Ao considerar eleitos autárquicos meros “boys” a quem não se deve dar “money”, e ao reduzir esta esclarecedora ”boca” a um fait-divers, o ministro Teixeira dos Santos não está apenas a demonstrar o – bem sabido – desprezo dos “socialistas” portugueses pela democracia e sua (deles) particular concepção de vida política. Está, acima de tudo, a denotar a sua imensa exaustão, “mãe de todas as gaffes”. Sairá no Verão boreal, está visto.
Segundo o chefe dos comunistas portugueses, citado pela SIC Notícias.
Aparte do bravado político, como não estou dentro dos meandros do novo e implementado Acordo Pornográfico para a Língua Portuguesa, fiquei na dúvida de o que é que realmente aqui se está a querer escrever:
Ruptura?
Rutura?
Rotura?
Ou será que a menina das legendas baldou-se (como infelizmente me acontece aqui) e ficou como está em cima?
Na sequência da entrada “A propósito da Madeira“, relativa às enxurradas que vitimazaram a população da ilha, um amigo enviou-me este artigo do “Diário de Notícias“ do Funchal, publicado a 13 de Janeiro de 1985, da autoria do engenheiro silvicultor Cecílio Gomes da Silva. Não é engano, o texto tem 25 anos! O autor é, obviamente, um exemplo daquilo a que os carreiristas chamam “apóstolos da desgraça” – expressão que serviu para o Nelson Saúte titular um dos seus livros. Mas, como abaixo diz (disse) Cecílio Gomes da Silva “Oxalá que nunca se diga que sou profeta.” … “Dei o alarme – pensem nele.”. Não pensaram. Nada. E preparam-se agora para, como se nada fosse com eles, gerirem a “reconstrução”. É o meu país. Continente e Ilhas.
Eu tive um sonho
Traumatizado pelo estado de desertificação das serras do interior da Ilha da Madeira, muito especialmente da região a Norte do Funchal e que constitui as bacias hidrográficas das três ribeiras que confluem para o Funchal, dando-lhe aquela fisiografia de perfeito anfiteatro, aliado a recordações da infância passada junto à margem de uma das mais torrenciais dessas ribeiras – a de Santa Luzia – o mundo dos meus sonhos é frequentemente tomado por pesadelos sempre ligados às enxurradas invernais e infernais dessa ribeira. Tive um sonho.
Adormecendo ao som do vento e da chuva fustigando o arvoredo do exemplar Bairro dos Olivais Sul onde resido, subia a escadaria do Pico das Pedras, sobranceiro ao Funchal. Nuvens negras apareceram a Sudoeste da cidade, fazendo desaparecer o largo e profundo horizonte, ligando o mar ao céu. Acompanhavam-me dois dos meus irmãos – memórias do tempo da Juventude – em que nós, depois do almoço, íamos a pé, subindo a Ribeira de Santa Luzia e trepando até à Alegria por alturas da Fundoa, até ao Pico das Pedras, Esteias e Pico Escalvado. Mas no sonho, a meio da escadaria de lascas de pedra, o vento fez-nos parar, obrigando-nos a agarrarmo-nos a uns pinheiros que ladeavam a pequena levada que corria ao lado da escadaria. Lembro-me que corria água em supetões, devido ao grande declive, como nesses velhos tempos. De repente, tudo escureceu. Cordas de água desabaram sobre toda a paisagem que desaparecia rapidamente à nossa volta. O tempo passava e um ruído ensurdecedor, semelhante a uma trovoada, enchia todo o espaço. Quanto durou, é difícil calcular em sonhos. Repentinamente, como começou, tudo parou; as nuvens dissiparam-se, o vento amainou e a luz voltou. Só o ruído continuava cada vez mais cavo e assustador. Olhei para o Sul e qualquer coisa de terrível, dantesco e caótico se me deparou. A Ribeira de Santa Luzia, a Ribeira de S. João e a Ribeira de João Gomes eram três grandes rios, monstruosamente caudalosos e arrasadores. De onde me encontrava via-os transformarem-se numa só torrente de lama, pedras e detritos de toda a ordem. A Ribeira de Santa Luzia, bloqueada por alturas da Ponte Nova – um elevado monturo de pedras, plantas, arames e toda a ordem de entulho fez de tampão ao reduzido canal formado pelas muralhas da Rua 31 de Janeiro e da Rua 5 de Outubro – galgou para um e outro lado em ondas alterosas vermelho acastanhadas, arrasando todos os quarteirões entre a Rua dos Ferreiros na margem direita e a Rua das Hortas na margem esquerda. As águas efervescentes, engrossando cada vez mais em montanhas de vagas espessas, tudo cobriram até à Sé – único edifício de pé. Toda a velha baixa tinha desaparecido debaixo de um fervedouro de água e lama. A Ribeira de João Gomes quase não saiu do seu leito até alturas do Campo da Barca; aí, porém, chocando com as águas vindas da Ribeira de Santa Luzia, soltou pela margem esquerda formando um vasto leito que ia desaguar no Campo Almirante Reis junto ao Forte de S. Tiago. A Ribeira de S. João, interrompida por alturas da Cabouqueira fez da Rua da Carreira o seu novo leito que, transbordando, tudo arrasou até à Avenida Arriaga. Um tumultuoso lençol espumante de lama ia dos pés do Infante D. Henrique à muralha do Forte de S. Tiago. O mar em fúria disputava a terra com as ribeiras. Recordo-me de ver três ilhas no meio daquele turbilhão imenso: o Palácio de S. Lourenço, A torre da Sé e a fortaleza de S. Tiago. Tudo o mais tinha desaparecido – só água lamacenta em turbilhões devastadores.
Acordei encharcado. Não era água, mas suor. Não consegui voltar a adormecer. Acordado o resto da noite por tremenda insónia, resolvi arborizar toda a serra que forma as bacias dessas ribeiras. Continuei a sonhar, desta vez acordado. Quase materializei a imaginação; via-me por aquelas chapas nuas e erosionadas, com batalhões de homens, mulheres e máquinas, semeando urze e louro, plantando castanheiros, nogueiras, pau-branco e vinháticos; corrigindo as barrocas com pequenas barragens de correcção torrencial, canalizando talvegues, desobstruindo canais. E vi a serra verdejante; a água cristalina deslizar lentamente pelos relvados, saltitando pelos córregos enchendo levadas. Voltei a ouvir os cantares dolentes dos regantes pelos socalcos ubérrimos das vertentes. Foram dois sonhos. Nenhum deles era real; felizmente para o primeiro; infelizmente para o segundo.
Oxalá que nunca se diga que sou profeta. Mas as condições para a concretização do pesadelo existem em grau mais do que suficiente.
Os grandes aluviões são cíclicos na Madeira. Basta lembrar o da Ribeira da Madalena e mais recentemente o da Ribeira de Machico. Aqui, porém, já não é uma ribeira, mas três, qualquer delas com bacias hidrográficas mais amplas e totalmente desarborizadas. Os canais de dejecção praticamente não existem nestas ribeiras e os cones de dejecção etão a níveis mais elevados do que a baixa da cidade. As margens estão obstruídas por vegetação e nalguns troços estão cobertas por arames e trepadeiras. Agradável à vista mas preocupante se as águas as atingirem. Estão criadas todas as condições, a montante e a jusante para uma tragédia de dimensões imprevisíveis (só em sonhos).
Não sei como me classificaria Freud se ouvisse este sonho. Apenas posso afirmar sem necessidade de demonstrações matemáticas que 1 mais 1 são 2, com ou sem computador. O que me deprime, porém, é pensar que o segundo sonho é menos provável de acontecer do que o primeiro. Dei o alarme – pensem nele.
Um resumo de cinco minutos de uma reportagem (repórter Sílvia Camarinha; coordenação Arminda Deusdado) apresentada em 2008 na RTP-2 (programa Biosfera). Quem quiser ver a totalidade do programa ele está disponível no youtube. Está lá tudo anunciado – genial (e assim rara) perspicácia de repórter e dos entrevistados? desleixo dos responsáveis urbanos? Agora dezenas de mortos. Prejuízos materiais enormes – leio algures que serão necessários mil milhões de euros para a reconstrução.
Passados estes dias, cumprido algum nojo, é tempo de questionar. Há alguns anos caíu a ponte de Entre-os-Rios. De imediato o então ministro Jorge Coelho invocou a sua responsabilidade política e demitiu-se. Lembro bem do efeito que isso teve – alguns anos depois estourou o paiol de Maputo e jornais e vozes populares aqui se encheram com referências a essa atitude de Jorge Coelho, louvando-a. Quantas vezes pessoas se me dirigiriam num “Ao menos lá em Portugal os vossos políticos assumem as responsabilidades”.
Podem agora esses meus tantos interlocutores desiludir-se. Porque a anunciada catástrofe da Madeira é vista como uma “calamidade natural”, assim uma irresponsabilidade causal. Ninguém tem nada para assumir. Nem no continente (a Madeira é uma república, tem uma capital e uma sede de governo: Portugal, Lisboa, São Bento) nem na ilha (região com governo regional). É inacreditável.
Velho como o bloguismo em Portugal (actividade que ali explodiu em 2003) é o tema do anonimato opinativo. Há quem ache óptimo, absolutamente justificado, que por ali andem embuçados a distribuirem caneladas a torto e a direito. Há até quem lhe chame, em delírio de patusquice (e com o beneplácito dos “experts” da matéria), de “heteronímia” – ou seja é gente em quem habita um outro “eu”, ou até vários, muito dados a defenderem o partido “A” vituperando aqueles menos adeptos desse mesmo partido. Depois, burilados os geniais posts, os ditos blogo-Pessoas ou blogo-Quadros re-engolem o tal heterónimo e deixam regressar o aprazível ortónimo (sim, há bloguistas com uma grande lata).
Fica aí o fado, para os adeptos dos embuçados. Para essa gente menor.
Fernando Nobre, presidente da AMI, anunciou a sua candidatura a Presidente da República. Será relativamente desconhecido em Portugal, excepto para o meio mais ligado à “cooperação” (Ajuda Pública ao Desenvolvimento, Ajuda Humanitária) no qual é personagem conhecida. A sua candidatura provoca-me duas considerações simpáticas, ambas no registo do “wishful thinking”, independentes da pessoa em causa, e que procuram abstrair-se dos cenários “conspirativos” que a imprensa logo teceu em volta da anunciada candidatura (“soaristas” vs “alegristas”, “PS vs BE”, etc. e tal):
a) Uma candidatura oriunda deste meio profissional/intelectual, extrovertido por essência, talvez influencie alguma mutação no discurso político num país onde este está pobremente auto-centrado, ao invés das formas de integração internacional radical que a sociedade tem (económicas, educacionais, culturais, institucionais). O que não será totalmente estranho ao crescente apartar entre sociedade e política institucional, à ineficiência desta. E, secundariamente, talvez impulsione uma maior atenção social (mediática também, mas fundamentalmente dos cidadãos) às relações internacionais e no modo como o país nelas evolui.
b) Como adepto da democracia multipartidária e cansado do óbvio esgotamento do quadro actual (o corporativismo cleptocrático do ps, o longo estertor do psd – que lhe sucede ao corporativismo cleptocrático -, a pérfida ascensão do neo-comunismo) é-me simpática a entrada em acção de novos protagonistas democráticos, e a hipótese destes transportarem algumas novas ideias, novas entoações e – e isso seria o fundamental – trazendo novas práticas políticas. Foi um pouco o que esperei aquando do surgimento do MEP. Não significa isto apoio (ou voto) mas pelo menos simpatia, um “vamos a ver”.
Neste quadro dificilmente me poderia ter desiludido mais (ainda que a ilusão não fosse grande) com a entrevista de Fernando Nobre ao Expresso. É o próprio jornal que sublinha algumas das suas considerações nas quais o agora candidato procura traçar a sua especificidade (intelectual, política, pessoal): “”Vontade, todos os candidatos poderão ter. Mas nenhum terá a minha multiculturalidade, a minha lusofonia e mundividência” e em remate quase-final “Eu sou, talvez, o português – porque para mim o português é isso: o mundo, a miscigenação, a interculturalidade“.
Deixemo-nos de rodeios. Isto é o grau zero. A sua geneologia é conhecida, a estufa (a intelectualidade socialista portuguesa finissecular) também. Com estas características Fernando Nobre será – seja como muito improvável presidente, seja como provável candidato – um retrocesso em termos sociais e em termos culturais. Entenda-se, é deste discurso, desta auto-incompreensão, deste “português”, desta poluição que a sociedade portuguesa tem, e definitivamente, que se libertar. Ou seja, é outra a mundividência que urge nos nossos políticos.
