Archive for the ‘Politica Portuguesa’ Category

Um exemplo de democracia?

Segunda-feira, Agosto 23rd, 2010

O ministro da defesa português, Augusto Santos Silva, em declarações ao jornal “i” invoca Péricles, o grego, como supremo mane do seu pensamento estratégico. E fiel a esse antepassado de democracia, e como tal à transparência das instituições estatais face aos cidadãos a que servem, informa via jornal que Portugal passará a ter espiões militares no Líbano. Saúdo este exemplo cristalino de democracia do governante.

Ou será (apenas) um cúmulo de estupidez, de “olhem para mim aqui ministro” a tanto pensar e fazer?

Aproveito para recordar uma velha entrada do ma-schamba, onde lembrei quando o jornal “Independente” publicou a lista dos espiões portugueses, era Veiga Simão ministro da defesa de António Guterres (finais do século passado). Nunca então se investigou verdadeiramente quem tinha passado isto para o jornal, quase obrigatoriamente um parlamentar não-socialista da Comissão de Defesa. Ou seja, nunca ninguém se interessou por inquirir (e prender) o traidor que era deputado. Nem cuspir na cara dos filhos-da-puta do “independente” (director, accionistas e os seus trabalhadores que não se demitiram no momento imediato – presumo que todos) que a troco de uma “caixa” varreram os interesses do país (se bons, se maus, é outra coisa, mas discutível de outro modo). Ou seja, traíram – como antes se dizia. Como hoje se deve dizer.

Seria interessante que os blogs portugueses – cheios de jornalistas, tantos deles -, e em particular os de “direita” (tradicionalmente mais sensíveis a estas questões e a estes valores) que com toda a certeza hoje se vão rir e pontapear o supra-pontapeável Santos Silva (paz à alma do sociólogo, precocemente falecido) tivessem um bocado de memória. Porque “honra” (antiga concepção hierárquica) ou “dignidade” (actual concepção equitativa) é coisa que, vê-se por este exemplo, não abunda. Um mundo de santos silvas, é o que é.

Adenda: em comentários e textos alheios referindo este texto surge o nome de Paulo Portas como envolvido neste caso, na sua condição de director do Independente. Ao escrever o texto pensei que o referido chegaria para o situar temporalmente [Veiga Simão ministro de Guterres, finais do século] mas pelos vistos isso não chegou, dado o peso da memória que há de Portas nessa condição. Então aqui fica a adenda, Portas há muito que não era o director do jornal nessa altura.

Abaixo, nos comentários, o comentador P.R. diz que isto é uma “desculpabilização” do presente. Não me parece, ou pelo menos não o entendo. Associei, de imediato, os episódios (que são muito distintos em termos de mau-funcionamento, este apenas um exagero comunicacional do ministro) no sentido de frisar uma “leveza”, um “descuido”, do Estado no tratamento que dá aos seus serviços de informação (os secretos e os militares). Se calhar, e pensando melhor, ainda bem que assim é.

jpt


  • Share/Bookmark

Obscurantismo

Sexta-feira, Agosto 20th, 2010

Sakineh Mohammadi Ashtiani é uma iraniana condenada à morte, por lapidação (ou enforcamento, a sentença evoluiu), acusada do crime de adultério e, subsequentemente, de assassinato do marido. O caso tem originado uma grande campanha internacional, p.ex. via Amnistia Internacional,  e petições (em inglês) (português), bem como um movimento mundial de manifestações contra a lapidação [em 28 de Agosto simultâneas em 100 cidades de vários países - nenhuma moçambicana, ao que julgo saber].

Dificilmente se pode imaginar causa mais justa. Diante da qual parecerá uma minudência o que faço seguir, em adenda. Mas denota tanto o obscurantismo demagógico típico da força política fashion em Portugal que se torna inultrapassável. Trata-se da Carta enviada ao embaixador do Irão pelos eurodeputados do BE (Marisa Matias, Miguel Portas e Rui Tavares), documento ao qual cheguei via a blogo-consóror Joana Lopes. Nesse peça avançam os nossos (portugueses) deputados que se pronunciam “… enquanto cidadãos do mundo e representantes políticos do povo que primeiro colocou uma pedra sobre a pena de morte …”.

Sakineh Mohammadi Ashtiani merece toda a solidariedade, vítima que é de leis, concepções e práticas radicalmente brutais e discriminatórias. Já duvido que mereça que os deputados portugueses aproveitem o seu cruel destino para reafirmarem mentiras identitárias, um patrioteirismo obscurantista ignorante e produtor de ignorância, assente em falsificações históricas tão próprias das ideologias totalitárias professadas por este neo-comunismo de rosto retocado e retórica rejuvenescida.

Como dizia Catão, o Antigo, e apesar das aparências, “eles são o inimigo“.

jpt


  • Share/Bookmark

Carlos Queiroz condenado

Quinta-feira, Agosto 19th, 2010

O seleccionador português de futebol sénior ter-se-à irritado com o horário matutino dos testes de anti-doping que iam fazer aos seus seleccionados e mandou o funcionário público responsável por tais necessários serviços para determinado sítio. Falou como os homens portugueses falam entre si, que a recorrência do “palavrão” é praticamente universal, variando fundamentalmente a entoação [ao meu pai ouvi alguns irados "patifes" e "malandros", o seu cume, que eram bem mais peludos do que o até cinéfilo "motherfucker" queiroziano] – ela sim, verdadeiramente significante. Mas, face ao actual ambiente moral (aka, político) português, insultar um responsável dos serviços públicos (ainda que indirectamente – o homem estava ausente) implica uma condenação: suspensão do trabalho (que é um direito, diga-se) e uma multa.

