É já noite, e 2 de Março, que descubro via MVF (que está no facebook e ainda no 1 de Março a comemorar a efeméride) que Chopin terá nascido a 1 de Março de 1810. 200 anos de Chopin então. Do festival que o MVF nos está a oferecer deixo este episódio.
Velho como o bloguismo em Portugal (actividade que ali explodiu em 2003) é o tema do anonimato opinativo. Há quem ache óptimo, absolutamente justificado, que por ali andem embuçados a distribuirem caneladas a torto e a direito. Há até quem lhe chame, em delírio de patusquice (e com o beneplácito dos “experts” da matéria), de “heteronímia” – ou seja é gente em quem habita um outro “eu”, ou até vários, muito dados a defenderem o partido “A” vituperando aqueles menos adeptos desse mesmo partido. Depois, burilados os geniais posts, os ditos blogo-Pessoas ou blogo-Quadros re-engolem o tal heterónimo e deixam regressar o aprazível ortónimo (sim, há bloguistas com uma grande lata).
Fica aí o fado, para os adeptos dos embuçados. Para essa gente menor.
Gostava de explicar aos exmos leitores que geralmente não gosto de ouvir música no rádio. Tirando as estações de música clássica, desde sempre. Tolero o ocasional devaneio musical mas muito pouco, O que gosto de ouvir na rádio é gente a falar: jornalistas, entrevistados, comentadores, escritores, pessoas que telefonam, debates, etc.
Nos Estados Unidos existe um formato de estação de rádio para isto: chama-se talk radio. Dão notícias, entrevistas, programas em que as pessoas telefonam, programa da manhã com notícias e anedotas para quem está a ir no carro para o emprego, a mesma coisa quando estão a regressar a casa, programas para depois do jantar, conversas a meio da noite. Hoje pouca gente sabe que o Sr. Larry King, que mundialmente é conhecido por fazer entrevistas de meia hora ou uma hora na CNN, tornou-se conhecido nos EUA porque durante anos e anos e anos ele fazia todas as noites da semana, com repetição do melhor programa no sábado à noite, numa cadeia de estações chamada Mutual Broadcasting Network, da meia noite e seis minutos até às cinco da manhã um programa ao vivo. Eram magníficos e muito, muito maus, para o meu sono. Só anos mais tarde é que ele passou para a televisão com a CNN.
Em Portugal, só a estação TSF se aproxima vagamente desse formato (e por isso a escuto mais que as outras todas juntas) e mesmo assim, tirando raras excepções, não é uma estação de talk radio. Nem sequer de notícias é: quando houve um tremor de terra de 6.0 na escala Richter há umas semanas no continente português, eles continuaram a transmitir música gravada como se nada se tivesse passado até ao cimo da hora, quase meia hora depois do safanão. E quando dão notícias, repetem a mesma lenga-lenga ad aeternum, que deve ser para os que tinham os ouvidos entupidos há cinco minutos atrás. As entrevistas são pouquíssimas para o que podiam fazer e demasiado curtas.
Mas o que me irrita mais é que passam música. E com que critérios não sei. Tanto se lhes dá para uma balada dum roqueiro qualquer, como uma salsada moderna que eu não conheço e que, sinceramente, pagaria para não ouvir. Quando começa aquela mistórdia musical sem eira nem beira, tenho o problema adicional que é que o meu velho e delapidado carro tem um rádio que não muda de estação facilmente. Tenho que andar aos murros nos teclados até me aparecer outra estação, e em geral as escolhas são de fugir. Outro dia apanhei umas beatas a rezar o terço vez após vez na Rádio Renascença.
O que me surpreende (e já volto à música). Qualquer vertebrado pensante já se deve ter apercebido do que aconteceu ao mundo nos últimos dez anos. Toda a gente praticamente tem acesso quase gratuito exactamente, precisamente, aos tipos de música que gosta de ouvir. Poder gravá-la via computador ou por uma variedade de meios, e estar uma vida a ouvir Amália, o Frank, o Puccini ou lá o que quiserem é uma banalidade da vida actual. As audiências fragmentaram-se e portanto quem continua a apostar em programação generalista está a dar – na minha humilde opinião – tiros para o ar. A vantagem de uma talk radio é que é barata, tragável se bem gerida e eu acho que muita gente havia de gostar de ouvir programas interessantes.
E note-se – surpresa – é em português. Feita por portugueses. Como este blogue.
Claro que há uma coisa que em Portugal não funcionaria – e eu suspeito que é por isso que verdadeiramente não há talk radio em Portugal. É que para se ter bom talk radio tem que haver lá gente com cor e com cabeça. E em Portugal regra geral quem tem cor não tem cabeça, e quem tem cabeça não tem cor (nenhuma). É qualquer coisa étnico-cultural daqui. E em Portugal quase todos vivem para pretender que têm cabeça, mesmo que não tenham. Por exemplo, nunca vi país na terra com mais carros pretos, cinzentos escuros e azuis escuros como este. Se se for a um centro comercial num domingo numa tarde de inverno, presume-se que todos vieram de um funeral, quer pela cor sorumbática da roupa, quer pela atitude sério-sorumbática das multidões. O português não consegue rir para quem não conhece à sua volta. Deve ter medo que lhe levem os dentes.
Pior ainda, nenhum meio de comunicação social em Portugal regra geral aposta em “personalidades” – a não ser que sejam cómicos gays (na base de que é impossível serem levados a sério) pois que essas são para matar na primeira oportunidade.
A verdade é que, para se ser personalidade, um requisito básico é que tem que se a ter. E tê-la, neste país, significa que, mais cedo ou mais tarde, tem que se dizer esta ou aquela verdadinha que vai infalivelmente seriously piss off o sôr ministro ou o rei da batata frita, que telefona ao patrão da estação a insultar o gajo ou então, como agora está na moda, telefona a uma qualquer holding chamada Going On, que compra a estação (como faz o patego estúpido do anúncio do Euromilhões) e mete lá um mentecapto a fazer relatos de touradas. Como os portugueses individualmente são seres humanos sublimes mas no agregado são um fenómeno keynesiano de estupidez colectiva induzida exponencial, comem, comem e calam.
Aliás, regra geral o consumidor e o cidadão aqui quase sempre come e cala. Com tudo. Os professores são incompetentes? come e cala. O supermercado vende batatas que apodrecem em dois dias? nimguém vai andar de carro 20 minutos em bichas até ao supermercado fazer o gerente comer as batatas que vendeu. O médico não parece saber o que faz? paga-se e não se bufa. O défice este ano vai estoirar? para o ano há-de ser melhor, alguém que resolva. O vizinho do lado não paga as cotas do condomínio há três anos e comprou um carro novo há dois meses? não esquecer de fazer sempre aquele estranho (e unicamente português) cumprimento simpático mudo à saída no corredor a dizer “olá!” mas que na realidade significa “ó meu grandessíssimo filho da puta como estás tu?”
Por tudo isso, frequentemente sinto que, como os meus concidadãos, o colectivo português vive um quotidiano de entrelinhas acinzentadas, sempre resguardado, sempre à espera da próxima catanada, da próxima sacanice, ou da próxima oportunidade de obter algo em troca de nada, sendo a base da felicidade quando não se leva com ela mais vezes do que é normal, ou quando se constata que os outros (e os outros são todos os outros menos os “amigos”) estão pior que nós. Sendo que o normal é levar com as desgraças em cima. Aí, tem-se pena.
Ah, adoro estas generalizações. É tudo mentira, não é? ok.
E nesta questão da desgraça, o país tornou-se num esquema de pirâmide: a sujeira estes dias democratizou-se, vai do mais baixo ao mais alto nível da sociedade.
Voltando ao rádio, o tema que gostava de fechar aqui. De há uns meses para cá, nas vezes quando me deu para escutar a tal de TSF, comecei a reparar em três coisas.
A primeira, foi que começaram a passar música portuguesa com uma frequência suspeita. Ao princípio pensei que se tinham enganado, que tinham posto a senhora da limpeza a tomar conta da estação, ou que tinham ficado estúpidos e não tinham reparado no ecletismo das suas audiências. Em Alcoentre toda a gente sabe que o que vende é música pimba, fados e a as canções da Ágata a chorar o milésimo desgosto de amor sobre o homem da vida dela que (para variar) se pirou pela vigésima vez com a empregada ucraniana. Em Cascais e Lisboa já não é bem assim. Ainda por cima, as músicas que tocam, que são medíocres quase sem excepção, são de gente que não conheço, cujo estilo não gosto e cujas mensagens nada me dizem.
A segunda coisa que reparei, e que me deixou ainda mais apreensivo, foi que, mesmo quando mudava de estação, acontecia o mesmo, ou seja, levava com uma espécie de música pimba de vanguarda, e habitualmente a mesma que estava a dar na TSF.
A terceira, e de longe a mais desconcertante, foi quando me apercebi que, juntamente com a música pimba de vanguarda portuguesa, começaram a juntar-lhe a mesma gente, mas desta vez ou a tocar em ou em inglês, ou ainda mais surpreendemente, começaram a passar músicas americanas e inglesas, tocadas em inglês, mas por portugueses (!).
Não sei como explicar ao exmo leitor o que é ouvir o these boots are made for walking (a grande canção de Nancy Sinatra, sff de ver em cima) cantados vinte vezes na TSF, pela actriz Maria de Medeiros, irmã da agora deputada socialista residente em Paris e que vem a Lisboa de vez em quando receber o taco e atender as sessões do parlamento. Ou as baladas britânicas do jovem David Fonseca, simpático e esforçado mas para mim uma versão cultural do que é o milho transgénico para a alimentação.
Pois só a noite passada é que esclareci este mistério. Afinal eu não estava a alucinar. É que os poderes constituídos aqui do burgo, em 2006, passaram uma lei qualquer a obrigar as estações de rádio portuguesa a passar 25 a 40 por cento da música que vai para o ar por….. leia-se (decalco de uma peça da RTP):
A lei da Rádio determina que as rádios estão sujeitas ao cumprimento de quotas no que respeita à programação de música portuguesa, que uma portaria de Abril de 2007 fixou em 25 por cento.
O cálculo das percentagens é apurado mensalmente e tem como base o número de composições difundidas por serviço de programas no mês anterior.
A lei estabelece ainda que 60% da emissão de música nacional deve ser preenchida por música composta ou interpretada em língua portuguesa por cidadãos dos Estados membros da União Europeia.
A lei prevê o pagamento de coimas entre os 3 e os 15 mil euros para as estações locais e entre 30 e 50 mil euros nas estações nacionais.
