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Argumentação e contra

Sobre liberdade de expressão e bloguismo vai havendo troca de argumentos no BlogCafé. Com filial aqui.

Liberdade de expressão?

Há alguns anos, lembro incerto 1999, Veiga Simão então ministro da Defesa de Portugal, velho homem de Estado e dignissimo universitário, espantou ao despachar a lista dos membros dos serviços de informação portugueses para uma Comissão Parlamentar. Logo alguém dessa comissão, muito provavelmente um deputado da República, remeteu a lista para os orgãos de comunicação social.

Lembro estar em Maputo e telefonarem-me de Portugal informando do acontecido, na ironia do “amanhã a lista dos espiões sai no Independente, vê lá quem são os daí“, narrando-me o acontecido e eu balançando entre a gargalhada descrente e o nojo por portugueses que partilham, apesar de mim, o meu país. Logo o solicitei, curiosidade certa, e na manhã tinha no gabinete um fax (era ainda o tempo dos faxes, imagine-se) com a cópia do jornal Independente onde constava uma lista de dezenas de indivíduos. Os nomes riscados, aparentemente a marcador (como se isso impedisse uma leitura por parte de profissionais interessados), mas os países de colocação bem à vista. Foi logo um reboliço telefónico, irónico e curioso, amigos cuscando se alguém sabia ou imaginava quem eram os dois agentes colocados em Moçambique, coisa que iria durar ainda uns dias. De imediato imaginei os dois homens, decerto avisados de véspera, que tudo aquilo foi inopinado, abandonando o país no mais madrugador avião para Joanesburgo ou, mais certo, cruzando nos primeiros alvores da matina a Namaacha ou Ressano Garcia, a inquietude dessa derradeira noite postados diante das fronteiras, avessas que são elas ao trânsito nocturno. E imaginei também, leituras velhas construindo imagens, homens e mulheres partindo em contido alvoroço de dezenas de países. E ainda o súbito encerramento de empresas nos arrabaldes lisboetas, filiais de seguradoras, consultoras, contabilidade, sei lá que tipo de coberturas escolhidas nesses sombrios Rios de Mouro ou Paios Pires tão a jeito para realidades feitas filmes, e o espanto de mulheres a dias, fornecedores e vizinhos com o vácuo então criado.

Veiga Simão retirou-se de uma longuissima, e até contraditória, vida de serviço público. E nada mais. Mudaram-se governos, a oposição subiu a poder e regressou a oposição, as comissões subiram a observados e regressaram a comissões, os então observados tornaram-se observadores e de novo ascenderam a observados. Deputado algum, assessor algum, foi confrontado com a evidente traição ao país. Uma traição não metafórica. Linear. Pura e simples. A Assembleia da República, ao que agora se bloga prenhe de mictórios entupidos e de deputados que apenas do próprio mijo se lembram na hora da crítica fácil porque tão tardia, fez por esquecer, e esqueceu, o facto de acoitar traidores e nisso continuar impávida.

Os jornais publicaram, decerto em nome de um qualquer interesse público (confundindo, cientes disso, “público” com “do público”) e da sacrossanta liberdade de expressão. O povo, que é manifestamente imbecil, creio que devido à dieta, nunca se lembrou disto, continua a votar nos traidores e nos que os protegem [alguém acredita que ninguém saiba quem foi o “brochista” (em inglês se quiserem) que denunciou os serviços de informação?]. Contente, ulula julgando-se patriota, assim reconfortado da merda que é, tv aos gritos no jogo da selecção, bandeira nacional numa mão, jornal Independente, o lixo traidor, na outra.

Anos passados ninguém liga, ninguém se lembra. A rapaziada de esquerda, relativizada, apupa a liberdade de expressão, máscara da falsidade ocidental ou até mesmo da inexistência ocidental, ainda que lhe reconheça, se cutucados, o mérito de denunciar a perfídia espia nacional, vista arma de exploração de inocentes alheios, inocentes porque alheios, porque diferentes, porque outros. A rapaziada menos relativista, reza loas à liberdade de expressão, coisa absoluta, tanto que até lhes dá para trair o país, nos intervalos de declarações pomposas sobre nação e quejandas. Coisa sem limites, dizem. E, escroques, realizam. No remanso do piadismo fácil e do linkismo ignorante. Punhetam, viris. Ambos os todos.

A propósito destas questões um amável comentador aqui afirmava há dias, “não compreendo o que dizes, mas entendo que te sintas longe”: Longe, eu?! Foda-se, eu estou aí. Isso é meu. Quem está longe, quem está bem longe, quem nem sequer merece isso, é essa corja. Corja não, que parece queiroziano. É essa vara, fica melhor. Estais longe.

