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Maio 12th, 2008 — Cinema, Politicamente Correcto

De Paul Verhoeven, cineasta bem tarimbado na indústria americana, o que se nota no ritmo do bastante premiado Zwartboek. Integrado no Ciclo de Cinema Europeu, uma organização da delegação da União Europeia, uma boa já tradição. Apresentação com uma originalidade: título na língua original (diferentemente de todos os outros) fugindo ao “Livro Negro” da versão inglesa ou ao “A Espiã” (???) brasileiro. Afirmação linguística da delegação holandesa?
Filme de aventuras na II Guerra Mundial, coisa já rara hoje. Argumento com algumas coisas engraçadas - a traição no seio da resistência holandesa; as diferenças ideológicas dentro desta; o anti-semitismo patente nesse movimento; a baixeza do revanchismo pós-libertação. E algumas parvoíces pueris, típicas da cosmologia cinéfila americana (”o amor tudo pode”): o importantíssimo responsável das SS que, afinal bom homem, se torna pacifista muito pela influência do seu amor pela bela judia espia (ou agora terei que dizer “espiã”?) e pelo seu par de seios - muito ostentado, e cuja beleza confirmo ser capaz de fazer vacilar alguns princípios ideológicos.
Bem, mas para quê tamanho destaque e pormenor a um filmezito de guerra? Lá segue a história, contada em modalidade de analepse. E que finda com o regresso ao momento presente da protagonista, correndo com a sua família para o abrigo no kibbutz sob os silvos do alarme e os sons das bombas de um ataque. A sensação de continuidade, de ausência de alguma ruptura é enorme, mensagem sublinhada por se tratar do final, em forma de reticências … Completa manipulação: o inimigo é o mesmo, a vítima perene.
E “fim”! Ainda estou eu a murmurar “filhos da mãe” e a sala, pejada de cidadãos holandeses (cooperantes, diplomatas, suas famílias), naturalmente ali a verem o “seu” filme, rompe em aplausos. A um filme de 2006! Sem nenhum participante na sala (vá lá, se o tivesse). Mandam uma tralha ideológica destas, já vista, e toca de aplaudir. Paroquianos. Provincianismo nacionalista.
Depois, cá fora, os comentários. “Porreiro”, “bom filme”, “agradável”. Claro, funciona. Pelos vistos.
Fevereiro 26th, 2008 — Politicamente Correcto, Portugal-África
dois assuntos que me levam a deixar comentários em blogs alheios. No Chuinga a transcrição e o apoio a um texto de Mário Crespo, o qual quer que o Estado português peça desculpas à África ex-colonizada. No Diário de Um Sociólogo notícia sobre o Encontro Internacional de Lideres e Intelectuais Feministas Lésbicas, a decorrer em Maputo, o qual tive ontem o desprazer de cruzar.
Fevereiro 24th, 2008 — Arte, Politicamente Correcto

O Metro de Londres excluíu um anúncio contendo esta pintura que publicitava uma exposição de Lucas Cranach na Royal Academy. O argumento foi explícito, o nu feminino pode ofender sensibilidades: «Devemos ter em conta os milhões de viajantes diários do metro e procurar não ofender ninguém», justificou-se a empresa de Metro (gente decerto parida de um bolbo).
Nisso estou completamente de acordo com o Francisco: isto é medo (e pouca vergonha) de ofender os passageiros “multiculturais”, aceitar o ponto de vista de quem pode achar “blasfema” esta pintura. Acima de tudo concordo que “Mais do que uma vergonha, é uma filha da putice”.
Muito menos apreciáveis são outras iras sobre o assunto. Ainda que ache piada à retórica do Lutz afirmar «É impensável que um quadro clássico possa chocar» - que tem vindo a ser desenvolvido no …bl-g- -x-st - é uma falácia. Intelectual e politicamente pior do que os argumentos timoratos do Metro de Londres.
Afirmar que a arte clássica não pode chocar é um argumento à mão de semear para esta contestação. Mas é censório, irracional. Aceitá-lo implica afirmar limites racionais para a leitura intelectual do passado, sua compreensão, para o “diálogo” com o passado (um diálogo mitigado, é óbvio). Ou seja, afirmá-lo implica dizer que pode haver interacção sensitiva mas não reflexão abrangente. Afirmar que o passado artístico não pode chocar (”não pode”, o registo do dever-ser) significa que nos desperta, porventura, o eros, o sensitivo, o emocional (e este nem tanto, pois é chocável), um tanto de espanto. Mas não a razão.
