo o intrigantemente títulado Falta dinamitar o Cristo-Rei e logo abaixo o assaz mais invocativo de assunto gastronómico, Fígado de Porco; e,  finalmente,  Uma conversa com Isabela, que inclui, um pouco como nas (brevemente findas) conversas do Professor Marcello na RTP aos domingos à noite, e à margem das doze páginas do texto da entrevista propriamente dita (feita por não se sabe quem) as sugestões dela de dez livros, cinco datas e cinco lugares.

Portanto, isto é o que se pode chamar um pacote completo.

Que agora é meu.

Por, afinal, uns modestos 15 euros.

E que, feito o investimento e aguçada a curiosidade, vou ler este fim de semana, de fio a pavio.

E de que logo darei conta aos exmos leitores, após reler também a prosa canciana et al.

Para tirarmos esta coisa a limpo de uma vez por todas.

Um bom fim de semana a todos.

The Best of Maschamba

o horizonte nos contempla

por ABM (Alcoentre, 9 de Janeiro de 2010)

Fernanda Câncio, a putativa (segundo certa imprensa) namorada do actual primeiro-ministro português, José Sócrates, e fogosa escriba num Diário de Notícias infelizmente cada vez menos de referência, escreveu um curioso texto – que saiu na sua edição de hoje – sobre uma sra chamada Isabela, que, depreendo da leitura, como muitos de nós saiu um pouco a pontapé do Moçambique pós- independente e revolucionário aos 12 anos de idade, e sobre um livrinho que ela escreveu e que acabou de ser publicado, que dá pelo nome algo enigmático de Caderno de Memórias Coloniais.

Que não li.

Mas li o comentário de Câncio, que sempre vale alguma coisa e que me deixou algo mistificado.

Vamos por partes.

Deixou-me algo mistificado porque a Fernanda que, como já vi outras pessoas dizer noutras ocasiões, deve perceber tanto da realidade colonial como eu de física nuclear, começa por colocar legiões de “retornados” num vasto manicómio virtual, todos mentirosos e todos vivendo numa ilusão colectivamente induzida com o fito de não enfrentar uma inconfessável série de “crimes contra a Humanidade”, que, lá vai o argumento, só pode ser o que (no meu caso) os nossos pais e avós andaram todos lá pelas Áfricas durante séculos a cometer contra os nativos. Voluntária e até empenhadamente e, no caso do pai da Isabela, com requintes de malvadez.

Isso a acrescentar àquela outra Grande Ilusão Colectiva dos brancos e portugueses da África portuguesa (nunca os de cá, coitados) claro, a de que aquilo era “nosso”. Que se sabia perfeitamente que não era, especialmente a posteriori.

Bem, todos – especifique-se – menos a sua amiga Isabela.

No seu caso, Fernanda diz que a Isabela baseou os Cadernos nos seus escritos, alguns dos quais foi colocando num blogue de que nunca ouvi falar antes na minha vida, que alimenta regularmente e que se chama – algo deceptivamente – Mundo Perfeito. Bem, não pode ser assim tão perfeito como isso, se a imagem de cabeçalho que a Isabela escolheu para a porta do seu blogue é um corpo de mulher de cuecas e com cabeça de cão, sentada numa estufa com flores. É uma invocação que diz muito. Para mim uma alegoria de um mundo perfeito ( aquilo a que Sir Thomas More chamou em tempos de Utopia )podia ser a fotografia acima – mais ou menos. E ainda tem à porta da estufa retinintes e polidos avisos sobre os seus direitos de autora, que, na minha experiência na internet, são ah tão simpáticos como não valem um caracol furado. Neste meio a ofensa não se combate com avisos, combate-se com unhas e dentes.

Ou ignora-se.

Ora eis algo que não me ocorrera antes, isto de ter um blogue na internet, onde vou escrevinhando umas coisinhas e um belo dia, imagino que para aqueles que não têm internet, arranjo uma editora e escarrapacho tudo outra vez numa publicação, à laia de The Best of Maschamba. Bem, sempre tira a impressão fungível e a desconfortável sensação de estar sózinho num submarino e que as palavras que aqui escrevemos em suporte incompreensivelmente electrónico, pareçam um pouco menos aquilo que os americanos chamam pissing in the wind (no nosso vernacular, fazer chichi ao vento). Tenho que falar com o nosso Senador e a Sra Baronesa em reunião de Conselho de Machamba, mas receio que, numa futura edição do Caderno de Memórias Maschambianas, eu seja sumariamente relegado para uma recôndita nota de rodapé.

E lá se iria a etérea sensação da imortalidade literária.

Mas podia oferecer cópias dos livrinhos pelo Natal, o que com um blogue, admita-se, não se pode fazer.

A mistificação do comentário publicado no DN sobre a Isabela tem que ver com a evocação de um passado moçambicano que mais parece uma longa e pesada sessão de terapia duma branca com sentimentos negativos sobre a sua experiência africana e, quiçá, sobre o seu estatuto de retornada num Portugal revolucionário e recém-exorcizado da sua experiência colonial-bélica. Pelo meio, vagueiam ideias da injustiça daquilo tudo, o trauma do (presumo) rescaldo do 7 de Setembro de 1974 e ainda o fantasma do pai, que, recita, chamava coisas feias aos colonizados com pele mais escura e que, num contexto em que – creio – ninguém tinha “direitos”, tinham ainda menos que os colonizados mais clarinhos. A Fernanda, cuja experiência africana (e muito menos moçambicana) repito, desconheço por completo, arremata, no que presumo possa apenas ser uma infeliz exaltação literária, dizendo que vivia-se (em Moçambique) num país onde se podia atropelar um negro e não ir para a prisão. Pois. E esqueceu-se de referir que comíamos meninos pequenos para o matabicho.

Decorre que com a independência tudo isso acabou. E que com os assassínios de brancos por representantes armados da maioria negra nos arredores de Lourenço Marques em 1974 fez-se, apenas, justiça. Ai sim Fernanda? hum, sorte, então eu ter sobrevivido aquela pouca vergonha toda, e não graças à sua boa vontade.

Há aqui dois aspectos que me induzem a pensar que talvez este tipo de intro-retrospecção tenha que ser trabalhado um bocadinho mais.

O primeiro aspecto é que, segundo a Fernanda, cuja retórica para estes efeitos, aceite-se, é mais ou menos irrelevante, a Isabela saíu de Lourenço Marques em 1975 com 12 anos de idade. Se calhar viajámos os dois no mesmo avião da TAP em alturas diferentes, só que eu tinha 15 anos de idade, diferença que importa para efeitos desta discussão. Pelo menos eu já não era virgem, naquele e em muitos outros aspectos da vida.

Ora, para alguém que saíu de Lourenço Marques em 1975 com 12 anos de idade, a análise global da situação que a Fernanda diz que a Isabela faz, a crer-se biográfica e despida de preconceitos e análises que só possam ter sido posteriormente adquiridos, devem ser deveras de assombrar, vindos de uma miúda. A minha irmã mais nova, que tinha a mesma idade e teve o mesmíssimo percurso que a Isabela, mal sabia jogar ao berlinde. E lá em casa ainda estamos à espera dos seus cadernos.

Mas admita-se que pode ser que seja a nua verdade no seu caso pessoal, em que a forma como pinta o pai assusta mais que o papão colonial-racista. O que refere dava para horas e horas (e horas e horas) de sessões de psicoterapia.

Mas não logra por um segundo pintar uma realidade maior.

O segundo aspecto é que, por minha parte – e já o tentei explicar uma vez ao JPT e sob pena de me repetir – ao contrário de alguns eu vivi lá, e no meu microcosmo o pai BM e a quase totalidade das pessoas com quem contactava, não chamava nomes a ninguém, branco ou preto, eu não era inibido de me dar com ninguém com base na cor da pele e, se não disputo (mas não desta maneira) a sustentabilidade do tal “ídilio colonial” de Lourenço Marques que a Fernanda diz que não existia (existia, sim, que chatice), pintar essa era e todas as vastas e complexíssimas relações pessoais, económicas, sociais e raciais de Moçambique no fim da era colonial em Lourenço Marques com um simples rótulo de “racismo” e “abuso” é totalmente descabido. É falso. É absurdo. É ridículo. É uma fraude moral, intelectual e histórica. É projectar os seus preconceitos actuais, ignorar as suas causas e tentar justificar moralmente os seus efeitos e a pulhice que veio a seguir, e em que de longe as maiores vítimas – surpresa – foram sempre, e quase só, milhões de moçambicanos, que de uma ditadura passaram directamente para outra, não muito diferente.

Especialmente se se está a falar no começo dos anos 70, em Lourenço Marques.

