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O perdão da dívida (e Portugal)

O perdão da dívida a 18 países paupérrimos. Agora. Outros, faseados, se seguirão. Uma grande campanha internacional, uma grande iniciativa política. Não a resolução do problema da pobreza radical, mas também não mero paliativo. E também semi-corolário de um conjunto de dispositivos político-administrativos impostos e apoiados. Portanto não apenas dádiva.

Moçambique foi abrangido, por ser do clube dos mais pobres, triste título. Mas por ter realizado ou estar a realizar vários dos processos sugeridos e/ou impostos. Apesar do niilismo (exógeno mas às vezes também endógeno), esse que se recusa a ver coisas boas porque as há más.

[Recordo que no final do milénio passado, ainda no tempo do ministro das finanças Sousa Franco, Portugal perdoou grande parte da dívida moçambicana, acho que 82%, não estou certo. Um bom passo na altura. Mas nem isso conseguem estrategizar. Mais que não fosse isso.

Constato, nada surpreendido o relativo silêncio português sobre o assunto. Nada que tenha visto na imprensa nos últimos dias. Ontem na RTP o telejornal deu a notícia lá para o fim, apenas um pouco mais de tempo do que o desabamento de terras na China e o Harrods com produtos portugueses, o sal português como coqueluche agora, é assim que lá se olha o mundo. Sobre a questão nem um comentador, nem um comentário, nem um especialista, nem um político. Uma vergonha, este umbiguismo, este vazio.

Hoje nos jornais “de referência” portugueses nem uma chamada de primeira página. No bloguismo luso pouco pouco, que tenha visto (uma pequena parcela, que ele é já infinito, país que somos de bloguistas) apenas uma ou outra referência. E, perdoem-se-me os maus fígados, mais referências ao Sr. Blair, socialismo oblige, do que à verdadeira questão.

Esmorece o país no pequeno quotidiano. E quando, em bico-de-pés, espreita para além do muro ainda o faz apenas a alimentar as tricas internas. Nem cabotagem é, mera lagoa. Ou charco?

A ver vou o telejornal público. Será que acordaram, na ressaca do tintol e da sardinhada?]

adenda: a desradicalizar a coisa, que nos blogs se vai falando: The Serendipitous Cacophonies, o Golfinho (Bono, pois claro) entre decerto muitos outros. Não será um must, mas há gente atenta, bem haja.

Queijos de Serra (e presuntos): Apropriação ritual de comestíveis

Um velho texto, coisa de “roupa velha”. E coisa entretanto refeita, donde requentada (e até já posta num velho ma-schamba) nisto de andar a juntar tralha. Talvez com objectivo, talvez não.

USOS E COSTUMES: APROPRIAÇÃO RITUAL DE COMESTÍVEIS

Aqui abordarei episódios dos mais hilariantes que vivi em Moçambique. Mas deles não quero perpetuar a sua extrema comicidade, procuro-lhes explicação, ainda que de modo ligeiro. Ou seja aqui não afloro o sarcasmo, como pode parecer, apenas entender um real que tão estranhas formas assume. É, portanto, um escrito de respeito.

*****

Em 1997 o Presidente da República Portuguesa Jorge Sampaio visitou Moçambique em visita de Estado e ofereceu uma recepção à comunidade portuguesa. Em 1998 o Primeiro-Ministro António Guterres visitou Moçambique em visita de Estado e também ofereceu uma recepção à comunidade portuguesa. Tive o privilégio de comparecer a ambas. Bonitos eventos, sentidos e elegantes, momentos até rituais de congregação dos nacionais aqui residentes, congregação a sublinhar pois destes portugueses não se pode afirmar que constituamos uma comunidade, faltando-nos para isso qualquer organicidade. Facto que, em parte, será explicável pelas diferentes origens sociais, culturais e até políticas dos patrícios aqui residentes, bem como pelas acentuadas diferenças biográficas, muitas fruto da conturbada história nas últimas décadas dos portugueses em Moçambique.

Mas voltemos às recepções à “comunidade portuguesa”. Ambas assumiram o mesmo molde, abertas a qualquer cidadão português residente ou de passagem que entendesse comparecer, e que para tal se munisse de um convite distribuído pela rede consular. Deste modo a ambas compareceram cerca de 3000 cidadãos. Fomos então recebidos nos jardins do Hotel Polana, ex-libris da cidade de Maputo, numa tenda gigante aí instalada, essa que posteriormente se tornou um “must” dos grandes eventos sociais da cidade, e cuja ideia inicial ocorreu aquando da visita de Jorge Sampaio, tendo então sido alugada na África do Sul – e este é decerto um contributo para a “pequena história” da elite moçambicana.

Em ambas houve coincidência de manjares, um menu agradabilissimo e notoriamente simbólico, reforçando por via da gastronomia a identidade portuguesa ali reafirmada e simbolicamente sedimentada. Pois deparámo-nos com uma profusão, noblesse oblige, de vinhos portugueses e queijos da serra. Um agrado ao palato mas acima de tudo um afago no coração de emigrante, em particular em terra onde tais produtos escasseiam e em surgindo o fazem a preços bem custosos para quem se afastou da terra e família para ganhar a vida.

Ora em ambas as ocasiões muito me surpreendeu, em particular aquando da inesperada primeira vez, a quantidade de compatriotas que quando se decidiam retirar da recepção, e quase sempre isso se sucedia aos discursos dos dignitários e ao cântico unânime do hino, o faziam em grupo, familiar na maioria dos casos, mas fazendo-se acompanhar dos queijos da serra ali apresentados. Alguns já encetados, outros ainda por inaugurar. E tudo isso com bastante à-vontade, ora na mão, ora em sacos (já trazidos para o efeito?) ora mesmo debaixo do braço.

Posteriormente, em 2001, o Presidente da República e o Primeiro-Ministro visitaram Moçambique por ocasião da cimeira de chefes de estado da CPLP. Também nessa altura foi ofertada uma idêntica recepção aos portugueses residentes, tendo esta ocorrido nas instalações do Mini-Golf, um muito aprazível complexo multiusos sito à Costa do Sol. A escolha deste local, simbolicamente mais modesto do que o Hotel Polana, não pode deixar de estar associado com o desejo de demonstrar alguma parcimónia festiva nessa época, aquando Moçambique saía de dois terríveis anos de cheias, cujo drama correu mundo.

Mas então ao menor relevo dado à recepção, com local menos brilhante e menor número de convidados, talvez metade dos anteriores, correspondeu um certo incremento das ofertas gastronómicas, mas ainda dentro de um padrão de gastronomia transversal à sociedade portuguesa, um que une classes e regiões. Foi então adicionada ao vinhos e queijos da serra a participação dos presuntos. Ests apresentavam-se laminados nos pratos, e com abundância, mas também no seu formato tradicional, as peças penduradas sobre as mesas, servindo de decoração, mas também na sua vertente de símbolo afirmativo da fartura.

Nesse dia após os múltiplos cumprimentos típicos destes eventos e algumas breves conversas, estas sempre coarctadas nestes momentos de impossível continuidade dialogante, encostei-me a uma mesa convivendo com a dona do estabelecimento, minha conhecida desde os tempos em que aqui cheguei. Estava ela controlando os acontecimentos, ainda que o espaço tivesse sido alugado e, portanto, a sua responsabilidade executiva muito diminuta. Era a sua presença, e os cuidados em que estava, demonstração de intransigível profissionalismo, mais do que uma verdadeira obrigação.

