(o jornal é tecnologicamente flinstoniano. Ou seja, para ler as agudas declarações de MRS sobre Moçambique, muito para além do trivial normativizador ou diplomático, há que esperar que eu regresse ao meu scanner. Ou então algum leitor amigo me envie o texto. Entenda-se, não está na internet.)
Entries Tagged 'Paola Rolleta' ↓
Abril 29th, 2007 — Paola Rolleta, imprensa Mocambique
Bertina, a Pintora
Fevereiro 10th, 2006 — Arte Moçambique, Bertina Lopes, Paola Rolleta
[Um texto de Paola Rolleta, a quem muito agradeço esta oferta ao Ma-Schamba. Publicado no Savana, edição de 27.01.2006.]
Bertina, a Pintora

Energia imparável é o comentário mais óbvio que se pode fazer quando se fala de Bertina Lopes. Uma exposição em Rimini a inaugurar no próximo dia 4 de Março, uma outra em Roma em meados de Maio, e outros mil projectos em carteira desta senhora das artes plásticas moçambicana que nasceu no final dos anos 20 do século passado.
Um texto de um jornal deve ser justificado por um acontecimento especial, um “gancho” como se diz na gíria. O gancho para esta pequena homenagem a esta grande mulher foi-me dado há algumas semanas quando, neste semanário, foi publicado um artigo sobre o fundador do jornal “Tribuna”, João Reis, recentemente falecido. Reis era proprietário de uma loja de livros de arte, discos de música clássica e jazz, jogos de sociedade, reproduções de quadros, a Poliarte, que estava nas arcadas no Prédio EMOSE, na baixa de Maputo. João Reis apoiava os jovens artistas locais, e organizava exposições de pintura. Justamente em 1956, Bertina participou pela primeira vez com os seus quadros numa exposição colectiva faz agora cinquenta anos. O que justifica estas linhas.
A mãe dos pintores moçambicanos

(Olhos brancos de farinha de milho, 1965, óleo sobre tela)
Na história da pintura, muitas vezes o seu nome é posto ao lado da mexicana e grande artista, Frida Khalo. Duas vidas certamente diferentes, mas com traços comuns muito fortes, e sobretudo com qualidades pictóricas e humanas muito peculiares.
É chamada por toda a gente Mama B. Mãe foi de dois filhos, o Virgílio e o Eugênio. E foi considerada a mãe dos pintores moçambicanos todos. É Bertina Lopes, a artista luso-moçambicana que vive há quarenta anos em Roma, com Franco, seu marido italiano. Proibiu-nos de chamá-la apenas moçambicana. Não quer. “Nas minhas veias corre sangue português, do meu pai, e sangue africano, da minha mãe. Desde sempre queria que todos me chamassem luso-moçambicana, só nos últimos anos consegui ter reconhecido esse meu direito”, afirma com um brilho malandro nos olhos negros marcados com uma linha de kajal.
“Ela é mãe e pai das artes plásticas moçambicanas”, disse-nos Malangatana. “Foi das primeiras a exprimir as inquietações na sociedade portuguesa. Levantava problemas sócio-políticos sem fazer com que a pintura se tornasse panfleto. Quer gostassem quer não da pessoa, todos ficavam impressionados por ela como criadora. Porque era fácil compreender a sua obra, caracterizada – ainda hoje - por uma forte expressividade. Talvez não gostassem dos títulos (por exemplo, Grito grande, Olhos brancos de farinha de milho) que ela escolhia para as suas obras, mas sentiam a obra na carne e na alma.”

[Bertina Lopes com José Craveirinha e Rui Nogar; fotografia de Ricardo Rangel]
Voltou a Lourenço Marques em 1953, depois de uma temporada em Lisboa onde foi estudar Belas Artes. Voltou e começou a dar aulas de desenho na Escola Técnica General Machado. Eram os tempos de Craveirinha, Noémia de Sousa, Rui Knopfli. Casou com o poeta Virgílio de Lemos, o pai dos seus filhos. “ Embora com carácter diferente, muitas vezes os quadros pareciam ilustrações dos poemas do Virgílio e vice-versa”, diz Malangatana.
Embaixada paralela

