Entries Tagged 'Paternidade' ↓

O nome da Rosa

(por AL em êxtase avoengo) -

Chama-se Teresa, a minha neta, mas podia chamar-se Rosa de linda e perfumada que é! São três semanas de vida que cabem nas palmas das minhas duas mãos; quase três quilos de gente em 50 cm de presença. É ainda pequenina a minha neta, mas compensa em genica o que lhe falta em tamanho.

É delicada a minha neta Teresa que se podia chamar Rosa de linda e perfumada que é. Pigarreia duas vezes num “preparem-se” bem educado e só depois nos brinda com o pranto anunciado.

A minha neta Teresa que se podia chamar Rosa de linda e perfumada que é tem o rosto em forma de coração; acaba num queixinho que se adivinha voluntarioso e prenunciador de carácter. Os olhos são de um azul profundo, como os da tia-avó Jú; franze o sobrolho ao jeito da avó Antónia. As sobrancelhas e pestanas, foi buscá-las à tia Joana e o pescoço alto copiou da mãe. No equilíbrio dos genes revela bem ser filha de seu pai e a honra da sua mãe.

O cabelo da minha neta Teresa que se podia chamar Rosa de linda e perfumada que é, é claro e arruivado e remata numa madeixa branca enrolada em remoinho rebelde.

É pequenina a minha neta Teresa que se podia chamar Rosa de linda e perfumada que é, mas enche-nos a vida e deslumbra-nos o coração!

“Pai!, no teu tempo havia youtube?”

“Então como é que ouviam as músicas?”

jpt/cpapt

Sobre o Colonialismo (e o após-colonialismo): cromos e stickers

Nestes últimos dias no ma-schamba tem-se falado mais de colonialismo do que nos anteriores seis anos que as nossas courelas já levam. Muito, mas não só, a propósito do livro de memórias de Isabela Figueiredo (que, vê-se, mexeu na colmeia. Advertidamente, acho). Livro que a jornalista Vanessa Rato aventa ser um momento fulcral na história intelectual portuguesa, anunciando o advento (ou a possibilidade) de um pensamento pós-colonial em Portugal. Talvez por isso, pela percepção ou sensação desse episódio único, tanto aqui têm falado os bloguistas, os comentadores (os residentes e não só) e, até, alguns outros bloguistas que para cá têm feito ligações (mais ou menos abonatórias). Dando-me, ao fim destas semanas, a sensação de já ter os cromos opinativos todos (e isto sem sentido pejorativo), os mais fáceis e os mais difíceis. A caderneta completa! Mas fui compreendendo o meu erro. Pois se a continuidade (muito bem-vinda) de comentários me levou a desconfiar desse sucesso, demonstrando afinal a incompletude, foi a tal referência à actual emergência da reflexão “pós-colonial” em Portugal que me fez entender o meu erro. Pois, e por arrastamento, por analogia ou homofonia, se se quiser, isto levou-me a perceber esta questão no seio do pensamento pós-moderno.

Tento explicar-me. Sou um homem do tempo das cadernetas de cromos, essas “grandes narrativas” conclusivas, com princípio, meio e fim, conclusivas e argumentáveis. Ainda que algo incompetente no assunto, reconheço, pois apenas completei as colecções “Mundial de 1974” – no qual Johan Cruyff e sua Laranja Mecânica foram injustiçados pela vil Alemanha -,

[imagem encontrada no Santa Nostalgia]

e uma esplêndida e mui expressiva “História de Portugal“, da qual guardo ainda memórias muito vivas, constantes, em particular dos cromos da muito dumeziliana Deuladeu Martins botando pão muralhas fora, dos cotos de Navas de Tolosa, do pavoroso e zarolho (Dumézil também?) Geraldo Sem-Pavor ao assalto em Évora, do entalado Martim Moniz ali às portas de Lisboa, e claro que do Nosso Senhor Jesus Cristo planando nos céus da Batalha de Ourique abençoando Afonso Henriques, seus homens e, obviamente, todo o Portugal que aí vinha. Para além do último e destacado cromo, o alusivo ao Presidente do Conselho, Professor Marcello Caetano, que Deus tivesse na Sua santa guarda.

[imagem encontrada no Pena e Espada]

Ora o que ultimamente me tem revelado a minha filha é que o paradigma “cromo” faleceu. A grande narrativa terminável, conclusiva, a encerrar de modo contíguo em apropriada caderneta, é coisa do passado. Deparamo-nos hoje com uma versão diversa, uma contínua actividade de troca, inacabável, dos stickers. Seja em versão Hannah  Montana seja nos “fofos“. Sendo que os rapazes [lá está, a vil ideologia de género a moldar as jovens mentes, a discipliná-los para os papéis sociais a que aderirão julgando-os naturais] têm uma panóplia de viçosos super-heróis para fruirem da mesma actividade.

[imagem encontrada aqui]

[imagem encontrada aqui]

Nesta incessante troca de itens não se vislumbra conclusão, não estão eles numerados nem catalogados. Nem são arrumáveis por predeterminada ordem, cada coleccionador(a) preenche e repreenche criativamente os múltiplos suportes (livros, pastas, cadernos, folhas, paredes, frigoríficos, sei lá) que vai escolhendo. O limite, conceptual e estético, seria o céu não fosse tudo isto ser mediado, entenda-se reprimido, pelas bolsas (aliás, cartões de crédito) paterno-maternais [a tal ideologia de género que sobrevaloriza o termos "paternais" tem que ser combatida]. Estamos diante de uma corrente total de dádivas, sem objectivo nem finalidade para além delas próprias. Barro para um novo (pós-moderno? pós-colonial?) ensaio sobre o dom, com toda a certeza.

Assim esclarecido (actualizado) pela minha filha regresso ao blog e à temática colonial, e mais descansado. Que penso eu, bloguista aqui fundador e que nada tenho falado do colonialismo, do que para aqui se vai dizendo? (o colonialismo ou não, o racismo ou não, o Eusébio ou não, o Monstro Sagrado ou não?, o electricista da Matola ou não, o que os portugueses deixaram ou não, o Bloco de Esquerda ou não, etc. ou não?). Não posso achar, nem resumir. Não porque me faltem cromos na caderneta. Mas porque ela, afinal, não existe. Apenas posso, agora (desde Dezembro de 2009) que parece que começou o pensamento pós-colonial em Portugal, aproveitar para meter uns stickers (versão “fofos”) na porta do frigorífico e uns outros no blog. Para o blog seguem estes, nada raros:

Num texto de 1936 George Orwell (autor muito simpático a largo espectro de leitores) escreveu. “Here was I, the white man with his gun, standing in front of the unarmed native crowd – seemingly the leading actor of the piece; but in reality I was only an absurd puppet pushed to and fro by will of those yellow faces behind. I perceived in this moment that when the white man turns tyrant it is his own freedom that he destroys. He becomes a sort of hollow, posing dummy, the conventionalized figure of a sahib. For it is the condition of his rule that he shall spend his life in trying to impress the “natives”, and so in every crisis he has got to do what “natives” expect of him. He wears a mask, and his face grows to fit it.” (George Orwell, “Shooting an Elephant“, 1936, Inside The Whale and Other Essays, Penguin Books, p. 95). Repito, é um texto de 1936.

Entretanto na página Facebook de um prezada colega encontrei este filme que de imediato me fez lembrar este livro, comprado recentemente na Livraria Sá da Costa (ao Chiado, Lisboa) pela quantia de 0,5 euros.

[Aimé Césaire, Discurso Sobre o Colonialismo, Sá da Costa, 1978. Tradução de Noémia de Sousa, prefácio de Mário de Andrade]

Podemos hoje olhar para o livro, na realidade um panfleto com todas as características desse tipo de documento, publicado originalmente em 1955 (e retomando um texto de 1950), com grande distância. Césaire era ainda membro do Partido Comunista Francês, explicitamente crente na filosofia de história comunista (e o panfleto termina com uma profissão de fé típica, hoje anquilosada), a qual até contradiz parte do argumento multilinear que defende (as “possibilidades” de desenvolvimento que imagina). Defende o afrocentrismo de Cheikh Anta Diop (que não será ele próprio reactivo?), hesita (apesar de tudo) na refutação radical do conceito de filosofia bantu do padre Tempels,  mi(s)tifica o comunitarismo das sociedades africanas ante-coloniais (“Eram sociedades democráticas, sempre. Eram sociedades cooperativas, sociedades fraternais.” (27), e chega a pontapear Marco Polo como exemplo do colonialismo. Mas se não o lermos anacronicamente (como ele o fez ao pobre de Marco Polo) encontramos um diagnóstico acutilante. É só escolher para citar. Escolho dois trechos: um, porque muito orwelliano, e porque vem a propósito do que aqui (ma-schamba) vem sendo dito: “Será preciso estudar, primeiro, como a colonização se esmera em descivilizar o colonizador, em embrutecê-lo, na verdadeira acepção da palavra, em degradá-lo …” (17) “a colonização desumaniza, repito, mesmo o homem mais civilizado; que a acção colonial, a empresa colonial, a empresa colonial, a conquista colonial, fundada sobre o desprezo pelo homem indígena e justificada por todo esse desprezo, tende, inevitavelmente, a modificar quem a empreende (…) É esta acção, este ricochete da colonização, que importava assinalar. (24).

