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Ilha de Moçambique: Vila do Milénio no Lumbo

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[Maio de 2008]

A primeira pedra da Vila do Milénio, belo projecto de assentamento populacional a desenvolver muito em breve, baseado no projecto Aldeias do Milénio (Millenium Project) das Nações Unidas, uma inspiração desenvolvimentista de Jeffrey Sachs. Na sua versão moçambicana, como este projecto no Lumbo, uma obra encabeçada pelo excelente Venâncio Massingue, ministro da Ciência e da Tecnologia - prova que o desenvolvimento rural é um objecto de transferência científica e só assim se pode cumprir.

Luis Novaes Tito é um blogoamigo do ma-schamba, desde há anos. Já sofreu exageros meus, que lamento e até bastante. É um socialista mui decente - lembro-me de quando se afigurava a ascensão do governo de Socrates ter aqui perguntado sobre o que aconteceria ao então mui crítico bloguismo socialista português, se não se alinharia no silêncio. E de ele ter respondido qualquer coisa como “estarei cá”. E está! Não só de olho crítico mas também com o mais importante do actual bloguismo português que eu conheço: a espantosa e longa (sortudo, ele) série “Já fui feliz aqui” - uma coisa de reconhecer a vida que me apetece começar a copiar. E, até também, um acto político contra o estrutural gemido português, esse que nada mais é do que sinal de distinção sociológico, um “tão elevado que eu sou que assim tanto sofro”.

Pede-me o LNT novas da visita do Presidente Aníbal Cavaco Silva a Moçambique. Pelo que está acima escrito sinto-me obrigado a ecoar algo. Dizem que a visita correu bem. Acredito. Ontem na recepção à comunidade portuguesa (que o Lusofolia aponta) o presidente ecoou esse sentimento positivo. Ainda bem - todos temos a ganhar com o degelo.

Ainda assim acho que tão poucos meses depois do que aqui aconteceu no dia da transferência de Cahora Bassa, de total desrespeito pelo Estado português nunca, mas nunca mesmo, um Presidente da República ou primeiro-ministro português deveria aqui ter vindo. Pois se as práticas simbólicas identitárias moçambicanas são muito respeitáveis há limites a respeitar quando confrontam as práticas simbólicas identitárias do Estado português. Mas acho isso se calhar porque não sou político nem diplomata. Se a visita correu bem ainda bem - se as relações internacionais melhoraram ainda bem. Muito ainda bem. O meu obrigado, como residente imigrado, ao dignissimo presidente que tenho.

Pontos negativos? Assim para o vulgar cidadão só vi um - alguém sorrirá, eu acho crucial. Na recepção à comunidade portuguesa o coro infantil da Escola Portuguesa de Moçambique entoou os dois hinos nacionais. Toda a gente se comove quando vê criancinhas a cantar - “deixa-me ver a minha filha” ouvi um colega emocionado ali ao lado. A mim repugna-me, e de que maneira, que uma escola paga pelo erário público português (e são uns milhões de euros anuais) tenha professores que põem as criancinhas a cantar a “Portuguesa” com a mão no peito. Não sou nada anti-americano. Mas o hino português não se canta à americano, canta-se com os braços estendidos ao longo do corpo. A ministra da Educação estava presente - espero que mande actuar.

LNT, já agora saiba que aqui o seu blogoamigo teve o desplante de ir incomodar o chefe da Casa Militar da Presidência da República sobre os talhões militares. Que já estava informado, confirmou-me muito simpaticamente. Espero que possa actuar, e que para isso tenha os recursos. Pois continuo a acreditar que que os mortos são o nosso futuro.

Claro é que amigos e família quando me ouvem nestas coisas acham que não tenho razão. Pior ainda quando vêm ao ma-schamba a ler isto. Eu, pelo contrário, acho que tenho toda a razão. Nos modos de cantar o hino. Nos modos de tratar as campas.

Uma prenda para Ana Sá Lopes

jornalista por ora em Maputo.