Quando eu vivia fora de Portugal, achava alguma piada e respeitava o facto de que as estações que emitiam para as comunidades portuguesas, quase só passavam fados, música pimba e aqueles clássicos do tempo da Maria Cachucha. Pois era aquilo ou o vasto mar estrangeiro que nos rodeava. Agora, que se tenha importado o costume e que se tenha dele feito lei em Portugal é que foi novidade. Ou seja, em vez dos artistas daqui competirem honestamente pelo privilégio de me tentarem impingir a sua arte, o governo da república socialista portuguesa espeta-nos como uma espécie de IVA cultural em cima e somos obrigados a comer o que nos servem.
Mas como gente como eu não aguenta aquilo, e usando as regras impostas, inventou a música estrangeira, cantada em língua inglesa, por portugueses.
Já não bastava a porcaria do acordo ortográfico e os subsídios aos famosos filmes nacionais que rigorosamente ninguém vê. Esta liberdade socratiana está-se a revelar um verdadeiro assombro cultural.
Felizmente, há a minha teimosia em fazer o que me apetece e a tecnologia. Imitei o que qualquer teenager português hoje faz sem sequer pensar. Por cinco euros e 99 cêntimos, recentemente comprei uma espécie duma cassete com um fiozinho, que liga o meu velho rádio a um aparelhinho que cá se chama um MP3 (mas que na realidade é um MP4), onde gravei na internet não sei quantos gigabytes de: Sinatra, Nat King Cole, Chico Buarque, Óscar Peterson, Walter Wonderley, The Beatles, Mozart, etc etc etc. Até lá tenho o Poker Face da Lady Gágá.
E agora, quando acabam as notícias da TSF no meu carro, a programação passou a ser a minha. Em casa, pela internet e o computador, oiço a LM Radio a partir de Maputo.
Isto antes que eu comece a ouvir a Maria de Medeiros a arranhar o My Way do Frank numa estação portuguesa.
Mário Crespo, o único anchor a sério de uma cadeia de televisão que existe em Portugal em 2010 (made in Moçambique, ao contrário do outro, que é bom mas nada que se compare) escreveu um artigo de opinião muito sério que um jornal da cidade do Porto se recusou a publicar, pelo que ele saiu num obscuríssimo canto duma obscura fundação por obscura razão. Parece-me que o jornal do Porto perdeu um furo dos antigos. Vá-se lá entender.
O que ele escreveu:
Terça-feira dia 26 de Janeiro. Dia de Orçamento. O Primeiro-ministro José Sócrates, o Ministro de Estado Pedro Silva Pereira, o Ministro de Assuntos Parlamentares, Jorge Lacão e um executivo de televisão encontraram-se à hora do almoço no restaurante de um hotel em Lisboa. Fui o epicentro da parte mais colérica de uma conversa claramente ouvida nas mesas em redor. Sem fazerem recato, fui publicamente referenciado como sendo mentalmente débil (“um louco”) a necessitar de (“ir para o manicómio”). Fui descrito como “um profissional impreparado”. Que injustiça. Eu, que dei aulas na Independente. A defunta alma mater de tanto saber em Portugal. Definiram-me como “um problema” que teria que ter “solução”. Houve, no restaurante, quem ficasse incomodado com a conversa e me tivesse feito chegar um registo. É fidedigno. Confirmei-o. Uma das minhas fontes para o aval da legitimidade do episódio comentou (por escrito): “(…) o PM tem qualidades e defeitos, entre os quais se inclui uma certa dificuldade para conviver com o jornalismo livre (…)”. É banal um jornalista cair no desagrado do poder. Há um grau de adversariedade que é essencial para fazer funcionar o sistema de colheita, retrato e análise da informação que circula num Estado. Sem essa dialéctica só há monólogos. Sem esse confronto só há Yes-Men cabeceando em redor de líderes do momento dizendo yes-coisas, seja qual for o absurdo que sejam chamados a validar. Sem contraditório os líderes ficam sem saber quem são, no meio das realidades construídas pelos bajuladores pagos. Isto é mau para qualquer sociedade. Em sociedades saudáveis os contraditórios são tidos em conta. Executivos saudáveis procuram-nos e distanciam-se dos executores acríticos venerandos e obrigados. Nas comunidades insalubres e nas lideranças decadentes os contraditórios são considerados ofensas, ultrajes e produtos de demência. Os críticos passam a ser “um problema” que exige “solução”. Portugal, com José Sócrates, Pedro Silva Pereira, Jorge Lacão e com o executivo de TV que os ouviu sem contraditar, tornou-se numa sociedade insalubre. Em 2010 o Primeiro-ministro já não tem tantos “problemas” nos media como tinha em 2009. O “problema” Manuela Moura Guedes desapareceu. O problema José Eduardo Moniz foi “solucionado”. O Jornal de Sexta da TVI passou a ser um jornal à sexta-feira e deixou de ser “um problema”. Foi-se o “problema” que era o Director do Público. Agora, que o “problema” Marcelo Rebelo de Sousa começou a ser resolvido na RTP, o Primeiro Ministro de Portugal, o Ministro de Estado e o Ministro dos Assuntos Parlamentares que tem a tutela da comunicação social abordam com um experiente executivo de TV, em dia de Orçamento, mais “um problema que tem que ser solucionado”. Eu. Que pervertido sentido de Estado. Que perigosa palhaçada.
O que eu acho que Mário Crespo na verdade queria dizer em vez do que escreveu em cima (ou complementarmente):
Aprendi com o pai BM a gostar do Frank Sinatra, e foi uma lição que gostei de aprender.
Sobre ele durante anos só conhecia um fantástico repertório, uma voz ímpar e das melhores dicções de inglês que já escutei (o exmo leitor tente entender o que os Deep Purple dizem em Smoke on the Water, que tive que escutar ods meus irmãos no princípio dos anos 70).
Gostar de Sinatra para a minha geração (a nascida em 1960) já era algo estranho, que eu complementava com uma apreciação (única na casa dos BM) por música clássica, jazz e outros tipos de música que já não é chique mencionar-se como Paul Mauriat e Waldo de los Rios.
Mas Sinatra resiste bem aos tempos e tem os seus adeptos. Um dos maiores prazres da minha rotina nos meus tempos de Maputo era ir jantar ao Restaurante da Costa do Sol, com cujo dono, o grande Manuel Petrakakis, partilho a paixão sinatriana, e quando me sentava, mão invisível logo removia aquela música estilo zurrapa internacional que se toca enquanto está lá, e põe um longo CD com as músicas favoritas do Frank.
Que mais se pode pedir neste mundo, senão o folclore africano em frente ao restaurante numa tarde quente, um bom prato de ameijoas com uma Coca-Cola bem gelada, enquanto se ouve umas canções pelo Frank?
Hoje faço anos e a patroa, que está de viagem, mandou-me num e-mail o que está acima, a mais bem conseguida balada de Sinatra (andamos em contenção de custos). I’ve got you under my skin é um dos clássicos mais bem conseguidos pelo imortal Cole Porter, com arranjo pelo insuperável Nelson Riddle.
E a única canção cuja letra sei cantar desde o princípio ao fim.
E com ela brindo a todos, leitores, amores, amigos, inimigos (só hoje).
O antigo jogador de futebol Eusébio completa hoje 68 anos de idade.
Aproveito assim para abordar brevemente esta figura do desporto português e moçambicano.
Ao contrário do clã BM, eu nunca liguei quase nada ao futebol, que em Moçambique antes da independência era uma total obsessão para muita gente. Fui a muitos jogos de futebol em Lourenço Marques, mas mais como castigo e para não causar distúrbios em casa aos fins de semana.
Olhando retrospectivamente, o futebol estabelecia uma das diferenças visíveis entre a África portuguesa e as colónias e ex-colónias inglesas, que rodeavam Moçambique, onde os desportos seguiam padrões raciais e culturais muito específicos. Na África do Sul, o futebol era, e ainda é, regra geral, um desporto predominantemente de e para os negros, enquanto que os brancos se cingiam quase exclusivamente ao râguebi e ao cricket e desprezavam o futebol como “desporto de preto”. Presumo que pouca gente então se apercebeu que o piropo também se dirigia aos portugueses, que aos olhos de muitos dos boers e dos sul-africanos brancos, eram uma raça “cafrealizada” – os kaffirs from the sea, como diziam alguns (touché).
Em Moçambique aquilo era mais um pagode, tudo ao molho e fé em Deus. Toda a gente ia e toda a gente vibrava com o futebol, independentemente das questões raciais, económicas e sociais que os analistas de hoje possam congeminar. Aos fins de semana muita gente ia ver o futebol e durante a semana falava-se do que tinha acontecido no fim de semana anterior. Os jogos eram transmitidos pelo rádio clube em simultâneo em português e em ronga. Nesse aspecto, fazia parte do ídílio africano de que falarei mais tarde e que pelos vistos se tornou desporto das classes literadas de hoje desafiar.
Se no esquema geral das coisas essa paixão partilhada entre brancos e negros na África portuguesa valia o que valia, ela existia e pelo menos baralhava um pouco as cartas em termos da dialéctica de então. Os portugueses do regime usavam-na para apontar credenciais não racistas ao mundo, enquanto que os restantes a desvalorizavam, apontando que praticamente não havia quaisquer moçambicanos negros em posições de poder e influência na nomenclatura nacional e colonial.
Mas, só para chatear – excepto no futebol.
Esta realidade foi a meu ver algo injusta em termos de verdadeiros talentos como Eusébio, Coluna e Hilário (por exemplo, mas há mais, como o Vicente, o Shéu, o Matateu, o Matine, o Abel) cujo valor deveria estar acima destas questões mas acabou, durante algum tempo, por ser questionado por temas que nada têm que ver com o facto de que eram atletas de invulgar talento.
As estrelas que Moçambique produziu foram muitas e brilharam. Outro dia ouvi um comentário que achei interessante e parcialmente correcto, não me lembro de quem, mas que dizia que a primeira “verdadeira” selecção de Moçambique foi a que Portugal levou ao Mundial de 1966 em Londres. Sem descurar os restantes jogadores, o talento moçambicano reunido naquela equipa era verdadeiramente excepcional.
E Eusébio, filho de um senhor branco e de uma senhora negra do Xipamanine (pois…) foi a estrela cadente desse conjunto de homens notáveis. Ao ponto de integrar, nas mentes do povão, com a tal de vidente Lúcia e a fadista Amália Rodrigues, uma espécie de santa trilogia do Portugal da segunda metade do salazarismo: Fátima, Fado e Futebol.