Claro que lá havia racismo. Claro que havia injustiça, incluindo a racial. Claro que tinha que acabar. Que tinha que mudar. Claro que havia gente como o pai da Isabela. Se calhar até pior. Claro que aquilo era uma ditadura, com tentáculos em Portugal, um anacromismo total num mundo já quase sem impérios coloniais e em que os países comunistas activamente armavam e patrocinavam os que combatiam o que sobrava de colonialismo no mundo. Ser colonial a partir de 1950 tinha o seu custo em lágrimas, suor e sangue. Salazar estava disposto a pagá-lo, outros não. Em 1974, venceram estes.

Mas cuidado ao pintar tudo de negro. O pior racismo que vi na minha vida não foi em Moçambique, foi nos Estados Unidos quando para lá fui viver em 1977. Portugal hoje não é muito melhor. Quotidianamente vejo as maiores injustiças serem cometidas em Portugal hoje que não se distinguem assim tanto das injustiças que haviam em Lourenço Marques e que há em toda a parte. As injustiças económicas que se observavam há quarenta anos em Moçambique, aliás, ainda se mantêm em larga parte. Pois não é de um dia para o outro que se capacitam milhões de pessoas pobres, rurais e analfabetas que vivem de subsistência no mato e se lhes proporciona, e aos seus filhos, condições para ascensão social e económica.

O crime, se é que se pode dizer assim, não era do que a Isabela diz que vislumbrou aos dez anos de idade e muito menos dos tiques racistas do seu partido pai, que não conheci. É de um país que estava na mão de um ditador que escolheu manter um statu quo décadas depois da altura em que deveria ter iniciado medidas para atempadamente preparar e entregar o poder político e a gestão da nação moçambicana aos seus filhos, descomplexadamente e de cabeça erguida.

Provavelmente quer eu quer a Isabela teríamos lá ficado, a viver em paz e sossego e estaríamos a ajudar a construir esse novo país, em vez de andarmos à esmola de familiares hostis e dependentes de amizades que se calhar nunca o foram, olhando no espelho à noite e inventando na mente que aqui pertencíamos.

E a ter que tentar engolir de terceiros a tese de conspiração de que o que ali porventura encontrámos de bom e belo – e que hoje é apenas uma memória, só isso – não foi, não podia ser, que estamos a mentir aos outros e, pior, a nós próprios.

Vão à merda.

Dito isto tudo, acho que um dia destes lá vou ter que ir procurar o tal de livro para ver mesmo do que é que a Isabela está a falar.

Ou talvez não.

Quanto ao blogue, para já fico à porta.

No Olho do Furacão

zim dollars

por ABM (Cascais, 5 de Dezembro de 2009)

Se há coisa que aprendi na vida é que a vida está sempre pronta para nos ensinar coisas novas. Cabe-nos ter valores fundamentais para que possamos gerir o presente e tentar antecipar algum futuro.

Na área do nosso dinheiro, esta é uma altura de aprender e de analisar esses valores fundamentais. Pois as opções que tomarmos agora e nos próximos tempos poderão ser críticas.

Se se analisarem alguns dos elementos económicos que nos afectam para além do emprego e ou negócio em que estivermos envolvidos – e cinjo-me a Portugal e Moçambique, essencialmente – os indicadores permanecem algo preocupantes.

Moçambique

Em Moçambique, há a relativa boa notícia de que a inflação média baixou para níveis históricos – 1.4% nos dez meses que terminaram em Outubro. Mas o défice da balança, o corte no investimento e fontes de financiamento externos podem vir a dar problemas e a desvalorização já observada na cotação do Metical auguram dias de renovada inflação. Pois – e o governo moçambicano é o primeiro a dizê-lo e muito bem – Moçambique ainda importa imenso, mas, mais importante, importa demasiadas coisas que não deveria ter que importar. Essa velha solução “terceiro-mundista” e pouco “globalizadora” que se chama a substituição das importações, deveria ser “o” desígnio nacional. O país tem uma relativa almofada na aparentemente perpétua disposição de cerca de vinte países para subsidiarem os custos do seu funcionamento e os projectos de infra-estrutura. Mas essa disposição não é na verdade perpétua. A confiança dos agentes económicos locais baixou e o resultado foi a saída de milhões de dólares em moeda estrangeira do mercado pela porta do cavalo, dinheiro esse que faz falta ao país. Quando há poucos anos foi relativamente fácil montar a operação de aquisição da maioria do capital da HCB (a “reversão”…) hoje a montagem da operação de financiamento da barragem e central de Mpanda-Nkua (cuja construção defendo devia ser iniciada ainda nesta legislatura) está a ser menos fácil. Para além de toda a trepidação em termos do impacto ambiental, as fontes de financiamento não são o que eram há cinco anos.

E há ainda assuntos por encerrar, como por exemplo a manutenção dos preços dos combustíveis a níveis artificialmente subsidiados pelo governo. Mais cedo ou mais tarde, esses valores vão ter que ser ajustados, com as previsíveis consequências para os factores de custo.

No entanto, politicamente o país saíu de uma eleição importante com um mandato forte para o governo do partido maioritário em quase todas as esferas da governação. E em termos macroeconómicos a gestão tem sido particularmente cuidadosa.

Não se passa o mesmo em Portugal.

Portugal

As mais recentes estimativas para a economia portuguesa são quase assustadoras. Apesar de se esperar uma  inflação nominal negativa este ano, há certos factores como o custo dos combustíveis que estão a níveis historicamente muito altos. O défice orçamental, que se estima agora em cerca de 8.5%, é uma loucura, apenas ofuscado na zona Euro pela Irlanda, Espanha, Itália e a Grécia, que são loucuras absolutas (mas com a desgraça dos outros todos podemos aguentar, não é?). Estes valores não levam em conta a intenção do governo central em continuar com chamados mega-projectos, cujo custo será enorme e cujo financiamento terá que vir de fora, e ainda com elementos pouco descuráveis como a contabilização da intervenção do Estado na nacionalização do Banco Português de Negócios e do Banco Privado Português, cujos processos se vão arrastando sem fim à vista. Adicione-se a esse contexto a maior dívida externa privada da história de Portugal e a crescente onda de desemprego, que deverá subir para os 11 ou 12 por cento antes que o próximo ano termine. A pressão política para aumentar os subsídios aos desempregados e as empresas já tecnicamente falidas e sem vendas aumentará e com ela os custos do governo. Governo esse que não só não tem qualquer maioria ou mandato especial para governar, como ainda por cima tem que lidar com a oposição menos organizada e mais descabida que já se viu numa geração.

O efeito destes condicionalismos económicos e políticos serão uma maior tensão social, uma maior chance de algum “caos” em termos de tomada de decisões, um contínuo aumento nos impostos directos e indirectos, uma maior pressão sobre o património e os rendimentos dos contribuintes particulares e empresas, bem como medidas “anti-corrupção” – não tanto porque a corrupção seja algo errado ou imoral, mas porque o governo central precisa desesperadamente de mais dinheiro para custear os seus programas e pagar as suas dívidas.

Curiosamente, mais por causa dos problemas similares nos Estados Unidos, o euro até agora tem mantido um valor considerável contra o dólar e a libra. Mas isso pode mudar, se se vier a confirmar que a economia europeia demorará a recuperar e irá absorver directamente os custos de financiamento dos défices acumulados dos seus estados via aquilo que os americanos já fizeram – imprimindo mais papel-moeda. Uma descida no valor do euro ajudaria nas exportações mas pressionaria a inflação e subiria as taxas de juro. Domesticamente, os efeitos poderiam ser perversos.

No caso português, corre-se ainda o risco de alguma contaminação resultante da deterioração económica em Espanha, um parceiro privilegiado e muito entrosado já com Portugal, onde a taxa de desemprego já se cifra em 20% e que está a passar por uma quebra sem precedente no sector imobiliário.

Claro que há muito pior que isso. Não consigo imaginar o que é viver estes dias no Zimbabué. Que cola com o centro de Moçambique.

Gabriel Teixeira, Francisco e Nuno Craveiro Lopes e Moçambique

1956 Craveiro Lopes e Gabriel Teixeira(Na foto acima, Francisco Craveiro Lopes, então Presidente da República Portuguesa, de farda branca e óculos. De fato e chapéu à civil à direita na foto está Gabriel Teixeira, então Governador Geral de Moçambique. Numa visita ao Parque Nacional da Gorongosa, integrada numa visita de Estado à Província e à União Sul Africana, Julho e Agosto de 1956)

por ABM (Cascais, 26 de Novembro de 2009)

Parte da beleza de escrever num meio destes é que há pessoas de boa vontade que lêem alguns escritos e não só comentam e discutem, o que é interessante, mas nalguns casos dão outros contributos.