Isto é a exotização do passado. A infantilização do passado. Nisto o Passado é o Outro, só compreensível e analisável nos seus valores, olhável de longe com apreço ou menosprezo consoante o feeling do dia. Isto é, em absoluto, o discurso “multicultural” impensado. Típico da esquerda europeia mal-pensante dos nossos dias (já agora, filha do apartheid boer).
A arte passada pode chocar - ainda que tenham mudado os valores e os contextos. É (também) essa a sua grandeza. E (também) por isso mesmo é preciso manuseá-la, pendurá-la, observá-la. Chocarmos. A nós e aos outros. Sem censores - fundamentalistas islâmicos ou esquerdalhada europeia correctista. Ou melhor, também por causa deles.
Novembro 26th, 2007 — Cahora Bassa, Politicamente Correcto, Portugal-Moçambique
Politicamente correcto. Crianças entregues na escola, rápido café com amigo colega em paternidade. Chispa de ironia, ele: “
Ouve lá, tu que és um gajo culto” (ei-lo nela, o sacana) “
explica-me lá o que é que significa reversão“. Tartamudeio e fujo para um “
a propósito de quê, pá?”, “
Então hoje não é o dia da reversão de Cahora Bassa?”. “
Bem …”, evoluo, e com ele no entre-sorrisos, “
são estas palavras novas, assim tipo “empreendedor”, “implementar”, esses tipos utilizam-nas para parecerem finos“. “
Ok, ok“, matamos ambos a conversa, antes do “
a conta, por favor“. E saímos, sorrio eu ainda, decerto ele (e ele é que é o gajo culto, entenda-se) também na via do seu dia, sorrimos a tanta ideologia no falar, nacionalismo de alguns, e esse ainda vá que não vá, o politicamente correcto de outros, e esse é que nem se compreende.
Sentar-me-ei, politicamente incorrecto?, a consultar a página 1247: “reversão (Lat. reversione), s.f. acto ou efeito de reverter; regresso ao estado primitivo; devolução; (Zool.) atavismo; (Ling.) figura de estilo que consiste em inverter a ordem dos termos de uma proposição, de modo a obter uma outra com sentido diferente; quiasmo.” (Texto Editora, Dicionário Universal da Língua Portuguesa, 1995, 1ª edição).
Concluo então, Pedro, que “reversão” é uma figura de estilo económica. Chega? Ou será um quiasmo?
Maio 1st, 2006 — Politicamente Correcto
Abril 24th, 2006 — Politicamente Correcto
Apontamento sobre
este meu texto:
A malária mata imenso. Ao longo de anos a investigação contra esta doença tem sido secundarizada face a outras pesquisas menos relevantes em termos de saúde mundial. O seu mercado é mais pobre. Esta situação, gravissima, é relativamente esquecida no seio do mundo industrializado, pouco (ou nada) alvo dos efeitos da doença.
Ao ver a
melga que o
Paulo Gorjão utilizou para simbolizar o regresso desses Grandes Melgas que são os bloguistas [particularmente os político(logo)s] nem hesitei. Quereis mais justo discurso Politicamente Correcto do que este? Para os polícias da língua, tão ufanos com termos com tão menores efeitos reprodutores de injustiças e esquecimentos, haverá maior infracção do que este jocoso “Ganda Melga”, tão amigável para com este grande predador? Estarão distraídos, embrenhados em ileituras de “questões de género”? Onde lhes está a lupa? Ou só servirá para as coisinhas do intra-muros deles?
Agradeço os comentários havidos e sai abraço ao
Paulo Gorjão, agradecendo-lhe o não se ter importado com o pequeno jogo. Espero que continue um Ganda Melga. E outros também.
E julgo que escusado será dizer que na luta pela prevenção contra a malária e sua erradicação quanto mais formos melhores resultados haverá.

Adenda: via Nova Floresta ver uma peça espantosa de “politicamente correcto”.
