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VAMOS LÁ SER TUGAS À FORÇA

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por ABM (Cascais, 16 de Fevereiro de 2010)

Gostava de explicar aos exmos leitores que geralmente não gosto de ouvir música no rádio. Tirando as estações de música clássica, desde sempre. Tolero o ocasional devaneio musical mas muito pouco, O que gosto de ouvir na rádio é gente a falar: jornalistas, entrevistados, comentadores, escritores, pessoas que telefonam, debates, etc.

Nos Estados Unidos existe um formato de estação de rádio para isto: chama-se talk radio. Dão notícias, entrevistas, programas em que as pessoas telefonam, programa da manhã com notícias e anedotas para quem está a ir no carro para o emprego, a mesma coisa quando estão a regressar a casa, programas para depois do jantar, conversas a meio da noite. Hoje pouca gente sabe que o Sr. Larry King, que mundialmente é conhecido por fazer entrevistas de meia hora ou uma hora na CNN, tornou-se conhecido nos EUA porque durante anos e anos e anos ele fazia todas as noites da semana, com repetição do melhor programa no sábado à noite, numa cadeia de estações chamada Mutual Broadcasting Network, da meia noite e seis minutos até às cinco da manhã um programa ao vivo. Eram magníficos e muito, muito maus, para o meu sono. Só anos mais tarde é que ele passou para a televisão com a CNN.

Em Portugal, só a estação TSF se aproxima vagamente desse formato (e por isso a escuto mais que as outras todas juntas) e mesmo assim, tirando raras excepções, não é uma estação de talk radio. Nem sequer de notícias é: quando houve um tremor de terra de 6.0 na escala Richter há umas semanas no continente português, eles continuaram a transmitir música gravada como se nada se tivesse passado até ao cimo da hora, quase meia hora depois do safanão. E quando dão notícias, repetem a mesma lenga-lenga ad aeternum, que deve ser para os que tinham os ouvidos entupidos há cinco minutos atrás. As entrevistas são pouquíssimas para o que podiam fazer e demasiado curtas.

Mas o que me irrita mais é que passam música. E com que critérios não sei. Tanto se lhes dá para uma balada dum roqueiro qualquer, como uma salsada moderna que eu não conheço e que, sinceramente, pagaria para não ouvir. Quando começa aquela mistórdia musical sem eira nem beira, tenho o problema adicional que é que o meu velho e delapidado carro tem um rádio que não muda de estação facilmente. Tenho que andar aos murros nos teclados até me aparecer outra estação, e em geral as escolhas são de fugir. Outro dia apanhei umas beatas a rezar o terço vez após vez na Rádio Renascença.

O que me surpreende (e já volto à música). Qualquer vertebrado pensante já se deve ter apercebido do que aconteceu ao mundo nos últimos dez anos. Toda a gente praticamente tem acesso quase gratuito exactamente, precisamente, aos tipos de música que gosta de ouvir. Poder gravá-la via computador ou por uma variedade de meios, e estar uma vida a ouvir Amália, o Frank, o Puccini ou lá o que quiserem é uma banalidade da vida actual. As audiências fragmentaram-se e portanto quem continua a apostar em programação generalista está a dar – na minha humilde opinião – tiros para o ar.  A vantagem de uma talk radio é que é barata, tragável se bem gerida e eu acho que muita gente havia de gostar de ouvir programas interessantes.

E note-se – surpresa – é em português. Feita por portugueses. Como este blogue.

Claro que há uma coisa que em Portugal não funcionaria – e eu suspeito que é por isso que verdadeiramente não há talk radio em Portugal. É que para se ter bom talk radio tem que haver lá gente com cor e com cabeça. E em Portugal regra geral quem tem cor não tem cabeça, e quem tem cabeça não tem cor (nenhuma). É qualquer coisa étnico-cultural daqui. E  em Portugal quase todos vivem para pretender que têm cabeça, mesmo que não tenham. Por exemplo, nunca vi país na terra com mais carros pretos, cinzentos escuros e azuis escuros como este.  Se se for a um centro comercial num domingo numa tarde de inverno, presume-se que todos vieram de um funeral, quer pela cor sorumbática da roupa, quer pela atitude sério-sorumbática das multidões. O português não consegue rir para quem não conhece à sua volta. Deve ter medo que lhe levem os dentes.

Pior ainda, nenhum meio de comunicação social em Portugal regra geral aposta em “personalidades” – a não ser que sejam cómicos gays (na base de que é impossível serem levados a sério) pois que essas são para matar na primeira oportunidade.

A verdade é que, para se ser personalidade, um requisito básico é que tem que se a ter. E tê-la, neste país, significa que, mais cedo ou mais tarde, tem que se dizer esta ou aquela verdadinha que vai infalivelmente seriously piss off o sôr ministro ou o rei da batata frita, que telefona ao patrão da estação a insultar o gajo ou então, como agora está na moda, telefona a uma qualquer holding chamada  Going On, que compra a estação (como faz o patego estúpido do anúncio do Euromilhões) e mete lá um mentecapto a fazer relatos de touradas. Como os portugueses individualmente são seres humanos sublimes mas no agregado são um fenómeno keynesiano de estupidez colectiva induzida exponencial, comem, comem e calam.

Aliás, regra geral o consumidor e o cidadão aqui quase sempre come e cala. Com tudo. Os professores são incompetentes? come e cala. O supermercado vende batatas que apodrecem em dois dias? nimguém vai andar de carro 20 minutos em bichas até ao supermercado fazer o gerente comer as batatas que vendeu. O médico não parece saber o que faz? paga-se e não se bufa. O défice este ano vai estoirar? para o ano há-de ser melhor, alguém que resolva. O vizinho do lado não paga as cotas do condomínio há três anos e comprou um carro novo há dois meses? não esquecer de fazer sempre aquele estranho (e unicamente português) cumprimento simpático mudo à saída no corredor a dizer “olá!” mas que na realidade significa “ó meu grandessíssimo filho da puta como estás tu?”

Por tudo isso, frequentemente sinto que, como os meus concidadãos, o colectivo português vive um quotidiano de entrelinhas acinzentadas, sempre resguardado, sempre à espera da próxima catanada, da próxima sacanice, ou da próxima oportunidade de obter algo em troca de nada, sendo a base da felicidade quando não se leva com ela mais vezes do que é normal, ou quando se constata que os outros (e os outros são todos os outros menos os “amigos”) estão pior que nós. Sendo que o normal é levar com as desgraças em cima. Aí, tem-se pena.

Ah, adoro estas generalizações. É tudo mentira, não é? ok.

E nesta questão da desgraça, o país tornou-se num esquema de pirâmide: a sujeira estes dias democratizou-se, vai do mais baixo ao mais alto nível da sociedade.

Voltando ao rádio, o tema que gostava de fechar aqui. De há uns meses para cá, nas vezes quando me deu para escutar a tal de TSF, comecei a reparar em três coisas.

A primeira, foi que começaram a passar música portuguesa com uma frequência suspeita. Ao princípio pensei que se tinham enganado, que tinham posto a senhora da limpeza a tomar conta da estação, ou que tinham ficado estúpidos e não tinham reparado no ecletismo das suas audiências. Em Alcoentre toda a gente sabe que o que vende é música pimba, fados e a as canções da Ágata a chorar o milésimo desgosto de amor sobre o homem da vida dela que (para variar) se pirou pela vigésima vez com a empregada ucraniana. Em Cascais e Lisboa já não é bem assim. Ainda por cima, as músicas que tocam, que são medíocres quase sem excepção, são de gente que não conheço, cujo estilo não gosto e cujas mensagens nada me dizem.

A segunda coisa que reparei, e que me deixou ainda mais apreensivo, foi que, mesmo quando mudava de estação, acontecia o mesmo, ou seja, levava com uma espécie de música pimba de vanguarda, e habitualmente a mesma que estava a dar na TSF.

A terceira, e de longe a mais desconcertante, foi quando me apercebi que, juntamente com a música pimba de vanguarda portuguesa, começaram a juntar-lhe a mesma gente, mas desta vez ou a tocar em ou em inglês, ou ainda mais surpreendemente, começaram a passar músicas americanas e inglesas, tocadas em inglês, mas por portugueses (!).

Não sei como explicar ao exmo leitor o que é ouvir o these boots are made for walking (a grande canção de Nancy Sinatra, sff de ver em cima) cantados vinte vezes na TSF, pela actriz Maria de Medeiros, irmã da agora deputada socialista residente em Paris e que vem a Lisboa de vez em quando receber o taco e atender as sessões do parlamento. Ou as baladas britânicas do jovem David Fonseca, simpático e esforçado mas para mim uma versão cultural do que é o milho transgénico para a alimentação.

Pois só a noite passada é que esclareci este mistério. Afinal eu não estava a alucinar. É que os poderes constituídos aqui do burgo, em 2006, passaram uma lei qualquer a obrigar as estações de rádio portuguesa a passar 25 a 40 por cento da música que vai para o ar por….. leia-se (decalco de uma peça da RTP):

A lei da Rádio determina que as rádios estão sujeitas ao cumprimento de quotas no que respeita à programação de música portuguesa, que uma portaria de Abril de 2007 fixou em 25 por cento.

O cálculo das percentagens é apurado mensalmente e tem como base o número de composições difundidas por serviço de programas no mês anterior.

A lei estabelece ainda que 60% da emissão de música nacional deve ser preenchida por música composta ou interpretada em língua portuguesa por cidadãos dos Estados membros da União Europeia.

A lei prevê o pagamento de coimas entre os 3 e os 15 mil euros para as estações locais e entre 30 e 50 mil euros nas estações nacionais.

Quando eu vivia fora de Portugal, achava alguma piada e respeitava o facto de que as estações que emitiam para as comunidades portuguesas, quase só passavam fados, música pimba e aqueles clássicos do tempo da Maria Cachucha. Pois era aquilo ou o vasto mar estrangeiro que nos rodeava. Agora, que se tenha importado o costume e que se tenha dele feito lei em Portugal é que foi novidade. Ou seja, em vez dos artistas daqui competirem honestamente pelo privilégio de me tentarem impingir a sua arte, o governo da república socialista portuguesa espeta-nos como uma espécie de IVA cultural em cima e somos obrigados a comer o que nos servem.

Mas como gente como eu não aguenta aquilo, e usando as regras impostas, inventou a música estrangeira, cantada em língua inglesa, por portugueses.

Já não bastava a porcaria do acordo ortográfico e os subsídios aos famosos filmes nacionais que rigorosamente ninguém vê. Esta liberdade socratiana está-se a revelar um verdadeiro assombro cultural.

Felizmente, há a minha teimosia em fazer o que me apetece e a tecnologia. Imitei o que qualquer teenager português hoje faz sem sequer pensar. Por cinco euros e 99 cêntimos, recentemente comprei uma espécie duma cassete com um fiozinho, que liga o meu velho rádio a um aparelhinho que cá se chama um MP3 (mas que na realidade é um MP4), onde gravei na internet não sei quantos gigabytes de: Sinatra, Nat King Cole, Chico Buarque, Óscar Peterson, Walter Wonderley, The Beatles, Mozart, etc etc etc. Até lá tenho o Poker Face da Lady Gágá.

E agora, quando acabam as notícias da TSF no meu carro, a programação passou a ser a minha. Em casa, pela internet e o computador, oiço a LM Radio a partir de Maputo.

Isto antes que eu comece a ouvir a Maria de Medeiros a arranhar o My Way do Frank numa estação portuguesa.

Bie, bie, TSF.