Numa crónica que preparei ontem sobre Gabriel Teixeira, um dos problemas que tive foi que, apesar de uma longa pesquisa na internet, não consegui encontrar uma -uma só que fosse – fotografia do distinto oficial e governante de Moçambique português. Felizmente, lá longe por detrás dos coqueiros e dos leões e búfalos da Serra da Gorongosa, o meu muito caro Dr. Vasco Galante  teve a iniciativa de enviar a foto acima, onde se pode ver o então governador Gabriel Teixeira. Muito grato e obrigado. Ajudou a compor a história de mais maneiras do que pensa. Continue a ler e vai ver como.

A “aparição” de Craveiro Lopes na fotografia acima apresentada motiva-me a mencionar algumas peças de trívia moçambicana que o tempo quase que apagou e que fazem parte do fabrico do Moçambique actual.

Francisco Craveiro Lopes foi presidente de Portugal entre Carmona e Américo Tomás. A sua presidência foi no mínimo penosa, por várias razões. São legendárias as suas ambivalências em relação a Salazar e aos destinos por que o seu país navegava. No fim, Salazar mandou-lhe uma simples nota indicando que a União Nacional (que era ele) seleccionara o mais dócil e ultra Américo Tomás para “concorrer” para a eleição de 1958 – a famosa eleição em que concorreu o General Humberto Delgado.

Tudo indica que Craveiro Lopes era um homem bom e decente, com um distinto currículo. O seu pai fora um general e governador da Índia e formou-se no Colégio Militar. Antes dele houve mais. Mais importante, foi um homem que se apercebeu, por mais suavemente que fosse, que algo corria mal na sua república, o que era mais do que se pode dizer de muito boa gente na altura. Foi o único presidente que activamente conspirou contra o regime que Salazar impora aos portugueses. Foi por isso alvo das maiores infâmias por parte dos correlegionários do regime. A ligação acima dá alguns detalhes e testemunhos sobre o que isso foi.

O que pouca gente sabe é que a primeira vez que Craveiro Lopes apareceu no cenário nacional foi pelo que fez em Moçambique, quando, em plena I Guerra Mundial, esteve na fronteira entre o Norte de Moçambique e o então Tanganica alemão, na qualidade de Aspirante de Cavalaria e distinguiu-se no combate aos alemães em 1915 e 1916, nomeadamente em Newala e Quionga. Após voltar à Europa em 1917 para se casar e tirar um curso de aviador, voltou a Moçambique em 1918 por algum tempo.

Craveiro Lopes teve quatro filhos, tudo boa gente mas aqui mencionarei apenas o seu filho Nuno, que viveu durante muitos anos em Moçambique e que, para além de opositor ao regime, foi um arquitecto que deixou obra interessante quer em Portugal quer em Moçambique, para onde veio viver em 1952 e trabalhar como responsável pelo Gabinete de Urbanização e Obras Públicas. A igreja de Santo António da Polana e a Igreja do Sagrado Coração de Jesus no Chibuto são de sua autoria.

Igreja sto ant Polana

Aliás há uma história interessante sobre Nuno Craveiro Lopes e a Igreja de Santo António da Polana. No seu projecto original, aquela horrível casa onde viviam (vivem?) os padres, e que foi erguida mesmo ao lado do ainda hoje arrojado edifício, ficava muito mais longe. Mas os senhores padres não se viam a andar a pé para entrar no templo e mandaram “encostar” a casa à igreja e fazer um túnel de acesso entre os dois edifícios para não molharem a batina, o que enfureceu o arquitecto (ele deve ter desmaiado quando fizeram o ainda mais arrepiante “salão de festas” por detrás, um armazém, basicamente, onde fui inúmeras vezes ao cinema – por cinco escudos via o filme e ainda comia uma bola de Berlim e bebia uma Coca-Cola).

Outro incidente igualmente grave foi que, no projecto original da igreja em si, tal como concebido por Craveiro Lopes, o altar-mor ficava não onde está hoje mas no centro da igreja, directamente debaixo da cúpula do espremedor de limão, onde o efeito da luz ao meio dia era mágico. E o chão da igreja era para ser feito em mármore branco. Ou seja, nas cerimónias os crentes ficariam sentados todos em círculo à volta do altar-mor, iluminado pelos vitrais coloridos de cima, o que é conceptualmente muito mais belo e dinâmico que a chachada que acabou por ser imposta no fim.

LM Igreja S A da Polana

Mas os srs. padres no fim mais uma vez deram a volta. Até hoje, aquilo ficou organizado em estilo teatro, o altar-mor encostado à parede e o povão crente sentado de frente.

Altar mor da Igreja st ant Polana

Um Encore

(por AL no chuvoso dia 25 de Nov) –

No início deste mês postei aqui na maschamba um convite que me chegou via email, para celebrarmos os 25 anos da ACRENARMO, uma associação de amantes de Moçambique. Esse meu post foi hoje comentado por Paulo Baptista, sócio e membro da direcção (penso que estou correcta). Como o comentário contem informações adicionais sobre o que é a ACRENARMO e porque receio que a maioria dos leitores maschambeiros não vá tão atrás no tempo, aqui vos deixo o comentário integral:

Olá meus caros.

Realmente e infelizmente a Acrenarmo, mesmo com 25 anos ainda é uma desconhecida de todos.
Até agora dedicou-se quase em exclusivo aos convívios e a pequenas actividades recreativas. Acontece que se assim continuasse esta associação estaria condenada à extinção, pois não haveria continuidade.
Estamos à quase um ano com uma nova direcção que pretende dar outro dinamismo e uma vertente mais cultural. Acontece que não chega fazer workshops e aulas de dança e outras pequenas coisas que aparecem. Precisamos de dar a esta associação o estatuto de adulta. Existem muitos projectos, mas falta-nos meios humanos.
Afinal são 25 anos…….. 25 ANOS!
Mas o que mais me entristece, é que não se consegue colaboradores, ninguém que tenha garra e motivação de modo a dar corpo e estatuto à Acrenarmo.
Neste momento, não tenho outra solução do que continuar a lutar e divulgar o nosso projecto para levar isto por diante e tentar reunir tropas.
A credibilidade e o sucesso da associação depende do que fizermos daqui por diante e de nada serve colocarmos o carimbo de saudosistas ou seja lá o que for. Apenas tenho a preocupação de levar um projecto para a frente com alguma qualidade.
Gostaria que daqui por diante, aparecessem pessoas que tal como vocês, tenham ideias claras e válidas de modo a contribuir para o crescimento desta associação.

Só uma nota: Não levo a mal os vossos comentários, pelo contrário, até me divirto. E como eu costumo dizer…o que interessa é que falem.

Um abraço a todos, e quando quiserem, apareçam, pois falar aqui é uma coisa, outra é conhecer o projecto.
Estarei à vossa disposição para o explicar melhor se o entenderem.
Espero ver-vos no convívio, o que me daria muito prazer.

Um abraço
Paulo Batista

(um abraço meu ao João Machado da Graça se falarem com ele)

J&M Lazarus e Lisboa, Abril de 1915

jmlazarus

por ABM

Dando uma achega à detalhada inserção do JPT, relativa aos primeiros fotógrafos a operar em Moçambique, acima reproduzo um anúncio publicitário de J & M Lazarus, que terão operado em Barberton no fim do século XIX mais ou menos na altura em que naquela vila da então República Sul Africana Meridional (mais tarde, Transvaal, a seguir Mpumalanga) ocorrera uma corrida ao ouro falsa, depois mudaram-se para Lourenço Marques (mais tarde, Maputo), onde operaram durante alguns anos e deixaram um interessante espólio fotográfico na forma de postais e trabalhos para a então edilidade. Os irmãos Lazarus depois mudaram-se para Lisboa, onde passaram a operar, sendo mencionados nomeadamente no espólio da colecção fotográfica da presidência da república portuguesa, donde se deduz serem então considerados entre os melhores fotógrafos da capital portuguesa.

Obtive o anúncio acima reproduzido numa interessantíssima revista lisboeta, dirigida à classe burguesa, que se chama Contemporanea (sem acento circunflexo), edição de Abril de 1915, página 13.

A Europa estava então nos primeiros seis meses da I Guerra Mundial (então conhecida apenas como a Grande Guerra) e Portugal na altura ainda não fazia parte do conflito. Entraria mais tarde para salvar as colónias e porque, quase caricatamente, os militares portugueses, com tesão de mijo porventura por causa do Gungunhana, achavam que podiam jogar a sério na Liga Principal. De uma Paris assediada pelos alemães a Leste, um correspondente da revista, Justino de Montalvão, redigira um sórdido e sombrio artigo, descrevendo as vicissitudes dos parisienses, a cidade silenciosa, às escuras, sem transportes e sem vida nocturna, sob a constante ameaça dos bombardeamentos pelos zeppelins alemães.