Enquanto conversávamos pude comprovar ao espanto, até terror, dos seus empregados, várias vezes dirigindo-se-lhe em pânico “D. …, o que fazemos?, eles [os convidados] estão a carregar os presuntos”, perigando até a decoração, fazendo tremer e até cair os arranjos. A senhora, de início estupefacta, ainda procurou o meu conselho, “o que é que eu faço?”, e eu, já veterano e confesso que daquilo expectante, só me ria, “que fazer?”, e ela “ouve, são teus patrícios, tu é que os compreendes, o que é que eu faço?”, até aflita com a confusão e com as hipotéticas reacções. Lá lhe fui passando a minha modesta opinião, de experiência feita, que nada, que se deixasse ela ficar quieta, e também assim os seus empregados. Então não tinha alugado o espaço? Aquilo era oferecido na recepção, e no entender dos convivas era para levar, a casa não tinha nada a ver com o assunto. Ela que se deixasse ficar. Assim mais sossegados bem se riram, ela e os empregados, entre exclamações a cada episódio da pilhagem em curso.

Note-se que estes episódios são já tradição. Após cada evento destes participei em conversas animadas ecoando tais comportamentos, partilhadas entre gente divertida com tudo isto. Ou exaltada, alguns patrícios acabrunhados com “isto é uma vergonha!”. E nessas conversas, tanto com moçambicanos como com portugueses aqui veteranos, narram-me, memorialistas, que aquando de uma anterior visita do Presidente Mário Soares se realizou uma recepção à comunidade, ainda que de menor dimensão, e também então os convidados saíram de mala cheia. E outros, mais antigos, lembram que quando o Presidente Ramalho Eanes visitou Maputo, em 1981, até pancada houve à porta da recepção, tamanha a angústia estatutária e comensal.

É interessante notar que nestas recorrentes conversas sobre a matéria alguns patrícios, convivas, exprimem, entre o embaraçado e o indignado, explicações de índole étnico-cultural para estes acontecimentos. Nas suas opiniões quem pratica estes actos de apropriação de queijos da serra (e de presunto) são os portugueses de origem indiana, aqui uma percentagem significativa da pequena comunidade. Pois não esquecer que Goa foi um alfobre do Império.

Mas posso afiançar que esta explicação étnico-culturalista não corresponde à verdade empírica, e é aliás exemplo paradigmático das formas de desvalorização “racial” – é sempre o diferente o “culpado” de algo que agride o que é considerado norma. Neste caso a norma de convidado em casa alheia. Note-se que nada há de ideológico nesta minha negação da responsabilidade indodescendente, “goesa”, do roubo de queijos (e presuntos). Ela é produto de pura empiria, observação directa, até atenta (e divertida?). Este costume, o da ” apropriação ritual dos queijos da serra” cruza diversas origens geográficas, religiosas e culturais. Certo é que assisti a alguns portugueses indodescendentes partirem com queijos da serra, mas também assisti a muitos portugueses eurodescendentes nos mesmos propósitos.

De todos estes episódios pode-se pois retirar um padrão comportamental. Que ultrapasse o jocoso. Em meu entender este é já um comportamento tradicional, aquilo que a velha etnografia chamava de “usos e costumes”, presente ente alguns extractos da comunidade portuguesa. Que assim representam a concepção que têm da relação havida com os seus (longínquos) representantes eleitos. Quando estes se aproximam extraem-lhes as oferendas, potenciam-nas. Aquilo a que eu, repetindo o acima considerado, teorizo como “a apropriação ritual dos queijos da serra” (e em calhando dos presuntos).

Presumo que isto possa ser interpretado desta forma: largos extractos dos portugueses aqui residentes, porventura não tanto a sua elite económica, sentem-se abandonados ou desprezados pela sociedade ou pelo seu Estado. Fruto da história complexa deste país, da descolonização. E também das levas de migrantes colonos desfavorecidos, dos quais alguns aqui se mantiveram, sempre reclamando algum apoio estatal. E não esquecendo o estigma do “português de segunda”. E também de gente que por cá está e sente uma lassidão nos laços com o Portugal de origem, sempre desejáveis de reafirmar.

Nesse sentido esta apropriação de bens comestíveis nos momentos cíclicos em que a sua nacionalidade é reafirmada em eventos festivos e rituais (as visitas de Estado) não pode ser considerada apenas como fenómenos de cupidez e má-criação, para além de apetite. É também uma catarse de uma relação complexa com o seu Estado, uma afirmação daquilo que sentem, uma sensação em que se auto-definem como credores do seu Estado, do seu país. Do abandono em que se reclamam. E, obviamente, da sensação de orfandade que o fim do Império deixou em alguns extractos sociais, e neste caso explicitamente naqueles que não eram os mais favorecidos, nem nisso se tornaram.

Em suma, esta apropriação de bens comestíveis, simbólicos ainda para mais, simbolizando uma “essência gastronómica”, uma “essência cultural” portuguesa, funciona como uma apropriação ritual, uma reapropriação de portugalidade, dos quais se sentem privados, não pela História, não pelo contexto, mas exactamente pelo devir do Estado cujos dignitários aqui acorrem periodicamente.

Neste sentido é extremamente significativo o facto do vinho não ser raptado. Símbolo também de uma “maneira portuguesa” ele é no entanto passível de ser conotado com formas de etilização, e portanto a sua apropriação poder ser mal-entendida, desvalorizada como uma deriva orgiástica, dionísica. A apropriação do vinho seria entendível no quadro de uma imoralidade apropriadora, festiva. A apropriação ritual dos bens comestíveis é entendível como inserida numa moralidade de devolução, de reapropriação do “que é nosso”. Estamos no domínio da cobrança de uma dívida.

Não discuto se terão razão, não é isso que me interessa. Afirmo que o sentem e assim o expressam, ritualmente. E afirmo também que adoram queijos da serra e presunto.

Hoje o Primeiro-Ministro Durão Barroso chega a Moçambique. E logo à tarde há a recepção à comunidade portuguesa. Estarei presente, honrado com o convite. Mas de olhar antropológico atento, procurando comprovar se o ritual se repete.

Com um sorriso, claro está. Mas também compaixão. E, honestamente, apetite.

(Maputo, Março 2004)

Um jantar em Maputo

Um velho texto lembrando um jantar por cá. Coisa refeita, donde requentada (e até já posta num velho ma-schamba) nisto de andar a juntar tralha.

UM JANTAR EM MAPUTO

Ao Fernando Veloso, amigo e co-comensal

Já passaram muitos anos, mais até do que deviam, desde o jantar que agora recordo. Eram tempos outros aqui, eu ainda quase-chegado, nos quais se apregoava o “regresso dos portugueses”, dizer então por tantos ecoado, movimento talvez aspirado lá na minha longínqua terra e por cá decerto muito suspirado. Mas tudo isso era, e no acima de tudo, coisas do grande exagero, cá e lá, lá e cá. E já na altura o era fácil adivinhar, quanto mais no hoje então futuro.

