dois assuntos que me levam a deixar comentários em blogs alheios. No Chuinga a transcrição e o apoio a um texto de Mário Crespo, o qual quer que o Estado português peça desculpas à África ex-colonizada. No Diário de Um Sociólogo notícia sobre o Encontro Internacional de Lideres e Intelectuais Feministas Lésbicas, a decorrer em Maputo, o qual tive ontem o desprazer de cruzar.
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Sobre o colonialismo português e o Encontro de Feministas Lésbicas:
Fevereiro 26th, 2008 — Politicamente Correcto, Portugal-África
Os “comandos” e o resto
Fevereiro 25th, 2008 — Blogs, Portugal-África
Acho que isto dos blogs não é muito grave, é só bloguismo, é só conversa - a qual, tendencialmente, se aqui começa aqui acaba. Não só por isso chateia-me, imenso, que à entrada do meu local de trabalho (e a propósito disto) me chamem “amante de comandos” [ou “admirador”, que isto de directas de trabalho complicam a audição desagradada] Ainda por cima em aparente tom jocoso, o qual retiraria espaço para uma qualquer argumentação se fosse esse o local para tal. Nada me move contra as forças armadas do meu país - são uma instituição, louvável, às vezes criticáveis negativamente, às vezes criticáveis positivamente, a maioria das vezes (como se deseja com uma qualquer instituição) fluindo com a nossa mudez (não surda). Mas sei que “amante de comandos” é uma expressão polissémica, ou quer sê-lo. A propósito disto e vindo de quem vive de ler e de escrever, tendo obrigação pessoal e profissional de entender o que se escreve? Torcer argumentos alheios, invertê-los, e atirar o borboto. Não … Bardamerda. E mais não falo no assunto. Nem aqui, nem à porta do meu local de trabalho. Nem nos entretantos.
Notas de leitura: olisipografia
Fevereiro 17th, 2008 — Blogs, Portugal-África
Texto sobre a toponímia tardo-colonial lisboeta no simpático Olivesaria.
Dezembro 13th, 2007 — Politica Portuguesa, Portugal-África
Mas debate televisivo: um bloguista imparável, um neo-bloguista excitável (se cortarem a voz ao Miguel Portas ele diz umas coisas, se o deixam espraiar ele morre na praia), um secretário de Estado muito funcional (ok, simpatizo com ele, mas aguentou-se muito bem). E um propagandista europeu (Sousa Pinto?). Logo de início dizia o deputadozito, em ejaculações neo-nacionalistas (”neo” porque é também um nacionalismo europeísta), gabando o sucesso cimeirista da presidência portuguesa - Portugal como único país europeu que poderia ter alcançado tal desiderato (o “da nova atitude”, da “nova era”, etc). E porque tem uma “relação desinteressada com África” (ultra sic) - Salazar, Salazar, Salazar (e dizem que Soares gostava do rapaz …). Todas as asneiras que veio a dizer ficaram anunciadas - antes Jorge Lacão, de quem se dizia que Soares não gostava, até ao insulto.
Ainda há disto? Ainda há desta gente? No cosmopolita (e europeísta) PS? Pobre de que junto desta cáfila se tem que sentar? Que imbecil …
Dezembro 11th, 2007 — Portugal-Moçambique, Portugal-África

Um futuro historiador dedicado às relações entre Portugal e Moçambique decerto que encarará 2007 como um ano marcado pela transacção (dita “reversão” no neo-português actual) da HCB. Juntará alguns outros factos, porventura até a recente cimeira “Europa-África”.
Fica aqui o meu contributo historiográfico (até porque não há imprensa portuguesa em Moçambique, o que dificultará futuros trabalhos de arquivo). No passado mês o Presidente da Assembleia da República, segunda figura do Estado, deslocou-se a Moçambique na companhia do deputado Vera Jardim (antigo ministro da Justiça), acompanhando as cerimónias do jubileu de Aga Khan. Ecumenismo muito interessante e basto significante para entender o Estado português nesta época histórica.
Nesse seu programa oficial os dois deputados visitaram o novo centro comercial de Maputo, recente iniciativa empresarial do poderoso e simbólico grupo económico MBS. Pequeno acto protocolar, mas também muito significativo sobre a política portuguesa em Moçambique. Aliás, se historiograficamente a transferência da HCB apenas significará o encerrar de um ciclo, este pequeno evento poderá denotar algumas das actuais linhas de interacção entre Estados. E, até, das dinâmicas partidárias portuguesas.