Ele era um deus em Moçambique quando eu era pequeno. Um dia, não sei bem por que razão, nos anos 60, ele visitou a casa onde os meus pais viviam na Polana. Não sei como, a palavra passou que ele estava lá, e em cinco minutos a casa estava rodeada de uma multidão a querer vê-lo e a pedir autógrafos. Diligente, eu passei o meu tempo a recolher livrinhos de autógrafos e levá-los ao Eusébio enquanto ele estava calmamente sentado a falar com o pai BM – e ia assinando os livrinhos.
Como um simbolo inescapável de Portugal, difícil foi, e tem sido, a reconciliação com o regime moçambicano, que, antes e depois da independência, nunca o viu como seu, e que nunca aceitou o portuguesismo de Eusébio – apesar de ele ser logicamente também tão moçambicano como qualquer outro, produto genuíno do Xipamanine e da Mafalala dos anos 50 do século passado.
Também não ajudou o facto de que, ao se nacionalizarem os bens imóveis em 1976, incluíram-se os investimentos que quer Coluna quer Eusébio tinham feito na sua terra. Na base da ideologia e de que não podiam abrir excepções, deixaram-nos mais pobres e mais ressabiados. Coluna, que regressou a Moçambique independente e refez lá a sua vida, ficou quase na miséria. Mas isso é história que dava panos para mangas.
Independentemente de todas essas questões, acho que a História já colocou Eusébio no seu lugar devido: o de ter ele sido um dos maiores talentos do futebol que o mundo jamais viu.
Um talento moçambicano.
E, também por isso, lhe dou hoje, e a nós também, os parabéns.
Não pagámos a renda e eu fiquei desligado durante dois dias. Coisas da internet.
Junto uma canção excelente, agradável, segundo o nosso leitor Sr, Sérgio Braz (cuja informação agradeço) da banda moçambicana 340 ml, que anda por Gauteng.
Os seus membros são Pedro (voz, sampler e percursão), Tiago (guitarra, coro e teclado), Rui (baixo e coro) e Paulo (percussão e coro) estudaram e vivem na África do Sul.
Já editaram dois álbuns: Moving (2003) e Sorry For The Delay ( 2008).
Como certas histórias que se contam por aí, eu oiço tanto a canção, ou vejo as pessoas a dançar à minha frente, como vejo ali tudo o que está à volta.
Maputo, Moçambique, no esplendor da sua decadência e renascença.
Ao medrar-me em casa uma criança completamente fan da Hannah Montana, uma verdadeira proto-groupie dos Jonas Brothers, apercebi-me, até um pouco pesaroso, de algo que me tinha escapado. Isso de que se em tempos o rock foi expressão de um movimento de juventude já pela minha geração foi coisa de adolescentes. E que essa infantilização foi continuando, de público-alvo em público-alvo: que uma criança de cinco anos me diga, Jonas Brothers na TV, “isto é rock, pai” e eu “pois é!” e que ela continue, até surpresa, “tu conheces rock!?” significa muito mais do que a passagem das gerações, é mesmo o eco da indústria de entretenimento a esticar a corda ao limite. Que virá a seguir, Brown Sugar em versão bebé? A infantilização do rock pouco significará musicalmente, muito daquilo sempre foi meia-bola-e-força, mas que dizer da sua expressão quando a adesão e o êxtase são propostas aos quasi-toddlers?
Veio-me isto a propósito desta prenda natalícia que a minha filha recebeu. O “As Melhores Canções Para Crescer“, as letras das canções dos Xutos e Pontapés com ilustrações de Miguel Gabriel (Oficina do Livro, 2009). Simpático?, aparentemente pois lá estão as canções, muitas quase hinos, que acompanharam a geração dos pais agora transportadas para os seus rebentos, assim crescendo imbuídos de algo que animou, formou os pais, deles até foi símbolo. Mas esse transporte, aparente, é uma falácia – verdadeiramente o que se passa é o “rapar o tacho” do produto. O que os Xutos trouxeram, ou melhor transportaram, foi um espírito rock, uma postura, uma rebeldia desencantada. Ao infantilizar isto, por mais sorrisos que acolham, negam-no. Radicalmente.
E nisso descruzo os braços ao alto, cai-se-me o “X”. Ou julgariam que
este simpático desenhito que acompanha o celebrado “Homem do Leme” justifica que me ponha a contar, a cantar e a explicar à princesa que
“E mais que uma onda, mais que uma maré
Tentaram prendê-lo, impor-lhe uma fé
Mas vogando à vontade, rompendo a saudade
Vai quem já nada teme, vai o homem do leme
E uma vontade de rir
Nasce no fundo do ser
E uma vontade de ir
Correr o mundo e partir
A vida é sempre a perder
No fundo horizonte
Soprar um murmúrio, para onde vai?
No fundo do tempo
Foge o futuro, é tarde demais”
Ou trautear-lhe, enquanto adormece, o grande “Remar, Remar”, esse do eterno “Contra tudo lutas / Contra tudo falhas / Todas as tuas explosões / Redundam em silêncio“.
Stereoscópio de Lourenço Marques, fim do século XIX, vista da Baía
por ABM (Cascais, 6 de Janeiro de 2010)
Hoje à hora de jantar, por razões assaz obscuras, o Dr Micael (10.5 anos de idade) deu-lhe na cabeça de rezar para pedir a benção de Deus para várias coisas, depois de comermos o mais epicúrio jantar de toda a minha vida (tenho que dizer estas coisas para o caso da Patroa vir espreitar isto no Maschamba, sorry).
Depois de pedir saúde e longa vida para a mãe, pai, avó, irmã, padrasto (eu), cães, cadelas, avestruz e a professora, eu sugeri-lhe (suscitando a imediata ira da mãe, que leva estas coisas muito a sério) que pedisse sorte para a mãe ganhar o Euromilhões e assim ficarmos ricos de uma assentada.
Combati indignado a acusação de abuso do favor Divino dizendo que pedir umas massas ao Senhor lá em cima não era um pecado per se.
E, enquanto rapidamente se passou para a questão de o que é que cada um faria se fosse rico, eu lembrei-me da velha canção que fui apanhar no Iutúbe há bocadinho, que para os mais velhos deve ser vagamente familiar: Topol, representando o pobre judeu russo Reb Tévje em Um Violista no Telhado, 1971, cantando Se eu Fosse Rico.
Que eu vi num cinema de Lourenço Marques lá para 1972.
2. Crise. Qualquer emigrado português sabe que ir à “terra” é para ouvir os constantes lamentos dos amigos, da família, dos populares, com a “crise”, e etc. e tal. Mais agora, com a desgraça internacional a repercutir-se nos dois milhões de portugueses abaixo do limiar da pobreza, mais de dez por cento de desempregados, o país sem luz ao fundo do tunel, sem projecto. E depois … basta ver o potlatch radical dos últimos dias antes do tal solstício dito Natal! Basta perguntar no talho, no café (o bolo-rei), na livraria, na loja de brinquedos, nos restaurantes e afins, etc e tal vinícolas e isso, o obrigatório “então, e este ano como vai?”. Crise? Já lá vai, que “estamos melhor que o ano passado”. Crise? Como crise se a felicidade está ali mesmo, nos balcões dos chópings? E tudo segue, no dia 26 abrem os saldos e as multidões reiniciam o seu caminho de cigarras. O vazio (versão portuguesa do conradiano “horror”).
[Fotografia de inscrição ao Teatro Politeama, Lisboa, Dezembro 2009]
3. A gula. Crise? E é um “trocadilho” fácil, o com esta campanha de época, o tome atenção aos AVCs que encheu os painéis das cidades. Crise? Só se for a da gula, essa motriz dos AVCs. No fundo o símbolo da Europa Ocidental, obesa, no seu estertor. As causas? Exactamente a tal falta de visão, de preocupação. De razão. Tudo isso do a cada um o seu sapatinho, e nada mais … Aliás, a cada um o seu sapatão.
4. Paulo Duarte, afirma-se de origens humildes, foi um futebolista modesto e não enriqueceu, é agora o seleccionador do Burkina-Faso. Deu uma entrevista ao jornal Record. Interessantíssima, muito para além do patois futeboleiro habitual. De como olha o país africano para onde, surpreendentemente, foi trabalhar há já dois anos. E de como reconhece que para preconceitos era ele que os carregava ao início. Mas mais do que isso, também ele de longe a re-olhar os seus patrícios: “Se as queixas, por isto ou por aquilo, fossem modalidade olímpica, os portugueses estariam cobertos de ouro. Somos muito assim. Completamente. As dificuldades da vida são muitas, para toda a gente, mas há coisas que não podemos esquecer: a maior parte dos portugueses que vive mal tem uma casa, duas televisões, um vídeo, dois telemóveis, dois carros, um emprego, mal remunerado mas temos, tem água, tem luz, tem gás, tem comida na mesa, tem roupas adequadas ao clima. Com maior ou menor dificuldade, chegue o dinheiro ou não ao fim do mês, tem isso tudo“. Sei que é muito fácil apupar este tipo de visão. Mas seria conveniente que os habitantes de um país que não produz o que tanto consome pensassem um pouco no facto de que a sua ladaínha lamurienta não encanta (enfeitiça) os que de longe os assistem. Fica o meu desejo das maiores felicidades a Paulo Duarte, homem a pensar. Força Burkina-Faso!
5. Quadra natalícia: Eu também! Pois se o mito sublinha o amor transposto para o espírito de dádiva neste emigrante o real é a volúpia da posse, sacos de auto-prendas esquecendo-me dos “entes queridos”, esvaziando-me o porta-moedas extinto que foi, e já em tempos, o cartão de crédito, malfeitoria ocidental. Malditas livrarias ….
6. Saúde. Viver em flat e enfrentar tantas proibições tabagísticas em locais públicos: assim a fumar bem menos.
7. Oferta infantil. Uma enorme oferta de espectáculos e actividades infantis. Gloriosa. Diz quem sabe que este Corcunda de Notre Dame foi do melhor que já viu, e já viu várias coisas.
8.Cultura. Na revista “Os Meus Livros” (nº 82, ano 7, 12.2009) a coluna “Caldeirada de Letras” (p. 52) contém um acertado texto da autoria de Luís Graça: “Astérix Ortografix“. A propósito da edição do “O Aniversário de Astérix e Obélix, o Livro de Ouro” (fraquinho, já agora) uma crítica as novas traduções dos nomes das personagens, um incompetente ataque à tradição asterixiana. (Algo que em tempos já aqui referi).