No entrementes desse corropio de conversas e aviões aportou a Maputo uma célebre jornalista patrícia, pronta a reportar o referido regresso, suas possibilidades e os já sucessos nesse caminho. Não era raro este tipo de visita, não era raro tal trabalho, era até agenda colectiva, colegas a tinham precedido outros a perseguiram, teores e tons tão iguais. Rara seria, era mesmo, a fama agora companheira de viagem. E a grandeza do jornal acolhedor. Assim sendo, logo que anunciada a próxima chegada, foi a visitante esperada, comentada em murmúrios, nas antevisões da sua presença, até preparativos de obséquios, alindamentos generalizados. Sonhos até de ficar na fotografia. Ou, pelo menos, no texto.

Durante a breve estadia compareci a um seu jantar, este mesmo que aqui recordo, eu procurando não borrar imagem própria, entremeando um conjunto de individualidades moçambicanas, bem pensantes todos elas, ali pontificando jornalistas, médicos renomados, escritores, professores, guias de movimentos sociais, qual corte geológico na elite nacional. O objectivo do repasto era explícito, que à (boa) mesa refogasse ambiente amigo, que durante a degustação, palato acalmado, os reputados locais pudessem ecoar o quão bom aqui se considerava esse tal apregoado nosso regresso e até quais os anseios que este vinha colmatar. Decerto esperava o anfitrião, e também o desejava eu, que fosse amigável o diálogo, sublinhado pelo informal do ambiente, positivas as conclusões mesmo que transparecendo, aqui e ali, alguns “mas…”, esses “mas…” obrigatórios em conversas francas e inteligentes. Mas “mas…” minúsculos, com certeza.

No entanto o futuro, mesmo esse do curtissimo prazo, é aberto, caminho minado. E, mal-grado as expectativas, o encontro foi um desastre! Não estou certo sobre o que terá acontecido, males do repasto não terá sido, apreciável a cozinha, impecável a garrafeira, cavalheiro o “dono da mesa”. A causa do mal, concluí-o depois, terá sido o efeito de toda aquela fama à mesa, a própria da jornalista mas também a do seu jornal, súbito, no decorrer da conversa, ali brotado, sonhado, desejado, como caixa de ressonância, e poderosa, microfone óptimo para ecoar as não tão óptimas vontades no por cá, o agitar do “nem pensar” no regresso, mesmo que matizado, aos tempos antes. Enfim, o jantar foi qual caixa de Pandora a abrir-se, velhos estigmas e novos desconfortos a saírem das travessas da conversa, e a cada prato a azedar ainda mais. No fundo, ainda que rodeados de elegância nos trajes, ali ouvíamos um tonitruante “suca”.

Sobre os portugueses aqui presentes, esses nossos patrícios (e talvez nós mesmos, comensais), só malfeitorias e perversões se afirmavam. E se um dos convidados dizia “expulsem-nos” logo outro gritava, ainda que à mesa, “matem-nos” para de imediato alguém lhe somar um rubicundo “esfolem-nos” e ainda, já em estertor, se ouviria um “queimem-nos”. Eu, remexendo o prato, mais para o vazio, lá ia achando aquilo tudo uma catarse e, já agora, também uma provocação, lamentando-me de ali ter caído. Pois não era só a fama lusa, nem o microfone português, era também, e talvez o mais de tudo, a aparência da nossa elite, tão perto ali à mesa, a ser bombardeada, alvo de hipérboles, ainda que denotativas, reafirmações, talvez anacrónicas mas incisivas. Isso ia resmungando eu, ainda que me tentasse distrair de tudo aquilo, divagando-me debaixo da mesa a cavar buraco onde me escondesse de tudo aquilo.

Súbito a jornalista, constrangida e decerto estupefacta com tamanhas opiniões, tão contrárias ao seu esperado, interrompeu-as, enfática no murar: “mas…(um “Mas” Maísculo, este) não gostam de nós...?!?!”, “depois de tudo o que fizemos por vocês!”.

Confesso que após esta de nada mais me lembro. Abdiquei da sobremesa, mergulhei para o tal buraco e tapei-me.

Blogar em casa alheia. Em diálogo com este texto fui blogar aqui.

Aqui vai um excerto de uma entrevista de António Lobo Antunes à revista Visão (de há umas semanas atrás) onde, às tantas, se evoca a dita “guerra do Ultramar”, em Angola, em que o ilustre Autor tomou parte.

V: Ainda sonha com a guerra?

ALA: (…) Apesar de tudo, penso que guardávamos uma parte sã que nos permitia continuar a funcionar. Os que não conseguiam são aqueles que, agora, aparecem nas consultas. Ao mesmo tempo havia coisas extraordinárias.

Quando o Benfica jogava, púnhamos os altifalantes virados para a mata e, assim, não havia ataques.

V: Parava a guerra?

ALA: Parava a guerra. Até o MPLA era do Benfica. Era uma sensação ainda mais estranha porque não faz sentido estarmos zangados com pessoas que são do mesmo clube que nós. O Benfica foi, de facto, o melhor protector da guerra.

E nada disto acontecia com os jogos do Porto e do Sporting, coisa que aborrecia o capitão e alguns alferes mais bem nascidos. Eu até percebo que se dispare contra um sócio do Porto, mas agora contra um do Benfica?

V: Não vou pôr isso na entrevista…

ALA: Pode pôr. Pode pôr. Faz algum sentido dar um tiro num sócio do Benfica?

Usar Kumba Ialá para o blogo-”Monopólio” esquerda-direita é perfeitamente pueril. Aliás, é ridículo. (E sobre o “esquerda-direita” para análise política em inúmeros países africanos tem muito que se lhe diga). Em vez de patacoadizarmos será melhor ir vendo o que Jorge Neto ecoa diariamente.

Um monumento aos soldados da guerra colonial

Ao café da manhã, colega d’ ironia até mais não. “Então que achas do novo monumento lá em Portugal aos soldados da guerra colonial?”, irónico mas simpático, até chamando “guerra colonial” ao que aqui se chama “luta armada”.

Que sim…ouvi falar de um monumento, coisa qualquer, mas não sei, onde é que é?”, e ele, informa que em “Braga“, e eu que concordo, acho bem homenagens, gentes que foram convencidas / arrastadas para uma guerra serôdio, anacrónica, débil. “Mas tu sabes como é o monumento?”, pergunta-me.

Não faço a mínima ideia, mas o jeito da pergunta faz-me logo esperar o pior, e digo-lho, franzindo nariz e torcendo sobrolho. E ele, entre risos, “Pois fizeram um soldado comando, com uma G3 num braço e noutro carregando, protector, uma criancinha preta“…

Eu não acredito“, digo eu, arrastando pau-sa-da-men-te as letras. Mas não é verdade, eu não quero é acreditar. Será verdade? Será verdade que uma homenagem aos soldados não passa deste bacoco, paupérrimo, imbecilóide revanchismo, ainda, 30 anos depois, o bom soldado protector das populações e suas criancinhas, contra os turras? A reprodução, mera e hoje ignóbil, dos panfletos de “guerra psicológica”, da propaganda de então? A dizer à história que ela não existe, que é apenas erro.

Alguém conhece o dito monumento? Se isto é assim é isso o meu país? Que o foi, sei-o. Mas ainda o será?

Se isto é verdade, porque serão tão ignorantes as pessoas, agora que há escola para todos? E porque serão tão estúpidas, agora que sem verdadeiras fomes não se retarda o crescimento intelectual às crianças? Será genético? Será da alimentação? Porque serão tão estúpidas as pessoas? Se isto é verdade porque serão tão estúpidos os meus patrícios?