(Como um grande amor [autoretrato com o marido], 1967, óleo sobre tela)
Bertina recebe na sua casa-atelier todos os “palopes” que passam pela capital italiana. O terraço, com vista fabulosa dos telhados de Roma inclusive da Basílica de São Pedro, tornou-se uma espécie de “embaixada paralela”. Todos deixam a sua assinatura, nas paredes, repletas de homens políticos, artistas, músicos, enfim de toda a gente que por lá passa.
Um pedaço dos palopes em território neutro, a Itália. Está lá o poema que lhe dedicou Graça Machel, a flor de Joaquim Chissano, o charuto de Mário Soares, os agradecimentos de Carlos Veiga… e todos os outros que passaram e passam por lá a tomar um “espumantinho erótico”.
Bertina conta anedotas, sorri à vida, leva tudo com a ligeireza sonhadora dos grandes artistas e fala uma língua que é só dela: o “bertinês”, uma mistura de português e italiano, como a definiu o escritor italiano Carlo Levi. Quando fala, usa sempre um tom baixo e arrastado, como se tivesse sempre que traduzir não apenas as palavras mas aquilo que sente na alma: as reacções agressivas - que são uma caractéristica dela - se apagam logo graças ao sorriso de menina brincalhona e das boas maneiras de senhora requintada.
Bertina é uma pessoa generosa. “No meio artístico e social de Moçambique é carinhosamente chamada Mama B”, escreveu Joaquim Chissano, “porque nela está corporizado o mito e a essência do nosso ser colectivo, o modelo e exemplo a seguir pelas novas gerações, a fonte inesgotável de inspiração nos nossos esforços de reconstrução e desenvolvimento nacional, de consolidação da tolerância e reconciliação, de trabalho árduo por um futuro melhor, em que estejam garantidos o pão, a paz, a harmonia e o bem-estar para todos.”
O antigo presidente de Moçambique esqueceu de dizer que Mama B é assim chamada também em Itália onde conta com 57 “filhochos”, (filhotes). A pena dela é que apenas uma traz o seu nome. “Bertine era a mulher do médico que me fez nascer. Mas como era um nome estrangeiro o governo não deixou registar o nome. Os meus pais decidiram então me chamar Bertina.”
Bertina à medida que a idade avança não deixa de ensinar a arte de viver com o sorriso apesar da dor, a arte da curiosidade, da generosidade, e sobretudo a grande arte de não se levar demasiado a sério, a ironia, e a arte e o prazer da convivência natural e social.
Ela nunca esqueceu de onde veio, nunca esqueceu a luta do seu povo e a luta dela ao lado, embora geograficamente distante, da sua gente. No ano passado foi madrinha de uma exposição de artistas deficientes, “Abaixo o cinzento”, para angariar fundos para o DREAM, o programa de luta contra o SIDA levado a cabo pela Comunidade de Santo Egídio em Moçambique.
“Nunca se divorciou do seu país”, comentou Malangatana. A lembrança faz parte da sua obra de arte e da sua vida. “A minha casa era, desde a minha chegada a Roma, o ponto de encontro dos refugiados, dos exilados”, e recorda como ela, na época da ditadura era “deportada” enquanto a irmã mais velha era deputada nas Nações Unidas.
Entre outros, em 1991 Bertina recebeu o Prémio Mundial “Carson” da Raquel Carson Memorial Foundation de Nova Iorque pelo seus méritos artísticos e humanitários e pela sua fidelidade às origens africanas embora no contexto de uma refinada esperiência pessoal internacional.
Jazz inspirador

(Fanisse era minha avó [de um poema de José Craveirinha], 1967, collage e óleo sobre tela)
Uma das fases mais recentes da pintura da Bertina tem o jazz como elemento inspirador. As telas de Bertina a quererem ser partituras de jazz, como um símbolo activo da síntese mais ambiciosa e qualitativamente elevada, entre diversas culturas e etnias, jogadas no harmonioso signo de uma arte já livre de qualquer exagero nacional-cultural e político.
A força da pintura e da escultura (particularmente interessante aquela que dedicou ao antigo presidente e amigo Samora Machel, Quem nunca morre e de tudo se lembra, é o povo) vivida entre dois continentes, reside neste seu “estar fora”, num espaço pictórico totalmente autónomo das escolas e totalmente dentro da vida, percorrendo o espaço “para encontrar um espaço para África”. Grande capacidade da artista de absorver e metabolizar escolas e tendências sem nunca prescindir das suas raizes e da sua personalidade.
Mas a sua terra natal não se lembra tanto dela como ela se lembra de Moçambique. Há vários anos que não é organizada uma exposição da obra dela. Há pelo menos um banco que possui muitos quadros de Bertina, talvez a maior exposição permanente da artista nesta cidade. Infelizmente não está à vista de toda a gente. Malangatana acha que era tempo de Moçambique organizar uma.
Caleidoscópios
Luciana Stegagno Picchio escreveu que “a própria aventura do informal, que Europa e América enfrentam a nível puramente cerebral e visivo ou mesmo apenas gestual, é vivida por Bertina, africana de Europa, como recuperação de gestos e signos que em África, antes que em qualquer lugar, o tempo tinha isolado e mudado em metáforas: o nó, a rede, o olho, a serpente, o totem.”
Já passaram muitos anos das primeiras pinturas figurativas, repletas de grandes olhos de africanos chocados com a violência do mundo. E passaram também alguns anos dos “totem” repletos das cores fantásticas da liber-tação. Passou também a fase espacial.
No século XXI, Mama B de Maputo, de Lisboa, de Roma, tem como motivo criativo a difusão da cor, quase violenta, em telas sempre maiores, caleidoscópios de cores brilhantes, úteros luminosos e fortes onde se vê nítida a vida e a alegria de viver.
Adenda (Jpt): Sobre Bertina Lopes consultar aqui, aqui ou aqui.
As seguintes (pobres) reproduções são minha opção para ilustração no blog, retiradas do catálogo 9 Artistas de Moçambique, Maputo, Museu Nacional de Arte, 1992, e entretanto substituídas pelas imagens originalmente colocadas no artigo.

