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Campanha: "caça ao voto"

Interessante como a expressão “caça ao voto”, a qual no português de Portugal tem conotação algo sarcástica, crítica do marketing político, é aqui assumida de modo neutral, descritivo. De recorrente utilização na televisão e jornais, sem pinga de ironia, explicitamente “o candidato Armando Emílio Guebuza” ou “o partido da perdiz” (por exemplo) “continua(m) nas suas actividades de caça ao voto”.

Demonstrará isso que por aqui há uma melhor e mais acertada compreensão do que é a “política”? Mais descomplexada? Parece.

Chuva, Vento e Frio, que coisa, nem parece daqui agora. Hesito no passeio, vontade de me deixar abrigado, antes de cruzar este final de avenida. À minha frente um brand new 4X4, e depois another one, and another, and another, 5 or 6. In a row. Shining.

É a campanha! E atravesso no aguaceiro, o frescote que aqui digo “gélido”. E “hum, assim não ganham votos”…”aqui? assim?!”.

Falhei a foto, claro, ia sem a máquina. Domingo fim de tarde, primeiro dia de campanha, Julius Nyerere fora, mesmo mesmo à frente da Presidência uma bem velha carrinha de caixa aberta, nem machibombo se dizia, no regresso da Costa do Sol ali esforçadamente empurrada por uns vinte tipos ou até mais. Era a caravana da Renamo, diziam-no as perdizes dos cartazes e bandeiras, as vestes do grupo.

Imagem polissémica, essa a que falhei. Ou apenas avaria.

A campanha oficial começa hoje. Na noite de Maputo grupos de coladores de cartazes, alguns mesmo festivos. Trouxe ofertas para a minha colecção.

Esconjurando ainda. E concordando…

Esconjuro. A Paz pode ser picada. Caminho. Via qualquer. Estrada. Mas seja como for tem sempre linha de horizonte. O resto é beco. Que os meus cunhados andem. Mesmo que devagar. Mesmo que por vezes parem. Porque o resto é beco.

Já aqui antevi a conferência de ministros da cultura da CPLP. Aconteceu em Maputo a semana passada. Por isso Gilberto Gil esteve cá. E deu-se ares de intervalar o seu ministério, com espectáculo de ambiente bem descrito por este normando.
Lá fui eu, feito penetra no “todo o maputo” ver o concerto do músico que também é ministro. Por meros 50 usd direito a um bilhete que me disse VIP.
Uma maçada afinal, quatro grupos antes, mais discursos ao princípio, criancinhas a agradecer o apoio mais senhoras bem intencionadas e tudo o mais. Um festival, que fui suportando fugido no vizinho África bar, este primeiro vazio depois enchendo-se de enfastiados.
Para mais o pior som que já ouvi em alguma produção Conga. Mas finalmente, já quase pela madrugada o músico que também é ministro. Ainda mexe um pouco-pouco apesar de pré(?)-sexagenário, a voz ainda vai lá, algum requebro. Dia dos grandes êxitos, mais o Marley aqui e ali. Música um bocado arrockada, um guitarrista cheio de tiques, mas isso não é coisa nova no Gil que eu (des)conheço. Enfim, aqueceu um bocadito, sem deslumbres, até porque o sentido crítico se vai desvanecendo na escassez de espectáculos.
No final, e como é aqui o costume (e bonito, acho eu), o representante do poder subiu ao palco para saudar os artistas. Pode confundir alguns estrangeiros, mas aqui é assim. Nesse dia foi a primeira-ministra, Luísa Diogo, subiu para saudar o músico que também é ministro.
Aí, e contrariamente ao que aqui é costume, o artista deu-lhe o microfone para que pudesse ela “falar ao seu povo”. Ah, afinal ali estava mesmo o ministro que também é músico - e não o contrário.
Luísa Diogo foi uma senhora, apenas agradeceu o concerto. E isso deve ter lembrado a Gil que já foi só músico. E que ali o era. Talvez!

Time. Entre os alunos correu célere a notícia e logo ma transmitiram. A primeira-ministra Luísa Diogo como uma das cem personalidades mundiais mais influentes.
Estas listas valem o que valem, e não sei se não haverá outros moçambicanos mais influentes. Mas que foi aqui registado foi. E assim de repente também não me lembro de muitas mais africanas que tenham chegado a tão elevado cargo. S. Tomé logo, e porventura um ou outro caso. Talvez um pouco de “gender” mas porque não?

Monroe…quem?

