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ALGUMAS CANÇÕES CHOPES

por ABM (Cascais, 10 de Fevereiro de 2010)

Colecta de canções feitas pelo legendário maestro Artur Fonseca, 1958, 107 págs. Ilustrado ao longo do texto, nomeadamente com facsimile de alguns fragmentos musicais.

À venda em Coimbra pelo meu prezado Miguel de Carvalho pela pechincha de twenty-five euros. Como eu não sou assim musicalmente inclinado passo apenas a publicidade.

O elegante site do jovem é Miguel de Carvalho – Livreiro Antiquário.

Nanando

Até já.

jpt

Musica de Intervenção

(por AL em veia hip-hop)

Não é a primeira vez que aqui falo da nova música que se vai fazendo pelas ex-colónias portuguesas, nem dos contornos de intervenção social e política que o hip hop dessas paragens tem vindo a tomar. Hoje deixo aqui dois jovens moçambicanos, 2 caras e 100 paus de sua graça. Foram-me apresentados pela Vera via facebook e gostei o suficiente para os ir youtubar. Neste tema que aqui deixo e que se chama Pais da Marrabenta dizem coisas como Foram 16 anos de uma guerra civil/ Só de orelhas decepadas foram mais de mil/ Ainda querem que o povo lhes de ouvidos/ Dam! filhos da mãe desses políticos!! Reconhecem que Injustiça! palavra mais comum entre nós/ Tanto se reclama quase que se perde a voz …  E acrescentam Deram liberdade de imprensa ao jornalista/ O carlos teve azar foi o primeiro da lista/ Pois é o mano esqueceu-se da lei da floresta meu/ Antes que abrisse a boca tiro na testa …  E o assassino com certeza foi ao enterro/ Abraçou a viúva e disse: meu companheiro!

Num outro tema chamado Africa cantam Eu sou preto, como as noites sem luar/ Eu sou os lábios de um homem que fuma sem parar/ Eu, trago na alma a essência do carvão/ O luto das viúvas, eu sou a escuridão …  O céu numa noite sem luar e sem estrelas/ o sinónimo de sofrimento e de guerras/ África é um livro não aberto com/ titulo escuro e conteúdo incerto…

O Barbeiro de Maputo

(por AL em buscas youtubinas)

18022-2

Estava eu calmamente surfando no youtube por música moçambicana quando dou com este Moçambicano (que penso) desconhecido – Al Bowlly.

Albert Alick Bowlly, mundialmente conhecido por Al Bowlly foi um dos cantores de jazz mais famosos do Reino Unido e não só, contemporâneo de Glenn Miller que escolheu ele mesmo em 1934 uma orquestra para Al Bowlly cantar em New York, e de Bing Crosby, Dean Martin, Frank Sinatra e Carlos Gardel. Nem mais!

Al Bowlly nasceu em Lourenço Marques em 1899, filho de costela grega e libanesa. Quando tinha 4 anos de idade a família mudou-se para Johannesburg, onde ele viveu até 1923-24.

Personagem colorido e viajado o nosso Al sai da escola aos 14 anos para trabalhar como barbeiro, tendo também começado nesta altura a dar os seus concertos de banjo e uke. Em 1923-24 junta-se à orquestra de Edgar Adeler numa tournée que o leva a Rhodesia, East Africa, India, Malaya, e Java.

Irrequieto Al pega-se com o maestro e abandona a orquestra e 1925 apanha-o nas corridas de cavalos em Calcutá, onde conhece Jimmy Lequime com cuja orquestra ruma até Singapura, iniciando nova tournée mundial que, depois do Oriente, o levaria a Berlim onde gravou o seu primeiro disco como vocalista em 1927.

Em 1930 em Londres, Al assina um contrato com Noble que o leva para New York, onde gravou 500 músicas nos quatro anos seguintes. O sucesso de Blue Moon, I’ve Got You Under My Skin e outras foi tal que Bowlly teve direito ao seu programa de rádio na NBC e viajou para Hollywood onde contracenou num filme chamado the The Big Broadcast em 1936.

Al Bowlly foi creditado como o pai do crooning, que se pode traduzir livremente por baladeiro, iniciando assim uma escola que viria a dar frutos de nome como Nat King Cole, Frank Sinatra, Dean Martin, Bing Crosby e Andy Williams.