Abril 23rd, 2006 — Politicamente Correcto
De quando em vez tenho aqui abordado (e em algumas caixas de comentários alheias) a insensibilidade de bloguistas e outros escribas para com causas justas e necessárias. Insensibilidade talvez inconsciente. Mas sempre preconceituosa, com a constante utilização de conceitos, linguagens e quantas vezes imagens que reproduzem os preconceitos e a exclusão que lhes está associada. E nessa irreflexão, nessa linguagem poluída, nesses actos até vis, se vão reproduzindo práticas discriminatórias e silêncios dilacerantes. Acima de tudo estes silêncios, causas e motores de práticas de exclusão. Produtoras de miséria. Sem exagero, assassinas.
Sei que a denúncia de tais práticas (mesmo que apenas verbais) se torna fastidiosa para os “distraídos”, até um ónus sobre quem se recusa a calar a indignação. Mas há momentos em que se torna imperioso exigir contenção. Se os preconceitos não desfalecem ao menos que se exija o pudor na sua expressão. É o que me ocorre hoje olhando o bloguismo luso: que dizer quando até um blog aparentemente responsável como o
Bloguítica brinca com
esta imagem assim desmerecendo, elidindo, o sofrimento de tantos, apagando a memória da doença do século, a urgência do combate. Apenas porque os sofredores são pobres? Porque não são europeus?
Novembro 30th, 2005 — Blogs, Politicamente Correcto, Sociedade portuguesa
O post do mês é este. De longe.
Novembro 30th, 2005 — Politicamente Correcto, Sociedade portuguesa
Isto de viver num país de enorme multiplicidade religiosa, até a nível individual, influenciará um tipo quando olha para a sua paróquia? E os párocos lá locais?
Publicado por jpt às novembro 30, 2005 01:07 AM
Novembro 30th, 2005 — Politicamente Correcto, Sociedade portuguesa
Nunca fui a uma tourada. Pouco me dizem, mas nada levo contra. Já o mesmo não digo dos seus adversários. Gente de patacoadas, de pequenos frissons. Como não, se num país (num mundo) onde se engordam as aves como se engordam, se alimentam os mamíferos-carne como se alimentam, se transportam os bichos como se transportam, se zoologiza pequena minoria das antes “feras”, se destroem os rios a bem da falsa economia, se rebenta tudo a bem da construção, se esbanja para uma meia dúzia de hectares no sujo rio lisboeta e em outros de futebol e se deixam queimar os milhares de resto sem meios nem norte. Como não se num país do animal pato-bravo? Adversários de touradas? Para mim eram pasto de forcados, nada mais que ervas daninhas inconsequentes.
Largadas de touros? Ok, etnografia, festas populares e isso. Tudo bem. Mas nunca fui, nem na terrinha nem lá em Pamplona. E no tal Hemingway preferia as partes das bebedeiras e as histórias de impotências. Mas não seja por isso, nada tenho contra.
Há anos Barrancos. O poder, o Estado, sem saber o que fazer. Lá o povo do casal a exigir matar o touro, coisa cultural, coisa tradicional. O poder, o Estado a arrastar até ter que fazer. Resistência cultural, tradição comunitária (ninguém falou em folclore, sinal dos tempos). Então, e para não se cansarem mais nem terem que decidir (ah, o tempo de Guterres), respeito pelas especificidades culturais, atenção (e medo, e medo…) às resistências populares. Daí ao multiculturalismo e ao pluralismo jurídico. Excepção à lei, esta deixando de ser universal no país. Matem lá o touro e não chateiem, não prejudiquem o verão, não agitem as sondagens. Ainda que pluralismo jurídico, ainda que multiculturalismo comunitário, ainda que o direito à tradição (seja lá esta de que cimento for).
Eu, na altura, ainda que nada contra as touradas (não as assistindo), nem mesmo as de morte, ainda que nada contra as largadas (não as assistindo), ainda que festas populares, ainda que etnografia, ainda que folclores de alguns, direitos comunitários de outros, turismo para tantos, lá resmunguei em tempos de pré-blog. Era de chamar a GNR, traulitada à antiga. E, se em caso absurdo e até limite, munições reais. Leis diferentes? Segundo a tradição local? A tiro, a tiro, não tem o Estado o “monopólio da violência legítima”? Não é para isto?