(texto escrito em estado de liberdade de expressão relativa e sobriedade absoluta)

Ler faz mal

Isto das ilustrações dinamarquesas ilustrou a diferença existente entre fundamentalistas (seja lá do que seja) e relativistas (de tudo, excepto do relativismo [não, não brinco às contradiçãozinhas]). Há quem pense que são iguais, mas não são. Os fundamentalistas normalmente leram menos do que os relativistas, estes alargaram-se, até foram às filosofias, ali e acolá às epistemologias, um mergulho mais profundo nas socio-antropologias. Por outro lado os fundamentalistas (seja lá do que seja) percebem melhor as parcas leituras lá do seu recanto. Os relativistas (de tudo, excepto do relativismo) leram mas não perceberam bem - nas socio-antropologias é mesmo uma desgraça, imagino no resto.

Em suma lá os fundamentalistas serão menos enciclopédicos, menos lidos. Os outros mais actualizados. Mas os primeiros mais espertos, compreendem melhor. Os outros mais burrinhos, trabalhadores mas enfim … A conclusão é óbvia, ler faz mal. À vista e à cabecinha.

Aqui uma coisa que alguns “relativistas” de “esquerda” (uma “sinistra” “esquerda”), afamados blogadores, ao que parece não conseguem perceber. Efeito dos danos sofridos, e nada colaterais.

Sinal dos Tempos

Chego ao sítio da Sic online via Frescos, atraído pelas declarações do padre Serras Pereira (Portugal). Em ambos os locais as de/anunciam sob o mesmo título:”A homossexualidade é uma doença“, ruge o nada blasfemo cura.

Mais um patusco, não haja dúvida. Um espécimen. E continua, lá mais para o fim da notícia ecos de outro urro: “Qualquer relação sexual que não seja dirigida à procriação é uma perversão”, satanizando essas camisas-de-vénus tão correntes hoje.

Tralhas tão estafadas que já nem sorriso levantam, esse do “de onde saíu este?”. Mas logo me acontece, afinal aqui notando o sinal dos tempos. Fosse há alguns anos o que chamaria a atenção, o que seria a piscadela de olho dos jornalistas aos leitores, o que seria título, seria exactamente essa declaração da quase-universalidade da perversão, um mundo de gente que fornica sem reproduzir, a velha rábula do “sémen sagrado” dos sagrados Monthy Python. Hoje já não! Para os jornalistas (e para quem os lê) é mais tonitruante, mais apelativo, um pobre padre denunciar a homossexualidade (na realidade ele nega-a) do que um pobre padre denunciar a sexualidade (na realidade ele nega-a).

Esmorece-me o sorriso. E cá bem no fundo mais vale um padre maluco (”bem-aventurados os pobres de espírito” disse o profeta Jesus) do que uma cambada de jornalistas na moda. Pois, como se ouvia antes, “assim se vê a força do pc” - agora outro pc. Que perversão, esta sim perversa.

Patuscos

(*texto modificado, amputado de azedume afinal descabido segundo informação recebida nos comentários)

Lá na terra há uns patuscos que andam para aí a kenedyzarem-se, blog-in, blog-out, “ich bin ein dänisch”. É compreensível, o homem, o original entenda-se, tinha uma mulher bonitissima, ele próprio era giro, rico, teve a sorte de o matarem novo e, mais do que tudo, não suava na tv.

Eu se me desse para isso, mas não dá que suo que nem um porco, e hoje neste calor nem dormir consigo quanto mais qualquer resto, dava-me era para rir. Esses dinamarqueses afinal a desculparem-se de qualquer coisinha, pouco berlinenses afinal.

Sim, sim, o Voltaire, esse sátiro blasfemo, nos pontapés às superstições, avô fundador da gente por isso mesmo, a dizer que se bateria até à morte para que dele pudessem discordar. Supersticiosos ou não. Meu vôvô, não renego. Não vou lá muito com tudo dele, como qualquer neto que se preze, que o velho tinha coisas de homem do seu tempo. Devo deixar aquilo do “Vossa Magestade prestaria um serviço eterna à raça humana extirpando essa infame superstição (o cristianismo) , não digo entre a ralé que não merece a pena iluminar e que está preparada para qualquer servidão; digo entre os bem nascidos, entre aqueles que desejam pensar“? Deixo. Mas atenção, apenas porque a ralé, esse hoje povo, afinal vai dizendo umas coisas iluminadas.