Dezembro 11th, 2007 — Europa-África, Portugal-África
Na época foram declarações que passaram mais ou menos despercebidas - que me lembre só Paulo Gorjão as ecoou. A mim ocorreu-me algo mas deixei seguir.
Não tanto sobre a auto-menorização que isto significava, deixar entender sociedade e economia portuguesas como mero “oliveira de figueira”. Indicaria isso um projecto? Mas não era bem isso que se me despertou, crítica até talvez um pouco patrioteira, concedo.
O que me arrepiou nessas declarações foi o demonstrarem desatenção e até desentendimento sobre o que se passa(va): em substância ali estava uma declaração de menoridade aos Estados e economias africanas, como se estas precisando de serem tutelados na sua extroversão (erro político - que decerto não passou despercebido - e que se paga caro); e ainda uma menoridade chinesa nas suas relações internacionais (erro que se paga[rá] bem caro), tanto do ponto de vista do seu potencial económico como da sua capacidade negocial e diplomática [já agora, falam as línguas, enquanto 450 anos em Macau não foram suficientes para criar um tradição sinófila portuguesa].
Mas, fundamentalmente, significou (ou transpareceu) a desatenção para uma mudança de paradigma nas relações internacionais com África: ao invés do que agora se geme a chegada chinesa não criou a depredação ambiental (opõe-se sim aos tímidos esforços ecológicos deste início de milénio). A chegada chinesa assumiu-se como opção, e é assim entendida, ao paradigma da “cooperação” desde os anos 90s - com eles não há imposições de “condicionalidade política” ou de “boa governação” (parece que agora é “governância” …). O multipartidarismo pode dirigir-se para o velho modelo mexicano de democracias multipartidárias de partido único e, entre outras coisas, as administrações estatais africanas não terão que seguir uma agenda burocrática estabelecida em torno das metodologias (e laboriosos procedimentos) impostas por Cotonou e as respectivas fiscalizações. Que mais pedir? E também os cientistas sociais deixam de estar prisioneiros da dificil equação (e de complexa comprovação histórica): democracia=desenvolvimento.
Pois nessa altura Portugal, pela voz do P.-M. Socrates, enquanto integra(va) o pelotão europeu, o qual neste contexto é tantas vezes conduzido pelos “puritanos” escandinavos, oferecia-se para mediar o torpedear da sua (europeia) política africana. Desatenção? Ou maquiavelismo? A história responderá.
Adenda: sobre esta questão da política europeia sobre África não resisto a citar o excelente Kontratempos. Em texto com o qual concordo em parte substancial interessa-me a sua semântica do texto: a China não está interessada no desenvolvimento, transparência ou direitos humanos em África. Algo com que concordo (enquanto dou graças pelo facto dos bancos suíços não pertencerem à União Europeia). E a China tem uma “presença tentacular” em África.
Depois rimo-nos (ou protestamos) com o Kadhafi e com o Mugabe a falarem de colonialismo e isso. Munições ofertadas por europeus, diga-se. Em particular os das boas intenções.
Outubro 10th, 2007 — Portugal-África
Já agora um beijo para a minha amiga Ana L. que, a propósito do Mugabe em Lisboa, se irritou e escreveu para o ministro. Eu discordo com ela, acho que sim senhor, que o velho deve lá ir (e até tenho esperanças nos efeitos dos choques térmicos). Mas achei porreiro isso de protestar directamente com quem de direito.
Abril 18th, 2007 — Africa Austral, Portugal-África
Muito discordo do truculento MST, e não só no seu aberrante portismo (uma berrada e nada irónica filiação à mafia que, sem engraçadismos, desvaloriza radicalmente, aplaina mesmo, qualquer intenção de cidadania que o plumitivo tenha erguido. Entenda-se, a não-brincadeira fascistoide da bola sousatavarista é, in loco, o similar ao bembismo ou outro ismo qualquer na torpe africa que ele denuncia). Discordo deste texto acima de tudo pela critica à política externa portuguesa (é porreiro dizer mal do governo): uma república que envia o seu Presidente à colonialista China não tem ética diplomática, não vale a pena chover no molhado, segue o primado da política real. E quem não se exaltou na altura não me venha com merdas vs mugabes e bembas.
