Escrevo “burguesia” um outro escriba lê “luta de classes”. Obviamente que me lembro deste velho grupo – e descubro que ainda anda por aí. Como os tresleitores – sempre impantes.
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Escrevo “burguesia” um outro escriba lê “luta de classes”. Obviamente que me lembro deste velho grupo – e descubro que ainda anda por aí. Como os tresleitores – sempre impantes.
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Já abaixo referi que o Delito de Opinião está com um ciclo de convidados. Ontem entrou um texto de Eugénia de Vasconcellos, habitante do É Tudo Gente Morta. E é por ela que conheço esta deliciosa canção e respectiva cantora. Recomendável não só pelo embalozinho que nela vem. Mas porque a propósito de alguns assuntos que tantas palavras (e “posts”) têm gerado nunca vi tão competente argumentação. E até dançável(zinha). Dá para substituir as montanhas de “files”? Trauteando a melodia (é fácil, escutem …)?
[para os mais duros de ouvido aqui está a "letra" da canção (com tradução e tudo)]
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Julgo poder falar em nome do quarteto co-bloguista quando dedico ao nosso PSB esta mais-do-que-nunca adequada canção (a qual presumo ser muito do seu agrado). Bem-vindo a esta prestigiada década.
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por ABM (Segunda-feira, 28 de Junho de 2010)
Há uns dias, o nosso Senador JPT ia-me mordendo qualquer coisa por ter referido gostar do IV movimento da Nona Sinfonia de Beethoven. Não pelo facto em si, mas porque a conversa vinha a propósito de essa passagem da sinfonia composta por Beethoven ter sido adoptada como o (sem aspas) Hino da União Europeia, algo que o JPT contesta com algum alarde. Como referi na altura, é assunto em relação ao qual eu basicamente vivo alheio, confortável no conhecimento de que a ainda andava a UE de fraldas e já eu apreciava a sua beleza e pujança e até trautava, sem conhecer basicamente uma palavra da língua alemã, as estrofes de von Schiller.
Esta noite estava a pesquisar umas coisas sobre a mistificante Leni Riefenstahl (aqui na Casa a pesquisa nunca acaba, o Gúgele até deita fumo às vezes) e não sei bem como, enquanto estava à procura da letra do alegre poema de von Schiller, que é cantado neste movimento da Nona Sinfonia, deparo com uma informação que me surpreendeu e que decerto fará as delícias do nosso Senador:
A União Europeia não foi a primeira a adoptar esta música como hino.
Foi a Rodésia.
Lembram-se da Rodésia? era o Zimbabué antes de 1980, ali mesmo ao lado de Moçambique. Só meti lá os pés uma vez, no aeroporto de Salisbúria (e que se chama hoje Harare) num muito memorável e conturbado vôo da TAP entre Lisboa e Lourenço Marques, ao fim da tarde do dia 8 de Setembro de 1974 (é um bocado difícil esquecer esta data). Uma hora e meia na sala VIP. Uma Joana Simeão com espessos óculos escuros embarcou nesse voo para uma Lourenço Marques a ferro e fogo por causa da reacção ao anúncio dos hoje chamados Acordos de Lusaka (eu conhecia-a porque ela foi professora no Liceu António Enes, que frequentei). Eu não sabia rigorosamente nada sobre o assunto para além do que havia lido na paragem desse vôo em Luanda. Tinha 14 anos e meio de idade e vinha de representar Moçambique nuns campeonatos desportivos em Portugal. Nem sonhava que a Frelimo ainda andava aos tiros.
Pelos vistos, nesse ano de 1974, onde ainda lá mandava o Sr. Ian Smith, decidiram arranjar um novo hino para eles e zás, sai IV movimento da Nona de Beethoven, com uma letra escrita por uma senhora chamada Mary Bloom, com o título Oiçam-se Ó Vozes da Rodésia, e que diz o seguinte, no original, em inglês:
Rise O voices of Rhodesia,
God may we thy bounty share,
Give us strength to face all danger,
And where challenge is, to dare.
Guide us, Lord, to wise decision,
Ever of thy grace aware.
Oh, let our hearts beat bravely always
For this land within thy care.
Rise O voices of Rhodesia,
Bringing her your proud acclaim,
Grandly echoing through the mountains
Rolling over far flung plain
Roaring in the mighty rivers
Joining in one grand refrain
Ascending to the sunlit heavens
Telling of her honoured name
Quem quiser ouvir ponha-se em sentido, bata continência e clique aqui.
