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Março 24th, 2008 — Racismo
Mugabe e a Cimeira
Dezembro 3rd, 2007 — Antropologia, Peter Fry, Racismo, Zimbabué
[bis de entrada colocada em Abril de 2007]
“Depois da minha saída do Zimbabue, em 1993, a crença em raças assumiu a forma de um racismo governamental pouco disfarçado. O presidente Mugabe tomara atitudes fortemente xenófobas, sobretudo em relação à Grã-Bretanha. Ao abrir a Feira de Livros em Harare em 1993, lançou a sua primeira ofensiva. Referindo-se a um stand de livros organizado pelo movimento homossexual (Gays and Lesbians of Zimbabwe - GALZ), xingou os homossexuais de “pior que porcos” e acusou os colonialistas de terem trazido esse “mal” para a África. Em seguida, iniciou uma “reforma agraria” que consistiu na expulsão dos brancos das suas fazendas. Nisso ele foi abordado por bandos de soi-disant (antigos combatentes da guerra da independência - muitos nasceram depois do fim da guerra, em 1980), que expulsaram fisicamente os brancos das suas fazendas …
A maioria dos analistas da situação em Zimbabue sugere que Mugabe jogou a carta da raça (played the race card) como uma tatica cínica para se manter no poder. Não penso da mesma maneira. Entendo que ele, como a maioria dos zimbabuanos, acreditando em raças e na diferenca fundamental entre “africanos” e “europeus”, enxerga a sociedade através do prisma da raça e interpreta o que vê em função dela.”
(Peter Fry, A Persistência da Raça. Ensaios Antropológicos Sobre o Brasil e a África Austral, Rio de Janeiro, Civilização Editora, 2005, pp. 30-31)
(já agora)
Mero racismo
Novembro 4th, 2007 — Blogs, Racismo
Há uns anos tirei daqui o elo a um blog português muito respeitável (e com gente respeitável) por causa da uma boca anti-semita por lá mandada e nunca auto-lamentada. Agora ecoam por aí coisas (”tese”?, aquilo?) bem piores, peroradas em blogs de sítios bem diferentes. O energúmeno em causa, eminência intelectual que foi acolhido em grande no grão-bloguismo português [a(lguma) direita portuguesa não é menos estúpida do que a(lguma) esquerda portuguesa] e então saudado no seu racismo óbvio [a escravatura, no fim de contas, tinha sido boa para os africanos de então, foi tema must à altura], pelos vistos continua perorar. Não vale comentários lá - daqui retiro o elo para a cloaca assim habitada. E, claro, p… que p… os bloguistas do blog “Portugal Contemporâneo”.
Junho 11th, 2007 — Racismo
No Noticias da semana passada esta perola de “correctismo”. Em tempos bem se buscou, via antropologia fisica, toda estra tralha purista. Hoje, de mapeamento do genoma armados, la vem os essencialismos racicos de novo. E se antes branquear a raca era objectivo hoje negrar a raca sera um must. A operacao “intelectual” nao sera a mesma - pois se antes os preconceitos se casavam com a ignorancia efectiva hoje os mesmos preconceitos vao viuvos. Parvos mesmos.
E os africanos na America continuam. Porque muito se quer “visibiliza-los” surgem, tao inteligentemente, despojados da quase evidencia. Sao americanos (brasileiros). O pensar correcto nao sera muito mais do que isto, o pensar como antes mas pior.