Lembro que por mais importante (e digno) que seja o posto de responsável pelos serviços públicos da luta contra a droga desportiva não é mais importante do que o de um deputado da república (ou será preciso ir ver a lista das precedências no protocolo de Estado?). Ora o cidadão José Socrates rematou há pouco para o deputado Louçã (sim, este credor de algumas “bocas”, concedo) um qualquer “mansa é a tua tia”. Em plena assembleia, diga-se. Quantos dias levou? Quantos euros? Ou isso – os insultos aos eleitos do povo, e na sua presença para mais – não interessa ao antigo presidente da Associação Desportiva de Fafe, elevado a secretário de estado dos desportos (ou seja, que deles emana, depende)? Uma Lily Allen para os laurentinos, sff.

jpt


  • Share/Bookmark

PLUS ÇA CHANGE

Quinta-feira, Agosto 19th, 2010

por ABM (19 de Agosto de 2010)

No actual contexto de aperto financeiro de muitos, e de resmas de demagogia balofa, a revista Visão da semana passada escalpeliza numa página sucinta os detalhes da maior transacção de sempre de uma empresa, a venda da Vivo à Telefónica pela PT.

Numa transacção de 7.500 milhões de euros, ninguém paga um cêntimo de impostos.

A ler, A PT e a Vivo, com vénia.


  • Share/Bookmark

O gadgetismo

Terça-feira, Agosto 3rd, 2010

(“post” antipático, que andou a marinar por isso mesmo)

Decorre mundo fora uma grande competição pelos suportes electrónicos de leitura. Basta ler os blogs ligados à edição livreira para se ter noção do rápido crescimento da venda de livros-e [e-books, no dialecto parolês] e do confronto entre os gigantes industriais a esse propósito. Por isso o meu nariz torcido com o destaque à “reportagem” do jornal Público onde Rui Tavares e Miguel Esteves Cardoso dissertavam sobre as qualidades (e defeitos) do suporte Ipad da Apple. Sei que estamos habituados a isto, a referência vasta a produtos sob capa de serem de “interesse geral”, em tom não totalmente apologético. Mas, com olhar frio, se se quiser analítico, isto é campanha, falar de, tornar habitual (e desejável, pois conversado por gente de referência). É business … E também sei que suspendemos o olhar crítico a este afinal rame-rame consoante os autores, intervenientes – tenho admiração e carinho por Esteves Cardoso (o “MEC” de sempre, o “Miguel” da Lisboa dos anos 80), ainda guardo os amarelados recortes das suas crónicas de Manchester publicadas no defunto “Sete” (e republicadas no fantástico Escrítica Pop). Ele que faça as “campanhas” que quiser [ainda para mais sendo, como nesta caso, um iconoclasta] que não abala esse meu estatuto de “fan”.

Mas como não tenho nenhuma simpatia por Rui Tavares não suspendo o meu desagrado. Ou seja, não esqueço que ele é deputado eleito e está em funções. Apesar de ser anti-parlamentar – a rábula das bolsas de estudo com o seu ordenado é do mais rasteiro populismo anti-democrático, produtor de representações populares contra os “políticos”, “esses” “que tanto ganham”, surgindo imune à democraticidade parlamentar, e obscurecendo os diferentes níveis de vida europeus que influenciam as remunerações euro-parlamentares. No fundo mero produtor dos resmungos contra “eles” [para lembrar uma magistral crónica do MEC].

Ainda assim (e talvez ainda mais por isso) um parlamentar eleito, em funções, a fazer “campanha” por um produto industrial? Dir-se-á que é livre para isso, de falar do que entende. E que não se trata de publicidade paga. Pois não será directamente. Mas é-o indirectamente, pela participação na “economia mediática” – participação constante, reafirmada neste(s) apelo(s) para falar do que “está a dar” -, que gera os seus dividendos simbólico-estatutários, políticos e (também) económicos. Má-vontade minha? Se o deputado em causa (ou outro qualquer, em particular se fosse da pérfida “direita”) viesse fazer a apologia da manteiga Mimosa, se esta face a uma campanha da Ucal, ou do novo modelo Peugeot aquando de um lançamento da Renault, ou até louvar a Pepsi [esta sempre] contra a pérfida Coca, as reacções seriam mudas? Ou seriam outras?

Mas trata-se de um gadget, “cultural” ainda por cima. “Fica bem” estar presente, dele ser arauto (ou mero participante). E assim se explicita, em mero “en passant” o fundamento intelectual actual, ideológico se se quiser, desta área de acção política. É o gadgetismo, falar das coisas que “ficam bem”, sempre na crista da onda. E ser por isso, repito, remunerado. De múltiplas formas.

Chamaram-lhe, em tempos, a “esquerda alternativa”. Julgo agora perceber esse “alternativa”.

jpt


  • Share/Bookmark

O OUTONO QUE SE APROXIMA

Segunda-feira, Agosto 2nd, 2010

por ABM (2 de Agosto de 2010)

A ideia algo peregrina de que as crises económicas e políticas são para evitar dão nisto. Da conveniência havida como expediente em deixar José Sócrates manter a mesma linha governativa por mais que os já decorrentes cinco anos, em que Portugal, despoletado por circunstâncias exógenas, embateu na maior crise económica e social desde o implodir da I República em 1926, resulta que as mesmas políticas, o mesmo discurso, a mesma postura, com muito pouco de inovador, e tanto de publicitário, tornem gradualmente mais exígua a margem de manobra dos portugueses para o futuro que se segue.