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[Stephen Francis & Rico, Madam & Eve, Bring me my (new) Washing Machine, Johannesburg, rapid phase, 2007]

Adenda: complementar com esta notícia (via Índex)

Aníbal Cavaco Silva na Ilha de Moçambique

LNT pede-me notícias da visita do presidente Cavaco Silva a Moçambique. Presumo que a imprensa portuguesa faça a cobertura - eu, avisadamente, olharia a Lusa, cujo jornalista Pedro Figueiredo me parece bem menos folclórico do que os jornalistas habitualmente comitivos [a vantagem do jornalista oficial sobre os jornalistas oficiosos, porventura].

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[”Posição da Ilha de Moçambique”, imagem recolhida de Raquel Soeiro de Brito, No Trilho dos Descobrimentos. Estudos Geográficos, Lisboa, CNCDP, 1977, p. 213]

Mas posso adiantar que hoje Aníbal Cavaco Silva visita a Ilha de Moçambique. Espero que vinculando a “cooperação” portuguesa a um efectivo e competente esforço, o qual está planeado, nessa região - economicamente deprimida e cujo grande simbolismo é também um recurso económico. Lembro que em 1997 o presidente Jorge Sampaio não foi à Ilha também porque não havia nenhum plano de cooperação plausível para aquela região (considerando então que não havia razões políticas para a deslocação). E que em 1998 o primeiro-ministro António Guterres foi lá apesar de não haver nenhum plano de cooperação plausível para aquela região (óbvios diferentes entendimentos sobre o conteúdo de uma visita de Estado a Moçambique).

Sobre a ilha já deixei aqui dois longos textos (I e II) - que são o melhor do Ma-schamba. E uma série alargada de entradas. Para além de sublinhar a esperança não me alongo mais, LNT - ali é o sítio onde combato o meu cepticismo. Rejuvenesço, por assim dizer.

Hoje é também dia de orgulho. Pois o grupo Anuaril Hassanate Bairro 16 de Junho (aldeia Mesquita Gulamo), do qual sou presidente

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foi chamado para actuar na recepção ao meu presidente da República. De orgulho um pouco triste: sou mais uma vez um presidente absentista. E hoje gostava de não o ser.

Do futuro (reprise)

Abaixo refiro que agora me lembrei de uma velha entrada do ma-schamba (10.02.2008), dedicada ao cemitério militar de Pemba, referindo-o como facto social total. Pensando melhor acho que este é um bom momento para a lembrar ainda mais. Recolocando-a. A versão original tem texto, talvez interessante para quem descreia do culto dos antepassados ou lhe encontre um excessivo tom patrioteiro. Mas aqui ficam só as fotografias. Falam melhor do que o bloguista.

Pemba, Cemitério Militar da Commonwealth, I Guerra Mundial

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Pemba, Talhão Militar Português

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Venâncio Mbande

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(fotografia emprestada pelo Toix)

Quinta-feira passada houve sessão no Instituto Camões, homenagem a Venâncio Mbande, nome enorme da música moçambicana, maestro timbileiro, homem já alvo de um filme: Keep the Timbila Playng, de Frank Diamand

Casa cheia, que tinha havido mobilização via SMS. Cheia com o meio das artes e ainda mais de muitos expatriados, gente nova (estou a envelhecer, constato quotidianamente …), sem dúvida que mais ou menos recentes cá, com aquela curiosidade característica de quem chega e quer conhecer- dia bom para eles, a poderem ver e ouvir uma lenda.

Dia estranho para mim. Certo, a homenagem em vida é bonita. Mas o teor da homenagem talvez nem tanto. Mbande está doente (não terminal, atenção), envelhece (talvez 66 anos), está sem dinheiro para a subsistência, para os medicamentos - é diabético. Os amigos, neste caso os discípulos Timbila Muzimba e mais alguns, organizaram a sua vinda de Zavala, onde o grande maestro timbileiro reside. E fez-se a sessão de homenagem, antecâmara de uma que acontecerá dentro de dois meses, a ocorrer no Centro Cultural Franco-Moçambicano. E foi o perfil desta agora acontecida que me arrepiou - até porque dela se podem retirar ensinamentos para daqui a dois meses. E para um futuro mais estrutural ….