Em Abril de 1915 a república portuguesa existia há apenas cinco anos, desde que houvera umas escaramuças em Lisboa e o rei fugira e se procedera ao envio de telegramas para as províncias e colónias a avisar que fora instaurada uma – a -república. O novo regime era caracterizado por um optimismo quase fantasioso, uma instabilidade total e um anti-clericalismo sem precedente, mas já mostrava sinais claros de estar a perder o rumo e assustado pelos efeitos de uma potencialmente catastrófica participação no conflito mundial. Estupidamente, entrou 11 meses depois: La Lys foi infame; de resto foi apenas muito mau: um submarino (o U-155, que no fim roubou uns chicharros para um churrasco) mandou uns tiros contra Ponta Delgada, a cidade do Funchal foi atacada uma vez, Paul von Lettow-Vorbeck fez o que bem quis no Norte de Moçambique durante quatro anos e houve umas chaticezitas em Angola.

No cômputo geral, os 7500 soldados portugueses mortos num único dia em La Lys (9 de Abril de 1918) permitiram que a delegação portuguesa tomasse um lugar entre os vencedores em Versailles, pedisse umas massas valentes e mantivesse o Império.

Nas páginas da Contemporanea, surpreendentemente pelo menos para mim, que tinha a impressão que a melhoria nas relações entre a República e a Igreja Católica só ocorrera com a ditadura de Sidónio Pais, há um artigo acompanhado de fotografias, atestando parcialmente esse degêlo já em Abril de 1915, alternando fotografias do General Pimenta de Castro e do seu governo (caracteristicamente breve: nomeado a 28 de Janeiro, derrubado em 15 de Maio) com imagens das procissões e missas que decorriam na capital portuguesa durante a Páscoa Católica nesse mês: um mar negro de devotos à porta das igrejas.

Nesse ano de 1915, um obscuro tradutor de nome Fernando António Nogueira de Seabra Pessoa, anestesiado por doses consideráveis de aguardente Águia Real, escrevia confusos gatafunhos e deixava frases soltas sobre literatura, misticismo e astrologia no seu livro de notas e, assinando sob o então novel pseudónimo de Álvaro de Campos, enviava uma carta indignada ao Diário de Notícias, reclamando contra o tratamento feito nas suas páginas ao Nº1 da revista Orpheu, a um artigo ali contido e escrito por “um tal” de Fernando Pessoa, e ainda ao livro, então publicado, de Mário de Sá Carneiro. A carta termina assim: ” espero da lealdade jornalística de V.Exa a inserção desta carta em lugar onde pelo menos os jornalistas a leiam. Na impossibilidade de fazer os nossos críticos compreender, tentemos ao menos levá-los a fingir que compreendem.”

Que foi o que fiz.

A cooperação portuguesa a propósito da visita a Moçambique do ministro da Justiça português

Para quem entenda algo de cooperação internacional (Ajuda Pública ao Desenvolvimento) não é difícil encontrar causas para a tendencial  ineficiência da cooperação portuguesa em Moçambique. Situam-se na história e na sociologia da administração pública portuguesa e no seu enquadramento cultural. Os anos passam e pouco (algo?) muda.

Corolário dessas características é a hiper-descentralização da cooperação, em que cada organismo estatal português (e aqui inclua-se a dimensão camarária) entende ter uma “agenda de cooperação” própria, a prosseguir com os seus parceiros locais. Para tantos dos intervenientes ou observadores  - e até funcionários – é óbvio ser este traço uma sobrevivência, a permanência da noção da administração diferida, um modus faciendi herdado do tempo colonial em que os organismos metropolitanos articulavam com os governos coloniais/”provinciais”.

No início das relações de cooperação bilaterais, após as independências, essa metodologia de contacto directo afirmou-se, até pelo facto dos organismos públicos portugueses terem acolhido antigos funcionários coloniais, com seus conhecimentos técnicos e pessoais e seus interesses (não obrigatoriamente interesseiros), que imprimiam uma dinâmica e um formato peculiares às concepções de cooperação e sedimentavam os “departamentos de cooperação” ou similares nos organismos públicos. Mas essa geração já não está no activo, a persistência do modelo depende hoje das inércias burocráticas, das reclamações políticas de autonomia sectorial e, não o menos importante, dos estratégias de carreira dos funcionários. Tudo isso impede a racional concentração (financeira e intelectual) desta área da política externa nos organismos devidos, tutelados pela Secretaria de Estado dos Negócios Estrangeiros e Cooperação.

Resultante desta metodologia economicamente perdulária e politicamente irracional, Portugal acumula “projectos” de cooperação de muito duvidosa viabilidade, real interesse ou capacidade de execução. Os dados estatísticos não mentem: em Moçambique, país onde abunda a cooperação internacional, Portugal tem muitissimo mais projectos agendados do que qualquer outro país, bem como do que todas as agências das Nações Unidas em conjunto. É apenas suplantado, e por escassa margem, pela Comissão Europeia, o maior doador em Moçambique. [Para que não se diga que é maledicência vejam-se os dados aqui e siga-se a documentação possível]. Nunca será demais dizer que esta volúpia “projectista” não é acompanhada nem por meios financeiros consistentes nem, e fundamentalmente, pelos recursos técnicos necessários (seja para co-execução seja para avaliação). E é importante frisar que este modelo baseado na figura do “projecto” está em contra-ciclo face às abordagens abrangentes, dominantes na cooperação internacional.

Um dos efeitos deste formato é o da intensa rede de visitas ministeriais e sub-ministeriais por parte dos governantes portugueses, obviamente excessiva, quantas vezes supérfula, por todos sentida como tal, até ridicularizada. Entenda-se, para além de outros considerandos sobre a sua eficiência, o trânsito governamental português em Moçambique (tal como, presumo, noutros países ex-colónias) é original, para não dizer excêntrico.

Vem isto a propósito de mais uma visita, a do ministro da Justiça Alberto Costa, ocorrida na passada semana, aqui deslocado para negociar o próximo programa trienal de actividades. Uma visita que, nas suas ocorrências, epitomiza o que de mal existe na cooperação portuguesa, nas suas dimensões executiva, conceptual e cultural.

A área da Justiça sempre foi considerada por ambos os Estados como prioritária nas relações de cooperação bilaterais. Para Moçambique tal inscreve-se numa especificidade nacional, considerada a manter, circundado que está por países herdeiros do sistema legal britânico. Daí o interesse mútuo, estratégico, em potenciar as acções nesta área (as duas décadas de ensino universitário a cargo da Faculdade de Direito de Lisboa são um bom exemplo de cooperação).

Por isso mesmo foram surpreendentes as declarações da ministra Justiça moçambicana, criticando publicamente o actual estado das relações de cooperação no sector, e identificando a causa da ineficiência nos próprios termos do acordo bilateral. Surpreendentes porque são inusitadas, ainda para mais em momentos de recepção. Entenda-se, o tom da ministra não se prende com as cíclicas (e até rituais?) retóricas de afastamento entre-Estados, e a isso não deve ser reduzido. É uma crítica política e técnica rara de ouvir a este nível, e evidentemente traduzindo uma desfuncionalidade da cooperação portuguesa nesta área sempre considerada fundamental.

O ministro português apresentou-se com uma vasta comitiva, uma dezena de pessoas, e cruzou o país até à Ilha de Moçambique, picando projectos [um resumo destes na peça da Lusa]. Poupo-me à ira algo demagógica com as despesas havidas – ainda assim tudo aquilo parece excessivo. em contramão a uma imagem de contenção orçamental. É claro que haverá sempre argumentos próprios a justificarem o séquito e os percursos. Mas registo que tamanho grupo não é o costume e que tamanhos desvios não são o costume. E que dão, aqui, a todos, uma óbvia aparência de digressão de veraneio de quem apouca a missão de que está incumbido.

Mas o fundamental serão os resultados. Uma grande delegação para renegociar os termos de um trabalho conjunto considerado vital e em actual depressão. Foram os novos termos ponderados, frutos de uma análise conjunta eficaz, serão potenciadores? Daqui a três anos alguém (?) fará a avaliação, mas parece-me óbvio que não foi isso o acontecido. De novo a incompreensão, a incapacidade para ouvir, analisar, integrar – até para cumprir as obrigações protocolares. Tudo isto emanando de uma atitude cultural que é, pelo menos, anacrónica. E que acampa como adversária dos interesses do Estado e do país. 