Não, não é. Há que aceitar diferenças, multiculturas, histórias diferentes. “Não és tu antropólogo?” ainda me resmungaram.
Tá bem, sinal dos tempos. Ainda que tenha continuado a resmungar, tanta tradição agora proibida e também recuperável. Dar porrada nas mulheres, não partilhar a herança pelos filhos, não os levar à escola, fazer vinho carrrascão, as belas aguardentes bagaceiras, a agricultura sem limites administrativos, construir casas sem casa de banho, um sei lá mais o quê de costumes mais ou menos locais e não universais. E agora proibidos. Então aqueles alentejanos matam o touro e os outros não podem fazer o que séculos os ensinaram a fazer? Multiculturalismos? Respeito pelas tradições? As comunidades. E mais um bocado e lá viriam os cultos a falar de Herculano, o Alexandre, os municípios e isso.
Crucifixos nas escolas. Eu, é claro, desmontem-nos. A lei não é igual para todos? Não é essa “a questão democrática”, não é o não isso que periga a democracia, que invoca ditaduras sidonistas, perdão, sebastianistas? Sem ser à força claro, que ainda temos a Igreja e sua turba em polvorosa, mas tirem-nos. Com firmeza. Com repúdio pela violação da democracia, da igualdade, da constituição?
Tem moral a fábula (história de touros, não é?)? Nada adjectivável. Só gargalhável.
Novembro 22nd, 2005 — Politicamente Correcto, Sociedade portuguesa
Nos tempos em que fui jovem andava por lá o costume de se mostrar a muita “macheza” (o que então era hetero, nem valerá a pena lembrá-lo). Coisa de baixa classe mas não só, também os então “queques”, a classe média a querer-se alta. Nestes mais finos o macho era-se nos botãos da camisa desapertados, desvendando os pêlos do peito sonhados matagal e, fundamental, o cordão, se de ouro era um “must”, que os adornava e iluminava (aos pêlos, claro). Sofriam os glabros. Discriminados, acontecia-lhes até raparem-se na esperança de incrementos futuros. No pessoal mais povo estes cuidados no trajar vinham juntos às calças justas, enrelevando a genitália, bem aconchegada, a cuja lhes exigia com grande afinco carinhos constantes sob forma de coçadura. Nesse caminho tempos depois chegou, acho que lá do Brasil, a moda da tanguinha, o quase fio-dental para homem barrasco aquando na praia. Dizem, que isso era mais lá pelas caparicas onde o povo se associava, eu isentei-me. Repugnado com a areia partilhada e, claro, fiel ao calção largo no quando e onde.
A rapaziada então era livre, ria-se dessas merdas, mais das dos forcaditos filhos-família do que das dos “ciganos”, que destes ainda se tinha o respeito do não querer levar umas lambadas. Quem se apresentava nestes preparos logo levava com o labéu do “chulo”, fosse-lhe o papá doutor ou estivador. Atributo que mais tarde estendemos aos que nos carros sentavam as mulheres nos bancos de trás, assim montando velozes o célebre “carro de chulos”, arquétipo Ford Capri.
E nestes rodeios lá se fez o nosso pudor, coisa da boa-educação, coisa ensinada. Entenda-se, no carro a menina sentada ao nosso lado, sempre e não só para os melos. Nos trajes a camisa apenas com um botão desapertado e no abaixo-do-cinto a folga, algo indeterminada, que permitisse o implícito às potenciais interessadas, avaliadoras. Falo de coisas sérias, constantes, em despontando as penugens, em descobrindo-se protuberâncias, logo alguém o notaria, no entre-sarcasmos, “hé pá, tens cá tantos pêlos” quando não o ainda mais explícito “ó seu xuleco…”. E se nos surpreendia alguma aflição epidérmica lá pelo baixo-ventre logo vinha o “olha a micose”. Humor? Nada, o sarcasmo a mostrar como usar o corpito. Ou, de outra forma, que há sítio para tudo, até para as coceiras. Chamámos a isso liberdade. E usámo-la.