O “Prémio Maschamba 2010″ para os melhores excertos de discursos feitos por grandes líderes mundiais nos últimos 50 anos vai para o último discurso.
JOHN FITZGERALD KENNEDY, 27 de Janeiro de 1961
(dirigido aos jornalistas e à imprensa em Washington. Kennedy foi assassinado em 22 de Novembro de 1963)
RICHARD MILHOUSE NIXON, 17 de Novembro de 1973
(defendendo-se em relação ao escândalo de Watergate. Nixon demitiu-se da presidência dos EUA em 9 de Agosto de 1974)
BILL CLINTON, 26 de Janeiro de 1998
(defendendo-se de acusações de que teria tido relações sexuais na Casa Branca com uma jovem de 25 anos, Monica Lewinski. Apesar do desgaste, concluiu o segundo mandato)
JOSÉ SÓCRATES, 18 de Fevereiro de 2010
(defendendo-se de persistentes indícios, baseados em gravações captadas pela polícia, de que engendrou uma conspiração contra meios de comunicação social portugueses para eliminar opiniões contrárias às suas)
A genial Audrey Hepburn enganou-se ao cantar que the rain in Spain stays mainly in the plain. A canção é engraçada e na (maior parte da) verdade. Mas a chuva em Espanha também escorre quase sempre para Portugal.
E política e economicamente, sempre foi e cada vez mais é assim. Foi por isso que, por curiosidade, para tentar estabelecer um contraste com o que se passa em Portugal e também para entender a dinâmica da interdependência entre as economias espanhola e portuguesa, fui ler um pouco sobre o que lá se passa.
Os paralelos são evidentes. Mercê de um lastimável atentado terrorista por uns talibãs marroquinos em 2003 (os exmos leitores devem-se recordar disso), ocorrido escassos dias antes duma eleição parlamentar, os eleitores espanhóis votaram para o poder o actual primeiro ministro, o alto e pouco sorridente José Luiz Zapatero. Que é socialista e em vários aspectos uma espécie de versão local de José Sócrates, menos umas minudências como esta entre Sócrates e a imprensa.
Em 2003, recorde-se, Sócrates era pouco mais que ninguém fora do PS. Mas uma série de trambolhões imprevisíveis na política portuguesa criaram-lhe a oportunidade de ser primeiro-ministro. Ferro Rodrigues, o então secretário Geral do PS, deu-lhe uma dor de cabeça por causa da história da Casa Pia e saiu; Durão Barroso recebeu um convite para ser presidente da Comissão Europeia e saíu; Santana Lopes levou com a “bomba atómica” de José Sampaio e eis que, após uma eleição, surgiu a Era do Socialismo Socratiano.
A memória é curta. Pouca gente hoje se recorda que os primeiros anos de Sócrates foram dedicados a – supostamente – controlar o “monstro” que erra o défice público. Desde que Cavaco Silva tinha saído do poder em 1995, as finanças públicas portuguesas estavam a degradar-se à medida que as transferências da União Europeia secavam mas ermaneciam todos os vícios inerentes.
Estrutralmente, quase nada mudou na economia excepto uma maior eficiência na colecta dos impostos pela mão de Paulo Macedo, um quadro do BCP pago a peso de ouro. Para contrariar os índices, não se cortou nas despesas: aumentaram-se as despesas e aumentaram-se muito mais os impostos em quase todas as áreas. Sócrates tentou, em nome de uma série de profssões de fé socialistas, fazer tudo: reformas contra os lobbies da praxe, obras públicas à fartazana, ajuda aos pobres, manutenção do “estado social”, e os programas com nomes sonantes que eram a marca desta era, desde o Magalhães até ao Rendimento Mínimo Garantido. A economia portuguesa continuou estagnada.
Em Espanha a história era algo diferente. Nos anos 90, Aznar, que era um bocadinho mais de direita, criou um gigantesco boom económico que assentou na especulação imobiliária, apoiado pela enorme baixa nas taxas de juro resultantes da adesão daquele país ao euro. Quando eleito em 2003, Zapatero fez um pouco como Sócrates: deixou tudo mais ou menos na mesma, aumentou os impostos, aumentou as despesas sociais e proclamou que o Socialismo era mais justo e mais Humano. A economia espanhola crescia mais robustamente, mas já se viam as rachas no verniz.
Ambos países sofrem de males crónicos e dramáticos: têm excessiva rigidez nas leis laborais e empresariais, têm populações excessivamente envelhecidas, têm aquele pequeno problema de importarem sempre muito mais do que exportam. Têm burocracias irredutíveis.
A Espanha é importante para Portugal pois é o principal exportador de bens e serviços para Portugal, é o principal importador de bens e serviços portugueses e é dos principais investidores em Portugal. Não foi surpresa quando, logo após eleito, e meteram um microfone à frente de Sócrates, ele só soube dizer “Espanha, Espanha, Espanha”.
E ficou por ali, ficou por ali, ficou por ali.
Em fins de Setembro de 2008, na sequência de uma preocupante subida no preço dos combustíveis, seguida pela falência do Lehman Brothers e o quase colapso dos mercados financeiros internacionais, quase todos os países se ressentiram. O pânico fazia-se sentir nas ruas, nas empresas e em casa das pessoas.
Em ambos os países, liderados por forças socialistas, a reacção foi de suster o pânico nos mercados financeiros locais inundando o sistema com milhares de milhões de euros em liquidez e manter e expandir o nível de apoios sociais, na face de um brusco declínio na actividade macroeconómica. Nisso copiaram os ingleses e os americanos, que mostraram o caminho.
Mesmo assim, o embate foi terrível. Rapidamente, a taxa de desemprego subiu para 10% em Portugal e 19% em Espanha. A actividade económica caiu bruscamente bem como as exportações. Em Portugal, o BPP e o BPN basicamente faliram, custando milhares de milhões de euros aos contribuintes (a contabilidade ainda não está feita). O défice do orçamento em 2009 em Portugal é estimado em 9.5% e em Espanha 11.4% do PIB, sem fim à vista. No caso espanhol, a “bolha” de especulação imobiliária (iniciada por Aznar em 1998) estoirou estrondosamente e os seus efeitos ainda não se fizeram sentir em toda a economia, se bem que o que já se sentiu já teve um efeito arrasador.
Numa Europa enfastiada, surgiu o espectro dos PIGS (abreviatura para Portugal, Italy, Spain and Greece) a afundarem-se e a ameaçarem afundar o experimento europeu com eles. A Grécia, com o problema fiscal mais grave, já está a braços com a necessidade imediata de fazer alguma coisa para equilibrar as suas contas. A Irlanda, igualmente afectada, tomou medidas radicais: cortes imediatos em todos os sectores, começando pelos gastos públicos, o que incluiu os sálários dos funcionários governamentais até ai mais alto nível. A pequena Islândia faliu.
Em Portugal, as informações já publicadas em termos do orçamento aprovado este ano indicam que nada se vai fazer de especial. Prevê-se aumentos significativos nos impostos nos próximos 18 meses e um aumento na tensão social, pois todos vão querer comer e não há pão para todos.
No contexto de nada se fazer de significativo na frente doméstica, e aparte da resolução do enorme buraco fiscal, obviamente, a recuperação da economia portuguesa só poderá assentar em mais exportações, em menos importações, em mais investimento estrangeiro em Portugal e, domesticamente, no corte das despesas públicas.
Só que o principal parceiro para que tal supostamente suceda, continua a ser a Espanha, que tem quase exactamente os mesmos problemas que Portugal.
Portanto, por força das circunstâncias, nos próximos um a dois anos iremos ter a oportunidade de aferir os verdadeiros limites dos paradigmas “socialista” ou “capitalista” dos ibéricos: mais governo e mais impostos, ou mais mercado e mais desregulamentação?
Cruzo o jornal Sol – na versão electrónica - e vejo a SIC na tvcabo. Depois vou ao Rol d’Elos do ma-schamba, seguindo a alfabética ordem – apalpar quais os ecos na longínqua pátria. Acho piada ao que tenho assistido nos últimos dias no bloguismo político português. A ala socialista (e não está só, que há até surpreendentes “companheiros de teclados”) alimenta duas ideias: os outros (a direita) não são democratas e como tal não se podem queixar. E, e é a ideia dominante, a de que na actualidade não há qualquer problema de liberdade, de expressão ou de imprensa (como exemplo paradigmático, Ricardo Costa jornalista na Sic Notícias disse no jornal das 12 que “Não há problema! É um disparate afirmá-lo. É um disparate manifestarem-se. E quando há problemas é por pressões económicas ou políticas. Que é o que agora aconteceu!” – foi minha impressão ou o tipo estava-me a chamar estúpido?).
Entenda-se, na mancha blogal socialista repete-se até à exaustão que não há qualquer problema de liberdade de imprensa/expressão: esse existia apenas no Estado Novo, em muitos isso assumindo um “no nosso tempo”, a tal autoridade biográfica que sempre surge quando não há mais argumentos, a exigência do respeito pelos “mais-velhos”. Nesse sentido é descabido qualquer protesto, inquietação, manifestação. A nenhum deles ocorre (será mesmo?) que em assim sendo em momento algum haverá justificação para protestar, opinar, manifestar sobre tantos assuntos que lhes são queridos: operários, colarinhos-brancos ou agricultores a protestarem contra as condições de trabalho que lhes são impostas? protestos contra o nível de vida, de grupos profissionais (de classes, se se preferir) ou da sociedade em geral? contra o tratamento dado às ditas “minorias” (mulheres, emigrantes, homossexuais, etc.)? contra o centralismo administrativo? contra o estado da Segurança Social? contra o estado, local ou geral, dos serviços de saúde? alunos ou professores (e seus familiares) contra o estado do sistema de educação? Pois em todas estas áreas (e em tantas outras), que foram nas últimas décadas alvos de protestos populares, quase-sempre acarinhados pela dita “esquerda”, há uma realidade incontornável: no tempo do Estado Novo (no “fascismo”) as situações sectoriais e gerais eram muito piores. E, no entanto, isso não implica uma inibição do protesto actual, ou a refutação da sua legitimidade ou propriedade. Tal acontece, tal é defendido apenas neste caso.
É interessante. É verdade que no meio desses blogo-socialistas (e seus agora “companheiros de teclados”) há gente que é mera funcionária do poder, anónima ou não. E que alguns outros teclam a troco de interesses (interesseiros ou interessados, o que são coisas bem diferentes). Mas para muitos, e penso em alguns velhos confrades bloguistas que imagino gente-gente, quero crer que ainda vão resmungando: quão difícil é ser socialista em tempos de tal califa.
Aspecto de uma das t-shirts exibidas na manifestação em frente à Assembleia da República
por ABM no texto e MVF nas fotos (São Bento, Lisboa, 11 de Fevereiro de 2010)
Pelo menos cinco Maschambeiros compareceram ao princípio da tarde para participar na manifestação, para que foram convocados os signatários de um grupo onde já pontificam cerca de vinte mil nomes, em sinal de preocupação com as alegadas esforços de violação ao direito à liberdade de expressão.
ABM, Pedro S, Jaime S, Marta R e Miguel VF aproveitaram o lindo sol (o astro, não o jornal) que se fazia sentir à hora de almoço para se juntarem aos cerca de cem manifestantes e um número considerável de profissionais da comunicação social, para criarem o que foi um evento algo mediático, dado não só o tópico, mas a tensão daquele momento, sendo que por essa hora já se sabia de uma decisão de um tribunal local de procurar impedir o Sol (o jornal, não o astro) de amanhã publicar uma segunda série de revelações relacionadas com supostos esforços do actual executivo de influenciar o que sai nas notícias em Portugal.
A decisão do tribunal foi solicitada por um administrador do Grupo PT com ligações ao PS, com vista a proteger o sigilo do conteúdo das conversas havidas em torno dos esforços do executivo de Sócrates de afectar o tratamento das notícias na estação de televisão da TVI. Recorde-se (já mencionado neste blogue) que desses esforços resultou a saída de José Eduardo Moniz e a extinção de um programa de notícias da responsabilidade da jornalista Manuela Moura Guedes, ambos ostensivamente hostis ao governo do dia e em particular ao PM.