Como remate final da infeliz visita surge o ministro Alberto Costa propondo a adesão moçambicana à “Marca Lusófona”. Não valerá a pena insistir no descabido da fixação portuguesa no jargão “lusófono”, muito mais um obstáculo nas relações entre Estados e uma incongruência político-intelectual do que um eficaz instrumento. Julgava até essa retórica um pouco em desuso mas, como se vê, vai resistindo em alguns estratos da semi-intelectualidade ligada às esferas do poder actual. Entenda-se, para além de assim mostrar uma a-política incompreensão dos contextos visitados este discurso ministerial vem poluir as já difíceis relações sectoriais.

Uma perfeita ineficácia, até incompetência. Ainda para mais, e em complemento das problemáticas políticas e ideológicas ligadas ao hastear do jargão lusófono, é incompreensível que se venha a Moçambique, em crucial momento de relançamento de cooperação estratégica, propor uma económica “Marca Lusófona” exactamente quando aqui se procede ao lançamento da económica Marca Moçambique. Tudo mal pensado e, até, mal calendarizado. Um cúmulo de arrogante incompetência que nenhuma benevolência pode transformar em acaso ou distracção.

Claro que nada disto ecoa em casa própria. Nem este caso nem tantos outros. Aqui enquadrados por um corpo diplomático e afim que pratica o mutismo opinativo e, até, a elisão factual, e por uma imprensa pública (RDP, LUSA, RTP) que não arrisca a distância crítica, os agentes deste “modo cooperante” encomendam ainda trabalhos laudatórios na imprensa privada, realizados por jornalistas (quantas vezes juniores) que pouco ou nada compreendem do país que visitam, que pouco ou nada sabem da questão “cooperação” e que, fundamentalmente, estão constrangidos por essa realidade de viajarem a convite do Estado, como se em “missão nacional”. Veja-se, como exemplo, esta inenarrável peça de auto-propaganda, publicada no jornal Sol. O ministro mente. Ponto final parágrafo. O jornalista serve. Aliás, reproduz.

Há muito tempo que é tempo de isto mudar.

Escola Portuguesa de Moçambique

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Pacheco Pereira esteve em Moçambique. Agora em Portugal diz: “Eu, que não sou farto em elogios, aqui deixo este, sem qualquer reserva.”

Merecido, diga-se, o elogio à Escola Portuguesa de Moçambique, dada a qualidade do trabalho que desenvolve desde a sua inauguração.

Necessário, diga-se, o elogio à Escola Portuguesa de Moçambique, que nunca se sabe se o “Terreiro do Paço” tem noção de quanto e como se trabalha “lá fora”. Mas sabe-se o quanto, por vezes, lá irrita o acesso à sombra da Trichilia Emetica (a mafureira). Por todas estas razões é bom quando esta(s) voz(es) sonante(s) soa(m).

Ilha de Moçambique: Vila do Milénio no Lumbo

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[Maio de 2008]

A primeira pedra da Vila do Milénio, belo projecto de assentamento populacional a desenvolver muito em breve, baseado no projecto Aldeias do Milénio (Millenium Project) das Nações Unidas, uma inspiração desenvolvimentista de Jeffrey Sachs. Na sua versão moçambicana, como este projecto no Lumbo, uma obra encabeçada pelo excelente Venâncio Massingue, ministro da Ciência e da Tecnologia – prova que o desenvolvimento rural é um objecto de transferência científica e só assim se pode cumprir.

Luis Novaes Tito é um blogoamigo do ma-schamba, desde há anos. Já sofreu exageros meus, que lamento e até bastante. É um socialista mui decente – lembro-me de quando se afigurava a ascensão do governo de Socrates ter aqui perguntado sobre o que aconteceria ao então mui crítico bloguismo socialista português, se não se alinharia no silêncio. E de ele ter respondido qualquer coisa como “estarei cá”. E está! Não só de olho crítico mas também com o mais importante do actual bloguismo português que eu conheço: a espantosa e longa (sortudo, ele) série “Já fui feliz aqui” – uma coisa de reconhecer a vida que me apetece começar a copiar. E, até também, um acto político contra o estrutural gemido português, esse que nada mais é do que sinal de distinção sociológico, um “tão elevado que eu sou que assim tanto sofro”.

Pede-me o LNT novas da visita do Presidente Aníbal Cavaco Silva a Moçambique. Pelo que está acima escrito sinto-me obrigado a ecoar algo. Dizem que a visita correu bem. Acredito. Ontem na recepção à comunidade portuguesa (que o Lusofolia aponta) o presidente ecoou esse sentimento positivo. Ainda bem – todos temos a ganhar com o degelo.

Ainda assim acho que tão poucos meses depois do que aqui aconteceu no dia da transferência de Cahora Bassa, de total desrespeito pelo Estado português nunca, mas nunca mesmo, um Presidente da República ou primeiro-ministro português deveria aqui ter vindo. Pois se as práticas simbólicas identitárias moçambicanas são muito respeitáveis há limites a respeitar quando confrontam as práticas simbólicas identitárias do Estado português. Mas acho isso se calhar porque não sou político nem diplomata. Se a visita correu bem ainda bem – se as relações internacionais melhoraram ainda bem. Muito ainda bem. O meu obrigado, como residente imigrado, ao dignissimo presidente que tenho.

Pontos negativos? Assim para o vulgar cidadão só vi um – alguém sorrirá, eu acho crucial. Na recepção à comunidade portuguesa o coro infantil da Escola Portuguesa de Moçambique entoou os dois hinos nacionais. Toda a gente se comove quando vê criancinhas a cantar – “deixa-me ver a minha filha” ouvi um colega emocionado ali ao lado. A mim repugna-me, e de que maneira, que uma escola paga pelo erário público português (e são uns milhões de euros anuais) tenha professores que põem as criancinhas a cantar a “Portuguesa” com a mão no peito. Não sou nada anti-americano. Mas o hino português não se canta à americano, canta-se com os braços estendidos ao longo do corpo. A ministra da Educação estava presente – espero que mande actuar.

LNT, já agora saiba que aqui o seu blogoamigo teve o desplante de ir incomodar o chefe da Casa Militar da Presidência da República sobre os talhões militares. Que já estava informado, confirmou-me muito simpaticamente. Espero que possa actuar, e que para isso tenha os recursos. Pois continuo a acreditar que que os mortos são o nosso futuro.

Claro é que amigos e família quando me ouvem nestas coisas acham que não tenho razão. Pior ainda quando vêm ao ma-schamba a ler isto. Eu, pelo contrário, acho que tenho toda a razão. Nos modos de cantar o hino. Nos modos de tratar as campas.

Uma prenda para Ana Sá Lopes

jornalista por ora em Maputo.

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[Stephen Francis & Rico, Madam & Eve, Bring me my (new) Washing Machine, Johannesburg, rapid phase, 2007]

Adenda: complementar com esta notícia (via Índex)

Aníbal Cavaco Silva na Ilha de Moçambique

LNT pede-me notícias da visita do presidente Cavaco Silva a Moçambique. Presumo que a imprensa portuguesa faça a cobertura – eu, avisadamente, olharia a Lusa, cujo jornalista Pedro Figueiredo me parece bem menos folclórico do que os jornalistas habitualmente comitivos [a vantagem do jornalista oficial sobre os jornalistas oficiosos, porventura].

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["Posição da Ilha de Moçambique", imagem recolhida de Raquel Soeiro de Brito, No Trilho dos Descobrimentos. Estudos Geográficos, Lisboa, CNCDP, 1977, p. 213]

Mas posso adiantar que hoje Aníbal Cavaco Silva visita a Ilha de Moçambique. Espero que vinculando a “cooperação” portuguesa a um efectivo e competente esforço, o qual está planeado, nessa região – economicamente deprimida e cujo grande simbolismo é também um recurso económico. Lembro que em 1997 o presidente Jorge Sampaio não foi à Ilha também porque não havia nenhum plano de cooperação plausível para aquela região (considerando então que não havia razões políticas para a deslocação). E que em 1998 o primeiro-ministro António Guterres foi lá apesar de não haver nenhum plano de cooperação plausível para aquela região (óbvios diferentes entendimentos sobre o conteúdo de uma visita de Estado a Moçambique).

Sobre a ilha já deixei aqui dois longos textos (I e II) – que são o melhor do Ma-schamba. E uma série alargada de entradas. Para além de sublinhar a esperança não me alongo mais, LNT – ali é o sítio onde combato o meu cepticismo. Rejuvenesço, por assim dizer.

Hoje é também dia de orgulho. Pois o grupo Anuaril Hassanate Bairro 16 de Junho (aldeia Mesquita Gulamo), do qual sou presidente

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foi chamado para actuar na recepção ao meu presidente da República. De orgulho um pouco triste: sou mais uma vez um presidente absentista. E hoje gostava de não o ser.