O meu, por exemplo, tem um dito fantástico, racionalismo e empirismo associados como nunca: “Quem não tem competência não se estabelece“. E ainda por cima “Eu sou um dänisch”? Era o que faltava. Borregos.

Direito à liberdade de expressão? Sim, sim. Mas também direito ao erro, esse que é humano já diziam os antigos. Apanho os bombeiros a mangueirar fogo com gasolina (Bowie dixit) e defendo o direito inviolável ao erro? Enquanto grito “Ich bin ein Feuerwehrmann”?

Ou chamo-lhes borregos? E patuscos aos que então se dizem bombeiros?

Civilização

é (quase) isto. Não vai daqui nenhuma ironia. Um tipo, brotado mais ou menos no mesmo mundo que eu, que se marca na carne e pele é um descendente de piratas, flibusteiros, bucaneiros, grumetes de corsários. Na actualidade é, ou nada mais aspira ser, um presidiário. Uma tipa nos mesmos tatuados propósitos é mera mulher de porto, clandestino em recônditas caraíbas ou antilhas, infectada por contágios múltiplos, escorbutos de calmarias, erupções de furacões. Cúmplice, alvar e histriónica, de rapinas, violações, massacres, abordagens sem quartel e bordas-fora. Gente desconfiável. E, sempre, enforcável.

Entenda-se, civilização é carregá-la(o)s no porão. A ferros. Aos tatuados.

[via Bicho Carpinteiro]

A polémica das blasfémias dino-europeias

A polémica das blasfémias dinamarquesas/europeias teve um grande mérito. Em vários blogs aprendo que agora em português se diz “cartune”. Nesse âmbito, ou seja sobre a importante matéria da a liberdade de expressão, a civilização ocidental e os cartunes, deixei a minha opinião em comentário no estimável Adufe. Não resisto a integrar-me na ampla discussão que percorre o mundo sobre o assunto e aqui transcrevo o referido comentário [ligeiramente aumentado], epítome do que considero sobre tudo isto:

Eu sou um grande defensor da liberdade de expressão. Para mim é um dogma, um valor civilizacional absoluto, no fundo a tradução actual da Razão da História, do Espírito. Por isso mesmo concordo com esses tantos que agora escrevem “cartune” - ainda que o retrógado em mim ambicionasse queimá-los em hasta pública. É isso mesmo, a liberdade é o racionalismo vs a emoção, a liberdade é o “cartune”. (Alguém me empresta o isqueiro para atear a fogueira?)

Não sei se valerá a pena informar sobre um texto de O Espectro, presumo que todos os aqui passantes já lá tenham estado. Mas esta prosa clarividente ela-se, nem que seja para minha memória.

Angústia ainda maior

Os trauliteiros.

Ainda maior dúvida, angústia mesmo

IgrejaPolana.jpg

Maputo, Igreja da Polana.

Quando aqui entro tiro o chapéu. Será isso nova demonstração do meu cobarde relativismo e infecto multiculturalismo? Ou, bem pelo contrário, demonstração de dogmatismo fundamentalista, crente que sou de que apenas um inferior imbecil ignorante não se descobre em encontrando tecto (excepto, claro, se uniformizado)?

Casamentos

Lá no meu velho rincão o fim-de-semana não esmoreceu a questão sobre o “como casar”. Entre muitos discursos não resisto a elar (para meu arquivo) o regresso do evolucionismo, e seus “perigos” de “primitivismos” na cara Zazie e no A Metamorfose (ecoando as vantagens de viver fora aqui realçadas). Eu continuo na minha, de um lado e do outro da pedrada o fundamental é não chegar aos corolários. São sempre chatos, amarfanham a prosa.

Um texto são no Lida Insana. Mas no fim lá me sai o resmungo. A base das instituições sociais é garantir a dignidade do indivíduo. Outra vez os meus corolários, e os outros a amputarem-nos? Também. Mas acima de tudo o discurso pode parecer que sim, que é assim. Mas, e sei que em tempos de domínio liberal é dificil contra-argumentar, será que as instituições sociais existem para o indivíduo se dignificar? E, já agora, o que é isso da dignidade do indivíduo?

Casamentos

Lá na minha distante terra é tema recorrente. Como e com quem casar, está-se em era de pensar a reprodução social via família. Cada vez que o tema vem à baila não resisto, auto-elo-me, um texto que até já me valeu uma indexação como homófobo pela corja opus gay. Está aqui e já era velho quanto o bloguei (é de Junho de 2002). O tema de então e de hoje é simples: casamento (e família) homossexual sim se casamento (e família) polígamo e se fim da categorização de incesto e, portanto, se aceitação de qualquer forma de união sexual/conjugal/familiar legal (e social) entre maiores que o desejem.

