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VOLANTE À DIREITA EM MOÇAMBIQUE

Jorge Vara exibe o seu primeiro carro em Lourenço Marques, 1 de Setembro de 1938

por ABM (23 de Fevereiro de 2010)

Tendo crescido em Moçambique, como toda a gente ali, habituei-me a viajar em automóveis com volante à direita e com o trânsito pela esquerda.

Uns anos mais tarde, descobri que a maior parte do resto do mundo, incluindo na “metrópole” (Portugal) se conduzia pelo lado direito da estrada. O que era curioso mas nada de especial.

Em 1978, por dez dólares e com a ajuda do pai BM, que me deu umas lições básicas, tirei a minha carta de condução nos Estados Unidos da América, onde vivia, e onde se conduzia pela direita, as ruas eram largas e bem sinalizadas e as regras muito simples.

Nunca tive problemas nenhuns até voltar a Moçambique na segunda metade dos anos 90 e me sentei pela primeira vez a conduzir pela esquerda. O problema era com os meus reflexos: quando vinha de férias ou de serviço a Portugal, por mais que uma vez, sem pensar duas vezes, quando dava por mim estava a conduzir  no lado esquerdo da estrada, para desespero dos sempre tão corteses motoristas portugueses, que aproveitavam logo para fazer comentários à minha ascendência feminina em termos pouco laudatórios.

Como passageiro, ainda hoje quando estou mais distraído, é comum, querendo eu entrar num carro quando estou fora de Moçambique, dirigir-me para o lado…do condutor.

Porque é que se conduz em Moçambique pelo lado esquerdo? a resposta é fácil: porque se conduzia à esquerda em todos os países com que faz fronteira, cujas regras de condução derivam dos padrões estabelecidos pela Grã-Bretanha.

Em Portugal europeu conduzia-se pelo lado esquerdo da estrada. Segundo um interessantíssimo historial deste tema num blogue brasileiro, foram os franceses no tempo da sua revolução que inventaram o padrão da condução pelo lado direito, cerca de 1794. Como a seguir invadiram quase tudo à sua volta, levaram essa regra com eles. Depois das guerras napoleónicas, a regra da condução pela esquerda na Europa permaneceu nos países que mais resistiram a tirania francesa; o Reino Unido, o império austro-húngaro e … Portugal. Claro que ajudou que na realidade, para ajudar os portugueses a organizarem-se contra os franceses, a Inglaterra naquela altura praticamente ocupou Portugal, o que durou uns anos. E o costume ficou.

Foi só após a primeira república ter caído de podre e ter sido instaurada a Ditadura (na altura só, e com “D” maiúsculo, Salazar sendo ainda uma incógnita), é que, de uma assentada, tudo mudou. Em meados de 1928, um ano após criada a Junta Autónoma de Estradas, foi legislado o primeiro código da estrada português e, pelo decreto n.º 18.406, de 31 de Maio de 1928, estabalecida a circulação pela direita nas estradas. Até então, a circulação automóvel em Portugal e nas suas colónias era feita pela esquerda, copiando a prática britânica.

Assim, a partir das 5 horas da manhã de 1 de Junho de 1928 em Lisboa, e à meia noite no resto de Portugal continental, para os cerca de 31 mil condutores com carta de condução e cerca de 28.000 automóveis então existentes, passou a ser obrigatória a circulação rodoviária pelo lado direito das estradas. O mesmo aconteceu na Guiné, em Angola e Timor e, presume-se, na Fortaleza de São João Baptista de Ajudá.

Mas em Macau, Goa e Moçambique, tendo em atenção as suas situações específicas, manteve-se a condução pelo lado esquerdo das estradas.

Em 1975, na sequência da anexação de Timor pela Indonésia – onde se conduz pela esquerda, o sentido da condução foi alterado. Não sei como ficaram as coisas em Dili e arredores depois da independência.

João Mosca sobre a Cooperação Portugal- Moçambique

[João Mosca, Economicando, Maputo, Alcance Editores, 2009]

João Mosca é um dos mais significativos intelectuais moçambicanos, alguém que é sempre urgente ler. Este recente livro é uma colectânea de textos na sua maioria publicados no jornal Savana, aos quais junta alguns produzidos para encontros académicos. A sua arrumação indicia as temáticas abordadas: ensino superior, investigação, economia, agricultura e cooperação. O seu quadro de reflexão sobre o país, e que tão presente sempre surge nos seus textos, é anunciado na introdução:

A formação e a exercício da actividade académica … e a interdisciplinaridade apreendida, conduziram ao que se pode designar por “suicídio” da formação de base. Compreendi os debates no seio da área de conhecimento da economia e dos ataques de outras ciências aos economicismos tecnocráticos e à incapacidade da economia, como qualquer outra ciência, de interpretar, explicar e encontrar soluções para a complexidade das realidades no quadro dos limites rígidos do objecto de cada uma das ciências.

Procurei um “suicídio” difícil. No lugar de abandonar a economia e estudar outras ciências (…), preferi a via da crítica à economia para, a partir dela, incorporar conhecimentos de outras áreas na tentativa de uma formação interdisciplinar.” (7)

Acabo de comprar o livro, li apenas alguns textos e, ainda que de alguns outros tenha memória da sua publicação em jornal, não posso fazer mais do que aconselhar a sua leitura. Como português e como antigo cooperante encetei a leitura pelo texto “Cooperação Portugal-Moçambique. A estratégia de não ter estratégia?” – apresentado na III conferência internacional de Lisboa sobre “Europa e a Cooperação com África”, organizada pelo IEEI. Para quem tenha algum interesse nas questões da “cooperação” portuguesa com Moçambique, ou em geral, é um texto insubstituível. Uma apuradíssima análise das dimensões institucionais, políticas e ideais presentes nesta área de actividade do Estado português, e na própria sociedade – faltará, em meu entender, uma profundidade similar no olhar sobre as dinâmicas da interacção moçambicana neste campo, algo que será compreensível dado o texto ter sido apresentado num plenário em Portugal.

Repito, para quem se interesse pela actividade de “cooperação” é obrigatório ler este texto (pp. 152-157). Dele poderia aqui deixar algumas transcrições mas opto por uma, breve, que reflecte algo que ao longo dos anos tanto tem estado presente, até em demasia, no ma-schamba. Ideia que parece simples, pacífica, mas que na realidade real tanto é esquecida apesar de ser racionalmente cristalina:

A dimensão e capacidade financeira portuguesa e a perda de oportunidade de protagonismo em alguns assuntos importantes da história recente moçambicana, sugere que Lisboa necessita reanalisar a cooperação com Maputo, devendo fazê-lo sem pensar nas supostas vantagens culturais e históricas.” (p. 157)

jpt

O SEGREDO DE CONSTÂNCIA

por ABM (Alcoentre, Sábado, 6 de Fevereiro de 2010)

A confirmação chegou num banal e-mail de um primo nos Açores à uma hora e quarenta minutos da madrugada do passado dia 14 de Janeiro de 2010 e concluiu um processo que eu começara muitos anos antes: a confirmação absoluta de quem era Constância, a jovem e elegante senhora cuja imagem aparece no topo deste texto, e que foi tirada em Agosto de 1892.

Há cerca de 118 anos, portanto.

De entre as informações sobre a genealogia familiar que obtive há quase trinta e cinco anos dos meus avós açorianos (bem, aquilo foi mais “extrair” que “obter”) e que visitei algumas vezes quando ainda vivia em Moçambique, há já algum tempo atrás referi aos exmos leitores uns detalhes curiosos sobre um tal Manuel Jacinto Lopes, que é meu tio-bisavô. Como referi na altura, do que descobri, o que me surpreendeu foi a mulher dele.

Mas confesso que, das pesquisas familiares que efectuei, a seguir a descobrir que os meus avós maternos se haviam conhecido e casado nos Estados Unidos da América nos anos 20 do século passado, onde estiveram emigrados alguns anos antes de regressarem a São Miguel, a descoberta mais fascinante de todas foi no que concerne a enigmática Constância.

Por três razões.

A primeira, foi que a minha avó paterna me ofereceu a fotografia de (então) uma tal “tia” Constância – a que está lá em cima – juntamente com algumas outras velhas fotos de família.

A segunda, foi que a minha mãe chegou a conhecer a senhora quando era menina nos anos 30. Lembrava-se dela perfeitamente. De tudo, desde a cor dos olhos, o sotaque, o sentido de humor, a cultura, etc. E que nunca se casara. Nessa altura Constância já era velhinha e morreria poucos anos depois.

A terceira foi que, confirmado pela minha mãe, a minha avó e agora pela minha tia paterna, Constância era mulata e falava com sotaque brasileiro.

Ora, para quem supunha ter sólidas raízes açorianas até aos primeiros colonos (estes, colonos mesmo) das ilhas açorianas no século XVI, e antes destes até obscura fidalguia do reino de Leão e Castela no Século XI, antes de Portugal existir como nação independente, a notícia de haver a possibilidade de uma raiz africana negra na família BM foi uma surpresa – uma grande surpresa. Uma total surpresa. Pois à partida não ocorria. Nada o aparentava e não havia registos que tal indicassem.

A primeira vez que ouvi dizer que Constância era mulata foi por puro acaso. Veio da boca de uma velha prima da minha avó paterna, que por acaso estava de visita a sua casa num sábado em fins de Agosto de 1975. Tinha eu 15 anos de idade e estava de férias no delapidado casarão de verão dos meus avós em Vila Franca do Campo, que fica perto do porto situado em frente ao Ilhéu da Vila. Esse casarão fora dos meus bisavós paternos, pais da mãe do pai BM.

Nessa tarde, lembrei-me de mostrar-lhe as fotografias que a minha avó tinha acabado de me dar, inocentemente, para ver se ela, sendo kokuana e portanto desses tempos, conhecia as pessoas ali retratadas. Quando eventualmente lhe exibi a fotografia da Constância, ela imediatamente disse que a conhecera muito bem, sim, que fora uma senhora muito culta, muito prendada, muito simpática, muito engraçada. E, mais baixinho, inclinando-se levemente na minha direcção, disse, “e, sabes, ela era mulata”. Quando ela me faz esta revelação, fiquei literalmente de boca aberta. Não era possível. Como era possível?! Uma mulata nos Açores naquela altura?

Olhei novamente para a fotografia. Olhei de seguida para os olhos azuis claros e cristalinos que brilhavam na face fina, rosada e elegante da velha prima Ernestina, agora mais sorridente pois via nos meus olhos arregalados a surpresa e a curiosidade suscitada pela sua revelação.

Confesso que não sou assim grande perito em termos de analisar os traços finos no que concerne a classificação das raças. Já em Moçambique, tendia a distinguir quatro ou cinco raças e fazia muito poucas distinções a partir daí. E, neste caso, a senhora na fotografia não me parecia nada de especial. Parecia-me, naquela pose rígida e distante, ser branca. Quero dizer, a foto está um pouco para o escuro e velha.

Mas a prima da minha avó foi categórica; “olha bem para o cabelo dela. O cabelo era carapinha”. E inclinou-se, segredando-me no ouvido novamente, baixinho, como que para ninguém ouvir, apesar de não estar rigorosamente ninguém na enorme sala de música naquele terceiro andar do poeirento palacete dos meus bisavós: “como os pretos.” (ela dizia a palavra no sotaque de São Miguel: “prâtos”).

Dei um salto e fui ter com a minha avó na cozinha, que ficava situada um andar abaixo e mais uma corrida por um longo corredor para as traseiras da casa. “Ò avó, a prima Ernestina (ah estes nomes antigos) diz que a tia Constância era mulata!”. A minha avó, que era enorme e tinha o porte de um lutador de sumo, e que era muito ciosa do seu estatuto de senhora na então sociedade açoriana, virou-se lentamente e fitou-me, silenciosa durante uns segundos. E após uma pausa, disse-me apenas: “sim, é verdade. Mas – ò rapazinho – aqui não se fala disso”.

Mas…então…ahh…mas…se a Constância era “tia” (minha não era) e era mulata, então isso significava que temos “prâtos” na família?! Então, ela era tia de quem? A minha avó deu-me uma resposta meio esfarrapada e fiquei na mesma. Pois nos Açores “não se falava disso”.

Pelos vistos estas questões de raça nos Açores do século XIX e XX eram assunto que não se discutia – mesmo. Não sei bem como era possível, dado que raça não é coisa que se esconde debaixo da cama, mas foi ao que assisti.

A resposta em maior detalhe, levei trinta e três anos para confirmar. E aponta para a existência de uma raiz africana na genealogia dos BM.

Ei-la.

A história é verdadeiramente fascinante.

De seu nome completo Constância Sinclética Botelho de Mendonça, ela era irmã do meu bisavô paterno, Francisco Botelho de Mendonça (pai da mãe do meu pai BM – a minha avó Clotilde) – que portanto também era mulato.

Recuemos uma geração. O pai de Constância – um meu trisavô – foi um açoriano que emigrou para o Brasil nas primeiras décadas do século XIX. Terá feito bom dinheiro no negócio de peles em Pernambuco, assim reza a lenda familiar.