Dois dos indícios de que nada mudou: 1) a forma e o conteúdo do anúncio do “fim” do processo Freeport. Fico mais com a impressão de que algo de seriamente de errado se passa de facto com a justiça portuguesa (nomeadamente, o Ministério Público) do que da inocência do ex-ministro do Ambiente; 2) a revelação de que, à data do final de Junho de 2010, na véspera de expressivos aumentos de impostos e de reduções nas tais sempre tão badaladas prestações do Estado Social, o défice das contas públicas aumentou 462 milhões de euros face ao ano anterior. Nesse período de inegável desgraça, as receitas ainda assim, soube-se agora, aumentaram 3.5 por cento. Mas a despesa do governo aumentou 4.3 por cento.

Ou seja, tudo como dantes. Até os factos carnavalescos de ocasião, para divertir as multidões, prosseguem. Antes foi o casamento das pessoas do mesmo sexo, agora é intervenção nos negócios privados da empresa de telecomunicações PT (sugerindo mais uma vez que o privado é público e vice-versa) e a sugestão de uma ministra, que todos reflictamos sobre a pertinência de, no periclitante sector da educação, se considere, não se sabe bem como, eliminar as reprovações por fraco aproveitamento escolar.

Mas nada de mais: um estudo de mercado indica que a popularidade de José Sócrates subiu, e que a dos seus opositores mais à direita caíu.

Isto é, indubitavelmente, a República Socialista no seu melhor momento.

Quero ver como vai ser daqui a seis meses, quando vierem o Outono e o Inverno.


  • Share/Bookmark

Acabar com as reprovações na escola

Domingo, Agosto 1st, 2010

Tenho uma filha com oito anos. Andou desde os dois anos numa pequena escola particular em Maputo, chamada Escola Canadiana, onde vigora o velho método Montessori, com ensino em inglês. Chegada aos sete anos transitou para a Escola Portuguesa de Moçambique, para a segunda classe. Esta é uma escola pública, gerida pelo Ministério da Educação português. Funciona muito bem (pelo menos no nível do ensino primário, que acho agora chamar-se básico): excelentes directores (supra-disponíveis), excelentes professores (activos, interessados), belíssimas instalações – costumamos dizer que em Portugal não há escolas destas.

Ora nesse contexto a nossa princesa rapidamente entrou em aguda crise. Queixava-se que nada aprendia. Que ali se falava do que ela aprendera com cinco anos. Após pouco tempo foi transferida para a terceira classe, avançaram-na um ano apesar da renitência dos pais. Flana pela aprendizagem sem dificuldades (e o pai queixa-se disso). É a princesa Teixeira sobredotada? Nada! Burra total não será, mas é uma miúda normal. Mas vem de um outro sistema e deparou-se com uma escola que, ainda que funcionando muito bem, trabalha com um sistema de ensino muito pouco exigente. Muito pouco dinamizador. Muito pouco despertador. Chegada de uma pequena escola que labora diferentemente logo se deparou com essa realidade. Vive, por enquanto, dos rendimentos. Não só? Talvez. Mas pelo menos em parte.

Ok, violo a privacidade familiar (e se calhar recolho alguma animosidade na dita escola, apesar dos merecidos elogios). Mas faço-o invocando uma legitimação empírica – o sistema de ensino português é de baixa rotação. De reduzida exigência. Foi isso que esta pequena família constatou agora mesmo. Ponto final parágrafo. Porque não há possibilidade de contra-argumentar face a esta radical evidência.

Que a ministra da educação Isabel Alçada, que é uma senhora muito respeitável, venha propor o fim das reprovações, que proponha não que se baixe a fasquia mas que, pura e simplesmente, se retire a fasquia é totalmente suicidário. Pior ainda, é demencial. Reprovar alunos não resolve o assunto? Porventura. Então que se criem formas outras. Mas não assim.

Porquê este caminho tresloucado? Pela vigência de paradigmas pedagógicos? Porventura. Mas não só. O que vigora é o “ambiente moral” do país, o vale quase tudo para a aparência de um qualquer “sucesso”. Importa recordar, sem demagogia mas sim antropologicamente, analisando as práticas reais e consignadas – até sacralizadas pelo poder – que vivemos com um primeiro-ministro que mafiou a sua licenciatura. Que torneou o insucesso escolar. O caminho passo a passo faz-se assim. Com a cobarde cumplicidade daqueles que, por eles próprios, não mafiam. Mas calam e marcham conjuntamente. Porquê?

jpt


  • Share/Bookmark

Queiroz. Madaíl. E Laurentino Dias.

Sexta-feira, Julho 30th, 2010

Diz a imprensa portuguesa que o secretário de estado dos desportos, Laurentino Dias – indivíduo que surgiu na vida pública como presidente de um clube de futebol ascendendo à primeira divisão e posteriormente mergulhado nas impossibilidades do profissionalismo, o que muito diz das capacidades e do perfil do dito presidente – se indignou, considerando um “caso muito sério”, uma hipotética altercação entre Carlos Queiroz e os médicos do Instituto Nacional do Desporto que foram controlar os seleccionados portugueses. O jornal “i” (não vale a pena colocar ligações aos jornais, são supra-perecíveis) adianta que Queiroz teria dito algo como “o Luís Horta que vá para a c… da mãe dele” (referindo-se ao director do referido instituto estatal). Não sei se é verdade mas os rumores indicam que o episódio servirá de causa para o despedimento do seleccionador.

É inenarrável. Sendo verdade o acontecido Queiroz não obstou a nenhuma actividade, insultou um indivíduo (aliás ausente). Regressamos pois ao paradigma DREN, o poder socialista entende passível de despedimento (ou reenvio à proveniência) quem insulta à distância. Se o alvo é Sócrates ou Luís Horta não interessa, vai para a rua.

