No Cidades Crónicas Nelson Saúte escreve a propósito do paiol de Malhazine.
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Abril 3rd, 2007 — Nelson Saute, Paiol de Malhazine
Março 29th, 2007 — Paiol de Malhazine
Estas coisas valem o que valem. Mas enviam-me esta fotografia, espero que apenas alarmista, sob o titulo “o que ainda nao explodiu no paiol”. Origem O Grande Irmao Google. Um certo frisson, confesso.
Março 28th, 2007 — Cheias, Maputo, Paiol de Malhazine
Passo em frente: dois meses complicados - umas cheias de causalidade muito problematica, um litoral maputense inundado após vários (e até já antigos, e até já ma-schambados) avisos nesse sentido, um paiol re-rebentando.
Enormes desafios à gestão do social. Entenda-se, enormes desafios também técnicos. Não tecnocráticos, mas também técnicos. As técnicas são plurais, chocam com plurais interesses, efectivam-se sob plurais opções. A competência técnica é factor de ordem. Plural. A ordem é plural.
A razão é plural. É razões.
Março 27th, 2007 — Paiol de Malhazine
No Fim de Semana Alucinante fotografias das explosoes no paiol de Malhazine, tiradas da COOP.
Os Orgãos de Estaline
Março 26th, 2007 — Literatura, Paiol de Malhazine
Ainda o paiol de Malhazine. Ha quantos anos que nao ouvia falar disto, pelos vistos ainda acantonavel.
“Primeiro, fazia-se ouvir ao longe o mugido de um animal irritado. Abafado e gemente, um ruído que não se podia comparar a nada. Chegava um[a] distância de algumas verstás, como um grito. Berrava duas, três vezes. Depois ouvia-se o guinchar de um órgão desafinado. Em todo o sector da frente se instalava uma paralisia. O matraquear das metralhadoras interrompia-se. Os atiradores de elite puxavam as carabinas para trás do parapeito. Os homens junto dos lança-granadas chegavam-se uns aos outros. Aos chefes das peças de artilharia, morria-lhes nos lábios as ordens de abrir fogo. Também o estafeta moderava a sua passada. Depois aquilo chegava. Inúmeros relâmpagos rasgavam a floresta. Quase meia centena de projécteis rebentava de encontro aos troncos ou na terra. Um trovejar ensurdecedor. Fogo, fumo de pólvora, pedaços de latão do tamanho de punhos, terra, poeira. Os homens de uma bateria rebolavam-se na lama com quatro peças de artilharia, cunhetes empilhados, cartuchos, apetrechos e cavalos. Uma hora depois, a coisa caía sobre a cozinha de campanha. Condutor, condutor-adjunto, cozinheiro, refeições frias para sessenta homens e cem litros de sopa aguada eram espalhados aos quatro ventos. Passados uns minutos, caía a uivar sobre uma companhia que marchava em frente, para render outra: oitenta homens refrescados a custo no decurso de uma semana passada longe da frente, de botas engraxadas e armas oleadas. Os quarenta homens que alcançaram a trincheira estavam sujos, salpicados de sangue, desmoralizados. Duas horas, dois dias, duas semanas. Uma unidade de blindados rodava algures a caminho da base de partida. Ao abrigo de uma depressão, o comandante reunira as suas tripulações para a última conferência. Um ruído no horizonte. Cinco ou seis segundos de silêncio opressivo. Vindos do nada, rebentaram os projécteis. Gritos. Choveram estilhaços sobre os tanques vazios. O oficial mais novo teve dificuldade em encontrar condutores suficientes para levar outra vez para trás os doze blindados com as tripulações mortas. E todos os que sentiram a terra tremer e viram o fumo das detonações subir para o céu agradeceram (cada qual segundo a sua maneira de ver) ao Destino ou a Deus que aquilo tivesse atingido outros e que eles, mais uma vez, tivessem sido poupados.”