O esforço, primariamente dos organizadores do grupo de apoiantes de Mário Crespo do Facebook, resultou, na medida em que os media reproduziram as preocupações expressas pelos presentes com a liberdade de expressão.
Houve algumas desinteligências na missão Maschambiana. Miguel VF não conhecia ninguém, que não o conhecia a ele (a nossa prezada initimidade é prezada mas é recente), Marta R veio sem avisar e estava do outro lado da manifestação, ABM, Pedro e Jaime enganaram nas horas e chegaram cedo uma hora, pelo que decidiram passar essa hora a comer rissóis e sandes de peixe espada com Coca Cola numa tasca boa e baratinha mais acima na rua de São Bento, mesmo em frente à casa onde viveu Amália Rodrigues, e depois ficaram sentados mais ou menos à frente da Fundação Mário Soares, a banharem-se no sol (o astro) enquanto os manifestantes se iam congregando.
O aparato de carros-satélite de televisão e de polícia e de barreiras era quase caricato para um grupo eminentemente pacífico e erudito. A manifestação acabou por ser uma pacata conversa entre jornalistas, os líderes da pandilha e o ocasional político ou activista que produziu meia dúzia de sound e videobytes para as cadeias.
Por volta das 14 horas todos arrumaram as botas e foram para casa ou de volta para o trabalho.
Entretanto é meia-noite e o Sol está nas bancas com mais revelações.
As fotos:
A manifestante número 1 (foi a primeira a chegar)
A peitção do grupo em defesa da liberdade de expressão
Aspecto dos manifestantes em frente à Assembleia da República
Mais um aspecto da manifestação
Dentro da AR, o parlamento debatia e aprovava o orçamento de Estado para 2010, que foi aprovado e o tal que é suposto "baixar" o défice para 8.5%
As carrinhas das estações de televisão estavam em peso em frente à AR
ABM bebe água do Luso e posa em frente à Fundação Mário Soares, em frente à AR (foto JS)
Adenda de jpt: quem quiser ver a “nossa” Marta na manifestação é espiar aqui.
Dos arquivos, 45 segundos da oratória do Grande Comunicador.
Repare o exmo leitor num detalhe precioso: ao contrário daquela gente toda que está atrás do PM, a senhora que faz a versão gestual do discurso no quadradinho em baixo à direita não se partiu a rir.
Há uns tempos atrás expressei alguma preocupação com algumas ocorrências visíveis na vida desta república portuguesa.
Nomeadamente, questionei-me, em voz alta, porque é que um juiz em Aveiro, que estava a gerir um processo judicial com o fim de apreender factos que confirmassem as suspeitas de negócios sujos, envolvendo pessoas que à partida deveríamos presumir estarem a agir de forma insuspeita, apanha, através desse trabalho, o que na altura apelidou, num requerimento, de “crime contra o estado de direito”.
Isto a menos de três meses de uma eleição com desfecho imprevisível (apesar de uma oposição reconhecidamente incapaz), no meio de uma crise económica sem precedente recente, e pouco depois de uma longa sequência de passos legais que mais uma vez deixaram no ar o que foi que aconteceu há uns anos atrás com a aprovação pelo governo de um grande centro comercial na margem sul do rio Tejo, chamado Freeport.
No entretanto, entre outros episódios algo rocambolescos, rolam as cabeças do Administrador de uma estação privada, da sua algo sonora mulher, que patrocinava um mordaz noticiário nas sextas-feiras à noite, e do respeitado director de um jornal de Lisboa que pertence à insuspeita Sonae. Surgem notícias de que uma companhia de telefones com sede em Lisboa expressa um súbito interesse “estratégico” pela compra da referida estação. Não aconteceria, mas a inexplicada decisão foi tomada de rescindir com o Administrador e marginalizar a senhora. Lentamente, alguma imprensa vai providenciando detalhes de todas estas operações, evidenciando longos tentáculos e milhões de euros na mesa, o que é curioso dada a clara crise que assola o sector da comunicação social portuguesa.
E, há pouco mais que uma semana, um jornalista que considero credenciado malgré os suados esforços de intoxicação ideológica por parte de um poeta equivocado e já relevado nesta casa, tomou a extraordinária iniciativa de, na primeira voz, basicamente tentar denunciar que havia uma “lista de abate” e que ele era o alvo a seguir. Para variar, o jornal onde esse libelo (um artigo de opinião assinado) era para sair, declinou a sua publicação.
Por coincidência, durante o fim de semana passado, o Sol, um semanário de Lisboa, seguido pelo mais popular Correio da Manhã, dão os detalhes ínfimos do que é que foi que o tal Senhor juíz de Aveiro ouviu e disse, que o levou a achar que estava a assistir ao que só poderei chamar uma conspiração, orquestrada a partir dos mais altos níveis do actual governo, de condicionar a imprensa portuguesa e o presidente de Portugal, em defesa dos seus interesses apercebidos.
Num sábado à noite, dois dos mais altos magistrados do país disseram que afinal estas provas não evidenciavam crime. E mandaram destruir os dados recolhidos – principalmente, registos telefónicos e e-mails.
A particularidade deste ambiente é que todo ele tem apenas um e o mesmo epicentro: a pessoa do actual primeiro-ministro de Portugal. José Sócrates.
Os seus detractores fazem-lhe várias acusações. Que é medíocre, falso, ditatorial, manipulador, apegado ao poder. Que não gosta de uma imprensa livre. No limite, que é criminoso. Por tabela, a mesma acusação pesa sobre os seus associados políticos.
Há algo no entanto que se torna evidente ao observador casual: a forma do exercício do poder depende de facto muito da personalidade daquele que o exerce.
Mas também depende de sobre quem ele é exercido e dos mecanismos (em inglês diria checks and balances) através dos quais é exercido.
E isso neste caso são todos os portugueses que o rodeiam e o sistema que emergiu após o pronunciamento militar feito em Abril de 1974.
Por três razões muito simples.
1. Tirando a perversãozinha operada por Oliveira Salazar durante mais que quarenta anos, o sistema constitucional e político que emergiu em 1974 é na verdade bastante semelhante ao que o precedeu, com raízes que remontam até 1820. Um parlamento é eleito que elege líderes que formam governos, os chefes de Estado (reis e presidentes) exercem um magistério de “moderação” perante os governos que lhes são apresentados. Ora isso significa que, não havendo uma maioria absoluta parlamentar, o exercício do poder é extremamente mitigado pela sua efectiva fragmentação e pela capacidade das oposições de bloquearem os programas. O mais que um presidente – qualquer presidente – pode fazer é pronunciar vagos apelos ao bom senso e ao “sentido de estado” – ou tornar-se ditador. D. Carlos e Sidónio foram assassinados com essa desculpa;
2. Portugal é totalmente viciado na governamentalização e burocratização de todos os aspectos da sua vida. Os portugueses dizem que não gostam mas no fundo gostam, adoram, a “mama” do Estado. Desde a mama das caravelas na Índia, à mama do Brasil, à mama de África e à mais recente mama dos fundos europeus. O negócio é o Estado e o Estado acaba por ser o negócio. Gostam de ver o estado metido em tudo, que o Estado decida tudo, que o Estado autorize tudo, que o Estado legisle tudo. Que o Estado pague tudo. Os resultados desta atitude são que o Estado em tudo está presente, em tudo decide, em tudo legisla, e, mais importante, desta atitude decorre que a quem gere o Estado são conferidos os mais extraordinários poderes que dilaceram qualquer hipótese de uma gravitação da vida nacional para as mãos dos cidadãos e das empresas e organizações que não são do Estado. Que por sua vez e por falta de melhor, optam por viver à sua sombra. Como corolário desta afirmação, aqui estamos em 2010 com um Estado que devassa e avassala e que está arruinado e ameaça arruinar, dando em troca aeroportos que não vai haver dinheiro para pagar, caminhos de ferro que não vão ser usados, auto-estradas que se calhar não são precisas agora, subsídios com dinheiro que não há, reformas que se calhar não foram merecidas e que de qualquer maneira não vão dar para a maioria dos que as recebem, viverem decentemente;
3. Decorrente do ponto anterior, existe a gestão de uma imensidão de entidades públicas, privadas e semi-públicas que são do Estado. Por razões ideológicas de sinal perfeitamente oposto, fez-se isso nos 35 anos antes de 1974 e nos 35 anos que se seguiram, o que diz muito. Inclusivé muitas das privatizações que se fizeram foram feitas a entidades escolhidas a dedo, com compadrios ou participações indirectas do Estado ou, como é o caso com, por exemplo, a PT, que, com umas mistificantes 500 golden shares, lhe conferem efectivamente o poder de fazer o que se quer quando se trata do governante. A companhia aérea portuguesa já custou centenas e centenas de milhões de euros aos contribuintes e a sangria continua. A RTP custa centenas de milhões de euros aos contribuintes mas ninguém protesta. Economicamente, Portugal sempre conviveu muito mal com o capitalismo liberal e a resposta sempre foi com mais intervenção estatal.
E quem manda nisso tudo?
Manda quem manda no Estado.
E é precisamente este o Portugal que o Sr. Sócrates, um seu filho pródigo, formado nas catacumbas de um PS que disputa o poder há 35 anos seguidos, herdou quando o Sr José Barroso arranjou um emprego melhor em Bruxelas e o Sr. Santana Lopes….nem sei bem o que Santana Lopes fez.
Sócrates herdou este Portugal com todos os instrumentos, todos os mecanismos, todos os vícios, todas as atitudes, todas as expectativas, todos os compadrios que vinham de trás. Ele é o patrão da TAP, da Caixa Geral, da EDP, da RTP, da Carris, ele é o adjudicador de todas as grandes obras de regime, o supremo legislador, o grande Decisor.
O Grande Patrão.
E as pessoas no fundo gostaram. O exmo leitor não se lembra? Estavam todas fartas de vários anos de falinhas mansas do Sr. Guterres mas principalmente da sua indesculpável indecisão. Este Sócrates decidia. Este sabia que tinha que decidir. E assim fez. O socialismo socratiano foi sempre, tem sido, uma vigorosa marcha em frente, mesmo que em direcção ao abismo, acompanhada de enorme aparato mediático, com nomes geniais como “programa de estabilidade e crescimento”, “novas oportunidades”, “plano tecnológico”, os ministros feitos vendedores de emplastros milagrosos em tempo nobre de televisão.
Em 2005, recorde.se, Portugal já estava em declínio há dez anos seguidos e com défices já considerados inaceitáveis. Cortou Sócrates as despesas? Não. Aumentou-as e subiu ainda mais os impostos, no que foi ajudado pela equipa de Paulo Macedo nos impostos. O povo, esse embebedava-se com dívidas e mais dívidas e o habitual mesmismo.
A seguir, em 2008, o mundo abanou devido à estupidez americana e o que fez Sócrates? Aumentou ainda mais as despesas e manteve os impostos. Havia eleições. O pais aproximou-se de uma situação insustentável. Mas não faz mal: os outros também estavam mal e por isso estava tudo bem.
Não havia oposição. Sentido o caos total no principal partido da oposição, o PSD, as hostes dividiram-se para um lado e para o outro. Na eleição de 27 de Setembro, o PP recebeu uns votos do lado direito e do outro lado apareceu, emparedado pelo inamovível PCP, mais uma esquerda chique, uma coisa chamada Bloco de Esquerda, dez por cento do voto nacional mas nem uma câmara municipal trinta dias mais tarde. Milagrosamente, certamente fruto da sua impenitente generosidade para com os funcionários públicos e toda a demagogia na face de tempos muito incertos, o partido socratiano ganhou a eleição mas perdeu a maioria absoluta no parlamento.
Ou melhor, havia alguma oposição. Mais ou menos. A oposição aparecia avulsamente em artigos de jornais, em programas de televisão, em debates, através de pessoas quase improváveis, como Medina Carreira, Rebelo de Sousa, Moura Guedes e Mário Crespo e uma pequena legião de jornalistas que tentavam seguir histórias como a tal do centro comercial Freeport, contra a mais fantástica resistência que já se viu ao apuramento da verdade, a justiça portuguesa quase a arrebentar pelas costuras devido às pressões. A atenção centrava-se em Sócrates himself.