Vieram anos e novos trajares. Em muitos mais do que tudo maiores cintos, que as protuberâncias a folgar são agora as do ventre e não as abaixo. E as testas cada vez mais altas, até-à-nuca até. Nos outros, os que chegam, a moda foi mudando. A macheza à mostra multiplicou-se. Coisa agora homo, entenda-se. Os tiques os mesmos. A genitália relevada, os troncos apresentados. Novos tempos e vontades? Nada, coisa de velhas modas e da mesma barrasquice, nem mais.
Mudanças? em nós, no medo do sarcasmo, no “tem que ser” o que me impingem. Vou andando, quando lá, murmúrio para mim, “granda xulo” ali e acolá, mas enfim. Repito, murmúrio para mim mesmo, que já não é tempo para criticar outros, há que aceitar tudo e todos. Senão … mal-visto e mal-quisto.
Há tempos, no por lá, fui ao doutoramento de colega e amigo. Nós, a claque, informais. Gente da ciência social, mestres de duplipensar correcto (nem todos, nem todos), coisa até do estatuto profissional, que tudo isso parece vir das leituras certas em tempo certo. Acolheram-nos candidato e participantes, dito júri, rídículos, quais curas medievais. Livre ainda, disse-o, aos que conhecia. Sorriram-me, até críticos daquilo, mas no “que queres?, são as normas” e logo na coimbrã coimbra. Enfim, mostrando-se, ainda que ali expectantes em dia de festa, livres para olhar o ridículo de vestes e poses. Sabendo do seu porquê. E até parecendo que sempre assim atentos. Mas não, mas não…
Depois das loas e incensos devidos ao vencedor avançámos aos comes e bebes de fim de tarde. Uns já desfardados outros mantendo-se no informal, nisso umas dezenas. A animar, que festa de doutoramento é momento. Fiquei-me um pouco de fora, anos cá fora, já muitos que não conheço ou não se interessam. Entre-copos estou ali com dois colegas, a fazer novas velhas conversas, e, súbito, avança um já não jovem, no cumprimentando-os. Todo ele justinho, claro, e a camisa aberta até ao umbigo, os tais (poucos) pêlos em radical anúncio.
“Quem é este paneleiro?” perguntei logo que ele saíu. “Éh pá, lá estás tu” dizem-me os colegas, no serem correctos. “Foda-se! Estou o quê?”, “ah, estás a desatinar…”, “estou a desatinar o quê? quem é este gajo?” “fulano, de tal”, “ah, que paneleirote!”. (Sor)risos, “não mudas”, “não mudo?” (a irritar-me) “foda-se, isto é maneira de estar vestido? Aqui? Para afirmar o quê, aqui?”?”, “ok, ok”, “ok, ok o caralho, e se fosse eu a aparecer assim?” “ok, ok, é ridículo”. E eu a calar-me, porque estamos a beber, a repetir as tais velhas conversas, as que não se concluem, as de amigos mesmo. E assim não me apetece o tal mal-visto e mal-quisto. Mas, ainda assim, hei-de continuar a dizer uns palavrões valentes. Pôrra … onde está aquela liberdade? A de olhar o ridículo? O do ordinário.
Adenda: há comentários quase-post. Meus e alheios
Outubro 12th, 2005 — Politicamente Correcto
Outubro 12th, 2005 — Politicamente Correcto
O José afiança-me da veracidade da história dos pinguins de Copenhaga - e decerto que compreendeu que a minha dúvida era pacífica, apenas devida ao facto de ser a história tão fascinante que tinha ar de apócrifa.