Do futuro (reprise)

Abaixo refiro que agora me lembrei de uma velha entrada do ma-schamba (10.02.2008), dedicada ao cemitério militar de Pemba, referindo-o como facto social total. Pensando melhor acho que este é um bom momento para a lembrar ainda mais. Recolocando-a. A versão original tem texto, talvez interessante para quem descreia do culto dos antepassados ou lhe encontre um excessivo tom patrioteiro. Mas aqui ficam só as fotografias. Falam melhor do que o bloguista.

Pemba, Cemitério Militar da Commonwealth, I Guerra Mundial

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Pemba, Talhão Militar Português

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Venâncio Mbande

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(fotografia emprestada pelo Toix)

Quinta-feira passada houve sessão no Instituto Camões, homenagem a Venâncio Mbande, nome enorme da música moçambicana, maestro timbileiro, homem já alvo de um filme: Keep the Timbila Playng, de Frank Diamand

Casa cheia, que tinha havido mobilização via SMS. Cheia com o meio das artes e ainda mais de muitos expatriados, gente nova (estou a envelhecer, constato quotidianamente …), sem dúvida que mais ou menos recentes cá, com aquela curiosidade característica de quem chega e quer conhecer- dia bom para eles, a poderem ver e ouvir uma lenda.

Dia estranho para mim. Certo, a homenagem em vida é bonita. Mas o teor da homenagem talvez nem tanto. Mbande está doente (não terminal, atenção), envelhece (talvez 66 anos), está sem dinheiro para a subsistência, para os medicamentos – é diabético. Os amigos, neste caso os discípulos Timbila Muzimba e mais alguns, organizaram a sua vinda de Zavala, onde o grande maestro timbileiro reside. E fez-se a sessão de homenagem, antecâmara de uma que acontecerá dentro de dois meses, a ocorrer no Centro Cultural Franco-Moçambicano. E foi o perfil desta agora acontecida que me arrepiou – até porque dela se podem retirar ensinamentos para daqui a dois meses. E para um futuro mais estrutural ….

Discursos de homenagem, discurso do próprio, 3 músicas (10 minutos?). E peditório – “quem pode dar dinheiro entregue ali na mesa“. Um generalizado mal-estar. Algumas considerações sobre isto:

a. Solicitar ajuda aos amigos e aos admiradores não é errado. Dá-la também não o é. Ambas atitudes só enobrecem.

b. O Instituto Camões, representado pelo bibliotecário, saudou o homenageado e entregou-lhe um “diploma de mérito”, entre merecidos aplausos. Confesso, coisas de antropólogo a olhar o simbólico: haverá algo a dizer do downgrading protocolar, ou terá sido mero constrangimento do quotidiano? Mas o que é um “diploma de mérito” do Instituto Camões? É da sede, um grau oficial que o ICA tem? Se é disso que se trata é ao bibliotecário, ainda que indivíduo e posição mui dignos, que compete a entrega? O que significa isso? E se o é, outorga-se um diploma deste relevo  e arruma-se a questão, ainda para mais numa situação humana destas?

Se não é desse grau que se trata, tal como a dimensão protocolar e o anúncio público me parecem configurar, qual a figura desta homenagem – é um “diploma” ad hoc atribuído pelas sucursais do Instituto Camões? Se sim quais são os critérios de escolha, de proposta, de candidatura, de entrega? Venâncio Mbande merece um diploma de mérito da instituição de representação cultural externa de Portugal? – em meu entender merece (e do oficial, se se confirmar a minha opinião de que não foi desse que aqui se tratou) pois a expressão legitimadora que o subjaz “…em reconhecimento da sua relevante acção em prol da defesa e da promoção da língua e da cultura portuguesas no mundo” deverá ser entendida apenas como sobrevivência de uma concepção reduzida da acção cultural externa, fruto de uma noção presumivelmente já ultrapassada (a legislação que instaura a outorga é do consulado guterrista). Mas ainda assim, repito, quais são os critérios  de atribuição (necessarimente públicos e publicitados) destes diplomas, mesmo que meramente oficiosos, localmente consignados?

Ou seja, honestamente, o desenho pareceu-me excessivamente atabalhoado, desmerecendo a homenagem, desmerecendo o homenageado. Grave? Sim. Mbande estava ali também como símbolo. É símbolo, assim considerado. O estrangeiro em casa alheia respeita o símbolo. Ou, pelo menos, exime-se ao ritual que o vivencia.

Dramático? Não! Não faltarão momentos mais ou menos próximos de índole protocolar para emendar o passo (ou, caso eu esteja enganado, para o completar). Um apoio da “cooperação” portuguesa (em sentido lato) à questão da saúde do enorme artista (para os portugueses que lerem isto lembrem-se da figura de Carlos Paredes – ainda que este ao menos fosse arquivista de um hospital, se bem me lembro, o que lhe daria para pagar as sopas e a renda) caberia perfeitamente nos protocolos bilaterais existentes no domínio da saúde. Um projecto de musicologia poderá ser desenvolvido, com gravação extensa da arte e remuneração suficiente – a preços acessíveis, dada a facilidade de gravação actual. Basta vontade. E reconhecimento do “mérito cultural”…

2. Na cerimónia o vice-ministro da Educação e Cultura saudou  o grande músico e a iniciativa. E disse algo que soou pouco simpático mas que é verdade – o Estado não pode apoiar tudo, “temos” que nos organizar nestas iniciativas solidárias. Eu não o ouvi, estava à porta dada a aglomeração de pessoas à minha frente. Mas ouvi os comentários – caíram mal as palavras de Luís Covane. É o problema dos políticos, quando não são demagogos as pessoas não gostam. Covane falou bem, é a minha opinião. Ainda que neste caso eu ache que o Estado tem possibilidades (e responsabilidades) para intervir.

Entenda-se: as timbilas de Zavala (núcleo territorial onde a prática é original, ainda que esteja algo disseminada até Zambeze acima e se tenha maputizado) são um dos itens que têm sido escolhidos pelo Estado e pela intelectualidade moçambicana como denotativos da identidade nacional. A sua excentricidade na África Oriental – porventura demonstrando a sua longínqua origem exógena, o que é interessante face à complexidade do argumento “autenticidade” no mecanismo identitário moçambicano actual – a isso ajuda. Por isso mesmo o Estado se empenhou na campanha para a eleição do ritmo musical chope timbila como património imaterial da humanidade – à imagem do que fez com as danças nyau. Deste modo não me parece muito curial que o mesmo Estado não tenha capacidade para intervir num momento de dificuldades do grande músico identitário. Não tem recursos próprios? Acredito – mas com toda a certeza poderá fazer apelo às grandes empresas moçambicanas, públicas, privadas ou participadas, e com alguma imaginação encontrar formas de apoiar dignamente o músico, até baseando-se na muito em voga ideia da responsabilidade social empresarial. O tal projecto de gravação, uma escola financiada, uma pensão condigna, etc. - há múltiplas formas de abordar o assunto, sem que isso implique obrigatoriamente um dispêndio do orçamento estatal (sobre o qual eu, cidadão estrangeiro, não tenho muito a opinar, como é óbvio).

3. Algumas empresas patrocinaram a homenagem. De uma forma tímida. Um dos amigos de Mbande disse-me que um dos habituais grandes patrocinadores das “coisas” da cultura ofertou 200 USD. Isto demonstra (mais uma vez) que no seio das grandes e médias empresas aqui operando há uma enorme ausência de sensibilidade e conhecimento cultural. Pródigas em patrocínios, tanto mecenáticos como publicitários, nelas não se descortina uma verdadeira ideia do “como fazer”, do “que fazer”. Mostra-se, amiude, uma verdadeira ignorância nos quadros que decidem. Gastariam menos, recolheriam mais dividendos, acima de tudo estatutários e simbólicos, para não falar de comerciais, se tivessem verdadeiros assessores para estas matérias.

200 dolares para um aflito Mbande quando abundam os 500 e 1000s para as enésimas iguais exposições de pinturas de ocres e laranjas, em troca de quadros a serem amontoados em armazéns e aí esquecidos? Quando o afro-pimba é dourado em horários nobres e prémios rotundos? Alguém está enganado nestas andanças …

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Os tumultos de Maputo e o MNE português

Paulo Granjo tem queixas do Ministério dos Negócios Estrangeiros português a propósito dos acontecimentos de Maputo. Não resisto e, em comentários, exerço a minha vocação de advogado do Diabo (neste caso literalmente, diga-se).