E escolho outro trecho dedicado a alguns dos comentadores. O autor segue Lévi-Strauss e Leiris (então figuras centrais no pensamento antropológico em francês), adversários da ideia de supremacia cultural (e seu corolário, a ideologia do “progresso) – coisa que, sessenta anos depois continua a não entrar na cabeça de muito boa gente, uns porque acham que ele (progresso) é muito bom e entendível, outros porque confundem isto com um tal de “relativismo”. Disse Césaire (repito, traduzido por Noémia de Sousa, introduzido por Mário de Andrade e publicado em Portugal pela Sá da Costa em 1978, e vendido em finais de 2009 no centro de Lisboa por 0,5 euros):

Falam-me de progresso, de “realizações”, de doenças curadas, de níveis de vida elevados acima de si próprios. Eu, eu falo de sociedades esvaziadas de si próprias, de culturas espezinhadas, de instituições minadas, de terras confiscadas, de religiões assassinadas, de magnificiências artísticas aniquiladas, de extraordinárias possibilidades suprimidas. Lançam-me à cara factos, estatísticas, quilometragens de estradas, de canais, de caminhos de ferro. Mas eu falo de … milhões de homens arrancados aos seus deuses, à sua terra, aos seus hábitos, à sua vida, à vida, à dança, à sabedoria. Falo de milhões de homens a quem inculcaram sabiamente o medo, o complexo de inferioridade, o tremor, a genuflexão, o desespero, o servilismo. Lançam-me em cheio aos olhos toneladas de algodão ou de cacau exportado, hectares de oliveiras ou de vinhas plantadas. Mas eu falo … de economias adaptadas à condição do homem indígena desorganizadas, de culturas de subsistência destruídas, de subalimentação instalada, de desenvolvimento agrícola orientado unicamente para benefícios das metrópoles, de rapinas de produtos, de rapinas de matérias-primas. (…) Falam-me de civilização, eu falo de proletarização e de mistificação.” (26)

Tenho mais stickers. Este é um muito wallersteiniano trabalho sobre a economia colonial.

[Carlos Fortuna, O Fio da Meada. O Algodão de Moçambique, Portugal e a Economia-Mundo (1860-1960), Afrontamento, 1993]

Cola bem ao texto anterior, pois o que aqui se trata é da ligação profunda da economia da cultura forçada de plantas comerciais em África e do processo de industrialização português (metropolitano). Para alguns poderá servir para deixar de fazer uma história especulativa, contra-factual, essa do “Ah, se Marcello tivesse actuado… Ah, se Salazar tivesse tido outra visão”. Sim, podiam ter tido. Mas não tiveram pois “é(era) a economia, estúpido!”. [Já agora, dá para colaborar no entendimento sobre a indústria portuguesa no seio da União Europeia ...] Servirá, acima de tudo, para compreender que Portugal era um país colonial, não um país com colónias.

[Lídia Jorge, A Costa dos Murmúrios, Círculo de Leitores, 1988]

Voltando à primeira forma, essa de ver quem e como eram os colonos inseridos no pacote “sistémico”. Há um quarto de século a escritora Lídia Jorge, que veio a tornar-se figura importante na ficção portuguesa, escreveu este romance passado na Beira colonial. Traçou um quadro complexo da sociedade colonial de então, da (ir)relação havida com o mundo colonizado, um meio até contraditório (veja-se a evolução da personagem protagonista, Eva-Evita), assim influenciando as mentes dos portugueses (metropolitanos ou residentes), numa flutuação das concepções. Contrariamente ao que os blogodesenhadores actuais muito gostam não incidiu particularmente sobre “as conas das negras” (a burguesia é sempre espantável) mas encetou o livro com a célebre paisagem dos múltiplos carregamentos de cadáveres de negros, envenenados por álcool metílico, e dos discursos e sensações gerados sobre isso. Um pastel bem mais impressionável, e significante, para os menos espantáveis, diga-se.

[Adelino Serras Pires & Fiona Claire Capstick, The Winds of Havoc, St. Martin's Press, 2001]

Um belíssimo sticker é este, a propósito de sabermos das memórias, dos interstícios do mundo colonial. São as memórias de Serras Pires (que têm edição portuguesa, presumo que na Europa-América), homem do mundo, de relativas posses, uma personagem bem conhecida, com a característica de serem muitíssimo legíveis (a co-autora, Fiona Capstick é uma profissional da escrita). Colono filho de colono, Serras Pires teve (e ainda tem) uma vida cheia, figura carismática. [Para os adeptos da caça este é um livro incontornável]. Muito interessante a forma como aqui se explicita, sistemática e conscientemente, a visão benéfica da África colonial, e de como no livro se subentende, e entende, as particulares modalidades de relacionamento (por um lado sistémico, por outro lado pessoalizado) de relacionamento com os africanos “originários”, como agora se diz. Mas traz também as flutuações de relacionamento intra-mundo colonial – são recorrentes e profundas as críticas à governação colonial, aos mandarins metropolitanos, ao BNU (a finança todo-poderosa) e, excelente, “aos a sul do Save” (questão que largas décadas depois, e com tão diferentes actores, ainda se coloca). Um episódio marcou-me na leitura do livro – o pai Serras Pires, velho colono inaugural na região do Guro adoece, já idoso, ao fim de trinta anos na região. Tem que ser evacuado de urgência mas não sobreviverá à viagem de carro até à Beira. É então necessário evacuá-lo de avião mas não há pista de aterragem no Guro. Será construída durante uma noite, por mobilização popular. Cabe a história no modelo? Explica o colonialismo? Se sim, cristalizamo-la e embandeiramo-la? Se não, censuramo-la?

São os meus stickers. Do após-colonialismo. Quanto aos do pós-colonialismo, não tenho grande curiosidade. Valem-me tanto como a tralha avulsa da “vocação milenar” ou da “gesta pátria”. Ou menos, que nem lhes acho interesse museológico. E estes stickers, e mais alguns que meti na porta do frigorífico (aka, geleira), valem-me para os próximos tempos. Daqui a seis anos, se ainda houver ma-schamba, volto a botar sobre colonialismo e após-colonialismo. Mas não, espero (que a esclerose não me ataque), sobre o pós-colonialismo.

jpt

Xutos para crianças

Ao medrar-me em casa uma criança completamente fan da Hannah Montana, uma verdadeira proto-groupie dos Jonas Brothers, apercebi-me, até um pouco pesaroso, de algo que me tinha escapado. Isso de que se em tempos o rock foi expressão de um movimento de juventude já pela minha geração foi coisa de adolescentes. E que essa infantilização foi continuando, de público-alvo em público-alvo: que uma criança de cinco anos me diga, Jonas Brothers na TV, “isto é rock, pai” e eu “pois é!” e que ela continue, até surpresa, “tu conheces rock!?” significa muito mais do que a passagem das gerações, é mesmo o eco da indústria de entretenimento a esticar a corda ao limite. Que virá a seguir, Brown Sugar em versão bebé? A infantilização do rock pouco significará musicalmente, muito daquilo sempre foi meia-bola-e-força, mas que dizer da sua expressão quando a adesão e o êxtase são propostas aos quasi-toddlers?

Veio-me isto a propósito desta prenda natalícia que a minha filha recebeu. O “As Melhores Canções Para Crescer“, as letras das canções dos Xutos e Pontapés com ilustrações de Miguel Gabriel (Oficina do Livro, 2009). Simpático?, aparentemente pois lá estão as canções, muitas quase hinos, que acompanharam a geração dos pais agora transportadas para os seus rebentos, assim crescendo imbuídos de algo que animou, formou os pais, deles até foi símbolo. Mas esse transporte, aparente, é uma falácia – verdadeiramente o que se passa é o “rapar o tacho” do produto. O que os Xutos trouxeram, ou melhor transportaram, foi um espírito rock, uma postura, uma rebeldia desencantada. Ao infantilizar isto, por mais sorrisos que acolham, negam-no. Radicalmente.

E nisso descruzo os braços ao alto, cai-se-me o “X”. Ou julgariam que

este simpático desenhito que acompanha o celebrado “Homem do Leme” justifica que me ponha a contar, a cantar e a explicar à princesa que

E mais que uma onda, mais que uma maré
Tentaram prendê-lo, impor-lhe uma fé
Mas vogando à vontade, rompendo a saudade
Vai quem já nada teme, vai o homem do leme

E uma vontade de rir
Nasce no fundo do ser
E uma vontade de ir
Correr o mundo e partir
A vida é sempre a perder

No fundo horizonte
Soprar um murmúrio, para onde vai?
No fundo do tempo
Foge o futuro, é tarde demais”

Ou trautear-lhe, enquanto adormece, o grande “Remar, Remar”, esse do eterno “Contra tudo lutas / Contra tudo falhas / Todas as tuas explosões / Redundam em silêncio“.

Afinal era para isto?

jpt

A Casa do Capitão, na baía de Inhambane

Aqui,

que estava assim,

constrói-se deste modo

para ficar desta forma

Sabedores da construção do hotel (e timesharing), propagandeado em Maputo, logo que chegados a Inhambane apressámo-nos a ir ver o resultado. Fico, ao volante, balbuciando “Meu Deus!! … [nestas alturas dá-me para o deísmo, mas em molde de ateu, vituperando este deus preguiçoso e incompetente que nos rege o devir] … Meu Deus!, isto parece, isto parece …” e logo no banco de trás a Carolina, nos seus sete anos desconhecedora de debates arquitectónicos, urbanísticos, culturais ou ecológicos, remata “pai, isto parece o serviço!”.

Adenda: na caixa de comentários surgiram (legítimas) dúvidas sobre o que aqui tentei demonstrar. Como acima refiro a minha filha esgotou-me a argumentação sobre o assunto. Deixo mais uma pobre fotografia, que é o máximo que posso tentar para elucidar os visitantes [e, já agora, os futuros "timesharers"]

 

[pressionando as fotografias elas aumentam]

Adenda: Nos comentários ao texto o Rui Monteiro argumenta sobre o assunto e lamenta a inexistência de fotografias da “casa do capitão”, disponibilizando-se para as ceder. Eu aí explico porque não considerei relevante colocá-las, nem mesmo fotografá-las. Ainda assim, e enquanto ele não envia as suas coloco as minhas duas fotografias em que o velho edifício surge. A segunda dará uma pequena amostra da sua escala face ao empreendimento. Mas não dão, reconheça-se, sequer uma pálida ideia do que nesse edifício (a antiga casa) será feito.