Abril 17th, 2007 — Antropologia, Peter Fry, Racismo, Zimbabué
“Depois da minha saída do Zimbabue, em 1993, a crença em raças assumiu a forma de um racismo governamental pouco disfarçado. O presidente Mugabe tomara atitudes fortemente xenófobas, sobretudo em relação à Grã-Bretanha. Ao abrir a Feira de Livros em Harare em 1993, lançou a sua primeira ofensiva. Referindo-se a um stand de livros organizado pelo movimento homossexual (Gays and Lesbians of Zimbabwe - GALZ), xingou os homossexuais de “pior que porcos” e acusou os colonialistas de terem trazido esse “mal” para a África. Em seguida, iniciou uma “reforma agraria” que consistiu na expulsão dos brancos das suas fazendas. Nisso ele foi abordado por bandos de soi-disant (antigos combatentes da guerra da independência - muitos nasceram depois do fim da guerra, em 1980), que expulsaram fisicamente os brancos das suas fazendas …
A maioria dos analistas da situação em Zimbabue sugere que Mugabe jogou a carta da raça (played the race card) como uma tatica cínica para se manter no poder. Não penso da mesma maneira. Entendo que ele, como a maioria dos zimbabuanos, acreditando em raças e na diferenca fundamental entre “africanos” e “europeus”, enxerga a sociedade através do prisma da raça e interpreta o que vê em função dela.”
(Peter Fry, A Persistência da Raça. Ensaios Antropológicos Sobre o Brasil e a África Austral, Rio de Janeiro, Civilização Editora, 2005, pp. 30-31)
(já agora)
Março 22nd, 2007 — Mundo, Racismo
(o elo para a entrevista só funciona para quem está registado, presumo que a pagar).
Setembro 28th, 2006 — Portugal-África, Racismo
Há textos estranhos, repito. No meu texto está explícito que nunca tinha lido P.A. Fobia de quê, de quem, então? Do liberalismo (de que P. Arroja é cultor)? Está explícito o desagrado com alguns bloguistas liberais, mas não todos - e tal como já botei o meu desagrado radical com bloguistas liberais também já espetei o meu agrado (e preferência) com outros (e isto para além de diálogos também inter e intraclubistas com o mundo liberal). Fobia de quê, de quem, então?
Absoluto menosprezo por declarações, lembradas com elogio no Blasfémias e apoiadas ou amigavelmente matizadas em comentários de alguns “blasfemos”, não é fobia, é isso mesmo, mero menosprezo. Infundamentado? Preconceituoso? Pois se se lembra que P.A. vai no bloguismo “Sem ter escrito uma palavra”? Peço desculpa, mas isso é falacioso. Há uma entrevista, assumida, e incensada. Nela constam excertos destes:
“FC: Claro que estamos a falar de valores económicos.
PA: Sim. Repare, eu acho que eles têm todo o direito à liberdade, é a terra deles. Agora não se esqueça que os negros americanos não estão na sua própria terra.
FC: Ah não? E quem é que os levou para lá?
PA: Foram eles que foram. Atraídos pelo nível de vida que não têm em mais parte nenhuma do mundo.
FC:Para começar a terra era dos Indios. E está-se a esquecer do pequeno pormenor da escravatura.
PA: Alguns foram levados como escravos. Mas ainda hoje há gente a emigrar para lá, negros. E deixe-me dizer-lhe uma coisa. O homem que ganhou o prémio Nobel, este ano, Robert Fogel, provou que se o sistema da escravatura era politicamente inaceitável, em termos económicos, para os negros, era um sistema muito eficaz. Mais: que o trabalhador negro da época, escravo, vivia melhor que o trabalhador médio branco. Certamente que a conclusão é surpreendente, é por isso que ganhou um prémio nobel. Mas documentou extraordinariamente bem…
FC: O escravo vivia melhor em que sentido?
PA: Existe a ideia de que o escravo trabalhava e dava tudo ao senhor. Não. O senhor branco ficava no máximo com dez por cento. Em segundo lugar, o trabalhador escravo negro era duas vezes mais produtivo que o trabalhador negro.
FC: E já se perguntou porque é que ele seria duas vezes mais produtivo?
PA: Diz-se que os negros não trabalham, não sei quê, e isto vem provar o contrário: mesmo sob condições de adversidade, a escravatura, os negros eram duplamente mais produtivos que os brancos. E os estados do sul, onde eles estavam concentrados, prosperaram muito mais do que os do Norte. Fantástico.