Ora o Grande Patrão, o grande decisor que sabia agir, agiu tal e qual como o sistema era e lhe permitia. Ele não gostava de ser criticado desta forma na imprensa. E assim, munido de todos os instrumentos que o sistema lhe disponibiliza e dos poderes que o cargo lhe confere, ele não reconhece legitimidade a esse tipo de oposição e pelos vistos manifestou-se disposto a eliminá-la administrativa e discretamente.
Só se reparou porque, de imprevisto,no meio do verão, um juiz em Aveiro que estava a investigar uns vulgares crimes de corrupção começou a escutar uma sequência de conversas telefónicas que indicaram os vastos e subterrâneos tentáculos do poder em Portugal.
De quem é a responsabilidade disto tudo?
Para mim esta questão não se coloca.
Sócrates está feito para Portugal como Portugal está feito para ele.
Há alguns dias atrás muito aqui se escreveu sobre o passado colonial português. Eu fui avançando a minha perspectiva sobre muitas das ideias – a maioria delas - que em Portugal ocorrem sobre o assunto: são mero material para falar (mal, obscuramente e por vezes desonestamente) sobre a actualidade. A esse propósito é interessante ver o que se passa nestes últimos dias: uma polémica política a propósito do jornalista Mário Crespo, sobre a qual não tenho particular ideia – li, na diagonal, algumas coisas escritas seja pelo próprio (aqui transcrito pelo ABM) seja em alguns blogs. Não leio os jornais onde Crespo escreve, não vejo a televisão onde Crespo trabalha, tenho dele uma muito distante imagem.
Mas o que me é particularmente significativo é como até para este caso se utiliza o passado colonial português, e de uma forma absolutamente típica. Que um blog como o Arrastão publique isto não chega a ser surpreendente – será apenas a confirmação daquilo a que o bloguista (também do Arrastão) Rui Bebiano considera os meus preconceitos. Mas ainda me surpreende que um homem como Eduardo Pitta, do Da Literatura, e a propósito da polémica entre o actual governo - de quem é apoiante - e o referido jornalista, suba a parada, vá à mesma arca e ensaie um assassinato de carácter associando Mário Crespo ao massacre de Wiryamu. O mal, e eu acho que o mal é para Eduardo Pitta, é que uma coisa destas já não é inacreditável. É mesmo acreditável. Vergonhosa e lamentavelmente acreditável.
Mário Crespo, o único anchor a sério de uma cadeia de televisão que existe em Portugal em 2010 (made in Moçambique, ao contrário do outro, que é bom mas nada que se compare) escreveu um artigo de opinião muito sério que um jornal da cidade do Porto se recusou a publicar, pelo que ele saiu num obscuríssimo canto duma obscura fundação por obscura razão. Parece-me que o jornal do Porto perdeu um furo dos antigos. Vá-se lá entender.
O que ele escreveu:
Terça-feira dia 26 de Janeiro. Dia de Orçamento. O Primeiro-ministro José Sócrates, o Ministro de Estado Pedro Silva Pereira, o Ministro de Assuntos Parlamentares, Jorge Lacão e um executivo de televisão encontraram-se à hora do almoço no restaurante de um hotel em Lisboa. Fui o epicentro da parte mais colérica de uma conversa claramente ouvida nas mesas em redor. Sem fazerem recato, fui publicamente referenciado como sendo mentalmente débil (“um louco”) a necessitar de (“ir para o manicómio”). Fui descrito como “um profissional impreparado”. Que injustiça. Eu, que dei aulas na Independente. A defunta alma mater de tanto saber em Portugal. Definiram-me como “um problema” que teria que ter “solução”. Houve, no restaurante, quem ficasse incomodado com a conversa e me tivesse feito chegar um registo. É fidedigno. Confirmei-o. Uma das minhas fontes para o aval da legitimidade do episódio comentou (por escrito): “(…) o PM tem qualidades e defeitos, entre os quais se inclui uma certa dificuldade para conviver com o jornalismo livre (…)”. É banal um jornalista cair no desagrado do poder. Há um grau de adversariedade que é essencial para fazer funcionar o sistema de colheita, retrato e análise da informação que circula num Estado. Sem essa dialéctica só há monólogos. Sem esse confronto só há Yes-Men cabeceando em redor de líderes do momento dizendo yes-coisas, seja qual for o absurdo que sejam chamados a validar. Sem contraditório os líderes ficam sem saber quem são, no meio das realidades construídas pelos bajuladores pagos. Isto é mau para qualquer sociedade. Em sociedades saudáveis os contraditórios são tidos em conta. Executivos saudáveis procuram-nos e distanciam-se dos executores acríticos venerandos e obrigados. Nas comunidades insalubres e nas lideranças decadentes os contraditórios são considerados ofensas, ultrajes e produtos de demência. Os críticos passam a ser “um problema” que exige “solução”. Portugal, com José Sócrates, Pedro Silva Pereira, Jorge Lacão e com o executivo de TV que os ouviu sem contraditar, tornou-se numa sociedade insalubre. Em 2010 o Primeiro-ministro já não tem tantos “problemas” nos media como tinha em 2009. O “problema” Manuela Moura Guedes desapareceu. O problema José Eduardo Moniz foi “solucionado”. O Jornal de Sexta da TVI passou a ser um jornal à sexta-feira e deixou de ser “um problema”. Foi-se o “problema” que era o Director do Público. Agora, que o “problema” Marcelo Rebelo de Sousa começou a ser resolvido na RTP, o Primeiro Ministro de Portugal, o Ministro de Estado e o Ministro dos Assuntos Parlamentares que tem a tutela da comunicação social abordam com um experiente executivo de TV, em dia de Orçamento, mais “um problema que tem que ser solucionado”. Eu. Que pervertido sentido de Estado. Que perigosa palhaçada.
O que eu acho que Mário Crespo na verdade queria dizer em vez do que escreveu em cima (ou complementarmente):
Palácio de São Bento. Sobre as características morais e intelectuais de José Socrates, aqui residente, e dos seus esbirros um texto total: “O gay egoísta”, no A Natureza do Mal. E há quem os apoie …
Palácio de Belém. Manuel Alegre candidatar-se-á à presidência da república, aqui proprietária. Vai já uma azáfama (até eu recebo convites para apoiar o ilustre poeta!). No Trinta e Um da Armada uma pequena nota, absolutamente letal sobre a tolice radical do agora candidato. Mas ainda assim, “ele” há quem o apoie.
O exmo leitor que desculpe a imagem, só queria ver se andava mesmo à roda.
Enquanto serenamente lia os meus e-mails ao fim desta manhã, a estação de rádio lisboeta TSF transmitia ao vivo do parlamento português a gritaria que pelos vistos antecedeu a votação (e posterior aprovação, a crer nas notícias) de um diploma que, a ser ratificado pelo presidente da República, extende, com uma aparente interdição à adopção, o casamento civil a pessoas do mesmo sexo.
A interdição à adopção por estas pessoas é, parece-me um preciosismo algo insípido senão inconstitucional por via do Tribunal Europeu dos Direitos do Homem, que, na actual conjuntura manda mais que o que quer que seja que os parlamentos da União Europeia legislem. Mas, hipoteticamente, se então se levar até às últimas consequências esse raciocínio, o Estado deveria também tomar providências para confiscar os filhos a qualquer pai ou mãe que pratiquem aquilo com alguém da mesma persuasão sexual.
Decorre, não é?
A parte que achei mais piada foi aquela em que, aludindo a uma sugestão creio que de um senhor qualquer do PSD, que o tal de casamento civil não fosse chamado “casamento civil”, um outro senhor qualquer do PS perguntou, alarmado, que anotação se inseriria então, quanto ao estado civil, nos bilhetes de identidade dos, presume-se, felizes usufrutuários (e usufrutuárias) desta medida.
Recordo que as actuais opções são: solteiro (SOLT), casado (CAS), divorciado (DIV) e víuvo(VIU).
Atenta, a Patroa postula que os gays são todos gajos porreiros mas um tanto destravados e concorda que o nome deve ser reservado para a Heteromaioria e sugere o termo “contrato de união”.
Sendo que nesse caso a abreviatura a aparecer no BI seria, naturalmente … “CU”.
Como os exmos leitores podem ver, enquanto se afunda alegre e suavemente numa lama de dívidas e de insustentabilidades, o desemprego já a 10.3% e a agravar-se, o país dos lusos enfrenta decisões traumatizantes como esta: qual a abreviação a pôr no BI para isto do casamento das pessoas do etc e tal.
Também a crer nas notícias, o carnaval ainda vai durar uns tempos até que o assunto esteja resolvido.
Confesso que o que me chocou mais (num contexto em que já quase nada me choca, claro) foi quando há alguns anos passou-se uma fascinante legislação a regular uma coisa fantasmaglórica chamada “união de facto”. Essa, sim, um verdadeiro atentado ao casamento civil, mas na altura poucos sequer comentaram. E está na lei.
Boa sorte a todos.
Interessante coincidência foi ter-me hoje apercebido, via a BBC World Television há bocado, e que confirmei, de que, na nação africana do Uganda, a conversa vai precisamente na direcção contrária: para além de legislação draconiana contra quaisquer vislumbres de homosexualidade na população, os legisladores ali queriam afinar ainda mais a coisa para incluir, entre outros embelezamentos que incluiam a pena de morte para certos actos de violência lá tidos como parte do que lá consideram “homosexualidade”, os seguintes:
- a proibição e criminalização da discussão da homosexualidade em público.
- a proibição e criminalização do aluguer de casas ou apartamentos a casais do mesmo sexo (presumo que espreitando à noite pela janela para ver se os ditos andam a fazer aquilo).
Precise-se que, nos termos do código civil local, qualquer manifestação de homosexualidade neste momento já é ilegal e punível por lei, nalguns casos com a pena de prisão perpétua.
Segundo a notícia que li, pressionados pelos EUA e pela União Europeia, que acham aquilo um bocadinho exagerado, os políticos ugandeses, que afinal são todos uns gajos porreiraços e boa gente, estão a pensar atenuar vagamente a coisa um nadinha apenas, para calar os doadores que no fundo os sustentam, passando tudo o que é morte por fuzilamento para uma mais amigável pena de prisão perpétua.
Como aquilo é mais ou menos uma ditadura, quem vai decidir tudo no fim é o presidente, o Senhor Museveni, que já teve o seu país nas notícias por melhores assuntos que perseguir os seus cidadãos que fazem aquilo. uns com os outros.
* descrição do acto sexual na língua ronga, falada no extremo sul de Moçambique.
2. Crise. Qualquer emigrado português sabe que ir à “terra” é para ouvir os constantes lamentos dos amigos, da família, dos populares, com a “crise”, e etc. e tal. Mais agora, com a desgraça internacional a repercutir-se nos dois milhões de portugueses abaixo do limiar da pobreza, mais de dez por cento de desempregados, o país sem luz ao fundo do tunel, sem projecto. E depois … basta ver o potlatch radical dos últimos dias antes do tal solstício dito Natal! Basta perguntar no talho, no café (o bolo-rei), na livraria, na loja de brinquedos, nos restaurantes e afins, etc e tal vinícolas e isso, o obrigatório “então, e este ano como vai?”. Crise? Já lá vai, que “estamos melhor que o ano passado”. Crise? Como crise se a felicidade está ali mesmo, nos balcões dos chópings? E tudo segue, no dia 26 abrem os saldos e as multidões reiniciam o seu caminho de cigarras. O vazio (versão portuguesa do conradiano “horror”).
[Fotografia de inscrição ao Teatro Politeama, Lisboa, Dezembro 2009]
3. A gula. Crise? E é um “trocadilho” fácil, o com esta campanha de época, o tome atenção aos AVCs que encheu os painéis das cidades. Crise? Só se for a da gula, essa motriz dos AVCs. No fundo o símbolo da Europa Ocidental, obesa, no seu estertor. As causas? Exactamente a tal falta de visão, de preocupação. De razão. Tudo isso do a cada um o seu sapatinho, e nada mais … Aliás, a cada um o seu sapatão.
