Archive for the ‘Portugal-África’ Category

Adenda sobre os moralismos que falam

Quinta-feira, Setembro 2nd, 2010

Com toda a certeza que neste momento o mais importante em Moçambique não é referir o que lá longe se diz sobre o país e sua situação. Mas abaixo deixei um suave resmungo sobre os moralismos, internos e externos. E logo me caem no ecrã alguns exemplos disso, tão ocos que não consigo evitar pontapeá-los – ainda que saiba ser fútil perda de energia. Mas o tom ufano das suas certezas é tão irritante que me exige as caneladas.

1. O 2+2=5 indexa textos sobre as manifestações de Maputo. Por aí chego à opinião de Francisco Louçã, o “coordenador” do Bloco de Esquerda. Os mais veteranos leitores do ma-schamba dirão que reajo à minha “bête noire”. Porventura sê-lo-à. Mas é inenarrável. Eis como termina o acórdão da sua sentença: “Quando visitei Maputo, há uns anos e na véspera de uma cimeira africana, encontrei logo ao sair do aeroporto a construção acelerada de um muro elevado, que bloqueava um grande bairro de barracas: era para que os delegados estrangeiros não vissem a miséria. Este é o retrato da pobreza e da prepotência: oculta-se a miséria porque não se acaba com a miséria.”

Sei que os comunistas têm um fetiche com muros e que, desde que alguns caíram, têm com eles uma relação edipiana. Mas lendo este naco de prosa avanço para o método comparativo – é legítimo, não está Louçã a parodiar o método indutivo? E lembro-me do grande Carlos Lopes. Sportinguista, campeão olímpico, várias vezes campeão europeu, três vezes campeão mundial de corta-mato. Em 1985 foi campeão mundial no vale do Jamor [acima o recorte recuperado aqui]. Ora para acolher esse mundial o governo português de então construíra um enorme muro (um tapume) para esconder o miserável amontoado de barracas de refugiados timorenses (sim, esse pelos quais quinze anos depois os portugueses se vestiram de branco e karaokaram o lânguido “ai timor”) ali plantado. Será esse episódio significativo para definir, explicar ou até apenas ilustrar o sistema político e suas articulações socioeconómicas no Portugal de então e subsequente? Não, não é, por mais ridículo e afrontoso que o episódio então tenha surgido.

Quer-se pegar num ponto e nele basear uma conclusão? Ok, pegue-se, mesmo. Conheça-se e entenda-se. Na praça do aeroporto de Mavalane (Maputo) um dos seus topos articula com a zona do caniço. Na sua extremidade estava até, se bem me lembro, uma lixeira. A zona foi tapada com cenários de grande dimensão, com dizeres em francês, para simular a Kinshasa de Mobutu. Eram os cenários de Ali, de Michael Mann, filme em grande parte rodado em Maputo. Os quais foram ficando após a conclusão dos trabalhos. Algum tempo depois foram retirados. E fez-se o pequeno muro, ao longo de uma curva, tentando manter alguma “estética” da praça, agora “habituada” a um outro visual (um visual de “cimento”, chamar-se-ia aqui), como se “hall” de entrada da cidade. É risível? Sim, um pouco. Mas é isso demonstrativo, denotativo, ilustrativo de uma situação política estrutural? Afirmar isso é uma pura demagogia, básica. E desmontada por qualquer corrida entre Mavalane e a drenagem (ou seja, a imediata continuação desse caminho principal de saída do aeroporto), feita numa paisagem similar, de caniço, e sem outros muros. Para que agita o coordenador a sua palavra leve e vã? Ou, como diz o outro, “porque não te calas?”.

2. Henrique Fialho – que é dono de um excelente blog – cita (assim subscrevendo) outro naco moralista a explicar as coisas de Maputo (e com toda a certeza a receber a concordância da blogo-inteligência lusa left-wing e/ou conimbricense): “Por que não aumentam o preço dos veículos todo-o-terreno, das casas de alta cilindrada, desses artigos a que o povo não chega para conseguir comprar pão e pagar água, electricidade e transportes?”. Não me vou por a discutir a diferença entre preços tabelados e não tabelados, neste eixo de argumentação talvez fosse um sofisma. Nem a resmungar outra vez contra os textos medievais, mais ou menos cristãos, dos “ricos” vs “pobres”. Nem a argumentar sobre o peso simbólico dos “for-bai-for”, esse anti-cristo da esquerda parva europeia. Só vou lembrar a complexidade do mercado automóvel em Moçambique, a chegada dos recondicionados japoneses via Dubai (e como isso é ilustração das malhas que a economia global tece) e, já agora, do aumento dos preços dos carros novos. E do enorme aumento dos preços das casas em Maputo. Factos ambos que têm explicações e efeitos múltiplos, sociais e económicos e muito se articulam com as redes do poder político. Mas que servem para assinalar essa pequenina coisa da empiria que, chatice, torna mais complicadas as coisas. E nisso torna lixo a pompa das tiradas moralistas, cheias de invectivas e de si-mesmas. E ridículos os aplausos à missa.

Missa essa cheia de crentes. Muito comunitários, diga-se. Cheios de benzeduras e vade retros. E sermões entre-laudatórios.

jpt


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O 28 DE MAIO DO 25 DE ABRIL

Sábado, Abril 24th, 2010



por ABM (24 de Abril de 2010)

Estas coisas das memórias e do seu significado têm tanto que ver com o seu impacto e posterior percepção e re-interpretação como das idades e experiências de cada um de nós.

Quando eu crescia na cidade outrora conhecida como Lourenço Marques, lembro-me muito, muito, vagamente, de que se dizia qualquer coisa no dia 28 de Maio sobre o 28 de Maio. Que terá sido a “Revolução Nacional”. A tal que, descobri mais tarde, descambou para a incontornáveis quatro décadas e meia de Salazar e afins. Pois. Que isto de ser-se português, ou afim, significa que, dada a inabilidade dos políticos e da congregação política de evoluírem e mudarem as coisas, faz mais ou menos parte do processo haver revoluções, hecatombes, golpes de Estado, pronunciamentos militares, etc.

Mas o ponto aqui é que 28 de Maio, nos anos 60 do século passado, com as devidas diferenças ideológicas e fanfarra um tanto quanto mais militarizada, fora o 25 de Abril para muitos da então velha geração. E nessa altura em Lourenço Marques, penso, já ninguém se lembrava do que aquilo fora. Tirando o ocasional velho caquético já ninguém sequer existia que tivesse visto o que aquilo foi, e tirando os quase absolutamente insuportáveis discursos dos senhores da Situação, herdeiros directos desses longinquos ecos da História, ninguém já percebera o que fora e para que fora.

Era mais um feriado.

Estamos a um dia do dia 25 de Abril de 2010. Isso significa que amanhã se assinalará que, há trinta e seis anos, meia dúzia de oficiais militares de baixa patente, com o beneplácito de (mais ou menos) os dois principais ex-chefes militares portugueses (os generais Spínola e Costa Gomes) e na minha opinião o desistismo de um derreado Marcello Caetano, a II República portuguesa acabou e se inaugurou o que se supõe ainda hoje ser uma versão revista da I República, sem os seus exageros e histerismos.

A República Socialista.

Trinta e seis anos é muito tempo e revelador. Em Junho faz trinta e cinco anos que Moçambique é independente e continuamente liderado pelas mesmíssimas pessoas que desde meados dos anos 60 já controlavam, do seu lado, o poder político. Daqui a cinco anos, já terão estado mais tempo no poder continuamente, que os anos durante os quais a União Nacional criada por Salazar governou Portugal.

Circunstancialmente, levou trinta e cinco anos para Portugal mais ou menos bater com o seu virtual nariz no espelho e, depois das repetidas bombas de oxigénio e manobras, ter de se confrontar, como nação, para o seu corpo nú e esfarrapado, sem as muletas de África e das Índias, entrerrado em dívidas e sem os dinheiros oferecidos da CEE e da União Europeia, sem o internacional-porreirismo e o doublespeak da internacional camaradagem, e ter que se perguntar: quem somos nós? o que teremos que fazer e como? com o que podemos contar?

Esta fase da história portuguesa é verdadeiramente fascinante. Parece o fim de um thriller de Agatha Christie. Quem, afinal, matou o morto? como se vai descobrir isso? e o que fazer em seguida?

Mas o tempo não perdoa e a verdade dramática e reveladora está no vídeo acima. Como aconteceu comigo quando era miúdo em Lourenço Marques e, sem ninguém me explicar, eu assistia ao moribundo e insignificante deambular de alguns velhos e políticos cheios de caruncho, sobre a tal supostamente gloriosa revolução do 28 de Maio.