(paragrafo amansado: Já agora, Sampaio veio cá há pouco, falar da tuberculose. Havia duas hipóteses, ou ir lá exigir-lhe o meu voto de volta, vociferando contra a pro-chinesice por ele cometida. Ou esquecer, enjoado com o velho lider das lutas académicas de 61 feito aquela ruína colonialista, servil. Deixei passar, claro, as pessoas acham “maluquinho” o tipo que fala.)
O texto do clarividente MST, que vê corações por via das caras, tem piada e por isso o reproduzo aqui. Tem piada porque me lembra de alguém que foi observar as eleições ao Congo, e às 8 da noite já blogava que tudo “tinha sido free and fair“. “Partir a loiça da política”, diz o alguém ser a sua missão? Antes os seguidistas que esta gente, dantesca, se de dantas ou dante já nem sei.
E la vai o texto de Miguel Sousa Tavares.
Triste África
Olhem para a cara de Jean-Pierre Bemba, o líder da oposição congolesa. Eu sempre acreditei que olhar para a cara das pessoas ajuda muito a perceber quem são. Concordo que a receita é falível: há gente com aspecto de boa pessoa e que, afinal, não é recomendável e vice-versa. E há caras que não dizem tudo, de bom ou de mau, acerca do seu portador. Mas, para quem conhece um bocadinho a África Negra e a sua classe política, a cara do sr. Bemba diz tudo ou quase tudo sobre o que há a esperar dele no dia em que conseguir chegar à presidência da República Democrática do Congo. A menos que estejamos perante uma notável excepção ao meu critério de adivinhar carácteres a partir das caras, a do sr. Bemba traz as marcas inconfundíveis da generalidade dos políticos negros africanos da última geração. Um catálogo de horrores: nepotismo, prepotência, violência, cupidez e, fatalmente, corrupção.
Voltemos ao sr. Bemba, herdeiro de uma colossal fortuna deixada por seu pai e empresário cujos exemplos mais admirados são o marselhês Bernard Tapie e o milanês Silvio Berlusconi, dois príncipes da alta finança europeia que a Justiça perseguiu e condenou por toda a espécie de falcatruas possíveis no ramo. No final de 2006, Bemba regressou do exílio para fundar o MLC e concorrer às eleições. Derrotado por Kabila, gritou à fraude (o que, mais do que provavelmente, é verdade) e transformou o MLC numa milícia militar, apoiada pela Líbia e outros países africanos e acusada pela ONU de práticas de canibalismo. Em Março passado, o MLC saiu do mato e desceu às ruas de Kinshasa, tentando tomar o poder pela mais antiga das formas locais de o fazer. Derrotado também nas ruas, Bemba refugiou-se na Embaixada da África do Sul, e a situação caiu num impasse. Foi então que a diplomacia portuguesa teve uma ideia luminosa: mediar a saída negociada (e necessariamente provisória) de Bemba do país e da cena política. Aproveitar o passaporte português da mulher, uma luso-brasileira filha de um emigrante português, e dos filhos e aproveitar o facto de o sr. Bemba ser proprietário de uma casa na Quinta do Lago, no Algarve (como já sucedia com o seu ‘padrinho’ Mobutu), assim proporcionando uma saída airosa a ambas as partes. Se os esforços do embaixador Alfredo Duarte Costa tiverem sucesso, a nossa diplomacia consegue, de facto, uma lança em África: proporciona uma saída para a crise, que Kabila tem de agradecer, e fica nas boas graças do sr. Bemba, para o dia em que este, milhar de mortos a mais ou a menos, consiga enfim sentar-se no trono do Leopardo. O desfecho diplomático está iminente e apenas aguarda que Kabila resista à tentação de tentar deitar a mão ao seu rival para o cortar às postas e se decida a assinar um papel, deixando-o sair.
Como se pode imaginar, aos congoleses, à excepção dos milicianos e arregimentados de ambos os lados, tanto se lhes faz Kabila como Bemba. Quem ficar com o poder enriquecerá — ele e a sua corte; o resto da população continuará na miséria, à espera do milagre impossível do dia em que o Congo, como o resto da África Negra, seja governado por homens sérios, competentes e com vontade de servir o seu país.