Manias

Ter a mania dos justos, por exemplo, e embora eu opte pelos justos, pode ser fanatismo tão violento como a paixão pelos violentos.” (Rui Cinatti, “O Signo Marcado“, 1967, em “Manhã Imensa“, Assírio & Alvim, 1997 [1984], p. 61)

jpt

SOBRE MÁRIO CRESPO

por ABM (Alcoentre, aos 3 de Fevereiro de 2010)

Mário Crespo, o único anchor a sério de uma cadeia de televisão que existe em Portugal em 2010 (made in Moçambique, ao contrário do outro, que é bom mas nada que se compare) escreveu um artigo de opinião muito sério que um jornal da cidade do Porto se recusou a publicar, pelo que ele saiu num obscuríssimo canto duma obscura fundação por obscura razão. Parece-me que o  jornal do Porto perdeu um furo dos antigos. Vá-se lá entender.

O que ele escreveu:

Terça-feira dia 26 de Janeiro. Dia de Orçamento. O Primeiro-ministro José Sócrates, o Ministro de Estado Pedro Silva Pereira, o Ministro de Assuntos Parlamentares, Jorge Lacão e um executivo de televisão encontraram-se à hora do almoço no restaurante de um hotel em Lisboa. Fui o epicentro da parte mais colérica de uma conversa claramente ouvida nas mesas em redor. Sem fazerem recato, fui publicamente referenciado como sendo mentalmente débil (“um louco”) a necessitar de (“ir para o manicómio”). Fui descrito como “um profissional impreparado”. Que injustiça. Eu, que dei aulas na Independente. A defunta alma mater de tanto saber em Portugal. Definiram-me como “um problema” que teria que ter “solução”. Houve, no restaurante, quem ficasse incomodado com a conversa e me tivesse feito chegar um registo. É fidedigno. Confirmei-o. Uma das minhas fontes para o aval da legitimidade do episódio comentou (por escrito): “(…) o PM tem qualidades e defeitos, entre os quais se inclui uma certa dificuldade para conviver com o jornalismo livre (…)”. É banal um jornalista cair no desagrado do poder. Há um grau de adversariedade que é essencial para fazer funcionar o sistema de colheita, retrato e análise da informação que circula num Estado. Sem essa dialéctica só há monólogos. Sem esse confronto só há Yes-Men cabeceando em redor de líderes do momento dizendo yes-coisas, seja qual for o absurdo que sejam chamados a validar. Sem contraditório os líderes ficam sem saber quem são, no meio das realidades construídas pelos bajuladores pagos. Isto é mau para qualquer sociedade. Em sociedades saudáveis os contraditórios são tidos em conta. Executivos saudáveis procuram-nos e distanciam-se dos executores acríticos venerandos e obrigados. Nas comunidades insalubres e nas lideranças decadentes os contraditórios são considerados ofensas, ultrajes e produtos de demência. Os críticos passam a ser “um problema” que exige “solução”. Portugal, com José Sócrates, Pedro Silva Pereira, Jorge Lacão e com o executivo de TV que os ouviu sem contraditar, tornou-se numa sociedade insalubre. Em 2010 o Primeiro-ministro já não tem tantos “problemas” nos media como tinha em 2009. O “problema” Manuela Moura Guedes desapareceu. O problema José Eduardo Moniz foi “solucionado”. O Jornal de Sexta da TVI passou a ser um jornal à sexta-feira e deixou de ser “um problema”. Foi-se o “problema” que era o Director do Público. Agora, que o “problema” Marcelo Rebelo de Sousa começou a ser resolvido na RTP, o Primeiro Ministro de Portugal, o Ministro de Estado e o Ministro dos Assuntos Parlamentares que tem a tutela da comunicação social abordam com um experiente executivo de TV, em dia de Orçamento, mais “um problema que tem que ser solucionado”. Eu. Que pervertido sentido de Estado. Que perigosa palhaçada.

O que eu acho que Mário Crespo na verdade queria dizer em vez do que escreveu em cima (ou complementarmente):



Eu sei como é.

White Trash

Foto 5 de Roger Ballen - Dresie e Casie, irmãos gémeos, Transvaal Ocidental, 1993

Foto 5 de Roger Ballen - Dresie e Casie, irmãos gémeos, Transvaal Ocidental, 1993

por ABM (Cascais, 4 de Janeiro de 2010)

Ora hoje começa a semana, o ano e a década.

O estatuto de membro do Maschamba tem as suas (poucas) benesses. Assim, generosamente, o JPT enriqueceu a minha mais do que dúbia colecção bibliográfica, oferecendo-me a semana passada um livrinho de fotografias tiradas por Roger Ballen, aparentemente mais uma celebridade de quem, na minha usual e algo indiferente ignorância, nunca tinha ouvido falar. “Afenal”, ele até tem um canto na internet e uma fundação (uma fundação?).

Para além da arte, da qualidade e do estilo, Ballen, que supostamente vive na África do Sul há muitos anos, teve a iniciativa de ter saído algumas vezes do seu indubitavelmente requintado atelier em Joanesburgo até à África do Sul “profunda”, para tirar umas fotografiazitas a alguns dos brancos mais feios que eu já vi na minha vida – aquilo a que nos Estados Unidos se chama normalmente white trash.

O livrinho ofertado pelo Senador JPT tem 64 fotografias, a esmagadora maioria delas sobre o supracitado tema (edição Photo Poche Societé da Natahan, 1997), qual delas a mais assustadora – de uma forma mais ou menos simpática, em que se vislumbra a beleza do feio – e que, presume-se, desafia alguns dos conceitos convencionados sobre os cidadãos brancos daquele país vizinho de Moçambique, que para o observador casual invariavelmente parecem ser estupidamente ricos, estupidamente bonitos e estupidamente bem apetrechados com Porsches, BMW’s, barcos a motor para levarem para a Ponta do Ouro, Inhambane e Xai-Xai e casas de sonho.

Os tais que quando vêm a Moçambique dizem, em inglês, desconcertantemente para o local, I am coming to Africa.

Até 2000, apesar da proximidade geográfica e de quatro dos meus irmãos terem estudado em Nelspruit, Sabié e Belfast, antes da independência apenas estive lá uma manhã, em 1968 (só me lembro da secção dos rebuçados e dos chocolates do OK Bazar) e mais uma semana, em 1984, quando, um nadinha mais desperto para a vida, passei lá uma semana antes de visitar Moçambique pela primeira vez depois da Independência.

Dessa segunda vez, já meio americanizado, fazia algumas perguntas indiscretas aos brancos com quem contactei, que manifestamente não estavam lá muito confortáveis com a situação mas que repetidamente me diziam oh, but we love our blacks! Boa sorte, desejei-lhes eu a todos, de todas as cores, e meti-me de volta no avião para Nova Iorque.

Em 2001, temporariamente a residir em Maputo e após ter feito a descoberta de que se se for de carro directo de Maputo pela estrada N4 na direcção Oeste, se vai dar a Pretória e a Joanesburgo, um dia pus-me à estrada para visitar a casa, no centro de Pretória, onde vivera o incontornável Paul Kruger, presidente do Transvaal entre 1880 e 1900, quando se pirou para a Europa via Lourenço Marques, após o exército inglês ter invadido a sua capital.

Curiosamente, Kruger hoje é recordado pelo (para mim, insípido) facto do seu nome adornar o parque animal que fica na fronteira com Moçambique, um estratagema de charme então congeminado pelo verdadeiro fundador do parque há uns cem anos, um pouco como se fez com a Guebuza Square naquele centro comercial indescritível na baixa de Maputo.

Ao entrar de carro em Pretória, prontamente me perdi e andei às voltas até que à direita duma rua vi o que me pareceu um centro comercial numa área que obviamente era um reduto africaner na cidade. Fui lá para comprar uma Coca-Cola e pedir direcções para a casa de Kruger. Ao estacionar o carro no parque, veio um boer, obviamente muito pobre, mas muito sério e profissional, com um vago ar de agente da Pide, pedir-me dinheiro (em Afrikaans) para guardar o carro.

Dentro do centro comercial, que tinha um ar meio delapidado mas limpo, mais brancos pobres a pedir esmola. Ali dentro só se falava afrikaans (para informação do exmo leitor, eu só sei dizer cac, boerewors e dankie em afrikaans). Na caixa à minha frente estava um casal de boers de idade, obviamente reformados e pouco abonados, a fazer as contas para pagar meia dúzia de coisas para comer (não tinham o dinheiro suficiente e um pacote de manteiga teve que ficar para trás).

Claramente, aquilo para mim, que não conhecia lá muito bem a África do Sul, foi, posso dizer agora, um “momento Roger Ballen”.

Aliás, foi mais do que isso. É que em tempos, na universidade Brown e sob a tutela magistral do meu velho e querido professor de ciência política, Newell Maynard Stultz (então casado com uma sul-africana branca) estudei algumas coisas sobre a evolução do sistema político sul-africano – o que se publicava então (e aqui está uma crítica a um dos seus livros).

E um dos elementos fortes do que nos anos 30 e 40 do século passado se passou teve que ver, para além daquela vaga mania de que Deus lhes tinha dado a África do Sul em testamento e do eterno amor-ódio entre os boers e os sul-africanos de extracção britânica, de um quase prodigioso esforço de educação, de urbanização e de apoio, entre os próprios boers, que em parte explica (minha óptica) muitas das barbaridades que mais tarde se tornaram peças fundamentais do apartheid. Pois até aos anos 40, com a excepção da comunidade boer do Cabo, a maioria dos boers era pobre, analfabeta e rural – tal e qual a quase totalidade da população negra naquele país naquela altura. Portanto parte do apartheid tinha por fim descriminar em favor desses boers pobres, rurais e analfabetos.

Contra quem, dou um rebuçado se o exmo. leitor descobrir.

Mas obviamente e naturalmente e ainda assim muitos ficaram pelo caminho, agravado pela mudança de regime e as sucessivas tentativas da Nova África do Sul de reverter décadas de privilégio e de colocar a população negra sul-africana, senão no centro das atenções dos poderes, pelo menos em pé de igualdade – com os ocasionais exageros da praxe.

Um desses episódios de algum exagero ocorreu em Novembro do ano passado, quando o segundo maior banco sul-africano – o Primeiro Banco Nacional – publicou na sua revista interna que a instituição iria disponibilizar bolsas de estudo aos filhos de todos seus empregados cujos rendimentos anuais fossem inferiores a cem mil randes (isso dá 8.333 randes por mês).

Excepto – literalmente – se eles fossem brancos.

Ou seja, na incompreensível complexidade do actual paradigma sul africano, as bolsas eram exclusivamente destinadas aos filhos dos funcionários “pretos”, definidos algures na lei como descendentes de africanos com a pele total ou parcialmente negra, indianos e chineses.

Uns dias depois a história estoirou nas primeiras páginas dos jornais sul-africanos e um sindicato sul africano acusou os seus responsáveis de serem racistas, mas agora contra os brancos.

O banco, pouco habituado a este tipo de controvérsias, lá teve que fazer um rápido passodoble de relações públicas, seguido de uma espécie de marcha-atrás meio repolhuda, com o seu CEO a tentar explicar que aquilo afinal correspondia ao que a actual lei exigia mas que, enfim, eles iam ver se era mesmo assim e se pudessem também dariam uma ajudinha aos filhos brancos dos seus empregados brancos que ganhavam menos que 8333 randes por mês.

Entretanto, algumas pessoas (do que vi maioritariamente brancas e com nomes que me parecem boers) até formaram um grupo no Fêicebúke para destilar o seu veneno.

O ponto da questão aqui volta a ser o do branco sul-africano pobre. Dantes descaradamente protegido e promovido pelo sistema, mas agora, talvez precisamente em memória do que aconteceu antes, deliberadamente descriminado, até ao detalhe de o segundo maior banco do país publicamente adoptar a política de negar bolsas de estudo aos filhos dos empregados brancos que auferem menos, apenas por os seus pais serem brancos.

Acho que, da maneira como as coisas andam, o Senhor Roger Ballen vai ter matéria abundante para as suas fotografias por mais uns anos.