Morreu em Londres em 1941, vítima de uma bomba alemã que explodiu à porta da casa onde vivia e foi enterrado no cemitério de Westminster juntamente com as outras vítimas da bomba.

Ouçamo-lo então num dos seus grandes êxitos!

Moçambicalidades

(por AL em ondas de nostalgia) -

Hoje comecei o dia na maschamba com um post musical; à tarde fiz uma incursão musical inspirada pelo post do ABM e vou encerrar a noite com mais outro tema musical de inspiração umbhaleana. Wazimbo e a Orquestra Marrabenta Star no seu melhor. O fim perfeito para um domingo cinzento e chuvoso em terras lusas…

Um pouco de música

Wazimbo

Ken Lee

Enviaram-me este curto filme que logo me disseram ser já antigo. Hilariante. Depois pungente. Só depois se consegue olhá-lo de outro modo. Como suma de um tudo.

Uma concorrente, candidata a cantora, na sequela búlgara do “American Idol”, o mesmo modelo desses “Operação Triunfo” ou “Famashow” que cada país vem implantando e repetindo até à exaustão das audiências. Onde o conteúdo é sempre similar, a imitação do bom, do bom produto (a competência, o estilo), do bom tom (o timbre, as vestes, o gestual), do ser (o repertório).

Um bom que vem de fora, de um determinado “fora” correcto – mesmo quando o produto copiado é nacional é porque é um “nacional” dentro dos conformes já instituídos. Claro que há recriações, reapropriações, reutilizações, novos sentidos criados [a chegada apotéotica à Beira do jovem vencedor do primeiro Famashow é significativa]. Mas fazendo tábua rasa das arestas inconformadas. O cerne de tudo é um produto pisado e repisado em que o Valor é o auto-esvaziamento, uma transição para ser-recipiente.

Daí que o desvario desta candidata a Mariah Carey, ante o olhar estupefacto de um juri também ele cópia doutras Mariahs Careys, apenas um pouco mais buriladas, seja tão exemplar. Hilariante. Desesperadamente hilariante. Espelho do nosso comboio.

Coisas para o facebook 3

Southern Mozambique

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Os interessados encontrarão o disco aqui, mais um dos trabalhos de Hugh Tracey [obra consultável na International Library of African Music]. Este disco – enquanto objecto muito prejudicado por uma inenarrável introdução histórica a Moçambique, pejada de grosseiras incorrecções, coisa óbvia de anglófono marxista dos 1960s, preconceituoso e ignorante – é um magestoso documento: 25 gravações, obtidas durante duas décadas em gravações em Moçambique ou na África do Sul. Oriundas de oito grupos linguísticos (Chopi, Ndau, Ronga, Hlanganu, Gitonga, Tswa, Hlengwe, Nyungwe) e de duas abordagens musicais (heptatónica Nyungwe Shona, a hexatónica de todos os outros). Peças únicas dos maestros lendários das décadas em causa da dança de timbila; de dança mandowa, da dança masesa, da dança ndzumba, da dança makarito, do cancioneiro kwaya, ecos da expansão da mbira, etc.

Um documento estimável. E inestimável. E de fruição … (dedicado ao aficionado 25 cms de Neve).

Forgotten Guitars from Mozambique

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Forgotten Guitars from Mozambique (1955, 56, 57) transcreve 21 gravações realizadas no sul de Moçambique por Hugh Tracey, célebre musicólogo que após quatro décadas de trabalho publicou mais de 200 discos de recolha musical na África sub-sahariana.

A recolha dos guitarristas deste contexto geográfico – “um estilo changana” – sublinhava para Tracey a presença de três pontos cruciais da introdução da guitarra de então (Cooperbelt zambiano, Katanga congolês, sul moçambicano). Ou seja, da modernidade: a “guitarrização” mineira, neste caso

Para aqueles que vão lendo algumas das actuais e espúrias querelas sobre a paternidade (e propriedade) da “marrabenta” será interessante detectar os ritmos aqui colocados (como por exemplo os duetos de Aurelio Kowano e Alberto Fulani, imediatamente associáveis) para além do testemunho sobre a excelência do grande Feliciano Muntano Gomes [Ngome] (foto da capa). Como corolário oferece a transcrição das letras cantadas, o que permite entender os tópicos poéticos de então.

Imprescindível. E acredito que acessível. (Entrada com particular destinatário.)

“Posição de missionário”

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Imagem recolhida em Som África.