Discursos de homenagem, discurso do próprio, 3 músicas (10 minutos?). E peditório - “quem pode dar dinheiro entregue ali na mesa“. Um generalizado mal-estar. Algumas considerações sobre isto:

a. Solicitar ajuda aos amigos e aos admiradores não é errado. Dá-la também não o é. Ambas atitudes só enobrecem.

b. O Instituto Camões, representado pelo bibliotecário, saudou o homenageado e entregou-lhe um “diploma de mérito”, entre merecidos aplausos. Confesso, coisas de antropólogo a olhar o simbólico: haverá algo a dizer do downgrading protocolar, ou terá sido mero constrangimento do quotidiano? Mas o que é um “diploma de mérito” do Instituto Camões? É da sede, um grau oficial que o ICA tem? Se é disso que se trata é ao bibliotecário, ainda que indivíduo e posição mui dignos, que compete a entrega? O que significa isso? E se o é, outorga-se um diploma deste relevo  e arruma-se a questão, ainda para mais numa situação humana destas?

Se não é desse grau que se trata, tal como a dimensão protocolar e o anúncio público me parecem configurar, qual a figura desta homenagem - é um “diploma” ad hoc atribuído pelas sucursais do Instituto Camões? Se sim quais são os critérios de escolha, de proposta, de candidatura, de entrega? Venâncio Mbande merece um diploma de mérito da instituição de representação cultural externa de Portugal? - em meu entender merece (e do oficial, se se confirmar a minha opinião de que não foi desse que aqui se tratou) pois a expressão legitimadora que o subjaz “…em reconhecimento da sua relevante acção em prol da defesa e da promoção da língua e da cultura portuguesas no mundo” deverá ser entendida apenas como sobrevivência de uma concepção reduzida da acção cultural externa, fruto de uma noção presumivelmente já ultrapassada (a legislação que instaura a outorga é do consulado guterrista). Mas ainda assim, repito, quais são os critérios  de atribuição (necessarimente públicos e publicitados) destes diplomas, mesmo que meramente oficiosos, localmente consignados?

Ou seja, honestamente, o desenho pareceu-me excessivamente atabalhoado, desmerecendo a homenagem, desmerecendo o homenageado. Grave? Sim. Mbande estava ali também como símbolo. É símbolo, assim considerado. O estrangeiro em casa alheia respeita o símbolo. Ou, pelo menos, exime-se ao ritual que o vivencia.

Dramático? Não! Não faltarão momentos mais ou menos próximos de índole protocolar para emendar o passo (ou, caso eu esteja enganado, para o completar). Um apoio da “cooperação” portuguesa (em sentido lato) à questão da saúde do enorme artista (para os portugueses que lerem isto lembrem-se da figura de Carlos Paredes - ainda que este ao menos fosse arquivista de um hospital, se bem me lembro, o que lhe daria para pagar as sopas e a renda) caberia perfeitamente nos protocolos bilaterais existentes no domínio da saúde. Um projecto de musicologia poderá ser desenvolvido, com gravação extensa da arte e remuneração suficiente - a preços acessíveis, dada a facilidade de gravação actual. Basta vontade. E reconhecimento do “mérito cultural”…

2. Na cerimónia o vice-ministro da Educação e Cultura saudou  o grande músico e a iniciativa. E disse algo que soou pouco simpático mas que é verdade - o Estado não pode apoiar tudo, “temos” que nos organizar nestas iniciativas solidárias. Eu não o ouvi, estava à porta dada a aglomeração de pessoas à minha frente. Mas ouvi os comentários - caíram mal as palavras de Luís Covane. É o problema dos políticos, quando não são demagogos as pessoas não gostam. Covane falou bem, é a minha opinião. Ainda que neste caso eu ache que o Estado tem possibilidades (e responsabilidades) para intervir.