Ademais, o ANC tem o azar de não ter sítio para lhes fazer uns 24/20.

(N)A “Pátria Amada”

  • Lisboa

1. Inverno. Um calor de estalagmites.

Dizer

2. Crise. Qualquer emigrado português sabe que ir à “terra” é para ouvir os constantes lamentos dos amigos, da família, dos populares, com a “crise”, e etc. e tal. Mais agora, com a desgraça internacional a repercutir-se nos dois milhões de portugueses abaixo do limiar da pobreza, mais de dez por cento de desempregados, o país sem luz ao fundo do tunel, sem projecto.  E depois … basta ver o potlatch radical dos últimos dias antes do tal solstício dito Natal! Basta perguntar no talho, no café (o bolo-rei), na livraria, na loja de brinquedos, nos restaurantes e afins, etc e tal vinícolas e isso, o obrigatório “então, e este ano como vai?”. Crise? Já lá vai, que “estamos melhor que o ano passado”. Crise? Como crise se a felicidade está ali mesmo, nos balcões dos chópings? E tudo segue, no dia 26 abrem os saldos e as multidões reiniciam o seu caminho de cigarras. O vazio (versão portuguesa do conradiano “horror”).

[Fotografia de inscrição ao Teatro Politeama, Lisboa, Dezembro 2009]

avc

3. A gula. Crise? E é um “trocadilho” fácil, o com esta campanha de época, o tome atenção aos AVCs que encheu os painéis das cidades. Crise? Só se for a da gula, essa motriz dos AVCs. No fundo o símbolo da Europa Ocidental, obesa, no seu estertor. As causas? Exactamente a tal falta de visão, de preocupação. De razão. Tudo isso do a cada um o seu sapatinho, e nada mais … Aliás, a cada um o seu sapatão.

paulo duarte

4. Paulo Duarte, afirma-se de origens humildes, foi um futebolista modesto e não enriqueceu, é agora o seleccionador do Burkina-Faso. Deu uma entrevista ao jornal Record. Interessantíssima, muito para além do patois futeboleiro habitual. De como olha o país africano para onde, surpreendentemente, foi trabalhar há já dois anos. E de como reconhece que para preconceitos era ele que os carregava ao início. Mas mais do que isso, também ele de longe a re-olhar os seus patrícios: “Se as queixas, por isto ou por aquilo, fossem modalidade olímpica, os portugueses estariam cobertos de ouro. Somos muito assim. Completamente. As dificuldades da vida são muitas, para toda a gente, mas há coisas que não podemos esquecer: a maior parte dos portugueses que vive mal tem uma casa, duas televisões, um vídeo, dois telemóveis, dois carros, um emprego, mal remunerado mas temos, tem água, tem luz, tem gás, tem comida na mesa, tem roupas adequadas ao clima. Com maior ou menor dificuldade, chegue o dinheiro ou não ao fim do mês, tem isso tudo“. Sei que é muito fácil apupar este tipo de visão. Mas seria conveniente que os habitantes de um país que não produz o que tanto consome pensassem um pouco no facto de que a sua ladaínha lamurienta não encanta (enfeitiça) os que de longe os assistem. Fica o meu desejo das maiores felicidades a Paulo Duarte, homem a pensar. Força Burkina-Faso!

pai natal

5. Quadra natalícia: Eu também! Pois se o mito sublinha o amor transposto para o espírito de dádiva neste emigrante o real é a volúpia da posse, sacos de auto-prendas esquecendo-me dos “entes queridos”, esvaziando-me o porta-moedas extinto que foi, e já em tempos, o cartão de crédito, malfeitoria ocidental. Malditas livrarias ….

stuyvesant logo

6. Saúde. Viver em flat e enfrentar tantas proibições tabagísticas em locais públicos: assim a fumar bem menos.

Corcunda de notre dame

7. Oferta infantil. Uma enorme oferta de espectáculos e actividades infantis. Gloriosa. Diz quem sabe que este Corcunda de Notre Dame foi do melhor que já viu, e já viu várias coisas.

asterix

8. Cultura. Na revista “Os Meus Livros” (nº 82, ano 7, 12.2009) a coluna “Caldeirada de Letras” (p. 52) contém um acertado texto da autoria de Luís Graça: “Astérix Ortografix“. A propósito da edição do “O Aniversário de Astérix e Obélix, o Livro de Ouro” (fraquinho, já agora) uma crítica as  novas traduções dos nomes das personagens, um incompetente ataque à tradição asterixiana. (Algo que em tempos já aqui referi).

Artis

9. Surpresa. Encontro o Bartis (ok, o Bar Artis) reaberto. Um ícone do Bairro Alto, ali à Diário de Notícias, agora com nova gerência (propriedade dos donos do velho restaurante “Sinal Vermelho”), a vender apenas produtos portugueses (quer um whisky, um gin, um vodka? Beba aguardentes vinícolas – aprecio o acto). Mas mais do que isso – e ainda que lamentando isso do balcão estar agora ao fundo da sala – de louvar a reabertura de um local biográfico. Mesmo que já sem o seu velho proprietário, o célebre Mário, e – aí sim, lamentavelmente – desprovido da lendária Paula, rutilante alma. Mas está lá o Bartis ….

onesimo marx e darwin

10. Inteligência: a primeira auto-prenda, logo no dia da chegada, este “De Marx a Darwin. A Desconfiança das Ideologias” (Gradiva, 2009), um para mim desconhecido livro de Onésimo Teotónio Almeida. O autor é um homem inteligente, o livro idem. Uma delícia, sobre paradigmas cientificos, suas características e limites, e ainda da hipotética relação da ciência com a religião, da ética com a lei. Para mais muitíssimo acessível (efeitos da tal inteligência). Deixo uma citação. Que é letal para alguns meio lusos, e não é preciso recuar ao guterrismo: “Nem tudo na ética está codificado na lei, a lei civil é apenas a imposição da obrigatoriedade de uma ética mínima para o funcionamento das sociedades. Mas se a ética transcende a lei, e por vezes choca com ela, ambas têm os mesmos alicerces. Os debates legais resultam de confrontos entre valores éticos, de combates morais, e nem todos conseguem reunir consensos que se traduzem no estabelecimento de normas legais (ou, pura e simplesmente, de leis sancionadas pelos tribunais e pelas forças do Estado que velam pelo seu cumprimento), contudo muitos valores morais não precisam de ser codificados em lei. Há normas éticas aceites pela maioria que nunca foram consignadas em nenhuma legislação. Os ventos da história e o rumo de cada cultura acaba conseguindo para esta ou aquela norma ética um estatuto legal. Mas nunca a lei cobre todo o domínio da ética, até porque nela, a ética, há um mínimo que suporta legislação (o domínio do dever), porém existe um outro bem mais vasto, o da virtude – a arethé grega – que não poderá nunca ser legislado.” (125)

sporting logo

11. Drama. Rui Santos sobre o Sporting. O jornalista em causa capta pouca adesão – como o prova o baixo número de subscritores das suas incessantes petições informáticas, abundamentemente publicitadas em inúmeras horas televisivas (basta compará-las com as petições lançadas in-blog para comprovar essa sua fragilidade). No entanto a sua denúncia sobre a destruição do Sporting Clube de Portugal por parte do núcleo socioeconómico, em tempos albergado sob o epíteto “Projecto Roquette”, é inultrapassável. E de registar pois estabelecida em jornal de grande divulgação. E, por extrapolação, diz muito sobre o Portugal de hoje, esse da cega aceitação de auto-anunciadas elites sublinhada pela “falta de alternativas”.

fnac

12. Capitalismo. A edição portuguesa está pelas “ruas da amargura”. Sob a tutela dos interesses comerciais, de grupos editoriais desligados da cultura (e, porque multinacionais, do contexto nacional). E esmagada pela pressão oligopolista dos grandes potentados livreiros, também eles apenas virados ao lucro. Assim se apaga a hipótese da edição ensaística e apenas subsiste a chamada “literatura leve”, a capa brilhante, o conteúdo inexistente, a forma “plana” – em particular expressa nos registos da “exo-ajuda” e do chamado “romance histórico”.

Prova dessa superficialização produzida nas grandes superfícies encontro-a na FNAC do Chiado, chego à secção dos livros e deparo-me com o primeiro escaparate – aquele que me recebe e me despedirá, dentro de algum tempo, portanto o que mais apelará à aquisição. Uma das faces para a literatura nacional (prosa) considerada relevante (os peixotos, cachapas, saramagos, lobos antunes, tordos e torgas e isso). A outra face de prosa estrangeira, e não resisti a transcrevê-la, para aqui comprovar o “estado da arte” a que se chegou, do esmagamento cultural por via do comércio (do capitalismo, por assim dizer). São 18 colunas, cada qual com quatro livros, novas edições (traduções) ou recentes reedições. Por mim recenseadas, como denúncia. Apresento apenas os autores, para economia de ma-schamba. Eis então o painel do escaparate melhor situado:

1. Bernhard; Bernhard; Mishima; Mishima. 2. Beckett; Walser; Walser; Mme Lafayette. 3. Hesse; Hesse; Jane Austen; Jane Austen. 4. Hemingway, Dumas, Diderot, Dickens. 5. Iris Murdoch, Iris Murdoch, Rilke, Colette. 6. Susan Sontag, V. Wolff, V. Wolff, Lampedusa. 7. Thoreau, Flannery O’Connor, Orwell, Orwell. 8. Maugham, Mann, Beckett, Mailer. 9. Daphne du Maurier, Céline, Saint-Exupery, Walty. 10. Flaubert, Yourcenar, Yourcenar, Hsek (?). 11. Kafka (X4). 12. Aitmatov, Kafka (X3). 13. Jack London, Boris Vian, Victor Hugo, Lautréamont. 14. Proust, Proust, Calvino, Calvino. 15. Calvino (X4). 16. Calvino, Pasternak ,Turgueneev, Gogol. 17. Tolstoi, Zweig, Svevo, Bulgakov. 18. Dostoievski, Dostoievski, Lidmila Ulitsvaia (?, será assim?, não conheço), E. Waugh.

Lastimável. Esta prática comercial, esta subjugação editorial. O primado da mediocridade. Efeitos, necessários entenda-se, do capitalismo. Vil.