 

 

jpt

Segunda Adenda: o Rui Monteiro - e agradeço-lhe - enviou fotografias do interior da construção, no contexto da antiga “Casa do Capitão”, que possibilitam uma outra panorâmica do edifício. Mandou ainda duas, as finais, sobre a “Casa” propriamente dita e sua porta, mantida.

jpt

Terceira Adenda: Um texto no PembaAtoll dedicado a este tema, e que me parece de bastante interesse.

jpt

(N)A “Pátria Amada”

  • Lisboa

1. Inverno. Um calor de estalagmites.

Dizer

2. Crise. Qualquer emigrado português sabe que ir à “terra” é para ouvir os constantes lamentos dos amigos, da família, dos populares, com a “crise”, e etc. e tal. Mais agora, com a desgraça internacional a repercutir-se nos dois milhões de portugueses abaixo do limiar da pobreza, mais de dez por cento de desempregados, o país sem luz ao fundo do tunel, sem projecto.  E depois … basta ver o potlatch radical dos últimos dias antes do tal solstício dito Natal! Basta perguntar no talho, no café (o bolo-rei), na livraria, na loja de brinquedos, nos restaurantes e afins, etc e tal vinícolas e isso, o obrigatório “então, e este ano como vai?”. Crise? Já lá vai, que “estamos melhor que o ano passado”. Crise? Como crise se a felicidade está ali mesmo, nos balcões dos chópings? E tudo segue, no dia 26 abrem os saldos e as multidões reiniciam o seu caminho de cigarras. O vazio (versão portuguesa do conradiano “horror”).

[Fotografia de inscrição ao Teatro Politeama, Lisboa, Dezembro 2009]

avc

3. A gula. Crise? E é um “trocadilho” fácil, o com esta campanha de época, o tome atenção aos AVCs que encheu os painéis das cidades. Crise? Só se for a da gula, essa motriz dos AVCs. No fundo o símbolo da Europa Ocidental, obesa, no seu estertor. As causas? Exactamente a tal falta de visão, de preocupação. De razão. Tudo isso do a cada um o seu sapatinho, e nada mais … Aliás, a cada um o seu sapatão.

paulo duarte

4. Paulo Duarte, afirma-se de origens humildes, foi um futebolista modesto e não enriqueceu, é agora o seleccionador do Burkina-Faso. Deu uma entrevista ao jornal Record. Interessantíssima, muito para além do patois futeboleiro habitual. De como olha o país africano para onde, surpreendentemente, foi trabalhar há já dois anos. E de como reconhece que para preconceitos era ele que os carregava ao início. Mas mais do que isso, também ele de longe a re-olhar os seus patrícios: “Se as queixas, por isto ou por aquilo, fossem modalidade olímpica, os portugueses estariam cobertos de ouro. Somos muito assim. Completamente. As dificuldades da vida são muitas, para toda a gente, mas há coisas que não podemos esquecer: a maior parte dos portugueses que vive mal tem uma casa, duas televisões, um vídeo, dois telemóveis, dois carros, um emprego, mal remunerado mas temos, tem água, tem luz, tem gás, tem comida na mesa, tem roupas adequadas ao clima. Com maior ou menor dificuldade, chegue o dinheiro ou não ao fim do mês, tem isso tudo“. Sei que é muito fácil apupar este tipo de visão. Mas seria conveniente que os habitantes de um país que não produz o que tanto consome pensassem um pouco no facto de que a sua ladaínha lamurienta não encanta (enfeitiça) os que de longe os assistem. Fica o meu desejo das maiores felicidades a Paulo Duarte, homem a pensar. Força Burkina-Faso!

pai natal

5. Quadra natalícia: Eu também! Pois se o mito sublinha o amor transposto para o espírito de dádiva neste emigrante o real é a volúpia da posse, sacos de auto-prendas esquecendo-me dos “entes queridos”, esvaziando-me o porta-moedas extinto que foi, e já em tempos, o cartão de crédito, malfeitoria ocidental. Malditas livrarias ….

stuyvesant logo

6. Saúde. Viver em flat e enfrentar tantas proibições tabagísticas em locais públicos: assim a fumar bem menos.

Corcunda de notre dame

7. Oferta infantil. Uma enorme oferta de espectáculos e actividades infantis. Gloriosa. Diz quem sabe que este Corcunda de Notre Dame foi do melhor que já viu, e já viu várias coisas.

asterix

8. Cultura. Na revista “Os Meus Livros” (nº 82, ano 7, 12.2009) a coluna “Caldeirada de Letras” (p. 52) contém um acertado texto da autoria de Luís Graça: “Astérix Ortografix“. A propósito da edição do “O Aniversário de Astérix e Obélix, o Livro de Ouro” (fraquinho, já agora) uma crítica as  novas traduções dos nomes das personagens, um incompetente ataque à tradição asterixiana. (Algo que em tempos já aqui referi).

Artis

9. Surpresa. Encontro o Bartis (ok, o Bar Artis) reaberto. Um ícone do Bairro Alto, ali à Diário de Notícias, agora com nova gerência (propriedade dos donos do velho restaurante “Sinal Vermelho”), a vender apenas produtos portugueses (quer um whisky, um gin, um vodka? Beba aguardentes vinícolas – aprecio o acto). Mas mais do que isso – e ainda que lamentando isso do balcão estar agora ao fundo da sala – de louvar a reabertura de um local biográfico. Mesmo que já sem o seu velho proprietário, o célebre Mário, e – aí sim, lamentavelmente – desprovido da lendária Paula, rutilante alma. Mas está lá o Bartis ….

onesimo marx e darwin

10. Inteligência: a primeira auto-prenda, logo no dia da chegada, este “De Marx a Darwin. A Desconfiança das Ideologias” (Gradiva, 2009), um para mim desconhecido livro de Onésimo Teotónio Almeida. O autor é um homem inteligente, o livro idem. Uma delícia, sobre paradigmas cientificos, suas características e limites, e ainda da hipotética relação da ciência com a religião, da ética com a lei. Para mais muitíssimo acessível (efeitos da tal inteligência). Deixo uma citação. Que é letal para alguns meio lusos, e não é preciso recuar ao guterrismo: “Nem tudo na ética está codificado na lei, a lei civil é apenas a imposição da obrigatoriedade de uma ética mínima para o funcionamento das sociedades. Mas se a ética transcende a lei, e por vezes choca com ela, ambas têm os mesmos alicerces. Os debates legais resultam de confrontos entre valores éticos, de combates morais, e nem todos conseguem reunir consensos que se traduzem no estabelecimento de normas legais (ou, pura e simplesmente, de leis sancionadas pelos tribunais e pelas forças do Estado que velam pelo seu cumprimento), contudo muitos valores morais não precisam de ser codificados em lei. Há normas éticas aceites pela maioria que nunca foram consignadas em nenhuma legislação. Os ventos da história e o rumo de cada cultura acaba conseguindo para esta ou aquela norma ética um estatuto legal. Mas nunca a lei cobre todo o domínio da ética, até porque nela, a ética, há um mínimo que suporta legislação (o domínio do dever), porém existe um outro bem mais vasto, o da virtude – a arethé grega – que não poderá nunca ser legislado.” (125)

sporting logo

11. Drama. Rui Santos sobre o Sporting. O jornalista em causa capta pouca adesão – como o prova o baixo número de subscritores das suas incessantes petições informáticas, abundamentemente publicitadas em inúmeras horas televisivas (basta compará-las com as petições lançadas in-blog para comprovar essa sua fragilidade). No entanto a sua denúncia sobre a destruição do Sporting Clube de Portugal por parte do núcleo socioeconómico, em tempos albergado sob o epíteto “Projecto Roquette”, é inultrapassável. E de registar pois estabelecida em jornal de grande divulgação. E, por extrapolação, diz muito sobre o Portugal de hoje, esse da cega aceitação de auto-anunciadas elites sublinhada pela “falta de alternativas”.

fnac

12. Capitalismo. A edição portuguesa está pelas “ruas da amargura”. Sob a tutela dos interesses comerciais, de grupos editoriais desligados da cultura (e, porque multinacionais, do contexto nacional). E esmagada pela pressão oligopolista dos grandes potentados livreiros, também eles apenas virados ao lucro. Assim se apaga a hipótese da edição ensaística e apenas subsiste a chamada “literatura leve”, a capa brilhante, o conteúdo inexistente, a forma “plana” – em particular expressa nos registos da “exo-ajuda” e do chamado “romance histórico”.

Prova dessa superficialização produzida nas grandes superfícies encontro-a na FNAC do Chiado, chego à secção dos livros e deparo-me com o primeiro escaparate – aquele que me recebe e me despedirá, dentro de algum tempo, portanto o que mais apelará à aquisição. Uma das faces para a literatura nacional (prosa) considerada relevante (os peixotos, cachapas, saramagos, lobos antunes, tordos e torgas e isso). A outra face de prosa estrangeira, e não resisti a transcrevê-la, para aqui comprovar o “estado da arte” a que se chegou, do esmagamento cultural por via do comércio (do capitalismo, por assim dizer). São 18 colunas, cada qual com quatro livros, novas edições (traduções) ou recentes reedições. Por mim recenseadas, como denúncia. Apresento apenas os autores, para economia de ma-schamba. Eis então o painel do escaparate melhor situado:

1. Bernhard; Bernhard; Mishima; Mishima. 2. Beckett; Walser; Walser; Mme Lafayette. 3. Hesse; Hesse; Jane Austen; Jane Austen. 4. Hemingway, Dumas, Diderot, Dickens. 5. Iris Murdoch, Iris Murdoch, Rilke, Colette. 6. Susan Sontag, V. Wolff, V. Wolff, Lampedusa. 7. Thoreau, Flannery O’Connor, Orwell, Orwell. 8. Maugham, Mann, Beckett, Mailer. 9. Daphne du Maurier, Céline, Saint-Exupery, Walty. 10. Flaubert, Yourcenar, Yourcenar, Hsek (?). 11. Kafka (X4). 12. Aitmatov, Kafka (X3). 13. Jack London, Boris Vian, Victor Hugo, Lautréamont. 14. Proust, Proust, Calvino, Calvino. 15. Calvino (X4). 16. Calvino, Pasternak ,Turgueneev, Gogol. 17. Tolstoi, Zweig, Svevo, Bulgakov. 18. Dostoievski, Dostoievski, Lidmila Ulitsvaia (?, será assim?, não conheço), E. Waugh.