Se isto é verdade, claro. Mas custa-me a acreditar. Cheira-me a mal-entendido, talvez anti-portuguesismo, ainda que a querer-se simpático, deste meu colega.

Aqui deixo uma espécie de delenda cartago est privado: os soldados guineenses do exército português foram massacrados após a independência, apesar de um acordo explícito entre Estados para a salvaguarda dessa tropa. O então presidente da república luís cabral (sem maísculas, claro está) vive em Portugal (com maíscula?) desde então. ino ieira (sem iniciais), então comandante supremo, viveu em Portugal (com maíscula?) estes anos. ieira ainda foi ostracizado mas luís (sem apelido) ainda recolhe tença.

Depois queixam-se que os EUA não aceitam o tribunal de Haia? Esse onde luís cabral deveria apodrecer os seus últimos anos. Com tal vazio em casa queixam-se os militantes da justiça por imbecilidade? Por ignorância? Por distracção? Ou é mesmo só desonestidade?

Kináni (Quem Vive?), de Cardoso Mirão

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Cardoso Mirão, Kináni? Crónica de Guerra no Norte de Moçambique, 1917-1918, Lisboa, Livros Horizonte, 2001

Esta é a narrativa da campanha da I Guerra Mundial em Moçambique, pela voz de Cardoso Mirão, aí 2º sargento das forças portuguesas. Esta é uma parte da história muito pouco conhecida, tanto no diz respeito à participação portuguesa na I Guerra, muito centrada no palco europeu, como na formulação da ocupação colonial, então ainda muito incipiente em vastas zonas de Moçambique e inexistente noutras.

O livro é apaixonante, a descrição de uma campanha desorientada, que em pouco mais se traduziu do que numa longa e terrível caminhada pelo norte do país, e neste caso com quase inexistência de combates.

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Trata-se de uma caminhada louca, ecoa-se o sofrimento inadjectivável de uma tropa errante, descomandada, desinformada, gradualmente desnorteada e logo desmoralizada. Sofrendo a inexistência de logística e a inadequação dos equipamentos (algo que este auto-retrato explicita). E tudo isto potenciado pela constante agressão da Natureza, os predadores, uma terrível fome, uma permanente sede e, acima de tudo, as doenças.

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É comovente, ainda hoje, ler os lamentos do sargento sobre a situação das suas botas, faltando-lhe ainda meses de infindáveis caminhadas.

Como pano de fundo de toda essa situação, mas realmente apenas como pano de fundo, o opressivo temor do confronto com o corpo expedicionário alemão, uma pequena força de grande gabarito, comandada por um oficial verdadeiramente lendário, o o general Lettow-Vorbeck, a cuja se encontrava em constante movimento via Tanganyka, e que nunca veio a ser vencida.

Para quem conhece a zona (e eu tive o acaso nada fortuito de ler o livro durante uma estadia no Niassa, amplamente referenciado) pode tentar imaginar a dureza desta campanha.

É um grande livro sobre guerra, praticamente sem combates. Nele respira um antigo exército, de uma crueldade hierárquica extrema, que se julgaria apenas de Antigo Regime, no qual oficiais e soldados eram ainda de dois mundos, de duas ordens. E ainda os africanos, arregimentados como carregadores, escondidos num terceiro mundo.

Será interessante notar que tanto em Cabo Delgado como no Niassa há ainda a memória camponesa desta guerra dos “ma-germanes”, difusamente datada numa época correspondente à real II Guerra Mundial. Efeitos da história local sobre a devastação provocada pela mobilização de milhares de carregadores, e sua extrema mortalidade, pelas forças em presença, alemãs, inglesas e portuguesas.

É pois um retrato espantoso. Da guerra e da sociedade que nela participava. Mas também uma visão especial de África. Não esta como a Ameaça, o Horror ( a la Conrad). Mas mais como o palco desse Horror, um horror interno.

Um livro único no memorialismo português. E, mais uma vez, uma pergunta, como não filmar uma história destas?

Antepassados

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Frederico Cesar Trigo Teixeira, A Ocupação do Moxico, Lisboa, Editorial Cosmos, col. Cadernos Coloniais, 1936 (?)

Um pequeno livro relatando a ocupação da zona do Moxico, uma expedição (de cujo Diário este livro é extraído) realizada em 1894-6. Começa este meu avoengo (o livro é tratado como se jóia de família) “Embora o cargo que desempenhavamos [chefe do concelho do Ambriz] fôsse dos mais invejados, por representar uma autêntica sinecura, visto que no porto de Ambriz tocavam obrigatoriamente todos os navios que da Europa vinham ou para lá se dirigiam, e que na vila, então a terceira da colónia em população europeia e movimento comercial se levava vida despreocupada e agradável, não hesitámos em trocá-la [pelo posto] que nos era oferecido“… [a cumprir o destino traçado por quem lhe atribuíra nome, sorrio eu diante do tonitruante “Frederico Cesar”] “comandante da Colónia Penal Militar” com instruções de que “além da instalação no Pêo da Colónia Penal Militar Agrícola, deveríamos fazer a ocupação dos vastos territórios do Moxico, do Algo Quanza à nascente do rio Zambeze, daí à nascente do rio Cabompo, seguindo a margem dêste rio até à sua confluência no Zambeze e, dali, até aos rápidos de Catima“.

Para isso tudo “Fizemos…uma requisição de 250 soldados“, mas como “não os havia” lá partiram “Tendo ministrado instrução militar aos 72 condenados que levavamos“. [5-6]

Depois é a descrição, factual, dos eventos da expedição e, para mim muito de interesse, do imbricar de relações com os chefes locais (sobas), até ao seu retirar por motivos de saúde: “Deixámos construída a fortaleza com a área de 9135 metros quadrados, 7 e meio hectares de terreno cultivado, treze casas construidas e estabelecidos os postos de Chindumba, Nana-Candungo e Caquengue, no Zambeze - postos estes que no litígio com a Inglaterra foram motivo para que nos fosse reconhecido o direito de posse dos territórios em volta, numa extensão aproximada a trinta [é uma gralha, são trezentos] mil quilometros quadrados.”

A evocar um antepassado. Mas também a recuperar um bocado da história. Olhando, sempre com espanto, para as forças então em presença. Uma dimensão que hoje sempre parece irrisória.

Ah, e o cinema português? Não o épico, mitificador. Mas um a olhar para este manancial de pequenas histórias dos homens. Só essas grandes.

Programas eleitorais portugueses e as relações com África. Abaixo prometi(-me) abordar os programas eleitorais portugueses relativamente à política de ajuda pública ao desenvolvimento (vulgo cooperação). Ainda…

Mas o atento Eugénio Costa Almeida já escreveu sobre o assunto, um artigo que está aqui. A ler. Com um sorriso.

Sobre vistos de entrada em Portugal ocorre-me perguntar, na sequência da entrada abaixo (mera associação de ideias).

Política de imigração e de vistos? Que fazer? Porque é que é tão difícil para os moçambicanos obter um visto de entrada em Portugal? Quando a emigração moçambicana para Portugal é tão reduzida (o moçambicano emigra para a África do Sul. Os poucos que iriam para a Europa não procuram Portugal na sua maioria, e os que procurariam entram na categoria “brain drain”, e a esta não se fecham portas em lado nenhum, como bem sabemos).

