Archive for the ‘Portugal-Moçambique’ Category

Adenda sobre os moralismos que falam

Quinta-feira, Setembro 2nd, 2010

Com toda a certeza que neste momento o mais importante em Moçambique não é referir o que lá longe se diz sobre o país e sua situação. Mas abaixo deixei um suave resmungo sobre os moralismos, internos e externos. E logo me caem no ecrã alguns exemplos disso, tão ocos que não consigo evitar pontapeá-los – ainda que saiba ser fútil perda de energia. Mas o tom ufano das suas certezas é tão irritante que me exige as caneladas.

1. O 2+2=5 indexa textos sobre as manifestações de Maputo. Por aí chego à opinião de Francisco Louçã, o “coordenador” do Bloco de Esquerda. Os mais veteranos leitores do ma-schamba dirão que reajo à minha “bête noire”. Porventura sê-lo-à. Mas é inenarrável. Eis como termina o acórdão da sua sentença: “Quando visitei Maputo, há uns anos e na véspera de uma cimeira africana, encontrei logo ao sair do aeroporto a construção acelerada de um muro elevado, que bloqueava um grande bairro de barracas: era para que os delegados estrangeiros não vissem a miséria. Este é o retrato da pobreza e da prepotência: oculta-se a miséria porque não se acaba com a miséria.”

Sei que os comunistas têm um fetiche com muros e que, desde que alguns caíram, têm com eles uma relação edipiana. Mas lendo este naco de prosa avanço para o método comparativo – é legítimo, não está Louçã a parodiar o método indutivo? E lembro-me do grande Carlos Lopes. Sportinguista, campeão olímpico, várias vezes campeão europeu, três vezes campeão mundial de corta-mato. Em 1985 foi campeão mundial no vale do Jamor [acima o recorte recuperado aqui]. Ora para acolher esse mundial o governo português de então construíra um enorme muro (um tapume) para esconder o miserável amontoado de barracas de refugiados timorenses (sim, esse pelos quais quinze anos depois os portugueses se vestiram de branco e karaokaram o lânguido “ai timor”) ali plantado. Será esse episódio significativo para definir, explicar ou até apenas ilustrar o sistema político e suas articulações socioeconómicas no Portugal de então e subsequente? Não, não é, por mais ridículo e afrontoso que o episódio então tenha surgido.

Quer-se pegar num ponto e nele basear uma conclusão? Ok, pegue-se, mesmo. Conheça-se e entenda-se. Na praça do aeroporto de Mavalane (Maputo) um dos seus topos articula com a zona do caniço. Na sua extremidade estava até, se bem me lembro, uma lixeira. A zona foi tapada com cenários de grande dimensão, com dizeres em francês, para simular a Kinshasa de Mobutu. Eram os cenários de Ali, de Michael Mann, filme em grande parte rodado em Maputo. Os quais foram ficando após a conclusão dos trabalhos. Algum tempo depois foram retirados. E fez-se o pequeno muro, ao longo de uma curva, tentando manter alguma “estética” da praça, agora “habituada” a um outro visual (um visual de “cimento”, chamar-se-ia aqui), como se “hall” de entrada da cidade. É risível? Sim, um pouco. Mas é isso demonstrativo, denotativo, ilustrativo de uma situação política estrutural? Afirmar isso é uma pura demagogia, básica. E desmontada por qualquer corrida entre Mavalane e a drenagem (ou seja, a imediata continuação desse caminho principal de saída do aeroporto), feita numa paisagem similar, de caniço, e sem outros muros. Para que agita o coordenador a sua palavra leve e vã? Ou, como diz o outro, “porque não te calas?”.

2. Henrique Fialho – que é dono de um excelente blog – cita (assim subscrevendo) outro naco moralista a explicar as coisas de Maputo (e com toda a certeza a receber a concordância da blogo-inteligência lusa left-wing e/ou conimbricense): “Por que não aumentam o preço dos veículos todo-o-terreno, das casas de alta cilindrada, desses artigos a que o povo não chega para conseguir comprar pão e pagar água, electricidade e transportes?”. Não me vou por a discutir a diferença entre preços tabelados e não tabelados, neste eixo de argumentação talvez fosse um sofisma. Nem a resmungar outra vez contra os textos medievais, mais ou menos cristãos, dos “ricos” vs “pobres”. Nem a argumentar sobre o peso simbólico dos “for-bai-for”, esse anti-cristo da esquerda parva europeia. Só vou lembrar a complexidade do mercado automóvel em Moçambique, a chegada dos recondicionados japoneses via Dubai (e como isso é ilustração das malhas que a economia global tece) e, já agora, do aumento dos preços dos carros novos. E do enorme aumento dos preços das casas em Maputo. Factos ambos que têm explicações e efeitos múltiplos, sociais e económicos e muito se articulam com as redes do poder político. Mas que servem para assinalar essa pequenina coisa da empiria que, chatice, torna mais complicadas as coisas. E nisso torna lixo a pompa das tiradas moralistas, cheias de invectivas e de si-mesmas. E ridículos os aplausos à missa.

Missa essa cheia de crentes. Muito comunitários, diga-se. Cheios de benzeduras e vade retros. E sermões entre-laudatórios.

jpt


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Uma Carta de Maputo no jornal Sol

Quarta-feira, Agosto 11th, 2010

["D. Quixote", gravura de Marti, editada em 1853]

Um acontecimento raro. A publicação na imprensa portuguesa de expressão nacional [jornal "Sol" - mas sem ligação na sua edição electrónica] de um texto de um português residente em Moçambique dedicado às relações entre o país e Portugal. O jornal “Sol” vende-se na rua mas eu nunca o compro, falhei portanto a leitura. Alguns amigos avisam-me, até porque o texto aborda dimensões educacionais e culturais, e enviam-me o texto num óbvio questionamento. O autor é Tiago Lagoia, patrício que não conheço e que presumo – pelo tom – que aqui seja recente. Não posso deixar de sorrir, lá se ecoa o secretário de estado vendedor de cortiça de que eu já falara (colhendo então invectivas de “estar sempre do contra”, até entre os meus mais próximos). Pois a este patrício – e, pelos vistos, aos seus parceiros moçambicanos – o ridículo do vazio intelectual desse governante também foi sonante.

Quanto ao resto Lagoia é mais um dos arautos da lusofonia. Coisa de que tanto já falei. E sobre a qual não vou repetir argumentos. Confesso que prefiro um secretário de estado socialista a louvar o Cristiano Ronaldo e a vender cortiça em Maputo do que alguém que vai em 2010 escrever no jornal “Sol” que “A lusofonia …. é um acto de amor“. E que sobre uma retórica aparentemente correcta – o desejo de ver ler Camilo Castelo Branco, o apreço por Craverinha ou Malangatana, a disseminação dos livros da literatura portuguesa ou moçambicana (“escrita em português”, entenda-se) – sonha com um locus cultural português em Maputo que congregue (que seja coito?) do meio cultural moçambicano. Coisa grande e vistosa, presumo.

É necessário falar de Camões em Moçambique? Nada a opor. Mas numa língua que tantas traduções (e recentes) tem de Cervantes o importante, o urgente, é mostrar, fazer ler, fazer amar (sim, “a leitura …. como acto de amor”) o D. Quixote. O resto, esse resto “lusófono”, esse sim é de “meter dó” que seja o que os jornais portugueses estejam disponíveis para acolher. A gente não se livra desta maneira de ver? Críticas à política estatal portuguesa de acção cultural externa, de “cooperação”? Sim, e tão necessárias s(er)ão. Em português (lusofonamente)? Sim, nesta língua de olhar o mundo, aberta ao mundo, de entendimento, de tradução. Definitivamente não lusófona. De velhas e bafientas perenidades. Mesmo que “amorosas”.

Nós, os lusófonos
Telmo Lagoia
Jornal “Sol”, 6 de Agosto de 2010

["Centro Cultural Português: um aspecto que mete dó" - legenda da fotografia da sua frontaria que surge a ilustrar o artigo]

Quantos quilómetros de lusofonia há em Mocambique? Que rios desta nação atravessamos com o nosso idioma? A língua nao se pesa como o cimento, nao se quantifica como os euros nem se enfarda como o bacalhau. No entanto, é dela que os políticos se socorrem quando querem falar desses e de outros temas. Com ela falam aos corações dos seus eleitores.

É a falar que a gente se entende.

Mas a lingua são os afectos e são as pessoas. A lusofonia não se publicita, pratica-se. Não é, fundamentalmente, um acto económico – é um acto de amor. E o amor, já se sabe, é eterno enquanto dura. Dura enquanto é acarinhado e alimentado.

Pontes, estradas, empréstimos a fundo perdido, perdões da dívida – está por estabelecer quem, no grande livro do deve e do haver da Historia, deve o quê e a quem. Discursos e inaugurações serão, talvez, actos necessários em política, conduto da nova diplomacia económica. Mas pouco nos dizem a nós, aos lusófonos.