Entenda-se: as timbilas de Zavala (núcleo territorial onde a prática é original, ainda que esteja algo disseminada até Zambeze acima e se tenha maputizado) são um dos itens que têm sido escolhidos pelo Estado e pela intelectualidade moçambicana como denotativos da identidade nacional. A sua excentricidade na África Oriental - porventura demonstrando a sua longínqua origem exógena, o que é interessante face à complexidade do argumento “autenticidade” no mecanismo identitário moçambicano actual - a isso ajuda. Por isso mesmo o Estado se empenhou na campanha para a eleição do ritmo musical chope timbila como património imaterial da humanidade - à imagem do que fez com as danças nyau. Deste modo não me parece muito curial que o mesmo Estado não tenha capacidade para intervir num momento de dificuldades do grande músico identitário. Não tem recursos próprios? Acredito - mas com toda a certeza poderá fazer apelo às grandes empresas moçambicanas, públicas, privadas ou participadas, e com alguma imaginação encontrar formas de apoiar dignamente o músico, até baseando-se na muito em voga ideia da responsabilidade social empresarial. O tal projecto de gravação, uma escola financiada, uma pensão condigna, etc. - há múltiplas formas de abordar o assunto, sem que isso implique obrigatoriamente um dispêndio do orçamento estatal (sobre o qual eu, cidadão estrangeiro, não tenho muito a opinar, como é óbvio).

3. Algumas empresas patrocinaram a homenagem. De uma forma tímida. Um dos amigos de Mbande disse-me que um dos habituais grandes patrocinadores das “coisas” da cultura ofertou 200 USD. Isto demonstra (mais uma vez) que no seio das grandes e médias empresas aqui operando há uma enorme ausência de sensibilidade e conhecimento cultural. Pródigas em patrocínios, tanto mecenáticos como publicitários, nelas não se descortina uma verdadeira ideia do “como fazer”, do “que fazer”. Mostra-se, amiude, uma verdadeira ignorância nos quadros que decidem. Gastariam menos, recolheriam mais dividendos, acima de tudo estatutários e simbólicos, para não falar de comerciais, se tivessem verdadeiros assessores para estas matérias.

200 dolares para um aflito Mbande quando abundam os 500 e 1000s para as enésimas iguais exposições de pinturas de ocres e laranjas, em troca de quadros a serem amontoados em armazéns e aí esquecidos? Quando o afro-pimba é dourado em horários nobres e prémios rotundos? Alguém está enganado nestas andanças …

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Os tumultos de Maputo e o MNE português

Paulo Granjo tem queixas do Ministério dos Negócios Estrangeiros português a propósito dos acontecimentos de Maputo. Não resisto e, em comentários, exerço a minha vocação de advogado do Diabo (neste caso literalmente, diga-se).

Já agora, e porque lá o digo, de Lisboa avisam-me amigos - mui veteranos do ma-schamba, e percebo-lhes os sorrisos ao telefone ou nas linhas dos e-mails - que em breve terei nova cena de queijos e vinhos. Ou seja, que em breve o meu Presidente da República, professor Cavaco Silva, virá a Moçambique em visita de Estado. Espero que seja um sucesso - vi Cavaco Silva aqui em 1999 e foi imponente enquanto conferencista (ok, digam-me cavaquista …). E também espero que o Ministro das Finanças português venha na delegação - talvez assim possa aprender como se representa a República no estrangeiro.

 


Um futuro historiador dedicado às relações entre Portugal e Moçambique decerto que encarará 2007 como um ano marcado pela transacção (dita “reversão” no neo-português actual) da HCB. Juntará alguns outros factos, porventura até a recente cimeira “Europa-África”.

Fica aqui o meu contributo historiográfico (até porque não há imprensa portuguesa em Moçambique, o que dificultará futuros trabalhos de arquivo). No passado mês o Presidente da Assembleia da República, segunda figura do Estado, deslocou-se a Moçambique na companhia do deputado Vera Jardim (antigo ministro da Justiça), acompanhando as cerimónias do jubileu de Aga Khan. Ecumenismo muito interessante e basto significante para entender o Estado português nesta época histórica.

Nesse seu programa oficial os dois deputados visitaram o novo centro comercial de Maputo, recente iniciativa empresarial do poderoso e simbólico grupo económico MBS. Pequeno acto protocolar, mas também muito significativo sobre a política portuguesa em Moçambique. Aliás, se historiograficamente a transferência da HCB apenas significará o encerrar de um ciclo, este pequeno evento poderá denotar algumas das actuais linhas de interacção entre Estados. E, até, das dinâmicas partidárias portuguesas.