Hino da União Europeia, põe-te na bicha.
Abaixo um comentário sobre emigrantes moçambicanos fez-me lembrar esta música de Hugh Masekela, um fantástico hino. Sim, eu sei que o comentário não se referia a este mundo. Efeitos dos xizatos memorialistas, recortando discursos, livros e iconografias, e até quantas vezes transcritos para a própria historiografia.
[Em termos de som e de qualidade de versão musical é o melhor filme que encontro no youtube, ainda que desprovido de imagens dos músicos. Sobre a canção ver uma boas descrições aqui e aqui]
Stimela [Coal Train]
There is a train that comes from Namibia and Malawi
there is a train that comes from Zambia and Zimbabwe,
There is a train that comes from Angola and Mozambique,
From Lesotho, from Botswana, from Zwaziland,
From all the hinterland of Southern and Central Africa.
This train carries young and old, African men
Who are conscripted to come and work on contract
In the golden mineral mines of Johannesburg
And its surrounding metropolis, sixteen hours or more a day
For almost no pay.
Deep, deep, deep down in the belly of the earth
When they are digging and drilling that shiny mighty evasive stone,
Or when they dish that mish mesh mush food
into their iron plates with the iron shank.
Or when they sit in their stinking, funky, filthy,
Flea-ridden barracks and hostels.
They think about the loved ones they may never see again Because they might have already been forcibly removed
From where they last left them
Or wantonly murdered in the dead of night
By roving, marauding gangs of no particular origin,
We are told. they think about their lands, their herds
That were taken away from them
With a gun, bomb, teargas and the cannon.
And when they hear that Choo-Choo train
They always curse, curse the coal train,
The coal train that brought them to Johannesburg.
[imagem encontrada neste texto (uma adaptação do texto "A Place in the City" de Lilli Callinicos, aqui biografada).]
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Pois é, dentro de bem pouco visitarei por breve período a amada pátria. Afectos de família, algumas compras, alguns proto-cinquentões antigos amigos, se ainda pacientes para uma mesa comum. E o conhecimento in loco das grandes questões nacionais, essas que enchem os blogs portugueses: uma tal de nigella, que anseio conhecer,tamanho o impacto anunciado; os bloguistas anónimos, que colhem grande aceitação nos bem pensantes. Sobre estes sei já, ainda que cá longe, qu’entre eles não consta el-rei de Portugal. Ainda que alguns lhes beijem as manápulas. Essas com que teclam, diligentemente, a sua cobardia.
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Quando começo com o senhor abaixo apresentado não o consigo fazer calar. E então, às vezes, lembro-me de um bar onde – para além de ter conhecido e muito privado com um futuro co-bloguista – muito ouvi as suas canções. E dancei, pois então o suficiente jovem para intervalar – esporadicamente – a auto-censura.
Vai então uma para o MVF (e restantes sobreviventes do bar artis que aqui sejam visitantes).
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Nos comentários do texto a propósito da morte de Saramago o ABM pontapeia-me. Tentei defender-me, mas com profundo défice argumentativo. Insisto agora, esperando tornar explícito o meu ponto de vista
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por ABM (14 de Junho de 2010)
Nos bons velhos tempos, quando a maior parte das pessoas em casa só tinha um rádio que apanhava menos de meia dúzia de estações em onda média e, para os mais afortunados, um gira-discos (na velha LM dizia-se um pickup, que se dizia “picâpe”), as pessoas quando muito cantarolavam baixinho e mais alto quando estavam sózinhas nuas e trancadas na banheira, com o chuveiro a correr e a escovar as costas com aquelas escovas de banho com um cabo de madeira longo.
Em Moçambique, quando eu crescia, era assim com os brancos, mas rodeados por um belo, estonteante, omnipresente, contagiante mar de canto e dança africano.
Hoje em dia deu nisto. Uma espécie de hooligans bem intencionados e armados com um exército de câmaras e aparelhagens sonoras aparecem em lugares públicos, armando ciladas musicais que deixam alguns dos transeuntes sem saber o que dizer. Depois escarrapacham uma gravação do evento no Iutúbe.
Como no fundo acho divertido e a seguir vem mais um desses textos chatos sobre economia, coloco aqui dois dos que mais gostei.
O primeiro foi feito por alguns membros da Companhia de Ópera de Filadélfia, que descaroçaram uma ária de La Traviata num mercado local.