Entretanto recordo dois pontos, ambos a seu tempo expressos na comunicação social. Gilberto Madaíl, e a direcção a que preside, gostaria de demitir Queiroz – o afinal incompetente seleccionador pois não conseguiu ser campeão do mundo – mas não o faz pois não tem condições financeiras para pagar o contrato que firmou, livremente, há dois anos. Ou seja, um clamoroso erro de decisão que tolhe a liberdade da federação em actuar como agora considera necessário. Algum “incómodo” por parte do secretário Laurentino Dias? Nada. E  também não se incomoda com a memória do presidente da federação Gilberto Madaíl no seu regresso da barracada do mundial da Coreia do Sul e Japão. Então compelido pela opinião pública a explicar o que tão mal acontecera o antigo associado de Valentim Loureiro, ex-deputado e governador-civil, leu à imprensa com notório enfado acintoso o seu extenso relatório, vácuo e redondo, que consistia em exactamente 69 pontos, terminando a leitura com um explícito sorriso de menosprezo. Ou seja, para Dias, o vate de Fafe, o insulto a um qualquer funcionário é “muito grave” mas aquele evidente e grosseiro insulto a toda a opinião pública interessada nada contou, nada conta. Há os insultáveis (a merda do povo, digno de um qualquer manguito em forma de sessenta-e-nove e vão-se foder) e os ininsultáveis (os seus mandarins, os quais não se podem mandar para a “c… da mãe”).

A gente, preocupada com o filho do Ronaldo e ainda doridos da derrota futebolística, esquece-se. Esquece-se do porquê da “intocabilidade” de alguns, da perenidade de Madaíl e quejandos, das diferentes sensibilidades e “indignações”. Pois esquecemos a campanha para a organização do Euro-2004, do ministro da tutela de então, da aliança político-camarária-construtora civil para a monstruosidade dos 10 estádios construídos e de todo o mais despesismo de então (dito “desenvolvimentista” com toda a sem-vergonha). De como tudo isso, de como esse “complexo económico-político” serviu de trampolim para alguns e, mais do que tudo, de algum. E assim sendo esquecemos, até confundimos quem pode ser insultável ou não o pode ser. Esquecemos de quem urge despedir.

jpt


  • Share/Bookmark

O Relativismo Cultural e a Conversa Com os Mortos

Sábado, Julho 17th, 2010

Apanhei ontem os restos do programa televisivo Depois da Vida, na TVI. Ao que vi, e me explicam, tudo consiste numa senhora inglesa que fala com os espíritos desejados pelos telespectadores. No meio há uma lusófona intérprete que vai intermediando a comunicação dos caros tele-espectadores com as convocadas almas (algo) penadas.

Fico estupefacto, a licença privada para exercer actividade televisiva, obtida sob o governo do actual presidente da República Cavaco Silva, possibilita isto? Sei que os liberais defendem este ponto de vista. Pois se há consumidores para este tipo de diálogo com o outro-mundo como proibir (ou até criticar) o produto? Sei também que a pujante esquerda multiculturalista (grande parte dela acoitada nos jornais, nos blogs e nas universidades, exactamente como a rapaziada liberal) vibrará com esta pantomina – não é a comunidade crente nesta taralhouquice uma minoria cultural merecendo o apoio público e político para o exercício das suas mui dignas crenças e práticas de comunicação com o além?

Mas apesar desse apoio maioritário das “inteligências” portuguesas, à direita e à esquerda, a esta tralha multicultural ainda me interrogo. Que pensará o presidente da República do caminho que as televisões privadas assumiram desde que lhes deu licença. Afinal era para falar com os mortos? Ou por outra, estará a Presidência da República ao mesmo nível de indigência intelectual no qual vegeta a intelectualice portuguesa? Ou não está, ou seja, ainda existe e em assim sendo terá a energia para se pronunciar sobre este lixo abjecto?

jpt


  • Share/Bookmark

A TVI e Carlos Queiroz

Sábado, Julho 3rd, 2010

Chego a Lisboa e na primeira noite vejo a TVI – estação que não sintonizo em Maputo. Um programa “desportivo”, dedicado a esquartejar o seleccionador nacional. Ali pontificavam, brandindo cutelos e espetos  bem sanguinolentos, um moderador, um outro jornalista João (seria Querido Manha?), um homem muito bronzeado – e particularmente esfomeado – que me fez lembrar um caceteiro do Famalicão que há 30 anos selvaticamente partiu a perna do grande futebolista Rui Manuel Trindade Jordão. E ainda, fui informado no final do programa, um deputado do PS – do qual não retive o nome.

A propósito de quê? A propósito de quê se chama um deputado para comentar a situação da selecção nacional de futebol? Eduardo, o nosso guarda-redes, Ricardo Carvalho ou Bruno Alves, os nossos centrais, Fábio Coentrão, a nossa revelação, Cristiano Ronaldo, a nossa desilusão, João Moutinho ou Ricardo Quaresma, os nossos ausentes, foram chamados pela TVI para comentar a situação do vice-presidente do grupo parlamentar que rouba gravadores dos jornalistas e que é aplaudido em pé por todo o seu grupo parlamentar (este comentador incluído, claro)? Foram? Se não o foram então por que raio está um “civil”, ainda para mais um escroque desonrado (como, por evidência assumida, o é qualquer deputado ou deputada socialista), a comentar um assunto sobre o qual não tem qualquer competência particular? Porque razão continuam os “simpáticos telespectadores” (dos programas e dos anúncios) a pactuar com esta canalha e a permitir estas manobras de “humanização”?

jpt


  • Share/Bookmark

A SUBSIDIÁRIA HESPANHOLA

Quinta-feira, Julho 1st, 2010

por ABM (Quinta-feira, 1 de Julho de 2010)

Esta nota vem na sequência de um desabafo algo apressado que fiz atrás.