9. Surpresa. Encontro o Bartis (ok, o Bar Artis) reaberto. Um ícone do Bairro Alto, ali à Diário de Notícias, agora com nova gerência (propriedade dos donos do velho restaurante “Sinal Vermelho”), a vender apenas produtos portugueses (quer um whisky, um gin, um vodka? Beba aguardentes vinícolas – aprecio o acto). Mas mais do que isso – e ainda que lamentando isso do balcão estar agora ao fundo da sala – de louvar a reabertura de um local biográfico. Mesmo que já sem o seu velho proprietário, o célebre Mário, e – aí sim, lamentavelmente – desprovido da lendária Paula, rutilante alma. Mas está lá o Bartis ….
10. Inteligência: a primeira auto-prenda, logo no dia da chegada, este “De Marx a Darwin. A Desconfiança das Ideologias” (Gradiva, 2009), um para mim desconhecido livro de Onésimo Teotónio Almeida. O autor é um homem inteligente, o livro idem. Uma delícia, sobre paradigmas cientificos, suas características e limites, e ainda da hipotética relação da ciência com a religião, da ética com a lei. Para mais muitíssimo acessível (efeitos da tal inteligência). Deixo uma citação. Que é letal para alguns meio lusos, e não é preciso recuar ao guterrismo: “Nem tudo na ética está codificado na lei, a lei civil é apenas a imposição da obrigatoriedade de uma ética mínima para o funcionamento das sociedades. Mas se a ética transcende a lei, e por vezes choca com ela, ambas têm os mesmos alicerces. Os debates legais resultam de confrontos entre valores éticos, de combates morais, e nem todos conseguem reunir consensos que se traduzem no estabelecimento de normas legais (ou, pura e simplesmente, de leis sancionadas pelos tribunais e pelas forças do Estado que velam pelo seu cumprimento), contudo muitos valores morais não precisam de ser codificados em lei. Há normas éticas aceites pela maioria que nunca foram consignadas em nenhuma legislação. Os ventos da história e o rumo de cada cultura acaba conseguindo para esta ou aquela norma ética um estatuto legal. Mas nunca a lei cobre todo o domínio da ética, até porque nela, a ética, há um mínimo que suporta legislação (o domínio do dever), porém existe um outro bem mais vasto, o da virtude – a arethé grega – que não poderá nunca ser legislado.” (125)
11. Drama. Rui Santos sobre o Sporting. O jornalista em causa capta pouca adesão – como o prova o baixo número de subscritores das suas incessantes petições informáticas, abundamentemente publicitadas em inúmeras horas televisivas (basta compará-las com as petições lançadas in-blog para comprovar essa sua fragilidade). No entanto a sua denúncia sobre a destruição do Sporting Clube de Portugal por parte do núcleo socioeconómico, em tempos albergado sob o epíteto “Projecto Roquette”, é inultrapassável. E de registar pois estabelecida em jornal de grande divulgação. E, por extrapolação, diz muito sobre o Portugal de hoje, esse da cega aceitação de auto-anunciadas elites sublinhada pela “falta de alternativas”.
12. Capitalismo. A edição portuguesa está pelas “ruas da amargura”. Sob a tutela dos interesses comerciais, de grupos editoriais desligados da cultura (e, porque multinacionais, do contexto nacional). E esmagada pela pressão oligopolista dos grandes potentados livreiros, também eles apenas virados ao lucro. Assim se apaga a hipótese da edição ensaística e apenas subsiste a chamada “literatura leve”, a capa brilhante, o conteúdo inexistente, a forma “plana” – em particular expressa nos registos da “exo-ajuda” e do chamado “romance histórico”.
Prova dessa superficialização produzida nas grandes superfícies encontro-a na FNAC do Chiado, chego à secção dos livros e deparo-me com o primeiro escaparate – aquele que me recebe e me despedirá, dentro de algum tempo, portanto o que mais apelará à aquisição. Uma das faces para a literatura nacional (prosa) considerada relevante (os peixotos, cachapas, saramagos, lobos antunes, tordos e torgas e isso). A outra face de prosa estrangeira, e não resisti a transcrevê-la, para aqui comprovar o “estado da arte” a que se chegou, do esmagamento cultural por via do comércio (do capitalismo, por assim dizer). São 18 colunas, cada qual com quatro livros, novas edições (traduções) ou recentes reedições. Por mim recenseadas, como denúncia. Apresento apenas os autores, para economia de ma-schamba. Eis então o painel do escaparate melhor situado:
1. Bernhard; Bernhard; Mishima; Mishima. 2. Beckett; Walser; Walser; Mme Lafayette. 3. Hesse; Hesse; Jane Austen; Jane Austen. 4. Hemingway, Dumas, Diderot, Dickens. 5. Iris Murdoch, Iris Murdoch, Rilke, Colette. 6. Susan Sontag, V. Wolff, V. Wolff, Lampedusa. 7. Thoreau, Flannery O’Connor, Orwell, Orwell. 8. Maugham, Mann, Beckett, Mailer. 9. Daphne du Maurier, Céline, Saint-Exupery, Walty. 10. Flaubert, Yourcenar, Yourcenar, Hsek (?). 11. Kafka (X4). 12. Aitmatov, Kafka (X3). 13. Jack London, Boris Vian, Victor Hugo, Lautréamont. 14. Proust, Proust, Calvino, Calvino. 15. Calvino (X4). 16. Calvino, Pasternak ,Turgueneev, Gogol. 17. Tolstoi, Zweig, Svevo, Bulgakov. 18. Dostoievski, Dostoievski, Lidmila Ulitsvaia (?, será assim?, não conheço), E. Waugh.
Lastimável. Esta prática comercial, esta subjugação editorial. O primado da mediocridade. Efeitos, necessários entenda-se, do capitalismo. Vil.
13. O Charme Discreto da Burguesia. Olivais-Sul, Lisboa, Dezembro de 2009.
14. Império. A Ler (nº 86, Dezembro de 2009), coluna “Booktailoring”, de Paulo Ferreira e Nuno Seabra Lopes. Procurando um registo cómico em futebolês (o dia em que os humoristas escreverem em raguebês ou golfês será bem arejado…) o texto ”Um jogo entre linhas“ que aponta os “jogadores mais influentes do mercado editorial português em 2009“. Não vou discutir os critérios. Apenas o eco da minha reacção: “tenho que ter cuidado, pareço da patrulha ideológica“, resmungo-me. Pois na “selecção nacional” deles lá estão o Agualusa e o Mia Couto. Sim, eu sei que na selecção de futebol estão o Liedson, o Pepe e o Deco. Mas nesta, na literária, não há brasileiros. É, na cabeça dos humoristas, uma selecção portuguesa de Portugal, mas afinal uma transpiração da pobre lusofonia. Ou seja, e isto muito para além dos escritores em causa, da cabeça dos humoristas ninguém retira(ou) o Império. Nem na Ler… Absurdo. Mas um absurdo sintomático.
15. O jornal I é o melhor jornal nas bancas. Já no Verão passado me parecera tal. Agora confirmam-me tal alguns amigos. Alguns até acompanham a opinião com um “é de direita mas …”. Mas digo eu, que o vejo sem publicidade e oferecido nas bombas da Galp. Mau sinal? A ver se se aguenta …
16. Delícia. Inúmeras bancas de livros em saldo (aliás, monos), um “apelo às dádivas”. Nelas sempre se encontram exemplares desta bela colecção “Horas Extraordinárias” que o Independente foi publicando há alguns anos. Cada vez que em Lisboa lá carrego alguns. Agora é a vez (a 2,5 euros, imagine-se) de adquirir este saborosíssimo “Bilhetes de Colares de A.B. Kotter (1993-1998)“, “porventura” de José Cutileiro. Obrigatório regressar a esta Quinta da Beldroega, sita na Várzea de Colares, seus habitantes e visitantes, ponto máximo de observação deste país. Pelo olhar-mestre do Senhor Doutor Kotter, traduzido pelo ex-comando J. Fonseca, fiel à máxima de que “Como a leitora sabe, eu nunca me imiscuo na política deste maravilhoso país que tão generosamente me acolhe no seu seio. Não cabe a um estrangeiro fazê-lo; menos ainda a um estrangeiro sem razões de queixa.” (66). Ainda que com ele se possa discordar, por vezes, como aqui: “Já tentei explicar-lhe que o snobismo não é tão mau como parece porque, vistas bem as coisas, sempre é o contrário da inveja…”. Discordância que, se seguida, levaria por caminhos muito diversos. Mas mais do que a justificar a corrida aos monos…
17. Política. Nenhum dos meus amigos – desses que cada vez menos encontro -, nenhum dos meus familiares, nenhum dos teclistas lidos in illo tempore, enfim nenhum desses que tanto vituperaram (vituperámos) o “fontismo” cansado, travestido de “desenvolvimento”, do primeiro-ministro Cavaco Silva tem agora uma palavra irritada contra o proto-fontismo de José Socrates. Mas para quê falar, se é para falar encastrado?
18. Jonhy Lyndon (ex-Rotten). Amália. Coração Independente (no CCB). Não sou um amaliano, ainda que nela possa actualizar (reconheço, até acabrunhado) a expressão “de ir às lágrimas”. Pois ainda que não o seja (amaliano) saí preenchido da exposição. Para logo quem ali a meu lado me iluminar, como sempre na vida, num até desdenhoso “não aprendi nada”. E é isso, saio do amalianismo (no meu caso amador) e constato, a exposição não é um diálogo com Amália, é uma missa (certo, a haver divindade que seja ela), apenas uma missa. Ela adoraria. Mas está morta, não haverá outra forma de ser olhada?
Depois o tal diálogo com a mulher, a personagem, a artista, o mito - que se pretenderia? – é atirado para um “posfácio”, de arte contemporânea. Nesse pacote, mas que assim surge externo, in-dialogante, um bailado (Ana Rito) muito interessante, a peça de Joana Vasconcelos também. E uma instalação visual óptima de Bruno de Almeida. Mas mesclado com coisas-obras a parecerem modismo para “espantar a classe média baixa”. Francamente, não há paciência para quem atira um xaile para o chão e diz “arte!”. Olhar um cilindro branco com espelho atrás, “um artista (Amália) solitário no palco”. Em 2009? Ali tanta ruptura, tanta inovação como o busto realista atrás apresentado (Joaquim Valente), coisa de meados de XX, que foi muito ao gosto da representada. Honestamente uma desilusão. Pelo auto-centramento da exposição, que se pretende encantória. E pela tralha avulsa que se lhe colou à maneira de olhar actual – com as excepções referidas. Sempre me convenço que o epíteto “contemporâneo” faz eclipsar o espírito crítico, analítico. Cilindros brancos, mesas luz com banheiras coloridas, peças atiradas no chão. Hoje?
Coisas que sempre me fazem lembrar aquela entrevista do Jonhy Lyndon (ainda Rotten?) ao Philippe Manoeuvre, publicada na Rock & Folk cerca de 1982. Dizia o Rotten: “ser punk em 1980 é igual a ser hippie em 1976″… Xailes no chão?!