Zico é um cantor ligeiro, por ora basto popular. Como não lhe entendo as letras recuso-me a categorizá-lo de modo absoluto. Mas do que sobre elas me dizem e do que lhe (por vezes) ouço parece-me que será possível intitular a sua corrente musical como afro-pimba – algo bem presente no mundo da videomúsica africana, sempre associável ao enfoque visual nos traseiros femininos, normalmente apresentados em redor de piscinas.

Zico lançou agora o “Nakudjula Hi Doggystyle” (um elogio da posição sexual “canzana”) que se segue ao sucesso tornado ícone “Maboazuda” (onde anunciava a sua disponibilidade para se relacionar sexualmente com todas as mulheres de aparência aprazível mesmo se fossem albinas – característica esta normalmente associada à exclusão por motivos impureza, fealdade ou monstruosidade, e que até recentes décadas podia induzir infanticídio). Decerto impregnado pelo sucesso que vem obtendo, porventura entusiasmando-se na campanha publicitária deste seu novo trabalho, e decerto ecoando a sua (algo ordinária) visão do mundo, colocou na internet um filme onde ele próprio surge em cópula – do que li parece que é trabalho pouco nítido, mas no qual ele e companhia são reconhecíveis.

Logo caiu o Pott e a Mesquita Velha. Jornais e blogs incendiados contra o homem, uma telefónica arrastada na onda e rompendo o contrato publicitário com o cantor. A polícia compelindo-o a prestar declarações na esquadra, nas quais – narram os jornais – o artista chorou, arrependido e assustado. A moral pública em risco reagiu e cumpriu-se a catarse, a humilhação pública. Faltará ainda, mas prevê-se, a penitência ao vivo – porventura em cima do palco com a TV presente.

Quando eu cheguei a Moçambique (1994) falava-se muito de corrupção – mas no sentido de corrupção sexual. O corrupto era quem se escapava aos ditâmes da monogamia conjugalizada. Contavam-se (e contam-se ainda) histórias de gente conhecida e próxima do poder, dele afastada ou por ele punida, devido a comportamentos sexuais “desviantes” (adultério, separação, reacasamentos, sexo pré-matrimonial) e mesmo afectivos não desejados (no quadro da militância as relações afectivas eram escrutinadas e decididas pelo poder – aqui este denotando a sua dimensão totalitária, presente nos diversos âmbitos do real). Um poder puritano – explicável nas suas origens sociológicas e ideológicas. Uma sociedade urbano-burguesa de discurso puritano – explicável nas suas origens religiosas e na sua constante plasticidade face ao poder político. Valores que se anunciavam presentes (mas, claro, não se cumpriam) no quotidiano dos estratos seguintes da sociedade urbana.

Hoje em dia é o mesmo espectro moralista que se levanta. A extensão semântica do termo “corrupção” arreiga-se de novo no discurso político de aparência analítica. A censura pública eleva-se a mecanismo de desenvolvimento, de pedagogia (optimista). O ovo da mamba estala com estes sons. Um dia Brecht ecoou Niemoller sobre algo que tem a ver com as redes de repressão e da sua aceitação. Eu não sou pornógrafo (nem o Zico, coitado, que será quanto muito um rapaz meio tonto) mas como posso aceitar que o queiram censurar? Vieram-no buscar porque se afixou na internet a copular (qual o problema? é um anúncio de prostituição, ilegal? não. Já alguém andou na internet a ver o que por lá se passa de business de sexo? e nas ruas?). Vieram-no buscar e não se diz nada, para não se ser poluído pelo tom ordinário do homem. Para não chocar a mui justa indignação da sociedade bem-pensante. Um dia vir-me-ão buscar, ou a outro qualquer, porque tenho uma qualquer fotografia de nu. Ou porque olho para o rabo da vizinha. E quem dirá algo? Onde está o limite à censura? À dominação da boa moral?