4. Paulo Duarte, afirma-se de origens humildes, foi um futebolista modesto e não enriqueceu, é agora o seleccionador do Burkina-Faso. Deu uma entrevista ao jornal Record. Interessantíssima, muito para além do patois futeboleiro habitual. De como olha o país africano para onde, surpreendentemente, foi trabalhar há já dois anos. E de como reconhece que para preconceitos era ele que os carregava ao início. Mas mais do que isso, também ele de longe a re-olhar os seus patrícios: “Se as queixas, por isto ou por aquilo, fossem modalidade olímpica, os portugueses estariam cobertos de ouro. Somos muito assim. Completamente. As dificuldades da vida são muitas, para toda a gente, mas há coisas que não podemos esquecer: a maior parte dos portugueses que vive mal tem uma casa, duas televisões, um vídeo, dois telemóveis, dois carros, um emprego, mal remunerado mas temos, tem água, tem luz, tem gás, tem comida na mesa, tem roupas adequadas ao clima. Com maior ou menor dificuldade, chegue o dinheiro ou não ao fim do mês, tem isso tudo“. Sei que é muito fácil apupar este tipo de visão. Mas seria conveniente que os habitantes de um país que não produz o que tanto consome pensassem um pouco no facto de que a sua ladaínha lamurienta não encanta (enfeitiça) os que de longe os assistem. Fica o meu desejo das maiores felicidades a Paulo Duarte, homem a pensar. Força Burkina-Faso!
5. Quadra natalícia: Eu também! Pois se o mito sublinha o amor transposto para o espírito de dádiva neste emigrante o real é a volúpia da posse, sacos de auto-prendas esquecendo-me dos “entes queridos”, esvaziando-me o porta-moedas extinto que foi, e já em tempos, o cartão de crédito, malfeitoria ocidental. Malditas livrarias ….
6. Saúde. Viver em flat e enfrentar tantas proibições tabagísticas em locais públicos: assim a fumar bem menos.
7. Oferta infantil. Uma enorme oferta de espectáculos e actividades infantis. Gloriosa. Diz quem sabe que este Corcunda de Notre Dame foi do melhor que já viu, e já viu várias coisas.
8.Cultura. Na revista “Os Meus Livros” (nº 82, ano 7, 12.2009) a coluna “Caldeirada de Letras” (p. 52) contém um acertado texto da autoria de Luís Graça: “Astérix Ortografix“. A propósito da edição do “O Aniversário de Astérix e Obélix, o Livro de Ouro” (fraquinho, já agora) uma crítica as novas traduções dos nomes das personagens, um incompetente ataque à tradição asterixiana. (Algo que em tempos já aqui referi).
9. Surpresa. Encontro o Bartis (ok, o Bar Artis) reaberto. Um ícone do Bairro Alto, ali à Diário de Notícias, agora com nova gerência (propriedade dos donos do velho restaurante “Sinal Vermelho”), a vender apenas produtos portugueses (quer um whisky, um gin, um vodka? Beba aguardentes vinícolas – aprecio o acto). Mas mais do que isso – e ainda que lamentando isso do balcão estar agora ao fundo da sala – de louvar a reabertura de um local biográfico. Mesmo que já sem o seu velho proprietário, o célebre Mário, e – aí sim, lamentavelmente – desprovido da lendária Paula, rutilante alma. Mas está lá o Bartis ….
10. Inteligência: a primeira auto-prenda, logo no dia da chegada, este “De Marx a Darwin. A Desconfiança das Ideologias” (Gradiva, 2009), um para mim desconhecido livro de Onésimo Teotónio Almeida. O autor é um homem inteligente, o livro idem. Uma delícia, sobre paradigmas cientificos, suas características e limites, e ainda da hipotética relação da ciência com a religião, da ética com a lei. Para mais muitíssimo acessível (efeitos da tal inteligência). Deixo uma citação. Que é letal para alguns meio lusos, e não é preciso recuar ao guterrismo: “Nem tudo na ética está codificado na lei, a lei civil é apenas a imposição da obrigatoriedade de uma ética mínima para o funcionamento das sociedades. Mas se a ética transcende a lei, e por vezes choca com ela, ambas têm os mesmos alicerces. Os debates legais resultam de confrontos entre valores éticos, de combates morais, e nem todos conseguem reunir consensos que se traduzem no estabelecimento de normas legais (ou, pura e simplesmente, de leis sancionadas pelos tribunais e pelas forças do Estado que velam pelo seu cumprimento), contudo muitos valores morais não precisam de ser codificados em lei. Há normas éticas aceites pela maioria que nunca foram consignadas em nenhuma legislação. Os ventos da história e o rumo de cada cultura acaba conseguindo para esta ou aquela norma ética um estatuto legal. Mas nunca a lei cobre todo o domínio da ética, até porque nela, a ética, há um mínimo que suporta legislação (o domínio do dever), porém existe um outro bem mais vasto, o da virtude – a arethé grega – que não poderá nunca ser legislado.” (125)
11. Drama. Rui Santos sobre o Sporting. O jornalista em causa capta pouca adesão – como o prova o baixo número de subscritores das suas incessantes petições informáticas, abundamentemente publicitadas em inúmeras horas televisivas (basta compará-las com as petições lançadas in-blog para comprovar essa sua fragilidade). No entanto a sua denúncia sobre a destruição do Sporting Clube de Portugal por parte do núcleo socioeconómico, em tempos albergado sob o epíteto “Projecto Roquette”, é inultrapassável. E de registar pois estabelecida em jornal de grande divulgação. E, por extrapolação, diz muito sobre o Portugal de hoje, esse da cega aceitação de auto-anunciadas elites sublinhada pela “falta de alternativas”.
12. Capitalismo. A edição portuguesa está pelas “ruas da amargura”. Sob a tutela dos interesses comerciais, de grupos editoriais desligados da cultura (e, porque multinacionais, do contexto nacional). E esmagada pela pressão oligopolista dos grandes potentados livreiros, também eles apenas virados ao lucro. Assim se apaga a hipótese da edição ensaística e apenas subsiste a chamada “literatura leve”, a capa brilhante, o conteúdo inexistente, a forma “plana” – em particular expressa nos registos da “exo-ajuda” e do chamado “romance histórico”.
Prova dessa superficialização produzida nas grandes superfícies encontro-a na FNAC do Chiado, chego à secção dos livros e deparo-me com o primeiro escaparate – aquele que me recebe e me despedirá, dentro de algum tempo, portanto o que mais apelará à aquisição. Uma das faces para a literatura nacional (prosa) considerada relevante (os peixotos, cachapas, saramagos, lobos antunes, tordos e torgas e isso). A outra face de prosa estrangeira, e não resisti a transcrevê-la, para aqui comprovar o “estado da arte” a que se chegou, do esmagamento cultural por via do comércio (do capitalismo, por assim dizer). São 18 colunas, cada qual com quatro livros, novas edições (traduções) ou recentes reedições. Por mim recenseadas, como denúncia. Apresento apenas os autores, para economia de ma-schamba. Eis então o painel do escaparate melhor situado:
1. Bernhard; Bernhard; Mishima; Mishima. 2. Beckett; Walser; Walser; Mme Lafayette. 3. Hesse; Hesse; Jane Austen; Jane Austen. 4. Hemingway, Dumas, Diderot, Dickens. 5. Iris Murdoch, Iris Murdoch, Rilke, Colette. 6. Susan Sontag, V. Wolff, V. Wolff, Lampedusa. 7. Thoreau, Flannery O’Connor, Orwell, Orwell. 8. Maugham, Mann, Beckett, Mailer. 9. Daphne du Maurier, Céline, Saint-Exupery, Walty. 10. Flaubert, Yourcenar, Yourcenar, Hsek (?). 11. Kafka (X4). 12. Aitmatov, Kafka (X3). 13. Jack London, Boris Vian, Victor Hugo, Lautréamont. 14. Proust, Proust, Calvino, Calvino. 15. Calvino (X4). 16. Calvino, Pasternak ,Turgueneev, Gogol. 17. Tolstoi, Zweig, Svevo, Bulgakov. 18. Dostoievski, Dostoievski, Lidmila Ulitsvaia (?, será assim?, não conheço), E. Waugh.
Lastimável. Esta prática comercial, esta subjugação editorial. O primado da mediocridade. Efeitos, necessários entenda-se, do capitalismo. Vil.
13. O Charme Discreto da Burguesia. Olivais-Sul, Lisboa, Dezembro de 2009.
14. Império. A Ler (nº 86, Dezembro de 2009), coluna “Booktailoring”, de Paulo Ferreira e Nuno Seabra Lopes. Procurando um registo cómico em futebolês (o dia em que os humoristas escreverem em raguebês ou golfês será bem arejado…) o texto ”Um jogo entre linhas“ que aponta os “jogadores mais influentes do mercado editorial português em 2009“. Não vou discutir os critérios. Apenas o eco da minha reacção: “tenho que ter cuidado, pareço da patrulha ideológica“, resmungo-me. Pois na “selecção nacional” deles lá estão o Agualusa e o Mia Couto. Sim, eu sei que na selecção de futebol estão o Liedson, o Pepe e o Deco. Mas nesta, na literária, não há brasileiros. É, na cabeça dos humoristas, uma selecção portuguesa de Portugal, mas afinal uma transpiração da pobre lusofonia. Ou seja, e isto muito para além dos escritores em causa, da cabeça dos humoristas ninguém retira(ou) o Império. Nem na Ler… Absurdo. Mas um absurdo sintomático.
15. O jornal I é o melhor jornal nas bancas. Já no Verão passado me parecera tal. Agora confirmam-me tal alguns amigos. Alguns até acompanham a opinião com um “é de direita mas …”. Mas digo eu, que o vejo sem publicidade e oferecido nas bombas da Galp. Mau sinal? A ver se se aguenta …
16. Delícia. Inúmeras bancas de livros em saldo (aliás, monos), um “apelo às dádivas”. Nelas sempre se encontram exemplares desta bela colecção “Horas Extraordinárias” que o Independente foi publicando há alguns anos. Cada vez que em Lisboa lá carrego alguns. Agora é a vez (a 2,5 euros, imagine-se) de adquirir este saborosíssimo “Bilhetes de Colares de A.B. Kotter (1993-1998)“, “porventura” de José Cutileiro. Obrigatório regressar a esta Quinta da Beldroega, sita na Várzea de Colares, seus habitantes e visitantes, ponto máximo de observação deste país. Pelo olhar-mestre do Senhor Doutor Kotter, traduzido pelo ex-comando J. Fonseca, fiel à máxima de que “Como a leitora sabe, eu nunca me imiscuo na política deste maravilhoso país que tão generosamente me acolhe no seu seio. Não cabe a um estrangeiro fazê-lo; menos ainda a um estrangeiro sem razões de queixa.” (66). Ainda que com ele se possa discordar, por vezes, como aqui: “Já tentei explicar-lhe que o snobismo não é tão mau como parece porque, vistas bem as coisas, sempre é o contrário da inveja…”. Discordância que, se seguida, levaria por caminhos muito diversos. Mas mais do que a justificar a corrida aos monos…
17. Política. Nenhum dos meus amigos – desses que cada vez menos encontro -, nenhum dos meus familiares, nenhum dos teclistas lidos in illo tempore, enfim nenhum desses que tanto vituperaram (vituperámos) o “fontismo” cansado, travestido de “desenvolvimento”, do primeiro-ministro Cavaco Silva tem agora uma palavra irritada contra o proto-fontismo de José Socrates. Mas para quê falar, se é para falar encastrado?
18. Jonhy Lyndon (ex-Rotten). Amália. Coração Independente (no CCB). Não sou um amaliano, ainda que nela possa actualizar (reconheço, até acabrunhado) a expressão “de ir às lágrimas”. Pois ainda que não o seja (amaliano) saí preenchido da exposição. Para logo quem ali a meu lado me iluminar, como sempre na vida, num até desdenhoso “não aprendi nada”. E é isso, saio do amalianismo (no meu caso amador) e constato, a exposição não é um diálogo com Amália, é uma missa (certo, a haver divindade que seja ela), apenas uma missa. Ela adoraria. Mas está morta, não haverá outra forma de ser olhada?
Depois o tal diálogo com a mulher, a personagem, a artista, o mito - que se pretenderia? – é atirado para um “posfácio”, de arte contemporânea. Nesse pacote, mas que assim surge externo, in-dialogante, um bailado (Ana Rito) muito interessante, a peça de Joana Vasconcelos também. E uma instalação visual óptima de Bruno de Almeida. Mas mesclado com coisas-obras a parecerem modismo para “espantar a classe média baixa”. Francamente, não há paciência para quem atira um xaile para o chão e diz “arte!”. Olhar um cilindro branco com espelho atrás, “um artista (Amália) solitário no palco”. Em 2009? Ali tanta ruptura, tanta inovação como o busto realista atrás apresentado (Joaquim Valente), coisa de meados de XX, que foi muito ao gosto da representada. Honestamente uma desilusão. Pelo auto-centramento da exposição, que se pretende encantória. E pela tralha avulsa que se lhe colou à maneira de olhar actual – com as excepções referidas. Sempre me convenço que o epíteto “contemporâneo” faz eclipsar o espírito crítico, analítico. Cilindros brancos, mesas luz com banheiras coloridas, peças atiradas no chão. Hoje?