19. Sahara Ocidental. Uma militante esteve em greve de fome defendendo a causa do Sahara Ocidental, protestando contra a ocupação marroquina. A representação diplomática de Rabat em Lisboa concedeu uma entrevista ao jornal “i”, anunciando que Marrocos é “o polícia da Europa”. O silêncio europeu face à ocupação colonial do Sahara Ocidental passa por esta “política real”. Confesso que nada sei sobre a situação efectiva na região (no país, por outras palavras), acredito até que o terrível fundamentalismo “alqaediano” seja um papão agitado por Marrocos para colher o apoio à sua velha expansão – como os leitores saberão ninguém falava de Al Qaeda e muito poucos falavam de “fundamentalismo”/”integrismo” islâmico quando Marrocos procedeu à ilegal anexação daquele território. Ou o seu inverso.
Mas enfim, são contas do difícil e imbrincado rosário da história. A mim interessa-me a reacção em Portugal. Nos jornais e na TV, nas conversas, ninguém ecoa a posição do Estado - o qual desde o governo Socrates assumiu a posição mais próxima da política colonial marroquino. É óbvio que o “distante” assunto a ninguém interessará, Marrocos está nos confins, parece-me até antípoda. À esquerda ninguém diz nada, nem mesmo o BE, onde Marrocos será quanto muito o locus de umas ganzas a legalizar, que isso dos princípios é uma canseira. O PCP silencia, mas é óbvio: para um partido sempre ao lado dos poderes coloniais e dos regimes monárquicos não se deveria esperar uma interrogação sobre a política diplomática portuguesa nesta questão. Ninguém questiona a questão. O fait-divers da senhora à fome acabou, entretanto o escritor José Saramago foi lá apoiar (à revelia do seu partido, à revelia de António Costa, o socialista de quem é apoiante) porque é uma ”causa justa” e pronto. Aliás, prontos …
20.Excelência. No canal Mezzo (que pena não haver em Maputo) um fantástico programa sobre Rafael Campallo, bailarino que desconhecia. Grande, grande …
21. O Antigo Regime. O álbum, merecido, celebrando o centenário da Escola Secundária de Camões (ex-Liceu Camões). Ainda que me arrepie sempre que ouço loas ao dito liceu (apesar dele próprio). Que é sempre agitado como se ícone dos “bons tempos” em que havia cultura, e educação que a sustentasse e reproduzisse, em Portugal. Ou seja, antes do povo estudar e, até, gerar professores. Tudo isso em discursos de ”progressistas”, até gente oposicionista germinada no velho Liceu – mas que verdade, verdadinha, suspira por trechos do dr. Salazar, em particular aquele de que ao povo basta ensinar a contar e a assinar. Quebrado isso ficámos como estamos. Que “eles” até a “doutores” vão.
22. A desistência. Visito, acompanhando uma ínclita comitiva, a exposição do fotógrafo Korda. Celebrizado pela iconográfica fotografia de Ernesto Guevara, de sua autoria. Muito interessante, pelo que demonstra da produção do culto de personalidade do ditador comunista Fidel Castro, do qual Korda foi acompanhante durante a década de 1960s. Fantástica a sua entrevista, a forma como glorifica o próprio Ernesto Guevara, um absoluto contrasenso (assista-se às suas declarações, elogiando a “punição” que Guevara lhe fez).
Fidel Castro como ícone, até bíblico. A mão na terra produtiva, a pegada de Fidel, o seu “gigantismo”. A sua beleza sensual. Fascinante, como interpretável. Como produto e produtor de fascínio.
Certo que se Korda fosse eslavo ou han teria tido problemas, acusações de “cosmopolitismo” (como aventou um amigo meu) não lhe faltariam. Basta ver esta fotografia, onde duas presumíveis beldades, até lânguidas, escutam no escuro as palavras solarengas do comandante, deixando imaginar outras prédicas, mais íntimas. Coisas deste discurso construtor do “fidelismo”, de Fidel Castro, muito dadas ao tom local, mas também à específica característica de Korda.
Mas para além dos seus méritos estéticos e jornalísticos surpreende que esta exposição, demonstrativa da arte glorificadora de Korda, que surge sob tutela da também estatal Casa da América Latina num espaço também estatal (Cordoaria Nacional), seja apresentada sem qualquer contextualização distanciada, sem referência enquadradora. Nada nos textos que a acompanham, talvez (mas desconfio que não) no catálogo – que muito presumivelmente será apenas encomiástico. Espantosa desistência. Dias passados comento esta minha estranheza numa mesa polvilhada de académicos, a nenhum pareceu estranha tamanha distracção “fidelista”, obviamente significante. Nem mesmo quando lhes disse ser Korda um pouco a Leni Riefenstahl do regime cubano, ou que diante de qualquer produtor de mitos e ícones se presume criar distância cognitiva, não apenas fascínio e adesão – coisas que tão bem “sabem” para outros casos. Um simpaticíssimo alto quadro do ministério da Cultura, ali entre variados acepipes, rematou que “a exposição é daquelas que se recebem”. E pronto! Desistência, pura e simples. E a gente assiste.
23. A gravata. Penso que foi no jornal “Sol”, uma pequena nota irónica sobre Francisco Louçã. Que o coordenador do BE aportara no parlamento usando gravata, ao contrário do seu significante traje político, esse que reclama dessassombro (e, claro, posição de classe). Para logo nos “sossegar”, afinal era apenas o dia em que o deputado cumpria provas públicas académicas e nesse campo fazia questão de cumprir as normas de vestuário. Passa tudo num sorriso, as pessoas dirão que é do espectro das decisões pessoais, etc. Mas este pequeno episódio, o respeito pela gravatinha no seio da corporação profissional ao invés da liberdade encenada no traje política, este pequeno episódio mostra bem a hipocrisia do senhor professor. O corporativismo fala mais alto, em maquilhagem de pequena-burguesia.
24. O escritor de escaparate. Já no pós-Natal mas ainda a caminho de mais uma comensalidade pantagruélica. No rádio do carro, enquanto subimos ali em Monsanto, capta-se uma conversa com escritor – desses que está em todos os escaparates natalícios, diga-se. Diz ele, face a pergunta da radiofónica voz: “a literatura é o que tem que ser!”. Abismado com tanta profundidade aumento um pouco o volume, para ouvir no que aquilo irá dar, e logo ouço mais uma pergunta “V. disse no seu blog que a literatura portuguesa não é apoiada pelas livrarias. Que vontade de escrever isso lhe dá?”, ao que responde o escritor, voz arrastada, sofrida, ”Nenhuma“. A meu lado, enfastiada, a senhora pergunta-me “queres ouvir isto?” e eu, mais assim como eu, logo riposto: “tira essa merda!”.
25. Envelhecimento. Ligo o carro e na rádio reconheço os acordes da “Fanfarra para um homem comum” e logo surge a “You can’t always get what you want” dos Stones. Elevo, e bem, o som e segue a canção-ícone, rock-barro da minha gente. Acto contínuo a bela rapariga a meu lado põe-me na boca …. uma castanha assada.
26. Tetro, de Coppola, é um soberbo, lindíssimo, filme sobre Buenos Aires. Fantástico. A história é um pastel, a deriva patagónica um must de pirosice. Convém ver. Mas sem som nem legendas.
27. Cardinalice. O Cardeal de Lisboa invectiva a “indiferença, agnosticismo e ateísmo” na sua homilia natalícia. Interrogo-me onde vai ele buscar essa ideia da igualdade entre “indiferença” e “ateísmo”. Que ”indiferença”? A prática, a ética, a solidária, a reflexiva? Um argumento vácuo, inaceitável, e que não cola com a imagem de profundidade intelectual que Policarpo sempre apresentou. Sem rodeios, é uma parvoíce ao nível daqueles que reduzem a igreja católica a fogueiras da inquisição e a erecções pedófilas. José Policarpo tem o direito (em determinada acepção terá até o dever) de combater o ateísmo e o agnosticismo. Mas tem toda a obrigação de matizar as suas argumentações e invectivas. E exactamente quando a sociedade presta homenagem a Manuel Clemente, bispo do Porto, enquanto homem de cultura elogiando-lhe a fina análise. Um deslize cardinalício, ao invés do momento vivido. A colher, claro, o silêncio do comum …
28. Homem em Fúria, de Tony Scott, competente filme de TV. Seria uma excelente peça de cinema de samurai, acho, não fosse o seguidismo ao paradigma psicologista, assim desvanecendo a profundidade abissal do protagonista. Um diálogo excelente: “Velho: Na igreja dizem que devemos perdoar; Creasy (Denzel Washington): Perdoar-lhes é com Deus. O meu trabalho é proporcionar-lhes o encontro.”
29. Acordo Ortográfico. ORecord é o jornal que logo aderiu ao Acordo Ortográfico. Se dúvida houvesse sobre o substrato intelectual desta parvoíce provinciana a entusiasmada adesão de tão pobre jornal cessa qualquer hipótese de dúvida. Eduardo Pitta acha que os detractores do Acordo Ortográfico são “encenadores” que dão pontapés na gramática, e com ele concorda Filipe Nunes Vicente, outro grande-bloguista. Recordo que as maiores polémicas neste ma-schamba vieram desses meus actos pontapeadores e, envergonhado, lamento-os bem como à falência das minhas tentativas teatrais. Vou ali ler o Record – pode ser que por lá me expliquem que esta deriva homográfica lusófona nada tem a ver com um fundo tonto de apelo à gesta da “presença” e “expansão” da língua portuguesa, que nada tem a ver com a inexistência de verdadeira reflexão económica sobre os seus futuros resultados para a edição internacional em português (mas apenas em “desejos pensantes”), que nada tem a ver com a tonta e iletrada ideia feita da distinção radical entre a fala e a escrita (a “escrita é uma convenção” dizem os imbecis, convictos que a fala, em última análise, não o é; a “grafia não influencia a fala”, dizem “professores” sem perceberem que assim invalidam a sua tarefa).
Bem, pelo menos parece o Miguel Veloso marcou um golo e diz-se que vai para a Fiorentina ou Barcelona, e o jornal deve falar disso …
30. Decadência Nacional. Cada vez mais difícil, talvez até mesmo impossível, encontrar uma “bica” (aliás, “café”, “expresso”, “italiana”) decente. Os estabelecimentos comerciais especializaram-se em servir zurrapas. Café Chinês?