Charme Discreto da Burguesia 2

13. O Charme Discreto da Burguesia. Olivais-Sul, Lisboa, Dezembro de 2009.

Ler Dezembro 2009

14. Império. A Ler (nº 86, Dezembro de 2009), coluna “Booktailoring”, de Paulo Ferreira e Nuno Seabra Lopes. Procurando um registo cómico em futebolês (o dia em que os humoristas escreverem em raguebês ou golfês será bem arejado…) o texto ”Um jogo entre linhas“ que aponta os “jogadores mais influentes do mercado editorial português em 2009“. Não vou discutir os critérios. Apenas o eco da minha reacção: “tenho que ter cuidado, pareço da patrulha ideológica“, resmungo-me. Pois na “selecção nacional” deles lá estão o Agualusa e o Mia Couto. Sim, eu sei que na selecção de futebol estão o Liedson, o Pepe e o Deco. Mas nesta, na literária, não há brasileiros. É, na cabeça dos humoristas, uma selecção portuguesa de Portugal, mas afinal uma transpiração da pobre lusofonia. Ou seja, e isto muito para além dos escritores em causa, da cabeça dos humoristas ninguém retira(ou) o Império. Nem na Ler… Absurdo. Mas um absurdo sintomático.

jornal i

15. O jornal I é o melhor jornal nas bancas. Já no Verão passado me parecera tal. Agora confirmam-me tal alguns amigos. Alguns até acompanham a opinião com um “é de direita mas …”. Mas digo eu, que o vejo sem publicidade e oferecido nas bombas da Galp. Mau sinal? A ver se se aguenta …

Jose Cutileiro Bilhetes de Colares

16. Delícia. Inúmeras bancas de livros em saldo (aliás, monos), um “apelo às dádivas”. Nelas sempre se encontram exemplares desta bela colecção “Horas Extraordinárias” que o Independente foi publicando há alguns anos. Cada vez que em Lisboa lá carrego alguns. Agora é a vez (a 2,5 euros, imagine-se) de adquirir este saborosíssimo “Bilhetes de Colares de A.B. Kotter (1993-1998)“, “porventura” de José Cutileiro. Obrigatório regressar a esta Quinta da Beldroega, sita na Várzea de Colares, seus habitantes e visitantes, ponto máximo de observação deste país. Pelo olhar-mestre do Senhor Doutor Kotter, traduzido pelo ex-comando J. Fonseca, fiel à máxima de que “Como a leitora sabe, eu nunca me imiscuo na política deste maravilhoso país que tão generosamente me acolhe no seu seio. Não cabe a um estrangeiro fazê-lo; menos ainda a um estrangeiro sem razões de queixa.” (66). Ainda que com ele se possa discordar, por vezes, como aqui: “Já tentei explicar-lhe que o snobismo não é tão mau como parece porque, vistas bem as coisas, sempre é o contrário da inveja…”. Discordância que, se seguida, levaria por caminhos muito diversos. Mas mais do que a justificar a corrida aos monos…

fontes pereira de melo

17. Política. Nenhum dos meus amigos – desses que cada vez menos encontro -, nenhum dos meus familiares, nenhum dos teclistas lidos in illo tempore, enfim nenhum desses que tanto vituperaram (vituperámos) o “fontismo” cansado, travestido de “desenvolvimento”, do primeiro-ministro Cavaco Silva tem agora uma palavra irritada contra o proto-fontismo de José Socrates. Mas para quê falar, se é para falar encastrado?

Amalia

18. Jonhy Lyndon (ex-Rotten). Amália. Coração Independente (no CCB). Não sou um amaliano, ainda que nela possa actualizar (reconheço, até acabrunhado) a expressão “de ir às lágrimas”. Pois ainda que não o seja (amaliano) saí preenchido da exposição. Para logo quem ali a meu lado me iluminar, como sempre na vida, num até desdenhoso “não aprendi nada”. E é isso, saio do amalianismo (no meu caso amador) e constato, a exposição não é um diálogo com Amália, é uma missa (certo, a haver divindade que seja ela), apenas uma missa. Ela adoraria. Mas está morta, não haverá outra forma de ser olhada?

Depois o tal diálogo com a mulher, a personagem, a artista, o mito  -  que se pretenderia? –  é atirado para um “posfácio”, de arte contemporânea. Nesse pacote, mas que assim surge externo, in-dialogante, um bailado (Ana Rito) muito interessante, a peça de Joana Vasconcelos também. E uma instalação visual óptima de Bruno de Almeida. Mas mesclado com coisas-obras a parecerem  modismo para “espantar a classe média baixa”. Francamente, não há paciência para quem atira um xaile para o chão e diz “arte!”. Olhar um cilindro branco com espelho atrás, “um artista (Amália) solitário no palco”. Em 2009? Ali tanta ruptura, tanta inovação como o busto realista atrás apresentado (Joaquim Valente), coisa de meados de XX, que foi muito ao gosto da representada. Honestamente uma desilusão. Pelo auto-centramento da exposição, que se pretende encantória. E pela tralha avulsa que se lhe colou à maneira de olhar actual – com as excepções referidas. Sempre me convenço que o epíteto “contemporâneo” faz eclipsar o espírito crítico, analítico. Cilindros brancos, mesas luz com banheiras coloridas, peças atiradas no chão. Hoje?

Coisas que sempre me fazem lembrar aquela entrevista do Jonhy Lyndon (ainda Rotten?) ao Philippe Manoeuvre, publicada na Rock & Folk cerca de 1982. Dizia o Rotten: “ser punk em 1980 é igual a ser hippie em 1976″… Xailes no chão?!

sahara ocidental

19. Sahara Ocidental. Uma militante esteve em greve de fome defendendo a causa do Sahara Ocidental, protestando contra a ocupação marroquina. A representação diplomática de Rabat em Lisboa concedeu uma entrevista ao jornal “i”, anunciando que Marrocos é “o polícia da Europa”. O silêncio europeu face à ocupação colonial do Sahara Ocidental passa por esta “política real”. Confesso que nada sei sobre a situação efectiva na região (no país, por outras palavras), acredito até que o terrível fundamentalismo “alqaediano” seja um papão agitado por Marrocos para colher o apoio à sua velha expansão – como os leitores saberão ninguém falava de Al Qaeda e muito poucos falavam de “fundamentalismo”/”integrismo” islâmico quando Marrocos  procedeu à ilegal anexação daquele território. Ou o seu inverso.

Mas enfim, são contas do difícil e imbrincado rosário da história. A mim interessa-me a reacção em Portugal. Nos jornais e na TV, nas conversas, ninguém ecoa a posição do Estado - o qual desde o governo Socrates assumiu a posição mais próxima da política colonial marroquino. É óbvio que o “distante” assunto a ninguém interessará, Marrocos está nos confins, parece-me até antípoda. À esquerda ninguém diz nada, nem mesmo o BE, onde Marrocos será quanto muito o locus de umas ganzas a legalizar, que isso dos princípios é uma canseira. O PCP silencia, mas é óbvio: para um partido sempre ao lado dos poderes coloniais e dos regimes monárquicos não se deveria esperar uma interrogação sobre a política diplomática portuguesa nesta questão. Ninguém questiona a questão. O fait-divers da senhora à fome acabou, entretanto o escritor José Saramago foi lá apoiar (à revelia do seu partido, à revelia de António Costa, o socialista de quem é apoiante) porque é uma ”causa justa” e pronto. Aliás, prontos …

20. Excelência. No canal Mezzo (que pena não haver em Maputo) um fantástico programa sobre Rafael Campallo, bailarino que desconhecia. Grande, grande …

Liceu Camões

21. O Antigo Regime. O álbum, merecido, celebrando o centenário da Escola Secundária de Camões (ex-Liceu Camões). Ainda que me arrepie sempre que ouço loas ao dito liceu (apesar dele próprio). Que é sempre agitado como se ícone dos “bons tempos” em que havia cultura, e educação que a sustentasse e reproduzisse, em Portugal. Ou seja, antes do povo estudar e, até, gerar professores. Tudo isso em discursos de ”progressistas”, até gente oposicionista germinada no velho Liceu – mas que verdade, verdadinha, suspira por trechos do dr. Salazar, em particular aquele de que ao povo basta ensinar a contar e a assinar. Quebrado isso ficámos como estamos. Que “eles” até a “doutores” vão.

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22. A desistência. Visito, acompanhando uma ínclita comitiva, a exposição do fotógrafo Korda. Celebrizado pela iconográfica fotografia de Ernesto Guevara, de sua autoria. Muito interessante, pelo que demonstra da produção do culto de personalidade do ditador comunista Fidel Castro, do qual Korda foi acompanhante durante a década de 1960s. Fantástica a sua entrevista, a forma como glorifica o próprio Ernesto Guevara, um absoluto contrasenso (assista-se às suas declarações, elogiando a “punição” que Guevara lhe fez).

Korda6Korda5 Mão de Fidel

Fidel Castro como ícone, até bíblico. A mão na terra produtiva, a pegada de Fidel, o seu “gigantismo”. A sua beleza sensual. Fascinante, como interpretável. Como produto e produtor de fascínio.

Korda1 - mulheres

Certo que se Korda fosse eslavo ou han teria tido problemas, acusações de “cosmopolitismo” (como aventou um amigo meu) não lhe faltariam. Basta ver esta fotografia, onde duas presumíveis beldades, até lânguidas, escutam no escuro as palavras solarengas do comandante, deixando imaginar outras prédicas, mais íntimas. Coisas deste discurso construtor do “fidelismo”, de Fidel Castro, muito dadas ao tom local, mas também à específica característica de Korda.

Mas para além dos seus méritos estéticos e jornalísticos surpreende que esta exposição, demonstrativa da arte glorificadora de Korda, que surge sob tutela da também estatal Casa da América Latina num espaço também estatal (Cordoaria Nacional), seja apresentada sem qualquer contextualização distanciada, sem referência enquadradora. Nada nos textos que a acompanham, talvez (mas desconfio que não) no catálogo – que muito presumivelmente será apenas encomiástico. Espantosa desistência. Dias passados comento esta minha estranheza numa mesa polvilhada de académicos, a nenhum pareceu estranha tamanha distracção “fidelista”, obviamente significante. Nem mesmo quando lhes disse ser Korda um pouco a Leni Riefenstahl do regime cubano, ou que diante de qualquer produtor de mitos e ícones se presume criar distância cognitiva, não apenas fascínio e adesão – coisas que tão bem “sabem” para outros casos. Um simpaticíssimo alto quadro do ministério da Cultura, ali entre variados acepipes, rematou que “a exposição é daquelas que se recebem”. E pronto! Desistência, pura e simples. E a gente assiste.

gravata

23. A gravata. Penso que foi no jornal “Sol”, uma pequena nota irónica sobre Francisco Louçã. Que o coordenador do BE aportara no parlamento usando gravata, ao contrário do seu significante traje político, esse que reclama dessassombro (e, claro, posição de classe). Para logo nos “sossegar”, afinal era apenas o dia em que o deputado cumpria provas públicas académicas e nesse campo fazia questão de cumprir as normas de vestuário. Passa tudo num sorriso, as pessoas dirão que é do espectro das decisões pessoais, etc. Mas este pequeno episódio, o respeito pela gravatinha no seio da corporação profissional ao invés da liberdade encenada no traje política, este pequeno episódio mostra bem a hipocrisia do senhor professor. O corporativismo fala mais alto, em maquilhagem de pequena-burguesia.

Escaparate

24. O escritor de escaparate. Já no pós-Natal mas ainda a caminho de mais uma comensalidade pantagruélica. No rádio do carro, enquanto subimos ali em Monsanto, capta-se uma conversa com escritor – desses que está em todos os escaparates natalícios, diga-se. Diz ele, face a pergunta da radiofónica voz: “a literatura é o que tem que ser!”. Abismado com tanta profundidade aumento um pouco o volume, para ouvir no que aquilo irá dar, e logo ouço mais uma pergunta “V. disse no seu blog que a literatura portuguesa não é apoiada pelas livrarias. Que vontade de escrever isso lhe dá?”, ao que responde o escritor, voz arrastada, sofrida, ”Nenhuma“. A meu lado, enfastiada, a senhora pergunta-me “queres ouvir isto?” e eu, mais assim como eu, logo riposto: “tira essa merda!”.