Por que serão as estradas mais importantes do que Camilo Castelo Branco para o desenvolvimento da cultura que partilhamos? Por que razão um viaduto será mais marcante do que Craveirinha? Quantos parafusos valerá Mia Couto? Por que, estara Camões definitivamente ultrapassado pelas energias alternativas e Malangatana pelo gás natural?

E, sobretudo, estas coisas durarão mais do que a palavra dos poetas?

Por que será que Portugal insiste em exportar para este país uma versão de bolso de um discurso europeísta, pretensamente moderno? Por que insistirá o meu país na cultura do cimento, ao invés de cimentar a cultura que nos liga?

A lusofonia, o uso da língua portuguesa, vai diminuindo à medida que nos afastamos de Maputo e penetramos no interior de Moçambique. À medida que vamos percorrendo quilómetros, nas estradas que tanto orgulho temos em ajudar a construir.

Amo meu pais e sou avesso a qualquer discurso miserabilista sobre a pátria longínqua. Mas é por isso mesmo que me sinto confrangido com a pobreza e a falta de visão de uma política que, pelo menos no que respeita a Moçambique, se limita a declarações de circunstância e teima em tratar a nossa história comum a pontapé.

Inebriado por uma recente paixão europeia, Portugal insiste em virar costas ao mar – esquecendo que, ao fazê-lo, vira costas a si próprio. Submete-se cegamente às regras de Schengen – e finge que não tem responsabilidades para com aqueles com quem partilhamos tanto.

“É triste. Triste não saber o que responder a tantos moçambicanos que procuram uma oportunidade, um pretexto, para trabalhar sobre a lingua comum, para manter laços e criar novas cumplicidades. Que acabam, irremediavelmente, por ir bater a porta de outros países da UE mais avisados e atentos.

Há algum tempo tive oportunidade de, comemorando o Dia de Portugal em Maputo, ouvir o discurso de um responsável do nosso Governo. Estávamos alguns portugueses, mas a maioria dos presentes na embaixada eram altas figuras do Estado e da sociedade moçambicana.

Falou o governante da história que nos liga, do futuro que nos aguarda, de objectivos comuns aos dois povos (que chamamos “irmaos”), de cultura, da lingua portuguesa, de Camões, cujo dia se comemorava? Nada disso. Discorreu aborrecidamente sobre coisas bem mais importantes: o Cristiano Ronaldo e as exportações de cortiça portuguesa.

O meu pasmo só foi ultrapassado pelo dos colegas moçambicanos, que aventavam a hipótese de alguém lhe ter trocado os dossiês no avião …

Dir-me-ão que não é bem assim. Que bem vistas as coisas, bem somados os números, Portugal é um dos principais investidores externos em Moçambique.

Mas será o aprofundamento da lusofonia uma questão comparável às contas da mercearia?

Em Moçambique o salário mínimo ronda os 2700 meticais (56 euros).

Uma visita rápida às livrarias de Maputo revela que é quase impossível encontrar um clássico da literatura portuguesa a menos de 1000 meticais (21 euros).

Ou seja, há dezenas de milhares de jovens que estudam no ensino médio e na faculdade de letras a língua comum e a quem os pais nunca poderão comprar um livro.

Nao valeria a pena trocar meia dúzia de quilómetros de alcatrão por um apoio à divulgação e edição dos escritores- moçambicanos ou portugueses – que moldam a nossa lingua?

Onde é que se refugiam os escritores, os pintores, os criadores, os artistas e intelectuais mocambicanos?

Será no Instituto Camões que encontram abrigo e incentivo? Não é! Antes se reúnem e discutem no dinâmico e atento Instituto Franco-Moçambicano, A França não se socorre da desculpa de ser um doador para se distrair da promoção dos seus interesses na área da cultura. Nem a Espanha o faz. Nem a Finlândia.

Quando me queixo disto aos responsáveis portugueses em Maputo, oiço invariavelmente a mesma resposta: “Não se aprende a língua de estômago vazio!”

Acho que a desculpa é pobrezinha – e tem como único resultado permitir que as futuras gerações de moçambicanos sintam maior afinidade cultural com os países nórdicos ou com a Espanha do que connosco. Talvez fosse bom lembrar aos políticos portugueses que amanhã serão estes jovens a decidir quem fará as estradas e construirá as pontes em Moçambique.

Declaração de interesses (coisa algo em voga no bloguismo português): há muito tempo trabalhei no acima pontapeado Centro Cultural Português. E também no acima louvado Centro Cultural Franco-Moçambicano.

Adenda: chamo a atenção para a caixa de comentários, em particular para as intervenções de JNW que calçam que nem uma luva ao teor do texto.

jpt


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A MAIOR DO MUNDO

Quarta-feira, Maio 26th, 2010

por ABM (26 de Maio de 2010)

Há uns tempos um embaixador português que está a dois passos de se reformar (presumo que com uma daquelas reformas milionárias sobre as quais anda tudo aos gritos) deu uma entrevista num dos jornais de Lisboa, em que às tantas ele conta em detalhe como ele em 1975 se meteu num avião para a capital moçambicana com umas malas cheias de dinheiro e, de entre uma série de desventuras, comprou aquele edifício no cruzamento da Avenida Eduardo Mondlane com a Avenida Julius Nyerere, em Maputo, para ali alojar a futura embaixada portuguesa – que, referiu, até esta data será a maior representação diplomática portuguesa em qualquer parte do mundo.

Mas ser a maior não quer dizer nada. Aparentemente, de dentro daquela torre, nos primeiros quinze anos da independência, os diplomatas portugueses assistiram silenciosos, impassíveis e impotentes perante os efeitos absolutamente demolidores do percurso pós-independência sobre os cidadãos os quais também fazia parte da sua job description defender. Não que pudessem fazer muito. pelos vistos. Até quando Raposo Pereira, um dos brancos de serviço do regime, instituiu e popularizou o 24/20 (recordou-me ontem Álvaro Mateus), mais uma das pequenas infâmias contra os poucos portugueses que tiveram a audácia de querer ficar em Moçambique, a reacção ali na embaixada foi notoriamente omissa e ineficaz. Quando por exemplo, cerca de 1981 o meu irmão mais velho, Mesquita, que vivia em Maputo, foi preso em Maputo e acusado de ser nada menos do que um espião da CIA (uma total fabricação) e o pai BM, que por acaso estava de férias na cidade, telefonou de madrugada à embaixada, o embaixador português comunicou que não tratava daqueles assuntos àquela hora. Mais tarde, quando se dirigiu à sua embaixada para requerer assistência, o filho da puta do embaixador português não quis, e não o recebeu. Eu, que na altura estudava numa universidade nos Estados Unidos, nem queria acreditar no que estava a ouvir.

O edifício ser grande não quer dizer que seja bonito ou bom. Aquilo é uma estranha estrutura do princípio dos anos setenta e pessoalmente acho aquela mistura de escritórios e apartamentos uma aberração, um bunker pouco seguro, numa altura em que esse tipo de configuração já não se usa em lado nenhum. Com os balúrdios que se reputa o Sr. Sócrates anda a enviar naquela direcção estes dias, alguém devia comprar dois ou três hectares, como fazem a IURD ou os americanos e, com uma Teixeira Duarte, fazer uma coisa monumental, bonita, digna e funcional, para suportar a supostamente relação especial entre Portugal e Moçambique. Nesse caso, transformaria o mastodonte num centro cultural e de negócios, unicamente.

Até porque os diplomatas portugueses, que, lentamente, evoluíram para qualquer coisa mais útil (a actual cônsul portuguesa em Maputo é de cinco estrelas, por exemplo, e trabalha noutro edifício ainda mais caricato que o da embaixada) merecem e precisam de melhores condições e dinheiro para trabalhar.

Para se fazerem omeletes, são precisos ovos.


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NÓ GÓRDIO

Quinta-feira, Maio 20th, 2010

por ABM (20 de Maio de 2010)

Segundo a Wikipédia em língua portuguesa, o jornalista Joaquim Furtado terá três qualificativos, para além de uma carreira que desconheço na genial e obscenamente dispendiosa cadeia de media dos contribuintes portugueses, a RTP: estava na estação de rádio do Rádio Clube Português na noite de 24 para 25 de Abril, é pai da personalidade televisiva Catarina Furtado, e é autor de uma série documental sobre “a guerra”, que aqui significa a guerra colonial que decorreu entre 1961 e 1974 , a partir de Setembro de 1964 em Moçambique.

Esta noite, no prime time televisivo português, a RTP brindou a sua audiência com a sua mais recente produção, Nó Górdio. Este foi o nome dado na altura a uma complexa operação militar que teria por fim acabar, descobri hoje, com o controlo da região norte de Cabo Delgado pela Frente de Libertação de Moçambique.