FC: Fantástico? Se não trabalhassem o dobro apanhavam. Eram chicoteados, mortos, vendidos para a frente e para trás.
PA: Eu não quero dizer que a escravatura era aceitável, mas não foi má para os negros em termos económicos.
(…)
FC: “O Estado Providência acaba na violência e na miséria” , diz você. Sempre gostava de ver como acabaria o estado-empresa… E há sempre os motins de LA para mostrar que não é só o Estado Providência que acaba em violência e miséria. O que é que acha que aconteceu em LA?
PA: Isso é outra questão, que tem a ver com o problema negro. Que é basicamente um problema de família. De ética sexual. Os negros não são capazes de constituir família como tendência geral, como nós constituimos. Têm muitas mulheres. E a pobreza americana, hoje, como nos outros países desenvolvidos, é sobretudo a mulher sozinha com filhos. E a maior parte das famílias negras acabam assim.
(…)
FC: Porque é que será.
PA: Pode haver discriminação, mas também é ética do trabalho. Uma ética de família menos propícia ao trabalho. Sabe o que é? Vá a África e veja porque é que eles não trabalham. Gostam muito de sexo; nós também gostamos, mas se estivessemos o dia todo na cama não faziamos mais nada.”
“Notável”? O que Rui, no Blasfémias afirma é que considerar este tipo de reflexão como espúria é uma “fobia”. Entenda-se, não venho de uma repugnância moral pela argumentação, isso não conta, não me custa a “blasfémia”. Pelo contrário, desagrada-me esta “idolatria”, espanta-me este culto do lugar comum, produzido também no seio de um pensamento racialista e até racista é certo, mas acima de tudo superficial. Repugnância sim, mas pelo pomposo da reprodução de tal vácuo. A reprodução em primeira mão (entrevista), a reprodução posterior (elogio bloguista).
Não há fobia (por homem ou por lata corrente de pensamento). Há menosprezo pela atitude intelectual (por mais “brilhante”, para citar Pedro Arroja sobre si próprio, que seja a personagem em causa, e que o digam). “Notável” é o artifício de Rui para transformar um noutro, “vitimizando”, “martirizando”, e assim “sacralizando”, um pacote de banalidades. Esparvadas. E que aspergem quem as sublinha.
Há textos estranhos? Talvez não. Há textos assim mesmo, apenas.
Setembro 26th, 2006 — Racismo
No bloguismo português surpreendeu-me em tempos o som de alguma direita liberal [alguma, não toda]. Gente lida com uma tendência para o dislate tonitruante. Porquê?, para quê?, ainda me perguntei. Mas ainda mais, de onde vem tudo aquilo? Levou-me algum tempo a abandonar a questão (e quase todas as leituras): são coisas de atitude, auto-afecto com laivos de histriónico, o paradigma Catasfiore (”rio-me de me ver tão engraçado neste blog”). Ainda que crente que as explicações psicológicas não chegam, nestas coisas serviram para (me) encerrarem as dúvidas e as leituras.
Agora uma pista sobre o de onde vem aquilo? Na minha terra muitos bloguistas comentam o neo-bloguista Pedro Arroja (desconheço, nunca tinha lido). E em tons que o subentendo como liberal inverso de abencerragem. Conheço-o via Blasfémias, onde se elogia o seu estilo “fogosamente militante” inscrito nesta pitada dos seus pensamentos [erro meu, comentador atento avisa que o “fogosamente militante” se destina à jornalista.]. Sobre grande parte nem falo. Mas recomendo as passagens sobre a escravatura, sobre os negros afinal emigrantes na América, sobre os negros em África.
Fonte de gente posterior. Porventura. Mas em estado bruto. Aquilo não é Catasfiore, ascende a pensamento Drag Queen. Dragqueenismo intelectual, logo se diria no português daqui. Bom no género, decerto.
Confesso, para estas “paradas de orgulho” não tenho paciência. Nem respeito, que se lixe o relativismo cultural.