Pese a suposta explosão democrática trazida desta vez, já poucos sabem o que foi isso do 25 de Abril. Ou como foi. Ou quem o fez.

Os mitos das revoluções e os seus protagomistas são muito mais fáceis de manipular, de realçar e de a re-inventar em regimes onde essa experiência passada convém muito aos que mandam agora e que nela buscam a sua fraca legitimidade, que num regime (mais ou menos) democrático cuja legitimidade supostamente só pode ser derivada de votos depositados em urnas e contados um a um. Em Portugal, isso na verdade só aconteceu quase dois anos depois, em Abril de 1976. Poucos se lembram que foi quase por acaso. E mesmo aí foi uma democracia hifenizada: a tal república socialista. O pai, Mário Soares. Até este momento não se passou daí.

É por isso, com algum humor, que aqui assinalo o pronunciamento militar de Abril de 1974, o tal que libertou as colónias e os demónios sociais num dos países mais atrasados do continente europeu, que achou necessário tantos anos para começar vagamente a lidar com as suas hipertrofias. Aproxima-se a hora de mais uma reflexão: continuar o experimento socialista ou tentar outro rumo.

No meio disso, a ironia do tempo: a de as mais jovens camadas da população portuguesa em Abril de 2010 já não saberem bem o que foi o 25 de Abril de 1974, por que foi, para que foi, quem o fez. É apenas mais um feriado em Abril.

Tal como foi o 28 de Maio quando eu era miúdo, em Lourenço Marques.


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25 de Abril

Sábado, Abril 24th, 2010

 

Está aí a chegar o Dia da Liberdade em Portugal. Lembra-mo a minha filha, que hoje o comemorou na escola. Durante semanas ensaiou, ela e os petizes da sua classe (ano, masculinizaram agora) a ritualizada canção “Uma Gaivota Voava” – e por causa desta (e ainda bem) lá tive que explicar que o tal dia da Liberdade não foi quando o avô paterno nasceu (década de 1920). E que à tal guerra (“uma criança dizia / quando for grande não tenho de ir combater“) – ainda por cima em Moçambique ["mas porquê, pai?"] – eu não fui, mas sim que foram tios e primos.

Ainda bem, pois cá em casa acarinha-se a data: dia da Paz, dia da Liberdade. E, já agora, dia da Europa (“connosco” – para lembrar a palavra de ordem de então), seria bom lembrar isso à rapaziada adversa à “abrilada”, esse pessoal ainda lacrimejando pelo “orgulhosamente sós” mas há já vinte e cinco anos sentados com a gamela dos fundos estruturais à frente, e dessa não se esquivam, que a tanto não lhes chega a raiva.

Enfim, o motivo desta entrada é outro. De quando em vez gera-se nos comentários do ma-schamba uma discussão, sempre bem-vinda, acerca das virtualidades da instauração da democracia e, por razões da especificidade da maioria dos visitantes opinadores [belíssimos, para nosso gosto], o tema dos erros portugueses de então, em particular em África, vem à tona. Com legitimidade, a discussão. Eu, vindo de outro contexto, outros caminhos, muito discordo de algumas opiniões. Mais do que tudo penso que no olhar português para a sua história há muito anacronismo, um vício de pensamento. Tento explicar-me, evitando o preconceito do desmerecimento. Em 1974 os três discursos abaixo eram considerados (e foram-no, objectivamente) importantes documentos ideológicos e culturais de ruptura, abertos a contextos gerais, “populares”, agitadores.

Ora em assim sendo, como poderemos nós revisitando-os hoje em dia, e quando este último discurso que mais abaixo transcrevo é já longínquo passado, esquecer as enormes limitações da capacidade analítica que então a sociedade portuguesa tinha do mundo que a rodeava, e acima de tudo de si própria. Não deveremos nós suspender o juízo crítico e, Yalla, yalla, tentar entender o mundo de então, e Portugal (“no seu melhor”) em particular? Disparar mais devagar, bem mais devagar, do que a nossa própria sombra?

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GUINÉ-BISSAU

Domingo, Abril 4th, 2010

por ABM (Alcoentre, 4 de Abril de 2010)

Como é viver num país onde não parece haver “ordem estabelecida”? felizmente não faço uma ideia clara, se bem que testemunhei em pessoa os eventos de 1975 em Portugal continental, o que já deu para uma vida.

Mas o que se vem passando na Guiné estes últimos anos é obra. Numa altura em que já se tornou mais ou menos fora de moda fazer golpes militares, nesse pequeno país que foi um território menor (geograficamente falando) do espólio africano português, continua a tê-los, quase alegremente. Com a agravante dos rumores persistentes de que aquilo pode estar a tornar-se em mais uma plataforma giratória das rotas da cocaína (um pouco como Portugal).

Não conheço a Guiné apesar de ter lido já algumas coisas sobre aquele país e de ter uma amiga em Angola que é de lá. Praticamente indefensável aos preços que Salazar estava disposto a pagar, foi o calcanhar de Aquiles da guerra em três frentes e uma das causas mais directas da discreta rebelião militar que desembocou no pronunciamento militar em Abril de 1974.

Basicamente, queriam que os militares ali fizessem a omelete sem ovos. Nenhum militar que eu conheça gosta de fazer omeletes sem ovos. Na guerra moderna, há coragem mas raramente há milagres.

O percurso desde a independência tem sido penoso e imagino que o custo dessa instabilidade cai directamente sobre a pele dos seus cidadãos.

No mais recente episódio, não se percebe o que o governo português anda a fazer, mas imagino que, fora de cena, estejam a tentar resolver a coisa.

Nem se percebe como é que os militares, os últimos garantes da ordem, são os principais protagonistas da desordem.

O Dr. Amílcar Cabral, uma figura notável dos anos 60 e que lutou por aquela terra (juntamente com Cabo Verde) não ficaria nada satisfeito.


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VOLANTE À DIREITA EM MOÇAMBIQUE

Terça-feira, Fevereiro 23rd, 2010

Jorge Vara exibe o seu primeiro carro em Lourenço Marques, 1 de Setembro de 1938

por ABM (23 de Fevereiro de 2010)

Tendo crescido em Moçambique, como toda a gente ali, habituei-me a viajar em automóveis com volante à direita e com o trânsito pela esquerda.

Uns anos mais tarde, descobri que a maior parte do resto do mundo, incluindo na “metrópole” (Portugal) se conduzia pelo lado direito da estrada. O que era curioso mas nada de especial.

Em 1978, por dez dólares e com a ajuda do pai BM, que me deu umas lições básicas, tirei a minha carta de condução nos Estados Unidos da América, onde vivia, e onde se conduzia pela direita, as ruas eram largas e bem sinalizadas e as regras muito simples.

Nunca tive problemas nenhuns até voltar a Moçambique na segunda metade dos anos 90 e me sentei pela primeira vez a conduzir pela esquerda. O problema era com os meus reflexos: quando vinha de férias ou de serviço a Portugal, por mais que uma vez, sem pensar duas vezes, quando dava por mim estava a conduzir  no lado esquerdo da estrada, para desespero dos sempre tão corteses motoristas portugueses, que aproveitavam logo para fazer comentários à minha ascendência feminina em termos pouco laudatórios.

Como passageiro, ainda hoje quando estou mais distraído, é comum, querendo eu entrar num carro quando estou fora de Moçambique, dirigir-me para o lado…do condutor.

Porque é que se conduz em Moçambique pelo lado esquerdo? a resposta é fácil: porque se conduzia à esquerda em todos os países com que faz fronteira, cujas regras de condução derivam dos padrões estabelecidos pela Grã-Bretanha.

Em Portugal europeu conduzia-se pelo lado esquerdo da estrada. Segundo um interessantíssimo historial deste tema num blogue brasileiro, foram os franceses no tempo da sua revolução que inventaram o padrão da condução pelo lado direito, cerca de 1794. Como a seguir invadiram quase tudo à sua volta, levaram essa regra com eles. Depois das guerras napoleónicas, a regra da condução pela esquerda na Europa permaneceu nos países que mais resistiram a tirania francesa; o Reino Unido, o império austro-húngaro e … Portugal. Claro que ajudou que na realidade, para ajudar os portugueses a organizarem-se contra os franceses, a Inglaterra naquela altura praticamente ocupou Portugal, o que durou uns anos. E o costume ficou.