Em meados do século, ele casou-se com uma senhora mulata, filha de uma escrava africana e de um branco, cujas identidades se desconhecem, em Pernambuco. Ali tiveram duas filhas, uma tal Gonegundes (de quem perdi o rasto) e Constância Sinclética.

Poucos anos mais tarde, subitamente, o meu trisavô açoriano contraiu tifo, doença que na altura invariavelmente era fatal. Doente, resolveu regressar aos Açores com a sua jovem família. Vendeu tudo o que tinha e fez-se aos Açores de barco, levando com ele baús cheios de haveres, prata e dinheiro. Quando embarcaram, a mulher dele (a minha trisavó) já estava grávida de um terceiro filho – o meu bisavô.

Durante a viagem, o meu trisavô morreu de tifo. Pelo que a Ponta Delgada chegaram a minha trisavó brasileira, já viúva, com duas filhas, e ainda grávida. Já em terra, ela deu à luz um bebé rapaz – o meu bisavô, a quem deu o nome de Francisco Botelho de Mendonça. Quando se confirmou que era um rapaz, e de acordo com a lei naquele tempo, parte dos bens que vieram do Brasil foram constituídos em herança do bebé e os baús contendo esses bens foram selados até que o jovem atingisse os 21 anos.

Ainda hoje, dado pela mãe BM, eu tenho um pequeno paliteiro de prata, que fazia parte da herança de Francisco, que viera do Brasil nessa viagem de barco e que esperou selada nos baús até ele ter idade para dela tomar posse.

Sendo jovem, a mãe de Sinclética, uma viúva com alguns bens, casou-se uma segunda vez em São Miguel com um membro da família Félix Machado e teve mais quatro filhos. Assim, os descendentes da família Félix Machado partilham este património genético com os BM.

Quando Francisco, que, como Constância e Gonugundes, já era filho de uma mulata com um branco, portanto um mulato “diluído” (não sei se há nomes especiais para estas coisas) atingiu a maioridade, casou com uma senhora cuja nome era, depois de casarem – e lá vamos nós outra vez com os nomes – a encantadora e culta Ludovina Amélia Lopes Botelho de Mendonça. Os apelidos já vieram depois do casamento.

Constância era, portanto, cunhada de Ludovina (irmã do Sr. Visconde da Palmeira) e viveu nos Açores, solteira, até à sua morte. Com o seu humor e distinto sotaque brasileiro.

Francisco e Ludovina tiveram duas filhas, Margarida e Clotilde, esta última a mãe do pai BM.

O meu pai.

E que viveram toda a vida no enorme e poeirento palacete em Vila Franca do Campo onde eu, num dia de verão em Agosto de 1975, me sentei na sala de música com a prima Ernestina e lhe mostrei uma velha foto.

Que me revelaram o segredo de Constância.

O erro é o outro

Descubro que Rui Bebiano, dono do excelente A Terceira Noite, integrou o Arrastão tal como já o havia feito o bom do Bruno Sena Martins. Supreende-me, o Arrastão que conheci no seu início era um sítio horroroso, de uma demagogia até dolorosa e não o imaginava como o local para bloguistas deste teor. Mas porventura com estas entradas será agora um local a seguir, apesar do seu fundador. Descubro isso através do texto “Do Outro Lado do Tempo” [reproduzido no Arrastão], que se refere ao ma-schamba, enquanto local de “cegos ou preconceituosos”   [ligando directamente a um texto do ABM que também foi referido no Bibliotecário de Babel, ainda que em termos neutrais (a ligação foi retirada, quero crer que por causa dos problemas de servidor que ontem aqui tivemos)]. Tudo isto devido à mais longa polémica sobre livros que este blog já conheceu.

No seu texto Rui Bebiano afirma a complexidade da sociedade colonial e os processos de construção da sua memória (silêncio por um lado, mi(s?)tificação por outro) em Portugal. Quasi-termina, e muito bem, com a clarividência que lhe é habitual: “Os portugueses que povoaram o império colonial, ou «o nosso ultramar», não podem ver o seu passado apagado, esquecido, ou então pintado com as cores apenas agradáveis que a descolonização teria manchado. Ele conteve também experiências amargas, difíceis, perturbantes, por vezes únicas. Reconhecer esta diversidade só valoriza esse passado ...”. Posto isto deste lado “lado/blog” - onde habitam a “cegueira” e os “preconceitos” – ocorre-me opinar.

Entendo que a construção da memória colonial passou por um discurso explícito à época das independências (e implícito desde então) que por um lado denota e por um outro lado procura instalar uma dupla fractura na sociedade portuguesa, e que está para além das memórias dos ex-colonos, da sua visão. A primeira é topológica: é notório que alguns sectores ideologicamente mais ligados ao momento colonial purificam esse passado, reproduzindo o mito do “bom colono” até à exaustão, assentes numa bondosa visão ontológica ou culturalista do “português” (ainda que esta concepção resvale transversalmente – e surpreendentemente? – na sociedade portuguesa, veja-se o influente tardolusotropicalismo de Boaventura Sousa Santos).  Noção que casa, em comunhão de alimentos, com a nostalgia mitificadora que Bebiano identifica.

Mas também é certo que desde o retorno das comunidades portuguesas em África houve um movimento inverso, o da sua demonização generalizada, a imagem do ”explorador dos pretos”. Essa aversão terá sido causada pela noção social dos custos da guerra e, também, da muda mágoa da derrota. Mas, fundamentalmente, nessa invectiva o colonialismo, suas causas e benefícios, foi remetido para a “sociedade colona” e para os reduzidos estratos possidentes (grupos económicos nacionais, na sua maioria também então expropriados via nacionalização, donde culpabilizados). Deste modo o colonialismo foi extirpado da sociedade metropolitana, uma higienização homogeneizadora e auto-mitificadora que a apresentava como martirizada pelo fascismo (e pelo próprio colonialismo) - o carácter estruturalmente colonial da socioeconomia portuguesa foi assim torneado. Essa amputação benéfica, até moralizante, traduziu-se na criação de um “Outro” (pouco)interno, o colono. O silêncio memorialista de décadas da população retornada que Bebiano refere, a sua rápida e silenciosa integração no Portugal de então (“supostamente indolor“, como bem diz) terão sido também (é minha mera opinião) respostas a essa aversão concidadã (e, evidentemente a necessidades socioeconómicas, de não ficar “a viver no passado”).  Mas a aversão foi e é também ideologicamente produzida e reproduzida pelos sectores mais adversos ao Estado Novo colonial, que assim simbolizavam e balizavam a sua recusa do passado. Até hoje.

Assim sendo falar dessas memórias tem sido desde esse tempo  não tanto falar do passado recente colonial mas, e fundamentalmente, traçar uma topologia de discursos sobre o Portugal actual. Utilizando a história (quasi-alheia) para nos situarmos “neste” ou “naquele” lado. Quase sempre encastrados na areia.

Parece-me pois normal que a produção de discursos sobre o passado colonial e, muito em particular, a produção de discursos de recepção aos discursos sobre esse passado levante reacções acaloradas e adesões inesperadas. Não tanto por uma súbita curiosidade historiográfica, mas fundamentalmente porque (ainda!) são motrizes de auto-posicionamentos individuais e colectivos no espectro político. E, porque assim a história surge como mero objecto para manipulação actual, nisso se vai coisificando o passado colonial e, por maioria de razão, coisificando os seus interagentes sociais: os colonos e os colonizados, nas suas multiplicidades contextuais.

Mas para além dessa fractura “sistémica” entre o Portugal vítima e o Portugal colono, houve a proposta de uma segunda fractura, sociológica, a identificar. Nesse caminho, nesse “luto colonial” como Alfredo Margarido chamou ao silêncio português sobre África, sublinhou-se uma noção implícita e indita, a da excentricidade da população colona. Por um lado a afirmação da sua ”sobreportugalidade”, por parte das vozes mais saudosas da “gesta nacional”, considerando-a gente sobrecapaz, agente de grandes feitos, uma imagem que convive (paradoxalmente?) com discursos que afirmam a mediocridade do povo português residente, um contexto político-discursivo que tantas vezes baseia nesse elitismo a sua inimizade à efectiva democraticidade do país.

E  a da sua “importugalidade”, a da sua bestialização exploratória, ao invés das mais pacíficas (solidárias) populações metropolitanas e/ou então imigradas para o mundo industrializado. Esta imagem é gerada num contexto político-discursivo (e de investigação) que valoriza a voz e os percursos dos estratos mais baixos da sociedade (melhor dizendo, valoriza os discursos sobre a voz e os percursos dos estratos mais baixos da sociedade), por isso mesmo desapaixonando-se de um contexto colono, sempre ou elite ou intermédio na sociedade colonial exploratória. Essa excentricidade, esse verdadeiro ”expatriamento” dos colonos enquanto tal, funcionou e funciona como uma des-identificação. O ónus da “sobreportugalidade” não é suportável, pela sua evidente inexistência, pela confrontação (esmagadora) que provoca às biografias. E o estigma da “bestialização” apenas poderia provocar um tribalismo “pied-noir” ou, como foi o caso, o desenlaçamento comunitário – salvo alguns núcleos convivenciais, até tardios, mas sem repercussões de índole socioeconómicas e, muito menos, políticas. Incrementando os mecanismo de mitificação do passado, sobredimensionando as reacções às construções históricas, sejam elas positivas ou negativas.

Nesse sentido o mundo português colonial (pela sua mitificação, positiva ou negativa, pela santificação ou pela demonização, seja pela sua sobreportugalidade seja pela sua importugalidade) é expelido de Portugal, e o Outro Colonial é reificado. E esses processos funcionam através da mesma metodologia, assentam em generalizações, produtoras e reprodutoras de desconhecimento histórico. Similitudes que cruzam aparentes divergências ideológicas.

Ao falar-se do livro de Isabela Ferreira, ao ler-lhe o blog inicial, ao ouvi-la agora, o que encontro é exactamente o mesmo tipo de operação intelectual: a generalização (culturalista? ontológica?, há que ler o livro para lhe entender as forças motrizes, muitas vezes apenas discerníveis na retórica) produtora de desconhecimento. Uma generalização aposteriorística (como já em texto anterior aqui disse). Para quem diga que isso é inultrapassável no discurso (literário ou outro) importa sublinhar/repetir que o aqui se trata é o da projecção no passado de questões ideológicas e políticas actuais, um passado imaginado (literário que seja) para falar do hoje, do fincar o respectivo posicionamento – e daí as adesões e efusões que tanto tem provocado. Seja a autora sejam muitos dos leitores.

O livro aborda a realidade colonial. Bebiano diz-nos que esse passado “conteve também experiências amargas, difíceis, perturbantes, por vezes únicas.”, uma “violência latente ou explícita do quotidiano“. Com toda a certeza. Para além da violência colonial (que era e é a essência de uma situação colonial, sistémica) é notório que essas são características que todas sociedades históricas contêm, sejam as ameríndias que Rousseau não conheceu seja a rotineira “república dos relógios de cuco” de Orson Welles. Descrever essas experiências assente em generalizações, em imputações culturalistas, em negação da multiplicidade histórica, postulando um qualquer “nós”, bom ou mau, para além das empirias? Não me ofenderá se houver génio (seja lá o que isso for) literário. Por isso muito estou curioso em ler o livro. Há genialidade? Fantástico, não interessarão as generalizações empobrecedoras. Mas se não a houver, se estivermos apenas diante de uma prosa ((boa, média, má) mortal que pretende descrever um passado, imputar e invectivar esse passado assente em generalizações preconceituosas então isso é, quanto muito, panfletarismo. Mais ou menos catártico, mais ou menos teatralizado. Produtor de cegueiras, reprodutor de preconceitos. Des-conhecedor. Do tal mundo expelido de Portugal. E que assim não é reintegrado, auto-compreendido, pese a retórica “desveladora” que anuncia e que o recebe. E, como tal, des-conhecedor do próprio objecto Portugal.