[Adenda: nota, em particular para quem venha em busca de arrojafobia]
Roubo de templates e anti-semitismo
Abril 2nd, 2006 — Bloguismo, Racismo
É por via do blogamigo Quase em Português que tive acesso a duas importantes questões (e recentes) polémicas no bloguismo português: a pilhagem de templates e o preconceito anti-semita.

Racismo esquizofrénico
Agosto 15th, 2005 — Racismo
Um Maputo triste. Leio e reconheço. É uma locução colectiva.
Ao lê-lo lembro um outro texto sobre Maputo, no Sem Técnica. Não concordo com a sua conclusão, questão de opinião, mas muito acertado é o olhar sobre o saudosismo (não as “saudades”) que alguns carregam. Saudosismo esse tal e qual nas abordagens tipo a acima referida.
Pouco crítico eu? Talvez, até já o referi. Mas confesso a minha icterícia face aos saudosistas “dos tempos” coloniais e aos saudosistas do “a-seguir” - todos sempre prontos a hiperbolizar o mal actual, e tanto ele é que nem necessita disso.
Quem ler o texto reproduzido no Agreste talvez compreenda o meu esgar. Pequeno-burguês de Lisboa, desses de mulher-a-dias duas manhãs por semana, muito sorrio às promoções e ascensões do Equador. A minha filha vai nos três anos, quase todos os fins-de-semana há festinha. E lá estão as “babás” fardadas, very british colonial - até nas piscinas as encontramos. É um bocado irreal.
A essa irrealidade, até arrivista, sumarizo-a num pequeno episódio, um quasi-nada, que nem para croniqueta chega. Há anos estava no café “Nautilus”, esse polo da “montra dos tugas” em parceria com o “Piri-Piri”. Súbito da mesa ao lado levantam-se quatro jovens senhoras patrícias, até conhecidas, mulheres de quadros bancários ou afins. Avançam para a rua onde o motorista de um pequeno carro se apresta a recolhê-las. E as quatro lá entram para trás, todas muito apertadinhas, até encavalitadas, pois … nem pensar em ir à frente ao lado do motorista. Ainda por cima preto, era o homem.
É este ambientezinho muito patrício que custa. Às vezes até com simpatia, ao imaginar-lhes o regresso, outra vez burguesotes, sem ninguém no “patrão”. OK.
Mas quando leio os detractores quasi-patrícios (ou sub-patrícios mesmo) resmungarem a presença de portugueses, como se isso significasse similitude com o tempo colonial (”só mudaram as caras”). Quando leio e vejo esse discurso da “anti-tugalhada” esquecer que em Lourenço Marques havia centenas de milhares de portugueses, e entre eles terratenentes, industriais, até capitalistas e que hoje haverá talvez dez mil (talvez…), sem terratenentes, sem industriais, sem grandes comerciantes, com poucas e nem recentes excepções. Hum, quando leio esta anti-tugalhada assim, hum, não me refugio na psicanálise barata, o “estão a matar o pai” tantas vezes repetido. Nem no economicismo do “estão a comprar espaço”, menos vezes repetido.
E fico-me, talvez num antropologismo, na apreensão de um racismo esquizofrénico. E associando-o a um sociologismo, olhando gente que perdeu um estatuto social, e nem percebe porquê. Nem percebe que o perdeu exactamente por causa da estratificação, do desenvolvimento interno. De uma burguesia local, pequena, consumista, talvez subalterna. Mas burguesia, apesar de tais locutores lhe negarem tal qualidade, por via de aspas, exclamações ou interrogações. Enquanto, ignaros, ficam a ler o processo em termos raciais, invectivando os malditos tugas.
E lembro-me de tantas conversas aqui tidas com amigos moçambicanos. Alguns meus “primos”, outros ditos daqui “originários”. Gente amiga, gente não racista. E esclarecida, dessa que sente origens e identidades compósitas como riqueza e não como nódoa. E do como ridículo e falso nos soam tais discursos. Anacrónicos? Não! Feios do racismo, sim. Mas acima de tudo ridículos e falsos. Porque esquizofrénicos. Nada mais.