Eu sei que pode ser penoso para alguns dos exmos. Leitores acompanhar este assunto meio esdrúxulo de uma assembleia geral de uma empresa de telefones portuguesa e porque é que eu atrás refiro ao que aconteceu como o equivalente da explosão de uma bomba atómica no firmamento económico português.

Mas peço a indulgência de me acompanharem, e eu prometo manter as coisas simples. O assunto acho que importa entender.

Ora vamos lá.

Era Uma Vez a Pê Tê

A PT, sigla que descreve a empresa anteriormente conhecida como Portugal Telecom, opera um conjunto de empresas total ou parcialmente detidas, desde as redes de telefone, dados, conteúdos, televisão por cabo, satélite, etc. Outrora um gigante (para Portugal) publicamente detido, a empresa foi sendo privatizada e hoje é uma empresa privada, mesmo se alguns dos seus accionistas sejam entidades afins ou alinhadas com os governos do dia. Dada a sua dimensão e importância para Portugal, o governo há uns anos atrás achou por bem criar algo chamado “acções douradas” (em inglês, golden shares), que são apenas 500 acções, mas a quem foram conferidos o direito de veto numa série de circunstâncias. É uma espécie de Conselho da Revolução no mundo dos negócios (o Conselho da Revolução existiu em Portugal até 1982, que não era eleito e era composto por uns ilustres quaisquer, tinha a função de fiscalizar e vetar o que os cidadãos e o governo faziam. Podia vetar legislação aprovada pelo parlamento).

A Galinha dos Ovos de Ouro

De entre as várias negociatas que fez ao longo dos anos, muitas delas más, fez uma que foi um verdadeiro negócio da China: há uns anos atrás, ainda estava o Brasil naquela fase indefinida de crescimento, a PT comprou metade uma empresa no Brasil chamada Vivo. A Vivo essencialmente opera na área dos telefones móveis mas tem hoje sérios atractivos: a) cerca de 47 milhões de clientes (isso é cinco vezes mais que a totalidade da população portuguesa) e a crescer rapidamente, b) é muito rentável, c) tem perspectivas de crescimento consideráveis, se se compararem com o mercado português, que está esgotado, ou com os restantes investimentos da empresa, que nem chegam aos calcanhares daquilo que a Vivo representa, d) complementando o que está dito atrás, opera no Brasil, de longe a maior nação na América Latina, e que tem vindo a crescer de forma muito interessante nos últimos cinco anos. O Brasil é considerado um mercado estratégico para Portugal e para as empresas portuguesas; e e) os lucros da Vivo neste momento representam 46 por cento das receitas brutas do grupo PT. É muito dinheiro.

De Lá Nem Bons Ventos Nem Bons Casamentos

O pequeno problema que a PT teve neste caso desde a origem, tem que ver com quem se meteu quando comprou a metade da Vivo (e recordo que quem estava do lado da empresa hespanhola na altura era um português, o genial António Viana Baptista, filho de José Viana Baptista, um antigo…ministro português dos Transportes e Comunicações).

A empresa hespanhola chama-se Telefónica, S.A., que é suposto ser a equivalente da PT em Hespanha.

Mas há uma pequenina diferença entre as duas.

É que, em termos de capitalização bolsista e dimensão dos negócios, a PT está para a Telefónica como eu estou para o Eng. Belmiro de Azevedo (o pater familias da Sonae).

Só para o exmo. Leitor ter uma vaga noção do que falo, neste momento a capitalização bolsista da PT (isto é, o valor total do número das acções emitidas vezes o valor da cotação de cada acção) é de cerca de 8 mil milhões de euros. A da Telefónica é de 84 mil milhões de euros. Só dez e meia vezes maior.

O que, em termos reais, significa que a PT lidar com a Telefónica é o mesmo que o exmo. Leitor querer beber um cházinho em sua casa com uma manada de búfalos raivosos.

O Campeão do Mundo Lá da Rua

Para os portugueses, a PT não é uma empresa qualquer.

É um “peso-pesado”.

É a maior empresa cotada na bolsa portuguesa. Em Maio de 2010, a PT representava 17.56 por cento da totalidade da capitalização do PSI 20, o conjunto das principais empresas portugueses cotadas em bolsa, no que era seguida pela EDP com 14.51 por cento e a Galp Energia com 13.51 por cento (ver a fonte desta informação).

Os portugueses em geral, e os políticos e os homens de negócios pós-25 de Abril ainda mais, vivem esta alegoria, agora e mais uma vez posta em causa por este evento: acreditam no capitalismo, acreditam na Europa, e ainda mais bradam a necessidade de irmos para Hespanha.

Mas mantendo a “independência nacional”. Ou, mais caritativa e quiçá mais tesamente, “mantendo os centros de decisão dentro de fronteiras”.

Esquecem-se de um pequeno detalhe: que, do lado de lá da fronteira, acontece precisamente o mesmo. Os hespanhóis também acreditam no capitalismo. Acreditam na Europa.

E acreditam que Portugal é ou poderá vir a ser, uma coutada sua, para caçarem até não haver mais caça.

No que são acompanhados por meia dúzia de angolanos com muito, muito, muito, dinheiro (é o petróleo, estúpido).