Há quanto tempo, quantas vezes, que à hora da família a televisão pública e as privadas concessionadas passam filmes onde se esquartejam, explodem, esfacelam (e outras criativas formas de descontrução) pessoas de diversas índoles (os maus, os bons, os civis, as vítimas, os polícias, os criminosos)? Há alguma semiologia política irada contra essa moral pública? Nada - na prática a questão da produção e da reprodução de valores surge quando se põe em causa o primado da “posição de missionário”, das “públicas virtudes”. É mais “natural”, donde mais “universal”, é menos “ofensor” donde menos “disruptor”, encenar e transmitir o rebentamento de cabeças com calibres elevados do que mostrar indivíduos a consumarem relações sexuais? (Ainda por cima consentidas?) E mais ainda, estes colocados em canais fechados – de acesso por decisão consciente - como o é a internet? O que é esta ira, esta semiologia, esta vertigem censória, senão o eco do mais reaccionário puritanismo sexual, impensando as práticas e os valores que criticam e defendem. Ou, ainda pior, pensando-os…

Já agora, as aldeias, vilas e cidades para lá do Alto Maé estão cheias de cinemas populares onde abundam o porno (e a guerra, já agora) cujo acesso é generalizado. Alguém semiologiza? Alguém vai para a esquadra com a imprensa abutresca atrás? Ou o “povo” está muito longe?

Francamente, só me resta, e sobre a minha já deprimida libido, cantar com o Zico: “”Nakudjula Hi Doggystyle“!! Os outros que o façam só “à missionário”.

Adenda: I Modi, consultável na internet – para que daqui saia algo elevado.

João Paulo (filmes)

Excelente iniciativa no Mãos de Moçambique: divulgação de filmes de actuações de João Paulo.

Venâncio Mbande

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(fotografia emprestada pelo Toix)

Quinta-feira passada houve sessão no Instituto Camões, homenagem a Venâncio Mbande, nome enorme da música moçambicana, maestro timbileiro, homem já alvo de um filme: Keep the Timbila Playng, de Frank Diamand

Casa cheia, que tinha havido mobilização via SMS. Cheia com o meio das artes e ainda mais de muitos expatriados, gente nova (estou a envelhecer, constato quotidianamente …), sem dúvida que mais ou menos recentes cá, com aquela curiosidade característica de quem chega e quer conhecer- dia bom para eles, a poderem ver e ouvir uma lenda.

Dia estranho para mim. Certo, a homenagem em vida é bonita. Mas o teor da homenagem talvez nem tanto. Mbande está doente (não terminal, atenção), envelhece (talvez 66 anos), está sem dinheiro para a subsistência, para os medicamentos – é diabético. Os amigos, neste caso os discípulos Timbila Muzimba e mais alguns, organizaram a sua vinda de Zavala, onde o grande maestro timbileiro reside. E fez-se a sessão de homenagem, antecâmara de uma que acontecerá dentro de dois meses, a ocorrer no Centro Cultural Franco-Moçambicano. E foi o perfil desta agora acontecida que me arrepiou – até porque dela se podem retirar ensinamentos para daqui a dois meses. E para um futuro mais estrutural ….

Discursos de homenagem, discurso do próprio, 3 músicas (10 minutos?). E peditório – “quem pode dar dinheiro entregue ali na mesa“. Um generalizado mal-estar. Algumas considerações sobre isto:

a. Solicitar ajuda aos amigos e aos admiradores não é errado. Dá-la também não o é. Ambas atitudes só enobrecem.

b. O Instituto Camões, representado pelo bibliotecário, saudou o homenageado e entregou-lhe um “diploma de mérito”, entre merecidos aplausos. Confesso, coisas de antropólogo a olhar o simbólico: haverá algo a dizer do downgrading protocolar, ou terá sido mero constrangimento do quotidiano? Mas o que é um “diploma de mérito” do Instituto Camões? É da sede, um grau oficial que o ICA tem? Se é disso que se trata é ao bibliotecário, ainda que indivíduo e posição mui dignos, que compete a entrega? O que significa isso? E se o é, outorga-se um diploma deste relevo  e arruma-se a questão, ainda para mais numa situação humana destas?

Se não é desse grau que se trata, tal como a dimensão protocolar e o anúncio público me parecem configurar, qual a figura desta homenagem – é um “diploma” ad hoc atribuído pelas sucursais do Instituto Camões? Se sim quais são os critérios de escolha, de proposta, de candidatura, de entrega? Venâncio Mbande merece um diploma de mérito da instituição de representação cultural externa de Portugal? – em meu entender merece (e do oficial, se se confirmar a minha opinião de que não foi desse que aqui se tratou) pois a expressão legitimadora que o subjaz “…em reconhecimento da sua relevante acção em prol da defesa e da promoção da língua e da cultura portuguesas no mundo” deverá ser entendida apenas como sobrevivência de uma concepção reduzida da acção cultural externa, fruto de uma noção presumivelmente já ultrapassada (a legislação que instaura a outorga é do consulado guterrista). Mas ainda assim, repito, quais são os critérios  de atribuição (necessarimente públicos e publicitados) destes diplomas, mesmo que meramente oficiosos, localmente consignados?