Rolling-Stones-Let-It-Bleed

25. Envelhecimento. Ligo o carro e na rádio reconheço os acordes da “Fanfarra para um homem comum” e logo surge a  “You can’t always get what you want” dos Stones. Elevo, e bem, o som e segue a canção-ícone, rock-barro da minha gente. Acto contínuo a bela rapariga a meu lado põe-me na boca …. uma castanha assada.

coppola tetro

26. Tetro, de Coppola, é um soberbo, lindíssimo, filme sobre Buenos Aires. Fantástico. A história é um pastel, a deriva patagónica um must de pirosice. Convém ver. Mas sem som nem legendas.

jose policarpo

27. Cardinalice. O Cardeal de Lisboa invectiva a “indiferença, agnosticismo e ateísmo” na sua homilia natalícia. Interrogo-me onde vai ele buscar essa ideia da igualdade entre “indiferença” e “ateísmo”. Que ”indiferença”? A prática, a ética, a solidária, a reflexiva? Um argumento vácuo, inaceitável, e que não cola com a imagem de profundidade intelectual que Policarpo sempre apresentou. Sem rodeios, é uma parvoíce ao nível daqueles que reduzem a igreja católica a fogueiras da inquisição e a erecções pedófilas. José Policarpo tem o direito (em determinada acepção terá até o dever) de combater o ateísmo e o agnosticismo. Mas tem toda a obrigação de matizar as suas argumentações e invectivas. E exactamente quando a sociedade presta homenagem a Manuel Clemente, bispo do Porto, enquanto homem de cultura elogiando-lhe a fina análise. Um deslize cardinalício, ao invés do momento vivido. A colher, claro, o silêncio do comum …

Homem em Furia

28. Homem em Fúria, de Tony Scott, competente filme de TV. Seria uma excelente peça de cinema de samurai, acho, não fosse o seguidismo ao paradigma psicologista, assim desvanecendo a profundidade abissal do protagonista. Um diálogo excelente: “Velho: Na igreja dizem que devemos perdoar; Creasy (Denzel Washington): Perdoar-lhes é com Deus. O meu trabalho é proporcionar-lhes o encontro.”

record

29. Acordo Ortográfico. O Record é o jornal que logo aderiu ao Acordo Ortográfico. Se dúvida houvesse sobre o substrato intelectual desta parvoíce provinciana a entusiasmada adesão de tão pobre jornal cessa qualquer hipótese de dúvida. Eduardo Pitta acha que os detractores do Acordo Ortográfico são “encenadores” que dão pontapés na gramática, e com ele concorda Filipe Nunes Vicente, outro grande-bloguista. Recordo que as maiores polémicas neste ma-schamba vieram desses meus actos pontapeadores e, envergonhado, lamento-os bem como à falência das minhas tentativas teatrais. Vou ali ler o Record – pode ser que por lá me expliquem que esta deriva homográfica lusófona nada tem a ver com um fundo tonto de apelo à gesta da “presença” e “expansão” da língua portuguesa, que nada tem a ver com a inexistência de verdadeira reflexão económica sobre os seus futuros resultados para a edição internacional em português (mas apenas em “desejos pensantes”), que nada tem a ver com a tonta e iletrada ideia feita da distinção radical entre a fala e a escrita (a “escrita é uma convenção” dizem os imbecis, convictos que a fala, em última análise, não o é; a “grafia não influencia a fala”, dizem “professores” sem perceberem que assim invalidam a sua tarefa).

Bem, pelo menos parece o Miguel Veloso marcou um golo e diz-se que vai para a Fiorentina ou Barcelona, e o jornal deve falar disso …

cafe bica

30. Decadência Nacional. Cada vez mais difícil, talvez até mesmo impossível, encontrar uma “bica” (aliás, “café”, “expresso”, “italiana”) decente. Os estabelecimentos  comerciais especializaram-se em servir zurrapas. Café Chinês?

PResepio

31. Família. Em dois dias seguidos dois artigos interessantes, os de Miguel Pacheco, “Não São Sermões Sobre a Vida Íntima e Martim Avillez de Figueiredo, sobre a questão da “família”. Em ambos choco com este meu preconceito, o de que o discurso jornalístico aparece mais superficial do que o académico ou de reclamação intelectual. É aqui o inverso, total. Pois em ambos é explícita a ideia, ao contrário dos discursos dominantes, da necessidade e da virtude da família. Ultrapassando as velhas querelas hiper-liberais e hiper-marxistas, da família como local agente de repressão e reprodutor da exploração, do maléfico Pai-Padrasto Castrador e da malvada Mãe-Madrasta Castrada Castradora, do discurso da libertação do sacrossanto indivíduo face às algemas comunitário-familiares, da ultrapassagem da repressão por via do sacrossanto Estado-sociedade, local de protecção, produção e reprodução. Afinal instituição virtuosa, falível claro, de produção e interacção de valores sociais.

Há quem chame a isto conservadorismo. Lembra-me o Jonhy Rotten (já Lyndon?): “ser punk em 1980 …” (onde é que eu já li isto? …).

enchidos

32. Frases feitas? Um repasto, entre antropólogos e excelsas iguarias, no caminho entre enchidos fidedignos, sopa de rabo-de-boi, conduto incomensurável, doçaria relevante, reservas variadas e vintages culminantes. Algo a que, ali, estou há décadas habituado. Com emigrantes à mesa a conversa passa ao “estado do país”, claro. Donde ao casamento homossexual, que o resto foi resumido, como sempre, num “isto está mau” – mas que ninguém interprete este condicionamento do discurso popular como uma estratégia do governo, que é de esquerda, donde bom. Pessoa que há décadas muito me é querida e também minha mestra nas coisas antropológicas, talvez até causa quase-única desta minha formação, remata-me “O casamento é um contrato entre dois indivíduos“. Vacilo, e partirei destruído para casa. Pois se vindo de quem vem aquele libelo individualista … tudo aquilo que estudei, da reprodução estratégica de laços de filiação e de descendência, de articulação entre grupos sociais, de transferência de património (em sentido lato), de composição e recomposição familiar, tudo isso para onde foi, o que era? Nada, afinal a nossa sociedade é apenas um campo onde interagem indivíduos, livres, racional e radicalmente autónomos que contratualizam. Virtuosamente.

Vindo de quem vem? Já no carro, ao volante, entre a azia silenciosa e a flatulência reprimida, constato-me duas décadas de vida profissional enganada. Novo ano que aí vem – e até já veio – exige-me pois vida nova, profissão nova. Pois se a outra, a da até agora, inexiste afinal. Não dormirei, e desde então a insónia constante. Para onde ir? Que fazer? Ou antes, com que indivíduos contratualizar?

PortoVintage

33. Ideias Feitas?. “À mesa, entre antropólogos e excelsas iguarias, no caminho entre enchidos fidedignos, sopa de rabo-de-boi, conduto incomensurável, doçaria relevante, reservas variadas e vintages culminantes. Algo a que, ali, estou há décadas habituado. Com emigrantes à mesa a conversa passa ao “estado do país”, claro. Donde ao casamento homossexual – que o resto foi resumido, como sempre, num “isto está mau” – mas que ninguém interprete este condicionamento do discurso popular como uma estratégia do governo, que é de esquerda, donde bom. Pessoa [outra] que há décadas muito me é querida, e também minha mestra nas coisas antropológicas, talvez até causa quase-única desta minha formação” [in blog ma-schamba, post "(N)A "Pátria Amada" (ponto 32)], explica-me, simpática e até solidária com as minhas falhas de formação (e tantas ela colmatou nos bons velhos tempos), a diferença entre o matrimónio religioso, de vínculo indissolúvel, e o casamento civil, coisa moderna e passível de ser dissolvido. Por opção própria, por economia de discurso, não lhe dá nenhum enquadramento de história institucional, mas não posso aprender tudo no mesmo dia. Estava eu, portanto, a ouvir pela enésima vez esta profunda argumentação – e ainda não tínhamos chegado à questão das sufragistas, mas haveríamos de lá aportar – quando um conviva comensal rematou, glorioso: “vínculo indissolúvel?! Ah, mas isso é o que defendem os sindicalistas!! Afinal são iguais, a Igreja e os Sindicatos“.

Um vintage, este meu amigo, há décadas que vai vintage! Pena é que não meu mestre …

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34. O cadáver da Antropologia. Ao sábado ouvir Bach na Gulbenkian, ao domingo Haydn no CCB. Para além do encantamento da música – um registo em que me perco completamente, por falta de capacidade interpretativa, uma delícia – deixo-me, como sempre, a “olhar” público e músicos. Olhar esta disciplina, que faz milhares de músicos aprenderem a reproduzir e interpretar partituras de tons e sons velhas de séculos, atentos às suas diversas matizes, e ainda, até, criando-lhes novas formas. Disciplina que passam a milhares e até milhões de ouvintes, que vão sendo treinados a escutar (alguns até a entender). Disciplina essa a qual poderá ser chamada “civilização”, forma vasta de controle, molde gigantesco de sentir e ser. É um fim-de-semana bom para isso, isto de partilhar espaço civilizacional com patrícios relativamente diversos – nas formas do saberem os seus corpos, de controlarem tosses, espirros, flatulências, agitações, sentimentos, amores, aplausos. Mais “burgueses” à Praça de Espanha, mais “populares” (menos “cívicos”, menos ”civilizados”) em Belém, que tudo isto é um processo longo de aprender.

Mas de repente, ali a meio da Criação, de Haydn, entre tosses múltiplas e aplausos fora-de-tempo no seio dos ainda algo in-disciplinados, lembro-me da minha queridíssima amiga e mestra. Que é isso? Questionar-me sim, mas apenas sobre as contratualizações que ali nos uniam. Nada mais há a questionar, a inquirir. Paguei bilhete, é o meu contrato. Outros pagaram ainda impostos, é outro contrato. Todos comprámos produtos dos patrocinadores, mais contratos jurídicos. E basta, deixo-me a ouvir a música, incompreendendo. Feliz.

Jornal de Letras 1

35. A cremação da dita e ainda das suas primas. Jornal de Letras, já institucional presença. Tem defeitos, mas é melhor que exista. Muito estatal, no ponto de vista, nas formas de associação e financiamento. Também por isso local dos sinais dos tempos. Na última edição (nº 1024) vários artigos sobre a década agora terminada, “dez anos de letras, artes e ideias“. Extensas indexações de poesia e prosa literária, artes plásticas, música erudita e pop, cinema, dança e teatro. Ambiente, ensaio e ideias (sobre estas dois textos) também. Não discuto os critérios, gente sábia a escrever. Mas surge-me questão. No mundo das “ideias” ainda há referência para uma ciência social, a História. Até par as sua versão história intelectual (já agora, saúdo as referências a obras que me são bem queridas, “História do Pensamento Filosófico Português”, coordenada por Pedro Calafate, “Portugal Extemporâneo” de Carlos Leone). Depois … Eduardo Lourenço, mais alguns ensaios, o “Portugal Medo de Existir” (“os portugueses são …”).

Entenda-se, dois artigos sobre “ideias”, um sobre “ensaios”. Nem uma referência a trabalhos portugueses de Antropologia, de Sociologia, de Psicologia, de Geografia, de Linguística, de … olhando bem nem de Economia, nem tampouco de outra área de investigação. Ideias durante a década? Ideias sobre Portugal e sobre o mundo? Nada a referir. [Vou escrevendo e pensando que sobre Ciências Exactas/Naturais idem, idem. Mas haverá ideias aí?, dirão os especialistas do JL].

É o Jornal de Letras! Sinais dos tempos? Claro, como comprovei nesta minha deslocação.

inhamabane

36. Inhambane. Para lá sigo. Intentando, entre sol e calma, encontrar um novo rumo. Entenda-se, novos contratos. Apenas jurídicos, claro.

jpt

A Mensagem de Avatar

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por ABM (Cascais, 23 de Dezembro de 2009)

A única vez que eu tinha visto um filme com a tecnologia 3D foi em 1989, quando, de visita a Los Angeles, vi um filme qualquer meio tépido na Disneylândia, sentado ao pé de (atenção) João Bosco Mota Amaral, que na altura ainda era o President-for-life dos Açores. O filme era tão bom que lembro-me melhor do João Bosco que do tema.

Portanto, especialmente após uma exortação monumental publicada na semana passada numa edição do diário lisboeta Público, que basicamente referia o recentemente lançado filme Avatar, realizado por um muito credenciado James Cameron como a segunda vinda de Cristo o Redentor a Hollywood, lá me decidi, após fazer as contas dos descontos da Lusomundo para bilhetes para crianças, reformados e com desconto por ter TV cabo em casa (portuguesices, suponho, mas que vêm a jeito nesta era de derrocada financeira) ir ver o filme.

Confesso que quando entrei na Sala 5 do cinema no Cascaisshopping não sabia que a produção era de ficção científica, pois só tinha visto uma fotografia de um tipo que parecia uma lagartixa meia azul.