A diferença é que, no Portugal actual, os portugueses não parecem possuir de momento o génio nem, muito especialmente, o capital requerido, para travar este combate.

Isso já se viu em vários casos em ponto, como por exemplo na “expansão” do BCP para outros mercados, em que a Espanha foi quase sumariamente ignorada, para além de umas trocas de participações, a Caixa Geral de Depósitos viu-se grega para entrar lá dentro, e houve o quase caricato (mas genial) acto de despedida do Sr. António Champalimaud, quando foi até Madrid e vendeu todo o seu grupo financeiro ao Grupo Santander, quase provocando o pânico em Lisboa, e que motivou a célebre frase de um ministro, dizendo que Portugal não era uma “república das bananas”. Que o era, provou-se logo a seguir, quando partes do império Champalimaud foram retalhados e dados aos amigos, entre os quais a Caixa Geral e o próprio BCP, que já na altura era maioritariamente detido por estrangeiros, vingando o apelo patriótico de Jardim Gonçalves, que clamava para que os centros de decisão das empresas permanecesse em Portugal – isto é, sob o seu controlo.

Ou seja, desde o 25 de Abril, nunca se formulou uma estratégia de soberania nacional alternativa ao “orgulhosamente sós” de Salazar. Foram todos enchendo o papo com este ou aquele negociozinho, este ou aquele subsidiozinho, a capturazinha administrativa desta ou aquela oportunidade.

E aqui estamos, em 1 de Julho de 2010, os Hespanhóis prontos a começar a dar a machadada final.

E são estes os grandes sócios da PT e os donos da outra metade da empresa brasileira Vivo.

A Vivo a Cores e ao Rubro

Desde há cerca de dois anos, a Telefónica começou a sondar a PT para lhe vender a sua metade da Vivo. Não é preciso ser-se nem Henrique Granadeiro, nem Zeinal Bava, o descendente de família com raízes moçambicanas que agora aufere um salário milionário como o número um executivo da PT, para se perceber que, tendo em conta a evolução da Vivo e do mercado brasileiro, que, sem ela, a PT valia pouco mais que um chavo. Se vendesse e tivesse depois ideias de como investir esse lucro, ainda se podia encarar uma venda.

Mas a PT nunca apresentou, nem parece ter ideias do que fazer se vendesse a Vivo.

Coitados.

Por sua parte, a Telefónica, desejosa de aumentar o seu espólio de participações, insistia em que a PT saísse da Vivo.

E, há uns meses, passou ao ataque.

Comprou mais acções da PT na bolsa e tornou-se um dos seus accionistas de referência.

Formalmente, propôs à PT um preço pela venda da sua participação.

A PT recusou.

A seguir, subiu consideravelmente a parada.

A PT recusou outra vez.

Até que a semana passada, a Telefónica colocou na mesa um preço quase exorbitante (segundo o artigo do Economist de hoje, uma medida do seu próprio desespero) : oferecia 7.15 mil milhões de euros pelos 50 por cento da Vivo que são da PT.

E deu um prazo para os accionistas da PT se decidirem.

A reunião dos accionistas da PT realizada (a Assembleia Geral, ou AG) ontem ao fim da manhã era para decidir se vendiam ou não.

A Assembleia Geral da PT

Na AG da PT realizada na manhã de ontem, estiveram representados 68.5 por cento da totalidade dos accionistas. Dos votos presentes, para se aprovar a venda da participação de 50% da PT na Vivo, eram necessários 50 por cento mais um voto de entre os presentes. Sabe-se que 73 por cento dos accionistas votaram por vender. Entre eles, incluia-se o Banco Espírito Santo, um dos principais accionistas e uma presença quase histórica na PT. Mas o representante do Estado português apareceu na sala com a sua “acção dourada” (500 acções com direitos especiais) e votou contra. Ordens de Sócrates.

E assim, não foi aprovada a venda.

O Que Disse Ricardo Salgado

Numa conferência de imprensa a seguir à assembleia de accionistas, Ricardo Salgado, presidente do BES, disse tudo o que havia a dizer nestas circunstâncias.

Que, independentemente de tudo o resto, a matemática era (é só podia ser) uma.

Que a capitalização bolsista total da PT hoje era de cerca de 7.8 mil milhões de euros.

Que a oferta da Telefónica pela venda dos 50 por cento da Vivo era de 7.2 mil milhões de euros

Que a diferença entre a oferta de uma participação da PT e a própria capitalização bolsista da PT era de apenas 800 milhões de euros.

E fez uma pergunta retórica: será que tudo o que a PT tem para além da Vivo só vale 800 milhões de euros?

A sua resposta óbvia e cristalina: que o preço oferecido pela Telefónica era mais do que bom, mas que, não havendo resolução para esta situação, que o passo lógico seguinte será a Telefónica simplesmente fazer uma OPA sobre a PT (ou seja, comprar toda a PT através de uma Oferta Pública de Aquisição), transferir na mesma a Vivo para a Telefónica, e ficar com o resto ou mais tarde vender a carcaça do que resta da PT a outra entidade.

Ricardo Salgado foi mais longe na sua explicação: referiu que, devido ao pacote de regulamentação bancária conhecido como Basileia III, irá haver uma muito maior exigência do reforço do capital e da gestão dos riscos por parte dos bancos, entre os quais o seu, o que essencialmente não vai permitir ao BES, futuramente, deter participações em empresas não financeiras (como a PT).

Ou seja, a prazo, o BES, o maior accionista na PT, vai ter que vender a sua participação na PT de qualquer maneira. Basicamente, não terá como evitar ter que tomar esta medida.