Lastimável. Esta prática comercial, esta subjugação editorial. O primado da mediocridade. Efeitos, necessários entenda-se, do capitalismo. Vil.

Charme Discreto da Burguesia 2

13. O Charme Discreto da Burguesia. Olivais-Sul, Lisboa, Dezembro de 2009.

Ler Dezembro 2009

14. Império. A Ler (nº 86, Dezembro de 2009), coluna “Booktailoring”, de Paulo Ferreira e Nuno Seabra Lopes. Procurando um registo cómico em futebolês (o dia em que os humoristas escreverem em raguebês ou golfês será bem arejado…) o texto ”Um jogo entre linhas“ que aponta os “jogadores mais influentes do mercado editorial português em 2009“. Não vou discutir os critérios. Apenas o eco da minha reacção: “tenho que ter cuidado, pareço da patrulha ideológica“, resmungo-me. Pois na “selecção nacional” deles lá estão o Agualusa e o Mia Couto. Sim, eu sei que na selecção de futebol estão o Liedson, o Pepe e o Deco. Mas nesta, na literária, não há brasileiros. É, na cabeça dos humoristas, uma selecção portuguesa de Portugal, mas afinal uma transpiração da pobre lusofonia. Ou seja, e isto muito para além dos escritores em causa, da cabeça dos humoristas ninguém retira(ou) o Império. Nem na Ler… Absurdo. Mas um absurdo sintomático.

jornal i

15. O jornal I é o melhor jornal nas bancas. Já no Verão passado me parecera tal. Agora confirmam-me tal alguns amigos. Alguns até acompanham a opinião com um “é de direita mas …”. Mas digo eu, que o vejo sem publicidade e oferecido nas bombas da Galp. Mau sinal? A ver se se aguenta …

Jose Cutileiro Bilhetes de Colares

16. Delícia. Inúmeras bancas de livros em saldo (aliás, monos), um “apelo às dádivas”. Nelas sempre se encontram exemplares desta bela colecção “Horas Extraordinárias” que o Independente foi publicando há alguns anos. Cada vez que em Lisboa lá carrego alguns. Agora é a vez (a 2,5 euros, imagine-se) de adquirir este saborosíssimo “Bilhetes de Colares de A.B. Kotter (1993-1998)“, “porventura” de José Cutileiro. Obrigatório regressar a esta Quinta da Beldroega, sita na Várzea de Colares, seus habitantes e visitantes, ponto máximo de observação deste país. Pelo olhar-mestre do Senhor Doutor Kotter, traduzido pelo ex-comando J. Fonseca, fiel à máxima de que “Como a leitora sabe, eu nunca me imiscuo na política deste maravilhoso país que tão generosamente me acolhe no seu seio. Não cabe a um estrangeiro fazê-lo; menos ainda a um estrangeiro sem razões de queixa.” (66). Ainda que com ele se possa discordar, por vezes, como aqui: “Já tentei explicar-lhe que o snobismo não é tão mau como parece porque, vistas bem as coisas, sempre é o contrário da inveja…”. Discordância que, se seguida, levaria por caminhos muito diversos. Mas mais do que a justificar a corrida aos monos…

fontes pereira de melo

17. Política. Nenhum dos meus amigos – desses que cada vez menos encontro -, nenhum dos meus familiares, nenhum dos teclistas lidos in illo tempore, enfim nenhum desses que tanto vituperaram (vituperámos) o “fontismo” cansado, travestido de “desenvolvimento”, do primeiro-ministro Cavaco Silva tem agora uma palavra irritada contra o proto-fontismo de José Socrates. Mas para quê falar, se é para falar encastrado?

Amalia

18. Jonhy Lyndon (ex-Rotten). Amália. Coração Independente (no CCB). Não sou um amaliano, ainda que nela possa actualizar (reconheço, até acabrunhado) a expressão “de ir às lágrimas”. Pois ainda que não o seja (amaliano) saí preenchido da exposição. Para logo quem ali a meu lado me iluminar, como sempre na vida, num até desdenhoso “não aprendi nada”. E é isso, saio do amalianismo (no meu caso amador) e constato, a exposição não é um diálogo com Amália, é uma missa (certo, a haver divindade que seja ela), apenas uma missa. Ela adoraria. Mas está morta, não haverá outra forma de ser olhada?

Depois o tal diálogo com a mulher, a personagem, a artista, o mito  -  que se pretenderia? –  é atirado para um “posfácio”, de arte contemporânea. Nesse pacote, mas que assim surge externo, in-dialogante, um bailado (Ana Rito) muito interessante, a peça de Joana Vasconcelos também. E uma instalação visual óptima de Bruno de Almeida. Mas mesclado com coisas-obras a parecerem  modismo para “espantar a classe média baixa”. Francamente, não há paciência para quem atira um xaile para o chão e diz “arte!”. Olhar um cilindro branco com espelho atrás, “um artista (Amália) solitário no palco”. Em 2009? Ali tanta ruptura, tanta inovação como o busto realista atrás apresentado (Joaquim Valente), coisa de meados de XX, que foi muito ao gosto da representada. Honestamente uma desilusão. Pelo auto-centramento da exposição, que se pretende encantória. E pela tralha avulsa que se lhe colou à maneira de olhar actual – com as excepções referidas. Sempre me convenço que o epíteto “contemporâneo” faz eclipsar o espírito crítico, analítico. Cilindros brancos, mesas luz com banheiras coloridas, peças atiradas no chão. Hoje?

Coisas que sempre me fazem lembrar aquela entrevista do Jonhy Lyndon (ainda Rotten?) ao Philippe Manoeuvre, publicada na Rock & Folk cerca de 1982. Dizia o Rotten: “ser punk em 1980 é igual a ser hippie em 1976″… Xailes no chão?!

sahara ocidental

19. Sahara Ocidental. Uma militante esteve em greve de fome defendendo a causa do Sahara Ocidental, protestando contra a ocupação marroquina. A representação diplomática de Rabat em Lisboa concedeu uma entrevista ao jornal “i”, anunciando que Marrocos é “o polícia da Europa”. O silêncio europeu face à ocupação colonial do Sahara Ocidental passa por esta “política real”. Confesso que nada sei sobre a situação efectiva na região (no país, por outras palavras), acredito até que o terrível fundamentalismo “alqaediano” seja um papão agitado por Marrocos para colher o apoio à sua velha expansão – como os leitores saberão ninguém falava de Al Qaeda e muito poucos falavam de “fundamentalismo”/”integrismo” islâmico quando Marrocos  procedeu à ilegal anexação daquele território. Ou o seu inverso.

Mas enfim, são contas do difícil e imbrincado rosário da história. A mim interessa-me a reacção em Portugal. Nos jornais e na TV, nas conversas, ninguém ecoa a posição do Estado - o qual desde o governo Socrates assumiu a posição mais próxima da política colonial marroquino. É óbvio que o “distante” assunto a ninguém interessará, Marrocos está nos confins, parece-me até antípoda. À esquerda ninguém diz nada, nem mesmo o BE, onde Marrocos será quanto muito o locus de umas ganzas a legalizar, que isso dos princípios é uma canseira. O PCP silencia, mas é óbvio: para um partido sempre ao lado dos poderes coloniais e dos regimes monárquicos não se deveria esperar uma interrogação sobre a política diplomática portuguesa nesta questão. Ninguém questiona a questão. O fait-divers da senhora à fome acabou, entretanto o escritor José Saramago foi lá apoiar (à revelia do seu partido, à revelia de António Costa, o socialista de quem é apoiante) porque é uma ”causa justa” e pronto. Aliás, prontos …

20. Excelência. No canal Mezzo (que pena não haver em Maputo) um fantástico programa sobre Rafael Campallo, bailarino que desconhecia. Grande, grande …

Liceu Camões

21. O Antigo Regime. O álbum, merecido, celebrando o centenário da Escola Secundária de Camões (ex-Liceu Camões). Ainda que me arrepie sempre que ouço loas ao dito liceu (apesar dele próprio). Que é sempre agitado como se ícone dos “bons tempos” em que havia cultura, e educação que a sustentasse e reproduzisse, em Portugal. Ou seja, antes do povo estudar e, até, gerar professores. Tudo isso em discursos de ”progressistas”, até gente oposicionista germinada no velho Liceu – mas que verdade, verdadinha, suspira por trechos do dr. Salazar, em particular aquele de que ao povo basta ensinar a contar e a assinar. Quebrado isso ficámos como estamos. Que “eles” até a “doutores” vão.

k-el-quijote-de-la-farola-web1

22. A desistência. Visito, acompanhando uma ínclita comitiva, a exposição do fotógrafo Korda. Celebrizado pela iconográfica fotografia de Ernesto Guevara, de sua autoria. Muito interessante, pelo que demonstra da produção do culto de personalidade do ditador comunista Fidel Castro, do qual Korda foi acompanhante durante a década de 1960s. Fantástica a sua entrevista, a forma como glorifica o próprio Ernesto Guevara, um absoluto contrasenso (assista-se às suas declarações, elogiando a “punição” que Guevara lhe fez).

Korda6Korda5 Mão de Fidel

Fidel Castro como ícone, até bíblico. A mão na terra produtiva, a pegada de Fidel, o seu “gigantismo”. A sua beleza sensual. Fascinante, como interpretável. Como produto e produtor de fascínio.