A tal operação militar decorreu entre Junho e Julho de 1970 e se o exmo. Leitor for como eu, que tenho uns aparentemente saudáveis 50 anos de idade, naquela altura precisa jogava ao berlinde, ouvia discos de 45 rotações dos Beatles em Lourenço Marques e não sabia que havia uma guerra a não ser a do Vietname (essa ao menos vinha no Notícias e no Diário). Por isso, especialmente no caso dos mais moçambicanófilos e menos militarmente inclinados, importa tentar compreender melhor o que foi isso do Nó Górdio.

E, nesse sentido, independentemente de eventuais críticas para além do que o documentário ventila, Joaquim Furtado merece uma medalha, pois finalmente percebi em maior detalhe o que foi aquilo tudo, com a vantagem de, 40 anos após encerradas as hostilidades e estreadas as boas relações do pós-toma-lá-Cahora-Bassa, poder-se calmamente filmar os protagonistas do confronto a falar mais ou menos sem grandes papas na língua sobre como foi.

Devo dizer em abono da verdade que algumas das convicções que eu tinha sobre a operação mantiveram-se absolutamente inalteradas. Nomeadamente, que o dinheiro gasto ali tinha sido muito mais bem gasto noutro tipo de guerra, mais próximo daquilo que os rodesianos e os sul-africanos fizeram mais tarde. Essa de um exército formal chefiado por um centurião querer fazer guerra com uma guerrilha sem matar as populações é de gritos. Mas compreendo que os objectivos estratégicos eram diferentes. Os boers sul-africanos jogaram pelo tempo, ou seja por aguentarem até o bloco comunista se desfazer, e não se importaram de aterrorizar e matar populações inteiras. E, mais uma vez operavam como uma guerrilha contra um exército convencional. Os portugueses parece que tentaram ir metendo os dedos nos buracos porosos dessas (para eles) paredes que eram as fronteiras ao Norte. E basicamente ignoraram a necessidade de lidar adultamente com o facto de que a independência estaria para vir, com ou sem Frelimo. O que, como se sabe, era impossível dados os estados de espírito prevalecentes na altura.

Enfim, já passou.

No documentário, para minha surpresa, as críticas a Kaúlza de Arriaga foram de uma generosidade enorme, vindas de ambos os lados. No fim a coisa correu mal pois afinal, logo se percebe, não era preciso um Nó Górdio: eram precisos dois ou três. Mas Portugal não tinha dinheiro para isso e os russos e os chineses estavam empenhados em não perder face. Cabo Delgado foi tomado e a guerra passou para Tete e mais tarde para pontos ao Sul.

Independentemente do que eu pense sobre o assunto, acho que os testemunhos recolhidos e editados por Joaquim Furtado e a sua equipa são agora leitura obrigatória para quem quiser saber mais sobre este capítulo da história dos dois países. O que quer que seja que a RTP pagou pelo projecto de Furtado, para variar, foi dinheiro bem gasto.

Em baixo, alguns dos entrevistados.


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O Novo “Sítio” de Pancho Guedes no Seu 85º Aniversário

Quinta-feira, Maio 13th, 2010

Hoje no Consulado de Portugal aconteceu a comemoração em Maputo do 85º aniversário de Pancho Guedes. Lançamento do guia “112 Edifícios de Pancho Guedes em Maputo. Lista e Localização“, um roteiro produzido e oferecido pelo consulado, que contém mapa e identificação nominal, com respectivo endereço, da obra do arquitecto nesta cidade. Uma publicação inestimável. Em seu complemento foi lançado um concurso fotográfico dedicado aos trabalhos de Pancho Guedes – o qual para além do fazer reviver os edifícios, de os dar a conhecer, de combater o esquecimento destrutivo a que muitos estão votados, é também forma de procurar a identificação de alguns outros que ainda não estão inventariados neste assumidamente “trabalho em progresso”.

Mas mais, foi ainda apresentado o sítio Pancho Guedes [também ainda em progresso mas já funcional], uma forma de a todos dar a (re)conhecer esse marco da arquitectura no país.

Mais uma vez, e tal como foi aventado aquando da recente visita do arquitecto a Maputo, foi referida a hipótese não só de uma homenagem académica mas também a criação de um local físico dedicado ao seu trabalho e personalidade, uma “casa de Pancho Guedes” – e para isso muito será necessária a intervenção do Estado moçambicano, bem como de instituições privadas, seduzíveis para tal objectivo. Penso que seria muito interessante a sua articulação com instituições portuguesas – e muito obviamente do instituto de acção cultural externa nacional, o Instituto Camões cuja colaboração me parecerá com todo o cabimento (palavra que também tem, como é sabido, uma dimensão semântica explicitamente orçamental).

É imprescindível sublinhar que o ânimo de toda esta actividade em torno da obra de Miranda Guedes tem sido a cônsul portuguesa em Maputo, Graça Gonçalves Pereira. Ao longo dos anos aqui no ma-schamba tenho sido muito parco em elogios pessoais. E ainda bem, pude assim guardar a quantidade disponível para lhos atribuir, até em regime de monopólio. Devidos por esta actividade de diplomacia cultural em torno de Pancho Miranda Guedes mas também por múltiplas outras actividades, públicas e administrativas. É uma personalidade fantástica e, por isso mesmo, uma excepcional diplomata. Pelo seu dinamismo e competência cativou a “comunidade” portuguesa (ou seja, os portugueses residentes) e os seus interlocutores nacionais. A gente está a gostar. Muito. Que se registe isso.

jpt


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A VISITA PRESIDENCIAL

Sábado, Maio 1st, 2010

por ABM (1 de Maio de 2010)

No meio da confusão, da crise despoletada pelo anúncio da empresa de análise de risco Standard & Poors quanto à descida do nível de risco da dívida portuguesa, e das audições na televisão do processo da TVI, a visita de dois dias do presidente de Moçambique e de uma comitiva de setenta personalidades a Portugal praticamente passou despercebida. Umas linhas aqui e ali e mais nada.

O que é curioso, dado que, supostamente, o relacionamento institucional entre os dois estados é supostamente melhor que bom, já que teoricamente, depois de três décadas e meia, estarão sanados os grandes diferendos.

De entre o que foi feito, assinalo apenas um evento que achei interessante, que foi o assinar de um protocolo (a implementar) em que os cidadãos portugueses que trabalham em Moçambique irão passar a poder transferir os créditos pelos descontos feitos para a segurança social moçambicana, para a a segurança social portuguesa. E vice-versa.

PS – A Travessa da RPM, cuja tabuleta se exibe, fica situada em Mem-Martins, a caminho de Sintra. É espúria, mas o que conta é a intenção.


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UM AR DA SUA GRAÇA

Domingo, Abril 18th, 2010

por ABM (18 de Abril de 2010)

Graça Machel deu uma curta entrevista em Joanesburgo e que foi publicada ontem no jornal britânico Mail & Guardian.

A curta entrevista, sobre o papel dos britânicos em África e nomeadamente em relação aos últimos anos no Zimbábué, é interessante quer pelo seu tom, quer por alguns dos comentários feitos avulsamente. Deliciosamente concluída com um comentário por Eddie Cross, um parlamentar zimbabueano do MDC, que parece concluir que, por piores que os britânicos sejam e tenham sido, que nada poderia ser tão mau como o colonialismo português. Para isso, refere que Samora Machel terá dito que, no que toca aos colonialistas, os britânicos foram de longe os melhores.

Donde se pode concluir que há bons e maus colonialistas. Os leitores britânicos devem-se ter babado com esta. Ah, rule Brittania, eles é que sabiam fazer as coisas.

Interessante para o exmo leitor que lê inglês, é ver os comentários feitos pelos leitores no fim da peça.

Graça é provavelmente a mulher mais rica de Moçambique e neste momento patriarca da dinastia Machel, apesar de ser simultaneamente a terceira mulher do grande Nelson, o que lhe confere um estatuto à parte.

A entrevista:

One of Africa’s most eminent political figures has condemned Britain for taking a patronising “big brother” attitude to its former colonies.

Graça Machel, a founder member of the Elders group of world leaders and the wife of former SA president Nelson Mandela, warned British politicians to “keep quiet” about countries such as Zimbabwe and let African diplomacy take its course.

Machel (64) is a former first lady of Mozambique, where she served as education minister, and has won numerous international awards for her advocacy of women’s and children’s rights.

In an interview with the Guardian in Johannesburg, she indicated that the crisis in Zimbabwe has revealed the shortcomings of a persistent imperialist mindset.

“Can I be a little bit provocative?” Machel said. “I think this should be an opportunity for Britain to re-examine its relationship with its colonies. To acknowledge that with independence those nations will want to have a relationship with Britain which is of shoulder to shoulder, and they will not expect Britain to continue to be the big brother.

