Archive for the ‘Chico Buarque’ Category

Chico Buarque e josé sócrates

Domingo, Maio 30th, 2010

É (mais) um “pequeno” exemplo da visão paradigmática do poder socialista português. José Sócrates vai ao Brasil e logo se faz constar que Chico Buarque quis conhecer José Sócrates. O cantor – acima retratado há quarenta e tal anos, quando já era Chico Buarque de Hollanda, época desde a qual já decorreram vários “sócrates” por estes países – veio, algo incomodado, negar – seria preciso negar?, a reles mentira não é tão óbvia? Mais uma vez, pois é mais forte do que eles, lá se extravasou a mesquinhez mentirosa (e arrivista) desta gente, na sua tendência para o culto da personalidade (um caso sintomático este), na sua vertigem para a pequena (e grande?) mentira manipulatória do real, na sua adesão à encenação.

O que vale é que vamos ouvindo Chico Buarque. Até já ninguém se lembrar destes “sócrates” – alguém se lembra do nome daqueles tipos do tempo do Tanto Mar? Aqui fica a música, até para vergonha dalguns e dalgumas que com a meia-idade andam “navegando” socraticamente, até esquecidos de si próprios. (Ou será que, afinal, nunca existiram?). E junto-lhe um belo bónus. Para a gente se esquecer mais depressa destes trastes: os do poder; os assessores da tanga; e todos seus apoiantes – já indesculpabilizáveis, tamanho o despautério a que aquilo chegou, e há já muito tempo.

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“Pai!, no teu tempo havia youtube?”

Domingo, Fevereiro 7th, 2010

“Então como é que ouviam as músicas?”

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Chico Buarque, Leite Derramado

Quinta-feira, Outubro 29th, 2009

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[Chico Buarque, Leite Derramado, Dom Quixote, 2009]

Eulálio de Assumpção, centenário moribundo em hospital público, deixa as suas memórias em registo fragmentário e até balbuciante. Homem de velha estirpe, descendendo até de “um doutor Eulálio Ximenez d’Assumpção, alquimista e médico particular de D. Manuel I” (212), transposta para o Brasil na comitiva de D. João VI, aí originando uma linha de Eulálios de Assumpção grandes proprietários. Através deste Eulálio de Assumpção (com seus avatares geracionais) pode-se entrever certo percurso do Brasil, em particular do Rio de Janeiro – até mesmo sob o ponto de vista urbanístico – de XIX e XX. Mas mais do que referir a óbvia ligação ao registo das “Memórias Póstumas …” de Machado de Assis o que me chamou a atenção foi o fundo ideal do livro.

O protagonista é o verdadeiro Eulálio da Assumpção final, o da inversão de sentido, todos os que se lhe seguem (mas que morrerão antes dele) são tristes sequelas. Com ele, assassinado que foi seu pai em finais dos anos 20, se inicia um longo e doloroso processo de decadência. Económica, social, territorial (as deslocações das suas residências acompanham a geografia histórica do Rio). Mas onde está a força motriz dessa decadência? Na sua fragilidade pessoal, desprovido da verdadeira energia dos Assumpções, do encanto estratégico de seu pai. Mas bem mais do que isso, radica a decadência na incapacidade de resistir ao simples carnal. A morte do pai, o desaparecimento do seu viril controle civilizacional, deixa de imediato o jovem Eulálio à mercê da natureza desbragada, inconsequente, irracional - em pleno funeral de seu pai descontrola-se com a visão de sua futura mulher Matilde, e tem que se retirar, incumprindo a sua função social.

Nesse sentido a morte do pai empurra-o para uma distraída miscigenação: “Mas ora, ora, papai, disse Maria Eulália, está na cara que esse aí puxou a minha mãe mulata. Não sei quem abastecia minha filha com tantas maledicências, Matilde tinha a pele quase castanha, mas nunca foi mulata. Teria quanto muito uma ascendência mourisca, por via de seus ancestrais ibéricos, talvez algum longínquo sangue indígena.” (172). Meio século depois, já avô empobrecido, continuava incapaz de reconhecer o que a sua mãe (e afinal todos os outros) identificara: “Minha mãe era de outro século, em certa ocasião chegou a me perguntar se Matilde não tinha cheiro de corpo. Só porque Matilde era de pele quase castanha, era a mais moreninha de sete irmãs, filhas de um deputado correligionário de meu pai.” (39). Distracção feita de falta de preconceitos com a qual crescera: “No entanto garanto que a convivência com Balbino [com quem também desejou relações sexuais] fez de mim um adulto sem preconceitos de cor. Nisso não puxei ao meu pai, que só apreciava as louras e as ruivas, de preferência sardentas. Nem à minha mãe, que ao me ver arrastando a asa para Matilde, de saída me perguntou se por acaso a menina não tinha cheiro de corpo.” (27). – [esta repetição, até estilisticamente deselegante, do episódio do "cheiro de corpo" inquirido pela mãe salienta a sua importância na economia da narrativa].

Todo o percurso deste Eulálio de Assumpção se marca na desgraçada relação conjugal com esta, afinal, mulata. Que o trairá e abandonará, assim reforçando-lhe o imobilismo existencial, condenando-o ao imobilismo afectivo. E que marcará racicamente os seguintes Eulálios de Assumpção, cada vez mais negros, por herança genética e hipotéticos cruzamentos, cada vez mais inconsequentes e falidos, mais descentrados, culminando no último dos seus descendentes, o gigolo-traficante já negão.

Este típico evolucionismo decadentista brasileiro de XIX, o da miscigenação como factor “natural” obstáculo à civilização, causa de decadência, surpreendeu-me em Chico Buarque. Será que tresli? Ou é mesmo um manifesto antropológico em forma de ficção?

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Como Será Amar Um Filho Crescido e Gabiru?

Sábado, Abril 23rd, 2005

perguntei, abaixo, pai quase recente e em inultrapassável enlevo. A Sara Monteiro, que faz o favor de me acompanhar neste estaminé, respondeu-me, se calhar elucidou-me:

Uma canção desnaturada

Por que creceste, curuminha
Assim depressa, e estabanada
Saíste maquilada
Dentro do meu vestido
Se fosse permitido
Eu revertia o tempo
Pra reviver a tempo
De poder
Te ver as pernas bambas, curuminha
Batendo com a moleira
Te emporcalhando inteira
E eu te negar meu colo
Recuperar as noites, curuminha
Que atravessei em claro
Ignorar teu choro
E cuidar só de mim
Deixar-te arder em febre, curuminha
Cinquenta graus, tossir, bater o queixo
Vestir-te com desleixo
Tratar uma ama-seca
Quebrar tua boneca, curuminha
Raspar os teus cabelos
E ir te exibindo pelos
Botequins

Tornar azeite o leite
Do peito que mirraste
No chão que engatinhaste, salpicar
Mil cacos de vidro
Pelo cordão perdido
Te recolher pra sempre
À escuridão do ventre, curuminha
De onde não deverias
Nunca ter saído

[Chico Buarque - esse que tocou ao jantar cá em casa, hoje sexta-feira, ainda mais dia de amigo(a)s] 


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Quinta-feira, Março 17th, 2005

Com um mínimo de pudor, mais um tanto de ódio preservado, nossa amizade se consolidou; à diferença do amor, que extravasa a toda a hora, a amizade precisa ter seus diques.”

[Chico Buarque, Budapeste]


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