E falo de dificuldades também de gente costumeira por lá. Estudantes, ex-estudantes, lusodescendentes, empresários, artistas (então artistas plásticos a viajarem para exposições é um cabo dos trabalhos, sei-o bem), professores (idem), jornalistas (idem). E, claro, dos que não são costumeiros mas até poderiam vir a ser.

Schengen, a União Europeia? Decerto que é isso, um poderoso obstáculo às nossas relações privilegiadas, lusófonas, não será assim? A U.E., nisto malévola, a prejudicar as relações portuguesas com África. Invejosa do nosso luso-tropicalismo, perdão, afecto lusófono.

Sendo assim por que será que as pessoas vão às embaixadas nossas vizinhas, onde é tão mais fácil e rápido obter vistos? Para logo voarem para Lisboa. Da qual regressam a sua casa, quando acabado o que tinham para fazer.

Pois, vistos dados por países europeus relapsos nestas questões, sem a experiência de vagas de imigrantes, dirão. Claro, Espanha, Holanda, França.

Aberrante.

Dirão logo, os vistos não são coisas de programas de partidos, nestes estão coisas mais vastas, englobantes, orientadoras, “estruturantes” (bela palavra, comovedora até). Claro, já imagino por lá, a “bold” até o “apoio ao desenvolvimento do ensino da língua portuguesa”, o “reforço da cooperação multilateral na CPLP”, “a coordenação do apoio à internacionalização das empresas portuguesas”. E coisas assim.

Claro, Espanha, Holanda, França….

Adenda: isto, ressalvadas todas as diferenças, parece saído de um post do Super-Blasfémias (e com a deselegância do sem ligação). Não, talvez apenas o mesmo molde. Ou será o inconsciente colectivo?

Política Externa Portuguesa em África

Surpreendem-se (sei que retoricamente) os companheiros do Bazonga da Kilumba sobre a exiguidade e superficialidade das referências à política externa africana nos programas dos grandes partidos portugueses.

Apesar do tudo não deixa de surpreender (não retoricamente). Não deveriam os partidos do poder ter algo mais sobre o exercício do poder?

Um sorriso amigo para eles, os bazongueiros claro está. E este é um assunto a regressar, claro.

Adenda: tal como pedi no Bazonga, será que alguém me poderá enviar os endereços dos tais programas políticos?

Futebol português na TV aqui

No início deste campeonato português (qual Superliga qual carapuça), confrontado com as mudanças ocorridas em Portugal nas transmissões futebolísticas, aqui deixei as minhas preocupações com a continuidade do acompanhamento via RTP-I e RTP-África da bola lusa. Essa que é aconchego para imigrantes. E o grande laço com os países antigas colónias. Preocupações essas que então tiveram eco em alguns amáveis bloguistas.

Lembrando essa amabilidade, e chegados a meio do campeonato, aqui notifico sobre o assunto. Nunca se viu tanto futebol. As RTP-I/África transmitem o joguinho semanal. A cadeia moçambicana outro (às vezes em simultâneo), tal como a televisão angolana (esta por vezes até mais do que um jogo), aqui retransmitida via TVCabo.

E desde há algumas semanas esta TVCabo transimite no seu canal 1 quatro ou cinco jogos por semana. Ou seja, bola que se farta. (E efeitos do fim do reinado RTP?).

Aqui os i/emigrantes agradecem a escalfeta (ainda que o calor aperte, apesar das chuvadas). Agora vou ver o meu Sporting. E logo a seguir o Porto. Depois de ontem ver o Benfica. E antes o Boavista…(que vergonha).

Livraria Lisboeta

Uma livraria em Lisboa dedicada a temas africanos, a Mabooki, sita na Rua João Pereira da Rosa, nº 8, Bairro Alto. Uma vista de olhos pelo catálogo já aqui dei, mas nada como um mexer nos livros. Fica lá para Setembro (decerto que então haverá mais livros). A não ser que os leitores daqui e do atento A Sombra dos Palmares, de onde retiro a informação, os comprem todos.
Nota: o nome talvez seja inspirado cá na terra, até pela cadeia de livrarias Mabuko. Bem sacado então, boa sorte.

Ainda a deslocação do ministro a STP

Continua a polémica sobre a visita de Morais Sarmento a S. Tomé e Princípe, com tons diversos (p.ex.), decerto que também animados pelo pedido de demissão por esta causa e por um auto-desculpabilizador comunicado que francamente … demonstra que não há mínima visão do que está em jogo. [notícia abaixo transcrita, dado ligações serem perecíveis]

Sei que me repito (a maldita idade) mas tenho pena desta vertigem, a do campanhismo (estou-me a auto-censurar, a primeira versão era “a da pequena política”).

Tenho pena. A cooperação portuguesa é frágil, a política africana portuguesa é deficitária (atenção, não inverter os termos, não é de falta de recursos que falo). Uma das grandes causas disso é a excessiva descentralização da cooperação, a sua irracionalização, a sua “pelourização”. Tudo isso causado por uma tradição colonial que teima em sobreviver [já o disse] mas também em vaidades ministeriais e estratégias de afirmação dos organismos sub-ministeriais, muito ciosos nos seus “departamentos de cooperação”.

Um acontecimento destes, em si nada particular, dados os seus ecos públicos poderia ser aproveitado, poderia alimentar uma nova visão de regime sobre a cooperação. Que a subordinasse em exclusivo, e efectivamente, ao Ministro dos Negócios Estrangeiros e ao Secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Cooperação.
Esta não é uma visão franciscana, nem crítica, nem tampouco jocosa. É, e perdoem-me a arrogância do “saber de experiência feito”, um desejo de eficiência. E é uma visão que se quer patriótica.

[palavra difícil esta última, ai a história recente. Mas em não havendo “paisótica” e não significando “nacionalista”, aqui vai como traduzindo um modesto desejo do bem comum]Adenda: haverá melhor exemplo da desorientação na política africana de Lisboa do que este novo capítulo, em que o ministro da Economia [esqueça-se o actual nome “giro” do ministério] Álvaro Barreto publicita o desconhecimento do interesse da GALP em STP, explicitando-se desinformado. E o MNE nada dirá, pois grande diplomata. Tri-repito-me, tudo isto é o padrão, o mero costume. Um amadorismo vaidoso, nada mais.

Política 12-01-2005 - 07h55

De acordo com um comunicado oficial distribuído hoje de madrugada
Viagem de Morais Sarmento a São Tomé custou 65.200 euros
Lusa

Os custos da deslocação do ministro Morais Sarmento a São Tomé e Príncipe ascenderam a 65.200 euros, enquanto os apoios concretizados ou anunciados são superiores a 1,375 milhões de euros, segundo um comunicado oficial distribuído hoje de madrugada pelo gabinete do ministro.

O comunicado recorda o programa da visita - entre 6 e 11 de Janeiro -, o seu enquadramento e os custos da deslocação de Morais Sarmento e respectiva comitiva, no total de sete elementos, cuja realização tem sido criticada pela oposição, que acusa o ministro de ter gasto mais de 80 mil euros para fazer férias, considerando que a viagem não se justificava.

Em causa está, sobretudo, uma deslocação à ilha do Príncipe e o facto de no dia 8 de Janeiro, sábado, não ter havido qualquer acto no programa oficial da visita, que o ministro aproveitou para participar num programa de mergulho.