Korda1 - mulheres

Certo que se Korda fosse eslavo ou han teria tido problemas, acusações de “cosmopolitismo” (como aventou um amigo meu) não lhe faltariam. Basta ver esta fotografia, onde duas presumíveis beldades, até lânguidas, escutam no escuro as palavras solarengas do comandante, deixando imaginar outras prédicas, mais íntimas. Coisas deste discurso construtor do “fidelismo”, de Fidel Castro, muito dadas ao tom local, mas também à específica característica de Korda.

Mas para além dos seus méritos estéticos e jornalísticos surpreende que esta exposição, demonstrativa da arte glorificadora de Korda, que surge sob tutela da também estatal Casa da América Latina num espaço também estatal (Cordoaria Nacional), seja apresentada sem qualquer contextualização distanciada, sem referência enquadradora. Nada nos textos que a acompanham, talvez (mas desconfio que não) no catálogo – que muito presumivelmente será apenas encomiástico. Espantosa desistência. Dias passados comento esta minha estranheza numa mesa polvilhada de académicos, a nenhum pareceu estranha tamanha distracção “fidelista”, obviamente significante. Nem mesmo quando lhes disse ser Korda um pouco a Leni Riefenstahl do regime cubano, ou que diante de qualquer produtor de mitos e ícones se presume criar distância cognitiva, não apenas fascínio e adesão – coisas que tão bem “sabem” para outros casos. Um simpaticíssimo alto quadro do ministério da Cultura, ali entre variados acepipes, rematou que “a exposição é daquelas que se recebem”. E pronto! Desistência, pura e simples. E a gente assiste.

gravata

23. A gravata. Penso que foi no jornal “Sol”, uma pequena nota irónica sobre Francisco Louçã. Que o coordenador do BE aportara no parlamento usando gravata, ao contrário do seu significante traje político, esse que reclama dessassombro (e, claro, posição de classe). Para logo nos “sossegar”, afinal era apenas o dia em que o deputado cumpria provas públicas académicas e nesse campo fazia questão de cumprir as normas de vestuário. Passa tudo num sorriso, as pessoas dirão que é do espectro das decisões pessoais, etc. Mas este pequeno episódio, o respeito pela gravatinha no seio da corporação profissional ao invés da liberdade encenada no traje política, este pequeno episódio mostra bem a hipocrisia do senhor professor. O corporativismo fala mais alto, em maquilhagem de pequena-burguesia.

Escaparate

24. O escritor de escaparate. Já no pós-Natal mas ainda a caminho de mais uma comensalidade pantagruélica. No rádio do carro, enquanto subimos ali em Monsanto, capta-se uma conversa com escritor – desses que está em todos os escaparates natalícios, diga-se. Diz ele, face a pergunta da radiofónica voz: “a literatura é o que tem que ser!”. Abismado com tanta profundidade aumento um pouco o volume, para ouvir no que aquilo irá dar, e logo ouço mais uma pergunta “V. disse no seu blog que a literatura portuguesa não é apoiada pelas livrarias. Que vontade de escrever isso lhe dá?”, ao que responde o escritor, voz arrastada, sofrida, ”Nenhuma“. A meu lado, enfastiada, a senhora pergunta-me “queres ouvir isto?” e eu, mais assim como eu, logo riposto: “tira essa merda!”.

Rolling-Stones-Let-It-Bleed

25. Envelhecimento. Ligo o carro e na rádio reconheço os acordes da “Fanfarra para um homem comum” e logo surge a  “You can’t always get what you want” dos Stones. Elevo, e bem, o som e segue a canção-ícone, rock-barro da minha gente. Acto contínuo a bela rapariga a meu lado põe-me na boca …. uma castanha assada.

coppola tetro

26. Tetro, de Coppola, é um soberbo, lindíssimo, filme sobre Buenos Aires. Fantástico. A história é um pastel, a deriva patagónica um must de pirosice. Convém ver. Mas sem som nem legendas.

jose policarpo

27. Cardinalice. O Cardeal de Lisboa invectiva a “indiferença, agnosticismo e ateísmo” na sua homilia natalícia. Interrogo-me onde vai ele buscar essa ideia da igualdade entre “indiferença” e “ateísmo”. Que ”indiferença”? A prática, a ética, a solidária, a reflexiva? Um argumento vácuo, inaceitável, e que não cola com a imagem de profundidade intelectual que Policarpo sempre apresentou. Sem rodeios, é uma parvoíce ao nível daqueles que reduzem a igreja católica a fogueiras da inquisição e a erecções pedófilas. José Policarpo tem o direito (em determinada acepção terá até o dever) de combater o ateísmo e o agnosticismo. Mas tem toda a obrigação de matizar as suas argumentações e invectivas. E exactamente quando a sociedade presta homenagem a Manuel Clemente, bispo do Porto, enquanto homem de cultura elogiando-lhe a fina análise. Um deslize cardinalício, ao invés do momento vivido. A colher, claro, o silêncio do comum …

Homem em Furia

28. Homem em Fúria, de Tony Scott, competente filme de TV. Seria uma excelente peça de cinema de samurai, acho, não fosse o seguidismo ao paradigma psicologista, assim desvanecendo a profundidade abissal do protagonista. Um diálogo excelente: “Velho: Na igreja dizem que devemos perdoar; Creasy (Denzel Washington): Perdoar-lhes é com Deus. O meu trabalho é proporcionar-lhes o encontro.”

record

29. Acordo Ortográfico. O Record é o jornal que logo aderiu ao Acordo Ortográfico. Se dúvida houvesse sobre o substrato intelectual desta parvoíce provinciana a entusiasmada adesão de tão pobre jornal cessa qualquer hipótese de dúvida. Eduardo Pitta acha que os detractores do Acordo Ortográfico são “encenadores” que dão pontapés na gramática, e com ele concorda Filipe Nunes Vicente, outro grande-bloguista. Recordo que as maiores polémicas neste ma-schamba vieram desses meus actos pontapeadores e, envergonhado, lamento-os bem como à falência das minhas tentativas teatrais. Vou ali ler o Record – pode ser que por lá me expliquem que esta deriva homográfica lusófona nada tem a ver com um fundo tonto de apelo à gesta da “presença” e “expansão” da língua portuguesa, que nada tem a ver com a inexistência de verdadeira reflexão económica sobre os seus futuros resultados para a edição internacional em português (mas apenas em “desejos pensantes”), que nada tem a ver com a tonta e iletrada ideia feita da distinção radical entre a fala e a escrita (a “escrita é uma convenção” dizem os imbecis, convictos que a fala, em última análise, não o é; a “grafia não influencia a fala”, dizem “professores” sem perceberem que assim invalidam a sua tarefa).

Bem, pelo menos parece o Miguel Veloso marcou um golo e diz-se que vai para a Fiorentina ou Barcelona, e o jornal deve falar disso …

cafe bica

30. Decadência Nacional. Cada vez mais difícil, talvez até mesmo impossível, encontrar uma “bica” (aliás, “café”, “expresso”, “italiana”) decente. Os estabelecimentos  comerciais especializaram-se em servir zurrapas. Café Chinês?

PResepio

31. Família. Em dois dias seguidos dois artigos interessantes, os de Miguel Pacheco, “Não São Sermões Sobre a Vida Íntima e Martim Avillez de Figueiredo, sobre a questão da “família”. Em ambos choco com este meu preconceito, o de que o discurso jornalístico aparece mais superficial do que o académico ou de reclamação intelectual. É aqui o inverso, total. Pois em ambos é explícita a ideia, ao contrário dos discursos dominantes, da necessidade e da virtude da família. Ultrapassando as velhas querelas hiper-liberais e hiper-marxistas, da família como local agente de repressão e reprodutor da exploração, do maléfico Pai-Padrasto Castrador e da malvada Mãe-Madrasta Castrada Castradora, do discurso da libertação do sacrossanto indivíduo face às algemas comunitário-familiares, da ultrapassagem da repressão por via do sacrossanto Estado-sociedade, local de protecção, produção e reprodução. Afinal instituição virtuosa, falível claro, de produção e interacção de valores sociais.

Há quem chame a isto conservadorismo. Lembra-me o Jonhy Rotten (já Lyndon?): “ser punk em 1980 …” (onde é que eu já li isto? …).

enchidos

32. Frases feitas? Um repasto, entre antropólogos e excelsas iguarias, no caminho entre enchidos fidedignos, sopa de rabo-de-boi, conduto incomensurável, doçaria relevante, reservas variadas e vintages culminantes. Algo a que, ali, estou há décadas habituado. Com emigrantes à mesa a conversa passa ao “estado do país”, claro. Donde ao casamento homossexual, que o resto foi resumido, como sempre, num “isto está mau” – mas que ninguém interprete este condicionamento do discurso popular como uma estratégia do governo, que é de esquerda, donde bom. Pessoa que há décadas muito me é querida e também minha mestra nas coisas antropológicas, talvez até causa quase-única desta minha formação, remata-me “O casamento é um contrato entre dois indivíduos“. Vacilo, e partirei destruído para casa. Pois se vindo de quem vem aquele libelo individualista … tudo aquilo que estudei, da reprodução estratégica de laços de filiação e de descendência, de articulação entre grupos sociais, de transferência de património (em sentido lato), de composição e recomposição familiar, tudo isso para onde foi, o que era? Nada, afinal a nossa sociedade é apenas um campo onde interagem indivíduos, livres, racional e radicalmente autónomos que contratualizam. Virtuosamente.

Vindo de quem vem? Já no carro, ao volante, entre a azia silenciosa e a flatulência reprimida, constato-me duas décadas de vida profissional enganada. Novo ano que aí vem – e até já veio – exige-me pois vida nova, profissão nova. Pois se a outra, a da até agora, inexiste afinal. Não dormirei, e desde então a insónia constante. Para onde ir? Que fazer? Ou antes, com que indivíduos contratualizar?