Na altura do texto não ouvia falar da associação desta questão actual à poligamia. Agora sim (e o que me leva a re-botar o texto é mesmo o comentário absolutamente falacioso de Octávio Gameiro no Abrupto). Quanto ao “incesto” continua tudo calado, parece que dele nasceriam criancinhas com cauda e pé-de-cabra.

A caravana lá na minha terra continua, entre falácias e semi-pensares.

O post do mês é este. De longe.

Isto de viver num país de enorme multiplicidade religiosa, até a nível individual, influenciará um tipo quando olha para a sua paróquia? E os párocos lá locais?

Crucifixos e Touros

Nunca fui a uma tourada. Pouco me dizem, mas nada levo contra. Já o mesmo não digo dos seus adversários. Gente de patacoadas, de pequenos frissons. Como não, se num país (num mundo) onde se engordam as aves como se engordam, se alimentam os mamíferos-carne como se alimentam, se transportam os bichos como se transportam, se zoologiza pequena minoria das antes “feras”, se destroem os rios a bem da falsa economia, se rebenta tudo a bem da construção, se esbanja para uma meia dúzia de hectares no sujo rio lisboeta e em outros de futebol e se deixam queimar os milhares de resto sem meios nem norte. Como não se num país do animal pato-bravo? Adversários de touradas? Para mim eram pasto de forcados, nada mais que ervas daninhas inconsequentes.

Largadas de touros? Ok, etnografia, festas populares e isso. Tudo bem. Mas nunca fui, nem na terrinha nem lá em Pamplona. E no tal Hemingway preferia as partes das bebedeiras e as histórias de impotências. Mas não seja por isso, nada tenho contra.

Há anos Barrancos. O poder, o Estado, sem saber o que fazer. Lá o povo do casal a exigir matar o touro, coisa cultural, coisa tradicional. O poder, o Estado a arrastar até ter que fazer. Resistência cultural, tradição comunitária (ninguém falou em folclore, sinal dos tempos). Então, e para não se cansarem mais nem terem que decidir (ah, o tempo de Guterres), respeito pelas especificidades culturais, atenção (e medo, e medo…) às resistências populares. Daí ao multiculturalismo e ao pluralismo jurídico. Excepção à lei, esta deixando de ser universal no país. Matem lá o touro e não chateiem, não prejudiquem o verão, não agitem as sondagens. Ainda que pluralismo jurídico, ainda que multiculturalismo comunitário, ainda que o direito à tradição (seja lá esta de que cimento for).

Eu, na altura, ainda que nada contra as touradas (não as assistindo), nem mesmo as de morte, ainda que nada contra as largadas (não as assistindo), ainda que festas populares, ainda que etnografia, ainda que folclores de alguns, direitos comunitários de outros, turismo para tantos, lá resmunguei em tempos de pré-blog. Era de chamar a GNR, traulitada à antiga. E, se em caso absurdo e até limite, munições reais. Leis diferentes? Segundo a tradição local? A tiro, a tiro, não tem o Estado o “monopólio da violência legítima”? Não é para isto?

Não, não é. Há que aceitar diferenças, multiculturas, histórias diferentes. “Não és tu antropólogo?” ainda me resmungaram.

Tá bem, sinal dos tempos. Ainda que tenha continuado a resmungar, tanta tradição agora proibida e também recuperável. Dar porrada nas mulheres, não partilhar a herança pelos filhos, não os levar à escola, fazer vinho carrrascão, as belas aguardentes bagaceiras, a agricultura sem limites administrativos, construir casas sem casa de banho, um sei lá mais o quê de costumes mais ou menos locais e não universais. E agora proibidos. Então aqueles alentejanos matam o touro e os outros não podem fazer o que séculos os ensinaram a fazer? Multiculturalismos? Respeito pelas tradições? As comunidades. E mais um bocado e lá viriam os cultos a falar de Herculano, o Alexandre, os municípios e isso.

Crucifixos nas escolas. Eu, é claro, desmontem-nos. A lei não é igual para todos? Não é essa “a questão democrática”, não é o não isso que periga a democracia, que invoca ditaduras sidonistas, perdão, sebastianistas? Sem ser à força claro, que ainda temos a Igreja e sua turba em polvorosa, mas tirem-nos. Com firmeza. Com repúdio pela violação da democracia, da igualdade, da constituição?

Tem moral a fábula (história de touros, não é?)? Nada adjectivável. Só gargalhável.