A expulsão do mundo colonial, da sua voz, do encontrar as nuances para além do pólos “beleza tropical” / “violador de pretas”, é uma incapacidade de olhar a multiplicidade colona – e, frise-se, nisso também se afirmando a incapacidade epistemológica ou literária (consoante o discurso) de olhar a multiplicidade colonizada. Mas essa coisificação do colonizado (que aliás é o que mais me interessa nesta trama toda), esse desinteresse analítico por África que é estruturante em Portugal é questão que, ainda que ligada a todos estes factores, exigiria um outro texto. Essa incapacidade, esse desinteresse (ideológico?), pelo “mundo” colono (e, por arrastamento, pelo “mundo colonizado”) denota-se no próprio texto de Bebiano. “Só pelos meados da década de 1990 surgiram os primeiros estudos e recolhas de testemunhos, e só agora, quase quarenta anos passados sobre o fim do conflito, se tornou normal ouvir ex-militares, ou as suas famílias, a falarem de forma livre dessa experiência durante tanto tempo calada. Percebe-se finalmente que tudo foi menos simples, e menos insignificante para a vida das pessoas envolvidas, do que se pensava com o cheiro a pólvora ainda nas narinas.”. Ou seja, o que Bebiano anuncia - com toda a certeza en passant, como é normal no registo blog, ainda que ele seja um bloguista de excelência - é que o olhar sobre África sobre o qual atenta é o olhar metropolitano sobre África, dos soldados (na sua esmagadora maioria metropolitanos, e é notoriamente a eles que o autor se refere). Se pegarmos na sua excelente obra “O Poder da Imaginação. Juventude, Rebeldia e Resistência nos Anos 60” (Angelus Novus, 2003) este movimento já se encontra. A juventude portuguesa em África (pp. 156-160), as suas práticas e imaginários, sua ligação com o sistema português, são brevemente lidos através dos olhos dos letrados (oficiais?) metropolitanos ali deslocados. Entenda-se, a sociedade colona como tal inexiste na reflexão, como se ela não pertencesse à dimensão portuguesa da ”cultura-mundo” (p. 13) ou, pelo menos, fosse verdadeiramente significante para a reflexão [poder-se-á dizer, e concordarei de imediato, que todo o trabalho tem os seus limites de objecto. Mas aqui parecem-me inditos e/ou provocados por este contexto intelectual. Ou a memória está-me a trair muito].

Entenda-se, também aí ela – a sociedade colona – está expulsa do que é o objecto (Portugal). É certo que o movimento colonizador foi tardio (como mostra Claudia Castelo em “Passagens Para África.”, Afrontamento, 2007), mas nos anos 60 havia já uma enorme população não-metropolitana, na maioria de primeira geração mas também de múltiplas gerações em África. E como tal, basta(s) juventude(s) e seus discursos. Não chamo isto para criticar Bebiano, misturar o registo de blogs com livros profissionais, apoucá-lo, menosprezá-lo. Pelo contrário, friso que muito gostei deste seu livro (e quem seria eu para o questionar, se fosse caso contrário). Apenas convoco essa dimensão para referir que até num intelectual possante como Bebiano se encontra (pelo menos nesta sua obra e, secundariamente, neste seu pequeno “post”) a matriz estruturadora destes preconceitos ideológicos sobre o mundo colono, desta “outrização” colona, da sua expulsão do verdadeiramente significante, de um higienismo societal feito projecto ideológico no regime democrático português. A qual assenta, repito-me até à exaustão, na mera utilização de generalizações a la carte. Talvez por isso agora este agrado, a defesa entusiasmada, com a obra aparecida. Que é mais-do-mesmo, afinal. Só que, agora, do “lado certo”. Para aquele “lado”, claro.

Finalmente. Pode o meu caro ABM ter caído no caldeirão laurentino dos “preconceitos” e, pese embora o seu riquíssimo trajecto biográfico, não passar de um irremediável “cego” com prosápias. Posso eu mesmo, pela minha biografia, ininteligência ou até pela raiva contra tudo contra o que me parece neo-comunismo europeu de fachada libertária (ainda que, concedo, às vezes nem o seja), estar viciado em goladas dessa poção preconceituosa que me condena às trevas da “cegueira”. [A nossa AL está isenta pois não concorda connosco no olhar sobre a produção de Isabela Figueiredo]. Mas é nestas trevas pre-conceituosas em que vegeto que me ocorre que Rui Bebiano, e talvez alguns outros, sofrem de uma ligeira miopia. Ou melhor, de um pequeno astigmatismo, que é coisa bem diferente. Nada que não se possa resolver, facilmente, com umas meras próteses oculares. Isto se não continuar(em) a pensar que o erro é o outro.

Depois há os outros que o(s) seguem. Mas esse é o comboio descendente. Vêm à gargalhada. “Uns por verem rir os outros. E outros sem ser por nada.” E não há óculos que lhes sirvam. Estão como hão-de ir. Assim como eu e o ABM, pelos (in)vistos!

ADENDA: em comentário Rui Bebiano esclarece que no seu texto apenas ligou explitamente ao ma-schamba o termo “preconceituosos pelo que a consideração de “cegueira” não foi sua intenção. Aqui deixo a nota, agradecendo o esclarecimento e lamentando a minha extensão interpretativa.

jpt

[Não sou capaz de escrever numa tarde algo deste tipo que seja mais legível ou coerente. A própria arrumação peca. Mas o "tempo bloguístico" implica a sua colocação agora, senão perderia a sua justificação. Daí o tamanho e sisudez, a repetição e o esburacamento. E, temo, a ilegibilidade. Ainda assim está botado.]

ADENDA SEGUNDA: uma semana depois de ter escrito este texto ouvi toda a entrevista radiofónica de Isabela Figueiredo, feita por Carlos Vaz Marques. Após isso deixei neste texto do ma-schamba um comentário nela baseado. Mas ficará melhor arrumado aqui, como será óbvio a quem ainda aqui volte. Abaixo fica a sua transcrição:

Ainda que em contradição com o que disse acima regresso aos comentários deste texto sem ser em diálogo directo com outros comentadores. Mas só ontem ouvi toda a espantosa entrevista radiofónica de Isabela Figueiredo realizada por Carlos Vaz Marques. E como não escreverei nenhum texto (post) sobre o assunto [outros machambeiros resmungariam, estou certo, devido a cansaço] quero, pelo menos aqui, deixar alguns pontos: um, que já tinha referido, mas que nunca é demais lembrar, é o do seu absolutismo intelectualmente incontrolado: “todos os homens eram como o meu pai [aka, horríveis], alguns até piores”, algo surpreendente – e não é uma expressão literária, é uma opinião, portanto não tem requebros retóricos ou formais que a defenda. [as "citações" são aproximações ao discurso oral, mas procuram ser o mais fieis que me é possível].

Depois há a sua recorrente, e “lamentosa”, afirmação “eu estava lá, eu era colonialista, eu fui colonialista, eu assumo”. Para uma pessoa que viveu em Moçambique até aos doze anos (por mais que tivesse dado uma estalada numa outra) isto é surreal. Ou seja, denota uma teatralização do seu estatuto, uma sobrevalorização pessoal que apenas – só pode – quer funcionar como instrumento de legitimação empírica do discurso. Pobre afirmação e legitimação. E, entenda-se, a reclamação de “colonialista” para uma menina de 12 anos, ainda para mais reclamada 35 anos depois, é de uma indìgència intelectual, de uma ignorância pungente sobre tudo o que é reflexão sobre aquele sistema histórico, e não apenas semântica – algo pouco aceitável para quem afirma ter passado as últimas décadas envolta nesta sua característica biográfica (alguém me poderá vir dizer que IF quer ser a Gunther Grass portuguesa, mas nem sorriso isso provocará).

Finalmente, a cereja em cima do bolo. IF diz que reconhece logo, e ainda hoje, os moçambicanos no meio de outros africanos (negros). Pois eles são lindos, têm uma cor fantástica, especial, têm características emocionais e estéticas únicas, tudo isso por ela (só por ela?) imediata, visceral, espontaneamente reconhecível – sei que os meus amigos moçambicanos (negros e não só) que aqui tenham chegado (ou que a tenham ouvido) já se estão a rir (e, com toda a certeza, a afiarem a língua para os óbvios impropérios de retórica machista que este tipo de discurso provoca). Mas vamos ficar no registo sério: ouvir este discurso é ouvir o típico discurso racialista, a da homogeneização alheia, a da des-individualização alheia (bonitos?, todos? a mesma cor da pele? todos? simpáticos? todos? agradáveis? todos? etc? todos?). É este discurso generalizador que IF utiliza para os colonos (portugueses, brancos, horríveis, infectos) e para os ex-colonizados (moçambicanos, negros, lindos, bem-cheirosos). É este discurso racialista, húmus de todo o racismo, que usa para o contexto moçambicano. Paternalista, desconhecedor. Acima de tudo racista na sua negação da multiplicidade estética, emocional, comportamental, afinal individual.

IF é apenas mais uma das pessoas que pensa assim, mal e pauperrimamente, sobre os outros, neste caso sobre os moçambicanos – já encontrei inúmeras pessoas com este tipo de discurso, o desvalorizador do alheio (neste caso do negro), da sua irredutível diversidade humana – mesmo que, e é uma das versões, disfarçado (até inconscientemente) pelo elogio colectivo, por um olhar “simpático” sobre o magma alheio. O que me surpreende não é que IF assim pense, assim escreva, assim fale. Há tantos e tantas assim.

O que me surpreende (pouco) e entristece (também já pouco) é que no meu país um meio literário, cultural, até jornalístico, que se reclama de um eixo intelectual e político moderno (ou pósmoderno), democrata [alguns até libertários], unanimemente anti-colonial e crítico do conteúdo colonial português, que esse meio acolha acriticamente estes dislates, um discurso neles assente. Elogiam-no, defendem-no e (como em recente artigo no suplemento cultural do jornal Público, de Vanessa Rato) é-lhe até aventado o estatuto de iniciador de um discurso pós-colonial em Portugal. Esta adesão será conjuntural por um lado – um pouco de “estação”, um pouco por efeitos de grupos (blogo)mediáticos – mas é por outro lado indiciadora de um contexto intelectual dominante: está no Público, está nos jornais, está na rádio (o desvelo de Carlos Vaz Marques é óbvio), está nos blogs – até o Respirar o Mesmo Ar do meu amigo, e co-bloguista do Olivesaria, jpn surge a reclamar a excelência disto.

Dislates da autora. Pouco importante. Mas que gigantesco manto de ignorância no meu Portugal todo este pequeno fenómeno vem desvendar. E isso sim é lamentável. Doloroso. Porque estrutural.”

[Numa ida rápida ao Google note-se a recepção entusiástica em blogs bem diversos ideologicamente - assim demonstrando a trasversalidade desta perspectiva superficial, que se pensa crítica, sobre o período colonial português: vejam-se como exemplos os O Insurgente, Elevador da Bica, XicoNhoca, Divas e Contrabaixos, o já referido A Terceira Noite, Irmaolucia, Da Literatura . Para uma diferente postura, leituras acolhedoras do texto literário mas sem subscrições acríticas vejam-se, por exemplo, Defender o Quadrado e Peão (este último é um post de Cláudia Castelo, acima referida e a quem eu desconhecia a prática bloguística). Entretanto A. Teixeira reagiu ao facto de eu o ter integrado no conjunto de leitores entusiásticos (sob este ponto de vista), considerando que desentendi este seu texto, intepretando-o abusivamente. Lamento se o tresli. E aceito que tal fiz, a intenção é a do autor não a do passante: fica aqui a (minha) mão estendida à palmatória.]

Lizzie Had a Dog in LM

Lizzie & Bóbbi

por ABM (Cascais, 16 de Janeiro de 2010)

A lógica da breve discussão prévia o impunha e uns meros 15 euros o resolveram.

Disfarçado de dono de um veleiro de passagem por Cascais, e após breve e inócua aventura na Livraria Bulhosa no Cascais Villa, peregrinei até à quiçá mais próspera e dotada FNAC do Cascais Shopping, com a Dulce Gouveia a reboque, para comprar a grande obra recente da Escritora de origem moçambicana, publicada pela Editora sediada em Coimbra.

Mas na secção dos livros dou logo de caras com o José Rodrigues dos Santos no corredor, que é máfia moçambicana do melhor e estes dias uma espécie de versão lusa do Dan Brown. Com ele não há cá memórias para ninguém. Antes que ele pensasse que eu ia ao livro dele sobre a Al-Khaeda, que se encontra à venda em todas (mas todas) as livrarias, grandes superfícies, aeroportos e até por baixo de vãos de escada, escapuli-me pelo café da loja para o outro lado e fui ter com uma daquelas meninas simpáticas da FNAC que usam um coletezinho verde e nos ajudam a encontrar os livros.

“Olá, boa tarde. Procuro o novo best seller daquela escritora nascida em Moçambique Isabela Figueiredo e não encontro”.

“Só um momento, sefachavor”.

Clic clic clic clic no computador.

“Sim, devemos ter ainda uma cópia na loja, deixe-me ir ver”.

E desapareceu.

15 minutos à espera.

Após o que a menina surgiu do nada com um livrinho pequenino na mão.

“Quanto é?”

“15 euros”.

“15 euros! Bolas. Deixe-me cá ver”.

E peguei no volume. E inspeccionei-o.

Preliminarmente.

Na verdade o livro é algo estranho.

A seguir à capa e a contra-capa, tem quatro folhas verde-alface sem nada, duas de cada lado, que deve ser para o leitor precavido tomar apontamentos. No fim, a seguir à folha verde-alface, diz uma nota que foi composto numa empresa gráfica na bela Vila Nova de Famalicão, “34 anos após o regresso da autora a Portugal”. Ok. Suponho que uma anotação válida para quem ao chegar ao fim do livro ainda não se tiver apercebido desse facto da vida da autora, ou que não saiba fazer contas de subtraír (pois 2009-34 = 1975) infelizmente um provável infortúnio com o estado da educação nos dias que correm.