Foi só após a primeira república ter caído de podre e ter sido instaurada a Ditadura (na altura só, e com “D” maiúsculo, Salazar sendo ainda uma incógnita), é que, de uma assentada, tudo mudou. Em meados de 1928, um ano após criada a Junta Autónoma de Estradas, foi legislado o primeiro código da estrada português e, pelo decreto n.º 18.406, de 31 de Maio de 1928, estabalecida a circulação pela direita nas estradas. Até então, a circulação automóvel em Portugal e nas suas colónias era feita pela esquerda, copiando a prática britânica.

Assim, a partir das 5 horas da manhã de 1 de Junho de 1928 em Lisboa, e à meia noite no resto de Portugal continental, para os cerca de 31 mil condutores com carta de condução e cerca de 28.000 automóveis então existentes, passou a ser obrigatória a circulação rodoviária pelo lado direito das estradas. O mesmo aconteceu na Guiné, em Angola e Timor e, presume-se, na Fortaleza de São João Baptista de Ajudá.

Mas em Macau, Goa e Moçambique, tendo em atenção as suas situações específicas, manteve-se a condução pelo lado esquerdo das estradas.

Em 1975, na sequência da anexação de Timor pela Indonésia – onde se conduz pela esquerda, o sentido da condução foi alterado. Não sei como ficaram as coisas em Dili e arredores depois da independência.


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João Mosca sobre a Cooperação Portugal- Moçambique

Domingo, Fevereiro 14th, 2010

[João Mosca, Economicando, Maputo, Alcance Editores, 2009]

João Mosca é um dos mais significativos intelectuais moçambicanos, alguém que é sempre urgente ler. Este recente livro é uma colectânea de textos na sua maioria publicados no jornal Savana, aos quais junta alguns produzidos para encontros académicos. A sua arrumação indicia as temáticas abordadas: ensino superior, investigação, economia, agricultura e cooperação. O seu quadro de reflexão sobre o país, e que tão presente sempre surge nos seus textos, é anunciado na introdução:

A formação e a exercício da actividade académica … e a interdisciplinaridade apreendida, conduziram ao que se pode designar por “suicídio” da formação de base. Compreendi os debates no seio da área de conhecimento da economia e dos ataques de outras ciências aos economicismos tecnocráticos e à incapacidade da economia, como qualquer outra ciência, de interpretar, explicar e encontrar soluções para a complexidade das realidades no quadro dos limites rígidos do objecto de cada uma das ciências.

Procurei um “suicídio” difícil. No lugar de abandonar a economia e estudar outras ciências (…), preferi a via da crítica à economia para, a partir dela, incorporar conhecimentos de outras áreas na tentativa de uma formação interdisciplinar.” (7)

Acabo de comprar o livro, li apenas alguns textos e, ainda que de alguns outros tenha memória da sua publicação em jornal, não posso fazer mais do que aconselhar a sua leitura. Como português e como antigo cooperante encetei a leitura pelo texto “Cooperação Portugal-Moçambique. A estratégia de não ter estratégia?” – apresentado na III conferência internacional de Lisboa sobre “Europa e a Cooperação com África”, organizada pelo IEEI. Para quem tenha algum interesse nas questões da “cooperação” portuguesa com Moçambique, ou em geral, é um texto insubstituível. Uma apuradíssima análise das dimensões institucionais, políticas e ideais presentes nesta área de actividade do Estado português, e na própria sociedade – faltará, em meu entender, uma profundidade similar no olhar sobre as dinâmicas da interacção moçambicana neste campo, algo que será compreensível dado o texto ter sido apresentado num plenário em Portugal.

Repito, para quem se interesse pela actividade de “cooperação” é obrigatório ler este texto (pp. 152-157). Dele poderia aqui deixar algumas transcrições mas opto por uma, breve, que reflecte algo que ao longo dos anos tanto tem estado presente, até em demasia, no ma-schamba. Ideia que parece simples, pacífica, mas que na realidade real tanto é esquecida apesar de ser racionalmente cristalina:

A dimensão e capacidade financeira portuguesa e a perda de oportunidade de protagonismo em alguns assuntos importantes da história recente moçambicana, sugere que Lisboa necessita reanalisar a cooperação com Maputo, devendo fazê-lo sem pensar nas supostas vantagens culturais e históricas.” (p. 157)

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O SEGREDO DE CONSTÂNCIA

Sábado, Fevereiro 6th, 2010

por ABM (Alcoentre, Sábado, 6 de Fevereiro de 2010)

A confirmação chegou num banal e-mail de um primo nos Açores à uma hora e quarenta minutos da madrugada do passado dia 14 de Janeiro de 2010 e concluiu um processo que eu começara muitos anos antes: a confirmação absoluta de quem era Constância, a jovem e elegante senhora cuja imagem aparece no topo deste texto, e que foi tirada em Agosto de 1892.

Há cerca de 118 anos, portanto.

De entre as informações sobre a genealogia familiar que obtive há quase trinta e cinco anos dos meus avós açorianos (bem, aquilo foi mais “extrair” que “obter”) e que visitei algumas vezes quando ainda vivia em Moçambique, há já algum tempo atrás referi aos exmos leitores uns detalhes curiosos sobre um tal Manuel Jacinto Lopes, que é meu tio-bisavô. Como referi na altura, do que descobri, o que me surpreendeu foi a mulher dele.

Mas confesso que, das pesquisas familiares que efectuei, a seguir a descobrir que os meus avós maternos se haviam conhecido e casado nos Estados Unidos da América nos anos 20 do século passado, onde estiveram emigrados alguns anos antes de regressarem a São Miguel, a descoberta mais fascinante de todas foi no que concerne a enigmática Constância.

Por três razões.

A primeira, foi que a minha avó paterna me ofereceu a fotografia de (então) uma tal “tia” Constância – a que está lá em cima – juntamente com algumas outras velhas fotos de família.

A segunda, foi que a minha mãe chegou a conhecer a senhora quando era menina nos anos 30. Lembrava-se dela perfeitamente. De tudo, desde a cor dos olhos, o sotaque, o sentido de humor, a cultura, etc. E que nunca se casara. Nessa altura Constância já era velhinha e morreria poucos anos depois.

A terceira foi que, confirmado pela minha mãe, a minha avó e agora pela minha tia paterna, Constância era mulata e falava com sotaque brasileiro.

Ora, para quem supunha ter sólidas raízes açorianas até aos primeiros colonos (estes, colonos mesmo) das ilhas açorianas no século XVI, e antes destes até obscura fidalguia do reino de Leão e Castela no Século XI, antes de Portugal existir como nação independente, a notícia de haver a possibilidade de uma raiz africana negra na família BM foi uma surpresa – uma grande surpresa. Uma total surpresa. Pois à partida não ocorria. Nada o aparentava e não havia registos que tal indicassem.

A primeira vez que ouvi dizer que Constância era mulata foi por puro acaso. Veio da boca de uma velha prima da minha avó paterna, que por acaso estava de visita a sua casa num sábado em fins de Agosto de 1975. Tinha eu 15 anos de idade e estava de férias no delapidado casarão de verão dos meus avós em Vila Franca do Campo, que fica perto do porto situado em frente ao Ilhéu da Vila. Esse casarão fora dos meus bisavós paternos, pais da mãe do pai BM.

Nessa tarde, lembrei-me de mostrar-lhe as fotografias que a minha avó tinha acabado de me dar, inocentemente, para ver se ela, sendo kokuana e portanto desses tempos, conhecia as pessoas ali retratadas. Quando eventualmente lhe exibi a fotografia da Constância, ela imediatamente disse que a conhecera muito bem, sim, que fora uma senhora muito culta, muito prendada, muito simpática, muito engraçada. E, mais baixinho, inclinando-se levemente na minha direcção, disse, “e, sabes, ela era mulata”. Quando ela me faz esta revelação, fiquei literalmente de boca aberta. Não era possível. Como era possível?! Uma mulata nos Açores naquela altura?

Olhei novamente para a fotografia. Olhei de seguida para os olhos azuis claros e cristalinos que brilhavam na face fina, rosada e elegante da velha prima Ernestina, agora mais sorridente pois via nos meus olhos arregalados a surpresa e a curiosidade suscitada pela sua revelação.

Confesso que não sou assim grande perito em termos de analisar os traços finos no que concerne a classificação das raças. Já em Moçambique, tendia a distinguir quatro ou cinco raças e fazia muito poucas distinções a partir daí. E, neste caso, a senhora na fotografia não me parecia nada de especial. Parecia-me, naquela pose rígida e distante, ser branca. Quero dizer, a foto está um pouco para o escuro e velha.