Desçamos um pouco mais abaixo e a leste, onde temos o caso-limite do Zimbabwe, desse louco criminoso que é Robert Mugabe. Como escreveu há dias a Conferência Episcopal do Zimbabwe, ali o poder perdeu já qualquer resquício de vergonha, de pudor, de condescendência para com a miséria do povo ou de respeito pelos direitos humanos mais elementares. A oposição é espancada, presa e torturada à vista de todos, os jornalistas estrangeiros são expulsos, o desemprego atinge os 80%, e a fantástica Reforma Agrária de Mugabe, que correu com os melhores agricultores africanos, que eram os rodesianos brancos, trouxe a fome aos campos e às cidades superlotadas. No seu delírio de psicopata, Mugabe não encontrou melhor plano do que mandar o Exército desterrar da capital, Harare, centenas de milhares de pessoas que não tinham para onde ir.
Em Harare esteve há duas semanas o ministro dos Estrangeiros de Angola, que lá foi oferecer apoio militar a Mugabe e proclamar a solidariedade ‘anticolonialista’ do regime de José Eduardo dos Santos. Depois, o ministro veio a Lisboa e sentou-se numa mesa ao lado do nosso MNE, Luís Amado. Perguntaram a Amado se, perante a situação no Zimbabwe e o isolamento a que o regime foi votado pela União Europeia, ele ponderava a possibilidade de não convidar Mugabe para a Cimeira Europa-África, prevista para a presidência portuguesa da UE. O MNE deve ter estremecido, antes de responder convictamente que não: imaginar que Portugal pudesse comprometer aquilo que está previsto ser o «achievement» da nossa presidência, arriscando-se a que os países africanos boicotassem a Cimeira por ‘solidariedade anticolonialista’ com o Zimbabwe, é simplesmente antipatriótico. Seria o mesmo que convidar o Governo português, por exemplo, a perguntar a Luanda para onde vão as receitas do petróleo angolano que não entram no Orçamento do Estado.
‘Provocações’ dessas não se fazem aos africanos. Eles são muito sensíveis às intromissões ‘colonialistas’ dos brancos nos seus assuntos: em especial se forem europeus e, pior ainda, antigas potências coloniais em África. Eles não se importam de ser neocolonizados pelos indianos e agora pelos chineses, que estão a tomar conta de África em busca de energia e terras cultiváveis. Como antes não se importavam com os negócios ruinosos feitos com russos ou americanos, desde que as ‘nomenclaturas’ locais, bem entendido, fossem devidamente recompensadas. Mas, para os europeus, as regras são muito mais duras e exigem, como ponto prévio, que só há negócios em África se se seguir estritamente a diplomacia dos interesses e jamais a dos valores. É preciso ficar muito calado, olhar para o lado, fingir que não se vê e não se sabe e, sendo possível, como fazem Portugal e França, conseguir que os seus dirigentes tenham sempre um «pied à terre» na Côte d’Azur ou no Algarve, para criarem laços de afinidade e cumplicidade connosco.
Um dia, quando se fizer a história da África desaparecida, haveremos de chegar à conclusão de que, muito pior e muito mais imperdoável do que os cinco séculos de colonialismo europeu, foram estas cinco décadas de cumplicidade com o que há de pior em África.
Miguel Sousa Tavares
Publicado segunda-feira, 9 de Abril de 2007
Novembro 7th, 2006 — Bloguismo, Portugal-África
A já longa série Retratos do Trabalho no Abrupto abunda em sub-texto. Evitando grandes textos fico-me por lhe apontar o exotismo. E confesso que lhe fui ganhando uma aversão de estimação, pacificamente associável ao apreço que tenho pelo blog/autor. Ainda que me surpreenda a irreflexão que o domina neste campo. Ou, pelo menos, que me parece dominá-lo.
Em tempos Pacheco Pereira explicitou o que desejava apresentar. Algo como um trabalho distinto daquele que é o da maioria dos bloguistas (activos ou passivos). Mais ou menos como algo distinto dos serviços, da educação (não encontro o texto em causa, não posso garantir fidelidade. E só por isso não coloco a ligação). Daí à colecção de cromos a la National Geographic ou FNAT foi um pequeno passo, repetidamente dado. Mas criticar para quê? Que mal virá ao mundo?
Ainda assim este Retrato de Trabalho na Ilha de Moçambique ascende aos píncaros do tal sub-texto. Educação não entrava, salas de aula habituais aos bloguistas? Mas se “Resolução de Equações do 2º grau” com pretinhos puídos saídos dos musseques (já agora, uma “angolanada” utilizada a despropósito) … que bonito, que comovente.
Francamente … não há paciência.