Hoje, e como é felizmente habitual, jantar cá em casa, visita de Portugal, gente por cá muito veterano. Uma visita após anos de ausência. Lá para o meio da conversa a inevitável pergunta, “então quais as diferenças que encontra por cá?”. Pois a mesquita nova da Mondlane, pois toda a Costa do Sol atapetada de vivendas. E, talvez mais analítico, isso dos americanos estarem e em força, por todo esse país, distritos a fora, cidades também, as suas organizações, a rede de ongs também. Nós, já tão habituados até nos surpreendemos com a surpresa alheia. “Muito mais do que os europeus” diz o conviva. Claro. E de que maneira.

Mas com muito menos retórica. Ah, e assim acredito que os corredores, Beira e Nacala, vão mesmo funcionar.

Monroe…quem?

Por águas diplomáticas

Sobre este assunto deixei passar uns dias, até de propósito à espera de reacções - irónicas que fossem -, mas também pelo corropio que o final das férias académicas me causou.

Há cerca de duas semanas despediu-se de Moçambique o embaixador chinês. A ter cumprido o natural período que as missões diplomáticas demoram Sexa. Embaixador terá acompanhado (e quiçá impulsionado) o muito saudável e visível incremento da presença chinesa neste país, ao nível empresarial e também de cooperação - é voz corrente que a APD chinesa é absolutamente ligada, ou seja os seus projectos implicam associação a empresas chinesas. Não sei se é absoluta esta afirmação, não acompanho a matéria, mas o tangível (e audível) afigura-o.

Mas não é isso que me leva a este escrevinhanço. Apenas a despedida do senhor embaixador. Pois por essa ocasião deu Sexa uma entrevista ao jornal Notícias, na qual se debruçou sobre a vida machambeira.

Aí referiu serem as mulheres moçambicanas as obreiras de todo o trabalho agrícola, enquanto que os seus pares homens se limitam a pequenos trabalhos iniciais (o desmatar), e pouco ou nada mais fazem, preguiçando e bebendo no restante tempo. E dizia ainda, no rescaldo da sua missão, que se por cá os homens trabalhassem como as mulheres o país se desenvolveria a contento.

Nem me atrevo a questionar da justeza das conhecimentos agrícolas de Sexa Embaixador, ainda que talvez um pouco urbanos. Mas quando amigos se aprestaram a narrar-me estas espantosas (e até pouco diplomáticas) afirmações, o esconjuro da preguiça moçambicana, não pude deixar de me interrogar: e se tivesse sido o embaixador de um outro país a sair-se com esta? O sueco, o argelino, o brasileiro (e já nem digo o português)?

Não cairia o Pott e a Fortaleza???

O Senhor Pine Ataca de Novo

O amigo Pine, exilado na apertada faixa entre estremadura e alentejo, enviou esta missiva. Após partilhar estas ma-schamba para exorcisar o luso estado surge, até poético, apelando ao por aqui…e transpirando essas saudades.Ocorre-me, ò das musas, que a vida não é um sonho. E apesar de tudo o importante é que se vá colimando. Daí que nada de desilusões…nem de ilusões. Grande abraço, e aqui segue transcrição:

Caro Ele,Que alegria reler a Macaneta, recordar o Inkomati, regressar à Ma-schamba. Que alegria recordar os amigos de lá longe, de onde saímos com saudade . Que bom é saber que a Ma-schamba ainda tem uma Macaneta onde chegamos, comemos, torramos e banhamos.

Um destes dias em que o sonho esteve comigo, sonhei com a Ma-schamba, com a imensa Ma-schamba de Pemba à Ponta do Ouro, com todas as Macanetas, Inhambanes, Quissicos, Ilha de Moçambique, tudo o que de bom vivi, sonhei que a estava a viver com a minha Ela, que ainda não conhece essa imensa Ma-schamba e que já a respira um pouco como eu.

Mas sonhei mais, sonhei com uma Ma-schamba em que uma mulher chamada Luísa fazia a diferença, porque a governava, com calças, como alguns dizem, mas também com paixão e com saber, sonhei que essa Luísa estava a fazer a diferença e que as ruas da Ma-schamba, todas as ruas dessa imensa Ma-schamba, estavam diferentes, mais bonitas, mais floridas, mais arranjadas, com mais pessoas, com menos crianças abandonadas à sua sorte. Sonhei que essa imensa Ma-schamba renascia, com amor e muita justiça, que essa imensa Ma-schamba não pedia ajuda, oferecia trabalho, crescia por si só, mostrava a alma de uma nação.