Mas a prima da minha avó foi categórica; “olha bem para o cabelo dela. O cabelo era carapinha”. E inclinou-se, segredando-me no ouvido novamente, baixinho, como que para ninguém ouvir, apesar de não estar rigorosamente ninguém na enorme sala de música naquele terceiro andar do poeirento palacete dos meus bisavós: “como os pretos.” (ela dizia a palavra no sotaque de São Miguel: “prâtos”).

Dei um salto e fui ter com a minha avó na cozinha, que ficava situada um andar abaixo e mais uma corrida por um longo corredor para as traseiras da casa. “Ò avó, a prima Ernestina (ah estes nomes antigos) diz que a tia Constância era mulata!”. A minha avó, que era enorme e tinha o porte de um lutador de sumo, e que era muito ciosa do seu estatuto de senhora na então sociedade açoriana, virou-se lentamente e fitou-me, silenciosa durante uns segundos. E após uma pausa, disse-me apenas: “sim, é verdade. Mas – ò rapazinho – aqui não se fala disso”.

Mas…então…ahh…mas…se a Constância era “tia” (minha não era) e era mulata, então isso significava que temos “prâtos” na família?! Então, ela era tia de quem? A minha avó deu-me uma resposta meio esfarrapada e fiquei na mesma. Pois nos Açores “não se falava disso”.

Pelos vistos estas questões de raça nos Açores do século XIX e XX eram assunto que não se discutia – mesmo. Não sei bem como era possível, dado que raça não é coisa que se esconde debaixo da cama, mas foi ao que assisti.

A resposta em maior detalhe, levei trinta e três anos para confirmar. E aponta para a existência de uma raiz africana na genealogia dos BM.

Ei-la.

A história é verdadeiramente fascinante.

De seu nome completo Constância Sinclética Botelho de Mendonça, ela era irmã do meu bisavô paterno, Francisco Botelho de Mendonça (pai da mãe do meu pai BM – a minha avó Clotilde) – que portanto também era mulato.

Recuemos uma geração. O pai de Constância – um meu trisavô – foi um açoriano que emigrou para o Brasil nas primeiras décadas do século XIX. Terá feito bom dinheiro no negócio de peles em Pernambuco, assim reza a lenda familiar.

Em meados do século, ele casou-se com uma senhora mulata, filha de uma escrava africana e de um branco, cujas identidades se desconhecem, em Pernambuco. Ali tiveram duas filhas, uma tal Gonegundes (de quem perdi o rasto) e Constância Sinclética.

Poucos anos mais tarde, subitamente, o meu trisavô açoriano contraiu tifo, doença que na altura invariavelmente era fatal. Doente, resolveu regressar aos Açores com a sua jovem família. Vendeu tudo o que tinha e fez-se aos Açores de barco, levando com ele baús cheios de haveres, prata e dinheiro. Quando embarcaram, a mulher dele (a minha trisavó) já estava grávida de um terceiro filho – o meu bisavô.

Durante a viagem, o meu trisavô morreu de tifo. Pelo que a Ponta Delgada chegaram a minha trisavó brasileira, já viúva, com duas filhas, e ainda grávida. Já em terra, ela deu à luz um bebé rapaz – o meu bisavô, a quem deu o nome de Francisco Botelho de Mendonça. Quando se confirmou que era um rapaz, e de acordo com a lei naquele tempo, parte dos bens que vieram do Brasil foram constituídos em herança do bebé e os baús contendo esses bens foram selados até que o jovem atingisse os 21 anos.

Ainda hoje, dado pela mãe BM, eu tenho um pequeno paliteiro de prata, que fazia parte da herança de Francisco, que viera do Brasil nessa viagem de barco e que esperou selada nos baús até ele ter idade para dela tomar posse.

Sendo jovem, a mãe de Sinclética, uma viúva com alguns bens, casou-se uma segunda vez em São Miguel com um membro da família Félix Machado e teve mais quatro filhos. Assim, os descendentes da família Félix Machado partilham este património genético com os BM.

Quando Francisco, que, como Constância e Gonugundes, já era filho de uma mulata com um branco, portanto um mulato “diluído” (não sei se há nomes especiais para estas coisas) atingiu a maioridade, casou com uma senhora cuja nome era, depois de casarem – e lá vamos nós outra vez com os nomes – a encantadora e culta Ludovina Amélia Lopes Botelho de Mendonça. Os apelidos já vieram depois do casamento.

Constância era, portanto, cunhada de Ludovina (irmã do Sr. Visconde da Palmeira) e viveu nos Açores, solteira, até à sua morte. Com o seu humor e distinto sotaque brasileiro.

Francisco e Ludovina tiveram duas filhas, Margarida e Clotilde, esta última a mãe do pai BM.

O meu pai.

E que viveram toda a vida no enorme e poeirento palacete em Vila Franca do Campo onde eu, num dia de verão em Agosto de 1975, me sentei na sala de música com a prima Ernestina e lhe mostrei uma velha foto.

Que me revelaram o segredo de Constância.


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O erro é o outro

Sexta-feira, Janeiro 22nd, 2010

Descubro que Rui Bebiano, dono do excelente A Terceira Noite, integrou o Arrastão tal como já o havia feito o bom do Bruno Sena Martins. Supreende-me, o Arrastão que conheci no seu início era um sítio horroroso, de uma demagogia até dolorosa e não o imaginava como o local para bloguistas deste teor. Mas porventura com estas entradas será agora um local a seguir, apesar do seu fundador. Descubro isso através do texto “Do Outro Lado do Tempo” [reproduzido no Arrastão], que se refere ao ma-schamba, enquanto local de “cegos ou preconceituosos”   [ligando directamente a um texto do ABM que também foi referido no Bibliotecário de Babel, ainda que em termos neutrais (a ligação foi retirada, quero crer que por causa dos problemas de servidor que ontem aqui tivemos)]. Tudo isto devido à mais longa polémica sobre livros que este blog já conheceu.

No seu texto Rui Bebiano afirma a complexidade da sociedade colonial e os processos de construção da sua memória (silêncio por um lado, mi(s?)tificação por outro) em Portugal. Quasi-termina, e muito bem, com a clarividência que lhe é habitual: “Os portugueses que povoaram o império colonial, ou «o nosso ultramar», não podem ver o seu passado apagado, esquecido, ou então pintado com as cores apenas agradáveis que a descolonização teria manchado. Ele conteve também experiências amargas, difíceis, perturbantes, por vezes únicas. Reconhecer esta diversidade só valoriza esse passado ...”. Posto isto deste lado “lado/blog” - onde habitam a “cegueira” e os “preconceitos” – ocorre-me opinar.

Entendo que a construção da memória colonial passou por um discurso explícito à época das independências (e implícito desde então) que por um lado denota e por um outro lado procura instalar uma dupla fractura na sociedade portuguesa, e que está para além das memórias dos ex-colonos, da sua visão. A primeira é topológica: é notório que alguns sectores ideologicamente mais ligados ao momento colonial purificam esse passado, reproduzindo o mito do “bom colono” até à exaustão, assentes numa bondosa visão ontológica ou culturalista do “português” (ainda que esta concepção resvale transversalmente – e surpreendentemente? – na sociedade portuguesa, veja-se o influente tardolusotropicalismo de Boaventura Sousa Santos).  Noção que casa, em comunhão de alimentos, com a nostalgia mitificadora que Bebiano identifica.

Mas também é certo que desde o retorno das comunidades portuguesas em África houve um movimento inverso, o da sua demonização generalizada, a imagem do ”explorador dos pretos”. Essa aversão terá sido causada pela noção social dos custos da guerra e, também, da muda mágoa da derrota. Mas, fundamentalmente, nessa invectiva o colonialismo, suas causas e benefícios, foi remetido para a “sociedade colona” e para os reduzidos estratos possidentes (grupos económicos nacionais, na sua maioria também então expropriados via nacionalização, donde culpabilizados). Deste modo o colonialismo foi extirpado da sociedade metropolitana, uma higienização homogeneizadora e auto-mitificadora que a apresentava como martirizada pelo fascismo (e pelo próprio colonialismo) - o carácter estruturalmente colonial da socioeconomia portuguesa foi assim torneado. Essa amputação benéfica, até moralizante, traduziu-se na criação de um “Outro” (pouco)interno, o colono. O silêncio memorialista de décadas da população retornada que Bebiano refere, a sua rápida e silenciosa integração no Portugal de então (“supostamente indolor“, como bem diz) terão sido também (é minha mera opinião) respostas a essa aversão concidadã (e, evidentemente a necessidades socioeconómicas, de não ficar “a viver no passado”).  Mas a aversão foi e é também ideologicamente produzida e reproduzida pelos sectores mais adversos ao Estado Novo colonial, que assim simbolizavam e balizavam a sua recusa do passado. Até hoje.