Já agora, e porque lá o digo, de Lisboa avisam-me amigos – mui veteranos do ma-schamba, e percebo-lhes os sorrisos ao telefone ou nas linhas dos e-mails – que em breve terei nova cena de queijos e vinhos. Ou seja, que em breve o meu Presidente da República, professor Cavaco Silva, virá a Moçambique em visita de Estado. Espero que seja um sucesso – vi Cavaco Silva aqui em 1999 e foi imponente enquanto conferencista (ok, digam-me cavaquista …). E também espero que o Ministro das Finanças português venha na delegação – talvez assim possa aprender como se representa a República no estrangeiro.

 


Um futuro historiador dedicado às relações entre Portugal e Moçambique decerto que encarará 2007 como um ano marcado pela transacção (dita “reversão” no neo-português actual) da HCB. Juntará alguns outros factos, porventura até a recente cimeira “Europa-África”.

Fica aqui o meu contributo historiográfico (até porque não há imprensa portuguesa em Moçambique, o que dificultará futuros trabalhos de arquivo). No passado mês o Presidente da Assembleia da República, segunda figura do Estado, deslocou-se a Moçambique na companhia do deputado Vera Jardim (antigo ministro da Justiça), acompanhando as cerimónias do jubileu de Aga Khan. Ecumenismo muito interessante e basto significante para entender o Estado português nesta época histórica.

Nesse seu programa oficial os dois deputados visitaram o novo centro comercial de Maputo, recente iniciativa empresarial do poderoso e simbólico grupo económico MBS. Pequeno acto protocolar, mas também muito significativo sobre a política portuguesa em Moçambique. Aliás, se historiograficamente a transferência da HCB apenas significará o encerrar de um ciclo, este pequeno evento poderá denotar algumas das actuais linhas de interacção entre Estados. E, até, das dinâmicas partidárias portuguesas.

Politicamente correcto. Crianças entregues na escola, rápido café com amigo colega em paternidade. Chispa de ironia, ele: “Ouve lá, tu que és um gajo culto” (ei-lo nela, o sacana) “explica-me lá o que é que significa reversão“. Tartamudeio e fujo para um “a propósito de quê, pá?”, “Então hoje não é o dia da reversão de Cahora Bassa?”. “Bem …”, evoluo, e com ele no entre-sorrisos, “são estas palavras novas, assim tipo “empreendedor”, “implementar”, esses tipos utilizam-nas para parecerem finos“. “Ok, ok“, matamos ambos a conversa, antes do “a conta, por favor“. E saímos, sorrio eu ainda, decerto ele (e ele é que é o gajo culto, entenda-se) também na via do seu dia, sorrimos a tanta ideologia no falar, nacionalismo de alguns, e esse ainda vá que não vá, o politicamente correcto de outros, e esse é que nem se compreende.
Sentar-me-ei, politicamente incorrecto?, a consultar a página 1247: “reversão (Lat. reversione), s.f. acto ou efeito de reverter; regresso ao estado primitivo; devolução; (Zool.) atavismo; (Ling.) figura de estilo que consiste em inverter a ordem dos termos de uma proposição, de modo a obter uma outra com sentido diferente; quiasmo.” (Texto Editora, Dicionário Universal da Língua Portuguesa, 1995, 1ª edição).
Concluo então, Pedro, que “reversão” é uma figura de estilo económica. Chega? Ou será um quiasmo?

coisas do mantorras…

O recorte já é velho mas só agora tive tempo. Passada a “crise mantorriana” entre Portugal e Angola eis que surgem ecos no Índico. Confesso que não sei se já estará resolvido o problema, tenho ideia que se trata apenas de um acordo entre Estados, algo a dirimir entre organismos públicos tão secundários que se permitem às inércias quanto a relações externas. Mas aí está, o arremedo de bruááá

Clicando na imagem poder-se-á ler o texto do jornalista Jeremias Langa. Um caso típico do anti-portuguesismo na imprensa moçambicana. Não supreendente, nem injustificável. “É como as coisas são” e não me vou por no “dever-ser”. Mas o último parágrafo é trans-típico. Uma verdadeira delícia. Com resquícios de pró-colonialismo por parte do escrevente, até…

Cahora Bassa. Já aqui e aqui saudei a conclusão do processo de transferência da barragem, um item do processo de negociação da independência, uma conclusão política para um (fantástico, aka extraordinário, aka descabido) empreendimento político. Saudando o final de um longo processo, saudando o governo português que, finalmente, resolveu o assunto.

Deparo-me agora com a revista Visão, o numero anterior à visita de Socrates a Maputo, onde culminou as negociações.


Renascer em Moçambique“, o título da pobre reportagem. Candura? Vácuo? A parvoíce habitual, jovens portugueses (entre 25 e 32 anos – neles algumas caras conhecidas) por cá, terra exótica e bela, vivendo aventuras, amores ardentes, empresas ascendentes. Capa condicente, casal com cabana atrás (e autóctones, presume-se que convenientemente agradecidos). Nada de novo, ha 8 anos por cá esteve Maria João Avillez a botar um “regresso dos portugueses” tão nada como isto, tão vazio e cego como isto (uma colecção de cromos preguiçosa, o tipo dos “gelados italianos”, claro, o paradigma Cascais, esse que se baldou depois com as dívidas para trás, e uma série de jovens quadros de apelidos sonantes, tipo “vejam, nós tambem podemos ir…”). Gente nada, essa que escreve, gente de quem Rui Knopfli escreveu

Ninguém se apercebe de nada. / Brilha um sol violento como a loucura / e estalam gargalhadas na brancura / violeta do passeio. / É África garrida dos postais, / o fato de linho, o calor obsidiante / e a cerveja bem gelada. / Passam. Passam / e tornam a passar. / Estridem mais gargalhadas, / abrindo uma sobre as outras / como círculos concêntricos. / Os moleques algaraviam, folclóricos, / pelas sombras das esquinas / e no escuro dos portais / adolescentes namoram de mãos dadas. / De facto como é mansa e boa / a Polana / nas suas ruas, túneis de frescura / atapetados de veludo vermelho. / Tudo joga tão certo, tudo está / tão bem / como num filme tecnicolorido. / Passam. Passam / e tornam a passar. / Ninguém se apercebe de nada.”

(Winds of Change, tão bem lembrado no A Sombra dos Palmares).

Gente pobre, ignara, a dos jornais? Lendo tralha destas logo assim se acha. Para quê coisas tão fracas, nem superficiais chegam a ser? Pergunta cansada, nem quer resposta tamanho o menosprezo que tal gente acolhe. Mas logo depois esta tralha simpática esta, jovens portugueses “a renascer em Moçambique”, burgueses entre belas raias e boers escaldantes, tons ocres, descampados imensos, um futuro cobiçável (e repetível), um país simpático que os acolhe e tal permite, e a tantos outros, gente boa, “terra da boa gente”. E assim os escaparates lusos cheios desta capa, nem precisam de comprar e ler, basta passar na rua, actua o implícito, o indito, o subconsciente.

E na semana seguinte Socrates em Mocambique a “entregar” Cahora Bassa. Antes a opinião pública “preparada”, trabalhada, mexida. Desta maneira melíflua. Ah, “renascer em Mocambique”, entre raias, autóctones e terras assim. Gente pobre, ignara, a dos jornais? Nada!

Um lixo. A Visão. Mas também quem os compra. Entenda-se, que lhes encomenda lixo destes. E quem lho consome.

Meu sorriso polissémico:

Jornal Zambeze, nº 215, edição de 2 de Novembro de 2006. Director Salomão Moyana, Editor Lourenço Jossias.

José Socrates em Maputo, o fim da transaccão de Cahora Bassa. Até que enfim. Louve-se a conclusão de um processo político.

Portugal e África: A televisão pública portuguesa enceta a esse-eme-esseização da história de Portugal, a “escolha popular” do maior português de sempre. Alguns grãs-blogs portugueses já quase esgotaram o assunto, o da pertinência de algo como isto, centrando-se em particular nas práticas censórias (explícitas e implícitas) dos organizadores desta “história de portugal”.

A este propósito Pacheco Pereira refere ainda algo fundamental: o da produção de um padrão de “portugueses” que irão votar. Outras questões surgem sobre esta forma da tv pública construir uma imagem da história: a própria ideia do voto em personagens históricas; o peso da actualidade (quantos votos teriam Fernando Lage ou José Travassos numa iniciativa para escolher os melhores futebolistas portugueses?); o que é “grande”, o que é que constrói a “grandeza histórica” (o Mestre de Aviz é maior ou menor do que Fernão Lopes?), o que é “português” (vá lá que Fernão de Magalhães está, mas Miguel de Vasconcelos [ainda para mais dono monopolista de uma palavra em português], Tiradentes ou Cervantes poderão caber? Ou, como provoca o A Destreza das Dúvidas, não será Obikwelu o maior de todos?).