O país do bla-bla-bla
Maio 30th, 2005 — Imprensa Portuguesa, Racismo
6ª ou 7ª notícia do alinhamento. Uma até longa reportagem. Num parque de estacionamento de uma estação ferroviária dos arredores de Lisboa ocorreu durante o fim-de-semana um espectáculo musical, organizado por algo parecido com “Centro Social Angolano” (?), o qual agregou uma “multidão (?) africana” (sic). Houve conflitos, zaragata, a polícia interveio, houve tiros, 6 feridos, um ainda está no hospital.
7ª ou 8ª notícia do alinhamento, imeditamente seguinte. Uma reunião de associações de imigrantes, discutindo suas questões e anunciando o lançamento de um abaixo-assinado para solicitar mudança na lei de imigração portuguesa, de molde a favorecer aquisição de direitos sociais e integração. Um participante (porta-voz?), presumivelmente guineense dado o apelido Ba, resume calmamente os objectivos práticos e refere a necessidade de combater a estigmatização da imigração, sempre vista como causa de desemprego e promotora da criminalidade urbana.
Estupefactos no sofá! Um alinhamento que é uma inacreditável manipulação. Um intolerável condicionamento da opinião pública.
Haverá decerto alguns patrícios que negarão tal facto, defenderão a neutralidade da associação noticiosa. Como decerto não negarão qualquer intenção na associação seguinte, as 2 notícias subsequentes: uma reportagem com a Brigada de Trânsito da GNR sobre as dificuldades em atribuir as responsabilidades nos acidentes mortais, logo seguida de uma notícia sobre os dados estatísticos dos sinistros rodoviários nos últimos anos. Óbvio que a mesma técnica noticiosa, a mesma metodologia. Neste caso, pacífico, ninguém a negará, em nome da sensibilização para a segurança rodoviária.
Depois, venho aqui, saio da toca. Nos jornais, na TV, nos blogs, muito bla-bla-bla, muita opinião bla-bla-bla. E, imagine-se, muita dissertação bla-bla-bla sobre xenofobia bla-bla-bla ou abertura bla-bla-bla a propósito da frança. Ou do trapattoni.
Logo à noite Judite de Sousa, e os nomes atrás, continuarão. Impunes. Na televisão pública do meu país. Impune. Racistas, xenófobos, manipuladores, condicionadores. E nada bla-bla-bla. A turba letrada continuará, blá-blá-blá. A turba iletrada continuará, futblá-futblá-futblá.
O gajo do ma-schamba, blá-blá-blá. Imigrante. Cada vez mais imigrante. Volto à toca. Puta que pariu os telespectadores portugueses. Não a Judite de Sousa e os nomes atrás. Não esses, apenas a trabalhar. Um trabalho porco mas alguém tem que o fazer. Por causa, para servir, os puta-que-pariu-os-telespectadores-portugueses. Brancos, claro. Honestos, claro. Cristãos, claro. Altos, louros, olhos azuis. E palradores.
Blá-blá-blá.
Ainda a questão do “obscurantismo”
Fevereiro 9th, 2005 — Racismo, Sociedade portuguesa
Miguel, desculpar-me-ás não te ter respondido à tua contradição ao meu Sobre o Obscurantismo. Só agora o faço, e muito a correr, mas não quero fechar a loja com a conversa abandonada (ficará a meio, mas temos o email, e também a conversa quando voltares a Maputo). Então aqui sai, telegraficamente, e sem cuidados formais.
Apenas referi que a afirmação de João Craveirinha me desnudava uma realidade, que me é invisível no quotidiano, a inexistência em Portugal de figuras públicas afro-portuguesas nas áreas do poder (político, económico, intelectual, mediático) - e aqui fujo ao sofisma dos “portugueses originários de África” para que possamos escrever mais rapidamente. Tu, e outro comentador, referiram-se até desagradados ao colunista em questão. Mas eu no meu primeiro texto sobre o assunto disse, sem grande explicitação, que este articulista é sui generis. Entenda-se, não é veículo de posições padrão. Goste-se ou não, é uma voz algo marginal, e até algo individual. Não estou a elogiar, não estou a criticar.