Assim sendo falar dessas memórias tem sido desde esse tempo  não tanto falar do passado recente colonial mas, e fundamentalmente, traçar uma topologia de discursos sobre o Portugal actual. Utilizando a história (quasi-alheia) para nos situarmos “neste” ou “naquele” lado. Quase sempre encastrados na areia.

Parece-me pois normal que a produção de discursos sobre o passado colonial e, muito em particular, a produção de discursos de recepção aos discursos sobre esse passado levante reacções acaloradas e adesões inesperadas. Não tanto por uma súbita curiosidade historiográfica, mas fundamentalmente porque (ainda!) são motrizes de auto-posicionamentos individuais e colectivos no espectro político. E, porque assim a história surge como mero objecto para manipulação actual, nisso se vai coisificando o passado colonial e, por maioria de razão, coisificando os seus interagentes sociais: os colonos e os colonizados, nas suas multiplicidades contextuais.

Mas para além dessa fractura “sistémica” entre o Portugal vítima e o Portugal colono, houve a proposta de uma segunda fractura, sociológica, a identificar. Nesse caminho, nesse “luto colonial” como Alfredo Margarido chamou ao silêncio português sobre África, sublinhou-se uma noção implícita e indita, a da excentricidade da população colona. Por um lado a afirmação da sua ”sobreportugalidade”, por parte das vozes mais saudosas da “gesta nacional”, considerando-a gente sobrecapaz, agente de grandes feitos, uma imagem que convive (paradoxalmente?) com discursos que afirmam a mediocridade do povo português residente, um contexto político-discursivo que tantas vezes baseia nesse elitismo a sua inimizade à efectiva democraticidade do país.

E  a da sua “importugalidade”, a da sua bestialização exploratória, ao invés das mais pacíficas (solidárias) populações metropolitanas e/ou então imigradas para o mundo industrializado. Esta imagem é gerada num contexto político-discursivo (e de investigação) que valoriza a voz e os percursos dos estratos mais baixos da sociedade (melhor dizendo, valoriza os discursos sobre a voz e os percursos dos estratos mais baixos da sociedade), por isso mesmo desapaixonando-se de um contexto colono, sempre ou elite ou intermédio na sociedade colonial exploratória. Essa excentricidade, esse verdadeiro ”expatriamento” dos colonos enquanto tal, funcionou e funciona como uma des-identificação. O ónus da “sobreportugalidade” não é suportável, pela sua evidente inexistência, pela confrontação (esmagadora) que provoca às biografias. E o estigma da “bestialização” apenas poderia provocar um tribalismo “pied-noir” ou, como foi o caso, o desenlaçamento comunitário – salvo alguns núcleos convivenciais, até tardios, mas sem repercussões de índole socioeconómicas e, muito menos, políticas. Incrementando os mecanismo de mitificação do passado, sobredimensionando as reacções às construções históricas, sejam elas positivas ou negativas.

Nesse sentido o mundo português colonial (pela sua mitificação, positiva ou negativa, pela santificação ou pela demonização, seja pela sua sobreportugalidade seja pela sua importugalidade) é expelido de Portugal, e o Outro Colonial é reificado. E esses processos funcionam através da mesma metodologia, assentam em generalizações, produtoras e reprodutoras de desconhecimento histórico. Similitudes que cruzam aparentes divergências ideológicas.

Ao falar-se do livro de Isabela Ferreira, ao ler-lhe o blog inicial, ao ouvi-la agora, o que encontro é exactamente o mesmo tipo de operação intelectual: a generalização (culturalista? ontológica?, há que ler o livro para lhe entender as forças motrizes, muitas vezes apenas discerníveis na retórica) produtora de desconhecimento. Uma generalização aposteriorística (como já em texto anterior aqui disse). Para quem diga que isso é inultrapassável no discurso (literário ou outro) importa sublinhar/repetir que o aqui se trata é o da projecção no passado de questões ideológicas e políticas actuais, um passado imaginado (literário que seja) para falar do hoje, do fincar o respectivo posicionamento – e daí as adesões e efusões que tanto tem provocado. Seja a autora sejam muitos dos leitores.

O livro aborda a realidade colonial. Bebiano diz-nos que esse passado “conteve também experiências amargas, difíceis, perturbantes, por vezes únicas.”, uma “violência latente ou explícita do quotidiano“. Com toda a certeza. Para além da violência colonial (que era e é a essência de uma situação colonial, sistémica) é notório que essas são características que todas sociedades históricas contêm, sejam as ameríndias que Rousseau não conheceu seja a rotineira “república dos relógios de cuco” de Orson Welles. Descrever essas experiências assente em generalizações, em imputações culturalistas, em negação da multiplicidade histórica, postulando um qualquer “nós”, bom ou mau, para além das empirias? Não me ofenderá se houver génio (seja lá o que isso for) literário. Por isso muito estou curioso em ler o livro. Há genialidade? Fantástico, não interessarão as generalizações empobrecedoras. Mas se não a houver, se estivermos apenas diante de uma prosa ((boa, média, má) mortal que pretende descrever um passado, imputar e invectivar esse passado assente em generalizações preconceituosas então isso é, quanto muito, panfletarismo. Mais ou menos catártico, mais ou menos teatralizado. Produtor de cegueiras, reprodutor de preconceitos. Des-conhecedor. Do tal mundo expelido de Portugal. E que assim não é reintegrado, auto-compreendido, pese a retórica “desveladora” que anuncia e que o recebe. E, como tal, des-conhecedor do próprio objecto Portugal.

A expulsão do mundo colonial, da sua voz, do encontrar as nuances para além do pólos “beleza tropical” / “violador de pretas”, é uma incapacidade de olhar a multiplicidade colona – e, frise-se, nisso também se afirmando a incapacidade epistemológica ou literária (consoante o discurso) de olhar a multiplicidade colonizada. Mas essa coisificação do colonizado (que aliás é o que mais me interessa nesta trama toda), esse desinteresse analítico por África que é estruturante em Portugal é questão que, ainda que ligada a todos estes factores, exigiria um outro texto. Essa incapacidade, esse desinteresse (ideológico?), pelo “mundo” colono (e, por arrastamento, pelo “mundo colonizado”) denota-se no próprio texto de Bebiano. “Só pelos meados da década de 1990 surgiram os primeiros estudos e recolhas de testemunhos, e só agora, quase quarenta anos passados sobre o fim do conflito, se tornou normal ouvir ex-militares, ou as suas famílias, a falarem de forma livre dessa experiência durante tanto tempo calada. Percebe-se finalmente que tudo foi menos simples, e menos insignificante para a vida das pessoas envolvidas, do que se pensava com o cheiro a pólvora ainda nas narinas.”. Ou seja, o que Bebiano anuncia - com toda a certeza en passant, como é normal no registo blog, ainda que ele seja um bloguista de excelência - é que o olhar sobre África sobre o qual atenta é o olhar metropolitano sobre África, dos soldados (na sua esmagadora maioria metropolitanos, e é notoriamente a eles que o autor se refere). Se pegarmos na sua excelente obra “O Poder da Imaginação. Juventude, Rebeldia e Resistência nos Anos 60” (Angelus Novus, 2003) este movimento já se encontra. A juventude portuguesa em África (pp. 156-160), as suas práticas e imaginários, sua ligação com o sistema português, são brevemente lidos através dos olhos dos letrados (oficiais?) metropolitanos ali deslocados. Entenda-se, a sociedade colona como tal inexiste na reflexão, como se ela não pertencesse à dimensão portuguesa da ”cultura-mundo” (p. 13) ou, pelo menos, fosse verdadeiramente significante para a reflexão [poder-se-á dizer, e concordarei de imediato, que todo o trabalho tem os seus limites de objecto. Mas aqui parecem-me inditos e/ou provocados por este contexto intelectual. Ou a memória está-me a trair muito].