Outubro 15th, 2006 — Portugal-Moçambique, Portugal-África
Portugal e África: A televisão pública portuguesa enceta a esse-eme-esseização da história de Portugal, a “escolha popular” do maior português de sempre. Alguns grãs-blogs portugueses já quase esgotaram o assunto, o da pertinência de algo como isto, centrando-se em particular nas práticas censórias (explícitas e implícitas) dos organizadores desta “história de portugal”.
A este propósito Pacheco Pereira refere ainda algo fundamental: o da produção de um padrão de “portugueses” que irão votar. Outras questões surgem sobre esta forma da tv pública construir uma imagem da história: a própria ideia do voto em personagens históricas; o peso da actualidade (quantos votos teriam Fernando Lage ou José Travassos numa iniciativa para escolher os melhores futebolistas portugueses?); o que é “grande”, o que é que constrói a “grandeza histórica” (o Mestre de Aviz é maior ou menor do que Fernão Lopes?), o que é “português” (vá lá que Fernão de Magalhães está, mas Miguel de Vasconcelos [ainda para mais dono monopolista de uma palavra em português], Tiradentes ou Cervantes poderão caber? Ou, como provoca o A Destreza das Dúvidas, não será Obikwelu o maior de todos?).
Independentemente de tudo isso, e da pouca pertinência de um passatempo televisivo deste tipo (e por isso da pouca pertinência de tanta atenção bloguística), surge algo a realçar. Em 250 “candidatos” propostos quase inexistem figuras ligadas ao esforço colonial português em África - Ivens e Serpa Pinto surgem, mas são exploradores, integráveis como Bento de Góis, na abundante galeria de “heróis identitários” de descobridores marítimos e exploradores terrestres; Spínola, Galvão, Costa Gomes ou Champallimaud surgem, mas sem referência às suas actividades em África, estão ali por razões outras.
Na prática a inflexão colonial portuguesa em África, pelo menos 90 anos bem recentes, é-nos trazida nesta “reconstrução popular” da história por apenas 3 nomes. 2 deles por razões absolutamente secundárias: Gago Coutinho, referindo-se-lhe a actividade de delimitação de fronteiras africanas, mas obviamente uma condição secundária na sua biografia, e Sá da Bandeira, ainda que fundamentalmente por ser responsável pela abolição da escravatura (algo muito discutível, mas enfim, não é aqui que vou discutir tal). Um terceiro por razões conjunturais, pois não creio que Henrique Paiva Couceiro fosse lembrado antes da recente publicação da sua biografia por Vasco Pulido Valente.
Enfim, a propósito de um passatempo televisivo, as marcas do luto português quanto a África. Uns saudosismos “patrioteiros” mais exaltados, mesclados com o silêncio. Gritante, como nestes casos.
Setembro 28th, 2006 — Portugal-África, Racismo
Há textos estranhos, repito. No meu texto está explícito que nunca tinha lido P.A. Fobia de quê, de quem, então? Do liberalismo (de que P. Arroja é cultor)? Está explícito o desagrado com alguns bloguistas liberais, mas não todos - e tal como já botei o meu desagrado radical com bloguistas liberais também já espetei o meu agrado (e preferência) com outros (e isto para além de diálogos também inter e intraclubistas com o mundo liberal). Fobia de quê, de quem, então?
Absoluto menosprezo por declarações, lembradas com elogio no Blasfémias e apoiadas ou amigavelmente matizadas em comentários de alguns “blasfemos”, não é fobia, é isso mesmo, mero menosprezo. Infundamentado? Preconceituoso? Pois se se lembra que P.A. vai no bloguismo “Sem ter escrito uma palavra”? Peço desculpa, mas isso é falacioso. Há uma entrevista, assumida, e incensada. Nela constam excertos destes:
“FC: Claro que estamos a falar de valores económicos.
PA: Sim. Repare, eu acho que eles têm todo o direito à liberdade, é a terra deles. Agora não se esqueça que os negros americanos não estão na sua própria terra.
FC: Ah não? E quem é que os levou para lá?
PA: Foram eles que foram. Atraídos pelo nível de vida que não têm em mais parte nenhuma do mundo.
FC:Para começar a terra era dos Indios. E está-se a esquecer do pequeno pormenor da escravatura.