Ou seja, honestamente, o desenho pareceu-me excessivamente atabalhoado, desmerecendo a homenagem, desmerecendo o homenageado. Grave? Sim. Mbande estava ali também como símbolo. É símbolo, assim considerado. O estrangeiro em casa alheia respeita o símbolo. Ou, pelo menos, exime-se ao ritual que o vivencia.

Dramático? Não! Não faltarão momentos mais ou menos próximos de índole protocolar para emendar o passo (ou, caso eu esteja enganado, para o completar). Um apoio da “cooperação” portuguesa (em sentido lato) à questão da saúde do enorme artista (para os portugueses que lerem isto lembrem-se da figura de Carlos Paredes – ainda que este ao menos fosse arquivista de um hospital, se bem me lembro, o que lhe daria para pagar as sopas e a renda) caberia perfeitamente nos protocolos bilaterais existentes no domínio da saúde. Um projecto de musicologia poderá ser desenvolvido, com gravação extensa da arte e remuneração suficiente – a preços acessíveis, dada a facilidade de gravação actual. Basta vontade. E reconhecimento do “mérito cultural”…

2. Na cerimónia o vice-ministro da Educação e Cultura saudou  o grande músico e a iniciativa. E disse algo que soou pouco simpático mas que é verdade – o Estado não pode apoiar tudo, “temos” que nos organizar nestas iniciativas solidárias. Eu não o ouvi, estava à porta dada a aglomeração de pessoas à minha frente. Mas ouvi os comentários – caíram mal as palavras de Luís Covane. É o problema dos políticos, quando não são demagogos as pessoas não gostam. Covane falou bem, é a minha opinião. Ainda que neste caso eu ache que o Estado tem possibilidades (e responsabilidades) para intervir.

Entenda-se: as timbilas de Zavala (núcleo territorial onde a prática é original, ainda que esteja algo disseminada até Zambeze acima e se tenha maputizado) são um dos itens que têm sido escolhidos pelo Estado e pela intelectualidade moçambicana como denotativos da identidade nacional. A sua excentricidade na África Oriental – porventura demonstrando a sua longínqua origem exógena, o que é interessante face à complexidade do argumento “autenticidade” no mecanismo identitário moçambicano actual – a isso ajuda. Por isso mesmo o Estado se empenhou na campanha para a eleição do ritmo musical chope timbila como património imaterial da humanidade – à imagem do que fez com as danças nyau. Deste modo não me parece muito curial que o mesmo Estado não tenha capacidade para intervir num momento de dificuldades do grande músico identitário. Não tem recursos próprios? Acredito – mas com toda a certeza poderá fazer apelo às grandes empresas moçambicanas, públicas, privadas ou participadas, e com alguma imaginação encontrar formas de apoiar dignamente o músico, até baseando-se na muito em voga ideia da responsabilidade social empresarial. O tal projecto de gravação, uma escola financiada, uma pensão condigna, etc. - há múltiplas formas de abordar o assunto, sem que isso implique obrigatoriamente um dispêndio do orçamento estatal (sobre o qual eu, cidadão estrangeiro, não tenho muito a opinar, como é óbvio).

3. Algumas empresas patrocinaram a homenagem. De uma forma tímida. Um dos amigos de Mbande disse-me que um dos habituais grandes patrocinadores das “coisas” da cultura ofertou 200 USD. Isto demonstra (mais uma vez) que no seio das grandes e médias empresas aqui operando há uma enorme ausência de sensibilidade e conhecimento cultural. Pródigas em patrocínios, tanto mecenáticos como publicitários, nelas não se descortina uma verdadeira ideia do “como fazer”, do “que fazer”. Mostra-se, amiude, uma verdadeira ignorância nos quadros que decidem. Gastariam menos, recolheriam mais dividendos, acima de tudo estatutários e simbólicos, para não falar de comerciais, se tivessem verdadeiros assessores para estas matérias.