Entenda-se, também aí ela – a sociedade colona – está expulsa do que é o objecto (Portugal). É certo que o movimento colonizador foi tardio (como mostra Claudia Castelo em “Passagens Para África.”, Afrontamento, 2007), mas nos anos 60 havia já uma enorme população não-metropolitana, na maioria de primeira geração mas também de múltiplas gerações em África. E como tal, basta(s) juventude(s) e seus discursos. Não chamo isto para criticar Bebiano, misturar o registo de blogs com livros profissionais, apoucá-lo, menosprezá-lo. Pelo contrário, friso que muito gostei deste seu livro (e quem seria eu para o questionar, se fosse caso contrário). Apenas convoco essa dimensão para referir que até num intelectual possante como Bebiano se encontra (pelo menos nesta sua obra e, secundariamente, neste seu pequeno “post”) a matriz estruturadora destes preconceitos ideológicos sobre o mundo colono, desta “outrização” colona, da sua expulsão do verdadeiramente significante, de um higienismo societal feito projecto ideológico no regime democrático português. A qual assenta, repito-me até à exaustão, na mera utilização de generalizações a la carte. Talvez por isso agora este agrado, a defesa entusiasmada, com a obra aparecida. Que é mais-do-mesmo, afinal. Só que, agora, do “lado certo”. Para aquele “lado”, claro.

Finalmente. Pode o meu caro ABM ter caído no caldeirão laurentino dos “preconceitos” e, pese embora o seu riquíssimo trajecto biográfico, não passar de um irremediável “cego” com prosápias. Posso eu mesmo, pela minha biografia, ininteligência ou até pela raiva contra tudo contra o que me parece neo-comunismo europeu de fachada libertária (ainda que, concedo, às vezes nem o seja), estar viciado em goladas dessa poção preconceituosa que me condena às trevas da “cegueira”. [A nossa AL está isenta pois não concorda connosco no olhar sobre a produção de Isabela Figueiredo]. Mas é nestas trevas pre-conceituosas em que vegeto que me ocorre que Rui Bebiano, e talvez alguns outros, sofrem de uma ligeira miopia. Ou melhor, de um pequeno astigmatismo, que é coisa bem diferente. Nada que não se possa resolver, facilmente, com umas meras próteses oculares. Isto se não continuar(em) a pensar que o erro é o outro.

Depois há os outros que o(s) seguem. Mas esse é o comboio descendente. Vêm à gargalhada. “Uns por verem rir os outros. E outros sem ser por nada.” E não há óculos que lhes sirvam. Estão como hão-de ir. Assim como eu e o ABM, pelos (in)vistos!

ADENDA: em comentário Rui Bebiano esclarece que no seu texto apenas ligou explitamente ao ma-schamba o termo “preconceituosos pelo que a consideração de “cegueira” não foi sua intenção. Aqui deixo a nota, agradecendo o esclarecimento e lamentando a minha extensão interpretativa.

jpt

[Não sou capaz de escrever numa tarde algo deste tipo que seja mais legível ou coerente. A própria arrumação peca. Mas o "tempo bloguístico" implica a sua colocação agora, senão perderia a sua justificação. Daí o tamanho e sisudez, a repetição e o esburacamento. E, temo, a ilegibilidade. Ainda assim está botado.]

ADENDA SEGUNDA: uma semana depois de ter escrito este texto ouvi toda a entrevista radiofónica de Isabela Figueiredo, feita por Carlos Vaz Marques. Após isso deixei neste texto do ma-schamba um comentário nela baseado. Mas ficará melhor arrumado aqui, como será óbvio a quem ainda aqui volte. Abaixo fica a sua transcrição:

Ainda que em contradição com o que disse acima regresso aos comentários deste texto sem ser em diálogo directo com outros comentadores. Mas só ontem ouvi toda a espantosa entrevista radiofónica de Isabela Figueiredo realizada por Carlos Vaz Marques. E como não escreverei nenhum texto (post) sobre o assunto [outros machambeiros resmungariam, estou certo, devido a cansaço] quero, pelo menos aqui, deixar alguns pontos: um, que já tinha referido, mas que nunca é demais lembrar, é o do seu absolutismo intelectualmente incontrolado: “todos os homens eram como o meu pai [aka, horríveis], alguns até piores”, algo surpreendente – e não é uma expressão literária, é uma opinião, portanto não tem requebros retóricos ou formais que a defenda. [as "citações" são aproximações ao discurso oral, mas procuram ser o mais fieis que me é possível].

Depois há a sua recorrente, e “lamentosa”, afirmação “eu estava lá, eu era colonialista, eu fui colonialista, eu assumo”. Para uma pessoa que viveu em Moçambique até aos doze anos (por mais que tivesse dado uma estalada numa outra) isto é surreal. Ou seja, denota uma teatralização do seu estatuto, uma sobrevalorização pessoal que apenas – só pode – quer funcionar como instrumento de legitimação empírica do discurso. Pobre afirmação e legitimação. E, entenda-se, a reclamação de “colonialista” para uma menina de 12 anos, ainda para mais reclamada 35 anos depois, é de uma indìgència intelectual, de uma ignorância pungente sobre tudo o que é reflexão sobre aquele sistema histórico, e não apenas semântica – algo pouco aceitável para quem afirma ter passado as últimas décadas envolta nesta sua característica biográfica (alguém me poderá vir dizer que IF quer ser a Gunther Grass portuguesa, mas nem sorriso isso provocará).

Finalmente, a cereja em cima do bolo. IF diz que reconhece logo, e ainda hoje, os moçambicanos no meio de outros africanos (negros). Pois eles são lindos, têm uma cor fantástica, especial, têm características emocionais e estéticas únicas, tudo isso por ela (só por ela?) imediata, visceral, espontaneamente reconhecível – sei que os meus amigos moçambicanos (negros e não só) que aqui tenham chegado (ou que a tenham ouvido) já se estão a rir (e, com toda a certeza, a afiarem a língua para os óbvios impropérios de retórica machista que este tipo de discurso provoca). Mas vamos ficar no registo sério: ouvir este discurso é ouvir o típico discurso racialista, a da homogeneização alheia, a da des-individualização alheia (bonitos?, todos? a mesma cor da pele? todos? simpáticos? todos? agradáveis? todos? etc? todos?). É este discurso generalizador que IF utiliza para os colonos (portugueses, brancos, horríveis, infectos) e para os ex-colonizados (moçambicanos, negros, lindos, bem-cheirosos). É este discurso racialista, húmus de todo o racismo, que usa para o contexto moçambicano. Paternalista, desconhecedor. Acima de tudo racista na sua negação da multiplicidade estética, emocional, comportamental, afinal individual.

IF é apenas mais uma das pessoas que pensa assim, mal e pauperrimamente, sobre os outros, neste caso sobre os moçambicanos – já encontrei inúmeras pessoas com este tipo de discurso, o desvalorizador do alheio (neste caso do negro), da sua irredutível diversidade humana – mesmo que, e é uma das versões, disfarçado (até inconscientemente) pelo elogio colectivo, por um olhar “simpático” sobre o magma alheio. O que me surpreende não é que IF assim pense, assim escreva, assim fale. Há tantos e tantas assim.

O que me surpreende (pouco) e entristece (também já pouco) é que no meu país um meio literário, cultural, até jornalístico, que se reclama de um eixo intelectual e político moderno (ou pósmoderno), democrata [alguns até libertários], unanimemente anti-colonial e crítico do conteúdo colonial português, que esse meio acolha acriticamente estes dislates, um discurso neles assente. Elogiam-no, defendem-no e (como em recente artigo no suplemento cultural do jornal Público, de Vanessa Rato) é-lhe até aventado o estatuto de iniciador de um discurso pós-colonial em Portugal. Esta adesão será conjuntural por um lado – um pouco de “estação”, um pouco por efeitos de grupos (blogo)mediáticos – mas é por outro lado indiciadora de um contexto intelectual dominante: está no Público, está nos jornais, está na rádio (o desvelo de Carlos Vaz Marques é óbvio), está nos blogs – até o Respirar o Mesmo Ar do meu amigo, e co-bloguista do Olivesaria, jpn surge a reclamar a excelência disto.

Dislates da autora. Pouco importante. Mas que gigantesco manto de ignorância no meu Portugal todo este pequeno fenómeno vem desvendar. E isso sim é lamentável. Doloroso. Porque estrutural.”

[Numa ida rápida ao Google note-se a recepção entusiástica em blogs bem diversos ideologicamente - assim demonstrando a trasversalidade desta perspectiva superficial, que se pensa crítica, sobre o período colonial português: vejam-se como exemplos os O Insurgente, Elevador da Bica, XicoNhoca, Divas e Contrabaixos, o já referido A Terceira Noite, Irmaolucia, Da Literatura . Para uma diferente postura, leituras acolhedoras do texto literário mas sem subscrições acríticas vejam-se, por exemplo, Defender o Quadrado e Peão (este último é um post de Cláudia Castelo, acima referida e a quem eu desconhecia a prática bloguística). Entretanto A. Teixeira reagiu ao facto de eu o ter integrado no conjunto de leitores entusiásticos (sob este ponto de vista), considerando que desentendi este seu texto, intepretando-o abusivamente. Lamento se o tresli. E aceito que tal fiz, a intenção é a do autor não a do passante: fica aqui a (minha) mão estendida à palmatória.]


