Música para esta tag e para algumas categoriasaqui: onde há más fotografias e esforçada verborreia ocorridas aquando cruzando gente que trabalha até rebentar. E que costuma rebentar nova…
A Gente Não Lê
Ai senhor das furnas
Que escuro vai dentro de nós
Rezar o terço ao fim da tarde
Só para espantar a solidão
Rogar a deus que nos guarde
Confiar-lhe o destino na mão
Que adianta saber as marés
Os frutos e as sementeiras
Tratar por tu os ofícios
Entender o suão e os animais
Falar o dialecto da terra
Conhecer-lhe o corpo pelos sinais
E do resto entender mal
Soletrar assinar em cruz
Não ver os vultos furtivos
Que nos tramam por trás da luz
Ai senhor das furnas
Que escuro vai dentro de nós
A gente morre logo ao nascer
Com olhos rasos de lezíria
De boca em boca passar o saber
Com os provérbios que ficam na gíria
De que nos vale esta pureza
Sem ler fica-se pederneira
Agita-se a solidão cá no fundo
Fica-se sentado à soleira
A ouvir os ruídos do mundo
E a entendê-los à nossa maneira
Carregar a superstição
De ser pequeno ser ninguém
E não quebrar a tradição
Que dos nossos avós já vem
E, para quem leu ou ouviu a correr, há refrão, minha inovação:
“Carregar a superstição / De ser pequeno ser ninguém“
Abaixo abordei (estreia na horta) o candidato yankee (gringo, em português) Barack Obama. E hoje belo jantar, queijos vários e vinhos “lá de cima”, dele cheio. Importante, decerto, no sítio onde está. No resto, diante desses que o iconizam para auto-posicionamento (e auto-legitimação, nunca esquecer), tipo “pago sem ver”, pokeristas católicos (coisa de milénios ou chegada em pleno XX, soam iguais) - coisa de culpas sonegadas -, só sorrio, compungido. Meu afastamento, algo que já referira
E (não sei meter youtubismos - será que funciona?)
sublinho hoje, aqui, ainda mais forte e de muito mais antes. Sem gringuismos. Nem outros “ismos”. Pois só um sol por aí. Por aqui. (Mas tantos palavrões sob ele. E, nunca esquecer, tantos pruridos. Em todos. Mas mais exactamente nesses.).
Orquestra no Centro Cultural de Matalana, essa utopia de Malangatana. A chuva, em dilúvio, abençoou. Para as nossas memórias - e, talvez nebulosas, para as dos nossos mais novos.
nas memórias que guardamos, há bonecas de cabelos rebeldes que falam e cantam, fadas luminosas que voam e são boas, intrinsecamente boas, princesas ou borboletas também as há, ainda aquelas caixinhas de música com tampa em madrepérola, lá dentro uma bailarina sobre um espelho que é afinal um lago brilhante, parece frágil-muito-frágil a bailarina e não é nada disso, é uma força qualquer daquelas que entra no nosso sangue e nos arrepia tanto assim
nesta noite, maria joão, a mulher que é menina e maior do que as cores, pedaço de boneca e de fada, princesa ou borboleta, a bailarina do lago
nesta noite, a voz, mensagem de outros corpos, talvez de espíritos e duendes brincalhões, talvez de raízes ou de alguma serpente feita raiva e dor e saudade, ecos da terra mais secreta que essa mulher habita
e nesta noite ali dizia-nos isto tudo
e isto tudo é encanto
como se na sua voz houvesse o sol e a noite mais escura o tempo há muito ido ou o amanhã ainda infância
Integrando o programa da visita do Presidente da República Portuguesa Aníbal Cavaco Silva na próxima semana estarão em Maputo
Maria João e Mário Laginha. O concerto será no dia 24, 2ª feira, às 19 horas, no Centro Cultural Universitário (e é gratuito). Que eu saiba será a quarta vez que os artistas tocam em Maputo - lembro-me de os ter visto em 1997 e em 1998, de ambas as vezes em excelentes apresentações e com casa cheia. Agora, com Maria João uma celebridade televisiva, acredito que o eco será ainda maior. E com o apreço de os ver actuar no nosso centro cultural.
No dia seguinte, 25 de Março, realiza-se também na UEM uma sessão dedicada à questão do português como “língua global”, com a participação de um alargado número de membros da universidade. É uma sessão também organizada a propósito da visita presidencial, e sobre isto permito-me registar - ou intuir? - que a passada década permitiu alguma evolução ao alto funcionalimo luso: do pregar o português como língua de chegada (aliás, lusofonia [o incompreendido e descontextualizado “a minha pátria …” pessoano repetido até à exaustão]) ao entender o português como língua de comunicação veicular. Exagero meu? Espero que não - se a educação sentimental é possível também o será a educação ideológica.
Lourenço Marques, muito apreciável livro (consideração com a qual não concordarão os livreiros locais, sempre renitentes em encomendá-lo). Em nada desfazendo dos nossos colegas que estarão presentes vale a pena ir ouvir o homem, que ainda para mais é uma simpatia.
Adenda: Noto que nesse encontro estará também presente Valter Hugo Mãe, escritor (que, infelizmente, nunca li) e também ele bloguista. A conhecer de ouvir, pois então.
Inútil lá ir às compras, resmunga há tempos a burguesia maputense, vergada ao rand forte, à inflacção “lá em cima”, ao limite de 50 USD de aquisições na fronteira. Pois, mas é ir a Neilspruit e, numa vulgar e até reles CNA, gastar 39,45 rands nisto
O blog sobre música A Trompa enviou perguntas sobre preferências em música portuguesa. Aqui ficaram as minhas respostas - obrigado pelo convite para participar.
“Expões-te demasiado” avisa ciclicamente um talentoso amigo (desses da “plataforma livro”). Talvez. Por isso alguns me desprezam e outros me atacam. Ignoro-os, em particular aquando no meu maravilhoso país. Esse mesmo, esse onde logo à chegada basta ir comprar o primeiro jornal para deparar e, de imediato, trémulo, comprar oum dazed and confused a tocar desde então.
A canção continua a mesma, ó Zé, escadaria acima para o céu.
O espectáculo de ontem no CCF-M divide. A delícia de estar a assistir à Matusalem - pelo menos 93 anos anos, muito provavelmente cento e tal - nestes propósitos, adorando estar em palco. E um pouco a ideia de que o número é folclore, muito cruzado com uma gerontofilia complexa.
Não valerá a pena discutir muito isto, em particular a tal tão ambivalente gerontofilia. É deixar-me de requebros e congratular-me de ter visto Bi Kidude. E assim sendo dentro de algumas décadas poderei dizer aos meus netos “Eu vi Bi Kidude em Maputo”. Claro, di-lo-ei quando a cantora vier de novo actuar, então para aí já com 150 ou 200 anos.