Santana Lopes recusa pedido de demissão de Morais Sarmento

Morais Sarmento revelou ontem à noite que pôs o seu cargo à disposição do primeiro-ministro, no regresso de São Tomé, mas que Pedro Santana Lopes lhe tinha reiterado a confiança, pelo que se mantinha em funções.

A nota distribuída hoje de madrugada refere ainda que a visita esteve inicialmente agendada para Junho e Julho do ano passado, não se tendo realizado nessa altura por impossibilidade de agenda de Morais Sarmento.

A nova data para a visita foi marcada para Janeiro, por “reiterado interesse” do Governo de S. Tomé, indica a nota, que confirma que o dia de sábado, na ilha do Príncipe, não teve qualquer ponto de agenda.

Além disso, acrescenta, o encontro previsto com o Presidente de São Tomé, na segunda-feira, acabou por não se realizar devido ao facto de a viagem do Príncipe para São Tomé ter sido feita por via marítima, dado que as condições climatéricas impediram a ligação aérea.

Para a viagem Lisboa-São Tomé-Lisboa, em ligação directa, a nota refere que foi inicialmente considerado o recurso a um dos Falcon da Força Aérea (com um custo de 45 mil euros), tendo-se optado pelo aluguer de um avião particular devido à indisponibilidade do Falcon.

Segundo o comunicado, o aluguer do avião à empresa que apresentou o preço mais baixo, a Heliávia, custou 63.200 euros, enquanto a estada da comitiva em São Tomé e Príncipe orçou os dois mil euros.

Quanto aos objectivos da visita, a nota realça a cooperação, sobretudo no domínio da comunicação social (RTP,RDP e Lusa), da cultura e da exploração petrolífera.

A comitiva integrava também quatro elementos do gabinete de Morais Sarmento, um administrador da RTP e um administrador da Galp.

Cooperação para o Desenvolvimento

É no Blogquisto que leio o eco da deslocação do ministro Morais Sarmento a S. Tomé e Príncipe. Muito desagradável, não só pelas despesas públicas que possibilitam as actividades paralelas inclusas (mesmo que estas sejam pessoalmente custeadas). [Adenda: neste caso particular há uma interrogação que todos fazemos mas que Paulo Gorjão explicita em termos pessoais, e cuja resposta é muito melindrosa, talvez até devastadora].
Mas acima de tudo pela imagem de displicência que transmitem ao interlocutor. Para mais o à vontade com que os responsáveis políticos deixam transparecer essa imagem displicente significa também uma desvalorização desses mesmos interlocutores, um “pouco importa a opinião deles”! E não nos enganemos, tudo isso é apreendido, todo esse “turismo político-administrativo” causa ruído nas relações. Reduzindo o impacto político positivo das relações de cooperação para o desenvolvimento. Ou seja, para além de incorrecto é um mau serviço ao país.
Nada de novo, atenção! Entre tantos outros casos similares a que aqui assisti recordo um particularmente acintoso, ocorrido há alguns anos. Um outro ministro, tão sonante então como o é hoje Morais Sarmento, que aqui chegou com sua comitiva na quinta-feira, descansou, reuniu, sexta de manhã seguiu para Bazaruto, segunda à tardinha voltou, jantou intra-muros, terça rerreuniu e logo regressou a Lisboa via Joanesburgo. Quem cá estava, acompanhando claro, questionado sobre o sumo da coisa nem sorriu no “não veio cá fazer nada”. E não tinha vindo. É um entre tantos casos, entenda-se, trago-o porque deste me lembro do calendário. Talvez por também me lembrar do ministro, dos meus tempos de Faculdade de Direito, onde ele falsificava os resultados de votações de braço no ar às moções que propunha. A Ministro (por enquanto) chegou ele! E ao Bazaruto, já agora.
Mas há um outro ponto sobre estas visitas ministeriais aos países africanos da CPLP surgidas ao abrigo de projectos de cooperação. E é esse o mais importante. É que elas são politicamente descabidas. Não têm qualquer justificação. Entenda-se: os projectos de cooperação para o desenvolvimento são uma actividade de política externa. É natural que para a sua realização os diferentes organismos do Estado sejam convocados. Mas o seu acompanhamento político deve, naturalmente, realizar-se através do ministério que se ocupa da política externa, pelo que todos os outros ministros estão a mais. As suas únicas visitas justificáveis são as decorridas no âmbito de reuniões multilaterais, e esses são casos muito raros, e, vá lá, enquadrando visitas de Estado do PR ou do PM para avaliações mais globais de perspectivas futuras.
Entenda-se, este vai-vem ministerial nas ex-colónias, este acompanhamento in loco das tarefas que os “seus” serviços realizam/”cooperam”, nada mais é do que um resquício do Império, como se a sua tutela ainda se estendesse até África.
É um resquício gastador. É (e veja-se os casos referidos) um resquício indecente. Mas acima de tudo é um resquício anacrónico, tardo-colonial, portanto politicamente negativo e nada diplomático, pois também assim percebido pelos parceiros.
Urge crescer.

Maria Filomena Mónica e Boaventura Sousa Santos

No Público de ontem Maria Filomena Mónica escreve sobre Boaventura Sousa Santos [texto abaixo transcrito - e honestamente justifica-se lê-lo]. Ataca-o referindo a sua poesia (a qual nem comento, aliás esse foi assunto muito blogodesenvolvido há alguns meses), ideologia (passo) e colaborações em manuais escolares (desconheço-os).
Mas debruçando-se também, em termos caústicos e pretensamente críticos, sobre o trabalho que BSS aqui co-organizou com João Trindade, “Conflito e Transformação Social: Uma Paisagem das Justiças em Moçambique” (Porto, Afrontamento, 2003), fruto de trabalho articulado entre académicos moçambicanos e portugueses. Note-se que realizado não só “de parceria com um exército de assistentes universitários” (como MFM refere) mas também com a participação de parte da elite académica daqui, doutorados seniores cujos percursos profissionais não os envergonharão face a MFM. Talvez negue essa equiparação, vendo-a como palavras desses que andam declarando, à Rousseau, que os “selvagens” eram, pelo menos, tão “bons” quanto nós. Mas só se for essa a sua matriz.

É espantoso o que MFM refere sobre o referido trabalho/livro dedicado à análise das “justiças” em Moçambique, dos processos reais e da política estatal, da presença de um pluralismo jurídico e de como ele tem vindo a ser conceptualizado e gerido politicamente.

Que fique claro, nada me liga a BSS. Tive até a infelicidade de por ele ser completa e publicamente torpedeado profissionalmente, de modo totalmente injustificado e despropositado (e esta sucessão de advérbios ecoa uma ira velha: nem uma privada desculpa posterior por tal infâmia!). Noutro registo, tenho, modesto antropólogo, as maiores reservas à sua visão da história do colonialismo português, ainda para mais porque apresentada como âncora de um projecto político (académico) - tal como explicitou no último congresso luso-afro-brasileiro de ciências sociais, em Setembro passado. Que são ideias muito problemáticas - mas quem sou eu…

Estas ressalvas, a pessoal e a ideológica, podem parecer inúteis. Mas não. Estão aqui como “negrito” para o que se segue:

Lendo-a é óbvio que Maria Filomena Mónica não percebe nada do assunto sobre o qual escreveu, não sabe nada sobre os processos sociais e jurídicos moçambicanos (afinal, é apenas a matéria do livro tão botaabaixado), não tem qualquer fundamento real. Esta crítica ao “Conflito e Transformação Social”, se é que é disso que se trata, nem justifica contra-argumentação tão explícita é a sua indigência. Patacoadas.