PortoVintage

33. Ideias Feitas?. “À mesa, entre antropólogos e excelsas iguarias, no caminho entre enchidos fidedignos, sopa de rabo-de-boi, conduto incomensurável, doçaria relevante, reservas variadas e vintages culminantes. Algo a que, ali, estou há décadas habituado. Com emigrantes à mesa a conversa passa ao “estado do país”, claro. Donde ao casamento homossexual – que o resto foi resumido, como sempre, num “isto está mau” – mas que ninguém interprete este condicionamento do discurso popular como uma estratégia do governo, que é de esquerda, donde bom. Pessoa [outra] que há décadas muito me é querida, e também minha mestra nas coisas antropológicas, talvez até causa quase-única desta minha formação” [in blog ma-schamba, post "(N)A "Pátria Amada" (ponto 32)], explica-me, simpática e até solidária com as minhas falhas de formação (e tantas ela colmatou nos bons velhos tempos), a diferença entre o matrimónio religioso, de vínculo indissolúvel, e o casamento civil, coisa moderna e passível de ser dissolvido. Por opção própria, por economia de discurso, não lhe dá nenhum enquadramento de história institucional, mas não posso aprender tudo no mesmo dia. Estava eu, portanto, a ouvir pela enésima vez esta profunda argumentação – e ainda não tínhamos chegado à questão das sufragistas, mas haveríamos de lá aportar – quando um conviva comensal rematou, glorioso: “vínculo indissolúvel?! Ah, mas isso é o que defendem os sindicalistas!! Afinal são iguais, a Igreja e os Sindicatos“.

Um vintage, este meu amigo, há décadas que vai vintage! Pena é que não meu mestre …

bachhaydn

34. O cadáver da Antropologia. Ao sábado ouvir Bach na Gulbenkian, ao domingo Haydn no CCB. Para além do encantamento da música – um registo em que me perco completamente, por falta de capacidade interpretativa, uma delícia – deixo-me, como sempre, a “olhar” público e músicos. Olhar esta disciplina, que faz milhares de músicos aprenderem a reproduzir e interpretar partituras de tons e sons velhas de séculos, atentos às suas diversas matizes, e ainda, até, criando-lhes novas formas. Disciplina que passam a milhares e até milhões de ouvintes, que vão sendo treinados a escutar (alguns até a entender). Disciplina essa a qual poderá ser chamada “civilização”, forma vasta de controle, molde gigantesco de sentir e ser. É um fim-de-semana bom para isso, isto de partilhar espaço civilizacional com patrícios relativamente diversos – nas formas do saberem os seus corpos, de controlarem tosses, espirros, flatulências, agitações, sentimentos, amores, aplausos. Mais “burgueses” à Praça de Espanha, mais “populares” (menos “cívicos”, menos ”civilizados”) em Belém, que tudo isto é um processo longo de aprender.

Mas de repente, ali a meio da Criação, de Haydn, entre tosses múltiplas e aplausos fora-de-tempo no seio dos ainda algo in-disciplinados, lembro-me da minha queridíssima amiga e mestra. Que é isso? Questionar-me sim, mas apenas sobre as contratualizações que ali nos uniam. Nada mais há a questionar, a inquirir. Paguei bilhete, é o meu contrato. Outros pagaram ainda impostos, é outro contrato. Todos comprámos produtos dos patrocinadores, mais contratos jurídicos. E basta, deixo-me a ouvir a música, incompreendendo. Feliz.

Jornal de Letras 1

35. A cremação da dita e ainda das suas primas. Jornal de Letras, já institucional presença. Tem defeitos, mas é melhor que exista. Muito estatal, no ponto de vista, nas formas de associação e financiamento. Também por isso local dos sinais dos tempos. Na última edição (nº 1024) vários artigos sobre a década agora terminada, “dez anos de letras, artes e ideias“. Extensas indexações de poesia e prosa literária, artes plásticas, música erudita e pop, cinema, dança e teatro. Ambiente, ensaio e ideias (sobre estas dois textos) também. Não discuto os critérios, gente sábia a escrever. Mas surge-me questão. No mundo das “ideias” ainda há referência para uma ciência social, a História. Até par as sua versão história intelectual (já agora, saúdo as referências a obras que me são bem queridas, “História do Pensamento Filosófico Português”, coordenada por Pedro Calafate, “Portugal Extemporâneo” de Carlos Leone). Depois … Eduardo Lourenço, mais alguns ensaios, o “Portugal Medo de Existir” (“os portugueses são …”).

Entenda-se, dois artigos sobre “ideias”, um sobre “ensaios”. Nem uma referência a trabalhos portugueses de Antropologia, de Sociologia, de Psicologia, de Geografia, de Linguística, de … olhando bem nem de Economia, nem tampouco de outra área de investigação. Ideias durante a década? Ideias sobre Portugal e sobre o mundo? Nada a referir. [Vou escrevendo e pensando que sobre Ciências Exactas/Naturais idem, idem. Mas haverá ideias aí?, dirão os especialistas do JL].

É o Jornal de Letras! Sinais dos tempos? Claro, como comprovei nesta minha deslocação.

inhamabane

36. Inhambane. Para lá sigo. Intentando, entre sol e calma, encontrar um novo rumo. Entenda-se, novos contratos. Apenas jurídicos, claro.

jpt

Não Deixar a Casa dos Pais

Leaving Home Eurostat

por ABM (Alcoentre, 1 de Janeiro de 2010)

O maior dogma da vida moderna nas sociedades modernas são os filhos – tê-los, criá-los, torná-los adultos e prepará-los para a vida. Já falei sobre isso antes aqui. Para além de estupidamente caro, acaba na prática por ser um processo inteiramente falível, pois os pais hoje não criam nem educam, apenas se limitam a pagar as facturas enquanto trabalham, ficando os filhos ao abandono das créches, das escolas, dos amigos, da televisão e da internet. A relação familiar é algo que se forma no entretanto, pelo mero convívio e a experiência comum, seja ela boa ou má.

Digno de uma boa novela de Charles Dickens.

Mais interessante é a constatação de que, para além do resto, os meninos e as meninas cada vez ficam em casa dos pais mais tempo. Presumivelmente à custa dos papás e das mamãs. Como curiosidade e via o Economist da semana passada, o Eurostat, uma fábrica de estatísticas da União Europeia, publicou os dados que acima se reproduzem, respeitantes a 2007 (portanto antes do recente tombo na economia mundial).

Se bem que mais ou menos dentro da média, os dados indicam que os meninos e meninas portugueses naquele ano ficavam a viver com papá e mamã (ou, com quase a mesma frequência, o papá ou a mamã e mais com quem os respectivos vivem) até quase aos trinta anos de idade.

Trinta anos de idade.

Ou seja, para uma pessoa de meia idade em Portugal (45 a 55 anos de idade) isto representa uma embatida tripla: suporta a compra de uma casa, um carro etc, suporta os filhos até eles terem cerca de trinta anos de idade e ainda suportam os pais, que em Portugal recebem em média reformas de 300 euros por mês.

Quando chegar a sua vez de deixar de trabalhar, não poderá, pois mesmo que quisesse, não poupou nada. Gastou o que tinha e não tinha com a geração acima e a geração abaixo. Que agradecem. Ou não.

Isto faz-me pensar como os tempos mudaram – e dizem-me que não sou exemplo, por ter “saído de casa” cerca dos 15 anos de idade (em parte fruto de inesgotável e interessada generosidade de vários terceiros) e ter começado a trabalhar mais ou menos a tempo inteiro aos 18 anos de idade, incluindo o pagamento das propinas de duas universidades, carro, roupa, comida, etc.

Nos anos 70 éra-se adulto aos 21 anos, com direito a festa com os amigos e até uma “chave dos 21 anos”.  Até aí se tudo corresse bem os pais gastavam algum dinheiro com casa, comida e a roupa lavada para a criança/adolescente/jovem adulto. Os estudos eram estatais e com algumas excepções custavam pouco ou nada. Não havia vícios nem necessidades prementes fora disto. Quando acabavam o liceu ou a universidade, e nalguns casos antes, os jovens iam trabalhar. Viviam como podiam e acampavam juntos até haver dinheiro para se fazer mais alguma coisa. Primeiro alugavam um buraco algures, depois tentavam fazer vôos mais altos.

Hoje, é a atitude subjacente a esta permanência prolongada em casa dos progenitores que me chama a atenção.

De certa maneira, convencionou-se aceitável, efectivamente, prolongar a adolescência até aos vinte e tal, trinta anos de idade.

Parece que se pode ter a prerrogativa da vida adulta mas sem os custos, as responsabilidades e os sacrifícios inerentes.

Sendo que, paradoxalmente, hoje em dia cresce-se mais depressa quer física quer emocional, quer intelectualmente que há trinta ou quarenta anos atrás. Ou seja, tirando ao pequeno aspecto de não trabalharem nem terem fundos próprios, os jovens ficam adultos mais cedo.

E hoje os “requisitos de vida normais” para um adolescente ou um jovem adulto são muitos e o seu custo quase astronómico enquanto adicional do que uma casa gasta normalmente.

Os pais, às vezes não sei bem como, pagam tudo.

Mas na esmagadora maioria dos casos há uma barreira que não se pode atravessar: a maior parte dos pais simplesmente não tem recursos suficientes para comprar ou alugar uma casa para o seu rebento de 20-30 anos de idade fazer, também à sua custa, o que bem lhe apetece.

Portanto os meninos e as meninas ficam em casa dos seus pais, numa convivência nem sempre consensual ou saudável.

Frequentemente, adiando a reboque disto tudo a decisão de constituir família, agravando a cada vez mais grave (na Europa e em Portugal) implosão demográfica agora em curso.