PA: Alguns foram levados como escravos. Mas ainda hoje há gente a emigrar para lá, negros. E deixe-me dizer-lhe uma coisa. O homem que ganhou o prémio Nobel, este ano, Robert Fogel, provou que se o sistema da escravatura era politicamente inaceitável, em termos económicos, para os negros, era um sistema muito eficaz. Mais: que o trabalhador negro da época, escravo, vivia melhor que o trabalhador médio branco. Certamente que a conclusão é surpreendente, é por isso que ganhou um prémio nobel. Mas documentou extraordinariamente bem…
FC: O escravo vivia melhor em que sentido?
PA: Existe a ideia de que o escravo trabalhava e dava tudo ao senhor. Não. O senhor branco ficava no máximo com dez por cento. Em segundo lugar, o trabalhador escravo negro era duas vezes mais produtivo que o trabalhador negro.
FC: E já se perguntou porque é que ele seria duas vezes mais produtivo?
PA: Diz-se que os negros não trabalham, não sei quê, e isto vem provar o contrário: mesmo sob condições de adversidade, a escravatura, os negros eram duplamente mais produtivos que os brancos. E os estados do sul, onde eles estavam concentrados, prosperaram muito mais do que os do Norte. Fantástico.
FC: Fantástico? Se não trabalhassem o dobro apanhavam. Eram chicoteados, mortos, vendidos para a frente e para trás.
PA: Eu não quero dizer que a escravatura era aceitável, mas não foi má para os negros em termos económicos.
(…)
FC: “O Estado Providência acaba na violência e na miséria” , diz você. Sempre gostava de ver como acabaria o estado-empresa… E há sempre os motins de LA para mostrar que não é só o Estado Providência que acaba em violência e miséria. O que é que acha que aconteceu em LA?
PA: Isso é outra questão, que tem a ver com o problema negro. Que é basicamente um problema de família. De ética sexual. Os negros não são capazes de constituir família como tendência geral, como nós constituimos. Têm muitas mulheres. E a pobreza americana, hoje, como nos outros países desenvolvidos, é sobretudo a mulher sozinha com filhos. E a maior parte das famílias negras acabam assim.
(…)
FC: Porque é que será.
PA: Pode haver discriminação, mas também é ética do trabalho. Uma ética de família menos propícia ao trabalho. Sabe o que é? Vá a África e veja porque é que eles não trabalham. Gostam muito de sexo; nós também gostamos, mas se estivessemos o dia todo na cama não faziamos mais nada.”
“Notável”? O que Rui, no Blasfémias afirma é que considerar este tipo de reflexão como espúria é uma “fobia”. Entenda-se, não venho de uma repugnância moral pela argumentação, isso não conta, não me custa a “blasfémia”. Pelo contrário, desagrada-me esta “idolatria”, espanta-me este culto do lugar comum, produzido também no seio de um pensamento racialista e até racista é certo, mas acima de tudo superficial. Repugnância sim, mas pelo pomposo da reprodução de tal vácuo. A reprodução em primeira mão (entrevista), a reprodução posterior (elogio bloguista).
Não há fobia (por homem ou por lata corrente de pensamento). Há menosprezo pela atitude intelectual (por mais “brilhante”, para citar Pedro Arroja sobre si próprio, que seja a personagem em causa, e que o digam). “Notável” é o artifício de Rui para transformar um noutro, “vitimizando”, “martirizando”, e assim “sacralizando”, um pacote de banalidades. Esparvadas. E que aspergem quem as sublinha.
Há textos estranhos? Talvez não. Há textos assim mesmo, apenas.
Outubro 28th, 2005 — Africa Austral, Portugal-África
Via Cocanha cheguei a isto, um protesto ao Nobel da Literatura a Pinter: “Depois que dois terroristas do calibre de Arafat e Mandela foram premiados com o Nobel, podemos esperar qualquer coisa.”. Está aqui a bílis toda, “o calibre de terrorista” de Mandela sublinhado, como forma de invectivar a academia que atribui o prémio.
Posteriormente, decerto para manter um ar “actualizado”, “civilizado”, um jogo retórico a querer-se auto-legitimador, algo que nem justifica contraposição pois aqui o contexto dos textos é evidente. Superlativo de evidência.
Esta coisa, prenhe de desprezo, da tal bílis para não dizer de outra forma, por quem participou e liderou numa luta contra um regime racista (por excelência) e supra-opressivo*, surge agora muito apreciada, louvada e emparceirada no bloguismo português. Dito democrático, algum até liberal. Louvores e parcerias que ficam a quem os faz. Ficam bem se demonstrando-os. Ficam mal, se demonstrando-os.