Independentemente de tudo isso, e da pouca pertinência de um passatempo televisivo deste tipo (e por isso da pouca pertinência de tanta atenção bloguística), surge algo a realçar. Em 250 “candidatos” propostos quase inexistem figuras ligadas ao esforço colonial português em África – Ivens e Serpa Pinto surgem, mas são exploradores, integráveis como Bento de Góis, na abundante galeria de “heróis identitários” de descobridores marítimos e exploradores terrestres; Spínola, Galvão, Costa Gomes ou Champallimaud surgem, mas sem referência às suas actividades em África, estão ali por razões outras.

Na prática a inflexão colonial portuguesa em África, pelo menos 90 anos bem recentes, é-nos trazida nesta “reconstrução popular” da história por apenas 3 nomes. 2 deles por razões absolutamente secundárias: Gago Coutinho, referindo-se-lhe a actividade de delimitação de fronteiras africanas, mas obviamente uma condição secundária na sua biografia, e Sá da Bandeira, ainda que fundamentalmente por ser responsável pela abolição da escravatura (algo muito discutível, mas enfim, não é aqui que vou discutir tal). Um terceiro por razões conjunturais, pois não creio que Henrique Paiva Couceiro fosse lembrado antes da recente publicação da sua biografia por Vasco Pulido Valente.

Enfim, a propósito de um passatempo televisivo, as marcas do luto português quanto a África. Uns saudosismos “patrioteiros” mais exaltados, mesclados com o silêncio. Gritante, como nestes casos.

Então vão passar a andar a horas? Ou, pelo menos, a dias?

Na capital moçambicana, Fernando Pinto adiantou que a TAP está interessada em abrir, no imediato, um quarto voo semanal entre entre Lisboa e Maputo. «O potencial turístico de Moçambique é enorme», afirmou o presidente da TAP..

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Ah, e ao ler isto percebo porque é que hoje à tarde a Mtomoni tanto transbordava para a Engels e a Nyerere. A Tap (dizem-me que até houve exposição alusiva) e o tão esperado congresso de Agentes de Viagens Lusófonos, qu’agora isto é que se vai desenvolver.

Hum, um certo coiso de cargo cult? Cantarolo “os tempos já mudaram”. Continuam a mudar, claro, mas já mudaram desde a canção. É como as gentes.

Alegre e Moçambique

Há alguns dias o meu total espanto diante da RTP, um episódio da visita de Armando Guebuza a Portugal. Também nisso reparou o Luís Carlos Patraquim, na sua coluna “A Esquina do Tempo” que envia de Lisboa para publicação no Savana.

Em compita para serem recebidos pelo dirigente moçambicano estiveram os candidatos presidenciais portuguesas. Mário Soares e Cavaco Silva relevam [sic] o sentido estratégico das relações Portugal/África e depois Portugal/Moçambique, Portugal/países da CPLP. Com o inédito do protesto de Manuel Alegre apontando o dedo à falha do protocolo de Estado. Reivindicou uma amizade antiga e o princípio de que, em democracia, não há vencedores antecipados. O presidente moçambicano virou centro de disputa entre os candidatos lusos. Manuel Alegre também queria ser recebido. Guebuza estava no centro de uma visibilidade que os “presidenciáveis” portugueses exigiam. É uma espécie de eixo que se desloca, inclina.” (Savana, 4 Novembro 2005)

Talvez um pouco forçado o tom com que traça o facto. Mas também eu notei esse “espécie de eixo que se desloca, inclina“. Pelo menos naquela polémica sobre a retórica protocolar – e forma é conteúdo. Não que venha mal, acho até um projecto interessante, o “multipolarismo”. Interessante não, necessário. Um projecto a fazer.

Mas é (foi) óbvio que não era disso que Manuel Alegre falava, não era esse redesenhar o seu objectivo. Pois se fosse o caso tê-lo-ia explicitado, uma linha de pensamento, um futuro. Nada disso, ali apenas o queixume do minuto de televisão, do “panache” cutucado. Episódio mero impensamento, mero autocentramento, mera cabotagem fluvial. Por mais que este episódio seja marginal ao correr português do lá em Portugal, que lhes seja até invisível, esta foi óbvia demonstração da pequenez política de Alegre.

Reportagem do Expresso sobre Moçambique

Via Chuinga pode-se ler (gratuitamente) reportagem do Expresso sobre Moçambique. Enfim, cada vez mais me convenço que jornalista é mesmo mutante, ser já diminuído devido a agentes letais.

Por cá consta, talvez mais um boato, que Balsemão quer aqui abrir um jornal. Assim será? Se assim for esperemos que mande gente melhor. Ou pelo menos com óculos, que isto de misturar estigmatismo com miopia não dá em nada.

Do futuro

Num Portugal que se expandiu e bastante guerreou ao longo da sua história há um pensar sobre os que morreram nessas guerras longínquas que, assim grosso modo, oscila entre dois polos.

Um deles, dito mais conservador, valoriza a identidade comum, indiferencia um interno, baliza um projecto nacional unânime (por vezes chamado patriótico), e saúda objectivos e realizações desse passado. A este às vezes chamou-lhe gesta ou epopeia, e nisso costuma aplicar-lhe várias maísculas, estas como se fortalezas de sentimentos. Exalta, claro, os caídos nesses passos, consagrando heroísmos, os célebres e os anónimos, vistos como agentes de um desígnio. Nisso se respeitam e se recordam os nossos mortos. Símbolos do que somos, heranças para os que se seguem nesta História que se quer perene pois orgulhosa.

Um outro, dito mais progressista, lembra uma identidade comum sobre um diferenciado interno, de poderes e de classes feito, baliza os projectos nacionais (quase nunca chamados patrióticos) como se plurais frutos dos conflitos entre diferentes grupos, e assim contextualizados critica objectivos e realizações desse passado. A este às vezes chama-lhe expansão ou descobertas, e nisso costuma aplicar-lhe várias aspas, estas como se vassouras de sentimentos. Exalta, claro, os caídos nesses passos, consagrando heroísmos, mas mais atento aos anónimos, até vistos como vítimas de poderes mobilizadores. Nisso se respeitam e recordam os nossos mortos. Símbolos do que fomos, heranças para os que se seguem na História que se quer perene pois reflexiva.

Será demasiado simples chamar a isto a persistência das religiões dos ancestrais. É mais, qualquer que seja o poiso de onde se fala, olhar e usar o(s) (ante)passado(s) para imaginar o presente e construir o futuro. Mais ou menos criativamente, consoante o paladar.

Pemba, Cemitério Militar da Commonwealth, I Guerra Mundial

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Pemba, Talhão Militar Português

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Um país* que não cuida dos seus mortos desistiu de o ser.

*ver comentários.

Ilha de Moçambique

Nunca o Ma-Schamba teve tantos visitantes como neste dia de aniversário, decerto porque muitos foram os turbo-leitores (a quem abaixo agradeço, reconhecido). Na expectativa que alguns ainda regressem aqui deixo algo que há muito está pendurado.

Tive ao longo de uns poucos anos alguma coisa a ver com a Ilha de Moçambique, coisa de trabalho diga-se. Muito me apraz uma capelinha que por lá subsiste, e que se lixe a modéstia. Mas, no correr do tempo, muito ouvi dos meus patrícios sobre o quanto e o como fazer na Ilha, entre mais ou menos pomposas deslocações e camarões. Um dia, numa conferência da UNESCO sobre a reabilitação da Ilha de Moçambique, aqui decorrida, até ouvi um qualquer desavergonhado patrício bem pago anunciar o donativo de um milhão e meio de contos pelo Ministério do Ambiente. Disse-o sem pestanejar, o escroque…Mas enfim, isso foi passado.


Tenho em casa esta revista institucional, datada de Dezembro de 2003. Nela Pedro Santana Lopes, então presidente da Comissão Executiva da União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa (UCCLA) anunciou:

“A recuperação da Fortaleza de São Sebastião é uma obra que muito nos orgulhamos. Lembro que quem primeiro me alertou foi o anterior Cardeal Patriarca de Lisboa, era eu Secretário de Estado da Cultura (1990-1994). O senhor D. António Ribeiro estava de regresso de uma visita à Ilha e ficara impressionado com o estado de degradação da Fortaleza, a primeira erguida pelos portugueses no Índico. Falou-me de como era importante a sua recuperação, até por se tratar de um dos maiores atractivos turísticos da Ilha. Entretanto a Fortaleza foi declarada pela UNESCO como Património Histórico da Humanidade. E, neste momento, estamos em vias de firmar um acordo com a UNESCO para a recuperação da Fortaleza. A UCCLA participa com 600 mil dólares e a cooperação japonesa com um milhão de dólares“.

Estou satisfeito. E orgulhoso. Quando começam as obras?