Politicamente correcto. Crianças entregues na escola, rápido café com amigo colega em paternidade. Chispa de ironia, ele: “Ouve lá, tu que és um gajo culto” (ei-lo nela, o sacana) “explica-me lá o que é que significa reversão“. Tartamudeio e fujo para um “a propósito de quê, pá?”, “Então hoje não é o dia da reversão de Cahora Bassa?”. “Bem …”, evoluo, e com ele no entre-sorrisos, “são estas palavras novas, assim tipo “empreendedor”, “implementar”, esses tipos utilizam-nas para parecerem finos“. “Ok, ok“, matamos ambos a conversa, antes do “a conta, por favor“. E saímos, sorrio eu ainda, decerto ele (e ele é que é o gajo culto, entenda-se) também na via do seu dia, sorrimos a tanta ideologia no falar, nacionalismo de alguns, e esse ainda vá que não vá, o politicamente correcto de outros, e esse é que nem se compreende.
Sentar-me-ei, politicamente incorrecto?, a consultar a página 1247: “reversão (Lat. reversione), s.f. acto ou efeito de reverter; regresso ao estado primitivo; devolução; (Zool.) atavismo; (Ling.) figura de estilo que consiste em inverter a ordem dos termos de uma proposição, de modo a obter uma outra com sentido diferente; quiasmo.” (Texto Editora, Dicionário Universal da Língua Portuguesa, 1995, 1ª edição).
Concluo então, Pedro, que “reversão” é uma figura de estilo económica. Chega? Ou será um quiasmo?

coisas do mantorras…

O recorte já é velho mas só agora tive tempo. Passada a “crise mantorriana” entre Portugal e Angola eis que surgem ecos no Índico. Confesso que não sei se já estará resolvido o problema, tenho ideia que se trata apenas de um acordo entre Estados, algo a dirimir entre organismos públicos tão secundários que se permitem às inércias quanto a relações externas. Mas aí está, o arremedo de bruááá

Clicando na imagem poder-se-á ler o texto do jornalista Jeremias Langa. Um caso típico do anti-portuguesismo na imprensa moçambicana. Não supreendente, nem injustificável. “É como as coisas são” e não me vou por no “dever-ser”. Mas o último parágrafo é trans-típico. Uma verdadeira delícia. Com resquícios de pró-colonialismo por parte do escrevente, até…

Cahora Bassa. Já aqui e aqui saudei a conclusão do processo de transferência da barragem, um item do processo de negociação da independência, uma conclusão política para um (fantástico, aka extraordinário, aka descabido) empreendimento político. Saudando o final de um longo processo, saudando o governo português que, finalmente, resolveu o assunto.

Deparo-me agora com a revista Visão, o numero anterior à visita de Socrates a Maputo, onde culminou as negociações.


Renascer em Moçambique“, o título da pobre reportagem. Candura? Vácuo? A parvoíce habitual, jovens portugueses (entre 25 e 32 anos - neles algumas caras conhecidas) por cá, terra exótica e bela, vivendo aventuras, amores ardentes, empresas ascendentes. Capa condicente, casal com cabana atrás (e autóctones, presume-se que convenientemente agradecidos). Nada de novo, ha 8 anos por cá esteve Maria João Avillez a botar um “regresso dos portugueses” tão nada como isto, tão vazio e cego como isto (uma colecção de cromos preguiçosa, o tipo dos “gelados italianos”, claro, o paradigma Cascais, esse que se baldou depois com as dívidas para trás, e uma série de jovens quadros de apelidos sonantes, tipo “vejam, nós tambem podemos ir…”). Gente nada, essa que escreve, gente de quem Rui Knopfli escreveu

Ninguém se apercebe de nada. / Brilha um sol violento como a loucura / e estalam gargalhadas na brancura / violeta do passeio. / É África garrida dos postais, / o fato de linho, o calor obsidiante / e a cerveja bem gelada. / Passam. Passam / e tornam a passar. / Estridem mais gargalhadas, / abrindo uma sobre as outras / como círculos concêntricos. / Os moleques algaraviam, folclóricos, / pelas sombras das esquinas / e no escuro dos portais / adolescentes namoram de mãos dadas. / De facto como é mansa e boa / a Polana / nas suas ruas, túneis de frescura / atapetados de veludo vermelho. / Tudo joga tão certo, tudo está / tão bem / como num filme tecnicolorido. / Passam. Passam / e tornam a passar. / Ninguém se apercebe de nada.”