Para esta coisa a história da política foi dando nomes: “ultramontano”, “fascista”, “fundamentalista” mais agora, “autoritário”. Tudo palavras cujo excessivo mau-uso desvalorizou, poluíu. Já não servem. De facto esta coisa tem um só nome. Lixo.
Depois … há quem viva com o lixo, há quem abrace o lixo. E há quem o limpe. Mera questão de higiene. O chá em criança talvez ajude. Mas não chega.**
*para os mais liberais mas ao mesmo tempo apreciadores de tais simpatias racistas com o anterior regime de apartheid da África do Sul seria conveniente aprenderem, mesmo que apenas para matizar tamanho desapreço com o tal terrorista. Aquele foi um regime ferozmente anti-liberal: não só as liberdades individuais eram na lei e na prática negadas, como o direito à propriedade privada era com a população não-branca a ser impedida de acumular e preservar propriedade. Mais, aquele foi também, imagine-se, arquétipo de um regime de multiculturalismo.
**no ma-schamba já me irritei contra o vácuo da proclamada superioridade moral da esquerda. Mas é óbvio que quem aprecia estes recipientes enferma de uma óbvia “inferioridade moral de centro/direita”. Mal hajam.
O meu voto útil
Outubro 8th, 2005 — Futebol, Portugal-África
Que o Ruanda não seja Liechtenstein.
[não, não me esqueci daquele particular Portugal-Angola em 2002. Só que, raras vezes, é-me possível perdoar.]
Maio 31st, 2005 — Portugal-África
Blogar em casa alheia. Em diálogo com este texto fui blogar aqui.
Maio 23rd, 2005 — Imprensa Portuguesa, Literatura, Portugal-África
V: Ainda sonha com a guerra?
ALA: (…) Apesar de tudo, penso que guardávamos uma parte sã que nos permitia continuar a funcionar. Os que não conseguiam são aqueles que, agora, aparecem nas consultas. Ao mesmo tempo havia coisas extraordinárias.
Quando o Benfica jogava, púnhamos os altifalantes virados para a mata e, assim, não havia ataques.
V: Parava a guerra?
ALA: Parava a guerra. Até o MPLA era do Benfica. Era uma sensação ainda mais estranha porque não faz sentido estarmos zangados com pessoas que são do mesmo clube que nós. O Benfica foi, de facto, o melhor protector da guerra.
E nada disto acontecia com os jogos do Porto e do Sporting, coisa que aborrecia o capitão e alguns alferes mais bem nascidos. Eu até percebo que se dispare contra um sócio do Porto, mas agora contra um do Benfica?
V: Não vou pôr isso na entrevista…
ALA: Pode pôr. Pode pôr. Faz algum sentido dar um tiro num sócio do Benfica?
Maio 18th, 2005 — Bloguismo, Portugal-África
Abril 13th, 2005 — Descolonização, Portugal-África
Depois queixam-se que os EUA não aceitam o tribunal de Haia? Esse onde luís cabral deveria apodrecer os seus últimos anos. Com tal vazio em casa queixam-se os militantes da justiça por imbecilidade? Por ignorância? Por distracção? Ou é mesmo só desonestidade?
Kináni (Quem Vive?), de Cardoso Mirão
Fevereiro 10th, 2005 — História, História Moçambique, Livros Moçambique, Portugal-África

Cardoso Mirão, Kináni? Crónica de Guerra no Norte de Moçambique, 1917-1918, Lisboa, Livros Horizonte, 2001
Esta é a narrativa da campanha da I Guerra Mundial em Moçambique, pela voz de Cardoso Mirão, aí 2º sargento das forças portuguesas. Esta é uma parte da história muito pouco conhecida, tanto no diz respeito à participação portuguesa na I Guerra, muito centrada no palco europeu, como na formulação da ocupação colonial, então ainda muito incipiente em vastas zonas de Moçambique e inexistente noutras.
O livro é apaixonante, a descrição de uma campanha desorientada, que em pouco mais se traduziu do que numa longa e terrível caminhada pelo norte do país, e neste caso com quase inexistência de combates.

Trata-se de uma caminhada louca, ecoa-se o sofrimento inadjectivável de uma tropa errante, descomandada, desinformada, gradualmente desnorteada e logo desmoralizada. Sofrendo a inexistência de logística e a inadequação dos equipamentos (algo que este auto-retrato explicita). E tudo isto potenciado pela constante agressão da Natureza, os predadores, uma terrível fome, uma permanente sede e, acima de tudo, as doenças.