Só que na pala interior da capa tem mais uma foto simpática da Isabela, esta circa 2009 e sans Bóbbi, e mais uma notinha a dizer que ela nasceu em Lourenço Marques em 1963, que em 1975 veio para Portugal, e que nunca mais voltou.

Espera aí: se aqui diz que ela nasceu lá, que veio para cá e que nunca mais voltou, porque é que no fim do livro diz que ela regressou a Portugal?

É um mistério. Assumo que deve fazer parte da complexa e mística dialética subjacente aos conteúdos ali abordados. Ora veja-se.

Ela nasce e cresce em Moçambique.

Mas ao viajar para Portugal em 1975, regressa.

Ora isto é para mim uma alegoria fantástica.

Tem umas fotografias: na capa (a foto ali no topo) a Isabela avec Bóbbi. Depois duas piquininas de Lourenço Marques nos tempos e que mal se conseguem ver, e a seguir vêm: a Isabela a segurar o rádio de papá debaixo de uma papaeira, a Isabela vestida de saloia portuguesa num barco, a Isabela a fazer pose num parque, a Isabela na marginal de Lourenço Marques e a Isabela na comunhão.

Na página 7, presume-se que para dar o tom do que está para vir, três citações, uma de Paulo Auster a falar do pai (o do Paulo Aster), e duas do italiano Primo Levi, a mastigar a presumível fungibilidade da Memória Humana. Bem, ou pelo menos a dele.

E, presume-se, por osmose subliminar associativa, a da Isabela.

A menção do americano Paulo Auster confunde-me e levanta-me imediatas suspeitas quanto à proeminência fotográfica do Bóbbi. Pois na sua Timbuktu, não a africana mas uma mitológica e utópica urbe, são as memórias do rafeiro Mr. Bones que descascam, numa odisseia tão deprimente como cativante, a existência de Willy Christmas, um homem infeliz e falhado, que morre à porta da casa onde o seu ídolo, Edgar Allan Poe, vivera. Será isso? O que acha, quais as memórias de Bóbbi da sua dona e da Lourenço Marques que a viu nascer e crescer? será que Bóbbi também regressou?

Primo Levi suscitou-me ainda maior supresa. Pois a sua escrita, sendo judeu e tendo passado pelos maiores horrores da carnificina Nazi, incluindo quase um ano em Auschwitz-Birkenau, é mais conhecida pelo conteúdo memorialista desse período – memórias que o perseguiram até à morte. Em 1987, o grande Elie Wiesel, que era professor na Universidade de Boston, onde estudei gestão e um pouco sobre o judaísmo nessa altura e durante dois anos, e ele próprio um sobrevivente do horror Nazi, disse que, quando morreu – e referindo-se às suas peristentes e pungentes memórias – Levi na verdade morrera em Auschwitz mas quarenta anos depois.

Que associações poderá haver entre a obra e o percurso de Primo Levi e este livro de Isabela? A curiosidade avoluma-se dentro de mim.

Procurei, e descubro que o livro não tem índice. Tem, isso sim, em 136 páginas (as que estão numeradas), textos sequenciados, de 1 a 43. Sem títulos. Só os números.

E na verdade, aí me apercebi, afinal aquilo não é só um livro (daí, decorrem, presume-se, os 15 euros).

Logo a seguir ao texto Número 43, depois de uma folha com umas das fotos piquininas de Lourenço Marques que não se vê bem, tem outra onde apenas figura, a meio, a singela e solitária frase, que se presume dedicatória: “À memória do meu pai”.

Repare-se no detalhe: não é em memória do pai. É à memória do pai.

Hum.

E a seguir tem uma página que diz, na vertical, com o texto a apontar na direcção da lomba do livro, em letras garrafais “Adenda” onde, aí sim- surpresa!- tem um índice, mas um indicando o que vem a seguir (aos textos numerados de 1 a 43): seis textos descritos como posts, incluindo o intrigantemente títulado Falta dinamitar o Cristo-Rei e logo abaixo o assaz mais invocativo de assunto gastronómico, Fígado de Porco; e,  finalmente,  Uma conversa com Isabela, que inclui, um pouco como nas (brevemente findas) conversas do Professor Marcello na RTP aos domingos à noite, e à margem das doze páginas do texto da entrevista propriamente dita (feita por não se sabe quem) as sugestões dela de dez livros, cinco datas e cinco lugares.

Portanto, isto é o que se pode chamar um pacote completo.

Que agora é meu.

Por, afinal, uns modestos 15 euros.

E que, feito o investimento e aguçada a curiosidade, vou ler este fim de semana, de fio a pavio.

E de que logo darei conta aos exmos leitores, após reler também a prosa canciana et al.

Para tirarmos esta coisa a limpo de uma vez por todas.

Um bom fim de semana a todos.

José António Saraiva, os Jovens e o Pai

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por ABM (Cascais, 23 de Dezembro de 2009)

A propósito dos meus queixumes cinematográficos sobre os jovens, refiro a crónica de José António Saraiva, que dá a sua visão sobre o assunto. Claro que peca pela abrangência. Mas em média está correcto e aponta o dedo aos filhos da classe média (bem, da média-baixa para cima).

Li esta coluna não porque comprei o semanário lisboeta Sol, de que JAS é director, mas porque estava um monte de jornais para oferta à saída do cinema a semana passada e eu peguei numa cópia.

Gosto muito de ler JAS desde os idos tempos em que comprava, numa mercearia portuguesa na zona de Fox Point, em Providence, Rhode Island (EUA) inexplicavelmente espessas cópias do Expresso. Não era todas as semanas pois a mercearia só recebia algumas cópias e se eu chegasse tarde não havia nada para ninguém.

JAS era para mim o prato forte e leitura obrigatória do Expresso e nunca entendi muito bem a decisão dele sair de lá para fundar o Sol. Do pouco que sei, este jornal, não sendo editorialmente mau, não vale muito sem ele e parece-me que tenta ser o antigo Expresso sem o ser. O problema é que nem o actual Expresso se parece com o antigo Expresso.

Pode ser que seja eu que tenha mudado. Mas não acho.

Acresce que o jornal tem tido problemas financeiros aparentemente sérios e tem seguido uma estratégia muito peculiar de insistir em ser vendido nos países africanos onde se fala português, o que não entendo pois o mercado lá para as notícias e análise que o jornal faz cá não é grande. Não só não é grande como não se compadece com as pressões culturais, diplomáticas e políticas que caracterizam o tortuoso eixo que liga Lisboa às capitais dos países onde se fala português – especialmente Angola e Moçambique (que conheço melhor) onde há bons jornais e bons escribas.

E, do que fui informado, uma parte do capital do Sol está nas mãos de interesses angolanos. Qual a lógica, não sei.

Mas JAS continua em forma, mais velhinho e sábio como alguns de nós. O estilo e a substância não alteraram muito com os anos.

E, meritoriamente, sai no feitio ao pai, o grande António José Saraiva, que tive o prazer de ver quando visitou a Universidade Brown e em que falámos de um livro que ele então havia publicado recentemente, A Inquisição e os Cristãos Novos, que eu acabara de ler e tinha feito um (ridículo) trabalho para uma cadeira creio que do prof. Onésimo Teotónio Almeida.

Para mais sobre a Inquisição e os Cristãs Novos, leia-se esta entrevista de Francisco Bettencourt, que em tempos leccionou na Brown e em que fala da obra do pai Saraiva (chamando-lhe uma “tese marxista” – hum).

Observação Eleitoral

São quase 16 horas e levanto-me, alquebrado, da mesa do Rodízio, a maminha, o ananás, a picanha, ainda que no decadente serviço da Visabeira, estão a dar cabo mim. Enquanto caminho(amos) para o local de entrada cruzo uma mesa de “observadores eleitorais”, fardados com dísticos a propósito. Enrolo os palavrões de quem já o foi, e com directas seguidas e perigos assumidos, resmungando um “não deviam estes filhos-da-puta (europeus, diga-se) estar no terreno, de sanduíches no bornal?!”.

Quem me acompanha, patrícios nada desqualificados, ri-se diz: “E onde pensas que andam os teus diplomatas?” E sei, ali, ainda envergonhado, que os diplomatas portugueses andam a almoçar enquanto são, como é possível?, observadores: como é possível tamanha incompetência na Julius Nyerere, 720 (mesmo que seja sob o miserável governo de Amado e Cravinho?). E, até apita, até “a embaixatriz da Irlanda é observadora“. Vá lá, a imbecilidade não é só nossa – mas como é possível que uma missão diplomática participe numa missão de observação eleitoral, que independência, vá lá, que autonomia poderão vir a ter face aos resultados dessa missão? Que visão estratégica subjaz isto? Que gabarito político-diplomático têm os responsáveis desta paródia (e quem escreve isto é quem já acompanhou inteligente que soube em tempos apartar as águas, não é um mero mal-disposto)?

Incompreendo os donos da terra. Eu, se em tal caso, metia patrícios, irlandeses (o parvo do embaixador à frente mais a missionária que com ele dorme logo atrás) e quejandos no primeiro avião.

Uma vergonha militante. Anos a fio.

(Há algum tempo os embaixadores da União Europeia exigiram uma reunião com o presidente da Comissão Nacional de Eleições. Ele recebeu-os para ouvir as zangas da “comunidade internacional”. Entraram na sala e, à sua revelia, foram conduzidos para uma sala onde estava a imprensa. “Digam lá, então“. Calaram-se, atrapalhados, que, afinal, a imprensa ali … . Quem lá estava, e meu amigo, ri-se “o teu embaixador até tremia“. O país ainda anda a rir dessa cena. O embaixador de Portugal, pobre imbecil de corpo inteiro, ainda por aí anda, desrespeitado por todos, os seus, os patrícios, os nacionais daqui, ainda que carregue a bandeira no carro quando sai à rua. Os seus, mais seus, pobre gente MNE ainda por aí anda para gáudio geral, pobre – ou maquiavélico ”Almeida Santos”? – Luís Amado que para África manda os imbecis do MNE.

Nós … não pagamos impostos para não alimentar estas alimárias. E, de quando em vez, um dos bloguistas, muito raramente lembra-se do Sahara Ocidental. E cospe, é o termo, nas palavras “Luís Amado”. Conhecendo-o de puta ginjeira …)

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TAPologia

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- por ABM

Este é o segundo texto sobre o assunto. O primeiro eclipsou-se por erro da Secretaria do Maschamba Cá Vai versão 2.

A TAPologia é o estudo de como uma empresa de transporte aéreo tecnicamente falida consegue sobreviver alegremente 35 anos seguidos à custa de saudáveis e ocasionais subvenções dos contribuintes do país em que se baseia.

Neste contexto, é de notar a informação divulgada hoje, que indica que nos primeiros nove meses de 2009 a TAP transportou 303 mil pessoas de e para África – o que por definição inclui muitos desta honrosa comunidade Maschambiana.

A mesma informação indica que este número representa um aumento de 6.7% se comparado com 2008.

Mais interessante é que em 2009 esses 303 mil passageiros, que representaram 6.4% de todos os passageiros que usaram aquela empresa, contribuiram para 17.2% das suas receitas.

Ou seja, a crise agudiza, mas África soma e segue. E paga a factura.

A Medida do Orgulho Nacional

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(por ABM)

Tendo eu vivido em sítios exóticos como os EUA, Portugal, Moçambique e Angola, e visitado o Brasil várias vezes, sempre achei que, na minha escala cósmica pessoal da exibição do orgulho nacional os portugueses eram um caso difícil de comparar dada a sua inusitada capacidade para uma auto-crítica por vezes iconoclasta, difícil de contextualizar quando comparados com os estrangeiros.

Por comparação, os norte-americanos pareciam irritantemente orgulhosos (“we are the best country on the face of the earth”), os moçambicanos sempre vibrantes mas discretos e os angolanos uma espécie de americanos de África (um problema sério para os sul-africanos, cuja exibição de superioridade paternalista junto dos angolanos irrita-os de sobremaneira). E os brasileiros cantavam o seu amor brasileiro aos berros e a dançar o samba, pintados de verde e amarelo.

Mas não há maneira de medir estas coisas. Ou melhor, não havia, em parte, até o Economist publicar hoje este estudo, levado a cabo por um tal Reputation Institute, que formalmente fez um estudo de 33 países cujas conclusões o exmo leitor pode encontrar premindo aqui.

A classificação dos portugueses não me surpreendeu, ainda que estar em 19º lugar num planeta com duzentos e tais países não é assim tanto um caso de desesperar.

O que me surpreendeu foi ver o Brasil, a África do Sul e o Japão abaixo de Portugal. Afinal?! E os EUA em 11º lugar, atrás da Índia, da China e de (meu Deus) da Espanha.

As coisas nem sempre parecem o que são, pelos vistos.

O Estado e o 10 de Junho

O 10 de Junho que passou deixou-me, português imigrado, uma dúvida. São os agentes do Estado no exterior desprovidos de memória institucional – e assim incompetentes -, ou são desprovidos da mais rudimentar das éticas – e assim incompetentes?