Mas antes, uns comentários técnico-logísticos.

Sendo o filme em 3D, o exmo. leitor deve especificamente escolher um assento literalmente no meio da sala, nem para a esquerda, nem para a direita, nem para a frente, nem para trás. Eu fiquei muito atrás e perdi algum do efeito.

Segundo, se estiver num país em que tenha a sorte de não haver legendas em português (que foi o meu caso em Cascais City) tanto melhor. Como o filme é em 3D, ou seja, tem um efeito muito claro de profundidade, quando se inserem as legendas, no écrãn elas parece que ficam mais ou menos penduradas no meio do ar entre as pessoas, des-sintonizando os nossos olhos do efeito 3D. Mas aqui os nossos capatazes do cinema local chutaram para a frente com as legendas para dentro do filme e foi uma porcaria.

Terceiro, beba um cafézinho e vá à última sessão da noite, não à da tarde ou a sessão depois do jantar. É porque a essas vão aqueles meninos e meninas teenagers que chegam à sessão dez minutos depois dela começar sem saber onde é que se sentam, que falam alto uns com os outros em voz alta durante a sessão, que atendem os té-lé-lés, que mandam piadas sem piada uns aos outros sempre que acontece algo no filme, que comem as pipocas como porcos Pata Negra alentejanos na fase da engorda e que arrotam depois de um golo daqueles copos de Coca-Cola de litro e meio. Eu, que pertenço à geração que ia ao cinema em LM nos anos 60 e 70, ainda me lembro com inesgotável saudade do silêncio sepulcral que se fazia sentir nas salas quando as luzes se apagavam e começava a sessão, toda a gente já sentada, sem telefones, sem pipocas, sem meninos e meninas com a bicha solitária.

Ok, então o filme.

Tecnicamente, soberbo. A história pode ser lida a vários níveis, todos eles altamente politicamente correctos para os dias que correm. A acção passa-se num planeta chamado Pandora, em que uma firma qualquer anda a extrair um minério na zona onde vivem há tempos imemoriais em paz e harmonia, umas tribos meio primitivas estilo índios da Amazónia dos que se vêm nas revistas da National Geographic. O convívio entre a operação (mais ou menos uma mina a céu aberto) e os nativos está a ir de mau a pior mas os humanos têm a faca e o queijo na mão (ou seja, a tecnologia para dar cabo dos nativos todos em dez minutos). Mas havia um programazito meio desacreditado e tecnologicamente avançado, de tentar o diálogo entre os nativos e o pessoal da mina, que basicamente os queria dali para fora para que eles pudessem desventrar a terra e tirar o tal minério.

Pelo meio, a inescapável história de amor, a invariável constatação de Grandes Verdades e o rol de sacanices dos vilãos da praxe.

Após ver o filme, lembrei-me vagamente dos devaneios do filósofo Jean Jacques Rousseau e daquele episódio dos padres Jesuítas que no Brasil tentaram no século XVIII proteger os índios das investidas dos colonos portugueses, e o de inúmeros ecologistas e antropólogos que tentaram condicionar projectos de desenvolvimento principalmente no terceiro mundo, para proteger habitats, populações e as suas culturas. Na vida real, habitualmente todos falharam e a máquina da civilização hoje dominante, absorvedora de recursos e técnica e militarmente mais avançada, arrasa por completo tudo o que lhe aparece pela frente.

No filme, creio que só para variar, acontece o contrário.

O que é curioso, pois estamos a entrar numa fase da vida mundial em que já mais ou menos toda a gente percebeu que, irremediavelmente, já praticamente demos cabo da natureza, das culturas, dos recursos naturais. Em Copenhaga, andou tudo à estalada a ver quem pode poluir mais e quem vai pagar dinheiro a quem. Pois é. Vamos a ver como vai ser o nosso futuro. Mas para já, não estou lá muito optimista.

O filme de Cameron foi em parte muito discutido por uma razão completamente diferente. Porque aparentemente os meninos e as meninas hoje, em vez e aprenderem na escola e lerem uns bons livros de vez em quando (ou este blogue), passam os dias alegremente em casa uns dos outros ou, mais frequentemente, em casa a falar uns com os outros na internet, e a descarregar, sem pagar, todas as músicas, filmes e entretenimento que andam por aí. O resultado é que as editoras, os autores, as discográficas, os distribuidores de livros, música e filmes, estão a ir todos à falência (coitados).

No caso do cinema, dado que filmes representam complexos e caros projectos, a ausência de lucros é um verdadeiro beijo da morte. Assim, especula-se se o tipo de filme que Cameron fez – que só pode verdadeiramente ser saboreado num teatro de cinema com óculos 3D – poderá ser uma via para incentivar as pessoas a pagarem bilhetes para irem ao cinema em vez de ficarem em casa a piratiarem os filmes para verem nos seus computadores.

Quanto a isso, também vou esperar sentado.

Best New Song

MEDAL Nobel-Prize

por ABM (Cascais, 11 de Dezembro de 2009)

Com o JPT em trânsito para a Europa e a Sra Baronesa para o seu retiro de verão em Goa, a loja ficou mais vazia esta semana.

Mas o mundo não parou. Ontem, sentado enquanto bebericava um espesso café com leite, assisti ao vivo na BBC à cerimónia de entrega, pelo Comité Nobel, do Prémio da Paz ao actual presidente dos Estados Unidos, Barack Hussein Obama.

Como muitos dos exmos leitores, cresci com os sucessivos anúncios das entregas dos prémios Nobel a uma variedade de personalidades, quase sempre tudo boa gente, merecedoras dos mais rasgados elogios, nunca deixando de achar curiosa a particularidade de ser uma prerrogativa da Suécia, um relativamente pequeno país escandinavo mais conhecido pelo seu clima inclemente, pela beleza das suas mulheres e pela qualidade dos seus automóveis (Saab e Volvo), gerir e atribuir estes prémios em relação à nata da raça humana. Fazem-no há mais que cem anos e toda a gente leva aquilo muito a sério.

Uma curta pesquisa leva-nos ao seu criador, Alfred Nobel, que na primeira chance pirou-se da Suécia e foi viver para a mais mediterrânica San Remo, com uns saltos a Paris, e ao seu testamento, onde, para além de umas massas valentes para um conjunto de pessoas de que hoje não reza a história (incluindo uns pós para os seus criados e o seu jardineiro – simpático) deixou um fundo estimado, na moeda actual, em cerca de 250 milhões de USD.

Isto supostamente porque Nobel, que enriquecera obscenamente com o negócio dos armamentos e explosivos, ficara horrorizado com a constatação do que se pensava de si quando, aquando da morte do seu irmão Ludwig em 1888, um jornal de Paris por engano ter publicado o seu obituário, intitulando-o le marchand de la mort est mort, elogiando-o mordazmente pelo seu feito de ter “encontrado melhores formas de matar mais gente mais depressa que nunca dantes na história”.

Seja como for, Nobel canalizou a maior parte do seu património para instituir os prémios (apenas cinco no início) que, depois de uma série de peripécias, começaram a ser atribuídos em 1901.

A nomeação de Barack Obama para o prémio Nobel da Paz de 2009 a meu ver só pode ser contabilizada contra o credo que Obama defende desde que decidiu concorrer para a presidência dos Estados Unidos e o que a sua eleição significou para o mundo, após dois mandatos de George W. Bush e o seu quase narcisismo nacionalista (para não falar do resto, incluindo a actual recessão). Pois que – como o próprio ocupou boa parte do seu discurso de aceitação a explicar, algo eloquentemente – nem ele tem obra feita, nem se pode omitir que é um presidente e comandante-em-chefe de um dos mais poderosos exércitos na história do mundo, envolvido em duas guerras violentas neste momento e a congeminar outras tantas.

Mais do que tudo, Obama sobressai pelos valores internacionais que defendeu – internacionalismo, cooperação, de querer tentar fazer coisas novas, de promover valores fundamentais por que, aliás, os Estados Unidos se bateram praticamente desde que ascenderam à cena internacional entre a I e a II Guerras mundiais, tais como a democracia e os direitos humanos. E uma causa relativamente nova – a preservação do ambiente.

Num mundo cada vez mais globalizado e à beira de um ataque de nervos após oito anos de Bush, ainda por cima vindo do primeiro presidente mulato de um país que até recentemente lutava contra os demónios da descriminação racial e com uma história atribulada no cumprimento da sua promessa de igualdade para todos e ascendência com base no mérito, o surgimento algo inesperado deste homem na cena internacional – um mundo cada vez mais globalizado de cidadãos não brancos, terá sido uma inspiração para muitos. Vagamente reminiscente do que foi a atribuição do mesmo prémio ao grande Nelson Mandela (conjuntamente, para quem já não se lembra, a um muito menos celebrado mas igualmente meritório Frederick de Klerk) em 1993.

Mas, convenha-se dizer, se isto fossem os Prémios MTV, Obama nesta altura teria ganho apenas o prémio “Best New Song”.

Ademais, não sei se repararam que no seu longo discurso ele não disse praticamente nada sobre o Médio Oriente, a quase permanente dor de cabeça do mundo desde que acabou a II Guerra Mundial e que promete novas violências.

A ver vamos no que isto vai dar.

Sobre o colonialismo português e o Encontro de Feministas Lésbicas:

dois assuntos que me levam a deixar comentários em blogs alheios. No Chuinga a transcrição e o apoio a um texto de Mário Crespo, o qual quer que o Estado português peça desculpas à África ex-colonizada. No Diário de Um Sociólogo notícia sobre o Encontro Internacional de Lideres e Intelectuais Feministas Lésbicas, a decorrer em Maputo, o qual tive ontem o desprazer de cruzar.

Infantilizar o Passado?

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O Metro de Londres excluíu um anúncio contendo esta pintura que publicitava uma exposição de Lucas Cranach na Royal Academy. O argumento foi explícito, o nu feminino pode ofender sensibilidades: «Devemos ter em conta os milhões de viajantes diários do metro e procurar não ofender ninguém», justificou-se a empresa de Metro (gente decerto parida de um bolbo).

Nisso estou completamente de acordo com o Francisco: isto é medo (e pouca vergonha) de ofender os passageiros “multiculturais”, aceitar o ponto de vista de quem pode achar “blasfema” esta pintura. Acima de tudo concordo que “Mais do que uma vergonha, é uma filha da putice”.

Muito menos apreciáveis são outras iras sobre o assunto. Ainda que ache piada à retórica do Lutz afirmar «É impensável que um quadro clássico possa chocar» – que tem vindo a ser desenvolvido no …bl-g- -x-st – é uma falácia. Intelectual e politicamente pior do que os argumentos timoratos do Metro de Londres.

Afirmar que a arte clássica não pode chocar é um argumento à mão de semear para esta contestação. Mas é censório, irracional. Aceitá-lo implica afirmar limites racionais para a leitura intelectual do passado, sua compreensão, para o “diálogo” com o passado (um diálogo mitigado, é óbvio). Ou seja, afirmá-lo implica dizer que pode haver interacção sensitiva mas não reflexão abrangente. Afirmar que o passado artístico não pode chocar (“não pode”, o registo do dever-ser) significa que nos desperta, porventura, o eros, o sensitivo, o emocional (e este nem tanto, pois é chocável), um tanto de espanto. Mas não a razão.

Isto é a exotização do passado. A infantilização do passado. Nisto o Passado é o Outro, só compreensível e analisável nos seus valores, olhável de longe com apreço ou menosprezo consoante o feeling do dia. Isto é, em absoluto, o discurso “multicultural” impensado. Típico da esquerda europeia mal-pensante dos nossos dias (já agora, filha do apartheid boer).

A arte passada pode chocar – ainda que tenham mudado os valores e os contextos. É (também) essa a sua grandeza. E (também) por isso mesmo é preciso manuseá-la, pendurá-la, observá-la. Chocarmos. A nós e aos outros. Sem censores – fundamentalistas islâmicos ou esquerdalhada europeia correctista. Ou melhor, também por causa deles.