“When a nation is independent, there is no big brother. They are partners. Part of the reason why Britain finds it difficult to accept Zimbabwe is precisely because that relationship of a big brother is influencing [efforts] to try to understand.”

Britain, along with the European Union and United States, has imposed travel restrictions and asset freezes on Zimbabwe President Robert Mugabe and his political and business allies. It has defied calls from South Africa to end these measures for the sake of the power sharing agreement between Mugabe’s Zanu-PF and the Movement for Democratic Change (MDC).

Earlier this year Foreign Secretary David Miliband said the UK would be “guided by what the MDC says to us about the conditions under which it is working and leading the country”. Critics said this handed Zanu-PF a propaganda coup, allowing it to portray the MDC as a puppet of Britain and blame it for sanctions.

Machel added: “I’m not saying things are OK, they’re all fine in Zimbabwe. I’m saying a different kind of dialogue, a different kind of bridge to try to understand the other side could have produced a different result from what it is.

“The more the British shout, the worse the situation will be in terms of relationship with Zimbabwe. That’s why sometimes I really question, when something happens in Zimbabwe and Britain shouts immediately. Can’t they just keep quiet? Sometimes you need just to keep quiet. Let them do their own things, let SADC [Southern African Development Community] deal with them, but keep quiet, because the more you shout, the worse [it is].”

Expectations
Asked if Britain’s attitude is patronising to its former colonies, Machel replied: “I’m afraid so. And what I’m saying is they have expectations which do not always coincide with what are the aspirations and expectations of those who are their former colony.

“When you change the relationship, you just have to give yourself to take the humility to stop and listen. And when you listen, then you take into account the other side. You put your case, then you take the other side. In a way, you harmonise interests of both sides.”

Zimbabwe will mark 30 years of independence this weekend. Britain remains politically and economically influential and denies Mugabe’s claim that it reneged on promises to fund the redistribution of land to the black majority.

Mugabe’s response, the chaotic seizure of white-owned farms, has been blamed for the collapse of Zimbabwean agriculture.

‘There’s more to Africa than Zimbabwe’
Machel, whose first husband was the late Mozambique president Samora Machel, called on Britain to take a broader view of the African continent. “That’s one of the issues, particularly with the British people: because of the emotional attachment they have with Zimbabwe, in many cases they define the continent in terms of Zimbabwe. Zimbabwe is one country among 53 countries, so you have all the rest of 52 countries. Well, let us put aside Somalia also, which is a failed state. But you have 50 countries who are running a relatively normal situation in the continent.

“I would like to raise with you the issue that yes, Zimbabwe has failed, and it is hurting British people directly, but there’s much, much more to Africa than Zimbabwe.”

Machel, who became Mandela’s third wife in 1998, also accused developed countries of double standards on CO2 emissions and climate change.

“This has been very clearly stated at the negotiations to Copenhagen. They know — the developing world, including China — that Africa has very small responsibility in the impact of climate change, but Africa is the one paying the highest price.”

Britain’s intentions are still treated with scepticism in Zimbabwe, even among some members of the MDC. Eddie Cross, policy coordinator general of the MDC, said: “Perfidious Albion. I tell you, you Brits have a well-deserved reputation for perfidity in your colonial relations … I think Britain’s always been very sophisticated in its relations with its former colonies — it’s got more experience than any other state in the world — but it doesn’t necessarily make them right.

‘You would never choose to be colonised by the Portuguese’
“Britain’s role in the last 10 years has often been difficult for us in the MDC to interpret and read. Sometimes they’ve backed certain initiatives in Zimbabwe which have not been helpful in terms of pursuing a principled transfer of power and I think sometimes the Brits regard us as being rather naïve in the MDC and they have a rather jaundiced view of Africa and African politics.”

But Cross, an economist and MP, added that other European powers probably behaved worse: “Samora Machel once said to me: ‘If you were to choose to be colonised, you would never choose to be colonised by the Portuguese.’ The colonial record was pretty dismal. For the British it was probably the best.”


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HENRIQUE BANZE

Sexta-feira, Março 12th, 2010

por ABM (12 de Março de 2010)

Na altura da visita de José Sócrates a Maputo para firmar as relações com Moçambique e assinar uma resma de acordos, e de uma emissão especial ao vivo a partir de Maputo para o mundo via as cadeias da RTP (neste caso, visto no canal principal da RTP em Portugal continental), o actual vice-ministro dos Negócios Estrangeiros moçambicano, Henrique Banze, concedeu uma rara entrevista. Bem disposto, à vontade, sublimemente eloquente, o senhor vice-ministro mandou uma dose industrial de simpatia bem moçambicana, sem por um momento omitir o que de sério havia para dizer nesta ocasião. Em bom português, deu um baile.

Ao contrário do entrevistador, que bem se esforçou, mas que me pareceu um erro de casting.

A emissão foi feita a partir da velha estação de Caminhos de Ferro de Maputo, que este ano faz cem anos.

A RTP, essa celebrava os seus 53 anos.


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João Mosca sobre a Cooperação Portugal- Moçambique

Domingo, Fevereiro 14th, 2010

[João Mosca, Economicando, Maputo, Alcance Editores, 2009]

João Mosca é um dos mais significativos intelectuais moçambicanos, alguém que é sempre urgente ler. Este recente livro é uma colectânea de textos na sua maioria publicados no jornal Savana, aos quais junta alguns produzidos para encontros académicos. A sua arrumação indicia as temáticas abordadas: ensino superior, investigação, economia, agricultura e cooperação. O seu quadro de reflexão sobre o país, e que tão presente sempre surge nos seus textos, é anunciado na introdução:

A formação e a exercício da actividade académica … e a interdisciplinaridade apreendida, conduziram ao que se pode designar por “suicídio” da formação de base. Compreendi os debates no seio da área de conhecimento da economia e dos ataques de outras ciências aos economicismos tecnocráticos e à incapacidade da economia, como qualquer outra ciência, de interpretar, explicar e encontrar soluções para a complexidade das realidades no quadro dos limites rígidos do objecto de cada uma das ciências.

Procurei um “suicídio” difícil. No lugar de abandonar a economia e estudar outras ciências (…), preferi a via da crítica à economia para, a partir dela, incorporar conhecimentos de outras áreas na tentativa de uma formação interdisciplinar.” (7)

Acabo de comprar o livro, li apenas alguns textos e, ainda que de alguns outros tenha memória da sua publicação em jornal, não posso fazer mais do que aconselhar a sua leitura. Como português e como antigo cooperante encetei a leitura pelo texto “Cooperação Portugal-Moçambique. A estratégia de não ter estratégia?” – apresentado na III conferência internacional de Lisboa sobre “Europa e a Cooperação com África”, organizada pelo IEEI. Para quem tenha algum interesse nas questões da “cooperação” portuguesa com Moçambique, ou em geral, é um texto insubstituível. Uma apuradíssima análise das dimensões institucionais, políticas e ideais presentes nesta área de actividade do Estado português, e na própria sociedade – faltará, em meu entender, uma profundidade similar no olhar sobre as dinâmicas da interacção moçambicana neste campo, algo que será compreensível dado o texto ter sido apresentado num plenário em Portugal.

Repito, para quem se interesse pela actividade de “cooperação” é obrigatório ler este texto (pp. 152-157). Dele poderia aqui deixar algumas transcrições mas opto por uma, breve, que reflecte algo que ao longo dos anos tanto tem estado presente, até em demasia, no ma-schamba. Ideia que parece simples, pacífica, mas que na realidade real tanto é esquecida apesar de ser racionalmente cristalina:

A dimensão e capacidade financeira portuguesa e a perda de oportunidade de protagonismo em alguns assuntos importantes da história recente moçambicana, sugere que Lisboa necessita reanalisar a cooperação com Maputo, devendo fazê-lo sem pensar nas supostas vantagens culturais e históricas.” (p. 157)

jpt


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Os 68 Parabéns de Eusébio

Segunda-feira, Janeiro 25th, 2010

por ABM (Cascais, 25 de Janeiro de 2010)

O antigo jogador de futebol Eusébio completa hoje 68 anos de idade.

Aproveito assim para abordar brevemente esta figura do desporto português e moçambicano.

Ao contrário do clã BM, eu nunca liguei quase nada ao futebol, que em Moçambique antes da independência era uma total obsessão para muita gente. Fui a muitos jogos de futebol em Lourenço Marques, mas mais como castigo e para não causar distúrbios em casa aos fins de semana.