(Gert Ledig, Os Órgãos de Estaline, Ulisseia, 2004 (Tradução de Paulo Osório de Castro)
Em memória de Fernando Pedro (vítima da explosão do paiol de Malhazine)
Março 23rd, 2007 — Fernando Pedro, Fátima Ribeiro, Literatura Moçambique, Livros Moçambique, Paiol de Malhazine
(recebo, comovido, esta mensagem da Fátima Ribeiro)EM MEMÓRIA DE FERNANDO PEDRO, UMA DAS VÍTIMAS DAS EXPLOSÕES DO PAIOL
Neste momento de luto e dor no nosso país, e em que tudo deve ser feito para apurarmos as responsabilidades do trágico acontecimento e tão inaceitável incúria continuada das explosões do paiol, venho com muita mágoa e profunda indignação recordar uma das muitas vítimas cuja memória tem de ser dignificada. É Fernando Pedro, que, regressado da República Democrática Alemã, onde trabalhou vários anos chefiando um dos grupos de jovens moçambicanos que ali se encontravam, foi funcionário e membro fundador da Associação Moçambicana da Língua Portuguesa (AMOLP) e escritor. Trabalhador dedicado, foram várias as profissões por que passou – entre outras, trabalhador portuário, motorista, secretário, assistente administrativo, e, finalmente, docente universitário. Num esforço contínuo para melhorar honestamente as suas condições de vida, frequentou como estudante-trabalhador o Instituto Superior Politécnico Universitário, onde concluiu há poucos meses atrás, com muito bons resultados, a sua licenciatura em Direito.
Publicou os livros de crónicas e contos “Tantã, um tambor na Neve” e “Madgermanes na RDA - Vida Cotidiana”, ambos da Editora Ndjira, e ainda contos infantis. Fernando Pedro foi atingido por um dos projécteis em frente da sua residência em Mahlazine, de onde conseguiu retirar a tempo a sua família. O seu corpo ficou completamente despedaçado. Deixou mulher e três filhas, Marlene, Milena e Mirela, esta de apenas seis meses de idade.
Fátima Ribeiro
Em sua memória e homenagem aqui transcrevo um dos seus contos:
O Voto de Nhanengue
De merenda na neneca, Nhanengue caminha no árduo solo da planície. Aquela tortuosa caminhada é-lhe familiar.
Já curva, pesam naqueles ombros flácidos os anos de vivências com as obrigações do sistema africano. Não tivera oportunidade para a livre escolha das melhores coisas da vida: o marido fora-lhe imposto pelos familiares. Os filhos foram aparecendo, teimosamente, como gotas em torneira avariada e o número já não o conhece ao certo; espalhou-os pelo mundo onde se procura a vida e ela ficou esquecida pelas circunstâncias do tempo.
Andando a uma velocidade rápida, ruma à aldeia Munhembete, onde a primeira oportunidade de escolher algo a espera. Na ponta da capulana, está enrolado em forma de cilindro o cartão do eleitor, que é nele onde a velha tem concentrada a sua mente de fumo.
Em Magul, pelas fendas abertas no solo pelos tempos de seca, nasce agora um verde-vivo, gozando a paz dos homens. A cacimba pinga cristalina no solo, abanada pelo vento matinal.
A velhota recorda, agora, os seus tempos de juventude. Dos búfalos e das manadas enormes. Naquele tempo, os rapazes realizavam campeonatos de pancadaria. Os mais valentes tinham como troféu as moças mais belas da aldeia.
“Éramos tão importantes!” Falava baixinho.
A fila é longa junto à mesa eleitoral; Nhanengue vai perdendo forças, mas a esperança lhe faz aguentar. Está alegre e conta coisas dos tempos que já lá vão aos co-eleitores. Há festa em Munhembete!
Nhanengue arranja um canto e senta-se; tira um pedaço de mandioca da panelinha e começa a mastigar. Por causa da falta dos dentes, nota-se o trabalho que faz para comer; rumina lentamente, com o olhar fixo na lista dos candidatos colada num quadro próximo da mesa onde vai votar.
É a sua vez. Levanta-se vagarosamente e caminha a passos lentos rumo à mesa. O jovem, com o distintivo das eleições, molha o seu dedo com tinta vermelha. A velhota caminha em direcção ao quadro onde estão patentes as caras e os símbolos dos partidos. Uma lágrima teimosa rola pelo seu rosto. Pára diante do quadro e pinta com o dedo a cara de um dos candidatos.