Foste tu que avançaste para a crítica das quotas, ou do black empowerment. Ora nem falei nem pensei nisso, acho que exprimiste uma opinião tua, tudo bem, mas marginal às minhas “preocupações” (lembras-te da expressão?). Tu partes da sociedade portuguesa igualitária, eu acho que ele é tendencialmente igualitária (não há barreiras formais, jurídicas), mas que há zonas de exclusão e de inferiorização. E que esta ausência afro-portuguesa pode significar essa inferiorização (eu meu entender será claro). E que portanto será de incrementar mecanismos de integração, e de representação. Daí a dizer “quotas” vai um abismo gigantesco. E não me vou por aqui a falar sobre políticas de integração e de valorização, passo - aliás, passo por completo em relação a qualquer política desejável lá no rincão, aquilo obviamente prescreveu.
Quanto ao resto que referes, o black empowerment no Moçambique pós-Samora. Também não me parece. Um, a independência é a tomada de poder pelos moçambicanos, negros na sua esmagadora maioria. Não é um empowerment (atribuição de poder), é uma conquista de poder. E nesta separação de termos há outro abismo. É normal que ao longo do tempo o exercício do poder de cargos e postos seja executado por afro-moçambicanos (ok, o termo para facilitar). Como é normal que, em completo deficit de quadros pós-independência, os poucos euro-moçambicanos (e também alguns asio-moçambicanos [estás a gostar da terminologia?]) tenham surgido no poder, dada a posse de “capital cultural/educacional”, de formação no ensino formal. Com o tempo, e isto para além de flutuações políticas, de estratégias de grupos internos, de solidariedades múltiplas, mas com o tempo é também normal que a formação alargada no seio dos afro-moçambicanos (negros, neste sentido) faça reduzir peso social e visibilidade desse grupo identitário euro-moçambicano. Sei que esta explicação é muito fácil, e que até estou a reduzir questões fundamentais aqui discutidas sobre a “moçambicanidade”. Mas, honestamente, acho que a questão não é assim tão maquiavélica, é mais sociológica. E do tempo que passa.
Finalmente, a crítica à política de quotas e de “africanização” da África do Sul. Ok, já disse que não sou adepto de quotas. E também sei que a africanização, o black empowerment cria distorções, cria postos de chefia fictícios, cria empregos para Estado ver, cria empresas “afro-africanas” que são meros intermediários. Tudo bem, tudo dito e redito.
Mas conviria complexificar o nosso desconforto com estas políticas. Por um lado lembrar que a África do Sul, com todos os seus defeitos políticos e económicos, se afirmou na segunda metade de XX como potência económica (e militar). Ora esse período foi precedido, e contemporâneo, de políticas sociais e estatais de “boer empowerment”, de molde a reduzir as diferenças socioeconómicas entre brancos [euro-sulafricanos] de língua natal afrikaans e os de extracção britânica. E isso não é referido pelos críticos deste “black empowerment”, e seria fundamental.
Mais, é fundamental também precisar que todo o regime colonial, e o de apartheid é prova provada disso, se trata de um regime de “white empowerment”. E que isso se traduz na constituição de sociedades radicalmente desiguais. Em alguns casos coloniais bipolarizadas [e acho que Moçambique será um caso], noutros como na África do Sul muito mais estratificadas, dada a complexidade social, e também a demografia, onde a comunidade euro-sulafricana tem uma dimensão enorme, muito diferente das outras sociedades pós-coloniais.
Nesse caso que fazer, herdando um país que teve um desenvolvimento fortissimo assente num “white empowerment”, até jurídica e administrativamente fixado? Esperar uma lenta transformação, à Lampedusa (”mudar algo para que tudo fique igual”)? Ou fazer suceder ao white empowerment um black empowerment, para tentar reduzir a reprodução (atenção, a reprodução) das diferenças socioeconómicas devidas à história e à origem?