E não só afiança como, gentil, oferece outra pérola semelhante: os pinguins de Bremherhaven [texto abaixo transcrito para que o futuro não venha a apagar o sítio em causa]
ALEMANHA: Falha tentativa de “curar” homossexualidade de pinguins
PortugalGay.Pt
Sexta-feira, 11 Fevereiro 2005
Falhou a tentativa do zoológico da cidade alemã de Bremherhaven de “curar” seus pinguins. Quatro pinguins fêmeas foram trazidas da Suécia para tentar seduzir seis machos homossexuais. No entanto, os pingüins não mostraram interesse nas novas companheiras. Para a diretora do zoológico, Heike Kueck, “as relações entre eles eram aparentemente muito fortes”. O zoológico confirmou que tentará repetir a experiência na primavera de 2006, porque os pinguins correm o risco de extinção e precisam procriar para sobreviver. O fenômeno de pingüins gays é conhecido pela ciência. No caso dos pingüins do zoológico de Bremherhaven, a homossexualidade deles foi descoberta após anos e só foi identificada porque os cientistas fizeram uma análise do DNA para então perceber que eles eram machos
Outubro 10th, 2005 — Politicamente Correcto
O José [onde raio é que se trata alguém por José a não ser na “familiaridade” bloguística?] ofereceu ao Lutz [que é bloguista credor de oferendas] uma deliciosa e hilariante (ainda que algo inacreditável) história: os pinguins de Copenhaga [na adenda ao texto].
Totalmente imperdível. E se não é verdade é (muito) bem metido!
Março 28th, 2005 — Politicamente Correcto, Roupa Velha
Estou sempre a lembrar-me de uma jovem colega, espanhola de Estado, de região muito autonómica de coração. Aqui colegámos algum tempo, ela centrada nas questões do género, feminista até mais não. Ríspida na conversa, e até nos actos. Rispidez do radicalismo e de juventude, diziam alguns. Comigo a negar, a pensá-la ao contrário, coisa decerto crescente com a idade, uma rispidez onde lhe adivinhava eu o desprezo por nós, portugueses, coisas colonialistas, por nós, conservadores, coisas de antanho. Acima de tudo por nós, coisas exploratórias. E tudo isso misturado com toque de má-educação, esse mesmo que há quem pense ser o tal radicalismo. Não se pense que a desgostei. Bem pelo contrário. Descobri-me no beneplácito sempre devido às mulheres bonitas, ainda que neste caso algo mitigado pela minha ocasional impaciência. Mas logo redobrado no prazer que sentia quando a via invectivar de conservadores/reaccionários os meus colegas, em especial os patrícios, tremelicando-lhes as belas auto-imagens de pensadores críticos e, até, radicais. Já disse, lembro-me muito dela, do seu delírio do “correctismo”. E do arquétipo deste. Certo dia referi, não lembro a que propósito, a “minha mulher“. Fulminou-me, um esgar mortífero, o desprezo vincado, a contraposição ridicularizadora “tua mulher? pertence-te? compraste-a?” e eu, a imaginar-me a cara espantada (por esta nem dela esperava) ainda ali a matizar “ouve lá, ela também diz “meu marido”” mas isso já nem lhe interessava, nem ouviu, tão na raiva contra a incorrecção, o verme machista/patrimonialista que eu ali era. Lembro-me imenso dela. Aliás, estão sempre a lembrar-me dela. Nos blogs e lá fora. Por vezes, em silêncio, solidário, até brindo ao homem dela. Perdão, ao “homem que vai estando junto dela”.
Março 16th, 2005 — Politicamente Correcto
[Via Forum Comunitário]
1. Cores.
Um excelente artigo de R. Pena Pires no jornal Público. A lembrar-me uma apressada troca de impressões, ocorrida no mês passado, com o Miguel S. do Sem Destino, acerca da racialização do discurso. Que aqui vigora e, pelos vistos, também no meu rincão.
Acho fundamental citar Pena Pires (e ensiná-lo nas escolas , e esta é ironia apenas ligeira. Ainda haverá livro de português no liceu? Daqueles com trechos chatos de autores do antanho? É colocá-lo.): “Para Ká, o problema do racismo resulta do desigual tratamento das diferentes raças. Errado! Só há raças, como representações colectivas e entidades culturais, porque há racismo. Isto é, porque se define alguém como outro em função da cor da pele, hierarquizando-se, num segundo passo, os “nós” e os “outros” assim definidos. A pior resposta ao racismo é pois aceitar a categoria de raça como classificação social pertinente e natural. A boa resposta é insistir na universalidade do género humano e combater todas as formas de discriminação em função da cor da pele…Insistir na necessidade de recrutar para a participação e liderança política cidadãos de todas as cores de pele é fundamental, como fundamental é aproveitar todas as oportunidades para criar bons exemplos públicos desta orientação. E, convenhamos, tem havido um défice real de actuações nesse sentido, em particular por parte dos principais partidos políticos”. [foi o que na altura eu quis sublinhar] “Mas se, com a pressa, criarmos quotas raciais, teremos capitulado perante o racismo em vez de dar passos decisivos para a sua superação, pois teremos introduzido na lei critérios raciais. (De passagem, um pequeno reparo: a pior forma de concretizar oportunidades de participação de portugueses negros no sistema político é começar por acantonar essa participação em lugares de combate ao racismo e à exclusão.)”.