Politicamente correcto. Crianças entregues na escola, rápido café com amigo colega em paternidade. Chispa de ironia, ele: “Ouve lá, tu que és um gajo culto” (ei-lo nela, o sacana) “explica-me lá o que é que significa reversão“. Tartamudeio e fujo para um “a propósito de quê, pá?”, “Então hoje não é o dia da reversão de Cahora Bassa?”. “Bem …”, evoluo, e com ele no entre-sorrisos, “são estas palavras novas, assim tipo “empreendedor”, “implementar”, esses tipos utilizam-nas para parecerem finos“. “Ok, ok“, matamos ambos a conversa, antes do “a conta, por favor“. E saímos, sorrio eu ainda, decerto ele (e ele é que é o gajo culto, entenda-se) também na via do seu dia, sorrimos a tanta ideologia no falar, nacionalismo de alguns, e esse ainda vá que não vá, o politicamente correcto de outros, e esse é que nem se compreende.
Sentar-me-ei, politicamente incorrecto?, a consultar a página 1247: “reversão (Lat. reversione), s.f. acto ou efeito de reverter; regresso ao estado primitivo; devolução; (Zool.) atavismo; (Ling.) figura de estilo que consiste em inverter a ordem dos termos de uma proposição, de modo a obter uma outra com sentido diferente; quiasmo.” (Texto Editora, Dicionário Universal da Língua Portuguesa, 1995, 1ª edição).
Concluo então, Pedro, que “reversão” é uma figura de estilo económica. Chega? Ou será um quiasmo?

A moral na história, em Pierre Nora

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Há algum tempo ocorreu no bloguismo português um debate sobre os 500 anos do massacre de judeus em Lisboa. De tudo o que já li nesse meio o que então ocorreu foi-me o mais desagradável. De intolerância mútua. Muito dela germinada na incompreensão (um outro tanto na arrogância). Também a esse respeito, do olhar a história e assim fazer o presente, aqui deixo um excerto de uma entrevista a Pierre Nora que gostaria de ter divulgado nessa ocasião. Os realces (a azul) na introdução da entrevista e nas declarações de Nora são de minha responsabilidade.

Pierre Nora et le métier d’historien. « La France malade de sa mémoire » “, Propos recueillis par Jacques BUOB et Alain FRACHON, Le Grand Entretien, Le Monde 2, n° 105, février 2006 ; in ” Colonies : un débat français “, Hors-série Le Monde 2, mai-juin 2006.

Que faire quand la France est tiraillée entre des minorités – ethniques, religieuses, sexuelles – qui, toutes, cherchent à imposer leur “mémoire” à la majorité? Que faire quand ces minorités entendent sacraliser la perception qu’elles ont de leur passé et interdire par la loi ou la pression sociale, qu’on puisse la contester?

L’affaire des caricatures de Mahomet et celle du débat sur la colonisation posent des questions voisines. Est-ce au législateur de trancher, de dire l’histoire? Il s’en est mêlé: loi Gayssot de 1990, qui érige en délit la contestation d’un crime contra l’humanité; loi Taubira de 2001, qui fait de la traite négrière un crime contre l’humanité.

Cette tendance, très française, a subi un revers avec l’annulation par le Conseil constitutionnel de l’alinéa de l’article 4 de la loi du 23 février 2005 sur la nécessité d’enseigner “le rôle positif de la présence française outre-mer“. C’est que lhes historiens se sont rebellés. Contre l’intimidation du politiquement correct et contre les prescriptions de l’État dans la lecture de l’histoire.

L’un des plus éminents d’entre eux, Pierre Nora, a participé à cette bataille. (…)

Le Monde 2 – Les questions de l’esclavage et de la colonisation, la notion de crime contre l’humanité appliquése à des événements du passé ont fait irruption dans le débat public. Notre histoire semble remise en question. La confusion régne entre une analyse “historique” de ces événements et une approche “mémorielle”, plus épidermique, plus immédiate, plus politique. Chacun réclame la reconnaissance de sa douleur. Face à ce déferlement de sentiments contradictoires, touchant à la réalité de notre passé commun, l’historien est mis en question. Voire en accusation. Que faut-il penser?Pierre NoraLa tendance à appliquer la notion de crime contre la humanité à des événements du passé, si révoltants qu’ils puissent être, est dangereuse et inquiétante aux yeux d’un historien. Car cette notion est très précisement définie.

 

Elle comporte deux aspects qui sont, par principe, étrangers à l’historien: une condamnation morale, qui suppose une humanité identique à elle-même et relevant des mêmes critères de jugement qu’aujourd’hui; et un principe d’imprescriptibilité, qui suppose un temps identique à lui-même, alors que l’histoire est d’abord un apprentissage de la différence des temps.

On comprend l’application de cette notion à des assassinats de masse contemporains, visibles, tangibles. Mais avec la traite et l’esclavage que vise la loi Taubira de 2001, on est de deux à cinq siècles en arrière. Et quels auteurs de ces crimes poursuivra-t-on sinon les historiens que évoquent ces événements en des termes que n’autorixe pas la loi?

Il y a là une porte ouverte à la dérive qui ne s’explique que par une forme de laxisme politique et par l’atmosphère repentante et pénitencielle qui règne sur notre société. Cette dérive tend à mettre les historiens au premier rang d’un débat sur la liberté intellectuelle, parce que leur travail est, par définition, le contraire du jugement moral et de la distribution de bons points.

Le Monde 2 – Que préconisez-vous pour sortir de cette situation?

Pierre Nora - Que chacune des parties prenantes au passé reste à sa place. Je suis stupéfait des difficultés à faire comprendre les positions que nous avons prises, pourtant simples et claires.

Beaucoup font semblant de croire qu’il s’agirait de refuser aux politiques le droit de s’occuper du passé. Je n’ai pourtant jamais recontré un historien pour croire que “l’histoire est le monopole des historiens”, selon la nouvelle formule.

Il est parfaitement normal que la représentation nationale, sous la forme parlamentaire ou présidentielle, formule des déclarations, vote des résolutions, institue des commémorations, organise des hommages, décide des compensations, construise des musées. C’est son rôle, et même son devoir, de cadrer et d’orienter la mémoire collective, d’honorer les victimes surtout. Aux politiques la gestion du symbolique, le respect du rituel – le seul problème étant qu’ils le fassent à bon escient, avec intelligence et générosité.” (…)

Adenda:
1. Lei 90-165 (Gayssot) [contra racismos, antisemitismo e xenofobia] (texto); “Le génocide, le juge et le historien”, de Madeleine Rebérioux (L’Histoire no 138, novembre 1990, pp. 92-94); “Contre la loi Gayssot”, de Madeleine Rebérioux (Le Monde).

2. Lei Taubira (esclavagismo como crime contra a humanidade).

A melga

A tal.

Insensibilidade, preconceitos e exclusão (cont.)

Apontamento sobre este meu texto:

A malária mata imenso. Ao longo de anos a investigação contra esta doença tem sido secundarizada face a outras pesquisas menos relevantes em termos de saúde mundial. O seu mercado é mais pobre. Esta situação, gravissima, é relativamente esquecida no seio do mundo industrializado, pouco (ou nada) alvo dos efeitos da doença.

Ao ver a melga que o Paulo Gorjão utilizou para simbolizar o regresso desses Grandes Melgas que são os bloguistas [particularmente os político(logo)s] nem hesitei. Quereis mais justo discurso Politicamente Correcto do que este? Para os polícias da língua, tão ufanos com termos com tão menores efeitos reprodutores de injustiças e esquecimentos, haverá maior infracção do que este jocoso “Ganda Melga”, tão amigável para com este grande predador? Estarão distraídos, embrenhados em ileituras de “questões de género”? Onde lhes está a lupa? Ou só servirá para as coisinhas do intra-muros deles?

Agradeço os comentários havidos e sai abraço ao Paulo Gorjão, agradecendo-lhe o não se ter importado com o pequeno jogo. Espero que continue um Ganda Melga. E outros também.

E julgo que escusado será dizer que na luta pela prevenção contra a malária e sua erradicação quanto mais

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formos melhores resultados haverá.

Adenda: via Nova Floresta ver uma peça espantosa de “politicamente correcto”. 

Insensibilidade, preconceitos e exclusão.

De quando em vez tenho aqui abordado (e em algumas caixas de comentários alheias) a insensibilidade de bloguistas e outros escribas para com causas justas e necessárias. Insensibilidade talvez inconsciente. Mas sempre preconceituosa, com a constante utilização de conceitos, linguagens e quantas vezes imagens que reproduzem os preconceitos e a exclusão que lhes está associada. E nessa irreflexão, nessa linguagem poluída, nesses actos até vis, se vão reproduzindo práticas discriminatórias e silêncios dilacerantes. Acima de tudo estes silêncios, causas e motores de práticas de exclusão. Produtoras de miséria. Sem exagero, assassinas.

Sei que a denúncia de tais práticas (mesmo que apenas verbais) se torna fastidiosa para os “distraídos”, até um ónus sobre quem se recusa a calar a indignação. Mas há momentos em que se torna imperioso exigir contenção. Se os preconceitos não desfalecem ao menos que se exija o pudor na sua expressão. É o que me ocorre hoje olhando o bloguismo luso: que dizer quando até um blog aparentemente responsável como o Bloguítica brinca com esta imagem assim desmerecendo, elidindo, o sofrimento de tantos, apagando a memória da doença do século, a urgência do combate. Apenas porque os sofredores são pobres? Porque não são europeus?

Contra-argumentando no Ideias para Debate.

Sexta-feira um pouco especial

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[Chez Rangel, estação CFM, 17.2.2006] Pois.

Cartoons em maputo

rumores? o savana publica hoje os cartoons dinamarqueses (repito tanto post aqui? para quê?). E está rodeado de centenas de irados com vontades invasoras? que bronca. ou rumores?

Agradecimentos a ENP pela ajustada transcrição, um resumo para além das excitações sobre o caso dos “cartoons” dinamarqueses.

Liberdade de expressão

Reunião na redacção de revista “social”, trabalha-se os mais últimos e vistosos eventos, colectam-se flashes de beldades e barrigas enfarpeladas. Súbito ríspido o chefe proclama que “essa foto não sai“, “mas porquê?” resmunga o “jornalista”, “ficou bem, está boa“, “nem pensar” exagera-se o chefe, ali até director, “mas porquê?” insiste o “jornalista” já apoiando-se no fotógrafo, ali ambos irritados com a intromissão, reclamando caminhos próprios, coisas de liberdade até. “Porque não quero broncas..” soletra o chefe, já irritado, “a senhora acompanhante não é a esposa …

Das armadilhas do “correctismo”

A “inocente” promoção do segregacionismo: um caso no Brasil.

Liberdade de expressão?

Há alguns anos, lembro incerto 1999, Veiga Simão então ministro da Defesa de Portugal, velho homem de Estado e dignissimo universitário, espantou ao despachar a lista dos membros dos serviços de informação portugueses para uma Comissão Parlamentar. Logo alguém dessa comissão, muito provavelmente um deputado da República, remeteu a lista para os orgãos de comunicação social.