200 dolares para um aflito Mbande quando abundam os 500 e 1000s para as enésimas iguais exposições de pinturas de ocres e laranjas, em troca de quadros a serem amontoados em armazéns e aí esquecidos? Quando o afro-pimba é dourado em horários nobres e prémios rotundos? Alguém está enganado nestas andanças …

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João Paulo

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Morreu o João Paulo. Foi-se o showman, o rasta bluesman, foi-se toda aquela atitude, suave como se imperscrutável, o rouco lento titubeando até ao palco e depois, quem diria? se não o conhecendo, a enchê-lo na voz cava, ela em tamborilar frenético. Foi-se o detachment aparente e o sor(riso) fundo no lá em cima.

Nós a deixarmos as noites correrem, num só mais um pouco, exagerando os copos, esperando-lhe as meias horas cantadas, vibrantes, também como se cínicas apesar de apaixonadas. Na paixão daquela fotogenia, na raiva do ritmo, a descortinar o que ali resistia, o tanto que se desmascarava. “Espessa é a noite”, espessa como a voz do homem, contorcida como a face do homem, sofrida como a angústia do homem. Espessa é a vida, assim mesmo. A pedir o lembrar disso, as luzes nessas noites assim alvoradas, os tons desse molde. A pedir mais um copo com o homem do voz cava e do sorriso selvagem…

João Paulo (jornal Notícias); João Paulo, no Mãos de Moçambique, João Paulo (fotos no Mãos de Moçambique). Fotografia retirada do Gil Vicente Café Bar

presidente absentista

Hoje e amanhã mini Karama do Anuaril Hassanate Bairro 16 de Junho (aldeia Mesquita Gulamo), com visita do Anuaril Hassanate de Angoche. O festival na Ilha será no sábado. (que faço eu aqui?).

Grupo Anuaril Hassanate, bairro 16 de Junho

Grupo Anuaril Hassanate, Bairro 16 de Junho. Actuação durante a tomada de posse dos novos corpos dirigentes, Ilha de Moçambique, Agosto de 2007. Fotografias de Luis Abelard.

Grupo Cultural Anuaril Hassanate, Mesquita Gulamo

Prazer e ate comoção são os sentimentos que me invadem durante o longo fim-de-semana, de tão longe informado que fui da minha eleição, sem prévia candidatura entenda-se, como Presidente do Grupo Cultural Hassanate Mesquita Gulamo (aldeia fronteira à Ilha de Moçambique).

Enquanto Presidente JPT nada prometo, a não ser o maior empenho no desenvolvimento das actividades culturais em que todos estamos empenhados. Serei apenas um entre iguais. Asante …

(para os leitores mais apressados, atreitos a leituras mais assim … este evento não tem qualquer ligaçãao a recentes polémicas pictóricas na Ilha de Moçambique, aqui ecoadas).

Ten years after

(Orlando e os Kinamatha)

(JoséMucavele)

(Hortêncio Langa, Carlos Tê – que cantou -, José Mucavele, Rui Veloso)

- Outubro 1997, Tchova Xita Duma, fotografias anónimas.

(Zé Nabo)

(Rui Veloso)

- Maio 2007, Coconuts, fotografias de Luis Abélard

Zico e as maboazudas

Zico é um músico moçambicano, pop dir-se-ia se ainda se dissesse pop, que fez uma música sobre as “boazonas”, uma qualquer coisa como “marcham todas, pretas, mulatas, verdes, amarelas” e culminava num fantástico “até as albinas“.Bem, foi um fartote, o pessoal do politicamente correcto (tão voraz como em qualquer outro local do mundo, na pressa de “afirmar o certo” e com isso com pouco tempo para parar e ver) caiu-lhe em cima, protestando a desvalorização das pobres albinas, o preconceito, o etc. e tal – que me lembre nenhuma pobre alma pensou no integrativo da expressão, ainda para mais se se pensar na histórica exclusão dos albinos em tantos contextos moçambicanos. E já nem digo no expressar livre do sentir estético, que isso então teria contornos ainda mais vastos.

Hoje, refugiado lá para Goba, contam-me, enquanto se ouve, que Zico, o músico pop moçambicano, se pop ainda se dissesse, respondeu à rapaziada da justiça moral e do “sempre certo”, numa tirada de grande estilo. Pois dizem-me que saíu uma nova canção tipo “eu como todas”, sejam elas do Chamanculo, do Infulene, da Mafalala … “até da Sommerschield“. E agora, o que vão dizer os justos pensadores? Estou a gargalhar desde o almoço.