Em suma Miguel, , aproveito isto para (me) reafirmar - as quotas nada resolvem e, neste caso, até pioram pois reificam. E urge combater o discurso racialista: aqui ambíguo, desvalorizador do outro (Em Cor) em determinados contextos socioeconómicos, e valorizador do outro (Em Cor) noutros contextos socioeconómicos (do “Brrranco” desprezível ao “Patrão” benfazejo). No meu país também presente, sempre desvalorizador do outro (Em Cor) ou quase sempre desvalorizador do outro (Em Dinheiro) - como o prova o estudo sobre xenofobia hoje anunciado na imprensa portuguesa (onde estás Gilberto Freyre sublido? onde estás Lusofonia benfazeja?) - uma sociedade igualitária, Miguel? Tendencialmente, tendencialmente…
2. Genitais
O WR vai batendo nas críticas feitas ao novo governo português por não ter mulheres. Também aqui as cotas/quotas me repugnam - mas acho interessante as mulheres ministras serem da Cultura e Educação. Só falta a Saúde para que às mulheres no poder estejam atribuídos os sectores dos cuidados maternos, enfermagem e lavores (bordados, culinária requintada, piano à ceia) - resquícios de um inconsciente colectivo burguês oitocentista?
Mas concordo, não deve haver mulheres no poder só porque são mulheres. Cotas nunca, Abaixo as Quotas!! - ainda que reificar géneros seja aparentemente mais natural do que reificar raças, isso não é verdade.
Mas permito-me comparar (que fazer?, deformação profissional). Em Moçambique, onde as condições da domesticidade são decerto diferentes dos que as em Portugal, e onde a falofilia (ou mesmo falocracia) será aparentemente mais dominante, o novo governo integra não só uma Primeira-Ministra como muitas ministras e algumas vice-ministras - e não por cotas/quotas, mas sim por uma ideologia integrativa, o omnipresente “género”. Nem tudo será equitativo, mas isto é obviamente o resultado de décadas de afirmação dessa preocupação social - que tem efeitos sociais. Mesmo que não idílicos - será necessário conhecer em detalhe a realidade moçambicana, e suas concepções de poder, para perceber o efeito extraordinário no seio das famílias da presença constante e muito visível de um cada vez maior número de mulheres na hierarquia política?
Em suma, aí ó desenvolvidos, cotas/quotas homens/mulheres não? Mas olhando aqui para o espelho do sul não dá para perceber que falta alguma coisa?
Novembro 30th, 2004 — Blogs, Politicamente Correcto
Coisa tão simples que nem deveria ser preciso escrevê-la.
Novembro 13th, 2004 — Politicamente Correcto
É um verdadeiro exemplo de Coluna Vertebral a atenção e eco a este texto [abaixo transcrito] denunciando a imbecilidade amoral.


Eu bebo mas noutras paragens, e por exigências de cidadania, passarei a beber

ou, e cantando o “Apesar de Você”,
Cerveja Mórbida Por
DAVID RODRIGUESSexta-feira, 12 de Novembro de 2004
o século XIX o fascínio pela diferença, conjugado com o triunfo da ideia de que tudo tem o seu preço e se pode negociar (ideia cara ao capitalismo nascente), deu origem a um tipo de espectáculo que hoje consideraríamos bem estranho. O espectáculo era muito simples: consistia na exibição em feira ou circos de pessoas com características corporais excepcionais ou com deformidades ou anomalias físicas. Os espectadores pagavam, assim, um bilhete para ver “o homem mais pequeno do mundo”, a “mulher mais alta do mundo” ou a “mulher com barba”. O negócio da exibição incluía também e com assinalável sucesso pessoas com deformidades físicas, com deficiências, fetos, nados-mortos, siameses, cadáveres, etc. A exibição destas pessoas, designadas na cultura americana por “freaks”, tem sido abundantemente documentada em livros e filmes (ref. o filme “O Homem-Elefante” contando a história de Joseph Carey Merrick) e dá-nos conta de que por detrás de um negócio de exploração do “mercado da curiosidade” se encontravam sistemas brutais e impiedosos de exploração das pessoas exibidas. Estas práticas não se passaram só em tempos recuados ou fora de Portugal. Lembro-me de quando era criança ter visto na Feira Popular na cidade do Porto uma tenda onde se exibia o “gigante de Moçambique”, um homem excepcionalmente alto que veio a falecer pouco tempo depois desta exibição.