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Lizzie Had a Dog in LM

Sábado, Janeiro 16th, 2010

Lizzie & Bóbbi

por ABM (Cascais, 16 de Janeiro de 2010)

A lógica da breve discussão prévia o impunha e uns meros 15 euros o resolveram.

Disfarçado de dono de um veleiro de passagem por Cascais, e após breve e inócua aventura na Livraria Bulhosa no Cascais Villa, peregrinei até à quiçá mais próspera e dotada FNAC do Cascais Shopping, com a Dulce Gouveia a reboque, para comprar a grande obra recente da Escritora de origem moçambicana, publicada pela Editora sediada em Coimbra.

Mas na secção dos livros dou logo de caras com o José Rodrigues dos Santos no corredor, que é máfia moçambicana do melhor e estes dias uma espécie de versão lusa do Dan Brown. Com ele não há cá memórias para ninguém. Antes que ele pensasse que eu ia ao livro dele sobre a Al-Khaeda, que se encontra à venda em todas (mas todas) as livrarias, grandes superfícies, aeroportos e até por baixo de vãos de escada, escapuli-me pelo café da loja para o outro lado e fui ter com uma daquelas meninas simpáticas da FNAC que usam um coletezinho verde e nos ajudam a encontrar os livros.

“Olá, boa tarde. Procuro o novo best seller daquela escritora nascida em Moçambique Isabela Figueiredo e não encontro”.

“Só um momento, sefachavor”.

Clic clic clic clic no computador.

“Sim, devemos ter ainda uma cópia na loja, deixe-me ir ver”.

E desapareceu.

15 minutos à espera.

Após o que a menina surgiu do nada com um livrinho pequenino na mão.

“Quanto é?”

“15 euros”.

“15 euros! Bolas. Deixe-me cá ver”.

E peguei no volume. E inspeccionei-o.

Preliminarmente.

Na verdade o livro é algo estranho.

A seguir à capa e a contra-capa, tem quatro folhas verde-alface sem nada, duas de cada lado, que deve ser para o leitor precavido tomar apontamentos. No fim, a seguir à folha verde-alface, diz uma nota que foi composto numa empresa gráfica na bela Vila Nova de Famalicão, “34 anos após o regresso da autora a Portugal”. Ok. Suponho que uma anotação válida para quem ao chegar ao fim do livro ainda não se tiver apercebido desse facto da vida da autora, ou que não saiba fazer contas de subtraír (pois 2009-34 = 1975) infelizmente um provável infortúnio com o estado da educação nos dias que correm.

Só que na pala interior da capa tem mais uma foto simpática da Isabela, esta circa 2009 e sans Bóbbi, e mais uma notinha a dizer que ela nasceu em Lourenço Marques em 1963, que em 1975 veio para Portugal, e que nunca mais voltou.

Espera aí: se aqui diz que ela nasceu lá, que veio para cá e que nunca mais voltou, porque é que no fim do livro diz que ela regressou a Portugal?

É um mistério. Assumo que deve fazer parte da complexa e mística dialética subjacente aos conteúdos ali abordados. Ora veja-se.

Ela nasce e cresce em Moçambique.

Mas ao viajar para Portugal em 1975, regressa.

Ora isto é para mim uma alegoria fantástica.

Tem umas fotografias: na capa (a foto ali no topo) a Isabela avec Bóbbi. Depois duas piquininas de Lourenço Marques nos tempos e que mal se conseguem ver, e a seguir vêm: a Isabela a segurar o rádio de papá debaixo de uma papaeira, a Isabela vestida de saloia portuguesa num barco, a Isabela a fazer pose num parque, a Isabela na marginal de Lourenço Marques e a Isabela na comunhão.

Na página 7, presume-se que para dar o tom do que está para vir, três citações, uma de Paulo Auster a falar do pai (o do Paulo Aster), e duas do italiano Primo Levi, a mastigar a presumível fungibilidade da Memória Humana. Bem, ou pelo menos a dele.

E, presume-se, por osmose subliminar associativa, a da Isabela.

A menção do americano Paulo Auster confunde-me e levanta-me imediatas suspeitas quanto à proeminência fotográfica do Bóbbi. Pois na sua Timbuktu, não a africana mas uma mitológica e utópica urbe, são as memórias do rafeiro Mr. Bones que descascam, numa odisseia tão deprimente como cativante, a existência de Willy Christmas, um homem infeliz e falhado, que morre à porta da casa onde o seu ídolo, Edgar Allan Poe, vivera. Será isso? O que acha, quais as memórias de Bóbbi da sua dona e da Lourenço Marques que a viu nascer e crescer? será que Bóbbi também regressou?

Primo Levi suscitou-me ainda maior supresa. Pois a sua escrita, sendo judeu e tendo passado pelos maiores horrores da carnificina Nazi, incluindo quase um ano em Auschwitz-Birkenau, é mais conhecida pelo conteúdo memorialista desse período – memórias que o perseguiram até à morte. Em 1987, o grande Elie Wiesel, que era professor na Universidade de Boston, onde estudei gestão e um pouco sobre o judaísmo nessa altura e durante dois anos, e ele próprio um sobrevivente do horror Nazi, disse que, quando morreu – e referindo-se às suas peristentes e pungentes memórias – Levi na verdade morrera em Auschwitz mas quarenta anos depois.

Que associações poderá haver entre a obra e o percurso de Primo Levi e este livro de Isabela? A curiosidade avoluma-se dentro de mim.

Procurei, e descubro que o livro não tem índice. Tem, isso sim, em 136 páginas (as que estão numeradas), textos sequenciados, de 1 a 43. Sem títulos. Só os números.

E na verdade, aí me apercebi, afinal aquilo não é só um livro (daí, decorrem, presume-se, os 15 euros).

Logo a seguir ao texto Número 43, depois de uma folha com umas das fotos piquininas de Lourenço Marques que não se vê bem, tem outra onde apenas figura, a meio, a singela e solitária frase, que se presume dedicatória: “À memória do meu pai”.

Repare-se no detalhe: não é em memória do pai. É à memória do pai.

Hum.

E a seguir tem uma página que diz, na vertical, com o texto a apontar na direcção da lomba do livro, em letras garrafais “Adenda” onde, aí sim- surpresa!- tem um índice, mas um indicando o que vem a seguir (aos textos numerados de 1 a 43): seis textos descritos como posts, incluindo o intrigantemente títulado Falta dinamitar o Cristo-Rei e logo abaixo o assaz mais invocativo de assunto gastronómico, Fígado de Porco; e,  finalmente,  Uma conversa com Isabela, que inclui, um pouco como nas (brevemente findas) conversas do Professor Marcello na RTP aos domingos à noite, e à margem das doze páginas do texto da entrevista propriamente dita (feita por não se sabe quem) as sugestões dela de dez livros, cinco datas e cinco lugares.

Portanto, isto é o que se pode chamar um pacote completo.

Que agora é meu.

Por, afinal, uns modestos 15 euros.

E que, feito o investimento e aguçada a curiosidade, vou ler este fim de semana, de fio a pavio.

E de que logo darei conta aos exmos leitores, após reler também a prosa canciana et al.

Para tirarmos esta coisa a limpo de uma vez por todas.

Um bom fim de semana a todos.


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José António Saraiva, os Jovens e o Pai

Quarta-feira, Dezembro 23rd, 2009

sapatilhas da moda nb kiks

por ABM (Cascais, 23 de Dezembro de 2009)

A propósito dos meus queixumes cinematográficos sobre os jovens, refiro a crónica de José António Saraiva, que dá a sua visão sobre o assunto. Claro que peca pela abrangência. Mas em média está correcto e aponta o dedo aos filhos da classe média (bem, da média-baixa para cima).

Li esta coluna não porque comprei o semanário lisboeta Sol, de que JAS é director, mas porque estava um monte de jornais para oferta à saída do cinema a semana passada e eu peguei numa cópia.

Gosto muito de ler JAS desde os idos tempos em que comprava, numa mercearia portuguesa na zona de Fox Point, em Providence, Rhode Island (EUA) inexplicavelmente espessas cópias do Expresso. Não era todas as semanas pois a mercearia só recebia algumas cópias e se eu chegasse tarde não havia nada para ninguém.