Coisas que sempre me fazem lembrar aquela entrevista do Jonhy Lyndon (ainda Rotten?) ao Philippe Manoeuvre, publicada na Rock & Folk cerca de 1982. Dizia o Rotten: “ser punk em 1980 é igual a ser hippie em 1976″… Xailes no chão?!
19. Sahara Ocidental. Uma militante esteve em greve de fome defendendo a causa do Sahara Ocidental, protestando contra a ocupação marroquina. A representação diplomática de Rabat em Lisboa concedeu uma entrevista ao jornal “i”, anunciando que Marrocos é “o polícia da Europa”. O silêncio europeu face à ocupação colonial do Sahara Ocidental passa por esta “política real”. Confesso que nada sei sobre a situação efectiva na região (no país, por outras palavras), acredito até que o terrível fundamentalismo “alqaediano” seja um papão agitado por Marrocos para colher o apoio à sua velha expansão – como os leitores saberão ninguém falava de Al Qaeda e muito poucos falavam de “fundamentalismo”/”integrismo” islâmico quando Marrocos procedeu à ilegal anexação daquele território. Ou o seu inverso.
Mas enfim, são contas do difícil e imbrincado rosário da história. A mim interessa-me a reacção em Portugal. Nos jornais e na TV, nas conversas, ninguém ecoa a posição do Estado - o qual desde o governo Socrates assumiu a posição mais próxima da política colonial marroquino. É óbvio que o “distante” assunto a ninguém interessará, Marrocos está nos confins, parece-me até antípoda. À esquerda ninguém diz nada, nem mesmo o BE, onde Marrocos será quanto muito o locus de umas ganzas a legalizar, que isso dos princípios é uma canseira. O PCP silencia, mas é óbvio: para um partido sempre ao lado dos poderes coloniais e dos regimes monárquicos não se deveria esperar uma interrogação sobre a política diplomática portuguesa nesta questão. Ninguém questiona a questão. O fait-divers da senhora à fome acabou, entretanto o escritor José Saramago foi lá apoiar (à revelia do seu partido, à revelia de António Costa, o socialista de quem é apoiante) porque é uma ”causa justa” e pronto. Aliás, prontos …
20.Excelência. No canal Mezzo (que pena não haver em Maputo) um fantástico programa sobre Rafael Campallo, bailarino que desconhecia. Grande, grande …
21. O Antigo Regime. O álbum, merecido, celebrando o centenário da Escola Secundária de Camões (ex-Liceu Camões). Ainda que me arrepie sempre que ouço loas ao dito liceu (apesar dele próprio). Que é sempre agitado como se ícone dos “bons tempos” em que havia cultura, e educação que a sustentasse e reproduzisse, em Portugal. Ou seja, antes do povo estudar e, até, gerar professores. Tudo isso em discursos de ”progressistas”, até gente oposicionista germinada no velho Liceu – mas que verdade, verdadinha, suspira por trechos do dr. Salazar, em particular aquele de que ao povo basta ensinar a contar e a assinar. Quebrado isso ficámos como estamos. Que “eles” até a “doutores” vão.
22. A desistência. Visito, acompanhando uma ínclita comitiva, a exposição do fotógrafo Korda. Celebrizado pela iconográfica fotografia de Ernesto Guevara, de sua autoria. Muito interessante, pelo que demonstra da produção do culto de personalidade do ditador comunista Fidel Castro, do qual Korda foi acompanhante durante a década de 1960s. Fantástica a sua entrevista, a forma como glorifica o próprio Ernesto Guevara, um absoluto contrasenso (assista-se às suas declarações, elogiando a “punição” que Guevara lhe fez).
Fidel Castro como ícone, até bíblico. A mão na terra produtiva, a pegada de Fidel, o seu “gigantismo”. A sua beleza sensual. Fascinante, como interpretável. Como produto e produtor de fascínio.
Certo que se Korda fosse eslavo ou han teria tido problemas, acusações de “cosmopolitismo” (como aventou um amigo meu) não lhe faltariam. Basta ver esta fotografia, onde duas presumíveis beldades, até lânguidas, escutam no escuro as palavras solarengas do comandante, deixando imaginar outras prédicas, mais íntimas. Coisas deste discurso construtor do “fidelismo”, de Fidel Castro, muito dadas ao tom local, mas também à específica característica de Korda.
Mas para além dos seus méritos estéticos e jornalísticos surpreende que esta exposição, demonstrativa da arte glorificadora de Korda, que surge sob tutela da também estatal Casa da América Latina num espaço também estatal (Cordoaria Nacional), seja apresentada sem qualquer contextualização distanciada, sem referência enquadradora. Nada nos textos que a acompanham, talvez (mas desconfio que não) no catálogo – que muito presumivelmente será apenas encomiástico. Espantosa desistência. Dias passados comento esta minha estranheza numa mesa polvilhada de académicos, a nenhum pareceu estranha tamanha distracção “fidelista”, obviamente significante. Nem mesmo quando lhes disse ser Korda um pouco a Leni Riefenstahl do regime cubano, ou que diante de qualquer produtor de mitos e ícones se presume criar distância cognitiva, não apenas fascínio e adesão – coisas que tão bem “sabem” para outros casos. Um simpaticíssimo alto quadro do ministério da Cultura, ali entre variados acepipes, rematou que “a exposição é daquelas que se recebem”. E pronto! Desistência, pura e simples. E a gente assiste.
23. A gravata. Penso que foi no jornal “Sol”, uma pequena nota irónica sobre Francisco Louçã. Que o coordenador do BE aportara no parlamento usando gravata, ao contrário do seu significante traje político, esse que reclama dessassombro (e, claro, posição de classe). Para logo nos “sossegar”, afinal era apenas o dia em que o deputado cumpria provas públicas académicas e nesse campo fazia questão de cumprir as normas de vestuário. Passa tudo num sorriso, as pessoas dirão que é do espectro das decisões pessoais, etc. Mas este pequeno episódio, o respeito pela gravatinha no seio da corporação profissional ao invés da liberdade encenada no traje política, este pequeno episódio mostra bem a hipocrisia do senhor professor. O corporativismo fala mais alto, em maquilhagem de pequena-burguesia.
24. O escritor de escaparate. Já no pós-Natal mas ainda a caminho de mais uma comensalidade pantagruélica. No rádio do carro, enquanto subimos ali em Monsanto, capta-se uma conversa com escritor – desses que está em todos os escaparates natalícios, diga-se. Diz ele, face a pergunta da radiofónica voz: “a literatura é o que tem que ser!”. Abismado com tanta profundidade aumento um pouco o volume, para ouvir no que aquilo irá dar, e logo ouço mais uma pergunta “V. disse no seu blog que a literatura portuguesa não é apoiada pelas livrarias. Que vontade de escrever isso lhe dá?”, ao que responde o escritor, voz arrastada, sofrida, ”Nenhuma“. A meu lado, enfastiada, a senhora pergunta-me “queres ouvir isto?” e eu, mais assim como eu, logo riposto: “tira essa merda!”.
25. Envelhecimento. Ligo o carro e na rádio reconheço os acordes da “Fanfarra para um homem comum” e logo surge a “You can’t always get what you want” dos Stones. Elevo, e bem, o som e segue a canção-ícone, rock-barro da minha gente. Acto contínuo a bela rapariga a meu lado põe-me na boca …. uma castanha assada.
26. Tetro, de Coppola, é um soberbo, lindíssimo, filme sobre Buenos Aires. Fantástico. A história é um pastel, a deriva patagónica um must de pirosice. Convém ver. Mas sem som nem legendas.
27. Cardinalice. O Cardeal de Lisboa invectiva a “indiferença, agnosticismo e ateísmo” na sua homilia natalícia. Interrogo-me onde vai ele buscar essa ideia da igualdade entre “indiferença” e “ateísmo”. Que ”indiferença”? A prática, a ética, a solidária, a reflexiva? Um argumento vácuo, inaceitável, e que não cola com a imagem de profundidade intelectual que Policarpo sempre apresentou. Sem rodeios, é uma parvoíce ao nível daqueles que reduzem a igreja católica a fogueiras da inquisição e a erecções pedófilas. José Policarpo tem o direito (em determinada acepção terá até o dever) de combater o ateísmo e o agnosticismo. Mas tem toda a obrigação de matizar as suas argumentações e invectivas. E exactamente quando a sociedade presta homenagem a Manuel Clemente, bispo do Porto, enquanto homem de cultura elogiando-lhe a fina análise. Um deslize cardinalício, ao invés do momento vivido. A colher, claro, o silêncio do comum …
28. Homem em Fúria, de Tony Scott, competente filme de TV. Seria uma excelente peça de cinema de samurai, acho, não fosse o seguidismo ao paradigma psicologista, assim desvanecendo a profundidade abissal do protagonista. Um diálogo excelente: “Velho: Na igreja dizem que devemos perdoar; Creasy (Denzel Washington): Perdoar-lhes é com Deus. O meu trabalho é proporcionar-lhes o encontro.”
29. Acordo Ortográfico. ORecord é o jornal que logo aderiu ao Acordo Ortográfico. Se dúvida houvesse sobre o substrato intelectual desta parvoíce provinciana a entusiasmada adesão de tão pobre jornal cessa qualquer hipótese de dúvida. Eduardo Pitta acha que os detractores do Acordo Ortográfico são “encenadores” que dão pontapés na gramática, e com ele concorda Filipe Nunes Vicente, outro grande-bloguista. Recordo que as maiores polémicas neste ma-schamba vieram desses meus actos pontapeadores e, envergonhado, lamento-os bem como à falência das minhas tentativas teatrais. Vou ali ler o Record – pode ser que por lá me expliquem que esta deriva homográfica lusófona nada tem a ver com um fundo tonto de apelo à gesta da “presença” e “expansão” da língua portuguesa, que nada tem a ver com a inexistência de verdadeira reflexão económica sobre os seus futuros resultados para a edição internacional em português (mas apenas em “desejos pensantes”), que nada tem a ver com a tonta e iletrada ideia feita da distinção radical entre a fala e a escrita (a “escrita é uma convenção” dizem os imbecis, convictos que a fala, em última análise, não o é; a “grafia não influencia a fala”, dizem “professores” sem perceberem que assim invalidam a sua tarefa).
Bem, pelo menos parece o Miguel Veloso marcou um golo e diz-se que vai para a Fiorentina ou Barcelona, e o jornal deve falar disso …
30. Decadência Nacional. Cada vez mais difícil, talvez até mesmo impossível, encontrar uma “bica” (aliás, “café”, “expresso”, “italiana”) decente. Os estabelecimentos comerciais especializaram-se em servir zurrapas. Café Chinês?
31. Família. Em dois dias seguidos dois artigos interessantes, os de Miguel Pacheco, “Não São Sermões Sobre a Vida Íntima e Martim Avillez de Figueiredo, sobre a questão da “família”. Em ambos choco com este meu preconceito, o de que o discurso jornalístico aparece mais superficial do que o académico ou de reclamação intelectual. É aqui o inverso, total. Pois em ambos é explícita a ideia, ao contrário dos discursos dominantes, da necessidade e da virtude da família. Ultrapassando as velhas querelas hiper-liberais e hiper-marxistas, da família como local agente de repressão e reprodutor da exploração, do maléfico Pai-Padrasto Castrador e da malvada Mãe-Madrasta Castrada Castradora, do discurso da libertação do sacrossanto indivíduo face às algemas comunitário-familiares, da ultrapassagem da repressão por via do sacrossanto Estado-sociedade, local de protecção, produção e reprodução. Afinal instituição virtuosa, falível claro, de produção e interacção de valores sociais.
Há quem chame a isto conservadorismo. Lembra-me o Jonhy Rotten (já Lyndon?): “ser punk em 1980 …” (onde é que eu já li isto? …).