31. Família. Em dois dias seguidos dois artigos interessantes, os de Miguel Pacheco, “Não São Sermões Sobre a Vida Íntima e Martim Avillez de Figueiredo, sobre a questão da “família”. Em ambos choco com este meu preconceito, o de que o discurso jornalístico aparece mais superficial do que o académico ou de reclamação intelectual. É aqui o inverso, total. Pois em ambos é explícita a ideia, ao contrário dos discursos dominantes, da necessidade e da virtude da família. Ultrapassando as velhas querelas hiper-liberais e hiper-marxistas, da família como local agente de repressão e reprodutor da exploração, do maléfico Pai-Padrasto Castrador e da malvada Mãe-Madrasta Castrada Castradora, do discurso da libertação do sacrossanto indivíduo face às algemas comunitário-familiares, da ultrapassagem da repressão por via do sacrossanto Estado-sociedade, local de protecção, produção e reprodução. Afinal instituição virtuosa, falível claro, de produção e interacção de valores sociais.
Há quem chame a isto conservadorismo. Lembra-me o Jonhy Rotten (já Lyndon?): “ser punk em 1980 …” (onde é que eu já li isto? …).
32. Frases feitas? Um repasto, entre antropólogos e excelsas iguarias, no caminho entre enchidos fidedignos, sopa de rabo-de-boi, conduto incomensurável, doçaria relevante, reservas variadas e vintages culminantes. Algo a que, ali, estou há décadas habituado. Com emigrantes à mesa a conversa passa ao “estado do país”, claro. Donde ao casamento homossexual, que o resto foi resumido, como sempre, num “isto está mau” – mas que ninguém interprete este condicionamento do discurso popular como uma estratégia do governo, que é de esquerda, donde bom. Pessoa que há décadas muito me é querida e também minha mestra nas coisas antropológicas, talvez até causa quase-única desta minha formação, remata-me “O casamento é um contrato entre dois indivíduos“. Vacilo, e partirei destruído para casa. Pois se vindo de quem vem aquele libelo individualista … tudo aquilo que estudei, da reprodução estratégica de laços de filiação e de descendência, de articulação entre grupos sociais, de transferência de património (em sentido lato), de composição e recomposição familiar, tudo isso para onde foi, o que era? Nada, afinal a nossa sociedade é apenas um campo onde interagem indivíduos, livres, racional e radicalmente autónomos que contratualizam. Virtuosamente.
Vindo de quem vem? Já no carro, ao volante, entre a azia silenciosa e a flatulência reprimida, constato-me duas décadas de vida profissional enganada. Novo ano que aí vem – e até já veio – exige-me pois vida nova, profissão nova. Pois se a outra, a da até agora, inexiste afinal. Não dormirei, e desde então a insónia constante. Para onde ir? Que fazer? Ou antes, com que indivíduos contratualizar?
33. Ideias Feitas?. “À mesa, entre antropólogos e excelsas iguarias, no caminho entre enchidos fidedignos, sopa de rabo-de-boi, conduto incomensurável, doçaria relevante, reservas variadas e vintages culminantes. Algo a que, ali, estou há décadas habituado. Com emigrantes à mesa a conversa passa ao “estado do país”, claro. Donde ao casamento homossexual – que o resto foi resumido, como sempre, num “isto está mau” – mas que ninguém interprete este condicionamento do discurso popular como uma estratégia do governo, que é de esquerda, donde bom. Pessoa [outra] que há décadas muito me é querida, e também minha mestra nas coisas antropológicas, talvez até causa quase-única desta minha formação” [in blog ma-schamba, post "(N)A "Pátria Amada" (ponto 32)], explica-me, simpática e até solidária com as minhas falhas de formação (e tantas ela colmatou nos bons velhos tempos), a diferença entre o matrimónio religioso, de vínculo indissolúvel, e o casamento civil, coisa moderna e passível de ser dissolvido. Por opção própria, por economia de discurso, não lhe dá nenhum enquadramento de história institucional, mas não posso aprender tudo no mesmo dia. Estava eu, portanto, a ouvir pela enésima vez esta profunda argumentação – e ainda não tínhamos chegado à questão das sufragistas, mas haveríamos de lá aportar – quando um conviva comensal rematou, glorioso: “vínculo indissolúvel?! Ah, mas isso é o que defendem os sindicalistas!! Afinal são iguais, a Igreja e os Sindicatos“.
Um vintage, este meu amigo, há décadas que vai vintage! Pena é que não meu mestre …
34. O cadáver da Antropologia. Ao sábado ouvir Bach na Gulbenkian, ao domingo Haydn no CCB. Para além do encantamento da música – um registo em que me perco completamente, por falta de capacidade interpretativa, uma delícia – deixo-me, como sempre, a “olhar” público e músicos. Olhar esta disciplina, que faz milhares de músicos aprenderem a reproduzir e interpretar partituras de tons e sons velhas de séculos, atentos às suas diversas matizes, e ainda, até, criando-lhes novas formas. Disciplina que passam a milhares e até milhões de ouvintes, que vão sendo treinados a escutar (alguns até a entender). Disciplina essa a qual poderá ser chamada “civilização”, forma vasta de controle, molde gigantesco de sentir e ser. É um fim-de-semana bom para isso, isto de partilhar espaço civilizacional com patrícios relativamente diversos – nas formas do saberem os seus corpos, de controlarem tosses, espirros, flatulências, agitações, sentimentos, amores, aplausos. Mais “burgueses” à Praça de Espanha, mais “populares” (menos “cívicos”, menos ”civilizados”) em Belém, que tudo isto é um processo longo de aprender.
Mas de repente, ali a meio da Criação, de Haydn, entre tosses múltiplas e aplausos fora-de-tempo no seio dos ainda algo in-disciplinados, lembro-me da minha queridíssima amiga e mestra. Que é isso? Questionar-me sim, mas apenas sobre as contratualizações que ali nos uniam. Nada mais há a questionar, a inquirir. Paguei bilhete, é o meu contrato. Outros pagaram ainda impostos, é outro contrato. Todos comprámos produtos dos patrocinadores, mais contratos jurídicos. E basta, deixo-me a ouvir a música, incompreendendo. Feliz.
35. A cremação da dita e ainda das suas primas. O Jornal de Letras, já institucional presença. Tem defeitos, mas é melhor que exista. Muito estatal, no ponto de vista, nas formas de associação e financiamento. Também por isso local dos sinais dos tempos. Na última edição (nº 1024) vários artigos sobre a década agora terminada, “dez anos de letras, artes e ideias“. Extensas indexações de poesia e prosa literária, artes plásticas, música erudita e pop, cinema, dança e teatro. Ambiente, ensaio e ideias (sobre estas dois textos) também. Não discuto os critérios, gente sábia a escrever. Mas surge-me questão. No mundo das “ideias” ainda há referência para uma ciência social, a História. Até par as sua versão história intelectual (já agora, saúdo as referências a obras que me são bem queridas, “História do Pensamento Filosófico Português”, coordenada por Pedro Calafate, “Portugal Extemporâneo” de Carlos Leone). Depois … Eduardo Lourenço, mais alguns ensaios, o “Portugal Medo de Existir” (“os portugueses são …”).
Entenda-se, dois artigos sobre “ideias”, um sobre “ensaios”. Nem uma referência a trabalhos portugueses de Antropologia, de Sociologia, de Psicologia, de Geografia, de Linguística, de … olhando bem nem de Economia, nem tampouco de outra área de investigação. Ideias durante a década? Ideias sobre Portugal e sobre o mundo? Nada a referir. [Vou escrevendo e pensando que sobre Ciências Exactas/Naturais idem, idem. Mas haverá ideias aí?, dirão os especialistas do JL].
É o Jornal de Letras! Sinais dos tempos? Claro, como comprovei nesta minha deslocação.
36. Inhambane. Para lá sigo. Intentando, entre sol e calma, encontrar um novo rumo. Entenda-se, novos contratos. Apenas jurídicos, claro.
Estava eu calmamente surfando no youtube por música moçambicana quando dou com este Moçambicano (que penso) desconhecido – Al Bowlly.
Albert Alick Bowlly, mundialmente conhecido por Al Bowlly foi um dos cantores de jazz mais famosos do Reino Unido e não só, contemporâneo de Glenn Miller que escolheu ele mesmo em 1934 uma orquestra para Al Bowlly cantar em New York, e de Bing Crosby, Dean Martin, Frank Sinatra e Carlos Gardel. Nem mais!
Al Bowlly nasceu em Lourenço Marques em 1899, filho de costela grega e libanesa. Quando tinha 4 anos de idade a família mudou-se para Johannesburg, onde ele viveu até 1923-24.
Personagem colorido e viajado o nosso Al sai da escola aos 14 anos para trabalhar como barbeiro, tendo também começado nesta altura a dar os seus concertos de banjo e uke. Em 1923-24 junta-se à orquestra de Edgar Adeler numa tournée que o leva a Rhodesia, East Africa, India, Malaya, e Java.
Irrequieto Al pega-se com o maestro e abandona a orquestra e 1925 apanha-o nas corridas de cavalos em Calcutá, onde conhece Jimmy Lequime com cuja orquestra ruma até Singapura, iniciando nova tournée mundial que, depois do Oriente, o levaria a Berlim onde gravou o seu primeiro disco como vocalista em 1927.
Em 1930 em Londres, Al assina um contrato com Noble que o leva para New York, onde gravou 500 músicas nos quatro anos seguintes. O sucesso de Blue Moon, I’ve Got You Under My Skin e outras foi tal que Bowlly teve direito ao seu programa de rádio na NBC e viajou para Hollywood onde contracenou num filme chamado the The Big Broadcast em 1936.
Al Bowlly foi creditado como o pai do crooning, que se pode traduzir livremente por baladeiro, iniciando assim uma escola que viria a dar frutos de nome como Nat King Cole, Frank Sinatra, Dean Martin, Bing Crosby e Andy Williams.
Morreu em Londres em 1941, vítima de uma bomba alemã que explodiu à porta da casa onde vivia e foi enterrado no cemitério de Westminster juntamente com as outras vítimas da bomba.
Abaixo eu e ABM fizemos várias referências às digressões de Amália Rodrigues a Moçambique. Deixo duas imagens recolhidas no livro iconográfico “Era Uma Vez … Moçambique“, compilação de Curado Gama, editado pela Quimera (1ª edição 2004, 2ª edição 2005). Infelizmente as fotografias não estão creditadas.
(“Amália Rodrigues entre amigos e jornalistas, no aeroporto, em 1950″)
(“Amália Rodrigues com amigos no terraço do Hotel Polana”, 1950)
Encontrei no YouTube este pequeno vídeo sobre a passagem e concerto do Louis Armstrong no Ghana em 1956, que penso complementar bem o post anterior do ABM.