Olhando retrospectivamente, o futebol estabelecia uma das diferenças visíveis entre a África portuguesa e as colónias e ex-colónias inglesas, que rodeavam Moçambique, onde os desportos seguiam padrões raciais e culturais muito específicos. Na África do Sul, o futebol era, e ainda é, regra geral, um desporto predominantemente de e para os negros, enquanto que os brancos se cingiam quase exclusivamente ao râguebi e ao cricket e desprezavam o futebol como “desporto de preto”. Presumo que pouca gente então se apercebeu que o piropo também se dirigia aos portugueses, que aos olhos de muitos dos boers e dos sul-africanos brancos, eram uma raça “cafrealizada” – os kaffirs from the sea, como diziam alguns (touché).

Em Moçambique aquilo era mais um pagode, tudo ao molho e fé em Deus. Toda a gente ia e toda a gente vibrava com o futebol, independentemente das questões raciais, económicas e sociais que os analistas de hoje possam congeminar. Aos fins de semana muita gente ia ver o futebol e durante a semana falava-se do que tinha acontecido no fim de semana anterior. Os jogos eram transmitidos pelo rádio clube em simultâneo em português e em ronga. Nesse aspecto, fazia parte do ídílio africano de que falarei mais tarde e que pelos vistos se tornou desporto das classes literadas de hoje desafiar.

Se no esquema geral das coisas essa paixão partilhada entre brancos e negros na África portuguesa valia o que valia, ela existia e pelo menos baralhava um pouco as cartas em termos da dialéctica de então. Os portugueses do regime usavam-na para apontar credenciais não racistas ao mundo, enquanto que os restantes a desvalorizavam, apontando que praticamente não havia quaisquer moçambicanos negros em posições de poder e influência na nomenclatura nacional e colonial.

Mas, só para chatear – excepto no futebol.

Esta realidade foi a meu ver algo injusta em termos de verdadeiros talentos como Eusébio, Coluna e Hilário (por exemplo, mas há mais, como o Vicente, o Shéu, o Matateu, o Matine, o Abel) cujo valor deveria estar acima destas questões mas acabou, durante algum tempo, por ser questionado por temas que nada têm que ver com o facto de que eram atletas de invulgar talento.

As estrelas que Moçambique produziu foram muitas e brilharam. Outro dia ouvi um comentário que achei interessante e parcialmente correcto, não me lembro de quem, mas que dizia que a primeira “verdadeira” selecção de Moçambique foi a que Portugal levou ao Mundial de 1966 em Londres. Sem descurar os restantes jogadores, o talento moçambicano reunido naquela equipa era verdadeiramente excepcional.

E Eusébio, filho de um senhor branco e de uma senhora negra do Xipamanine (pois…) foi a estrela cadente desse conjunto de homens notáveis. Ao ponto de integrar, nas mentes do povão, com a tal de vidente Lúcia e a fadista Amália Rodrigues, uma espécie de santa trilogia do Portugal da segunda metade do salazarismo: Fátima, Fado e Futebol.

Ele era um deus em Moçambique quando eu era pequeno. Um dia, não sei bem por que razão, nos anos 60, ele visitou a casa onde os meus pais viviam na Polana. Não sei como, a palavra passou que ele estava lá, e em cinco minutos a casa estava rodeada de uma multidão a querer vê-lo e a pedir autógrafos. Diligente, eu passei o meu tempo a recolher livrinhos de autógrafos e levá-los ao Eusébio enquanto ele estava calmamente sentado a falar com o pai BM – e ia assinando os livrinhos.

Como um simbolo inescapável de Portugal, difícil foi, e tem sido, a reconciliação com o regime moçambicano, que, antes e depois da independência, nunca o viu como seu, e que nunca aceitou o portuguesismo de Eusébio – apesar de ele ser logicamente também tão moçambicano como qualquer outro, produto genuíno do Xipamanine e da Mafalala dos anos 50 do século passado.

Também não ajudou o facto de que, ao se nacionalizarem os bens imóveis em 1976, incluíram-se os investimentos que quer Coluna quer Eusébio tinham feito na sua terra. Na base da ideologia e de que não podiam abrir excepções, deixaram-nos mais pobres e mais ressabiados. Coluna, que regressou a Moçambique independente e refez lá a sua vida, ficou quase na miséria. Mas isso é história que dava panos para mangas.

Independentemente de todas essas questões, acho que a História já colocou Eusébio no seu lugar devido: o de ter ele sido um dos maiores talentos do futebol que o mundo jamais viu.

Um talento moçambicano.

E, também por isso, lhe dou hoje, e a nós também, os parabéns.


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Lizzie Had a Dog in LM

Sábado, Janeiro 16th, 2010

Lizzie & Bóbbi

por ABM (Cascais, 16 de Janeiro de 2010)

A lógica da breve discussão prévia o impunha e uns meros 15 euros o resolveram.

Disfarçado de dono de um veleiro de passagem por Cascais, e após breve e inócua aventura na Livraria Bulhosa no Cascais Villa, peregrinei até à quiçá mais próspera e dotada FNAC do Cascais Shopping, com a Dulce Gouveia a reboque, para comprar a grande obra recente da Escritora de origem moçambicana, publicada pela Editora sediada em Coimbra.

Mas na secção dos livros dou logo de caras com o José Rodrigues dos Santos no corredor, que é máfia moçambicana do melhor e estes dias uma espécie de versão lusa do Dan Brown. Com ele não há cá memórias para ninguém. Antes que ele pensasse que eu ia ao livro dele sobre a Al-Khaeda, que se encontra à venda em todas (mas todas) as livrarias, grandes superfícies, aeroportos e até por baixo de vãos de escada, escapuli-me pelo café da loja para o outro lado e fui ter com uma daquelas meninas simpáticas da FNAC que usam um coletezinho verde e nos ajudam a encontrar os livros.

“Olá, boa tarde. Procuro o novo best seller daquela escritora nascida em Moçambique Isabela Figueiredo e não encontro”.

“Só um momento, sefachavor”.

Clic clic clic clic no computador.

“Sim, devemos ter ainda uma cópia na loja, deixe-me ir ver”.

E desapareceu.

15 minutos à espera.

Após o que a menina surgiu do nada com um livrinho pequenino na mão.

“Quanto é?”

“15 euros”.

“15 euros! Bolas. Deixe-me cá ver”.

E peguei no volume. E inspeccionei-o.

Preliminarmente.

Na verdade o livro é algo estranho.

A seguir à capa e a contra-capa, tem quatro folhas verde-alface sem nada, duas de cada lado, que deve ser para o leitor precavido tomar apontamentos. No fim, a seguir à folha verde-alface, diz uma nota que foi composto numa empresa gráfica na bela Vila Nova de Famalicão, “34 anos após o regresso da autora a Portugal”. Ok. Suponho que uma anotação válida para quem ao chegar ao fim do livro ainda não se tiver apercebido desse facto da vida da autora, ou que não saiba fazer contas de subtraír (pois 2009-34 = 1975) infelizmente um provável infortúnio com o estado da educação nos dias que correm.

Só que na pala interior da capa tem mais uma foto simpática da Isabela, esta circa 2009 e sans Bóbbi, e mais uma notinha a dizer que ela nasceu em Lourenço Marques em 1963, que em 1975 veio para Portugal, e que nunca mais voltou.

Espera aí: se aqui diz que ela nasceu lá, que veio para cá e que nunca mais voltou, porque é que no fim do livro diz que ela regressou a Portugal?

É um mistério. Assumo que deve fazer parte da complexa e mística dialética subjacente aos conteúdos ali abordados. Ora veja-se.

Ela nasce e cresce em Moçambique.

Mas ao viajar para Portugal em 1975, regressa.

Ora isto é para mim uma alegoria fantástica.

Tem umas fotografias: na capa (a foto ali no topo) a Isabela avec Bóbbi. Depois duas piquininas de Lourenço Marques nos tempos e que mal se conseguem ver, e a seguir vêm: a Isabela a segurar o rádio de papá debaixo de uma papaeira, a Isabela vestida de saloia portuguesa num barco, a Isabela a fazer pose num parque, a Isabela na marginal de Lourenço Marques e a Isabela na comunhão.

Na página 7, presume-se que para dar o tom do que está para vir, três citações, uma de Paulo Auster a falar do pai (o do Paulo Aster), e duas do italiano Primo Levi, a mastigar a presumível fungibilidade da Memória Humana. Bem, ou pelo menos a dele.

E, presume-se, por osmose subliminar associativa, a da Isabela.

A menção do americano Paulo Auster confunde-me e levanta-me imediatas suspeitas quanto à proeminência fotográfica do Bóbbi. Pois na sua Timbuktu, não a africana mas uma mitológica e utópica urbe, são as memórias do rafeiro Mr. Bones que descascam, numa odisseia tão deprimente como cativante, a existência de Willy Christmas, um homem infeliz e falhado, que morre à porta da casa onde o seu ídolo, Edgar Allan Poe, vivera. Será isso? O que acha, quais as memórias de Bóbbi da sua dona e da Lourenço Marques que a viu nascer e crescer? será que Bóbbi também regressou?