32. Frases feitas? Um repasto, entre antropólogos e excelsas iguarias, no caminho entre enchidos fidedignos, sopa de rabo-de-boi, conduto incomensurável, doçaria relevante, reservas variadas e vintages culminantes. Algo a que, ali, estou há décadas habituado. Com emigrantes à mesa a conversa passa ao “estado do país”, claro. Donde ao casamento homossexual, que o resto foi resumido, como sempre, num “isto está mau” – mas que ninguém interprete este condicionamento do discurso popular como uma estratégia do governo, que é de esquerda, donde bom. Pessoa que há décadas muito me é querida e também minha mestra nas coisas antropológicas, talvez até causa quase-única desta minha formação, remata-me “O casamento é um contrato entre dois indivíduos“. Vacilo, e partirei destruído para casa. Pois se vindo de quem vem aquele libelo individualista … tudo aquilo que estudei, da reprodução estratégica de laços de filiação e de descendência, de articulação entre grupos sociais, de transferência de património (em sentido lato), de composição e recomposição familiar, tudo isso para onde foi, o que era? Nada, afinal a nossa sociedade é apenas um campo onde interagem indivíduos, livres, racional e radicalmente autónomos que contratualizam. Virtuosamente.
Vindo de quem vem? Já no carro, ao volante, entre a azia silenciosa e a flatulência reprimida, constato-me duas décadas de vida profissional enganada. Novo ano que aí vem – e até já veio – exige-me pois vida nova, profissão nova. Pois se a outra, a da até agora, inexiste afinal. Não dormirei, e desde então a insónia constante. Para onde ir? Que fazer? Ou antes, com que indivíduos contratualizar?
33. Ideias Feitas?. “À mesa, entre antropólogos e excelsas iguarias, no caminho entre enchidos fidedignos, sopa de rabo-de-boi, conduto incomensurável, doçaria relevante, reservas variadas e vintages culminantes. Algo a que, ali, estou há décadas habituado. Com emigrantes à mesa a conversa passa ao “estado do país”, claro. Donde ao casamento homossexual – que o resto foi resumido, como sempre, num “isto está mau” – mas que ninguém interprete este condicionamento do discurso popular como uma estratégia do governo, que é de esquerda, donde bom. Pessoa [outra] que há décadas muito me é querida, e também minha mestra nas coisas antropológicas, talvez até causa quase-única desta minha formação” [in blog ma-schamba, post "(N)A "Pátria Amada" (ponto 32)], explica-me, simpática e até solidária com as minhas falhas de formação (e tantas ela colmatou nos bons velhos tempos), a diferença entre o matrimónio religioso, de vínculo indissolúvel, e o casamento civil, coisa moderna e passível de ser dissolvido. Por opção própria, por economia de discurso, não lhe dá nenhum enquadramento de história institucional, mas não posso aprender tudo no mesmo dia. Estava eu, portanto, a ouvir pela enésima vez esta profunda argumentação – e ainda não tínhamos chegado à questão das sufragistas, mas haveríamos de lá aportar – quando um conviva comensal rematou, glorioso: “vínculo indissolúvel?! Ah, mas isso é o que defendem os sindicalistas!! Afinal são iguais, a Igreja e os Sindicatos“.
Um vintage, este meu amigo, há décadas que vai vintage! Pena é que não meu mestre …
34. O cadáver da Antropologia. Ao sábado ouvir Bach na Gulbenkian, ao domingo Haydn no CCB. Para além do encantamento da música – um registo em que me perco completamente, por falta de capacidade interpretativa, uma delícia – deixo-me, como sempre, a “olhar” público e músicos. Olhar esta disciplina, que faz milhares de músicos aprenderem a reproduzir e interpretar partituras de tons e sons velhas de séculos, atentos às suas diversas matizes, e ainda, até, criando-lhes novas formas. Disciplina que passam a milhares e até milhões de ouvintes, que vão sendo treinados a escutar (alguns até a entender). Disciplina essa a qual poderá ser chamada “civilização”, forma vasta de controle, molde gigantesco de sentir e ser. É um fim-de-semana bom para isso, isto de partilhar espaço civilizacional com patrícios relativamente diversos – nas formas do saberem os seus corpos, de controlarem tosses, espirros, flatulências, agitações, sentimentos, amores, aplausos. Mais “burgueses” à Praça de Espanha, mais “populares” (menos “cívicos”, menos ”civilizados”) em Belém, que tudo isto é um processo longo de aprender.
Mas de repente, ali a meio da Criação, de Haydn, entre tosses múltiplas e aplausos fora-de-tempo no seio dos ainda algo in-disciplinados, lembro-me da minha queridíssima amiga e mestra. Que é isso? Questionar-me sim, mas apenas sobre as contratualizações que ali nos uniam. Nada mais há a questionar, a inquirir. Paguei bilhete, é o meu contrato. Outros pagaram ainda impostos, é outro contrato. Todos comprámos produtos dos patrocinadores, mais contratos jurídicos. E basta, deixo-me a ouvir a música, incompreendendo. Feliz.
35. A cremação da dita e ainda das suas primas. O Jornal de Letras, já institucional presença. Tem defeitos, mas é melhor que exista. Muito estatal, no ponto de vista, nas formas de associação e financiamento. Também por isso local dos sinais dos tempos. Na última edição (nº 1024) vários artigos sobre a década agora terminada, “dez anos de letras, artes e ideias“. Extensas indexações de poesia e prosa literária, artes plásticas, música erudita e pop, cinema, dança e teatro. Ambiente, ensaio e ideias (sobre estas dois textos) também. Não discuto os critérios, gente sábia a escrever. Mas surge-me questão. No mundo das “ideias” ainda há referência para uma ciência social, a História. Até par as sua versão história intelectual (já agora, saúdo as referências a obras que me são bem queridas, “História do Pensamento Filosófico Português”, coordenada por Pedro Calafate, “Portugal Extemporâneo” de Carlos Leone). Depois … Eduardo Lourenço, mais alguns ensaios, o “Portugal Medo de Existir” (“os portugueses são …”).
Entenda-se, dois artigos sobre “ideias”, um sobre “ensaios”. Nem uma referência a trabalhos portugueses de Antropologia, de Sociologia, de Psicologia, de Geografia, de Linguística, de … olhando bem nem de Economia, nem tampouco de outra área de investigação. Ideias durante a década? Ideias sobre Portugal e sobre o mundo? Nada a referir. [Vou escrevendo e pensando que sobre Ciências Exactas/Naturais idem, idem. Mas haverá ideias aí?, dirão os especialistas do JL].
É o Jornal de Letras! Sinais dos tempos? Claro, como comprovei nesta minha deslocação.
36. Inhambane. Para lá sigo. Intentando, entre sol e calma, encontrar um novo rumo. Entenda-se, novos contratos. Apenas jurídicos, claro.
No jantar de 25 de Dezembro, enésima opípara refeição de seguida, a degustação intra-familiar é interrompida pela televisiva “Mensagem de Sua Excelência o Primeiro-Ministro”, antecedida parece-me (as reservas vinícolas antecederam esta antecedência) pelo escudo da república e tudo. E logo surgiu ele-mesmo, o senhor primeiro-ministro (esse que umbilicais familiares e queridissimos amigos tanto apreciam, sem que por tal desvairo me arrefeça o apreço e, até, o amor que lhes voto, tamanha é a minha boa-vontade transnatalícia) o dito (mas falso) “engenheiro” José Socrates.
De treçolho e gravata azul torta o referido primeiro-ministro informou-nos, durante o repasto de dia de natal, das medidas que ele (e, por inerência, o seu governo) tem tomado para melhorar a nossa existência e combater a terrível crise que assola o mundo. A mim pareceu-me campanha, um bocado abusiva para o momento natalício. E mais surpreendente pois julgava que tinha havido eleições há muito pouco tempo.
Afinal parece que o comboio eleitoral está de partida …
Aos meus queridos familiares, aos meus amados amigos, aos prezados co-bloguistas, a todos eles parece natural tal coisa, até o viés da gravata azul. A mim não. Mas decerto que é azia devida ao meu treçolho.
Entrevista de Medina Carreira ao semanário lisboeta Expresso em Outubro de 2009, cortesia do meu amigo Dr. do Quental.
Medina, de que já fiz menção aqui, tem sido um dos iconoclastas do actual estado de coisas português. Nesta entrevista fala de si e um pouco da sua visão do Portugal actual.
Curioso que não sonhava que os pais dele eram de Cabo Verde e que ele cresceu na Guiné. Ecos do Império…
O Trinta e Um da Armada – blog lisboeta que algo me faz lembrar os anos 80s de Lisboa, ainda que sem o viço de então – decidiu comemorar o 25 de Novembro de 1975 colocando uma estátua de Jaime Neves defronte ao Campo Pequeno. Confesso alguma simpatia pelo agit-prop sorridente, ainda que esparvoado.
Mas três notas sobre o episódio: a) o piroso da estátua, tipo estética Pierrot lacrimejante ou menino mijão bruxelense. A pequena-burguesia da capital poderia elevar-se um pouco; b) a bimbalhice da estátua (ou toponímia) de homem vivo, coisa mais apropriada às estéticas dos caciques risiveis lá dos municípios, tipo Prof. Doutor José Vieira de Carvalho, do que ao bem-pensar da capital; c) a insistência na história do “Campo Pequeno”, que dá numa falta de pachorra para a ignorância (que nem sequer é propositada) festiva: o local é sempre evocado a propósito de uma tirada de Otelo Saraiva de Carvalho, essa imbecil e repugnante personagem da história recente portuguesa. Disse um dia o agora coronel Saraiva de Carvalho, chegando de Cuba onde tinha ido a lições, que colocaria os “fascistas” (noção então semanticamente extensa, dada a confusão generalizada e a ignorância política extrema em que o país vegetara e vegetava) no Campo Pequeno. Ainda hoje, 35 anos depois, chega-se a esta altura do ano e os memorialistas gemem ao pesadelo de então. Nunca, por ignorância de acne intelectual ou por mera desonestidade pré-socrática, se lembram de referir que o dito foi em resposta à vox populi de então que reclamava colocar os “comunistas” (noção então semanticamente extensa, dada a confusão generalizada e a ignorância política extrema em que o país vegetara e vegetava) nos campos de futebol (como tinha sido marca particular no então recente golpe de Augusto Pinochet no Chile).
O humor é inteligente e culto (e sério). O resto é uma seca. O Trinta e Um da Armada é, cada vez mais, uma mera seca. A ver se encontro melhores restaurantes por Lisboa do que este fast-food.
Hoje faz 34 anos que, após um perigoso processo que se iniciara com o golpe de Estado em 25 de Abril de 1974, e se prolongara durante um ano e meio e em que no processo se largaram as colónias pelo ar como lastro de areia de um balão que não subia no ar, em que se nacionalizou quase tudo o que interessava e em que o Partido Comunista Português esteve a um fio de trazer a Portugal uma guerra civil sangrenta (que perderia), meia dúzia de militares não afectos a essa organização, lograram, a um custo terrível, evitar essa situação e assegurar o cumprimento do que o eleitorado havia expresso uns meses antes, na eleição para a Assembleia Constituinte em 25 de Abril de 1975.
Esse custo foi uma democracia mitigada por um “Conselho da Revolução” pretoriano que até 1982 tratou a democracia como uma criança e ainda o instalar, em detrimento de uma direita amputada, ressabiada e complexada, de um regime em que um “socialismo” esquerdista (desde então crescentemente burguês e corrupto q.b.) marcou a bitola, que desde 1986 viveu uma prosperidade insuflada por donativos generosos de uma Europa rica que escolheu comprar a paz e tranquilidade no seu flanco ocidental. Isto enquanto as nascentes elites bem conectadas metodicamente iam debicando os subsídios, os contratos de empreitada e o extenso património confiscado aos Mellos, Espíritos Santos e Cia e ainda arranjavam tachos atrás de tachos no perpetuamente crescente quadro do funcionalismo público.
Hoje vive-se mais uma vez uma crise de regime, as instituições desacreditadas e incapazes de buscar as soluções e implementar as reformas que são chave para a viabilidade e prosperidade dos portugueses. Mais uma vez as contas públicas estão perigosamente desiquilibradas. Mais uma vez ninguém se quer sacrificar.
Eu diria que isto não é novo. É quase o regressar aos vícios da paz podre congeminada no início da segunda metade do século XIX, exacerbados mais tarde pelo “revolucionarismo” ingénuo de uma I República com as mãos ensanguentadas pela apologia do assassínio bárbaro do Rei e do Príncipe Real. A burguesia citadina lisboeta a lançar petardos para o ar perante um país expectante de algo em troco de pouco ou nada.