E o lucro de uma venda da Vivo permitiria ao BES talvez reforçar os seus capitais próprios (como se espera que Basileia III virá impor). Ou a PT fazer outra coisa qualquer, como por exemplo limpar o seu passivo, que não é pequeno.

Ilacções

O governo português cometeu um erro de proporções verdadeiramente épicas ao vetar a venda da Vivo, pois isso poderá forçar a Telefónica, e, por extensão, a Hespanha, a testar a ideia, detida por alguns portugueses, de que o capitalismo que se pratica dentro de fronteiras lusas é ou pode ser diferente do que já está postulado para a União Europeia.

Pior, o que referiu Ricardo Salgado é totalmente correcto: o passo lógico seguinte da Telefónica é comprar a PT e torná-la numa subsidiária sua.

Será caricato usar as acções douradas para parar isto. Mas se o fizer, a PT e o governo português terão uma guerra de proporções épicas pela mão.

O que é mau para os negócios.

E a reacção, sempre fleugmática, da Comissão Europeia já foi divulgada e refere o seguinte: The Commission believes that the “golden share” is incompatible with european legislation, in particular as it constitutes an unjustified restriction on the free movement of capital and the right of establishment, in so far as it hinders both direct investment and portfolio investment.

E assim eu pergunto novamente uma questão de fundo, a única questão de conteúdo para esta geração de portugueses:

Que país é este que a actual geração de portugueses afinal quer que venha a ser?

Uma subsidiária de Hespanha?

Um país que pratica o capitalismo só quando lhe convém?

Se José Sócrates acha que a PT é “estratégica”, então que a compre e meta lá uns amigos a tomar conta daquilo. E voltaremos todos ao capitalismo cha cha cha dos tempos do condicionalismo do professor Salazar.

Para ver se é melhor.


  • Share/Bookmark

A PT E A BOMBA ATÓMICA

Quarta-feira, Junho 30th, 2010

por ABM (quarta-feira, 30 de Junho de 2010)

Como se não bastasse a equipa espanhola de futebol ter ontem derrotado os Adamastores por um pouco expressivo 1 a 0, no rescaldo da Assembleia Geral da portuguesa Portugal Telecom realizada hoje sentiu-se na cara, pela primeira vez em muitos anos, os efeitos da globalização gradual em que a nação portuguesa se meteu quando saiu de África e, pela mão de Mário Soares, embarcou no projecto europeu.

O que sucedeu hoje foi uma verdadeira bomba atómica.

Foi quase triste ouvir ao vivo o que Ricardo Salgado, um dos grandes banqueiros dos últimos anos, ter que dizer o que ele tinha para dizer, numa conferência de imprensa na SIC Notícias.

Ele tinha toda a razão e mais algumas.

O que só torna mais dramático o que se está a viver neste preciso momento.

Em termos económicos, o que aconteceu hoje é absolutamente marcante.

Futuramente, em termos económicos, creio que se poderá dizer que, no registo da história económica de Portugal, haverá uma nova demarcação:

Haverá o “antes” da AG da PT de hoje e o “depois da AG da PT”.

Nem aquele simulacro de soberania que é as “acções douradas” do governo na PT disfarçaram o que aconteceu hoje.

Meu Deus ao que se chegou. E ainda em minha vida.

Portugal, uma colónia de Espanha.

Como tenho que ir ao cinema (quando escrevo estas linhas é após a hora do jantar em Cascais City) referirei o assunto quando voltar.

(Nota: ver a crónica seguinte, A Subsidiária Hespanhola)


  • Share/Bookmark

BOLETIM DO MUNDIAL Nº 35: NO LADO ESCURO DA LUA

Quarta-feira, Junho 30th, 2010

por George Ribéro, edição por ABM (29 de Junho de 2010)

Paraguai 0 – Japão 0 (5-3 nas grandes penalidades)

Um jogo que se previa emotivo mas sem grandes aspectos técnicos a salientar. Acabou por ser um jogo entre selecções medianas com uma toada morna em todo o encontro, talvez com um certo (pouco) ascendente do Japão na segunda parte. Às tantas já se sabia que a passagem aos quartos de final iria ser decidida nas grandes penalidades pois o prolongamento trouxe…nada de novo.

Aqui, foi mais feliz o Paraguai, que marcou todos os penalties, enquanto o japonês Komano falhou. É caso para dizer Kum Kamano! O benfiquista Óscar Cardozo, mais conhecido pelo Tacuara, marcou a última grande penalidade e assim o Paraguai segue em frente e qualifica-se pela primeira vez para os quartos de final de um Mundial. Já fez a sua história neste mundial e agora vai jogar com a Espanha. Presume-se uma vitória fácil para os espanholes.

Espanha 1 – Portugal 0

Acabei de ver o jogo.

Estou triste, chateado e não sei o que escrever. Vou escrever o que me vem à cabeça. Não é politicamente correcto mas é mais verdadeiro, os leitores mais políticos que me perdoem.

O resultado até nem foi humilhante. Afinal, jogámos contra o Campeão Europeu em título.

Fico a pensar é no tempo que passámos atrás da linha do meio campo, sempre à espera de um possível contra-ataque. Caramba, a Nova Zelândia, a Austrália, a Eslováquia e outras selecções, muito mais fracas que Portugal, atacaram mais, mexeram-se mais contra equipas superiores. Portugal, para variar, pôs-se a fazer contas e lá foi andando e andando, a ver como as coisas se iam passando. Um pouco da atitude do “logo se vê”, tipicamente português e já aqui referido. Ao invés, a Espanha assumiu o jogo, tentou ganhar – e ganhou – correu sempre mais e sabia como estender o seu futebol e criar perigo. Chama-se a isso querer, vontade e acima de tudo atitude competitiva. Aos sete minutos já tinham rematado à baliza de Eduardo por três vezes. Claro que fiquei preocupado. Portugal não é uma selecção qualquer. Depois, recuperámos um pouco e claro que também tivemos algumas oportunidades, era o que faltava.