Mas também é certo que nada disto lhe interessa, e que a croniqueta são meras tricas de corredores. Ou por outras palavras, coisas da elite.

Adenda: sobre este assunto ver este acertado texto no Esplanar bem como o texto de Pedro Caeiro no Mar Salgado, tão mais interessante neste caso pois PC já habituou a blogosfera à sua solidez de jurista. Pelo contrário noutros blogs de minha muita predilecção, como Complexidade e Contradição e o notável Jaquinzinhos, a adesão a este tipo de discurso foi total. Estão, é óbvio, no seu direito, mas deles visita constante não deixo de o lamentar.

O Sociólogo-Poeta Boaventura Sousa Santos
por Maria Filomena Mónica

Sábado, 04 de Dezembro de 2004

No último mês de Agosto tive uma revelação. Descobri que, nos seus tempos livres, o Prof. Sousa Santos é, ou foi, poeta. Muitos de nós - por sorte escapei à regra - escreveram versos durante a adolescência, os quais, atingida a idade adulta, eram geralmente deitados para o lixo. O mesmo não o fez o Sociólogo-Mor do Reino, Prof. Boaventura Sousa Santos. Tendo publicado a sua poesia, em 1964, sob o nome de Boaventura de Sousa, decidiu reincidir, em 1980, num livrinho intitulado “Têmpera”, o qual surpreendentemente não faz parte do farfalhudo “curriculum vitae” que aparece na Internet.

Ainda pensei em fazer uma análise pseudo-laudatória, usando a linguagem críptica de alguns críticos literários, mas, não fosse alguém tomar a paródia a sério, acabei por desistir, oferecendo, em vez disso, excertos destas jóias líricas. No livro, publicado pela Centelha, há um pouco de tudo, desde recordações da educação católica (ver “Cravo Mal Temperado-I) a poemas pseudo eruditos (ver “Novo Mundo”) passando por dislates incompreensíveis (ver “Cravo Mal Temperado-II).

Os poemas mais canhestros, mas os mais cómicos, são os de natureza erótica. Começo por citar uma estrofe retirada de “Labirinto”: “…e muitas vezes sou um rego d’água/ a beber as raízes do teu corpo de nogueira”. Do mesmo poema, leia-se: “A rua retesada/ guarda todos os sinais/ (…) faz parte deste tiro/ estar no alvo/ e retirar-se/ faz parte desta gota/ ser a taça e alagar-se/ faz parte deste cisma/ ter entranhas e sujar-se/ faz parte deste coito/ estar a um canto a masturbar-se”. Existem muitos outros poemas, simultaneamente pretensiosos e indigentes, como o “Material de Construção”, o qual abre com as seguintes linhas: “Desmamaram-se virgíneas tetas/ e os limões ali cheirando/ que da Ilha dos Amores saíram/ e do silêncio” ou o “Ode à Infância”, onde surgem estrofes como ” …nas ruínas do ciclone de quarenta/ trabalho manuais sem mestre nem montra/ entram chefes guerras caracóis/ tesouras e pauzinhos/ nas rachas das meninas/ na catequese é em coro/ e em filas/ no escuro dos intervalos/ medem-se as pilas/ Boaventura tens quebranto/ dois te puseram três te hão de tirar/ se eles quiserem bem podem/ são as três pessoas da Santíssima Trindade…”. Que tal?

Homem feito, Boaventura Sousa Santos ainda se orgulha da sua escrita adolescente. Num país onde não existe uma única revista de livros, a coisa passou desapercebida. Até eu levei décadas a dar com ela. Mas, ao fazê-lo, fiquei de boca aberta. Cem anos depois de Cesário Verde ter transformado a poesia portuguesa, o sociólogo de Coimbra ousava oferecer ao público uma série de poemas primários, possidónios e indecorosos, sem que ninguém - a editora, a crítica, os familiares - o tivesse caridosamente prevenido do perigo do gesto. Nos salões pequeno-burgueses do centro do país, estas coisas ainda devem ser apreciadas. Para vergonha do país. Sem ideia, sem originalidade, sem cor, a sua poesia nada exprime. Pasmada, nem ela compreende o seu tempo, nem ninguém a compreende a ela. Fala do perfume quebradiço das glicínias entre a tarde manifesta de Abril, onde o povo prepara o jantar nas folhas de auroras jacobinas e onde alguém escreve guerras contra a gritaria melada duma coca-cola morta. Que Diabo quererá dizer isto? Quando muito, o autor pretende dar lustre aos entediantes trabalhos com que, por esse mundo fora, anda a ganhar o pão de cada dia.

Mas que esperava eu encontrar naquele volumezinho descoberto, entre o pó, numa tarde de Verão? Não deveria saber que o mais certo era deparar-me com as delícias, delíqueos e delírios que agitam os arcaicos cérebros de Coimbra quando lambuzados com o verniz dos crânios que se passeiam por Wisconsin? Em 1871, na sua primeira “Farpa”, Eça de Queiroz escrevia que, na literatura nacional, havia uma santa distribuição do trabalho: no final, o autor recebia a condecoração de Sant’Iago, o editor ficava com as perdas financeiras e o leitor entediava-se. Foi isto - ou pelo menos a primeira parte - que, em 1996, aconteceu a Boaventura Sousa Santos, quando o então Presidente da República, Mário Soares, lhe colocou no peito a medalha de Grande Oficial da Ordem Militar de Sant’Iago de Espada. Se o leitor quiser conhecer melhor a alma do homenageado, mais não tem do que ir a um alfarrabista, onde encontrará facilmente resmas atrás de resmas da sua obra poética. Mesmo que, como eu, pertença ao sexo feminino, nada tem temer. Que eu saiba, o Prof. Sousa Santos jamais foi acusado de assédio sexual. Os seus devaneios destinam-se tão-só a fazer corar as meninas das aldeias.

Estava eu a meditar nos seus poemas, quando, ao entrar numa livraria, descobri dois manuais do 12º ano, um, intitulado “Sociologia”, e outro, “Introdução ao Desenvolvimento Económico e Social”, redigidos por professores do Ensino Secundário, mas ambos com “a participação do Prof. Dr. Boaventura Sousa Santos”. No seu conhecido estilo, eis o que o catedrático diz no prefácio ao primeiro livro: “A aprendizagem de uma disciplina como a Sociologia, disciplina pouco codificada e em grande medida devedora de uma ‘pedagogia do silêncio’ - do ‘faz como eu’ - necessita do empenhamento dos professores numa prática de pedagogia activa, através da qual se familiarizem os estudantes com uma forma de conhecimento da sociedade que, no essencial, é uma forma de educação para a cidadania”. Temendo não ter sido claro, acrescentava: “Partindo deste manual, os docentes podem fomentar a capacidade de espanto e mesmo de indignação, elementos que em meu entender devem estar no cerne de um projecto educativo adequado ao tempo presente. Trata-se de um projecto orientado para combater a trivialização do sofrimento, por via da produção de imagens desestabilizadoras a partir do passado concebido não como fatalidade, mas como produto da iniciativa humana. Um passado que, tendo opções, não optou pelas que evitariam o sofrimento que foi e continua a ser infligido a grupos sociais tão vastos, em todo o mundo, e à própria natureza” (sublinhados meus). Que tal como introdução a uma disciplina supostamente científica? Não perceberão os docentes, os pais e os cidadãos que esta prosa, altamente ideológica, corresponde à agenda política de alguém que, provindo da Direita católica, se converteu, após o 25 de Abril, num dos arautos do Movimento Anti-Globalização? Desnecessário é mencionar o segundo prefácio, uma vez que, na essência, é igual ao primeiro.