(Winds of Change, tão bem lembrado no A Sombra dos Palmares).

Gente pobre, ignara, a dos jornais? Lendo tralha destas logo assim se acha. Para quê coisas tão fracas, nem superficiais chegam a ser? Pergunta cansada, nem quer resposta tamanho o menosprezo que tal gente acolhe. Mas logo depois esta tralha simpática esta, jovens portugueses “a renascer em Moçambique”, burgueses entre belas raias e boers escaldantes, tons ocres, descampados imensos, um futuro cobiçável (e repetível), um país simpático que os acolhe e tal permite, e a tantos outros, gente boa, “terra da boa gente”. E assim os escaparates lusos cheios desta capa, nem precisam de comprar e ler, basta passar na rua, actua o implícito, o indito, o subconsciente.

E na semana seguinte Socrates em Mocambique a “entregar” Cahora Bassa. Antes a opinião pública “preparada”, trabalhada, mexida. Desta maneira melíflua. Ah, “renascer em Mocambique”, entre raias, autóctones e terras assim. Gente pobre, ignara, a dos jornais? Nada!

Um lixo. A Visão. Mas também quem os compra. Entenda-se, que lhes encomenda lixo destes. E quem lho consome.

Meu sorriso polissémico:

Jornal Zambeze, nº 215, edição de 2 de Novembro de 2006. Director Salomão Moyana, Editor Lourenço Jossias.

José Socrates em Maputo, o fim da transaccão de Cahora Bassa. Até que enfim. Louve-se a conclusão de um processo político.

Portugal e África: A televisão pública portuguesa enceta a esse-eme-esseização da história de Portugal, a “escolha popular” do maior português de sempre. Alguns grãs-blogs portugueses já quase esgotaram o assunto, o da pertinência de algo como isto, centrando-se em particular nas práticas censórias (explícitas e implícitas) dos organizadores desta “história de portugal”.

A este propósito Pacheco Pereira refere ainda algo fundamental: o da produção de um padrão de “portugueses” que irão votar. Outras questões surgem sobre esta forma da tv pública construir uma imagem da história: a própria ideia do voto em personagens históricas; o peso da actualidade (quantos votos teriam Fernando Lage ou José Travassos numa iniciativa para escolher os melhores futebolistas portugueses?); o que é “grande”, o que é que constrói a “grandeza histórica” (o Mestre de Aviz é maior ou menor do que Fernão Lopes?), o que é “português” (vá lá que Fernão de Magalhães está, mas Miguel de Vasconcelos [ainda para mais dono monopolista de uma palavra em português], Tiradentes ou Cervantes poderão caber? Ou, como provoca o A Destreza das Dúvidas, não será Obikwelu o maior de todos?).

Independentemente de tudo isso, e da pouca pertinência de um passatempo televisivo deste tipo (e por isso da pouca pertinência de tanta atenção bloguística), surge algo a realçar. Em 250 “candidatos” propostos quase inexistem figuras ligadas ao esforço colonial português em África - Ivens e Serpa Pinto surgem, mas são exploradores, integráveis como Bento de Góis, na abundante galeria de “heróis identitários” de descobridores marítimos e exploradores terrestres; Spínola, Galvão, Costa Gomes ou Champallimaud surgem, mas sem referência às suas actividades em África, estão ali por razões outras.