Lembro estar em Maputo e telefonarem-me de Portugal informando do acontecido, na ironia do “amanhã a lista dos espiões sai no Independente, vê lá quem são os daí“, narrando-me o acontecido e eu balançando entre a gargalhada descrente e o nojo por portugueses que partilham, apesar de mim, o meu país. Logo o solicitei, curiosidade certa, e na manhã tinha no gabinete um fax (era ainda o tempo dos faxes, imagine-se) com a cópia do jornal Independente onde constava uma lista de dezenas de indivíduos. Os nomes riscados, aparentemente a marcador (como se isso impedisse uma leitura por parte de profissionais interessados), mas os países de colocação bem à vista. Foi logo um reboliço telefónico, irónico e curioso, amigos cuscando se alguém sabia ou imaginava quem eram os dois agentes colocados em Moçambique, coisa que iria durar ainda uns dias. De imediato imaginei os dois homens, decerto avisados de véspera, que tudo aquilo foi inopinado, abandonando o país no mais madrugador avião para Joanesburgo ou, mais certo, cruzando nos primeiros alvores da matina a Namaacha ou Ressano Garcia, a inquietude dessa derradeira noite postados diante das fronteiras, avessas que são elas ao trânsito nocturno. E imaginei também, leituras velhas construindo imagens, homens e mulheres partindo em contido alvoroço de dezenas de países. E ainda o súbito encerramento de empresas nos arrabaldes lisboetas, filiais de seguradoras, consultoras, contabilidade, sei lá que tipo de coberturas escolhidas nesses sombrios Rios de Mouro ou Paios Pires tão a jeito para realidades feitas filmes, e o espanto de mulheres a dias, fornecedores e vizinhos com o vácuo então criado.

Veiga Simão retirou-se de uma longuissima, e até contraditória, vida de serviço público. E nada mais. Mudaram-se governos, a oposição subiu a poder e regressou a oposição, as comissões subiram a observados e regressaram a comissões, os então observados tornaram-se observadores e de novo ascenderam a observados. Deputado algum, assessor algum, foi confrontado com a evidente traição ao país. Uma traição não metafórica. Linear. Pura e simples. A Assembleia da República, ao que agora se bloga prenhe de mictórios entupidos e de deputados que apenas do próprio mijo se lembram na hora da crítica fácil porque tão tardia, fez por esquecer, e esqueceu, o facto de acoitar traidores e nisso continuar impávida.

Os jornais publicaram, decerto em nome de um qualquer interesse público (confundindo, cientes disso, “público” com “do público”) e da sacrossanta liberdade de expressão. O povo, que é manifestamente imbecil, creio que devido à dieta, nunca se lembrou disto, continua a votar nos traidores e nos que os protegem [alguém acredita que ninguém saiba quem foi o "brochista" (em inglês se quiserem) que denunciou os serviços de informação?]. Contente, ulula julgando-se patriota, assim reconfortado da merda que é, tv aos gritos no jogo da selecção, bandeira nacional numa mão, jornal Independente, o lixo traidor, na outra.

Anos passados ninguém liga, ninguém se lembra. A rapaziada de esquerda, relativizada, apupa a liberdade de expressão, máscara da falsidade ocidental ou até mesmo da inexistência ocidental, ainda que lhe reconheça, se cutucados, o mérito de denunciar a perfídia espia nacional, vista arma de exploração de inocentes alheios, inocentes porque alheios, porque diferentes, porque outros. A rapaziada menos relativista, reza loas à liberdade de expressão, coisa absoluta, tanto que até lhes dá para trair o país, nos intervalos de declarações pomposas sobre nação e quejandas. Coisa sem limites, dizem. E, escroques, realizam. No remanso do piadismo fácil e do linkismo ignorante. Punhetam, viris. Ambos os todos.

A propósito destas questões um amável comentador aqui afirmava há dias, “não compreendo o que dizes, mas entendo que te sintas longe”: Longe, eu?! Foda-se, eu estou aí. Isso é meu. Quem está longe, quem está bem longe, quem nem sequer merece isso, é essa corja. Corja não, que parece queiroziano. É essa vara, fica melhor. Estais longe.

(texto escrito em estado de liberdade de expressão relativa e sobriedade absoluta)

Ler faz mal

Isto das ilustrações dinamarquesas ilustrou a diferença existente entre fundamentalistas (seja lá do que seja) e relativistas (de tudo, excepto do relativismo [não, não brinco às contradiçãozinhas]). Há quem pense que são iguais, mas não são. Os fundamentalistas normalmente leram menos do que os relativistas, estes alargaram-se, até foram às filosofias, ali e acolá às epistemologias, um mergulho mais profundo nas socio-antropologias. Por outro lado os fundamentalistas (seja lá do que seja) percebem melhor as parcas leituras lá do seu recanto. Os relativistas (de tudo, excepto do relativismo) leram mas não perceberam bem – nas socio-antropologias é mesmo uma desgraça, imagino no resto.

Em suma lá os fundamentalistas serão menos enciclopédicos, menos lidos. Os outros mais actualizados. Mas os primeiros mais espertos, compreendem melhor. Os outros mais burrinhos, trabalhadores mas enfim … A conclusão é óbvia, ler faz mal. À vista e à cabecinha.

Aqui uma coisa que alguns “relativistas” de “esquerda” (uma “sinistra” “esquerda”), afamados blogadores, ao que parece não conseguem perceber. Efeito dos danos sofridos, e nada colaterais.

Sinal dos Tempos

Chego ao sítio da Sic online via Frescos, atraído pelas declarações do padre Serras Pereira (Portugal). Em ambos os locais as de/anunciam sob o mesmo título:”A homossexualidade é uma doença“, ruge o nada blasfemo cura.

Mais um patusco, não haja dúvida. Um espécimen. E continua, lá mais para o fim da notícia ecos de outro urro: “Qualquer relação sexual que não seja dirigida à procriação é uma perversão”, satanizando essas camisas-de-vénus tão correntes hoje.

Tralhas tão estafadas que já nem sorriso levantam, esse do “de onde saíu este?”. Mas logo me acontece, afinal aqui notando o sinal dos tempos. Fosse há alguns anos o que chamaria a atenção, o que seria a piscadela de olho dos jornalistas aos leitores, o que seria título, seria exactamente essa declaração da quase-universalidade da perversão, um mundo de gente que fornica sem reproduzir, a velha rábula do “sémen sagrado” dos sagrados Monthy Python. Hoje já não! Para os jornalistas (e para quem os lê) é mais tonitruante, mais apelativo, um pobre padre denunciar a homossexualidade (na realidade ele nega-a) do que um pobre padre denunciar a sexualidade (na realidade ele nega-a).

Esmorece-me o sorriso. E cá bem no fundo mais vale um padre maluco (“bem-aventurados os pobres de espírito” disse o profeta Jesus) do que uma cambada de jornalistas na moda. Pois, como se ouvia antes, “assim se vê a força do pc” – agora outro pc. Que perversão, esta sim perversa.

Patuscos

(*texto modificado, amputado de azedume afinal descabido segundo informação recebida nos comentários)

Lá na terra há uns patuscos que andam para aí a kenedyzarem-se, blog-in, blog-out, “ich bin ein dänisch”. É compreensível, o homem, o original entenda-se, tinha uma mulher bonitissima, ele próprio era giro, rico, teve a sorte de o matarem novo e, mais do que tudo, não suava na tv.

Eu se me desse para isso, mas não dá que suo que nem um porco, e hoje neste calor nem dormir consigo quanto mais qualquer resto, dava-me era para rir. Esses dinamarqueses afinal a desculparem-se de qualquer coisinha, pouco berlinenses afinal.

Sim, sim, o Voltaire, esse sátiro blasfemo, nos pontapés às superstições, avô fundador da gente por isso mesmo, a dizer que se bateria até à morte para que dele pudessem discordar. Supersticiosos ou não. Meu vôvô, não renego. Não vou lá muito com tudo dele, como qualquer neto que se preze, que o velho tinha coisas de homem do seu tempo. Devo deixar aquilo do “Vossa Magestade prestaria um serviço eterna à raça humana extirpando essa infame superstição (o cristianismo) , não digo entre a ralé que não merece a pena iluminar e que está preparada para qualquer servidão; digo entre os bem nascidos, entre aqueles que desejam pensar“? Deixo. Mas atenção, apenas porque a ralé, esse hoje povo, afinal vai dizendo umas coisas iluminadas.

O meu, por exemplo, tem um dito fantástico, racionalismo e empirismo associados como nunca: “Quem não tem competência não se estabelece“. E ainda por cima “Eu sou um dänisch”? Era o que faltava. Borregos.

Direito à liberdade de expressão? Sim, sim. Mas também direito ao erro, esse que é humano já diziam os antigos. Apanho os bombeiros a mangueirar fogo com gasolina (Bowie dixit) e defendo o direito inviolável ao erro? Enquanto grito “Ich bin ein Feuerwehrmann”?

Ou chamo-lhes borregos? E patuscos aos que então se dizem bombeiros?

Civilização

é (quase) isto. Não vai daqui nenhuma ironia. Um tipo, brotado mais ou menos no mesmo mundo que eu, que se marca na carne e pele é um descendente de piratas, flibusteiros, bucaneiros, grumetes de corsários. Na actualidade é, ou nada mais aspira ser, um presidiário. Uma tipa nos mesmos tatuados propósitos é mera mulher de porto, clandestino em recônditas caraíbas ou antilhas, infectada por contágios múltiplos, escorbutos de calmarias, erupções de furacões. Cúmplice, alvar e histriónica, de rapinas, violações, massacres, abordagens sem quartel e bordas-fora. Gente desconfiável. E, sempre, enforcável.

Entenda-se, civilização é carregá-la(o)s no porão. A ferros. Aos tatuados.

[via Bicho Carpinteiro]

A polémica das blasfémias dino-europeias

A polémica das blasfémias dinamarquesas/europeias teve um grande mérito. Em vários blogs aprendo que agora em português se diz “cartune”. Nesse âmbito, ou seja sobre a importante matéria da a liberdade de expressão, a civilização ocidental e os cartunes, deixei a minha opinião em comentário no estimável Adufe. Não resisto a integrar-me na ampla discussão que percorre o mundo sobre o assunto e aqui transcrevo o referido comentário [ligeiramente aumentado], epítome do que considero sobre tudo isto:

Eu sou um grande defensor da liberdade de expressão. Para mim é um dogma, um valor civilizacional absoluto, no fundo a tradução actual da Razão da História, do Espírito. Por isso mesmo concordo com esses tantos que agora escrevem “cartune” – ainda que o retrógado em mim ambicionasse queimá-los em hasta pública. É isso mesmo, a liberdade é o racionalismo vs a emoção, a liberdade é o “cartune”. (Alguém me empresta o isqueiro para atear a fogueira?)

Não sei se valerá a pena informar sobre um texto de O Espectro, presumo que todos os aqui passantes já lá tenham estado. Mas esta prosa clarividente ela-se, nem que seja para minha memória.

Angústia ainda maior

Os trauliteiros.

Ainda maior dúvida, angústia mesmo

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Maputo, Igreja da Polana.

Quando aqui entro tiro o chapéu. Será isso nova demonstração do meu cobarde relativismo e infecto multiculturalismo? Ou, bem pelo contrário, demonstração de dogmatismo fundamentalista, crente que sou de que apenas um inferior imbecil ignorante não se descobre em encontrando tecto (excepto, claro, se uniformizado)?

Casamentos

Lá no meu velho rincão o fim-de-semana não esmoreceu a questão sobre o “como casar”. Entre muitos discursos não resisto a elar (para meu arquivo) o regresso do evolucionismo, e seus “perigos” de “primitivismos” na cara Zazie e no A Metamorfose (ecoando as vantagens de viver fora aqui realçadas). Eu continuo na minha, de um lado e do outro da pedrada o fundamental é não chegar aos corolários. São sempre chatos, amarfanham a prosa.

Um texto são no Lida Insana. Mas no fim lá me sai o resmungo. A base das instituições sociais é garantir a dignidade do indivíduo. Outra vez os meus corolários, e os outros a amputarem-nos? Também. Mas acima de tudo o discurso pode parecer que sim, que é assim. Mas, e sei que em tempos de domínio liberal é dificil contra-argumentar, será que as instituições sociais existem para o indivíduo se dignificar? E, já agora, o que é isso da dignidade do indivíduo?