Mas vale a pena analisar o seu mais recente livro, “Conflito e Transformação Social: uma paisagem das justiças em Moçambique”, um texto com ambições, escrito, como de costume, de parceria com um exército de assistentes universitários. Após a adopção do relativismo cultural nos 1960, muitos sociólogos adoptaram uma posição romântica, declarando, à Rousseau, que os “selvagens” eram, pelo menos, tão “bons” quanto nós. Foi uma reviravolta com consequências imprevisíveis. A incapacidade em afirmar a superioridade das tradições culturais do Ocidente contribuiu fortemente para a complacência com que muitos dirigentes do Terceiro Mundo, alguns deles criminosos, passaram a ser encarados.

Boaventura Sousa Santos transformou-se, nos finais dos anos 1970, num influente consultor jurídico dos governos dos PALOP (Angola, Moçambique e Cabo Verde). Subsidiado por organizações supostamente respeitáveis, tem feito dezenas de trabalhos em África, mas as suas investigações estão longe de ser neutras. Basta notar o plural do título, “Justiças”, para nos apercebermos do preconceito subjacente aos seus trabalhos. Diante do silêncio dos professores de Direito - os quais temem criticar alguém que se refugiou numa disciplina por eles considerada esotérica - Sousa Santos tem vindo a legitimar práticas menos felizes. Não, nem tudo se equivale. Há sociedades mais iguais, mais livres, mais dignas do que outras. Sei que, se optar pelo caminho do adultério, jamais serei apedrejada em Portugal. O mesmo não me podem garantir as sociedades onde funcionam “as justiças” locais.

Não vou citar, com profusão, o que Prof. Boaventura Sousa Santos escreveu, porque isso só serviria para afastar os leitores. A fim de poderem, todavia, ficar com um gostinho do género, eis uma frase do início: “Neste capítulo, concentramo-nos numa questão específica: as relações entre o Estado e a pluralidade de direitos que, reconhecidos ou não oficialmente, regem os conflitos e a ordem social. Apesar de o paradigma normativo do Estado moderno pressupor que em cada Estado só há um direito e que a unidade do Estado pressupõe a unidade do direito, a verdade é que, sociologicamente, circulam na sociedade vários sistemas jurídicos e o sistema estatal nem sempre é, sequer, o mais importante na gestão normativa do quotidiano da grande maioria dos cidadãos”. Pode parecer uma afirmação factual. Mas, subjacente a este olhar, está o desejo de legitimação de práticas legais “alternativas”, com raiz numa espécie de colonialismo invertido. Segundo esta corrente, a justiça dos brancos está manchada pelo pecado original do imperialismo; a dos nativos, porque mais genuína, é evidentemente melhor.

Ao longo dos séculos, os liberais têm louvado, e com razão, a importância do Estado de Direito. Podemos encontrar já elementos desta concepção no discurso que, no século V AC, Péricles fez em honra dos mortos da Guerra do Peloponeso. Eis o que Tucídides reproduziu: “Quando se trata de assegurar a solução de disputas privadas, todo e qualquer homem é igual perante a lei. (…) Somos livres e tolerantes no que diz respeito à vida privada; mas, no âmbito do espaço público, obedecemos à lei”. A Civilização Ocidental é herdeira destas palavras. Não podemos, não devemos, menosprezar este legado.

Não se pense que o facto de, em anteriores ocasiões, ter criticado Boaventura Sousa Santos releva de uma qualquer obsessão, causada sabe-se lá por que rasteiros motivos. Se escolho a sua figura é por fazer ela parte da “Nomemklatura” sociológica, não só portuguesa (via Associação Portuguesa de Sociologia), mas internacional (através das “redes” em que actualmente está organizada a investigação). Não vale a pena criticar soldados quando temos à mão um general. Na luta, há que apontar à cabeça.

B. de Sousa Santos e J. Carlos Trindade (org), Conflito e Transformação Social: Uma Paisagem das Justiças em Moçambique, Lisboa, Afrontamento, 2003.

M. Luz Oliveira et alia, Sociologia: 12º Ano, Lisboa, Texto Editora, 2003.

M. João Pais et alia, Introdução ao Desenvolvimento Económico e Social: 12º Ano, Lisboa, Texto Editora, 1998.

Boaventura de Sousa, Têmpera, Coimbra, Centelha, 1980

A língua e mais. O Horrendo Adamastor a falar da política da língua e cultura portuguesa no exterior. Em jargão de “comment” já lá deixei minhas discordâncias, mas o texto e as preocupações merecem atenção.

sons

É mais a televisão que me traz ao ouvido gente do interior de Portugal ou desses litorais que não são os meus. O que os traz cá a casa são os incêndios, as cheias, um mais macabro assassinato, afogamentos, a visita de algum dignitário, uma qualquer indignação tipo “de freguesia a concelho, já”, a vitória do clube da região, coisas dessas, do local, que o para o geral há outros que o pensam.

Chegam eles com os seus sotaques carregados, nem precisam de ser ilhéus, portugueses aquele bocadinho diferente pelo som, pelas entoações, expressões ditas “o vernáculo”, até caretas e já nem digo vocabulário e sintaxe.

Comentar isso, afivelar sorriso público com tais falares? Nem pensar, aceitar a diferença é bom, é valor. Ainda para mais esta, mera herança das gentes, como posso eu sorrir com o falar do povo, tão legítimo exactamente porque do povo, tão legítimo porque herdado, os sons de antanho, coisa imorredoira e nunca estratégia. Natural, pois então.

Mas se me chega a pronúncia de alguns urbanos, carregada, um português aquele bocadinho diferente pelo som, pelas entoações, expressões, até caretas e já nem digo vocabulário e sintaxe? Toca a rir desse sotaque, a invectivá-lo. Pois não é “natural”. Pois nele não é mera herança, não são os sons do passado, aquela natureza dos simples. São estes sons coisa estratégica, construída, mero modismo.

Pois, e sabe-se, tal como Deus Nosso Senhor o sabe, o povo é passivo, e também nos seus sotaques, é essa a sua natureza. Só os ricos, burgueses, são activos, estratégicos, nada dados ao que neles é puro e são. E, claro, são-no também nos seus sotaques.

Gozemo-los pois, a esses ricos, a essa gente da cidade grande, à sua pronúncia. Construída. Se falsos até no som, quanto mais serão naquilo que entoam.

Sim, gozemos, desmascaremos. É nossa obrigação, nossa missão, nós que nascemos bem, nós os sem-sotaque, reduzir esse linguajar novo-rico e acarinhar os falares naturais e simples, e ainda por vezes a estes elevar, traduzindo-os.

(Por vezes à noite tremo: e se Junot regressa, com as suas guilhotinas?)

Nota: não há nenhuma ligação (vulgo “link”). Pois nós escrevemos vários posts em vários blogs, nós temos muita palavra. Pesada, concisa. E, claro, sem sotaque.