Festival Cultural da Ilha de Moçambique: Tufo

[o grande Estrela Vermelha]


[Anuaril Hassanate]

[O direito à dança - a dançarina apoiada no cajado, do Hassanate Continente, é a epítome dessa afirmação]

Festival Cultural da Ilha de Moçambique: a tensão do olhando os outros grupos de Tufo.

Festival Cultural da Ilha de Moçambique: esperando a actuação de Tufo.

Makwayela

Na anterior entrada referi João Soeiro de Carvalho, professor da Universidade Nova de Lisboa. Tive o prazer de o conhecer aqui em Maputo, há já 8 anos. Por ocasião da apresentação aqui deste seu belissimo (e sério) trabalho,

Makwayela. Moçambique” (Comissão Descobrimentos [CNCDP] / Expo-98 – Pavilhão de Portugal/ Tradisom; 1998), a recolha e gravação de 17 canções, dos grupos Makwayela Riya Ndlheve Muyingiseti (5 canções: Satana, Atiku Dzezu, Davula Mananga, Psinuyane, Hi Mani Leyi a Psitiwaka), Makwayela Confiança (5: Watsongwani Wa Masiku Lawa, Hé Nwina Masungukate, A Mahanyele, Tindjombo, Tiwoneleni Ka Maputso), Makwayela LAM (2: Wana Wa Moçambique, Ghogo Mandela), Makwayela TPM (5: Satana, Famba Teresa, A Hi Tiwoneleni A Wayiwi, Tatana Wa Watsongwana, Xitimela Ka Manhiça). Algo único no trabalho que as instituições culturais portuguesas faziam/patrocinavam em Moçambique nessa década de “vacas gordas”. E que foi inserido num conjunto absolutamente fabuloso: “A Viagem dos Sons”, uma caixa de 12 discos de recolha musical.

Recomendável, se encontrável. Obrigatório. Não sei se o “Makwayela Moçambique” se vendia sozinho e se não estará esgotado. Mas será de procurar.

Vana Va Ndota, novo disco dos Ghorwane

Vana Va Ndota” é o novo disco dos Ghorwane [o site está muito desactualizado, algo a cuidar em momento de lançamento], o seu quarto depois de “Majurugenta” (1991), “Não é preciso empurrar” (1994), “Kudumba” (1996).

O espectáculo de apresentação, na quase-madrugada de sábado passado, funcionou bem, ainda que para público fiel – sempre vi Ghorwane como o grupo da cidade, a gerar uma identificação talvez geracional talvez algo mais. Mas incompreendendo-lhes as letras das canções, satíricas, afiançam-me os extractos que me vão interpretando no “ao vivo”, nada mais posso deduzir sobre isso.

O disco está bom, bem produzido e – fundamental – com bom som, algo fundamental para o que me parece perfeitamente plausível, a sua exportação. Qualidade e coisa própria tem (e Chitsonzo tem uma voz algo peculiar). Mas num mercado tão competitivo sem essa qualidade técnica seria impossível. Assim a prometer andar. Com o grupo ao lado, espero.

Copio o texto incluso (porque não estão as letras das canções? Adenda: porque a editora internacional assim o exigiu), de Filimone Meigos:

“Vana Va Ndota

Nascidos do “amor que há entre Deus e o Diabo” “os Bons Rapazes” [JPT: por alguma razão que desconheço é o epíteto do grupo. Adenda: terá sido o presidente da república, S. Machel a assim intitulá-los] presenteiam-nos com os “filhos da importância” [o título do disco]: Vana Va Ndota fecha a trilogia emparceirando com Majurugenta e Kudumba. Cá está a dança, a perseverança, o desafio, a auto estima e a sombra do papel tutelar da figura do pai de mãos dadas cantando essa contradição e mudança de velocidade que representam: uns dias são melhores, outros piores. Uma vezes devagar, outras assim-assim, e outras devagarinho. (…)

Nota-se a “medula musical” que lhes é característica, ao mesmo que tempo que divisamos a inovação na abordagem polirrítmica, sempre na mesma tentativa: a irreverência, a rapsódia e a paródia, qual sociologia musical do nosso quotidiano, sonho e realidade que acontecem todos os dias neste país…”

O disco é dedicado à memória de Zeca Alage e de Pedro Langa dois dos músicos do grupo que foram assassinados, dramas que também vão constituindo esta já lenda urbana de Maputo, Ghorwane.