Enfim, estou a perguntar(-me). Acima de tudo acho que nós, euro-europeus, temos que perguntar. Porque temos a mania de botar faladura. Nós, não te estou a mandar bocas.
Abraço. Ah, sigo a Nampula. Duvido muito que não fuja até aquela nossa cidade. Algum abraço em especial?
PS - e quem leia isto não me fale do Zimbabwe. Não tem nada a ver com isto. Mas pode falar da Namíbia, um processo pacífico e estatalmente conduzido de aquisição e redistribuição da terra dos euro-namibianos. E dos seus resultados. Porque o Zimbabwe, esse é o fim de um regime, outra grelha de análise. E muito lamentável - já agora, seguir a problemática da central sindical sul-africana COSATU (ANC) e da luta anti-Mugabe que têm seguido.
Where is Wally?
Ainda sobre o “Do obscurantismo”
Fevereiro 4th, 2005 — Racismo, Sociedade portuguesa
Ainda sobre o meu texto Sobre o “Do Obscurantismo”, o qual quis fazer dialogar com um anterior Do “Obscurantismo”, o Miguel S., bloguista muito veterano em África, enviou-me o seguinte texto, dado que a caixa de comentários desse texto, e onde nos últimos dias se tem processado um debate, coisa rara neste Ma-Schamba, não está a aceitar mais comentários. Aqui o deixo, depois tentarei responder, pois estas são-me questões a sério, nada dos “amendoins” habituais. E porque tenho grandes desacordos quanto ao aqui deixado.
“De volta jpt. antes de mais obrigado pelas respostas que abordaram as diversas questões de uma forma mais profunda e interessante. Quando disse que fui mal interpretado refiro-me, sobretudo, ao que queria dizer relativamente ao black empowerment. E vou aproveitar para aprofundar um pouco mais algumas questões relativamente ao “obscurantismo”.
Sobre o black empowerment. Sou contra tudo o que seja quotas, discriminação positiva e tudo o mais que faz dos outros, nas sociedades contemporâneas e equalitárias, os “desfavorecidos” que de outra forma não teriam possibilidade de… Embora também este seja um assunto bastante complexo, ie, a reforma das mentalidades por antagonismo à imposição do que quer que seja. Eu não sou nem pro nem contra o black empowerment no meu país de origem porque essa questão nem se coloca. No meu país somos todos [tendencialmente] iguais independentemente das particularidades qualquer que seja a sua natureza que nos distinguem dos demais. Referia-me, por isso, à política sul-africana e à tentativa dos moçambicanos em segui-la como aliás fez Chissano em contraste com Machel. Ou seja, é manifestamente interessante obervar o comportamento de alguns Estados que impõem regras à sociedade contrárias à sua ideologia de base aquando da clandestinidade e da via socialista.
O que me incomoda no trecho do Craveirinha é tão-só a verborreia tendenciosa, supostamente elaborada e reflexiva sobre uma realidade aparentemente “vivida” de muitos “intelectuais” africanos que recorrentemente atiram para a opinião pública o culto do ódio aos brancos e sobretudo aos portugueses. Tal como dizias, há uma burguesia e alguns “wanna bes” minimalistas desajustadas no espaço e no tempo dos que marcaram profundamente o continente no século passado.
Mas o que me incomoda ainda mais é o facto de, pelo facto de não seguirmos a mesma linha de pensamento, a profusão de ataques ser de tal forma recorrente que nunca se ouve ninguém refutar o que quer que seja ou condenar o que quer que seja. Já em Portugal, caíria o Carmo e a Trindade pela ousadia do inverso…
Para terminar senão nunca mais me calo, é a recorrência sistemática à “questão racial” como refúgio quando os argumentos se esgotam. É tão fácil…
PS-Epa isto é mesmo tudo a correr. Não preparei o texto. Limitei-me a escrever procurando alguma lógica e sequência. Nunca preparo nada.