Primo Levi suscitou-me ainda maior supresa. Pois a sua escrita, sendo judeu e tendo passado pelos maiores horrores da carnificina Nazi, incluindo quase um ano em Auschwitz-Birkenau, é mais conhecida pelo conteúdo memorialista desse período – memórias que o perseguiram até à morte. Em 1987, o grande Elie Wiesel, que era professor na Universidade de Boston, onde estudei gestão e um pouco sobre o judaísmo nessa altura e durante dois anos, e ele próprio um sobrevivente do horror Nazi, disse que, quando morreu – e referindo-se às suas peristentes e pungentes memórias – Levi na verdade morrera em Auschwitz mas quarenta anos depois.

Que associações poderá haver entre a obra e o percurso de Primo Levi e este livro de Isabela? A curiosidade avoluma-se dentro de mim.

Procurei, e descubro que o livro não tem índice. Tem, isso sim, em 136 páginas (as que estão numeradas), textos sequenciados, de 1 a 43. Sem títulos. Só os números.

E na verdade, aí me apercebi, afinal aquilo não é só um livro (daí, decorrem, presume-se, os 15 euros).

Logo a seguir ao texto Número 43, depois de uma folha com umas das fotos piquininas de Lourenço Marques que não se vê bem, tem outra onde apenas figura, a meio, a singela e solitária frase, que se presume dedicatória: “À memória do meu pai”.

Repare-se no detalhe: não é em memória do pai. É à memória do pai.

Hum.

E a seguir tem uma página que diz, na vertical, com o texto a apontar na direcção da lomba do livro, em letras garrafais “Adenda” onde, aí sim- surpresa!- tem um índice, mas um indicando o que vem a seguir (aos textos numerados de 1 a 43): seis textos descritos como posts, incluindo o intrigantemente títulado Falta dinamitar o Cristo-Rei e logo abaixo o assaz mais invocativo de assunto gastronómico, Fígado de Porco; e,  finalmente,  Uma conversa com Isabela, que inclui, um pouco como nas (brevemente findas) conversas do Professor Marcello na RTP aos domingos à noite, e à margem das doze páginas do texto da entrevista propriamente dita (feita por não se sabe quem) as sugestões dela de dez livros, cinco datas e cinco lugares.

Portanto, isto é o que se pode chamar um pacote completo.

Que agora é meu.

Por, afinal, uns modestos 15 euros.

E que, feito o investimento e aguçada a curiosidade, vou ler este fim de semana, de fio a pavio.

E de que logo darei conta aos exmos leitores, após reler também a prosa canciana et al.

Para tirarmos esta coisa a limpo de uma vez por todas.

Um bom fim de semana a todos.


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The Best of Maschamba

Domingo, Janeiro 10th, 2010

o horizonte nos contempla

por ABM (Alcoentre, 9 de Janeiro de 2010)

Fernanda Câncio, a putativa (segundo certa imprensa) namorada do actual primeiro-ministro português, José Sócrates, e fogosa escriba num Diário de Notícias infelizmente cada vez menos de referência, escreveu um curioso texto – que saiu na sua edição de hoje – sobre uma sra chamada Isabela, que, depreendo da leitura, como muitos de nós saiu um pouco a pontapé do Moçambique pós- independente e revolucionário aos 12 anos de idade, e sobre um livrinho que ela escreveu e que acabou de ser publicado, que dá pelo nome algo enigmático de Caderno de Memórias Coloniais.

Que não li.

Mas li o comentário de Câncio, que sempre vale alguma coisa e que me deixou algo mistificado.

Vamos por partes.

Deixou-me algo mistificado porque a Fernanda que, como já vi outras pessoas dizer noutras ocasiões, deve perceber tanto da realidade colonial como eu de física nuclear, começa por colocar legiões de “retornados” num vasto manicómio virtual, todos mentirosos e todos vivendo numa ilusão colectivamente induzida com o fito de não enfrentar uma inconfessável série de “crimes contra a Humanidade”, que, lá vai o argumento, só pode ser o que (no meu caso) os nossos pais e avós andaram todos lá pelas Áfricas durante séculos a cometer contra os nativos. Voluntária e até empenhadamente e, no caso do pai da Isabela, com requintes de malvadez.

Isso a acrescentar àquela outra Grande Ilusão Colectiva dos brancos e portugueses da África portuguesa (nunca os de cá, coitados) claro, a de que aquilo era “nosso”. Que se sabia perfeitamente que não era, especialmente a posteriori.

Bem, todos – especifique-se – menos a sua amiga Isabela.

No seu caso, Fernanda diz que a Isabela baseou os Cadernos nos seus escritos, alguns dos quais foi colocando num blogue de que nunca ouvi falar antes na minha vida, que alimenta regularmente e que se chama – algo deceptivamente – Mundo Perfeito. Bem, não pode ser assim tão perfeito como isso, se a imagem de cabeçalho que a Isabela escolheu para a porta do seu blogue é um corpo de mulher de cuecas e com cabeça de cão, sentada numa estufa com flores. É uma invocação que diz muito. Para mim uma alegoria de um mundo perfeito ( aquilo a que Sir Thomas More chamou em tempos de Utopia )podia ser a fotografia acima – mais ou menos. E ainda tem à porta da estufa retinintes e polidos avisos sobre os seus direitos de autora, que, na minha experiência na internet, são ah tão simpáticos como não valem um caracol furado. Neste meio a ofensa não se combate com avisos, combate-se com unhas e dentes.

Ou ignora-se.

Ora eis algo que não me ocorrera antes, isto de ter um blogue na internet, onde vou escrevinhando umas coisinhas e um belo dia, imagino que para aqueles que não têm internet, arranjo uma editora e escarrapacho tudo outra vez numa publicação, à laia de The Best of Maschamba. Bem, sempre tira a impressão fungível e a desconfortável sensação de estar sózinho num submarino e que as palavras que aqui escrevemos em suporte incompreensivelmente electrónico, pareçam um pouco menos aquilo que os americanos chamam pissing in the wind (no nosso vernacular, fazer chichi ao vento). Tenho que falar com o nosso Senador e a Sra Baronesa em reunião de Conselho de Machamba, mas receio que, numa futura edição do Caderno de Memórias Maschambianas, eu seja sumariamente relegado para uma recôndita nota de rodapé.

E lá se iria a etérea sensação da imortalidade literária.

Mas podia oferecer cópias dos livrinhos pelo Natal, o que com um blogue, admita-se, não se pode fazer.

A mistificação do comentário publicado no DN sobre a Isabela tem que ver com a evocação de um passado moçambicano que mais parece uma longa e pesada sessão de terapia duma branca com sentimentos negativos sobre a sua experiência africana e, quiçá, sobre o seu estatuto de retornada num Portugal revolucionário e recém-exorcizado da sua experiência colonial-bélica. Pelo meio, vagueiam ideias da injustiça daquilo tudo, o trauma do (presumo) rescaldo do 7 de Setembro de 1974 e ainda o fantasma do pai, que, recita, chamava coisas feias aos colonizados com pele mais escura e que, num contexto em que – creio – ninguém tinha “direitos”, tinham ainda menos que os colonizados mais clarinhos. A Fernanda, cuja experiência africana (e muito menos moçambicana) repito, desconheço por completo, arremata, no que presumo possa apenas ser uma infeliz exaltação literária, dizendo que vivia-se (em Moçambique) num país onde se podia atropelar um negro e não ir para a prisão. Pois. E esqueceu-se de referir que comíamos meninos pequenos para o matabicho.

Decorre que com a independência tudo isso acabou. E que com os assassínios de brancos por representantes armados da maioria negra nos arredores de Lourenço Marques em 1974 fez-se, apenas, justiça. Ai sim Fernanda? hum, sorte, então eu ter sobrevivido aquela pouca vergonha toda, e não graças à sua boa vontade.

Há aqui dois aspectos que me induzem a pensar que talvez este tipo de intro-retrospecção tenha que ser trabalhado um bocadinho mais.

O primeiro aspecto é que, segundo a Fernanda, cuja retórica para estes efeitos, aceite-se, é mais ou menos irrelevante, a Isabela saíu de Lourenço Marques em 1975 com 12 anos de idade. Se calhar viajámos os dois no mesmo avião da TAP em alturas diferentes, só que eu tinha 15 anos de idade, diferença que importa para efeitos desta discussão. Pelo menos eu já não era virgem, naquele e em muitos outros aspectos da vida.

Ora, para alguém que saíu de Lourenço Marques em 1975 com 12 anos de idade, a análise global da situação que a Fernanda diz que a Isabela faz, a crer-se biográfica e despida de preconceitos e análises que só possam ter sido posteriormente adquiridos, devem ser deveras de assombrar, vindos de uma miúda. A minha irmã mais nova, que tinha a mesma idade e teve o mesmíssimo percurso que a Isabela, mal sabia jogar ao berlinde. E lá em casa ainda estamos à espera dos seus cadernos.