O segundo, creio que mais conhecido, foi feito em Amsterdão e inclui uma das minhas canções favoritas, Do, re, mi, do filme A Música no Coração (Óscar para melhor filme em 1965, entre outros).
Aliás, li num jornal da Beira de hoje que uns jovens estão a preparar naquela cidade uma manifestação de apoio ao Sr. Bachir da MBS (acho que é mais para chatear os americanos e as suas medidas administrativas mas enfim) dançando numa praça da cidade da mesma maneira.
Das coisas que mais aprecio em África é que, em África, regra geral, cantar e dançar faz parte da vida. A maioria dos brancos na Europa tem já gerações de tentar parecer sério…e gente séria não canta nem dança….e nunca em lugares não designados. Não?
Com um bocado de sorte, seguir-se-á uma análise sociológica do tema pelo nosso Senador e talvez (oh se isso fosse possível) pela Exma. Sra Baronesa, que calcorreou África, conhece as Europas e tem um olho prescrutante para estas coisas. JPT, Sra Baronesa, porque é que as coisas têm que ser assim?
Raro final de tarde no Mundo’s, entre 2M’s e Jamesons está a mesa composta, e mais se irá compondo com os saídos da Mtomoni, esses acorridos ao dia da “pátria amada” deles ou doutros. Focaccias comidas entre angolanos, moçambicanos e eu mesmo, na mesa ao lado uma trupe de raimbow sul-africanos, chegam shiks anglo-quenianos (sorrio à memória de questões identitárias alheias, afinal tão “flats” são elas), mais a fauna mesclada ali tão habitual. O som foi elevado mas não pode evitar as nossas conversas, prognósticos e rescaldos sempre são elas. De súbito surge uma cantora entoando “Malaika”. A meu lado o meu amigo, esse que sempre caustico, crítico incansável, homem de verrina utópica, nisso exaltada, fica-se a balbuciar, comove-se num quase-mudo “a Makeba cantava isso ….” “nos tempos…”, recuando com os acordes a sonhos e feitos. E nisso nos passa a emoção, não só mas também, disto do primeiro mundial de futebol em África, aqui mesmo ao lado.
Subtracção: chego a casa, zapping nos noticiários portugueses (SIC, RTP) e abundantes notícias sobre os roubos aos jornalistas (“os jornalistas nunca são notícia” resmungo um velho mandamento) portugueses. Pobre e pequena gente. A que insiste em os ouvir.
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este.
A man looks up on a yellow sky
and the rain turns to rust in his eye
rumours of his health are lies
old england is dying
his clothes are dirty shade of blue
and his ancient shoes worn through
he steals from me and he lies to you
old england is dying
still he sings his empires song
and still he keeps his beliefs strong
and he sticks his flag where it ill belongs
old england is dying
you’re asking what makes me sigh now
what it is makes me shudder so
well
I just freeze in the wind
and I’m numb from the calling of the snow
that falls from high in yellow skies
where the war stained flag of england flies
Where the homes are warm and the mothers sigh
where comedians laugh and babies cry
where criminals are televised politicians fraternized
journalists are dignified and everyone is civilised
and children stare with heroin eyes
Old England!
evening has fallen
the birds are singing
the last of Sundays bells is ringing
the wind in the trees is sighing
and old england is dying
É (mais) um “pequeno” exemplo da visão paradigmática do poder socialista português. José Sócrates vai ao Brasil e logo se faz constar que Chico Buarque quis conhecer José Sócrates. O cantor – acima retratado há quarenta e tal anos, quando já era Chico Buarque de Hollanda, época desde a qual já decorreram vários “sócrates” por estes países – veio, algo incomodado, negar – seria preciso negar?, a reles mentira não é tão óbvia? Mais uma vez, pois é mais forte do que eles, lá se extravasou a mesquinhez mentirosa (e arrivista) desta gente, na sua tendência para o culto da personalidade (um caso sintomático este), na sua vertigem para a pequena (e grande?) mentira manipulatória do real, na sua adesão à encenação.
O que vale é que vamos ouvindo Chico Buarque. Até já ninguém se lembrar destes “sócrates” – alguém se lembra do nome daqueles tipos do tempo do Tanto Mar? Aqui fica a música, até para vergonha dalguns e dalgumas que com a meia-idade andam “navegando” socraticamente, até esquecidos de si próprios. (Ou será que, afinal, nunca existiram?). E junto-lhe um belo bónus. Para a gente se esquecer mais depressa destes trastes: os do poder; os assessores da tanga; e todos seus apoiantes – já indesculpabilizáveis, tamanho o despautério a que aquilo chegou, e há já muito tempo.