Não é um quizz. É um passaporte. E uma enorme praga, carregada de menosprezo pelas pessoas. Não pelo país. Ainda que este seja elas.

Luís Cabral

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Morreu Luís Cabral, primeiro presidente da Guiné-Bissau, irmão de Amílcar Cabral. Morreu o homem que viveu um quarto de século exilado em Portugal. Depois de, enquanto presidente, ter patrocinado o massacre dos seus compatriotas que tinham combatido no exército português.

Fica a memória da pequenez moral dos políticos do meu país. Desinteressados naqueles a quem o seu Estado arregimentou. Totalmente desinteressados em levar esta sinistra personagem ao Tribunal Internacional de Haia.

E poderia ficar uma lição, olhando a indigna vida deste homem, acoitado na terra cujos soldados mandou assassinar: a da necessária humildade no exercício do poder. Mas não ficará.

A atitude

Ao O Mundo Perfeito, um blog bem escrito, li-o quando surgiu por via de ali surgirem memórias de uma juventude no Moçambique colonial. Depois deixei de frequentar, meu desconforto com o tom, não me lembro de nada particularmente desagradável. Apenas o clic-clic dos blogs, a cada um as suas chávenas de chá.

Recentemente alguns bloguistas que sigo avisaram do seu encerramento. E agora do novo blog: O Novo Mundo.

Que começa com este texto. Que culmina com “A maior parte dos retornados, velhos e da minha idade, continua hoje a odiar os pretos, e a financiar, sob a forma de doação, os movimentos de extrema-direita“, o tal tom assertivo de que me lembro vagamente, esse que me terá afastado, enfastiado.

Os bloguistas que sigo, gente boa que conheço pessoalmente e que se identificam como “de esquerda”, continuarão a elogiar. Ao tom e ao som. A querer e a crer. Nada demais por isso, como digo acima a cada um as suas chávenas de chá.

E, ocasionalmente, para além de hipotéticas simpatias, a invectivarem, com mais ou menos ironia, aqueles que não pensam como eles. É a atitude. Sempre. Que (os) inibe.

A cooperação portuguesa a propósito da visita a Moçambique do ministro da Justiça português

Para quem entenda algo de cooperação internacional (Ajuda Pública ao Desenvolvimento) não é difícil encontrar causas para a tendencial  ineficiência da cooperação portuguesa em Moçambique. Situam-se na história e na sociologia da administração pública portuguesa e no seu enquadramento cultural. Os anos passam e pouco (algo?) muda.

Corolário dessas características é a hiper-descentralização da cooperação, em que cada organismo estatal português (e aqui inclua-se a dimensão camarária) entende ter uma “agenda de cooperação” própria, a prosseguir com os seus parceiros locais. Para tantos dos intervenientes ou observadores  - e até funcionários – é óbvio ser este traço uma sobrevivência, a permanência da noção da administração diferida, um modus faciendi herdado do tempo colonial em que os organismos metropolitanos articulavam com os governos coloniais/”provinciais”.

No início das relações de cooperação bilaterais, após as independências, essa metodologia de contacto directo afirmou-se, até pelo facto dos organismos públicos portugueses terem acolhido antigos funcionários coloniais, com seus conhecimentos técnicos e pessoais e seus interesses (não obrigatoriamente interesseiros), que imprimiam uma dinâmica e um formato peculiares às concepções de cooperação e sedimentavam os “departamentos de cooperação” ou similares nos organismos públicos. Mas essa geração já não está no activo, a persistência do modelo depende hoje das inércias burocráticas, das reclamações políticas de autonomia sectorial e, não o menos importante, dos estratégias de carreira dos funcionários. Tudo isso impede a racional concentração (financeira e intelectual) desta área da política externa nos organismos devidos, tutelados pela Secretaria de Estado dos Negócios Estrangeiros e Cooperação.

Resultante desta metodologia economicamente perdulária e politicamente irracional, Portugal acumula “projectos” de cooperação de muito duvidosa viabilidade, real interesse ou capacidade de execução. Os dados estatísticos não mentem: em Moçambique, país onde abunda a cooperação internacional, Portugal tem muitissimo mais projectos agendados do que qualquer outro país, bem como do que todas as agências das Nações Unidas em conjunto. É apenas suplantado, e por escassa margem, pela Comissão Europeia, o maior doador em Moçambique. [Para que não se diga que é maledicência vejam-se os dados aqui e siga-se a documentação possível]. Nunca será demais dizer que esta volúpia “projectista” não é acompanhada nem por meios financeiros consistentes nem, e fundamentalmente, pelos recursos técnicos necessários (seja para co-execução seja para avaliação). E é importante frisar que este modelo baseado na figura do “projecto” está em contra-ciclo face às abordagens abrangentes, dominantes na cooperação internacional.

Um dos efeitos deste formato é o da intensa rede de visitas ministeriais e sub-ministeriais por parte dos governantes portugueses, obviamente excessiva, quantas vezes supérfula, por todos sentida como tal, até ridicularizada. Entenda-se, para além de outros considerandos sobre a sua eficiência, o trânsito governamental português em Moçambique (tal como, presumo, noutros países ex-colónias) é original, para não dizer excêntrico.

Vem isto a propósito de mais uma visita, a do ministro da Justiça Alberto Costa, ocorrida na passada semana, aqui deslocado para negociar o próximo programa trienal de actividades. Uma visita que, nas suas ocorrências, epitomiza o que de mal existe na cooperação portuguesa, nas suas dimensões executiva, conceptual e cultural.

A área da Justiça sempre foi considerada por ambos os Estados como prioritária nas relações de cooperação bilaterais. Para Moçambique tal inscreve-se numa especificidade nacional, considerada a manter, circundado que está por países herdeiros do sistema legal britânico. Daí o interesse mútuo, estratégico, em potenciar as acções nesta área (as duas décadas de ensino universitário a cargo da Faculdade de Direito de Lisboa são um bom exemplo de cooperação).

Por isso mesmo foram surpreendentes as declarações da ministra Justiça moçambicana, criticando publicamente o actual estado das relações de cooperação no sector, e identificando a causa da ineficiência nos próprios termos do acordo bilateral. Surpreendentes porque são inusitadas, ainda para mais em momentos de recepção. Entenda-se, o tom da ministra não se prende com as cíclicas (e até rituais?) retóricas de afastamento entre-Estados, e a isso não deve ser reduzido. É uma crítica política e técnica rara de ouvir a este nível, e evidentemente traduzindo uma desfuncionalidade da cooperação portuguesa nesta área sempre considerada fundamental.

O ministro português apresentou-se com uma vasta comitiva, uma dezena de pessoas, e cruzou o país até à Ilha de Moçambique, picando projectos [um resumo destes na peça da Lusa]. Poupo-me à ira algo demagógica com as despesas havidas – ainda assim tudo aquilo parece excessivo. em contramão a uma imagem de contenção orçamental. É claro que haverá sempre argumentos próprios a justificarem o séquito e os percursos. Mas registo que tamanho grupo não é o costume e que tamanhos desvios não são o costume. E que dão, aqui, a todos, uma óbvia aparência de digressão de veraneio de quem apouca a missão de que está incumbido.

Mas o fundamental serão os resultados. Uma grande delegação para renegociar os termos de um trabalho conjunto considerado vital e em actual depressão. Foram os novos termos ponderados, frutos de uma análise conjunta eficaz, serão potenciadores? Daqui a três anos alguém (?) fará a avaliação, mas parece-me óbvio que não foi isso o acontecido. De novo a incompreensão, a incapacidade para ouvir, analisar, integrar – até para cumprir as obrigações protocolares. Tudo isto emanando de uma atitude cultural que é, pelo menos, anacrónica. E que acampa como adversária dos interesses do Estado e do país. 

Como remate final da infeliz visita surge o ministro Alberto Costa propondo a adesão moçambicana à “Marca Lusófona”. Não valerá a pena insistir no descabido da fixação portuguesa no jargão “lusófono”, muito mais um obstáculo nas relações entre Estados e uma incongruência político-intelectual do que um eficaz instrumento. Julgava até essa retórica um pouco em desuso mas, como se vê, vai resistindo em alguns estratos da semi-intelectualidade ligada às esferas do poder actual. Entenda-se, para além de assim mostrar uma a-política incompreensão dos contextos visitados este discurso ministerial vem poluir as já difíceis relações sectoriais.

Uma perfeita ineficácia, até incompetência. Ainda para mais, e em complemento das problemáticas políticas e ideológicas ligadas ao hastear do jargão lusófono, é incompreensível que se venha a Moçambique, em crucial momento de relançamento de cooperação estratégica, propor uma económica “Marca Lusófona” exactamente quando aqui se procede ao lançamento da económica Marca Moçambique. Tudo mal pensado e, até, mal calendarizado. Um cúmulo de arrogante incompetência que nenhuma benevolência pode transformar em acaso ou distracção.

Claro que nada disto ecoa em casa própria. Nem este caso nem tantos outros. Aqui enquadrados por um corpo diplomático e afim que pratica o mutismo opinativo e, até, a elisão factual, e por uma imprensa pública (RDP, LUSA, RTP) que não arrisca a distância crítica, os agentes deste “modo cooperante” encomendam ainda trabalhos laudatórios na imprensa privada, realizados por jornalistas (quantas vezes juniores) que pouco ou nada compreendem do país que visitam, que pouco ou nada sabem da questão “cooperação” e que, fundamentalmente, estão constrangidos por essa realidade de viajarem a convite do Estado, como se em “missão nacional”. Veja-se, como exemplo, esta inenarrável peça de auto-propaganda, publicada no jornal Sol. O ministro mente. Ponto final parágrafo. O jornalista serve. Aliás, reproduz.

Há muito tempo que é tempo de isto mudar.

Cartas de Guerra, de Lobo Antunes

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Já antiga prenda de bela amiga só agora leio “D’este viver aqui neste papel descripto“, as cartas de guerra de António Lobo Antunes à sua mulher Maria José (D. Quixote, 2005).

Livro especial, na altura da sua edição nos jornais muito se louvou a escrita de Lobo Antunes, a transcrição da intensidade do seu amor, o seu sentir da guerra. Ora o que leio (vou a meio do livro) é algo diverso. Se Lobo Antunes é um escritor extraordinário não é o nestas cartas – nem tinha que o ser, são cartas para a sua mulher, nunca pensadas como objecto literário. E se muito amava a sua mulher (a qual surge como de uma Beleza perturbante) não seria isso relativamente generalizado nos seus camaradas de armas? Amará mais um escritor do que um amanuense? E não serão a guerra e a sua solidão extrema dinamizadores do sentimento do amor? Ele escreveu esse amor e outros não, a diferença. Que justifica juntarmo-nos à volta destas palavras, não precisando para isso de outros sublinhados.

Nessas cartas surpreendem duas coisas: por um lado a narrativa da guerra, nada (aparentemente) escondido, um nunca capear os perigos e os medos - um pacto entre o casal? Mas acima de tudo surpreende o homem, a ingenuidade que transparece nos seus 28 anos, até a estreiteza do interesse sobre o que o rodeia, homem do seu espaço e do seu tempo, um tempo onde se podia escrever “as hóstias sabem a papel almaço“. É isso que espanta pois, por mais céptico que se vá ficando, ao ler um Escritor como este, imenso, imagina-se o homem como quasi-omnisciente, homem imenso também, uma inata apreensão do circundante. Mas não, mero homem que amadurece(rá). Esse, para mim, o interesse do livro. Extremo.

Tudo se poderá resumir assim. O médico militar vai a uma povoação (7.3.71, pp. 80-82) e “Hoje, domingo, passei a manhã numa cerimónia curiosa, a assistir à esconjuração de uma doente, para que a doença saísse de dentro dela. Como sou uma personagem de marca sentaram-me na única cadeira existente, dando a direita ao soba. Depois 3 homens tocavam tambor, a doente foi sentada numa esteira, e a malta dançava e cantava em volta uma melopeia estranhíssima. Estava um calor como não me lembro de ter sentido na minha vida, não havia uma única nuvem no céu e tudo brilhava e reluzia. Assisti à cerimónia por acaso, porque andava à procura de cachimbos e pentes. Aquelas coisas de madeira em que se faz o pirão, uma espécie de almofariz assim, mais ou menos trabalhado, ficava estupendo em nossa casa como cesto de papéis ou outra coisa qualquer. Há-os muito bonitos, mas são bastante pesados. Estou a pensar mandar fazer um baú para levar os objectos que por aqui vou juntando, e que nunca vi em parte nenhuma em Lisboa. Os bibelots ficam por minha conta. A fim de escolher só coisas que valem realmente a pena tenho passado o meu tempo livre a esquadrinhar os quimbos. Hoje, por exemplo, vi um cachimbo giríssimo mas não mo quiseram vender, apesar de eu oferecer a exorbitante quantia de 10$00. Tenho a impressão de que a tia Hiette, por exemplo, perderia a cabeça por estas paragens. Espero que não te horrorizes quando me vires chegar cheio de coisas para as quais, talvez, pelo número, não tenhamos lugar em casa. Vamos a ver se levo algumas em Outubro, quando aí for. E o mais incrível é que no meio disto tudo ainda só gastei 20$00!