Sonhei que essa mulher de calças, que essa Luísa, fazia uma nova Ma-schamba, mais igual, mais rica, mais solidária, mais diferenciada. Sonhei que na capital da Ma-schamba existiam árvores que floresciam porque a Ma-schamba estava bem tratada e não porque a natureza assim o ordenava. Sonhei que na capital da Ma-schamba, como em cada uma das cidades e cidadezinhas da Ma-schamba, a minha Ela me dizia “que bonito, que povo sorridente, que povo bonito” e que eu lhe respondia que tinha sido uma Luísa, de calças, mas também de saia, porque uma Ma-schamba precisa de calças, mas precisa muito de umas saias que a tornem mais bonita e mais solidária.

Sonhei. E no dia seguinte acordei com a tristeza de ver que não são as calças que fazem uma Ma-schamba, que essa Ma-schamba talvez tenha calças a mais e conteúdo a menos. Estou longe da Ma-schamba e por isso não sei se ouvi boatos ou se ouvi verdades, mas sei que, inflizmente, uma vez mais a culpa vai morrer sozinha, como morreram algumas crianças, como morreu uma freira. E são estes boatos ou verdades que fazem com que a Ma-schamba não seja a do meu sonho, que fazem com que as árvores floresçam só porque a natureza manda e não porque a Ma-schamba está mais bonita e mais solidária.

Um abraço, ainda não completamente desiludido do Pine.

Partilha do poder político

A semana passada foi importante. Tomaram posse as novas autoridades municipais. Dado que as eleições de Novembro passado ditaram a vitória da oposição em alguns Conselhos Municipais temos desde agora, e pela primeira vez em Moçambique, uma partilha efectiva dos poderes (formais). A coabitação a este nível. Democracia oblige? Então é bom…

A árvore e o lixo

Vai resmungando a colega, verve imparável, inapelável, a transformar a curta boleia em bíblico lamento sobre o seu país, maldizendo-lhe passado recente e destino, parece-lhe que eterno. O mundo tal e qual vai sendo arrasta-lhe o ânimo, e assim procura anoitecer-me este sol de meio-dia que ali me inunda, reflectido na baía.

Falhou-lhe o futuro, afinal, a ela e a tantos outros. Conheço-lhes a maldição, também mo aconteceu mas, modesto, disso as causas são só minhas pois curtos eram os sonhos, que arquitecto de futuros ou engenheiro de presentes nunca me imaginei.

E enquanto vai ela remoendo, justificando-se até, olho o mar recortado em acácias, por ora vermelhas, belas ainda que também depósitos do lixo sempre esquecido. E salvo-me da solidariedade exigida num mero, e até cansado, “sou estrangeiro, só cá estou porque quero”, e como me riposta apelando ainda assim a um olhar crítico sublinho-me num “ouça, sou estrangeiro, eu olho a árvore, você olha para o lixo” que se quer, e torna, definitivo.

E cada um foi ao seu almoço.

E a propósito da Casa da Catembe

O arquitecto da casa da Catembe será José Forjaz, aqui figura relevante. A seu propósito lembro um artigo na Visão (e aqui reproduzido no Savana) do prestigiado sociólogo Boaventura Sousa Santos, que se debruçava há alguns meses sobre personalidades de relevo em Moçambique. Entre outros louvava Forjaz, pois tinha sido escolhido para construir a casa de Kofi Annan. E dele dizia mais ou menos isto: que era capaz de reproduzir como ninguém os valores africanos.

Eu pus-me a resmungar, e ainda estou. Será que alguém me poderá elucidar, o que é isso de “valores africanos”?

A casa da Catembe

Em Lisboa o “Publico” ecoa a construção de uma residência oficial destinada ao futuro ex-presidente Joaquim Chissano. Diante da habitual parcimónia de notícias sobre Moçambique este interesse não deixa de indiciar uma crítica implícita, tipo “um país tão pobre e a gastarem dinheiro desta maneira”.

Incompreensão radical. Goste-se ou não Chissano é um estadista de renome, e importante em África. E o Estado deve garantir-lhe a continuidade da dignidade “presidencial” para o futuro. Até para o utilizar como património político internacional. E, formalmente, deve assegurar essas condições.

Desenvolvo este raciocínio e dizem-me que este meu relativismo é perigoso. Aí irrito-me, e mesmo. Não é relativismo, é comparativismo, coisas totalmente diversas.

Pois esses moralistas doadores não têm, tantos deles, a inacreditável instituição monárquica, toda aquela gente vivendo e habitando os erários públicos? “Ah, mas os povos vivem muito melhor”. Talvez, mas não o viviam quando os respectivos casarões foram construídos.

E, o que é realmente importante, está-se no domínio das instituições políticas e das personagens que as vivem. E por mais que não se queira gostar de Chissano é bem mais importante nesta História do que qualquer rei burguês desses nortes gélidos. Então que seja assim simbolicamente tratado.