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A lusofonia segundo Onésimo T. Almeida

Um esclarecido texto de Onésimo Teotónio de Almeida sobre “lusofonia”. De leitura mais do que recomendável para quem se interesse pelo “assunto”.

Aventuras de um Nabogador

Éramos doze filhos, nove rapazes que é como quem diz, pois rapazes não é o termo: bezerros, alguns, touros os maiores. Bestas de força. Não era da comida, que de fome andávamos nós fartos. Vinha do sangue, por isso escapámos todos, que a minha mãe não teve a sorte de outras que deitavam os filhos como coelhas, mas depois era como dizia uma vizinha Ah! Meu rico senhor, isto eles morrem muitos! A minha mãe coitadinha inquietou-se para inventar maneiras de fazer a gente pensar que comia. O único rancho melhoradinho que se tinha no ano era no dia da festa da padroeira. Na véspera punha-se a panela grande ao lume e uma galinha a afundar-se em muita água. Eu a duvidar: a galinha fugiu? Não, tinha-se derretido. Eu revirava a sopa e só encontrava batata. Era só para dar gosto, como agora se faz com as barrinhas de Knorr. …

Aqui, sempre me desenrasquei. E tive mesmo de me desenrascar depressa que isto por cá se não se tem olho vivo e pé ligeiro fica-se para semente. Tive de aprender muito por mim. E graças a Deus aprendi e afinal já sei que não sou burro. Tinha era fome e precisava de olear as máquinas. Por isso ainda se admiram quando falo bem desta terra! O senhor não vai acreditar, mas eu até palavras novas de português vim aprender aqui na América! Palavras que juro que nunca aprendi nem ouvi na minha terra!

Deve ter sido a minha única interrupção, excepto quando não consegui conter o riso incitado por algumas daquelas saídas mais desbragadas: Ouça lá! Eu acredito nisso tudo e reconheço que, a falar-me dessa maneira e nesse tom, será impossível não estar a contar-me experiências autênticas do seu passado na ilha. Mas agora essa de vir aprender aqui palavras novas de português… parece-me já demasiado. Dá-me uma só, como exemplo?

- Claro que dou! FASTIO!

(Onésimo Teotónio Almeida, Aventuras de Um Nabogador & Outras Estórias-em-sanduíche, Bertrand, 2007, 150-156/7)

Jornais Velhos: Times & Tempos

É, os tais jornais velhos, agora um JL já de 28 de Setembro, aterrado cá em casa. A coluna “Times & Tempos“, as crónicas de Onésimo Teotónio Almeida.

Antero e as saudades de Lunenburg” o título desta. Mas é o seu final que me traz aqui, cúmplice:

Por isso, ao fim de uns dias acrescentados dessa temporada de retiro idílico, sussurrei certa tarde à moça do balcão de um posto de informação turística depois de a Leonor sair a gozar o remanso da paisagem:

- Agora, que a minha mulher não está aqui, posso fazer-lhe uma pergunta muito masculina?

A jovem fraziu o sobrolho, mas aguentou firme:

- E …?

- Onde é que por aqui à volta se pode ter acesso à Internet?”

Relativismo Cultural

“(A minha avó) …caracterizou-me melhor do que ninguém o relativismo cultural. Um dos netos ia dar um passo menos ortodoxo…Não estava direito, como se dizia no código moral familiar. Foi a avó quem trouxe a sentença sábia: “Deixem lá. Esta terra e estes tempos não são os nossos. E direito, como?…O direito do anzol é andar torto“.”

[Onésimo Teotónio Almeida, Rio Atlântico]

“…para muitos canadianos a sua identidade parece ser a de procurar eternamente a sua identidade, um empreendimento a la Sísifo, que lhe garante uma angústia para sempre“.

[citação de The Canadians, de Andrew Malcolm, em Onésimo Teotónio Almeida, Rio Atlântico]

Antropólogos e Jornalistas

“… ao tecer algumas considerações finais sobre a impossibilidade de se ser objectivo, apesar da importância de se procurar sê-lo o máximo possível, mencionei o caso específico dos jornalistas estrangeiros (e não os jornalistas em geral) que se encontram numa situação de “antropólogos com pressa.”

[Onésimo Teotónio Almeida, Rio Atlântico]

E quantos dos antropólogos não são jornalistas um pouco lentos?

O ideólogo é o Outro …

“…encontro repetida, e com frequência…a expressão de um receio: a Igreja é uma força ideológica, transmitirá os seus valores.

Ora, o que numa sociedade democrática deveria ser tomado como algo perfeitamente natural (possuir-se uma ideologia) e procurar-se divulgá-la (transmitir valores) aparece como qualquer coisa de vicioso.

No fundo o ideólogo é o outro. As incoerências são algo inerente aos sistemas de valores dos outros.”

[Onésimo Teotónio Almeida, Rio Atlântico, 62]

A época do Bacoco

Se a persistência do Barroco na nossa história nos marcou de tal modo o gosto, e se nesse estilo alguns dos nossos antepassados criaram belissimos exemplos… parece também ter deixado em não poucos portugueses um viés que privilegia a exuberância, a profusão e o espectáculo. Na arte, naturalmente.

Mas também nas palavras. Que muitas vezes servam para esconder ideias nada espectaculares.”

[Onésimo Teotónio Almeida, Rio Atlântico]