Mesmo que estes jovens arranjem um dia uma casa (depois de sair de casa dos pais) terão durante muito tempo a chance de comprar ou alugar um apartamento de uma ou duas assoalhadas, o que dificulta a decisão de fazer crescer a família.

A saída dos filhos de debaixo do ninho familiar não é apenas uma questão logística: é um rito e uma parte fundamental do processo de afirmar a sua independência e de aterrar no mundo real, sem a participação e interferência constante dos pais.

Que, por mais não seja do que serem quem os donos da sua casa e pagarem as contas a estas pessoas, podem interferir muito.

É um paradigma que não sei onde irá levar.

Natalidades

(por AL ainda insone)

imgp4634

Tem cinco anos a Matilde. Está fascinada com a gravidez da tia e ansiosa com o nascimento da prima. As perguntas são em catadupa: ela ouve-me quando eu falo?; ela sente quando eu faço festinhas na barriga?; ela sente quando eu lhe dou um beijinho?; como é que ela come? Sim, sim, sim vai dizendo a tia, enquanto explica à Matilde o elaborado processo de alimentação fetal via placenta. Então ela come tudo o que tu comes?, brilha-lhe o rosto com a revelação e as novas oportunidades que se lhe apresentam. Entretanto vai chegando mais parentela distribuindo doces pela pequenada. A Matilde passa 3 gomas à tia num gesto de partilha: toma, são para ela! Contente, começa a afastar-se para se juntar à criançada que já brinca na sala ao lado. Hesita, volta-se para trás e diz: se calhar podias engolir uma brincadeira para ela não se aborrecer tanto! E corre a juntar-se aos outros primos, já nascidos e todos com nome.

O Top 50 da World Press Cartoon 2009

World Press Cartoon

É uma arte simpática ainda que por definir – talvez mesmo por isso. “Cartoons”? Caricaturas? Cartões? Cartuns? Enfim, o problema das línguas recentemente fixadas, sem passado (nem antecedentes filológicos) de escrita – como é o caso do português -, é exactamente este, o da a incapacidade de encontrar no seu património palavras que possuam as capacidades descritivas e analíticas para anunciar os fenómenos actuais. Entenda-se, faltam conceitos a estas línguas que ascendem à modernidade para a esta descrever e compreender. Está pois de parabéns o Instituto Camões por este esforço para aprofundar o português, alargando-lhe os horizontes.

É uma arte simpática esta do “cartoonismo”, sempre apelando ao sorriso, quantas vezes crítico – isto se exceptuarmos a sensibilidade de alguns idolatras, por vezes mais excitáveis. Com efeito a quem desagradará a apresentação de uma exposição de “cartunes” (ou “cartuns”), ainda para mais uma selecção mundial, o Topo (perdão, Top) 50 do ano 2009?

wp 2009 cartoon cao gomez

Também por isso a minha visita a esta exposição (a secção 2009 no Instituto Camões, a secção de 2008 está na Mediateca do BCI e ainda não vi). Muito honestamente para me desiludir. Claro que há boas “caricaturas” (perdoe-se-me o estrangeirismo, são efeitos das estreitas masmorras de uma língua involuída). Mas nesta selecção há um grande conservadorismo formal no conjunto – esta obra de Cao Gomez será disso a excepção mais relevante. Porventura, e sendo uma selecção do que o ano ofereceu internacionalmente, será esse conservadorismo efeito da produção, mas é um pouco inquietante.

Por outro lado há um conservadorismo na atribuição de prémios, um “correctismo” explícito, muito alinhado, uma linha (ideológica, não fujamos à palavra) que está presente no conjunto apresentado. Digamos que esse correctismo (exponenciado no primeiro prémio, um moralismo cansativo, sem particular alcance estético-humorístico) é o conteúdo da exposição, tão unânime é ela na abordagem ao mundo de 2009. Propositado? Intentando desenhar um unanimismo na imprensa mundial, do olhar o mundo na época? Acredito que sim, e esse é a pior das características que tal exposição poderá apresentar, e a mais desaconselhável para que seja patrocinada e apoiada, entenda-se, apresentada.

Wp 2009 carton Kuczynski

Em regime pessoal tenho a notar que a visitei acompanhado pela minha filha (7 anos) presumindo que ela teria particular prazer com estes “robertos inanimados”. À entrada logo anunciou que iria escrever no livro da exposição – um direito cívico ao qual aderiu há já uns anos. E avançámos. Atrasei-me eu, e parei diante deste … “cartão” de Kuczinski (que sob todos os pontos de vista vale bem mais do que a peça de sacristia aldeã que ganhou o primeiro prémio). E ela, já bem lá à frente, algo desinteressada na sua rapidez, vendo-me parado voltou atrás e diz-me “este é o que eu prefiro, vou escrever isso, posso?”. Eu sorri, entre o agrado surpreendido com a nossa total concordância – para mais presumindo que aquela cloaca desenhada não estaria a lembrar à Carolina o “engenheiro” (em regime de “cartoon”, claro) Socrates e todos os bloguistas que, de modo colectivo ou pretensamente individual, se afadigam em tecer-lhe loas, ou por outra, em desinfectar-lhe o discurso – e cumpri-me pai (em regime “cartune”?) num “claro, mas primeiro acaba de ver a exposição, no fim escreves o que quiseres”. Ela seguiu em frente, eu fiquei um pouco ali ao “cartão” de Kuczinski a elencar o Rol d’Elos que se lhe justificaria associar.

wp 200o cartoon xadrez

E logo vem a correr, a chamar-me num “também gosto daquele, anda ver“. E lá fui eu ver esta “Revolução“, para comprovar que sim, que há obras que são correctas sem serem “correctas”, assim polissémicas, apropriáveis por quem não sabe jogar xadrez nem percebe exactamente o que é “revolução” nem suspeita que haja “revolucionários” que dizem haver um sentido exacto e obrigatório para essa palavra – que, aliás, só conhece disso das estrelas e planetas, andarem às voltas e revoltas uns relativamente aos outros. E aí sim, num sentido “correcto”, entenda-se astronomicamente necessário.

Saí deliciado. Mas não com a exposição. (Proveniente, com toda a certeza, de umas quaisquer igrejas luteranas, suas morais e expiações.)

jpt

Indesculpável esquecimento

asterix09

No passado domingo, 29 de Novembro, o meu amigo Asterix e o seu “brada” Obelix comemoraram os seus quinquagésimos aniversários. E eu nem uma palavra lhes enviei, uma indesculpável distracção. Mas que não significa menos afecto. Daqui seguem grandes abraços para os dois, com toda a amizade e admiração. E muita gratidão, reconhecido pelo tanto que têm feito por mim nos últimos 41 anos. Verdadeira família, como tenho comprovado nestes últimos dois anos, tão gentis tios da minha Carolina têm sido.

Asterix e os javalis

É uma amizade profunda, de convívio sempre querido – ainda que por vezes a vida, essa ditadora, nos afaste um pouco no quotidiano. Mas “estamos juntos“. E estaremos, em particular dentro de algum tempo - pois a eles me juntarei nos próximos meses nessa grande aventura “Asterix no País do Arco-íris“.

jpt

Orgulho Livresco (aka, Book Pride)

Fotografo vinde a mim as criancinhas

Ontem interessante actividade na Escola Portuguesa de Moçambique: os alunos da primária foram congregados, cada um trazendo seu livro, aquele que de momento está a ler, para ser(em) ele(s) agitado(s), bem ao alto (coração ao alto, livro ao alto). Orgulho na leitura porque festa na leitura …

carlosparedes com dança

Festa, claro, que trouxe dança. Porque ler não é chato, é dançável. Bela onda da Escola …

[Nota excêntrica ao tema: ao ver as fotografias lembro-me desta entrada. E do como o "paperismo" se animaria nesta singela hibridez - a dança, típica (tipificada?), no átrio do auditório Carlos Paredes. Sem exageros, lúcido até, fica o sorriso.]

jpt

O pôr-do-sol da Carolina

dsc_0024

Ali na Karl Marx, em casa do Gonçalo Mabunda, a Carolina ficou-me com a máquina e procurava apanhar o pôr-do-sol. Um dos que conseguiu foi este …

jpt

Ano Novo, Piolhos Novos (não pulgas)

ct</ins>enocephalides-canis

por ABM

Até um Maschambeiro convicto sai do sério de vez em quando. Hoje aconteceu um desses episódios.

Eu conto.

Aqui em casa mantenho, com sofrível sucesso, um aspirante a teenager (“adolescente” nos termos do AO) que me acompanha nas deambulações geográficas curriculares desde há vários anos, tendo tido passagens duradouras por, para além de um escola na elegante Vila de Cascais – onde frequenta uma escola selecta e cheia de regras, daquelas onde se usa gravata, juntamente com um perfumado conjunto de bétinhos e betinhas – escolas nas supostamente muito mais precárias cidades de Luanda e Maputo.

Enfim, é um futuro cidadão e, mais importante, um futuro contribuinte, dos tais que vão ter 1.1 filhos, pagar com os seus impostos as auto-estradas, o novo aeroporto e o têgêvê do Engenheiro Sócrates, para além das miserandas reformas a gente como eu, qye tem a dúbia sorte de se deparar com uma esperança média de vida de 78.9 anos.

A minha primeira reacção, ao olhar para as escolas onde ele andou, é presumir que, em termos de qualidade, salubridade e higiene, Cascais se colocaria muito acima das suas congéneres em Maputo e Luanda. Há mais dinheiro, melhor infra-estrutura, o nível médio de vida em geral é melhor, etc.

O surpreendente é que, no entanto, desde que S.Exa anda nesta escola, a experiência tem provado o contrário.

Há uns tempos, recebi um preocupado e-mail da escola, soberbamente escrito, em que a Exma. Senhora Directora alertava os paizinhos das lindas crianças para a possibilidade dos jovens chegarem a casa com piolhos no cabelo. Fatalista e formal, ela tentou dourar a pílula dizendo “bem, sabem, estas coisas acontecem, sabem como são os meninos, metem as mãos em toda a parte”, etc e tal.