- Não é aí vovó! - grita o presidente da mesa.
Nhanegue vira-se, lentamente, e fixa o olhar lacrimejante no homem que falara, Subitamente, roda sobre os calcanhares e cai pesadamente no solo.
Nhanengue morreu! Não teve a possibilidade de um dia escolher algo por vontade própria.
(Junho de 1995)
(in “Tantã, um tambor na neve”, Editora Ndjira, 1998)
Março 23rd, 2007 — Paiol de Malhazine, Politica Portuguesa
No Da Literatura ecos da questão do paiol explodido, por via da preocupação com o paradeiro do avião da TAP (saiba o Eduardo Pitta que se era para chegar mais tarde do que as 16 h. locais, 14 h. portuguesas, o avião foi desviado. E muito provavelmente foi-o, pois os voos costumam ser nocturnos com chegada de manhã ou diurnos com chegadas ao principio da noite. Estarão agora os seus familiares na free-shop de JHB, maçados a comprar curios ou na Exclusive Books). E a esse propósito faz um hiper-apropriado texto sobre a incompetência dos serviços de atendimento telefónico da TAP em Portugal. Para o emigrante, que nesse país usa serviços telefónicos pré-pagos, é absolutamente desesperante fazer um carregamento no multibanco e poder contabilizar os 10 + n euros a desaparecem enquanto espera ser atendido, enquanto tenta vários telefones da lista telefónica. E voltar ao multibanco para novo carregamento apenas para ter uma qualquer informação realmente urgente sobre os voos. E mesmo assim a falhar o objectivo.
Estou a falar criticamente de coisas de Portugal, algo que jurei não fazer neste neo-Ma-Schamba (entenda-se, para quê blogar criticamente sobre um país onde o ex-ministro das obras públicas e actual presidente da câmara da capital diz que oferece consultorias pagas pelo orçamento da “sua câmara” em troca de apoio eleitoral? e onde a rapaziada blogo-crítica não tecla em massa sobre tal esterco? como diria o saudoso almirante, bardamerda para os opinativos). Falo sobre Portugal, dizia, talvez por mero reflexo condicionado, produto da auto-censura militante, neste contexto de estrangeiro vendo um paiol re-rebentando. A deitar o fel exponenciado!
Mas que a TAP é péssima a tratar os clientes via telefone, é!
Paiol
Março 22nd, 2007 — Paiol de Malhazine
Outra vez!?!?. E confesso o enorme susto - coisas do pai de família sob o aleatório.
Narrável.
Acreditável.
Possível.
Espantoso? (alguém, a [o?] meu lado, não-se-questiona “o que mais me admira é a docilidade deste povo“). Não.
Perverso? (alguém, ao meu ouvido diz, “esta gente não gosta do seu povo“). Não.
Explicável? Sim!
Eu explico: são 9 e tal da noite, na TVM o porta-voz do Ministério da Defesa, Edgar Cossa (também poeta, “Horizonte Longínquo“, 1997, edição de autor, assisti-lhe ao lançamento) enfrenta a televisão e cumpre bem o seu dificílimo papel, diga-se, o de justificar o injustificado. O programa vai sendo interrompido com intervenções de espectadores mais ou menos exaltados e peças de reportagem (sanguinolentas). Em certo momento (e aqui está a explicação) surge uma comunicação telefónica com a responsável do gabinete de comunicação e imagem do aeroporto de Mavalane.
A senhora está a explicar o encerramento do aeroporto (eu cheguei da Beira no último avião que aterrou, ali ensonado a julgar trovoada de calor os troares ouvidos) até que se recebam instruções em contrário. E, súbito, é interrompida por um grito de criança. Entenda-se: o paiol rebentou, a cidade fervilha, o país acompanha, a senhora está no momento mais dramático da sua carreira de relações públicas. Ao telefone, em directo na televisão. E não tira o filho do colo.
É só isso. O resto são argumentos.
Em algum bloguismo moçambicano fala-se muito de sociologia do quotidiano. Talvez. Mas agora é altura de ir ler Max Weber. Afinal explicando. Final explicação?