Nota: Sobre as atribulações iniciais no espectáculo de apresentação, para as quais a minha idade já não permite nenhuma paciência, já o Domingo bula-bulou tudo.

(Se calhar preciso de aprender a colocar música no blog. Agora fazia jeito)

Chez Rangel

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Estabelecido num edifícios mais bonitos da cidade, a estação dos CFM, e da gare fazendo bela esplanada, aí está o novo clube de jazz em Maputo: Chez Rangel, casa aberta pela união do velho Rangel com o velho Quadros. Música gravada à semana, ao vivo nas matinées de sábado – essas que já vão demorando até começar domingo, coisas da sua qualidade e do bom ambiente. Estes a misturarem-se e a fazerem-se.

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Vai ganhando, ou seja vai ficando. E, nada pormenor, pormaior até, o menu de balcão em processo de assumir-se. Registo-lhe agora a dignidade, extrema, do inusitado recuperar do feijão-jugo, ali aperitivo. Vénia a quem assim do tradicional faz original, escapando ao aqui constante esquecimento do que é local.

A muito animar-se a casa nestes seus dois meses. Já frequência de gentes misturadas, numa faixa entre os dos late 20s e os já nos early 80s. Assim não vai mal. Recomendável. E ainda para mais porque as chuvas hão-de chegar, a acabar este frio e a fazer mais esplanada.

Aqui o bloguista cede a si próprio deixando-se publicitar ter sido o 1º cliente da casa a pagar uma bebida – é estatuto, acho.

Marrabentar: Dar Voz às Vozes

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Amâncio Miguel, Marrabentar. Vozes de Moçambique, Marimbique

Foi o Passada que avisou estar o “Marrabentar” pronto, e já à venda. Mais de sessenta pequenas entrevistas ou notas biográficas com cantores moçambicanos, compiladas e em grande parte realizadas por Amâncio Miguel. Um belo dar voz às vozes. E fica documento.

A ser lançado daqui a bocado, no fim da tarde, no Café-África.

Adenda: Bonito lançamento, muito animado e livros a saírem. A ver-se, e também ouvir-se, que o livro vai correr bem. Isto é, vender-se.

Ânimo de músicos, a dizerem isto “primeiro passo” de trabalho necessário. Balcão com os mais velhos, “originários” da marrabenta, discutindo a geneologia do estilo. Um mundo.

Marrabentando, as Histórias Que a Minha Guitarra Canta


Soube-o atrasado, foi agora aqui apresentado o documentário “Marrabentando. As Histórias que a Minha Guitarra Canta“, da autoria de Karen Boswall. Ancorado em duas histórias de vida, as dos músicos António Marcos e Dilon Djindji.

Lamentavelmente não tive conhecimento das projecções, primeiro no Gwaza Muthini em Marracuene, depois no Círculo na Mafalala, e ontem no obrigatório Franco-Moçambicano – muito boa onda, até nem subliminar, isto de não estrear o filme no cimento chic. Fica-se à espera do DVD, ou de uma futura projecção, para poder captar alguns percursos deste estilo. E expectante se o filme trará pistas para a polémica nacional sobre o estatuto da marrabenta, e seus efeitos na produção e recepção da música.

CD póstumo de Gito Baloi

Edição póstuma de CD Sweet Thor, de Gito Baloi com Nibs van der Spuy (Greenhouse/ Sheer). A esperar que o disco chegue ao Moçambique natal de Baloi.

Gilberto Gil em Maputo

Há alguns meses Gilberto Gil esteve aqui com o presidente Lula. Esteve, totalmente informal, no Café com Letras onde Naguib e Stewart Sukuma organizaram uma bela noite para ele (e para nós todos).

Nessa noite Eduardo White leu um extraordinário poema escrito para ali, nada encomiástico. E orgulhou! Nessa noite Cabaço, Salimo, Stewart, Chitzondzo (?, olhem, não estou certo) e outros cantaram um pouco, ali para mostrar. Nós todos gostámos. No fim Gilberto Gil cantou umas quatro músicas, e aqueceu. E todos nós gostámos. Depois prometeu que viria cá “com mais tempo” em Março. Cantar mais.

Não mais se ouviu falar disso. Está-se à espera. Se vier talvez chegue mais triste ou desencantado dessas coisas de ministro. Não terá razões para tal.

Pois não há nada de novo neste mundo. “Same old scene” era uma música romântica quando eu era novo.