Na prática a inflexão colonial portuguesa em África, pelo menos 90 anos bem recentes, é-nos trazida nesta “reconstrução popular” da história por apenas 3 nomes. 2 deles por razões absolutamente secundárias: Gago Coutinho, referindo-se-lhe a actividade de delimitação de fronteiras africanas, mas obviamente uma condição secundária na sua biografia, e Sá da Bandeira, ainda que fundamentalmente por ser responsável pela abolição da escravatura (algo muito discutível, mas enfim, não é aqui que vou discutir tal). Um terceiro por razões conjunturais, pois não creio que Henrique Paiva Couceiro fosse lembrado antes da recente publicação da sua biografia por Vasco Pulido Valente.

Enfim, a propósito de um passatempo televisivo, as marcas do luto português quanto a África. Uns saudosismos “patrioteiros” mais exaltados, mesclados com o silêncio. Gritante, como nestes casos.

Então vão passar a andar a horas? Ou, pelo menos, a dias?

Na capital moçambicana, Fernando Pinto adiantou que a TAP está interessada em abrir, no imediato, um quarto voo semanal entre entre Lisboa e Maputo. «O potencial turístico de Moçambique é enorme», afirmou o presidente da TAP..

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Ah, e ao ler isto percebo porque é que hoje à tarde a Mtomoni tanto transbordava para a Engels e a Nyerere. A Tap (dizem-me que até houve exposição alusiva) e o tão esperado congresso de Agentes de Viagens Lusófonos, qu’agora isto é que se vai desenvolver.

Hum, um certo coiso de cargo cult? Cantarolo “os tempos já mudaram”. Continuam a mudar, claro, mas já mudaram desde a canção. É como as gentes.

Alegre e Moçambique

Há alguns dias o meu total espanto diante da RTP, um episódio da visita de Armando Guebuza a Portugal. Também nisso reparou o Luís Carlos Patraquim, na sua coluna “A Esquina do Tempo” que envia de Lisboa para publicação no Savana.

Em compita para serem recebidos pelo dirigente moçambicano estiveram os candidatos presidenciais portuguesas. Mário Soares e Cavaco Silva relevam [sic] o sentido estratégico das relações Portugal/África e depois Portugal/Moçambique, Portugal/países da CPLP. Com o inédito do protesto de Manuel Alegre apontando o dedo à falha do protocolo de Estado. Reivindicou uma amizade antiga e o princípio de que, em democracia, não há vencedores antecipados. O presidente moçambicano virou centro de disputa entre os candidatos lusos. Manuel Alegre também queria ser recebido. Guebuza estava no centro de uma visibilidade que os “presidenciáveis” portugueses exigiam. É uma espécie de eixo que se desloca, inclina.” (Savana, 4 Novembro 2005)

Talvez um pouco forçado o tom com que traça o facto. Mas também eu notei esse “espécie de eixo que se desloca, inclina“. Pelo menos naquela polémica sobre a retórica protocolar - e forma é conteúdo. Não que venha mal, acho até um projecto interessante, o “multipolarismo”. Interessante não, necessário. Um projecto a fazer.

Mas é (foi) óbvio que não era disso que Manuel Alegre falava, não era esse redesenhar o seu objectivo. Pois se fosse o caso tê-lo-ia explicitado, uma linha de pensamento, um futuro. Nada disso, ali apenas o queixume do minuto de televisão, do “panache” cutucado. Episódio mero impensamento, mero autocentramento, mera cabotagem fluvial. Por mais que este episódio seja marginal ao correr português do lá em Portugal, que lhes seja até invisível, esta foi óbvia demonstração da pequenez política de Alegre.

Reportagem do Expresso sobre Moçambique

Via Chuinga pode-se ler (gratuitamente) reportagem do Expresso sobre Moçambique. Enfim, cada vez mais me convenço que jornalista é mesmo mutante, ser já diminuído devido a agentes letais.

Por cá consta, talvez mais um boato, que Balsemão quer aqui abrir um jornal. Assim será? Se assim for esperemos que mande gente melhor. Ou pelo menos com óculos, que isto de misturar estigmatismo com miopia não dá em nada.

Do futuro

Num Portugal que se expandiu e bastante guerreou ao longo da sua história há um pensar sobre os que morreram nessas guerras longínquas que, assim grosso modo, oscila entre dois polos.