Mas então que dizer dos espanhóis? Basta ver que Eduardo e Villa foram, quanto a mim, os melhores em campo. Um avançado espanhol e um guarda-redes português. Não quer dizer nada? Claro que quer e dá que pensar.

Grande exibição do Eduardo, a negar vários – sim, vários golos – à Espanha.

Não vou apontar o dedo à nossa selecção nem ao meu colega Carlos Queiroz, afinal sou um treinador de sofá e ele não. Mas aquela substituição do Hugo Almeida pelo Danny obviamente não deu os resultados que o treinador esperava, antes pelo contrário. Mostrou claramente a todos e especialmente aos jogadores lusos, que tínhamos que defender e jogar ainda mais em contra ataque. O tempo lá ia passando e para o fim da partida parecia que Portugal estava a jogar para segurar o … resultado. A poucos minutos do fim da partida, Ricardo Costa foi expulso (injustamente?) e então tudo ficou ainda mais difícil. A Espanha aproveitou para circular a bola enquanto que Portugal lá ia criando um ou outro lance, sem grande perigo.

Agora, a Espanha tem um jogo teoricamente mais fácil, com o Paraguai. Mas nas meias-finais quase de certeza que vai ter pela frente a Alemanha ou a Argentina. Para quem gosta de futebol e também para os que gostam de emoções fortes, no próximo fim de semana vamos ter dois bons jogos para os quartos de final, o Brasil – Holanda e o Alemanha – Argentina. Dos vencedores deste dois jogos mais a Espanha, sairá o … Campeão do Mundo 2010.

Neste momento, aposto numas meias-finais entre o Brasil – Uruguai e Argentina – Espanha. Claro que são apenas palpites. São jogos tão equilibrados que basta um lance de bola parada, um pequeno detalhe ou um erro para decidir o vencedor do jogo.

Enfim, jogos deliciosos vêm aí.

Quanto a Portugal, tudo bem, como diz o outro. Para o ano (daqui a dois anos disputa-se o Europeu) há mais. Venha o campeonato português o mais depressa possível, que esta vida está cada vez mais complicada e até calha bem aos nossos queridos governantes haver algo para nos ocupar antes e depois destas férias. Como vêm, começo a falar de política e acabo a falar de política, afinal o nosso verdadeiro grande … futebol nacional. E tem sido cada golpe de rins…

E agora, mesmo sendo verão, não há mais nada para falar mesmo, a não ser dos problemas. Que parecem ser mais que muitos.

Explosivo pode vir a ser para os eleitos da República.


  • Share/Bookmark

Flinstones

Sexta-feira, Junho 25th, 2010

O poeta António Manuel Couto Viana morreu e a Assembleia da República portuguesa vetou um voto de pesar, por “razões” de ignorância histórica e de anacronismo ideológico. A história é contada aqui e muito bem definida aqui. Penosamente engraçado que a história seja contemporânea das (vis, assim se prova à exaustão) “indignações” com o funeral de Saramago. A topologia continua a ser o saber central do “ser” das teclas portuguesas, e nessas se incluem as dos “intelectuais” e “artistas” (até actrizes bonitas) recrutáveis, donde recrutadas. O estado flinstoniano domina? O estado flinstoniano é.

jpt


  • Share/Bookmark

Deus, Saramago e o Estado Português

Quarta-feira, Junho 23rd, 2010

Leio a reportagem do funeral de Saramago. E encontro as palavras da ministra da cultura portuguesa Gabriela Canavilhas: “[Saramago] Não tinha fé em Deus, mas se Ele existe certamente Deus teve fé nele.” Atento no último tempo verbal que tende a apagar (nunca involuntariamente pois são as palavras da ministra da cultura, linguisticamente competentes) o hipotético “se” que o antecede. Não me distraio com o aparente tom poético-simbólico da formulação, pois a questão “Deus” foi por demais importante na vida de Saramago e na sua relação com a sociedade portuguesa – e continua a sê-lo, até na própria política – para que se possa reduzi-la a um mero trocadilho de cariz simbólico.

O que a ministra da cultura ali fez, em pleno funeral e contando com o beneplácito dos condolidos presentes, foi matizar o ateísmo do falecido. Deixá-lo entender como (reduzi-lo a) idiossincracia do vulto literário, uma excentricidade de génio. E fê-lo através de uma formulação típica de um qualquer cura face ao descrente da aldeia, salvaguardando a fé da comunidade apesar da excepção em causa.

O Estado é laico e não é função das suas figuras opinar sobre religião. Muito menos relativizar, post-mortem, as concepções do mundo dos seus cidadãos. O que se assistiu, mesmo que numa encenação de homenagem, foi a uma explícita censura às ideias do autor. Abrupta, violenta, mesmo que subreptícia – disfarçada de suaves sorrisos solidários, sentida admiração e até algum bem-estar estético, como Canavilhas empacotou o discurso. Nada mais do que um acto totalmente inadmissível. Rasteiro.

As gentes da aldeia, ali congregadas e apenas preocupadas com quem esteve ou não esteve presente, aplaudem. Nem surdos nem cegos. Apenas medíocres. Nem deus, se ele existe, terá fé neles.

jpt


  • Share/Bookmark