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Como diz Ramalho Eanes, a crise agora é pior do que a do início dos anos 1980s (até porque não vem aí a CEE para nos içar a um futuro desenvolvido). Convém recordar que Ramalho Eanes, por muitos defeitos que possa ter, é um homem probo e foi o único que tentou verdadeiramente quebrar a partidocracia: chamaram-lhe Péron (a propósito de quê?) e ficaram com os Craxi e os Andreotti de trazer por casa. O buraco em que está o país faz-me lembrar a célebre palavra de ordem que cobriu Portugal nos 70s, acima reproduzida.
Sim, os “ricos” que paguem a crise. Um “ricos” que é palavra muito discutível. Julgo recordar que o ABM aqui disse, um dia, que não há ricos em Portugal. Pois para mim é exactamente o contrário, são todos “ricos”. Acoplados à Europa rica, aburguesando-se em “compras” e “direitos” (os adquiridos, como se “direitos” não fossem relações, e como tal sempre contextuais), uma riqueza assente na exclusão, desindustrialização, miserabilização de milhares de milhões de indivíduos (antes o Terceiro Mundo, depois os países em vias de desenvolvimento, depois os “tigres”, agora os “emergentes”). Acabou, primeiro para desespero da esquerda reaccionária europeia (e da pungente portuguesa), essa tralha infecta da alterglobalização e das causas fracturantes. Agora para aflição do centro-direita sorna, liberaleiro no discurso, comunitário ao extremo no reaccionarismo social. Os “russos” vêm aí? Já chegaram, e vão ficar.
Mas não basta assim. Reparo que na internet portuguesa imensos reproduzem o José Afonso
Certo, nem todos são “ricos”. Os ricos (aka classe média, a que vota) foram elegendo uma cleptocracia que os deixava ter enormes chopings centres (os maiores da península, depois os maiores da europa) e que lhes transformou os poligrupos em gold cards. Correu mal, como só podia ter corrido. Comeram os restos, lautos diga-se, e os outros, aqueles a quem entregaram o poder “comeram tudo”. Num Portugal enredado nas teias de um inenarrável partido socialista (ou narrável, que matérias não faltam dada a desvergonha dos executores e a imoralidade dos apoiantes – bloguistas ou não), o mainstream à sua direita continua igual, assobiando para o lado. Faria de Oliveira, administrador do banco público, antigo ministro, aparelhista crucial do modelo vigente, tem a indecência de avisar agora que os portugueses têm de mudar “radicalmente” de vida. Têm? Ou tinham? Há quanto tempo isso é óbvio, há quantos anos isso é óbvio? Serve um míope destes para administrar os recursos sociais? Ou deve ele mudar radicalmente de vida? Paulo Portas, o homem dos submarinos trilionários, tem a desfaçatez de relançar neste exacto momento a suspeita sobre o rendimento mínimo, aparentemente uma coisa normal, a necessidade de fiscalizar os serviços estatais. Mas na prática uma cortina de fumo, uma mensagem óbvia, a de que “os pobres (mandriões, ainda por cima) que paguem a crise”. Enquanto o governo, se é que é mesmo isso, esfrega-se incorentemente em declarações de mais impostos recessivos, falhada que está a sua agenda esbanjadora. Que serve(ia) os interesses camaradas, é tempo de nos deixarmos de pruridos.
Um trambolhão enorme, anunciadíssimo, no desinvestimento de décadas, no aburguesamento de décadas, na mafiazição de décadas. E continua este poder, este arco nada íris, de Portas a Portas para simplificar. E os cidadãos, os mais inconformados, continuam na mesma, desactualizados, distraídos. A fazerem tocar este “Vampiros”. É inútil, o José Afonso está ultrapassadíssimo. Pois “eles” já “comeram tudo”. “Nós” já “comemos tudo”.
Cantar algo? “Navegar é preciso …”
Não vejo outra coisa. Por culpa vossa, por ignorância vossa. E minha. Maldição.
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Aqui ficam umas imagens de um concerto do Stewart Sukuma realizado em Tondela (Portugal) durante o Tom de Festa 2009 (Julho), 17º Festival de Músicas do Mundo. O line-up do festival foi extraordinário e talvez dele aqui coloque mais umas memórias. Para já fica o Stewart porque merece, que levou como convidado o Luís Represas. Que me perdoe este último e a sua legião de admiradores/as se não sou um grande apreciador…
©miguel valle de figueiredo