Abraço.”
Sobre o "do obscurantismo"
Fevereiro 1st, 2005 — Racismo, Sociedade portuguesa
Ali abaixo referi formas de racismo anti-branco que vão sendo explicitadas em África. Para não ficar nas minhas certezinhas aqui deixo um trecho de João Craveirinha (colunista moçambicano, capaz de argumentações sui generis). Ainda que se possa querer contextualizar este texto (como qualquer um) não resisto a colocá-lo, pois decerto há aqui um ponto a reflectir:”Regressando ao tema de hoje, conjecturo porque é que a comunicação social moçambicana não “ataca” os dirigentes políticos portugueses pelo “amordaçamento” dos cidadãos portugueses de ascendência negra africana, residentes em Portugal….Nem um deputado negro na Assembleia da República em Portugal … Nas televisões nem pensar…Uma presença silenciosa…(nos futebóis não conta por não ser actividade intelectual e não haver muitos melhores)” [Correio da Manhã, nº 2007, 1 de Fevereiro 2005]
Janeiro 29th, 2005 — Racismo
Do obscurantismo. O Miguel narra mais um episódio da explicitação do racismo “anti-branco”, neste caso expresso por um padre.
É recorrente este racismo, às vezes mascarando-se de mero “racialismo”, um anti-branquismo a-sociológico, um “agora é a nossa vez”, que se quer auto-desculpabilizador, que encerra as causas dos fenómenos nas cores alheias, que procura legitimidade própria para quem se vai sentindo fragilizado nas suas tenças político-sociais. Racismo hipócrita, tantas vezes associado a uma “mão estendida” nada invisível. Racismo sombra, escondendo causas, assim querendo-se garante de uma ordem. Afinal racismo. Muito mais explícito do que o racismo branco, este cada vez (e ainda bem) mais escondido pela pressão de uma “higiene ideológica”. Digo escondido, não digo desaparecido. Mas dizer escondido é também dizer (e crer) diminuído.
Muito presente está o anti-branquismo nos discursos políticos africanos. Mas também no de jornalistas, escritores, e académicos, sociólogos, antropólogos, politólogos, esses profissionais produtores de imagens.
Daí que não possa deixar de sorrir quando ouço o povo dizer desses arautos da “negrização”: “esses julgam que são brancos”. Usando claro, uma sociologia nada espontânea, ao contrário de quem agita galardões e diplomas enquanto obscurece.
Limites Éticos?
Janeiro 20th, 2005 — Racismo
[A propósito de uma chamada de atenção no Quase em Português].
1ª e última excepção: hoje, aqui.
Mês de “férias”, a escrever e a preparar aulas. Algumas para caloiros de cursos outros. Livro novo, um quase manual (enviesado, ainda para mais), desses que talvez possam ajudar a enquadrar os textos a discutir: James Rachels, Elementos de Filosofia Moral(Gradiva, 2004).
Salta-me uma formulação passível de bloguice. Não por sacralizar a palavra impressa (ainda para mais uma palavra que absolutiza a “razão”, mas para isso é melhor ler). Apenas porque me lembrei dessa questão bloguística:
“A concepção mínima …[de] moralidade é, pelo menos, o esforço para orientar a nossa conduta pela razão - isto é, para fazer aquilo a favor do qual existem as melhores razões - dando simultaneamente a mesma importância aos interesses de cada indivíduo que será afectado por aquilo que fazemos.”
Criticável. Utópico? E, repito, manualesco. Mas também incompatível com construir condomínios onde os negros não podem viver, só porque isso apetece aos condóminos, só porque estes não gostam de viver com negros.
Um antropólogo muito conhecido, Levi-Strauss, escreveu um dia uma formulação grávida, e muito citada desde então: “O bárbaro é em primeiro lugar o homem que crê na barbárie“.
Eu sou um bárbaro.