E terminava indicando que tínhamos que inspeccionar S.Exa regularmente e fazer coisas como catar os piolhos e meter champô anti-piolhos no cabelo para não haver problemas – mais ou menos o que eu já faço com as minhas duas cadelas sul africanas Cookie e Hot Dog, também conhecidas como as Chiquérrimas.

Contactada a escola, confirmou-se haver uma mini-epidemia de piolhos e portanto aqui em casa despoletou-se imediatamente o PCP (Plano de Contingência contra Pulgas) onde basicamente se tentava evitar não que as cadelas passassem os ditos invertebrados para o míudo mas precisamente o contrário.

Como parte do processo, logo descobri que o champô dele custa cinco vezes o das cadelas, o que me inspirou logo a fazer umas sérias poupanças usando o das cadelas, no que fui imediata e indignadamente impedido pela Patroa, que defendeu vigorosamente que para espécies animais diferentes se usam champôs diferentes.

Para variar, como o champô das cadelas já acabou, agora usamos o do menino para elas, com os correspondentes custos acrescidos.

Há uns escassos dias, começou o ano escolar português, o que significa o habitual corropio de paga propinas, compra canetas, compra livros, paga fotografia de grupo dos meninos, paga deslocação ao Jardim Zoológico, compra uniforme, etc – uma pequena fortuna, com o correspondente rol de e-mails da menina da Secretaria da escola (a “menina” deve ter uns 90 anos de idade…), incluindo as complexas medidas preventivas no caso de ocorrer uma infecção da Gripe A por um dos alunos ou corpo docente.

Portanto tudo feito e tudo a postos.

Mas hoje de manhã, ao verificar a minha parca correspondência electrónica, encontrei a seguinte carta da escola, indicando … o eclodir de nova epidemia piolheira. Uma escassa semana depois das aulas recomeçarem!

Eis o meu dilema: este miúdo andou por todos os lados e mais algum nos sítios supostamente mais sujos, em escolas com muito mais gente, supostamente mais exposto a tudo e mais alguma coisa, e nunca apanhou nada, nem pulgas, nem piolhos nem malária, nem diarreias, nem em Luanda, nem em Maputo.

Mas em Cascais, com os meninos bétinhos e escola com planos de contingência para tudo e mais alguma coisa, já vai na segunda epidemia de piolhos.

É um paradoxo… ou então estes putos aqui são uns grandes porcos.

asterix-zizanie

[Goscinny, Uderzo, Asterix. La Zizanie, Dargaud, 1967]

Ela (enquanto ele lhe lê): “Pai, o livro cheira a mil novecentos e qualquer coisa …”

(e ele “?!”, a pensar “já?!”, e ela “é velho o livro, vê, o papel cheira a qualquer coisaestranha” e ele a deixar-se, “?!” estupefacto com este já.)

Primeira leitura

A Canção da Fome

Prezado senhor e rei,
Sabes a notícia grada?
Segunda comemos pouco,
Terça não comemos nada.

Quarta sofremos miséria,
E quinta passámos fome;
Na sexta quase nos fomos -
Não se aguenta quem não come!

Por isso vê se no sábado
Mandas cozer o pãozinho,
Senão no domingo, ó rei,
Vamos comer-te inteirinho

[Georg Weerth, Rosa do Mundo. 2001 Poemas Para o Futuro, Assírio e Alvim, pp. 1076-77, tradução de João Barrento]

 

- “Estavam zangados com o rei?”, logo pergunta, espantada, depois desta sua primeira – e espontânea – “declamação”.

25 de Maio, dia de

África

Argentina

e

Carolina

Na Ilha

ilha-mar

 

Ela – “Pai, esta vista é completamente boa”.

Manual das Mãos

white-manual0001

Ela (olhando atentamente o pai que lê) – “Manuel … Manuel das Mãos!?

Mãe – “Manual!, querida, Manual das Mãos.”

Ela – “Manual? O que é Manual?

Mãe – “Manual é um livro que ensina a fazer coisas.”  – e segue, até etimológica?, –  ”Manual das Mãos é como um livro que ensina a fazer coisas com as mãos.”

Ela (lesta, feliz) – “Eu também sei fazer coisas com as mãos.” – e logo exemplifica por gestos - “…coelhinhos … dinossauros …”.

Pai (lesto, feliz) – “É isso mesmo, é como se tivesses lido o livro.”

Ela (surpresa) – “A sério?!”

O Mia Couto cá em casa

Ela: Pai, o banho deu-te acordação?

Crueldade! Inocente?

Uns monstros, era o que aquele austríaco dizia das crianças.

Ela: Papá, cortaste demais o cabelo!

Ele: Não cortei nada, filha, cortei o habitual.

Ela: Cortaste demais … Aqui … aqui … e aqui vê-se a careca.

Desinterrupção te(le)ológica

(Estrada, distrito de Manjacaze)

Ela – Papá, por que é que o Pedro da Heidi é pobre?

Ele – …

Mudanças

Filha (após escolher o pijama): – Papá, o vermelho é a minha cor preferida ..

Pai (sportinguista furioso; democrata) – Ai é?! então já não é o cor-de-rosa?

Filha (sorridente) – não, já não é, agora o vermelho é minha cor preferida …

Pai (olhando em volta o quarto radicalmente rosa) – está bem, filha.

Filha: – dantes era o cor-de-rosa, agora é o vermelho.

Filha: papá, por que é que as pessoas mudam?

Leituras infantis

capa-esopo.jpg

Três ou quatro por dia (continuadas com Asterix). “Gostaste?”, “Adorei!”.

High School Musical 2

200px-hsm2poster.jpg

 

Como cresce rápido a princesa. Tanta excitação. Já adolescência?

Dia do Pai

dia-do-pai.jpg

[Fotografia de Vladia Bajerovska. Publicada em "Femina", Junho 2008]

Dia histórico

Image:Asterixcover-6.jpg

 Asterix, Asterix e Cleopatra por René Goscinny e Albert Uderzo.

Pois dia da introdução. Antes de dormir as primeiras páginas, a primeira leitura de Asterix. Este. – Depois, quando eu saio do quarto fica a adormecer com um outro livro, de princesas. De outras princesas, não da Cleopatra.

O Airbus de Marcelo Rebelo de Sousa

Toca o telefone, um amigo a perguntar se estou a ver televisão. “Não?”, então que a ligue, vai-me anunciando os milhares à volta da selecção de partida para a Suíça, os motardes imigrados por lá também à espera no aeroporto, a RTP-A/I transmitindo em directo o delírio colectivo. Quem me telefona não é um inimigo da bola, a desculpa da chamada até foi o comentário à contratação do dia (“Postiga?, então o que achas?”), mas o que é demais tresanda, isto para não dizer que fede, que é mesmo isso, mas as homofonias são desagradáveis quando se quer manter o nível.

Bem, lá vou eu ligar a televisão. Ali está a Carolina (a minha filha que fez seis anos esta semana) a escrever uma carta – sua autonómica decisão – aos avós a dizer-lhes que tem saudades da família e de Portugal. Enquanto escreve eu fico a ver um avião da TAP na pista do aeroporto da Portela a preparar-se para levantar voo enquanto um locutor e o professor Marcelo, em mangas de camisa e de cachecol da selecção portuguesa, vão comentando sobre a importância do evento futuro e desta partida dos jogadores. Alguns minutos se vão arrastando e enquanto o avião (“um Airbus” modelo não sei quantos, avisam, sob o comando do “comandante Coutinho“, sossegam-nos) se vai posicionando o professor Marcelo – que um dia quis ser primeiro-ministro do país, imagine-se – anuncia o efeito bandeirístico que regressa, rejubila com a atenção nacional, etc. O tal Airbus do comandante Coutinho (mui decente profissional, estou certo, e que não tem culpa desta maluqueira toda) estanca no início da pista aguardando o sinal da torre do controle, explica-nos o locutor (para a gente não descrer que a selecção voará para o Euro, presumo), e dentro de pouco o professor Marcelo (insisto, que um dia quis ser primeiro-ministro, imagine-se) irá dizer-nos, preocupado, que o avião está a rolar tempo demais, a custar-lhe descolar, e repete-o, provocando-nos um pequeno frissonzito, “deus queira que tudo corra bem” pensará a pátria, e assim correu, vá lá, lá seguiram eles. Mas ainda antes disso, ainda com o comandante Coutinho, digníssimo profissional, esperando a “luz verde” para arrancar, e nós expectantes desse sempre arriscado momento, não é assim?, a Carolina – repito, em autonómica decisão de escrever uma patriótica carta, “cheia de saudades de Portugal” e “dos avós“, que a avó Marília “me deixa fazer tudo” e o “avô António faz maluquices” -, e a Carolina, dizia eu, interrompe o seu afã pátrio, vira-se para mim armando olhar crítico, e até surpreso de me ver a ver aquilo, e dispara com entoação “ó pai, os aviões não são importantes!”.

Fico-me a sorrir. Se se mantiver assim a esta, quando crescer, não há-de o professor Marcelo enganar com as suas vichyssoises. Palhaçada … ao que um homem desce. Ao que este desceu. E tantos com ele …

agora transcrevo eu

Speech after long silence; it is right,
All other lovers being estranged or dead,
Unfriendly lamplight hid under its shade,
The curtains drawn upond unfriendly night,
That we descant and yet again descant
Upon the supreme theme of Art and Song:
Bodily decrepitude is wisdom; young
We loved each other and were ignorant.

(W.B. Yeats)

21 de Abril

[Montes Claros, 1965]

Pensando bem ainda vamos deste modo.

Então que tal foram as férias?” durante o abraço duplo daqui ou o beijo duplo das realmente educadas, “Um bom ano!” no “até breve.”

Foram maravilhosas.