Não é crítica minha. É até comovente ver um (ainda) jovem recém-casado a escrever à mulher grávida, as minudências da decoração do lar, uma verdadeira bricolage para manter o registo de casal (quotidiano, como as cartas o tendem a ser). Mas ao mesmo tempo ao ler isto espanto-me, o Lobo Antunes, futuro médico psiquiatra (ainda que não lhe fosse a vocação, há-de resmungar durante anos) passa, forçado e distraidamente por uma exorcização, e segue descrevendo com minúcia o bric-a-brac? Coisas desse tempo, ileituras desinteressadas desse tempo, o hiato entre-homens de séculos, de então. E se até o Lobo Antunes assim pairava, como seriam, como seguiriam todos os outros?

Depois, enquanto vou passando as páginas e decido voltar atrás para sublinhar, percebo que o tempo não passa. Não andam hoje esses profissionais produtores de exótico às voltas, maravilhados, com as “medicinas tradicionais”, não são eles os nativistas do “conhecimento autóctone” os distraídos consumidores deste bric-a-brac d’agora? Completamente. E com o (gigantesco) senão de não serem Lobo Antunes …

Ryszard Kapuscinski em Angola

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Ryszard Kapuscinski, Another Day of Life (Penguin, 2001 [edição polaca de 1976]) é o relato da estadia do autor em Angola entre Setembro e Novembro de 1975, o fim da colónia, o começo do país. Acompanhando o êxodo português e o (re)começo da guerra. Uma grande reportagem em livro precioso.

Empenhado, o tom e as previsões do seu tempo, a parte datada do texto: a FNLA é apresentada como constituída por canibais, dela se ouve a voz de um soldado (aprisionado) lamentando-se enganado por promessas de futura bolsa de estudos e sabedor do errado em alinhar com tal movimento. O MPLA é a “república”, os movimentos outros são invasores. Os portugueses são narrados em tons crus ainda, no fim, louvados por terem ajudado o MPLA – a abertura in extremis do aeroporto para as tropas cubanas. E a estadia que termina com uma visita, cortesia de admirador, a Agostinho Neto, o poeta, ali citado, e tratado com as pinças – apenas saudado, não questionado – “para não o magoar”, um triste episódio, até cândido na sua explicitação, onde Kapuscinski intervala o seu jornalismo. [Não deixa de ser engraçado ver a narrativa da sua viagem com a militantissima equipa da RTP, de Luís Alberto Ferreira. E queixamo-nos nós hoje em dia da falta de objectividade ...].

Tudo isto será coisa do seu tempo, historicamente compreensível. Não tanto o seu posfácio, de 2000, com uma pequena cronologia comentado do percurso angolano: “Has anything changed? Unfornately, not much. Yes, the Cubans have departed. As have the South Africans. But the Angolans are still there – it is their country: a country divided, torn apart, ruined by civil war, whose central government has been consumed for three decades by the rebellion of Jonas Savimbi” (147). De longe, em décadas, Kapuscinski não mudou o seu olhar. Mudou o mundo, tanto se desvendou. Mas nada disso aqui se ecoa.

Sabe-se que o autor é louvado pelo seu conhecimento de África e pelo seu particular olhar. The Shadow of the Sun ganhou-lhe esse reconhecimento. Muito pela verve, respeitável, mas também pela abordagem, o (muito antropologizável, já agora) modelo “europeu entre africanos”, recusando os nichos dos “brancos em África”, nesse seu conforto apartados do real e do seu entendimento. Também por isso seria suposto o leitor surpreender-se com “The Bantu language has no future tense; the concept of the future doesn’t exist for the Bantu people, they are not tormented by the thought of what will hapen in a month, in a year” (103) – e eu regresso ao pobre jovem FNLA aprisionado, aterrorizado numa guerra na qual se alistou em troca de uma possibilidade de estudar. No futuro. Não seria bantu? 

É esta metade da sensação provocada por este Another Day of Life. A constatação de que a empiria nem sempre aclaram, a desilusão do preconceito presente, por melhor que seja o estilo. Sobrevalorizado Kapuscinkski? Sempre me pareceu, um pouco a auréola do andarilho – o “on the road in Africa” diverso do “once I had a farm in Africa“.  A cada leitor o seu sonho, o seu éxotico … Mas acima de tudo sobrevalorizável na comparação com o habitualmente pueril discurso europeu sobre os contextos africanos.

Mas há outra metade da sensação provocada pelo livro. A capacidade de observação (observar não é entender, nem sempre) do autor, e a bela prosa. Um aeroporto em pânico “acolhendo” a população colona em desespero, a barbuda e licenciosa tropa portuguesa auto-demitida e, de antologia, uma Luanda metida em contentores, páginas antológicas sobre a descolonização portuguesa:

Everybody was busy building crates. Mountains of boards and plywood were brought in. The price of hammers and nails soared. Crates were the main topic of conversation – how to build them, what was the best thing to reinforce them with. Self-proclaimed experts, crate specialists, homegrown architects of cratery, masters of crate styles, crate schools, and crate fashions appeared. Inside the Luanda of concrete and bricks a new wooden city began to rise. The streets I walked through resembled a great building site. I stumbled over discarded planks; nails sticking out of beams ripped my shirt. Some crates were as big as vacation cottages, because a hierarchy of crate status had suddenly come into being. The richer the people, the bigger the crates they erected. Crates belonging to millionaires were impressive; beamed and lined with sailcloth, they had solid, elegant walls made of the most expensive grades of tropical wood, with the rings and knots cut and polished like antiques (…)

The crates of the poor are inferior on several counts. They are smaller, often downright diminutive, and unsightly. They can’t compete in quality; their workmanship leaves a great deal to be desired. While the wealthy can employ master cabinetmakers, the poor have to knock their crates together with their own hands. For materials they used odds and ends from the lumber yard, mill ends, warped beams, cracked plywood, all the leftovers you can pick up thirdhand. Many are made of hammered tin, taken from olive-oil cans, old signs, and rusty billboards; they look like the tumbledown slums of the African quarters. (…)

Thanks to the abundance of wood that has collected here in Luanda, this dusty desert city nearly devoid of trees now smells like a flourishing forest. It’s as if the forest had suddenly taken root in the streets, the squares, and the plazas” (13-16)

E depois a guerra, uma frente sul incognoscível, indetectável de tão mutável e porosa, a qual narra até à fronteira. O ambiente de espera aquando da batalha de Luanda, angustiante (talvez premonitório de outros desesperos): “Oscar, who had been at the limits of his strenght, now drunk, called out in despair, “If this is what independence is like, I’ll blow my brains out!” (122). Mais do que tudo nessas andanças narrando locais e captando uma galeria de homens, estupenda, vibrante, combatentes ou sofredores, até heróicos no seu desprendimento quotidiano, quase como se tudo aquilo fosse, afinal, normal. Aí a grandeza do livro, da escrita do autor, como nos apaixona em meia dúzia de linhas por essa gente que cruza.

Termina a narração com a retirada sul-africana, uma cena épica, visitável, imaginável: “Pieter Botha … passes his army in review as it returns from war across the border bridge over the Cunene River. Although the soldiers cross the bridge in silence, there is a lot of shouting and screaming in the vicinity, since at the same time the FNLA and UNITA units that until that moment had accompanied the white South Africans soldiers are throwing themselves into the river en masse and splashing across towards Namibia. Many drown in crossing. But the war has ended, the democracy of the front has ended; and the law of segregation applies again: Passage across the bridge is for whites only” (147). Um mundo em estertor, esse que ainda teria duas décadas.

Kapucinski é zarolho? É! Mas um belíssimo zarolho …

Sobre o colonialismo português e o Encontro de Feministas Lésbicas:

dois assuntos que me levam a deixar comentários em blogs alheios. No Chuinga a transcrição e o apoio a um texto de Mário Crespo, o qual quer que o Estado português peça desculpas à África ex-colonizada. No Diário de Um Sociólogo notícia sobre o Encontro Internacional de Lideres e Intelectuais Feministas Lésbicas, a decorrer em Maputo, o qual tive ontem o desprazer de cruzar.

Os “comandos” e o resto

Acho que isto dos blogs não é muito grave, é só bloguismo, é só conversa – a qual, tendencialmente, se aqui começa aqui acaba. Não só por isso chateia-me, imenso, que à entrada do meu local de trabalho (e a propósito disto) me chamem “amante de comandos” [ou "admirador", que isto de directas de trabalho complicam a audição desagradada] Ainda por cima em aparente tom jocoso, o qual retiraria espaço para uma qualquer argumentação se fosse esse o local para tal. Nada me move contra as forças armadas do meu país – são uma instituição, louvável, às vezes criticáveis negativamente, às vezes criticáveis positivamente, a maioria das vezes (como se deseja com uma  qualquer instituição) fluindo com a nossa mudez (não surda). Mas sei que “amante de comandos” é uma expressão polissémica, ou quer sê-lo. A propósito disto e vindo de quem vive de ler e de escrever, tendo obrigação pessoal e profissional de entender o que se escreve? Torcer argumentos alheios, invertê-los, e atirar o borboto. Não … Bardamerda. E mais não falo no assunto. Nem aqui, nem à porta do meu local de trabalho. Nem nos entretantos.

Notas de leitura: olisipografia

Texto sobre a toponímia tardo-colonial lisboeta no simpático Olivesaria.

Quarta-feira de RTP-África. Madrugada quase, “Prós e Contras” sobre a Cimeira Europa-África e o tratado europeu (o tal que querem de “Lisboa” como se isso fizesse esquecer a aldrabice de não referendar o que estava a ser chumbado em referendo – ainda que, delenda Cartago est, a constituição portuguesa mantendo a impressão digital dos comunistas de 1975, hoje apreciados socialistas, espolie os emigrantes do direito ao voto [eles "são de direita", nunca esquecer], sendo portanto uma constituição anti-democrática desenhada por constitucionalistas de cidadania miserável – por mais catedráticos e Asdis que se afirmem).

Mas debate televisivo: um bloguista imparável, um neo-bloguista excitável (se cortarem a voz ao Miguel Portas ele diz umas coisas, se o deixam espraiar ele morre na praia), um secretário de Estado muito funcional (ok, simpatizo com ele, mas aguentou-se muito bem). E um propagandista europeu (Sousa Pinto?). Logo de início dizia o deputadozito, em ejaculações neo-nacionalistas (“neo” porque é também um nacionalismo europeísta), gabando o sucesso cimeirista da presidência portuguesa – Portugal como único país europeu que poderia ter alcançado tal desiderato (o “da nova atitude”, da “nova era”, etc). E porque tem uma “relação desinteressada com África” (ultra sic) – Salazar, Salazar, Salazar (e dizem que Soares gostava do rapaz …). Todas as asneiras que veio a dizer ficaram anunciadas – antes Jorge Lacão, de quem se dizia que Soares não gostava, até ao insulto.

Ainda há disto? Ainda há desta gente? No cosmopolita (e europeísta) PS? Pobre de que junto desta cáfila se tem que sentar? Que imbecil …


Um futuro historiador dedicado às relações entre Portugal e Moçambique decerto que encarará 2007 como um ano marcado pela transacção (dita “reversão” no neo-português actual) da HCB. Juntará alguns outros factos, porventura até a recente cimeira “Europa-África”.

Fica aqui o meu contributo historiográfico (até porque não há imprensa portuguesa em Moçambique, o que dificultará futuros trabalhos de arquivo). No passado mês o Presidente da Assembleia da República, segunda figura do Estado, deslocou-se a Moçambique na companhia do deputado Vera Jardim (antigo ministro da Justiça), acompanhando as cerimónias do jubileu de Aga Khan. Ecumenismo muito interessante e basto significante para entender o Estado português nesta época histórica.

Nesse seu programa oficial os dois deputados visitaram o novo centro comercial de Maputo, recente iniciativa empresarial do poderoso e simbólico grupo económico MBS. Pequeno acto protocolar, mas também muito significativo sobre a política portuguesa em Moçambique. Aliás, se historiograficamente a transferência da HCB apenas significará o encerrar de um ciclo, este pequeno evento poderá denotar algumas das actuais linhas de interacção entre Estados. E, até, das dinâmicas partidárias portuguesas.

Há dois anos o primeiro-ministro chinês Wen Jiabao visitou Portugal. Nessa altura Socrates incentivou o poderoso visitante a usar Portugal como intermediário nas crescentes relações sino-”palop”.

Na época foram declarações que passaram mais ou menos despercebidas – que me lembre só Paulo Gorjão as ecoou. A mim ocorreu-me algo mas deixei seguir.

Não tanto sobre a auto-menorização que isto significava, deixar entender sociedade e economia portuguesas como mero “oliveira de figueira”. Indicaria isso um projecto? Mas não era bem isso que se me despertou, crítica até talvez um pouco patrioteira, concedo.