Mas admita-se que pode ser que seja a nua verdade no seu caso pessoal, em que a forma como pinta o pai assusta mais que o papão colonial-racista. O que refere dava para horas e horas (e horas e horas) de sessões de psicoterapia.

Mas não logra por um segundo pintar uma realidade maior.

O segundo aspecto é que, por minha parte – e já o tentei explicar uma vez ao JPT e sob pena de me repetir – ao contrário de alguns eu vivi lá, e no meu microcosmo o pai BM e a quase totalidade das pessoas com quem contactava, não chamava nomes a ninguém, branco ou preto, eu não era inibido de me dar com ninguém com base na cor da pele e, se não disputo (mas não desta maneira) a sustentabilidade do tal “ídilio colonial” de Lourenço Marques que a Fernanda diz que não existia (existia, sim, que chatice), pintar essa era e todas as vastas e complexíssimas relações pessoais, económicas, sociais e raciais de Moçambique no fim da era colonial em Lourenço Marques com um simples rótulo de “racismo” e “abuso” é totalmente descabido. É falso. É absurdo. É ridículo. É uma fraude moral, intelectual e histórica. É projectar os seus preconceitos actuais, ignorar as suas causas e tentar justificar moralmente os seus efeitos e a pulhice que veio a seguir, e em que de longe as maiores vítimas – surpresa – foram sempre, e quase só, milhões de moçambicanos, que de uma ditadura passaram directamente para outra, não muito diferente.

Especialmente se se está a falar no começo dos anos 70, em Lourenço Marques.

Claro que lá havia racismo. Claro que havia injustiça, incluindo a racial. Claro que tinha que acabar. Que tinha que mudar. Claro que havia gente como o pai da Isabela. Se calhar até pior. Claro que aquilo era uma ditadura, com tentáculos em Portugal, um anacromismo total num mundo já quase sem impérios coloniais e em que os países comunistas activamente armavam e patrocinavam os que combatiam o que sobrava de colonialismo no mundo. Ser colonial a partir de 1950 tinha o seu custo em lágrimas, suor e sangue. Salazar estava disposto a pagá-lo, outros não. Em 1974, venceram estes.

Mas cuidado ao pintar tudo de negro. O pior racismo que vi na minha vida não foi em Moçambique, foi nos Estados Unidos quando para lá fui viver em 1977. Portugal hoje não é muito melhor. Quotidianamente vejo as maiores injustiças serem cometidas em Portugal hoje que não se distinguem assim tanto das injustiças que haviam em Lourenço Marques e que há em toda a parte. As injustiças económicas que se observavam há quarenta anos em Moçambique, aliás, ainda se mantêm em larga parte. Pois não é de um dia para o outro que se capacitam milhões de pessoas pobres, rurais e analfabetas que vivem de subsistência no mato e se lhes proporciona, e aos seus filhos, condições para ascensão social e económica.

O crime, se é que se pode dizer assim, não era do que a Isabela diz que vislumbrou aos dez anos de idade e muito menos dos tiques racistas do seu partido pai, que não conheci. É de um país que estava na mão de um ditador que escolheu manter um statu quo décadas depois da altura em que deveria ter iniciado medidas para atempadamente preparar e entregar o poder político e a gestão da nação moçambicana aos seus filhos, descomplexadamente e de cabeça erguida.

Provavelmente quer eu quer a Isabela teríamos lá ficado, a viver em paz e sossego e estaríamos a ajudar a construir esse novo país, em vez de andarmos à esmola de familiares hostis e dependentes de amizades que se calhar nunca o foram, olhando no espelho à noite e inventando na mente que aqui pertencíamos.

E a ter que tentar engolir de terceiros a tese de conspiração de que o que ali porventura encontrámos de bom e belo – e que hoje é apenas uma memória, só isso – não foi, não podia ser, que estamos a mentir aos outros e, pior, a nós próprios.

Vão à merda.

Dito isto tudo, acho que um dia destes lá vou ter que ir procurar o tal de livro para ver mesmo do que é que a Isabela está a falar.

Ou talvez não.

Quanto ao blogue, para já fico à porta.


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No Olho do Furacão

Sábado, Dezembro 5th, 2009

zim dollars

por ABM (Cascais, 5 de Dezembro de 2009)

Se há coisa que aprendi na vida é que a vida está sempre pronta para nos ensinar coisas novas. Cabe-nos ter valores fundamentais para que possamos gerir o presente e tentar antecipar algum futuro.

Na área do nosso dinheiro, esta é uma altura de aprender e de analisar esses valores fundamentais. Pois as opções que tomarmos agora e nos próximos tempos poderão ser críticas.

Se se analisarem alguns dos elementos económicos que nos afectam para além do emprego e ou negócio em que estivermos envolvidos – e cinjo-me a Portugal e Moçambique, essencialmente – os indicadores permanecem algo preocupantes.

Moçambique

Em Moçambique, há a relativa boa notícia de que a inflação média baixou para níveis históricos – 1.4% nos dez meses que terminaram em Outubro. Mas o défice da balança, o corte no investimento e fontes de financiamento externos podem vir a dar problemas e a desvalorização já observada na cotação do Metical auguram dias de renovada inflação. Pois – e o governo moçambicano é o primeiro a dizê-lo e muito bem – Moçambique ainda importa imenso, mas, mais importante, importa demasiadas coisas que não deveria ter que importar. Essa velha solução “terceiro-mundista” e pouco “globalizadora” que se chama a substituição das importações, deveria ser “o” desígnio nacional. O país tem uma relativa almofada na aparentemente perpétua disposição de cerca de vinte países para subsidiarem os custos do seu funcionamento e os projectos de infra-estrutura. Mas essa disposição não é na verdade perpétua. A confiança dos agentes económicos locais baixou e o resultado foi a saída de milhões de dólares em moeda estrangeira do mercado pela porta do cavalo, dinheiro esse que faz falta ao país. Quando há poucos anos foi relativamente fácil montar a operação de aquisição da maioria do capital da HCB (a “reversão”…) hoje a montagem da operação de financiamento da barragem e central de Mpanda-Nkua (cuja construção defendo devia ser iniciada ainda nesta legislatura) está a ser menos fácil. Para além de toda a trepidação em termos do impacto ambiental, as fontes de financiamento não são o que eram há cinco anos.

E há ainda assuntos por encerrar, como por exemplo a manutenção dos preços dos combustíveis a níveis artificialmente subsidiados pelo governo. Mais cedo ou mais tarde, esses valores vão ter que ser ajustados, com as previsíveis consequências para os factores de custo.

No entanto, politicamente o país saíu de uma eleição importante com um mandato forte para o governo do partido maioritário em quase todas as esferas da governação. E em termos macroeconómicos a gestão tem sido particularmente cuidadosa.

Não se passa o mesmo em Portugal.

Portugal

As mais recentes estimativas para a economia portuguesa são quase assustadoras. Apesar de se esperar uma  inflação nominal negativa este ano, há certos factores como o custo dos combustíveis que estão a níveis historicamente muito altos. O défice orçamental, que se estima agora em cerca de 8.5%, é uma loucura, apenas ofuscado na zona Euro pela Irlanda, Espanha, Itália e a Grécia, que são loucuras absolutas (mas com a desgraça dos outros todos podemos aguentar, não é?). Estes valores não levam em conta a intenção do governo central em continuar com chamados mega-projectos, cujo custo será enorme e cujo financiamento terá que vir de fora, e ainda com elementos pouco descuráveis como a contabilização da intervenção do Estado na nacionalização do Banco Português de Negócios e do Banco Privado Português, cujos processos se vão arrastando sem fim à vista. Adicione-se a esse contexto a maior dívida externa privada da história de Portugal e a crescente onda de desemprego, que deverá subir para os 11 ou 12 por cento antes que o próximo ano termine. A pressão política para aumentar os subsídios aos desempregados e as empresas já tecnicamente falidas e sem vendas aumentará e com ela os custos do governo. Governo esse que não só não tem qualquer maioria ou mandato especial para governar, como ainda por cima tem que lidar com a oposição menos organizada e mais descabida que já se viu numa geração.

O efeito destes condicionalismos económicos e políticos serão uma maior tensão social, uma maior chance de algum “caos” em termos de tomada de decisões, um contínuo aumento nos impostos directos e indirectos, uma maior pressão sobre o património e os rendimentos dos contribuintes particulares e empresas, bem como medidas “anti-corrupção” – não tanto porque a corrupção seja algo errado ou imoral, mas porque o governo central precisa desesperadamente de mais dinheiro para custear os seus programas e pagar as suas dívidas.