Como é domingo e meio chôcho (ora chove, ora faz sol) e as ruas em Cascais City estão quase intransitáveis por causa de um desses assuntos de Estado (a cimeira ibero-americana, cujas delegações estão a desaguar aqui neste momento) e copiando da senhora Baronesa de Lioness, mencionarei brevemente um velho favorito musical.
Uma das heranças do pai BM foi o gosto por alguns tipos de música de entre os quais destaco o jazz. E dentro deste género, o norte-americano Louis Armstrong sempre se distinguiu como um caso aparte, um clássico entre os clássicos. De entre as grandes canções que ele interpretou, quer cantando, quer com o seu mágico uso da trompeta, de longe o que eu guardo como um tesouro e recomendo é o álbum cuja capa é acima reproduzida – Satchmo the Great – cuja história é interessante e tem que ver com África.
Satchmo the Great foi um disco editado em 1957, a partir de uma iniciativa da cadeia de televisão norte-americana e do famoso jornalista Edward R. Murrow, que incluiu uma digressão de Louis pela Europa e ainda uma visita à antiga colónia britânica da Costa do Ouro, que se declarou independente sob o nome de Ghana tornou o primeiro país africano e percursor da onda de independências que se seguiram no continente. Louis esteve em Accra meses antes das cerimónias da independência em 6 de Março de 1957 (Richard Nixon, Ralph Bunche, Matin Luther King Jr e a sua mulher estavam lá também, bem como a diva americana de ópera Lillian Evanti, que compôs o hino do Ghana e claro o Governador cessante, Charles Arden-Clarke e, em representação de Elizabeth II a Duquesa de Kent) e tocou jazz para Kwame Nkrumah, então primeiro-ministro e o primeiro líder africano moderno e na altura muito na baila (até ser sumariamente deposto enquanto estava de visita ao Vietname em 1966).
Apesar do disco estar repleto de clássicos e ainda uma entrevista com Armstrong, de longe a canção que mais me impressionou é uma espécie de fusão entre música clássica e jazz. Foi gravada na noite de14 de Julho de 1956 durante o Concerto Gughenheim no Estádio Lewinson em Nova Iorque. Quem tocou foram os 88 membros da Orquestra Filarmónica de Nova Iorque, dirigida por Leonard Bernstein, juntamente com a banda de jazz de Louis Armstrong. Interpretaram um dos hinos do jazz, Saint Louis Blues, composto muito anos antes pelo lendário W.C.Handy. Na audiência de 25 mil dessa noite, estava lá também o próprio W.C.Handy, já com 83 anos de idade e cego.
Que noite deve ter sido. E que música sublime. Jazz do melhor com a Orquestra Filarmónica de Nova Iorque pelo meio, e a divina interpretação do imortal Armstrong.
Como a canção não está disponível na internet (felizmente eu tenho uma velha edição sul-africana do disco do pai BM em 33 rpm e um CD) oiça-se aqui uma interpretação de um outro grande clássico de Armstrong, Mack the Knife.
Louis Armstrong tem a particularidade de ter sido o meu cantor favorito quando eu tinha 11 anos de idade. Quando soube que ele tinha morrido em Julho de 1971, fiquei choroso o dia todo. Quando a família BM soube qual era a razão para o meu desalento, desatou tudo a gozar comigo.
Estava eu iutubando cantigas infantis africanas quando tropecei nesta minha favorita. Porque há coisas que devem ser partilhadas e esta é uma delas, não resisti! Aqui fica Tajabone do grande Ismael Lo. Se a ele se aplicasse o Paradoxo de Holst de ABM, que não se aplica, esta música seria certamente a estrela cadente de Lo.
De viva voz ou via electrónica notam alguma acidez neste 1/3 de ma-schamba. Prometo corrigir-me. E anuncio o segundo bálsamo, agora em aplicação, versão milésima audição …
(ainda que a versão “dos tempos” – inacessível à reprodução – seja …. bem mais mágica)
Lembro-me da minha juventude e de ouvir meus pais e seus amigos expressarem a sua perplexidade perante a geração do flower-power, dos Beatles e da mini-saia, dos cabelos compridos e da pouca higiene, dos lassos costumes e actos imorais. Diziam-nos idealistas, de protesto fácil e apalermado, de subversão na arte e ignorância na cultura. Diziam-nos que a Vida nos havia de ensinar… E nós, metidos na nossa arrogância juvenil continuávamos a ouvir os Beatles, a usar mini-saias, a brincar à pedrada com a polícia… até que a Vida nos ensinou!
Hoje fala-se da geração hip-hop (acho eu), critica-se o “englamouramento” da cultura de gangs urbanos, receiam-se os role-models catalogados de pouco edificantes, ridiculariza-se o traje. Em 2005 andava eu por uma Angola ainda a curar feridas da guerra quando ouvi, vindo da janela de um carro preso no caos infernal do trânsito de Luanda, um hip-hop limpinho a sublinhar um poema belo e pertinente. Quem são? Como se chama a música?, pergunto eu pela janela do meu carro. Tia, são os Kalibrados, dizem-me, e a música é os “Soldados Civis”. Não descansei enquanto não comprei o CD Negócio Fechado e tive ainda o privilégio de os ver ao vivo num concerto em Luanda. Fiquei fã para a vida!
Confesso que o hip-hop não é a minha música favorita, mas como posso não gostar de uma banda que tem músicas chamadas “O Limite é o Chão” e que cantam “não usamos fardas mas lutamos pelo país, guerrilheiros fora da mata, soldados civis”? São miúdos, começaram por fazer mixes numa qualquer garagem, gerem-se a si mesmos, usam calças abaixo do rabo (as nossas calças largas é questão de identificação) e bandanas nas cabeças. Enfeitam-se de bling. Mas falam por uma geração que luta por um lugar ao sol e mostram uma consciência social e política que o seu aspecto parece contrariar. Tal e qual como nós. E até que a Vida os ensine…
Soldados Civis
Hip-Hop,
andamos dia e noite contigo,
Hip-Hop,
vivemos e morremos por ti,
Hip-Hop
Nós somos os soldados civis,
Hip Hip Hip-Hop Hip Hip Hip-Hop
Mc’s, Mc’s, soldados civis,
confundidos com drogados,
infiltrados num país,
o invejoso diz que a malta só não cai por um triz,
que a nossa árvore não dá frutos se não tem raiz,
luta árdua, sacrifício e dor,
pra suportar o Hip-Hop é preciso muito amor,
flor, moldada no interior,
só quem sente a corrente vai em frente
o fim vencedor,
ainda vejo Whack’s,
muitas amostras,
muitas máscaras,
milhões de cínicos hipócritas,
Sabes que assim não vamos a lado nenhum,
vão acabar em click axes cra crás e bumbuns,
(muitos)
por esta arte já se sacrificaram,
(muitos)
já desistiram porque não aguentaram,
(muitos)
criticaram mas nunca apoiaram,
kalibrados e inovação já vez a saga não pára
100 bucks,
é mais sixteen bars,
se te sentes hip-hop é pa comemorares,
parte dois, soldados civis,
hip-hop raiz,
kalibrados tão na casa,
rebentar com país,
produtoras, produtores, novos compositores,
o hip-hop é um jardim e nós somos as flores,
vamos embora, man,
ninguém nos pode deter,
tu cantas samba, eu canto rap,
cada canta o que quer,
é sempre aquele black,
humilde e com respect,
laton, mad, essa cena é muito fat,
lançar é difícil mas pior é não tentar,
depois de muita chuva,
um dia o sol há de brilhar,
anda, mostra lança o teu talento,
grava cenas novas,
é chegado o teu momento,
ficam as novas,
deita fora as velhas,
só chega até ao mel,
quem passar pelas abelhas.
estando errados ou certos,
ouvidos ou não,
lançamos pa people que nos vem no coração,
sem complexos,
sem vergonhas,
sem tretas,
o que acontece nas ruas encontras nas letras,
nós temos bué de skills,
temos milhões de flows,
vamos arrastar people,
rebentar com shows,
força de vontade rompe obstáculos
vamos promover a cena com espectáculos,
RAP é atitude,
apresenta maquetes,
rimas potentes
por cima de beats fats,
esperámos muito tempo
agora é a nossa vez,
vamos calibrar o mercado com bué de cds,
esse é o nosso amor,
e nós levamos a peito,
queremos ouvidos,
queremos vosso respeito,
criticamos o país pro bem da nação,
as nossas calças largas é questão de identificação,
não usamos fardas
mas lutamos pelo país,
guerrilheiros fora da mata,
soldados civis,
guerrilheiros fora da mata,
soldados civis.
A minha humilde homenagem à entronização maschambiana de AL: o tema musical do filme Out of Africa, uma adaptação da memorável obra de Karen von Blixen-Finecke (ou o pseudónimo, Isak Dinesen) Den Afrikanske Farm (Uma Fazenda Africana) primeiro publicado em 1937.
Música de John Barry, filme de Sidney Pollack estreado em 1985, com Merryl Streep e Robert Redford nos papéis principais.
Fernando Lima e Cecília Siqueira – os dois – tocam numa – uma- guitarra, o clássico de Zéquinha de Abreu, primeiro divulgado em 1917 e imortalizado por, entre outros, Carmen Miranda.
Gravação do Instituto de Música Brasileiro feita na Universidade norte-americana da Florida.
Ou, eis como torcer o pepino de uma forma completamente inesperada. E genial.
Um mimo de, e para , os nossos brothers brasileiros.
[Chico Buarque, Leite Derramado, Dom Quixote, 2009]
Eulálio de Assumpção, centenário moribundo em hospital público, deixa as suas memórias em registo fragmentário e até balbuciante. Homem de velha estirpe, descendendo até de “um doutor Eulálio Ximenez d’Assumpção, alquimista e médico particular de D. Manuel I” (212), transposta para o Brasil na comitiva de D. João VI, aí originando uma linha de Eulálios de Assumpção grandes proprietários. Através deste Eulálio de Assumpção (com seus avatares geracionais) pode-se entrever certo percurso do Brasil, em particular do Rio de Janeiro – até mesmo sob o ponto de vista urbanístico – de XIX e XX. Mas mais do que referir a óbvia ligação ao registo das “Memórias Póstumas …” de Machado de Assis o que me chamou a atenção foi o fundo ideal do livro.