O que me arrepiou nessas declarações foi o demonstrarem desatenção e até desentendimento sobre o que se passa(va): em substância ali estava uma declaração de menoridade aos Estados e economias africanas, como se estas precisando de serem tutelados na sua extroversão (erro político – que decerto não passou despercebido – e que se paga caro); e ainda uma menoridade chinesa nas suas relações internacionais (erro que se paga[rá] bem caro), tanto do ponto de vista do seu potencial económico como da sua capacidade negocial e diplomática [já agora, falam as línguas, enquanto 450 anos em Macau não foram suficientes para criar um tradição sinófila portuguesa].

Mas, fundamentalmente, significou (ou transpareceu) a desatenção para uma mudança de paradigma nas relações internacionais com África: ao invés do que agora se geme a chegada chinesa não criou a depredação ambiental (opõe-se sim aos tímidos esforços ecológicos deste início de milénio). A chegada chinesa assumiu-se como opção, e é assim entendida, ao paradigma da “cooperação” desde os anos 90s – com eles não há imposições de “condicionalidade política” ou de “boa governação” (parece que agora é “governância” …). O multipartidarismo pode dirigir-se para o velho modelo mexicano de democracias multipartidárias de partido único e, entre outras coisas, as administrações estatais africanas não terão que seguir uma agenda burocrática estabelecida em torno das metodologias (e laboriosos procedimentos) impostas por Cotonou e as respectivas fiscalizações. Que mais pedir? E também os cientistas sociais deixam de estar prisioneiros da dificil equação (e de complexa comprovação histórica): democracia=desenvolvimento.

Pois nessa altura Portugal, pela voz do P.-M. Socrates, enquanto integra(va) o pelotão europeu, o qual neste contexto é tantas vezes conduzido pelos “puritanos” escandinavos, oferecia-se para mediar o torpedear da sua (europeia) política africana. Desatenção? Ou maquiavelismo? A história responderá.

Adenda: sobre esta questão da política europeia sobre África não resisto a citar o excelente Kontratempos. Em texto com o qual concordo em parte substancial interessa-me a sua semântica do texto: a China não está interessada no desenvolvimento, transparência ou direitos humanos em África. Algo com que concordo (enquanto dou graças pelo facto dos bancos suíços não pertencerem à União Europeia). E a China tem uma “presença tentacular” em África.

Depois rimo-nos (ou protestamos) com o Kadhafi e com o Mugabe a falarem de colonialismo e isso. Munições ofertadas por europeus, diga-se. Em particular os das boas intenções.

Protocolo e política

Abaixo poderei ter aparentado desmerecer os protocolos político – diplomáticos. Mas será uma mera aparência, apenas me desgostei com a superficialidade jornalística. Pois os protocolos significam … A esse respeito lembro-me de uma história exemplar que há anos me foi contada, durante uma recepção, pelo então embaixador britânico (Alto Comissário, ainda insistem a dizer), devastado com o incidente.Corria 1999 e a Raínha Isabel II veio a África, visitando três países: presumo que o Quénia, depois a África do Sul e, para terminar, Moçambique. Aqui curta visita, mas muito simbólica, pois o país tinha recentemente aderido à Commonwealth no seu particular estatuto de único membro que não foi possessão britânica. E lembro ainda do frisson que cruzou a cidade na expectativa da ilustre visita.

O perfil da deslocação era explícito quanto seu conteúdo simbólico. Saindo de Joanesburgo a comitiva aterraria em Maputo logo de seguida, cerca do meio-dia, participaria num banquete oferecido pelo então Presidente Chissano e de imediato partiria para Londres, numa visita particularmente cronometrada. Assim aconteceu.

O avião real aterrou em Mavalane, a comitiva dirigiu-se ao Hotel Polana onde Isabel II e o príncipe consorte descansaram breves momentos nos aposentos reservados para o efeito. Às 13 horas saíram para o almoço presidencial, cruzaram de novo o reverente Polana e entraram na limusine estacionada à porta, encabeçando a comitiva que se deslocava para a Ponta Vermelha, o embaixador no carro imediatamente seguinte, precedidos da tradicional escolta motorizada, essa que mistura simbólico estatutário com a necessária segurança.

Entrado no carro o casal real presumiu que a escolta se movimentasse, decerto que esta obedecendo a ordens. Mas aí ficaram, esperando. Então Filipe, o príncipe consorte, saíu do carro, dirigindo-se para a escolta (ali estacionada ao portão do hotel), braço no ar gesticulando, o embaixador aflito correndo atrás dele, “o homem é muito alto“, veio-me ele a dizer sublinhando o efeito cénico (e, presumo eu, já imaginando o seu futuro profissional num bunker de Argel ou Cabul). Protestava, desabrido, o príncipe “Ou avançamos já ou seguimos de imediato para o aeroporto!”, assim originando de imediato a partida da comitiva para o destino previsto.

Dois minutos“, foi a espera, “dois minutos, se tanto“, lamentava-se o embaixador. Ainda aflito.

Mas, claro, conhecedor das linguagens do protocolo. Significantes, hiper-significantes.

Já agora um beijo para a minha amiga Ana L. que, a propósito do Mugabe em Lisboa, se irritou e escreveu para o ministro. Eu discordo com ela, acho que sim senhor, que o velho deve lá ir (e até tenho esperanças nos efeitos dos choques térmicos). Mas achei porreiro isso de protestar directamente com quem de direito.

1. Reunião hoje com colega de equipa, regressado agora do distrito da Gorongosa, antes de avançarmos todos os outros para vários distritos do centro. Ali a paisagem mostra bem os efeitos dos fogos, talvez queimadas descontroladas a devastarem o terreno, talvez outras coisas também. Pergunto-lhe, como se distraído mas sei que corrosivo, “e o parque, sempre é verdade que arderam 80%?”. Estupefacto ele, sem saber de onde me vem a ideia, que nem pensar, que nesse caso já não haveria parque. Pois claro …

2. Há algum tempo cruzei uma jornalista portuguesa lá na Ilha. Que queria falar sobre a cultura, coisa de entrevista. Ainda bem, havia ali gente de comum conhecimento a impecilhar, escapuli-me por outro caminho. No dia seguinte um meu amigo veio-me com ela, para a tal “entrevista”. Lisboeta, penacho de quem escreve para muitos, atrevida num “já percebi que não gosta de jornalistas“, diz-me. Mal-criada, nem mais. “Pois“, digo-lhe para desagrado do meu amigo ali a ser simpático, “vocês folclorizam e superficializam tudo“. Esgarzito e ainda assim a primeira pergunta, “o que é que falta na Ilha?”. Guardei o “vá à merda” e fui quase-acabando, “por que é que não começa por perguntar o que há na Ilha?”. Nunca há-de perceber…

3. Há anos atrás um jornal patrício, sempre repetente nestas coisas, dizia que a segunda causa da morte em África era a queda de cocos na cabeça das pessoas. Pois se o tinham dito à rapariga, perdão, à jornalista.

4. Em breve, mais conclusões sobre o tráfico de orgãos em Moçambique, coisa do mesmo jornal, diga-se. E agora de outros, ao que ameaçam. Pois se até para romances de aventura serve.

Depois um tipo tem maus fígados, dizem.

Amigo que lê o ma-schamba envia-me, recomendada, uma crónica de Miguel Sousa Tavares, uma “Triste Africa” a propósito do Congo, do Zimbabwe. E também da política externa portuguesa.Muito discordo do truculento MST, e não só no seu aberrante portismo (uma berrada e nada irónica filiação à mafia que, sem engraçadismos, desvaloriza radicalmente, aplaina mesmo, qualquer intenção de cidadania que o plumitivo tenha erguido. Entenda-se, a não-brincadeira fascistoide da bola sousatavarista é, in loco, o similar ao bembismo ou outro ismo qualquer na torpe africa que ele denuncia). Discordo deste texto acima de tudo pela critica à política externa portuguesa (é porreiro dizer mal do governo): uma república que envia o seu Presidente à colonialista China não tem ética diplomática, não vale a pena chover no molhado, segue o primado da política real. E quem não se exaltou na altura não me venha com merdas vs mugabes e bembas.

(paragrafo amansado: Já agora, Sampaio veio cá há pouco, falar da tuberculose. Havia duas hipóteses, ou ir lá exigir-lhe o meu voto de volta, vociferando contra a pro-chinesice por ele cometida. Ou esquecer, enjoado com o velho lider das lutas académicas de 61 feito aquela ruína colonialista, servil. Deixei passar, claro, as pessoas acham “maluquinho” o tipo que fala.)

O texto do clarividente MST, que vê corações por via das caras, tem piada e por isso o reproduzo aqui. Tem piada porque me lembra de alguém que foi observar as eleições ao Congo, e às 8 da noite já blogava que tudo “tinha sido free and fair“. “Partir a loiça da política”, diz o alguém ser a sua missão? Antes os seguidistas que esta gente, dantesca, se de dantas ou dante já nem sei.

E la vai o texto de Miguel Sousa Tavares.

Triste África

Olhem para a cara de Jean-Pierre Bemba, o líder da oposição congolesa. Eu sempre acreditei que olhar para a cara das pessoas ajuda muito a perceber quem são. Concordo que a receita é falível: há gente com aspecto de boa pessoa e que, afinal, não é recomendável e vice-versa. E há caras que não dizem tudo, de bom ou de mau, acerca do seu portador. Mas, para quem conhece um bocadinho a África Negra e a sua classe política, a cara do sr. Bemba diz tudo ou quase tudo sobre o que há a esperar dele no dia em que conseguir chegar à presidência da República Democrática do Congo. A menos que estejamos perante uma notável excepção ao meu critério de adivinhar carácteres a partir das caras, a do sr. Bemba traz as marcas inconfundíveis da generalidade dos políticos negros africanos da última geração. Um catálogo de horrores: nepotismo, prepotência, violência, cupidez e, fatalmente, corrupção.

Agora, olhem para a cara do sr. Joseph Kabila, o seu rival e actual Presidente da RDC: a outra face da mesma moeda. O Presidente Joseph Kabila sucedeu a seu pai — coisa habitual nestas paragens —, o distinto Laurent-Desiré Kabila, cuja presidência será sobretudo recordada pela ruína do país e o estendal de cadáveres deixados para trás. Kabila-pai tinha sucedido ao imortal Mobutu Sese Zeko, uma espécie de estereótipo de ditador africano, de quem Bemba e o pai foram estreitos aliados. Dois clãs em luta pelos despojos do país, coisa comum na África Negra. Depois de vinte anos de guerras, golpes e contragolpes, o ex-Zaire e ex-Congo Belga, um dos mais ricos países africanos, está reduzido à miséria, à ineficácia e à corrupção e exposto às intromissões e cobiças do seu poderoso vizinho angolano.Voltemos ao sr. Bemba, herdeiro de uma colossal fortuna deixada por seu pai e empresário cujos exemplos mais admirados são o marselhês Bernard Tapie e o milanês Silvio Berlusconi, dois príncipes da alta finança europeia que a Justiça perseguiu e condenou por toda a espécie de falcatruas possíveis no ramo. No final de 2006, Bemba regressou do exílio para fundar o MLC e concorrer às eleições. Derrotado por Kabila, gritou à fraude (o que, mais do que provavelmente, é verdade) e transformou o MLC numa milícia militar, apoiada pela Líbia e outros países africanos e acusada pela ONU de práticas de canibalismo. Em Março passado, o MLC saiu do mato e desceu às ruas de Kinshasa, tentando tomar o poder pela mais antiga das formas locais de o fazer. Derrotado também nas ruas, Bemba refugiou-se na Embaixada da África do Sul, e a situação caiu num impasse. Foi então que a diplomacia portuguesa teve uma ideia luminosa: mediar a saída negociada (e necessariamente provisória) de Bemba do país e da cena política. Aproveitar o passaporte português da mulher, uma luso-brasileira filha de um emigrante português, e dos filhos e aproveitar o facto de o sr. Bemba ser proprietário de uma casa na Quinta do Lago, no Algarve (como já sucedia com o seu ‘padrinho’ Mobutu), assim proporcionando uma saída airosa a ambas as partes. Se os esforços do embaixador Alfredo Duarte Costa tiverem sucesso, a nossa diplomacia consegue, de facto, uma lança em África: proporciona uma saída para a crise, que Kabila tem de agradecer, e fica nas boas graças do sr. Bemba, para o dia em que este, milhar de mortos a mais ou a menos, consiga enfim sentar-se no trono do Leopardo. O desfecho diplomático está iminente e apenas aguarda que Kabila resista à tentação de tentar deitar a mão ao seu rival para o cortar às postas e se decida a assinar um papel, deixando-o sair.