(”As Luzes e as Chaminés das Fábricas“, 1988, óleo sobre tela)

(”Mafalala“, s/d, óleo sobre tela)

(”Os Três Momentos“, 1991, óleo sobre tela)

(”Raíz Antiga“, 1988, óleo sobre tela)
Ibo (1)
Outubro 1st, 2005 — Ilha do Ibo, Paola Rolleta
No Expresso [abaixo transcrito] Paola Rolleta coloca texto sobre o Ibo e sobre os livros ontem publicados em Moçambique, “Ibo - a Casa e o Tempo” de Júlio Carrilho, e “Pemba, as Duas Cidades“, de Júlio Carrilho, Luís Lage e Sandro Bruschi, edições da Faculdade de Arquitectura e Planeamento Físico.
(Lembro os interessados residentes no estrangeiro, arquitectos, amantes do maravilhoso Cabo Delgado, amantes de livros e curiosos, que os livros podem ser encomendados na Livraria Escolar Editora que os distribuirá internacionalmente).
***
Turismo no arquipélago das Quirimbas
Ilha de Ibo, um encanto decadente
Expresso, 30 de Setembro
Paola Rolletta
A ilha do Ibo - no arquipélago das Quirimbas - é um destino que começa a aparecer nos roteiros turísticos mais sofisticados a cinco e seis estrelas, como Quilálea e Matemo.
O Ibo ainda mantém um ar decadente, e já despertou o interesse nacional e internacional pelo grande património arquitectónico que possui, pelo que representa na história dos povos português e moçambicano.
«Casas de pedra e limo, bichos obstinados na sua quietude. Pacientes, embalados pelo vaivém das marés. Deixando que o sal lhes carcuma a pele por terem desde há muito desistido de contrariar o tempo», escreveu numa estória da ilha, João Paulo Borges Coelho.
As ruínas das casas, as ruínas das varandas, elemento tão característico da ilha, as ruínas das estradas, tudo isto foi levantado e estudado pela Faculdade de Arquitectura e Planeamento Físico (FAPF) de Maputo e publicado agora em livro, «Ibo - a casa e o tempo» pela pena de Júlio Carrilho, poeta e arquitecto e oriundo do Ibo. É apresentado ao público, em Maputo, juntamente com «Pemba, as duas cidades», levantamento da cidade de cimento e da «informal»: a expansão recente da antiga Porto Amélia é constituída da adaptação à resistência permanente no ambiente urbano de uma tipologia de casa pré-colonial transformada e evoluída através de uma sabedoria antiga e ainda viva.
A ilha do Ibo já foi um terra de comércio de escravos. Quando a capital dos grupo de ilhas Quirimbas foi mudado para Pemba, a ilha do Ibo já não foi mais nada. Ficou refém das marés vivas e do esquecimento do tempo, com as varandas sempre mais vazias e sempre mais decadentes. Já se pensou fazer dela o centro de Zona Especial de Turismo, mas não deu em nada.
Hoje o ambiente é mais favorável e muito se deve à mudança de mentalidade da qual a FAPF é certamente uma das principais mentoras, com o director José Forjaz e uma equipa de arquitectos moçambicanos e italianos que estão a levar a cabo o levantamento do património arquitectónico moderno moçambicano.
Em Moçambique, onde os monumentos históricos não são certamente uma presença significativa, parece ainda mais importante tutelar este património arquitectónico que constitui a cara mais evidente das cidades de cimento, seja pela qualidade específica seja pela dimensão e o papel urbano, elemento importante pelo turismo urbano e sustentável, actual aposta de desenvolvimento.
«Ibo- a casa e o tempo» tem o aspecto mais de um diário de viagem do que um tratado de arquitectura. Júlio Carrilho, entre plantas urbanas e fotos de edifícios, relata as entrevistas feitas com os velhos habitantes que todos os segredos sabem das casas, das argamassas, da cal e das ervas usadas para ser mais forte. Reconhece um espaço especial a quem quando a maré não deixa pescar, come apenas maçanicas.
E faz um acto de amor para com a sua ilha, alimentando o optimismo da convicção de que «também o presente ciclo de degradação e um certo marasmo será ultrapassado pela redescoberta da riqueza natural, de novas vocações para o relançamento económico e social e da importância do património tangível e intangível das ilhas no seu conjunto e do Ibo, em particular».
Agosto 6th, 2004 — Paola Rolleta
Contributo importante às delícias da vida, inesgotáveis estas, por isso mesmo sempre solicitando quem nos guie, sistematizando quinhão delas.
Para espicaçar apetites alheios aqui fica amostra, a qual é muito cá de casa.
Dantes alguns sectores diziam “ler e divulgar”. Actualizemos o refrão: “ler, ofertar e divulgar”.