JAS era para mim o prato forte e leitura obrigatória do Expresso e nunca entendi muito bem a decisão dele sair de lá para fundar o Sol. Do pouco que sei, este jornal, não sendo editorialmente mau, não vale muito sem ele e parece-me que tenta ser o antigo Expresso sem o ser. O problema é que nem o actual Expresso se parece com o antigo Expresso.

Pode ser que seja eu que tenha mudado. Mas não acho.

Acresce que o jornal tem tido problemas financeiros aparentemente sérios e tem seguido uma estratégia muito peculiar de insistir em ser vendido nos países africanos onde se fala português, o que não entendo pois o mercado lá para as notícias e análise que o jornal faz cá não é grande. Não só não é grande como não se compadece com as pressões culturais, diplomáticas e políticas que caracterizam o tortuoso eixo que liga Lisboa às capitais dos países onde se fala português – especialmente Angola e Moçambique (que conheço melhor) onde há bons jornais e bons escribas.

E, do que fui informado, uma parte do capital do Sol está nas mãos de interesses angolanos. Qual a lógica, não sei.

Mas JAS continua em forma, mais velhinho e sábio como alguns de nós. O estilo e a substância não alteraram muito com os anos.

E, meritoriamente, sai no feitio ao pai, o grande António José Saraiva, que tive o prazer de ver quando visitou a Universidade Brown e em que falámos de um livro que ele então havia publicado recentemente, A Inquisição e os Cristãos Novos, que eu acabara de ler e tinha feito um (ridículo) trabalho para uma cadeira creio que do prof. Onésimo Teotónio Almeida.

Para mais sobre a Inquisição e os Cristãs Novos, leia-se esta entrevista de Francisco Bettencourt, que em tempos leccionou na Brown e em que fala da obra do pai Saraiva (chamando-lhe uma “tese marxista” – hum).


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Observação Eleitoral

Quarta-feira, Outubro 28th, 2009

São quase 16 horas e levanto-me, alquebrado, da mesa do Rodízio, a maminha, o ananás, a picanha, ainda que no decadente serviço da Visabeira, estão a dar cabo mim. Enquanto caminho(amos) para o local de entrada cruzo uma mesa de “observadores eleitorais”, fardados com dísticos a propósito. Enrolo os palavrões de quem já o foi, e com directas seguidas e perigos assumidos, resmungando um “não deviam estes filhos-da-puta (europeus, diga-se) estar no terreno, de sanduíches no bornal?!”.

Quem me acompanha, patrícios nada desqualificados, ri-se diz: “E onde pensas que andam os teus diplomatas?” E sei, ali, ainda envergonhado, que os diplomatas portugueses andam a almoçar enquanto são, como é possível?, observadores: como é possível tamanha incompetência na Julius Nyerere, 720 (mesmo que seja sob o miserável governo de Amado e Cravinho?). E, até apita, até “a embaixatriz da Irlanda é observadora“. Vá lá, a imbecilidade não é só nossa – mas como é possível que uma missão diplomática participe numa missão de observação eleitoral, que independência, vá lá, que autonomia poderão vir a ter face aos resultados dessa missão? Que visão estratégica subjaz isto? Que gabarito político-diplomático têm os responsáveis desta paródia (e quem escreve isto é quem já acompanhou inteligente que soube em tempos apartar as águas, não é um mero mal-disposto)?

Incompreendo os donos da terra. Eu, se em tal caso, metia patrícios, irlandeses (o parvo do embaixador à frente mais a missionária que com ele dorme logo atrás) e quejandos no primeiro avião.

Uma vergonha militante. Anos a fio.

(Há algum tempo os embaixadores da União Europeia exigiram uma reunião com o presidente da Comissão Nacional de Eleições. Ele recebeu-os para ouvir as zangas da “comunidade internacional”. Entraram na sala e, à sua revelia, foram conduzidos para uma sala onde estava a imprensa. “Digam lá, então“. Calaram-se, atrapalhados, que, afinal, a imprensa ali … . Quem lá estava, e meu amigo, ri-se “o teu embaixador até tremia“. O país ainda anda a rir dessa cena. O embaixador de Portugal, pobre imbecil de corpo inteiro, ainda por aí anda, desrespeitado por todos, os seus, os patrícios, os nacionais daqui, ainda que carregue a bandeira no carro quando sai à rua. Os seus, mais seus, pobre gente MNE ainda por aí anda para gáudio geral, pobre – ou maquiavélico ”Almeida Santos”? – Luís Amado que para África manda os imbecis do MNE.

Nós … não pagamos impostos para não alimentar estas alimárias. E, de quando em vez, um dos bloguistas, muito raramente lembra-se do Sahara Ocidental. E cospe, é o termo, nas palavras “Luís Amado”. Conhecendo-o de puta ginjeira …)

jpt


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TAPologia

Quarta-feira, Outubro 21st, 2009

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- por ABM

Este é o segundo texto sobre o assunto. O primeiro eclipsou-se por erro da Secretaria do Maschamba Cá Vai versão 2.

A TAPologia é o estudo de como uma empresa de transporte aéreo tecnicamente falida consegue sobreviver alegremente 35 anos seguidos à custa de saudáveis e ocasionais subvenções dos contribuintes do país em que se baseia.

Neste contexto, é de notar a informação divulgada hoje, que indica que nos primeiros nove meses de 2009 a TAP transportou 303 mil pessoas de e para África – o que por definição inclui muitos desta honrosa comunidade Maschambiana.

A mesma informação indica que este número representa um aumento de 6.7% se comparado com 2008.

Mais interessante é que em 2009 esses 303 mil passageiros, que representaram 6.4% de todos os passageiros que usaram aquela empresa, contribuiram para 17.2% das suas receitas.

Ou seja, a crise agudiza, mas África soma e segue. E paga a factura.


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A Medida do Orgulho Nacional

Quinta-feira, Outubro 1st, 2009

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(por ABM)

Tendo eu vivido em sítios exóticos como os EUA, Portugal, Moçambique e Angola, e visitado o Brasil várias vezes, sempre achei que, na minha escala cósmica pessoal da exibição do orgulho nacional os portugueses eram um caso difícil de comparar dada a sua inusitada capacidade para uma auto-crítica por vezes iconoclasta, difícil de contextualizar quando comparados com os estrangeiros.

Por comparação, os norte-americanos pareciam irritantemente orgulhosos (“we are the best country on the face of the earth”), os moçambicanos sempre vibrantes mas discretos e os angolanos uma espécie de americanos de África (um problema sério para os sul-africanos, cuja exibição de superioridade paternalista junto dos angolanos irrita-os de sobremaneira). E os brasileiros cantavam o seu amor brasileiro aos berros e a dançar o samba, pintados de verde e amarelo.

Mas não há maneira de medir estas coisas. Ou melhor, não havia, em parte, até o Economist publicar hoje este estudo, levado a cabo por um tal Reputation Institute, que formalmente fez um estudo de 33 países cujas conclusões o exmo leitor pode encontrar premindo aqui.

A classificação dos portugueses não me surpreendeu, ainda que estar em 19º lugar num planeta com duzentos e tais países não é assim tanto um caso de desesperar.

O que me surpreendeu foi ver o Brasil, a África do Sul e o Japão abaixo de Portugal. Afinal?! E os EUA em 11º lugar, atrás da Índia, da China e de (meu Deus) da Espanha.

As coisas nem sempre parecem o que são, pelos vistos.


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O Estado e o 10 de Junho

Sábado, Junho 13th, 2009

O 10 de Junho que passou deixou-me, português imigrado, uma dúvida. São os agentes do Estado no exterior desprovidos de memória institucional – e assim incompetentes -, ou são desprovidos da mais rudimentar das éticas – e assim incompetentes?

Não é um quizz. É um passaporte. E uma enorme praga, carregada de menosprezo pelas pessoas. Não pelo país. Ainda que este seja elas.


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Luís Cabral

Domingo, Maio 31st, 2009

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Morreu Luís Cabral, primeiro presidente da Guiné-Bissau, irmão de Amílcar Cabral. Morreu o homem que viveu um quarto de século exilado em Portugal. Depois de, enquanto presidente, ter patrocinado o massacre dos seus compatriotas que tinham combatido no exército português.

Fica a memória da pequenez moral dos políticos do meu país. Desinteressados naqueles a quem o seu Estado arregimentou. Totalmente desinteressados em levar esta sinistra personagem ao Tribunal Internacional de Haia.

E poderia ficar uma lição, olhando a indigna vida deste homem, acoitado na terra cujos soldados mandou assassinar: a da necessária humildade no exercício do poder. Mas não ficará.


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