Como se pode imaginar, aos congoleses, à excepção dos milicianos e arregimentados de ambos os lados, tanto se lhes faz Kabila como Bemba. Quem ficar com o poder enriquecerá — ele e a sua corte; o resto da população continuará na miséria, à espera do milagre impossível do dia em que o Congo, como o resto da África Negra, seja governado por homens sérios, competentes e com vontade de servir o seu país.
Desçamos um pouco mais abaixo e a leste, onde temos o caso-limite do Zimbabwe, desse louco criminoso que é Robert Mugabe. Como escreveu há dias a Conferência Episcopal do Zimbabwe, ali o poder perdeu já qualquer resquício de vergonha, de pudor, de condescendência para com a miséria do povo ou de respeito pelos direitos humanos mais elementares. A oposição é espancada, presa e torturada à vista de todos, os jornalistas estrangeiros são expulsos, o desemprego atinge os 80%, e a fantástica Reforma Agrária de Mugabe, que correu com os melhores agricultores africanos, que eram os rodesianos brancos, trouxe a fome aos campos e às cidades superlotadas. No seu delírio de psicopata, Mugabe não encontrou melhor plano do que mandar o Exército desterrar da capital, Harare, centenas de milhares de pessoas que não tinham para onde ir.

Em Harare esteve há duas semanas o ministro dos Estrangeiros de Angola, que lá foi oferecer apoio militar a Mugabe e proclamar a solidariedade ‘anticolonialista’ do regime de José Eduardo dos Santos. Depois, o ministro veio a Lisboa e sentou-se numa mesa ao lado do nosso MNE, Luís Amado. Perguntaram a Amado se, perante a situação no Zimbabwe e o isolamento a que o regime foi votado pela União Europeia, ele ponderava a possibilidade de não convidar Mugabe para a Cimeira Europa-África, prevista para a presidência portuguesa da UE. O MNE deve ter estremecido, antes de responder convictamente que não: imaginar que Portugal pudesse comprometer aquilo que está previsto ser o «achievement» da nossa presidência, arriscando-se a que os países africanos boicotassem a Cimeira por ‘solidariedade anticolonialista’ com o Zimbabwe, é simplesmente antipatriótico. Seria o mesmo que convidar o Governo português, por exemplo, a perguntar a Luanda para onde vão as receitas do petróleo angolano que não entram no Orçamento do Estado.

‘Provocações’ dessas não se fazem aos africanos. Eles são muito sensíveis às intromissões ‘colonialistas’ dos brancos nos seus assuntos: em especial se forem europeus e, pior ainda, antigas potências coloniais em África. Eles não se importam de ser neocolonizados pelos indianos e agora pelos chineses, que estão a tomar conta de África em busca de energia e terras cultiváveis. Como antes não se importavam com os negócios ruinosos feitos com russos ou americanos, desde que as ‘nomenclaturas’ locais, bem entendido, fossem devidamente recompensadas. Mas, para os europeus, as regras são muito mais duras e exigem, como ponto prévio, que só há negócios em África se se seguir estritamente a diplomacia dos interesses e jamais a dos valores. É preciso ficar muito calado, olhar para o lado, fingir que não se vê e não se sabe e, sendo possível, como fazem Portugal e França, conseguir que os seus dirigentes tenham sempre um «pied à terre» na Côte d’Azur ou no Algarve, para criarem laços de afinidade e cumplicidade connosco.

Um dia, quando se fizer a história da África desaparecida, haveremos de chegar à conclusão de que, muito pior e muito mais imperdoável do que os cinco séculos de colonialismo europeu, foram estas cinco décadas de cumplicidade com o que há de pior em África.

Miguel Sousa Tavares
Publicado segunda-feira, 9 de Abril de 2007

No A Matéria do Tempo lembra-se o O Cancioneiro do Niassa, com ligações a páginas sobre o assunto.

Lembro que João Maria Pinto aqui esteve há alguns anos, poucos. Veio a convite do ACERT para o Festival de Teatro de Maputo, então apresentar o “Canções Proibidas”, o cd do Cancioneiro. E da minha sensação do tempo ter passado, do nenhum eco aqui sobre tal presença.

Médicos do Mundo Portugal

(Namaacha, fronteira com a Swazilandia, Novembro de 2006. Quiosque de divulgacao da prevencao do Sida)

Sempre interessante (e até surpreendente) encontrar uma ong portuguesa.

A já longa série Retratos do Trabalho no Abrupto abunda em sub-texto. Evitando grandes textos fico-me por lhe apontar o exotismo. E confesso que lhe fui ganhando uma aversão de estimação, pacificamente associável ao apreço que tenho pelo blog/autor. Ainda que me surpreenda a irreflexão que o domina neste campo. Ou, pelo menos, que me parece dominá-lo.

Em tempos Pacheco Pereira explicitou o que desejava apresentar. Algo como um trabalho distinto daquele que é o da maioria dos bloguistas (activos ou passivos). Mais ou menos como algo distinto dos serviços, da educação (não encontro o texto em causa, não posso garantir fidelidade. E só por isso não coloco a ligação). Daí à colecção de cromos a la National Geographic ou FNAT foi um pequeno passo, repetidamente dado. Mas criticar para quê? Que mal virá ao mundo?

Ainda assim este Retrato de Trabalho na Ilha de Moçambique ascende aos píncaros do tal sub-texto. Educação não entrava, salas de aula habituais aos bloguistas? Mas se “Resolução de Equações do 2º grau” com pretinhos puídos saídos dos musseques (já agora, uma “angolanada” utilizada a despropósito) … que bonito, que comovente.

Francamente … não há paciência.

Portugal e África: A televisão pública portuguesa enceta a esse-eme-esseização da história de Portugal, a “escolha popular” do maior português de sempre. Alguns grãs-blogs portugueses já quase esgotaram o assunto, o da pertinência de algo como isto, centrando-se em particular nas práticas censórias (explícitas e implícitas) dos organizadores desta “história de portugal”.

A este propósito Pacheco Pereira refere ainda algo fundamental: o da produção de um padrão de “portugueses” que irão votar. Outras questões surgem sobre esta forma da tv pública construir uma imagem da história: a própria ideia do voto em personagens históricas; o peso da actualidade (quantos votos teriam Fernando Lage ou José Travassos numa iniciativa para escolher os melhores futebolistas portugueses?); o que é “grande”, o que é que constrói a “grandeza histórica” (o Mestre de Aviz é maior ou menor do que Fernão Lopes?), o que é “português” (vá lá que Fernão de Magalhães está, mas Miguel de Vasconcelos [ainda para mais dono monopolista de uma palavra em português], Tiradentes ou Cervantes poderão caber? Ou, como provoca o A Destreza das Dúvidas, não será Obikwelu o maior de todos?).

Independentemente de tudo isso, e da pouca pertinência de um passatempo televisivo deste tipo (e por isso da pouca pertinência de tanta atenção bloguística), surge algo a realçar. Em 250 “candidatos” propostos quase inexistem figuras ligadas ao esforço colonial português em África – Ivens e Serpa Pinto surgem, mas são exploradores, integráveis como Bento de Góis, na abundante galeria de “heróis identitários” de descobridores marítimos e exploradores terrestres; Spínola, Galvão, Costa Gomes ou Champallimaud surgem, mas sem referência às suas actividades em África, estão ali por razões outras.

Na prática a inflexão colonial portuguesa em África, pelo menos 90 anos bem recentes, é-nos trazida nesta “reconstrução popular” da história por apenas 3 nomes. 2 deles por razões absolutamente secundárias: Gago Coutinho, referindo-se-lhe a actividade de delimitação de fronteiras africanas, mas obviamente uma condição secundária na sua biografia, e Sá da Bandeira, ainda que fundamentalmente por ser responsável pela abolição da escravatura (algo muito discutível, mas enfim, não é aqui que vou discutir tal). Um terceiro por razões conjunturais, pois não creio que Henrique Paiva Couceiro fosse lembrado antes da recente publicação da sua biografia por Vasco Pulido Valente.

Enfim, a propósito de um passatempo televisivo, as marcas do luto português quanto a África. Uns saudosismos “patrioteiros” mais exaltados, mesclados com o silêncio. Gritante, como nestes casos.

Há textos estranhos: Rui, no Blasfémias integra este texto numa vasta colectânea do que chama “arrojafobia”, culminando que tal surge sem que o alvo (Pedro Arroja) [tenha] “escrito uma palavra. Notável!”.

Há textos estranhos, repito. No meu texto está explícito que nunca tinha lido P.A. Fobia de quê, de quem, então? Do liberalismo (de que P. Arroja é cultor)? Está explícito o desagrado com alguns bloguistas liberais, mas não todos – e tal como já botei o meu desagrado radical com bloguistas liberais também já espetei o meu agrado (e preferência) com outros (e isto para além de diálogos também inter e intraclubistas com o mundo liberal). Fobia de quê, de quem, então?

Absoluto menosprezo por declarações, lembradas com elogio no Blasfémias e apoiadas ou amigavelmente matizadas em comentários de alguns “blasfemos”, não é fobia, é isso mesmo, mero menosprezo. Infundamentado? Preconceituoso? Pois se se lembra que P.A. vai no bloguismo “Sem ter escrito uma palavra”? Peço desculpa, mas isso é falacioso. Há uma entrevista, assumida, e incensada. Nela constam excertos destes:

FC: Claro que estamos a falar de valores económicos.

PA: Sim. Repare, eu acho que eles têm todo o direito à liberdade, é a terra deles. Agora não se esqueça que os negros americanos não estão na sua própria terra.

FC: Ah não? E quem é que os levou para lá?

PA: Foram eles que foram. Atraídos pelo nível de vida que não têm em mais parte nenhuma do mundo.

FC:Para começar a terra era dos Indios. E está-se a esquecer do pequeno pormenor da escravatura.

PA: Alguns foram levados como escravos. Mas ainda hoje há gente a emigrar para lá, negros. E deixe-me dizer-lhe uma coisa. O homem que ganhou o prémio Nobel, este ano, Robert Fogel, provou que se o sistema da escravatura era politicamente inaceitável, em termos económicos, para os negros, era um sistema muito eficaz. Mais: que o trabalhador negro da época, escravo, vivia melhor que o trabalhador médio branco. Certamente que a conclusão é surpreendente, é por isso que ganhou um prémio nobel. Mas documentou extraordinariamente bem…

FC: O escravo vivia melhor em que sentido?

PA: Existe a ideia de que o escravo trabalhava e dava tudo ao senhor. Não. O senhor branco ficava no máximo com dez por cento. Em segundo lugar, o trabalhador escravo negro era duas vezes mais produtivo que o trabalhador negro.

FC: E já se perguntou porque é que ele seria duas vezes mais produtivo?

PA: Diz-se que os negros não trabalham, não sei quê, e isto vem provar o contrário: mesmo sob condições de adversidade, a escravatura, os negros eram duplamente mais produtivos que os brancos. E os estados do sul, onde eles estavam concentrados, prosperaram muito mais do que os do Norte. Fantástico.

FC: Fantástico? Se não trabalhassem o dobro apanhavam. Eram chicoteados, mortos, vendidos para a frente e para trás.

PA: Eu não quero dizer que a escravatura era aceitável, mas não foi má para os negros em termos económicos.

(…)

FC: “O Estado Providência acaba na violência e na miséria” , diz você. Sempre gostava de ver como acabaria o estado-empresa… E há sempre os motins de LA para mostrar que não é só o Estado Providência que acaba em violência e miséria. O que é que acha que aconteceu em LA?

PA: Isso é outra questão, que tem a ver com o problema negro. Que é basicamente um problema de família. De ética sexual. Os negros não são capazes de constituir família como tendência geral, como nós constituimos. Têm muitas mulheres. E a pobreza americana, hoje, como nos outros países desenvolvidos, é sobretudo a mulher sozinha com filhos. E a maior parte das famílias negras acabam assim.

(…)

FC: Porque é que será.

PA: Pode haver discriminação, mas também é ética do trabalho. Uma ética de família menos propícia ao trabalho. Sabe o que é? Vá a África e veja porque é que eles não trabalham. Gostam muito de sexo; nós também gostamos, mas se estivessemos o dia todo na cama não faziamos mais nada.”

“Notável”? O que Rui, no Blasfémias afirma é que considerar este tipo de reflexão como espúria é uma “fobia”. Entenda-se, não venho de uma repugnância moral pela argumentação, isso não conta, não me custa a “blasfémia”. Pelo contrário, desagrada-me esta “idolatria”, espanta-me este culto do lugar comum, produzido também no seio de um pensamento racialista e até racista é certo, mas acima de tudo superficial. Repugnância sim, mas pelo pomposo da reprodução de tal vácuo. A reprodução em primeira mão (entrevista), a reprodução posterior (elogio bloguista).

Não há fobia (por homem ou por lata corrente de pensamento). Há menosprezo pela atitude intelectual (por mais “brilhante”, para citar Pedro Arroja sobre si próprio, que seja a personagem em causa, e que o digam). “Notável” é o artifício de Rui para transformar um noutro, “vitimizando”, “martirizando”, e assim “sacralizando”, um pacote de banalidades. Esparvadas. E que aspergem quem as sublinha.

Há textos estranhos? Talvez não. Há textos assim mesmo, apenas.