Curiosamente, mais por causa dos problemas similares nos Estados Unidos, o euro até agora tem mantido um valor considerável contra o dólar e a libra. Mas isso pode mudar, se se vier a confirmar que a economia europeia demorará a recuperar e irá absorver directamente os custos de financiamento dos défices acumulados dos seus estados via aquilo que os americanos já fizeram – imprimindo mais papel-moeda. Uma descida no valor do euro ajudaria nas exportações mas pressionaria a inflação e subiria as taxas de juro. Domesticamente, os efeitos poderiam ser perversos.

No caso português, corre-se ainda o risco de alguma contaminação resultante da deterioração económica em Espanha, um parceiro privilegiado e muito entrosado já com Portugal, onde a taxa de desemprego já se cifra em 20% e que está a passar por uma quebra sem precedente no sector imobiliário.

Claro que há muito pior que isso. Não consigo imaginar o que é viver estes dias no Zimbabué. Que cola com o centro de Moçambique.


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Gabriel Teixeira, Francisco e Nuno Craveiro Lopes e Moçambique

Sexta-feira, Novembro 27th, 2009

1956 Craveiro Lopes e Gabriel Teixeira(Na foto acima, Francisco Craveiro Lopes, então Presidente da República Portuguesa, de farda branca e óculos. De fato e chapéu à civil à direita na foto está Gabriel Teixeira, então Governador Geral de Moçambique. Numa visita ao Parque Nacional da Gorongosa, integrada numa visita de Estado à Província e à União Sul Africana, Julho e Agosto de 1956)

por ABM (Cascais, 26 de Novembro de 2009)

Parte da beleza de escrever num meio destes é que há pessoas de boa vontade que lêem alguns escritos e não só comentam e discutem, o que é interessante, mas nalguns casos dão outros contributos.

Numa crónica que preparei ontem sobre Gabriel Teixeira, um dos problemas que tive foi que, apesar de uma longa pesquisa na internet, não consegui encontrar uma -uma só que fosse – fotografia do distinto oficial e governante de Moçambique português. Felizmente, lá longe por detrás dos coqueiros e dos leões e búfalos da Serra da Gorongosa, o meu muito caro Dr. Vasco Galante  teve a iniciativa de enviar a foto acima, onde se pode ver o então governador Gabriel Teixeira. Muito grato e obrigado. Ajudou a compor a história de mais maneiras do que pensa. Continue a ler e vai ver como.

A “aparição” de Craveiro Lopes na fotografia acima apresentada motiva-me a mencionar algumas peças de trívia moçambicana que o tempo quase que apagou e que fazem parte do fabrico do Moçambique actual.

Francisco Craveiro Lopes foi presidente de Portugal entre Carmona e Américo Tomás. A sua presidência foi no mínimo penosa, por várias razões. São legendárias as suas ambivalências em relação a Salazar e aos destinos por que o seu país navegava. No fim, Salazar mandou-lhe uma simples nota indicando que a União Nacional (que era ele) seleccionara o mais dócil e ultra Américo Tomás para “concorrer” para a eleição de 1958 – a famosa eleição em que concorreu o General Humberto Delgado.

Tudo indica que Craveiro Lopes era um homem bom e decente, com um distinto currículo. O seu pai fora um general e governador da Índia e formou-se no Colégio Militar. Antes dele houve mais. Mais importante, foi um homem que se apercebeu, por mais suavemente que fosse, que algo corria mal na sua república, o que era mais do que se pode dizer de muito boa gente na altura. Foi o único presidente que activamente conspirou contra o regime que Salazar impora aos portugueses. Foi por isso alvo das maiores infâmias por parte dos correlegionários do regime. A ligação acima dá alguns detalhes e testemunhos sobre o que isso foi.

O que pouca gente sabe é que a primeira vez que Craveiro Lopes apareceu no cenário nacional foi pelo que fez em Moçambique, quando, em plena I Guerra Mundial, esteve na fronteira entre o Norte de Moçambique e o então Tanganica alemão, na qualidade de Aspirante de Cavalaria e distinguiu-se no combate aos alemães em 1915 e 1916, nomeadamente em Newala e Quionga. Após voltar à Europa em 1917 para se casar e tirar um curso de aviador, voltou a Moçambique em 1918 por algum tempo.

Craveiro Lopes teve quatro filhos, tudo boa gente mas aqui mencionarei apenas o seu filho Nuno, que viveu durante muitos anos em Moçambique e que, para além de opositor ao regime, foi um arquitecto que deixou obra interessante quer em Portugal quer em Moçambique, para onde veio viver em 1952 e trabalhar como responsável pelo Gabinete de Urbanização e Obras Públicas. A igreja de Santo António da Polana e a Igreja do Sagrado Coração de Jesus no Chibuto são de sua autoria.

Igreja sto ant Polana

Aliás há uma história interessante sobre Nuno Craveiro Lopes e a Igreja de Santo António da Polana. No seu projecto original, aquela horrível casa onde viviam (vivem?) os padres, e que foi erguida mesmo ao lado do ainda hoje arrojado edifício, ficava muito mais longe. Mas os senhores padres não se viam a andar a pé para entrar no templo e mandaram “encostar” a casa à igreja e fazer um túnel de acesso entre os dois edifícios para não molharem a batina, o que enfureceu o arquitecto (ele deve ter desmaiado quando fizeram o ainda mais arrepiante “salão de festas” por detrás, um armazém, basicamente, onde fui inúmeras vezes ao cinema – por cinco escudos via o filme e ainda comia uma bola de Berlim e bebia uma Coca-Cola).

Outro incidente igualmente grave foi que, no projecto original da igreja em si, tal como concebido por Craveiro Lopes, o altar-mor ficava não onde está hoje mas no centro da igreja, directamente debaixo da cúpula do espremedor de limão, onde o efeito da luz ao meio dia era mágico. E o chão da igreja era para ser feito em mármore branco. Ou seja, nas cerimónias os crentes ficariam sentados todos em círculo à volta do altar-mor, iluminado pelos vitrais coloridos de cima, o que é conceptualmente muito mais belo e dinâmico que a chachada que acabou por ser imposta no fim.

LM Igreja S A da Polana

Mas os srs. padres no fim mais uma vez deram a volta. Até hoje, aquilo ficou organizado em estilo teatro, o altar-mor encostado à parede e o povão crente sentado de frente.

Altar mor da Igreja st ant Polana


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Um Encore

Quarta-feira, Novembro 25th, 2009

(por AL no chuvoso dia 25 de Nov) –

No início deste mês postei aqui na maschamba um convite que me chegou via email, para celebrarmos os 25 anos da ACRENARMO, uma associação de amantes de Moçambique. Esse meu post foi hoje comentado por Paulo Baptista, sócio e membro da direcção (penso que estou correcta). Como o comentário contem informações adicionais sobre o que é a ACRENARMO e porque receio que a maioria dos leitores maschambeiros não vá tão atrás no tempo, aqui vos deixo o comentário integral:

Olá meus caros.

Realmente e infelizmente a Acrenarmo, mesmo com 25 anos ainda é uma desconhecida de todos.
Até agora dedicou-se quase em exclusivo aos convívios e a pequenas actividades recreativas. Acontece que se assim continuasse esta associação estaria condenada à extinção, pois não haveria continuidade.
Estamos à quase um ano com uma nova direcção que pretende dar outro dinamismo e uma vertente mais cultural. Acontece que não chega fazer workshops e aulas de dança e outras pequenas coisas que aparecem. Precisamos de dar a esta associação o estatuto de adulta. Existem muitos projectos, mas falta-nos meios humanos.
Afinal são 25 anos…….. 25 ANOS!
Mas o que mais me entristece, é que não se consegue colaboradores, ninguém que tenha garra e motivação de modo a dar corpo e estatuto à Acrenarmo.
Neste momento, não tenho outra solução do que continuar a lutar e divulgar o nosso projecto para levar isto por diante e tentar reunir tropas.
A credibilidade e o sucesso da associação depende do que fizermos daqui por diante e de nada serve colocarmos o carimbo de saudosistas ou seja lá o que for. Apenas tenho a preocupação de levar um projecto para a frente com alguma qualidade.
Gostaria que daqui por diante, aparecessem pessoas que tal como vocês, tenham ideias claras e válidas de modo a contribuir para o crescimento desta associação.

Só uma nota: Não levo a mal os vossos comentários, pelo contrário, até me divirto. E como eu costumo dizer…o que interessa é que falem.

Um abraço a todos, e quando quiserem, apareçam, pois falar aqui é uma coisa, outra é conhecer o projecto.
Estarei à vossa disposição para o explicar melhor se o entenderem.
Espero ver-vos no convívio, o que me daria muito prazer.

Um abraço
Paulo Batista

(um abraço meu ao João Machado da Graça se falarem com ele)


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