Um deles, dito mais conservador, valoriza a identidade comum, indiferencia um interno, baliza um projecto nacional unânime (por vezes chamado patriótico), e saúda objectivos e realizações desse passado. A este às vezes chamou-lhe gesta ou epopeia, e nisso costuma aplicar-lhe várias maísculas, estas como se fortalezas de sentimentos. Exalta, claro, os caídos nesses passos, consagrando heroísmos, os célebres e os anónimos, vistos como agentes de um desígnio. Nisso se respeitam e se recordam os nossos mortos. Símbolos do que somos, heranças para os que se seguem nesta História que se quer perene pois orgulhosa.

Um outro, dito mais progressista, lembra uma identidade comum sobre um diferenciado interno, de poderes e de classes feito, baliza os projectos nacionais (quase nunca chamados patrióticos) como se plurais frutos dos conflitos entre diferentes grupos, e assim contextualizados critica objectivos e realizações desse passado. A este às vezes chama-lhe expansão ou descobertas, e nisso costuma aplicar-lhe várias aspas, estas como se vassouras de sentimentos. Exalta, claro, os caídos nesses passos, consagrando heroísmos, mas mais atento aos anónimos, até vistos como vítimas de poderes mobilizadores. Nisso se respeitam e recordam os nossos mortos. Símbolos do que fomos, heranças para os que se seguem na História que se quer perene pois reflexiva.

Será demasiado simples chamar a isto a persistência das religiões dos ancestrais. É mais, qualquer que seja o poiso de onde se fala, olhar e usar o(s) (ante)passado(s) para imaginar o presente e construir o futuro. Mais ou menos criativamente, consoante o paladar.

Pemba, Cemitério Militar da Commonwealth, I Guerra Mundial

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Pemba, Talhão Militar Português

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Um país* que não cuida dos seus mortos desistiu de o ser.

*ver comentários.

Ilha de Moçambique

Nunca o Ma-Schamba teve tantos visitantes como neste dia de aniversário, decerto porque muitos foram os turbo-leitores (a quem abaixo agradeço, reconhecido). Na expectativa que alguns ainda regressem aqui deixo algo que há muito está pendurado.

Tive ao longo de uns poucos anos alguma coisa a ver com a Ilha de Moçambique, coisa de trabalho diga-se. Muito me apraz uma capelinha que por lá subsiste, e que se lixe a modéstia. Mas, no correr do tempo, muito ouvi dos meus patrícios sobre o quanto e o como fazer na Ilha, entre mais ou menos pomposas deslocações e camarões. Um dia, numa conferência da UNESCO sobre a reabilitação da Ilha de Moçambique, aqui decorrida, até ouvi um qualquer desavergonhado patrício bem pago anunciar o donativo de um milhão e meio de contos pelo Ministério do Ambiente. Disse-o sem pestanejar, o escroque…Mas enfim, isso foi passado.


Tenho em casa esta revista institucional, datada de Dezembro de 2003. Nela Pedro Santana Lopes, então presidente da Comissão Executiva da União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa (UCCLA) anunciou:

“A recuperação da Fortaleza de São Sebastião é uma obra que muito nos orgulhamos. Lembro que quem primeiro me alertou foi o anterior Cardeal Patriarca de Lisboa, era eu Secretário de Estado da Cultura (1990-1994). O senhor D. António Ribeiro estava de regresso de uma visita à Ilha e ficara impressionado com o estado de degradação da Fortaleza, a primeira erguida pelos portugueses no Índico. Falou-me de como era importante a sua recuperação, até por se tratar de um dos maiores atractivos turísticos da Ilha. Entretanto a Fortaleza foi declarada pela UNESCO como Património Histórico da Humanidade. E, neste momento, estamos em vias de firmar um acordo com a UNESCO para a recuperação da Fortaleza. A UCCLA participa com 600 mil dólares e a cooperação japonesa com um milhão de dólares“.

Estou satisfeito. E orgulhoso. Quando começam as obras?

Portugal-Moçambique

Ainda aqui não o tinha referido. Para quem quer informações sobre Moçambique, e também sobre as relações Portugal-Moçambique, o sítio da Associação Portugal-Moçambique está muito completo e recomenda-se.

A visitar.