Os espectáculos deste tipo foram gradualmente desaparecendo, porque se tornou cada vez mais óbvio que são degradantes para quem vai assistir e para quem é exibido. É hoje consensual que fazer da exibição de uma pessoa com deficiência um espectáculo pagante prefigura um voyeurismo perverso e indicia interesses económicos da mais indisfarçada exploração.
Por outro lado, sabemos que a economia está mal, que é preciso aumentar as vendas, cativar novos públicos para novos produtos, criar consumo. Sabemos também que a publicidade se tornou uma forma de desequilibrar as modorras e criar novos eldorados de consumo. Apreciamos a criatividade e o profundo conhecimento sociológico dos publicitários que sabem o que devem mostrar e dizer para criar necessidades e tornar produtos inicialmente “neutros” em inevitáveis desejos.
Vêm estas duas considerações anteriores, sobre os “freaks” e sobre a publicidade, a propósito da campanha feita por uma cerveja que, para chamar a atenção dos consumidores, compara a cor preta da cerveja com o humor negro. Para isso, conta, entre outras, a história da notícia do nascimento de uma criança com deficiência, sem membros e reduzida a uma orelha surda. E faz “piada” disto e quer ganhar dinheiro com isto, motivando-nos para beber a cerveja negra como o humor da campanha.
Esta publicidade é indigna e aviltante para as pessoas com deficiência e para as suas famílias. Faz regressar em pleno século XXI o riso alarve de troça sobre as pessoas com deficiência, lembra a exploração dos “freaks” para ganhar dinheiro.
Sabemos que a forma como as pessoas com deficiência são consideradas depende da construção social que fazemos à volta da sua condição. Vemo-las como autónomas? Vemo-las como dependentes? A deficiência é, antes de mais, uma construção social. E, se assim é, qual é o contributo que esta campanha publicitária dá para um entendimento solidário e cidadão da deficiência? Nenhum, porque a “piada” são as próprias pessoas com deficiência e o riso é suscitado pela exibição das suas deficiências, exibição esta que faz outros ganhar dinheiro (dinheiro não para eles, mas à custa deles..).
A campanha desta cerveja já nos tinha habituado a “slogans” sexistas, mas agora passou as marcas: está a rir-se boçalmente do nascimento de uma criança deficiente; boçalmente, porque a piada está na crescente angústia do pai, boçalmente ainda, porque a piada só tem sentido porque a deficiência vai aumentando com o correr da história. Quanto maior é a deficiência, mais nos rimos…
Convido os leitores a serem sensíveis a esta campanha publicitária. Quando lhes apetecer uma cerveja, lembrem-se desta marca e… peçam outra cerveja qualquer. “Só alguns apreciam”, não é verdade?
Vamos seguir as regras do mercado livre: há escolha? Então, eu não bebo cervejas que para vender gozam com a dignidade humana. E você, amigo leitor? professor da Universidade Técnica de Lisboa
Novembro 3rd, 2004 — Mundo, Politicamente Correcto
Se um radical islâmico tivesse assassinado o autor dos “Versículos Satânicos” (longe vá o agoiro) em pleno dia de eleições americanos teria caído o carmo e a trindade. E, já agora, que diria aquela direita em tempos tão anti-rushdie agora que o inimigo é o mesmo (pergunta embaraçosa, acho eu)?
Mas como foi um tipo qualquer “desconhecido” com nome desconhecido (”onde é que eu já ouvi isto?”) … Ó santa procissão
Novembro 2nd, 2004 — Politicamente Correcto