O protagonista é o verdadeiro Eulálio da Assumpção final, o da inversão de sentido, todos os que se lhe seguem (mas que morrerão antes dele) são tristes sequelas. Com ele, assassinado que foi seu pai em finais dos anos 20, se inicia um longo e doloroso processo de decadência. Económica, social, territorial (as deslocações das suas residências acompanham a geografia histórica do Rio). Mas onde está a força motriz dessa decadência? Na sua fragilidade pessoal, desprovido da verdadeira energia dos Assumpções, do encanto estratégico de seu pai. Mas bem mais do que isso, radica a decadência na incapacidade de resistir ao simples carnal. A morte do pai, o desaparecimento do seu viril controle civilizacional, deixa de imediato o jovem Eulálio à mercê da natureza desbragada, inconsequente, irracional - em pleno funeral de seu pai descontrola-se com a visão de sua futura mulher Matilde, e tem que se retirar, incumprindo a sua função social.
Nesse sentido a morte do pai empurra-o para uma distraída miscigenação: “Mas ora, ora, papai, disse Maria Eulália, está na cara que esse aí puxou a minha mãe mulata. Não sei quem abastecia minha filha com tantas maledicências, Matilde tinha a pele quase castanha, mas nunca foi mulata. Teria quanto muito uma ascendência mourisca, por via de seus ancestrais ibéricos, talvez algum longínquo sangue indígena.” (172). Meio século depois, já avô empobrecido, continuava incapaz de reconhecer o que a sua mãe (e afinal todos os outros) identificara: “Minha mãe era de outro século, em certa ocasião chegou a me perguntar se Matilde não tinha cheiro de corpo. Só porque Matilde era de pele quase castanha, era a mais moreninha de sete irmãs, filhas de um deputado correligionário de meu pai.” (39). Distracção feita de falta de preconceitos com a qual crescera: “No entanto garanto que a convivência com Balbino [com quem também desejou relações sexuais] fez de mim um adulto sem preconceitos de cor. Nisso não puxei ao meu pai, que só apreciava as louras e as ruivas, de preferência sardentas. Nem à minha mãe, que ao me ver arrastando a asa para Matilde, de saída me perguntou se por acaso a menina não tinha cheiro de corpo.” (27). – [esta repetição, até estilisticamente deselegante, do episódio do "cheiro de corpo" inquirido pela mãe salienta a sua importância na economia da narrativa].
Todo o percurso deste Eulálio de Assumpção se marca na desgraçada relação conjugal com esta, afinal, mulata. Que o trairá e abandonará, assim reforçando-lhe o imobilismo existencial, condenando-o ao imobilismo afectivo. E que marcará racicamente os seguintes Eulálios de Assumpção, cada vez mais negros, por herança genética e hipotéticos cruzamentos, cada vez mais inconsequentes e falidos, mais descentrados, culminando no último dos seus descendentes, o gigolo-traficante já negão.
Este típico evolucionismo decadentista brasileiro de XIX, o da miscigenação como factor “natural” obstáculo à civilização, causa de decadência, surpreendeu-me em Chico Buarque. Será que tresli? Ou é mesmo um manifesto antropológico em forma de ficção?
Acima, a música proposta para o comício de encerramento da campanha presidencial em Moçambique. Arranjo de Igoodesman e Joo e orquestra sinfónica, de um grande sucesso de Gloria Gaynor.
Ou, como terá dito Friedrich Nietzsche, sem música a vida seria um erro.
Através do amigo do amigo, o Dr. Vasco Galante, Director no actual projecto conjunto do Governo e da Fundação Carr para recuperar o Parque Nacional da Gorongosa, fez o favor de abrilhantar a pequena celebração maschambiana da fadista portuguesa Amália Rodrigues, remetendo esta imagem da sua inscrição no livro de convidados do Parque, feita aquando da sua visita àquele paraíso natural moçambicano no dia 9 de Abril de 1951.
Os exmos. visitantes mais aficionados poderão premir na fotografia para verem a mesma imagem com maior resolução.
Já há 10 anos. Então a gigantesca onda de desvairo lisboeta – um desvairo que se queria estratégico, ainda para mais -, mal-educado e desonesto, iletrado e inculto, socialista e nepotista (coisas todas que agora afinal blogo-elogiadas como “lendas vivas”, que não há limite para desvergonha dos blogo-intelectuais “orgânicos”), esse desvairo todo junto, e por caminhos oblíquos pois “deus escreve X por linhas tortas”, trouxe os Xutos a Maputo. Lembro, lembrarei, o meu acabrunho radical de então (“como é isto possível?” face à filhadaputice feita norma, feita futura “lenda viva” – que um tipo aos 30 anos, que um tipo aos 45 anos, ainda não acredita que não haja limites para o esterco humano). E lembro como o tal acabrunhado jpt o deixou de estar: num grande jantar no mercado do peixe, a Isabel R. organizadora, com o Vitorino a cozinhar uma bela de uma massada de peixe, o jpt a oferecer os bebes e os comes, o Sérgio Godinho a conversar como um senhor (interessado) que é, os X a serem banda rock on the road, o pessoal em massa à mesa, e a Princesa de Pemba a oferecer uma fantástica festa em sua casa, ali à Malhangalene. E no dia seguinte, muito me lembro, post-acabrunhado, de estar na FACIM a ver os X – estava lá o meu chefe fantástico, inesquecível que é, (e o seu filho). Fugindo eu para a segunda fila, de pé face ao palco, ali ao lado do inconfundível Hernâni, nós os únicos de X bem ao alto – “vi-te lá na frente“, haveria de dizer o Kalu no “atrásdopalco” onde o desvairo já nem estava, que “fino” sempre acha ser, só os “X”.
Já há dez anos, tão já, mas também tão depois do “1 de Agosto de 1984″ no “rock rendez-vous” e tantas outras vezes. Já há dez anos mas ainda então, já então, a aprender que “Todas as tuas explosões redundam em silêncio“.
[Amália recebida no aeroporto por centenas de pessoas]
A evocação da visita de Amália a Moçambique desenvolveu-se em invocação. A minha boa amiga Amélia enviou-me estes preciosos recortes de jornal, relativos à digressão de Amália em 1969 [pressionados aumentam, possibilitando a sua leitura]. A diva do fado, estrela internacional, regressou a Moçambique duas décadas depois da sua última aparição. Veio como centro de uma delegação cultural, integrando o actor Jacinto Ramos e dois cavaleiros tauromáquicos, o que bem denota o conteúdo do arquipélago cultural identitário de então. Se é interessante, paralelamente, ver como a mutação sociocultural da democracia implicou a desvalorização da tourada como símbolo nacional e não de nenhum dos então célebres 3 “fs”, este facto torna explícita a dimensão de “representação”, donde de acto também político, da acção cultural em causa.
[notícia da recepção oferecida a Amália e restante delegação cultural pelo Governador-Geral Baltazar Rebelo de Sousa]
Nada mais sei sobre esta deslocação, apenas posso especular sobre o seu contexto – o de assumir a vitalidade económica da sociedade colona, a trazer a grande artista para uma digressão desta monta, a sua óbvia integração no espírito da época, o de fazer Amália calcorrear um território assim feito, explicitado, Portugal. E um Portugal pacífico, acolhedor da Diva. E, claro, a sua inserção no esforço de guerra português, a expressa vontade do ícone nacional de prestar apoio moral às tropas portuguesas aquando da sua actuação no Norte.
Mas num outro registo, mais conjuntural, apontar a presença do governador Baltazar Rebelo de Sousa, o homem do “colonialismo de rosto humano”, e inclusive a coincidência temporal, explícita no primeiro recorte, com a sucessão da partida de Marcello Caetano e a chegada de Amália. Vivia-se a “primavera marcellista”, terá sido esta uma “acção cultural interna” também propagando esse vector? Numa África onde, pessoa do seu tempo, Amália constata ”ainda me sinto mais portuguesa”.
[Anúncio do espectáculo de Amália em Maputo (Lourenço Marques), no pavilhão do Sporting]
[Amália visita e actua na casa de Malangatana, emparceirando com músicos locais]
Enfim, recortes que são verdadeiros documentos desse tempo, e não só pela forma da escrita jornalística: actuações em Maputo (Lourenço Marques), Beira, Chimoio (Vila Pery) – aqui “apadrinhando” a sua ascensão a cidade, facto civilizacional - e Nampula, com relatos do seu sucesso. A visita à Gorongosa – ex-libris turístico de então, mas também símbolo de uma “África natural”. E, pois há coisas/olhares que se mantêm, a deslocação/actuação a casa do grande Malangatana (já então, como sempre, acompanhado de Oblino) para uma sessão que hoje chamaríamos de “multicultural” (e onde estava, entre outros, a poetisa Glória de Sant’Anna, recentemente falecida).
[Amália em Nampula]
[Entrevista no Hotel Polana, acompanhada de Maluda e da jornalista radiofónica Manuela Arraiano, ambas oriundas de Moçambique]
[Amália na Gorongosa, depois de actuar na Beira e em Chimoio (Vila Pery)]
Adenda: breve memória de Amália em Nampula durante esta digressão, deixada no Petromax.
Não querendo tornar este dia num longo registo de Amaliana, pelas razões já explanadas e porque até ontem nem sequer sabia bem que a boa senhora tinha estado em Moçambique, quis a divina providência que esta noite, durante um agradável repasto celebratório num daqueles restaurantes chineses decorados de forma indescritivel numa Cascais chuvosa de outono (boa para apanhar gripe A), abordasse com um amigo o tema en passant, entre um dúbio e oleoso crepe chinês e um magnífico chop-suey de galinha, regados com uma deliciosamente refrigerada Coca Cola Zero.
Aí descobri que em Lourenço Marques, quando os habituais suspeitos colonial-fascisto-racisto-imperialistas não estavam ocupados a oprimir o bom povo nas redondezas, eram uma verdadeira e alegre tertúlia de fadistas e de guitarristas, o que me surpreendeu, pois lá em casa decididamente imperavam o Frank Sinatra, Óscar Peterson, Nat King Cole e o Walter Wanderley, entre outros. Tocava-se uma balada da Hermínia Silva quando o rei fazia anos.
Já no final do jantar, enquanto bebericava a ritual bica com adoçante, tive a surpresa de ouvir do outro lado da mesa qualquer coisa como “mas sabes, eu até acho que tenho qualquer coisa a ver com isso guardado lá em casa”. Desde logo respondi “ai sim? tens email e scanner em casa? então manda lá o scan, please, se faz favor”. Uma hora depois e graças à mais moderna e barata tecnologia, tive a oportunidade de ver, e de agora poder partilhar em primeira mão com os exmos maschambianos, os seguintes mimos, que podem ser analizados em maior detalhe clicando (ou premindo, segundo o novo AO) nas fotos miniatura em baixo:
Vitorino Ribeiro era o guitarrista de que falei antes. Aparentemente fez um pouco mais do que dedilhar a guitarra sózinho, alta noite na Rua da Argélia.