Como quase sempre, em 1974 mudaram-se as moscas e manteve-se o resto, agora entorpecido por algum conforto material, doses maciças de novelas televisivas, os eternos debates sobre o futebol nacional e a ilusão de uma modernidade, simbolizada pela posse do telemóvel, o pópó novo, o apartamento no subúrbio, o curso tirado na Internacional ou na Moderna com duas pancadas e as muitas dívidas por saldar. Até quando?
Curiosamente, celebra-se o 25 de Abril com um feriado – creio que justamente. Mas nada já sobre os eventos do 25 de Novembro, data que a meu ver fechou de forma crucial a parte mais perigosa do ciclo iniciado em 1974.
Eu tive o azar de estar em Coimbra entre Fevereiro de 75 e Setembro de 77 e por isso a tudo assisti, atónito.
Fiquei absolutamente farto de revoluções à portuguesa.
(o olho do computador Hal 9000 a bordo da nave Discovery em 2001: Uma Odisséia no Espaço)
por ABM (Alcoentre, 22 de Novembro de 2009)
Ao cair da noite de ontem, a estação de rádio TSF e a SIC Notícias começaram a bradar em estilo de “notícia de última hora”, que o Procurador Geral da República, cujo papel neste caso não entendi muito bem, proferira – cito o Diário de Notícias de Lisboa – o seguinte:
“Após cuidadosa e exaustiva análise dos elementos remetidos à Procuradoria-Geral da República, foi proferido pelo PGR, com data de hoje, 21.11.2009, um despacho em que se considera que não existem elementos probatórios que justifiquem a instauração de procedimento criminal contra o senhor primeiro-ministro ou contra qualquer outro dos indivíduos mencionados nas certidões, pela prática de crime de atentado contra o Estado de direito, que vinha referido nas mesmas certidões, pelo que ordenou o arquivamento do conjunto dos documentos recebidos.”
Os “elementos” acima referidos reportam-se às cinco de onze gravações captadas no decurso de uma investigação a que chamaram “Face Oculta” e em que, para variar, aparecem do nada conversas entre Armando Vara, um conhecido socialista e meteoricamente promovido a administrador da Caixa Geral dos Depósitos e logo a seguir do grupo Millennium BCP, e um seu amigo, José Sócrates, actual primeiro ministro de Portugal.
Não quero repetir o que disse há dias noutra crónica. Mas deixem-me só entender o seguinte: eu neste momento vivo num país em que houve um juiz em Aveiro que, no decurso de uma investigação, autorizou que, legal e subrrepticiamente, se gravassem todas as chamdas feitas e recebidas pelo senhor Dr. Mestre Armando Vara durante uns tempos. No decurso das mesmas, houve um procurador do Ministério Público e um juiz que, escutando onze – onze – conversas específicas entre os dois, achou-as suficientemente graves para despoletar um processo creio que sem precedente, que teria por objectivo – tendo como base o conteúdo dessas gravações – incriminar o primeiro-ministro de Portugal por nada mais nada menos que “crime de atentado contra o Estado de direito”. Não estamos a falar de perdoar uma multa ao amigo ou sequer de uma cunha para um emprego de um amigo de um amigo. “Crime de atentado contra o Estado de direito”. Sabemos que isto já andava pelos corredores dos magistrados desde Julho de 2009, ou seja dois a três meses antes da eleição parlamentar portuguesa. Enviaram, na base de uma estranha lei que especificamente isenta três pessoas do processo normal nestes casos (o Presidente da República, Primeiro-Ministro e Presidente da Assembleia da República) e remete para o Presidente do Supremo Tribunal a decisão quanto à pertinência das informações colhidas no decurso de investigações deste género.
Mas num sábado chuvoso ao fim da tarde, o Procurador Geral da República manda publicar um comunicado em que diz que aquilo não é nada, que os dados recolhidos não tendo nada a ver com a investigação propriamente dita da tal de “Face Oculta”, “ordena” o arquivamento puro e simples das gravações.
Isto enquanto supostamente se espera que o Presidente do Supremo Tribunal de Justiça diga de sua justiça (salvo seja).
Desculpe o exmo. Leitor, mas sou eu que estou a sublimar esta questão ou será que algo de muito grave se está a passar aqui? ou melhor: o que é que foi que as pessoas em Aveiro ouviram, nas onze conversas que escutaram entre Armando Vara e José Sócrates, que os levaram a tomar as medidas absolutamente graves e excepcionais que tomaram? E a fazer uma acusação que em qualquer parte do planeta seria considerada politicamente explosiva no mínimo?
José Sócrates já disse que não tinha nada a dizer sobre o assunto. O PGR agora diz que também não há matéria que justifique a acusação formulada pelos senhores de Aveiro.
FNV tem um teclado particularmente esclarecido, em especial se o pensarmos no meio do bloguismo português. Sobre a “causa” do momento – a transformação do “casamento” – é importante ler este “O fim da família” (I), ainda para mais por ser anunciando como um “trabalho em progresso”. Ler e acompanhar os desenvolvimentos.
Antigamente, o português normal achava que tudo estava podre, corrupto e aldrabado na sua desgastada república. Que o poder estava na mão de uma pandilha e que essa pandilha punha e dispunha do que havia para repartir, sem que nada se pudesse fazer para alterar o estado de coisas. As opções eram a) emigrar, b) entrar no esquema, c) ficar de fora e passar fome, pois sendo este um país sem oportunidades, as coisas são assim.
O ethos em geral era mais ou menos usar a coisa pública e se possível roubar umas coisinhas para complementar a reforma. O princípio era que todos faziam e que niguém conseguia provar nada, de qualquer maneira. Nas câmaras municipais foi uma orgia durante anos.
A imprensa de então, recentemente graduada de décadas de censura e de cumplicidades diabólicas, ajudava, repleta de bocas, de indirectas, do diz-que-disse, falava em generalidades, prenha de crónicas cheias de insinuações, mas nunca, jamais, com nada de específico.
Deste modo, o monstro conseguia-se sempre esconder atrás do sofázinho cor de rosa do poder e nem o rabinho aparecia ao canto. Certamente nunca visto pela justiça, imersa nos seus papéis e nos seus misteriosos processos.
Mas Portugal agora é uma vila electrónica, com servidores cheios de tetrabites de informação, milhões de televisões a cores em frente a confortáveis sofás, mais telemóveis do que há gente, com um enxame de estações de televisão e meia dúzia de jornais na melhor tradição de Fleet Street, empenhados em tentar chegar à “verdade” com a ajuda de algumas, menores, reformas do sistema judicial e a novidade, com que a democracia ainda vai ter de se confrontar, da vigilância dos cidadãos à escala industrial com recurso aos métodos de escuta de telefones móveis, das comunicações via e-mail, pela filmagem através do cada vez maior número de câmaras de gravar em vídeo espalhadas pelas ruas e edifícios públicos e privados. Para a Polícia Judiciária, que vê avidamente e se inspira nas séries americanas tipo CSI, isto é uma festa e, apoiados por juízes cada vez menos coibidos de autorizar um acto de espionagem desde o mais reles ao mais sublime dos cidadãos, à cata da reinante narcocracia, corrupção e crime violento, meia volta não consegue evitar e envolve-se no que sucedeu como exemplo a semana passada.
Neste episódio, que vai pelo nome de “Operação Face Oculta” (só os nomes das operações da PJ e da Polícia de Trânsito davam um filme) um agente mais destemido e dedicado foi atrás de um senhor de Aveiro que fazia umas falcatruazitas com umas empresas e, acto contínuo, descobre-se que um dos fios da sua investigação conduzia a um outro senhor mais conhecido da lide política reinante, que, por sua vez, ao falar com os seus amigos, falou durante horas e horas e horas(e horas e horas) com o senhor cuja fotografia, acima reproduzida, data de 1986.
De Aveiro, o agente que seguia e analisava estes dados electrónicos todos, por razões que não são explicitadas, deu três saltos quando ouviu não sei o quê nas conversas entre os dois e ala que manda para o Supremo Tribunal em Lisboa um pedido urgente de autorização/validação das gravações feitas. Isto por causa de uma obscura lei aprovada há uns anos quando, investigando o caso dos alegados abusos sexuais de jovens residentes da Casa Pia, às tantas gravaram-se horas de conversas entre Paulo Pedroso, um deputado na ascendente, e o então presidente da República, Jorge Sampaio. Decretando que um mero juiz não podia autorizar e validar como evidência as gravações feitas de certos membros do clero político local (PR, PM e Pres. da Assembleia da República), a nova lei diz que para estes casos as autorizações têm que ser dadas por S.Exa. o senhor Presidente do Supremo Tribunal de Justiça.
De Aveiro, o pedido veio. Mas, à boa maneira aqui da terra, ficou durante meses enfiado no meio do monte do expediente do dito senhor do Supremo Tribunal. O que é considerado perfeitamente normal. Até que a bronca arrebentou logo após a PJ ter indiciado de uns crimes o senhor politicamente apto que falava muito ao telefone com o senhor acima fotografado. E se se deixa transpirar não só que estas gravações existem, como também que o tal obscuro senhor de Aveiro mandou o pedido “urgente” de validação destas gravações específicas alegando que tal se fundamentava numa situação de – cito – “atentado ao Estado de Direito”.
Hum.
Mas – surpresa – quando o exmo leitor pensa que o filme vai chegar ao momento-chave, eis que o senhor Presidente do Supremo Tribunal manda a Maria Lurdinhas secretária ir a correr e encontrar o tal pedido de Aveiro, juntamente com as horas e horas e horas de gravações em cd’s numerados, e em dez segundos decide que aquilo não vale um caracol e simplesmente “indefere” o pedido e manda apagar tudo.
Interpelado, o senhor da fotografia acima disse que não tem nada a declarar sobre o assunto para além de que fala com os amigos regularmente e que vai continuar a falar. O senhor de Aveiro desapareceu do mapa.
Alguém que me explique o que se passa pois isto começa a parecer o país dos Irmãos Metralha.
Não sei bem porquê, esta frase tem sido muito citada nos blogues portugueses e brasileiros estes dias.
Hum. Deve ser sindroma pós-eleitoral. Mas não sei se no Brasil houve eleições recentemente. Em Portugal definitivamente houve (em Moçambique também e é tudo o que se me oferece dizer) e já estão todos positivamente engasgados em escândalos e psico-drama do mais dramático. Qualquer coisa sobre escutas telefónicas, que agora andam muito na moda, tais como a intercepção de e-mails e a sua posterior divulgação por terceiros a quartos, para quintos julgarem e sextos sobre eles deambularem.
Enfim.
Claro que a minha história favorita de Eça – infelizmente falsa – relaciona-se com o episódio em que ele teria reclamado junto da companhia das águas de Lisboa sobre um corte de água, escrevendo uma nota ao seu presidente nos seguintes termos: “Excelentíssimo. Senhor: Vossa Excelência cortou-me a água. Gostaria de cortar algo a Vossa Excelência”.
Na realidade a carta que ele redigiu está aqui e não tinha bem essa simplicidade límpida.
Infelizmente para os visados, o ponto alto da minha semana foi a minha compra de um teclado novo para o computador portátil que utilizo, um daqueles exteriores que se ligam ao computador através de um cabo USB (USB – Universal Serial Bus, ou Autocarro Universal em Série) e que comprei no Staples Office Centre de Cascais City em saldo por 9 euros e 99 cêntimos. O teclado do portátil é lindo e funciona lindamente, mas é um teclado inglês, sem acentos e o cê de cedilha. Para colocar um acento eu tinha que fazer uma tal ginástica de sequência de carregamento de teclas que eu ficava tonto e acabava por errar. Ora para uma audiência selecta como a do Maschamba (por exemplo, tremo só de pensar no que a D. Vera diria se um dia escrevesse com os acentos todos ao contrário) eu tinha que fazer alguma coisa. Ainda pensei em fingir que era um estudante pobre na escola primária e pedir um desses computadores Magalhães com que o governo do Sr. Engenheiro Sócrates quer colocar Portugal na vanguarda do modernismo mas a minha amiga Lurdes Crespinda da Secretaria da Escola Primária disse-me que com 49 anos a coisa pareceria suspeita. Eu ainda tentei convencê-la dizendo “mas há ministros que já fizeram pior do que isso!”. Ao que ela respondeu que se eu fosse ministro que ela também faria, mas que eu não era.