É comovente, ainda hoje, ler os lamentos do sargento sobre a situação das suas botas, faltando-lhe ainda meses de infindáveis caminhadas.
Como pano de fundo de toda essa situação, mas realmente apenas como pano de fundo, o opressivo temor do confronto com o corpo expedicionário alemão, uma pequena força de grande gabarito, comandada por um oficial verdadeiramente lendário, o o general Lettow-Vorbeck, a cuja se encontrava em constante movimento via Tanganyka, e que nunca veio a ser vencida.
Para quem conhece a zona (e eu tive o acaso nada fortuito de ler o livro durante uma estadia no Niassa, amplamente referenciado) pode tentar imaginar a dureza desta campanha.
É um grande livro sobre guerra, praticamente sem combates. Nele respira um antigo exército, de uma crueldade hierárquica extrema, que se julgaria apenas de Antigo Regime, no qual oficiais e soldados eram ainda de dois mundos, de duas ordens. E ainda os africanos, arregimentados como carregadores, escondidos num terceiro mundo.
Será interessante notar que tanto em Cabo Delgado como no Niassa há ainda a memória camponesa desta guerra dos “ma-germanes”, difusamente datada numa época correspondente à real II Guerra Mundial. Efeitos da história local sobre a devastação provocada pela mobilização de milhares de carregadores, e sua extrema mortalidade, pelas forças em presença, alemãs, inglesas e portuguesas.
É pois um retrato espantoso. Da guerra e da sociedade que nela participava. Mas também uma visão especial de África. Não esta como a Ameaça, o Horror ( a la Conrad). Mas mais como o palco desse Horror, um horror interno.
Um livro único no memorialismo português. E, mais uma vez, uma pergunta, como não filmar uma história destas?
Janeiro 31st, 2005 — Cooperação, Portugal-África
Programas eleitorais portugueses e as relações com África. Abaixo prometi(-me) abordar os programas eleitorais portugueses relativamente à política de ajuda pública ao desenvolvimento (vulgo cooperação). Ainda…
Mas o atento Eugénio Costa Almeida já escreveu sobre o assunto, um artigo que está aqui. A ler. Com um sorriso.
Janeiro 24th, 2005 — Portugal-África
Política de imigração e de vistos? Que fazer? Porque é que é tão difícil para os moçambicanos obter um visto de entrada em Portugal? Quando a emigração moçambicana para Portugal é tão reduzida (o moçambicano emigra para a África do Sul. Os poucos que iriam para a Europa não procuram Portugal na sua maioria, e os que procurariam entram na categoria “brain drain”, e a esta não se fecham portas em lado nenhum, como bem sabemos).
E falo de dificuldades também de gente costumeira por lá. Estudantes, ex-estudantes, lusodescendentes, empresários, artistas (então artistas plásticos a viajarem para exposições é um cabo dos trabalhos, sei-o bem), professores (idem), jornalistas (idem). E, claro, dos que não são costumeiros mas até poderiam vir a ser.
Schengen, a União Europeia? Decerto que é isso, um poderoso obstáculo às nossas relações privilegiadas, lusófonas, não será assim? A U.E., nisto malévola, a prejudicar as relações portuguesas com África. Invejosa do nosso luso-tropicalismo, perdão, afecto lusófono.
Sendo assim por que será que as pessoas vão às embaixadas nossas vizinhas, onde é tão mais fácil e rápido obter vistos? Para logo voarem para Lisboa. Da qual regressam a sua casa, quando acabado o que tinham para fazer.
Pois, vistos dados por países europeus relapsos nestas questões, sem a experiência de vagas de imigrantes, dirão. Claro, Espanha, Holanda, França.
Aberrante.
Dirão logo, os vistos não são coisas de programas de partidos, nestes estão coisas mais vastas, englobantes, orientadoras, “estruturantes” (bela palavra, comovedora até). Claro, já imagino por lá, a “bold” até o “apoio ao desenvolvimento do ensino da língua portuguesa”, o “reforço da cooperação multilateral na CPLP”, “a coordenação do apoio à internacionalização das empresas portuguesas”. E coisas assim.
Claro, Espanha, Holanda, França….
Adenda: isto, ressalvadas todas as diferenças, parece saído de um post do Super-Blasfémias (e com a deselegância do sem ligação). Não, talvez apenas o mesmo molde. Ou será o inconsciente colectivo?
