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Setembro 29th, 2007 — Che Guevara, Politica Portuguesa
Estes meus amigos, para os quais sempre sou um “reaccionário simpático”, estes meus amigos da esquerda que foi revolucionária, que se quer progressista, que se mantêm anti-americana, que promove a desalienação, estes meus queridos amigos que terão dito nesta semana, a de Lula e Edir Macedo (o da IURD) tudo juntos?Estes meus amigos sempre prontos a resmungarem contra ZéDu, o cleptocrata, (ah, a rivalidade angola-moçambique!) como passearão as suas belas e burguesas t-shirts com o guevara ao peito?
Quem serão os “reaccionários simpáticos”, afinal? Até (meus) “queridos”?
Março 6th, 2006 — Che Guevara
Neste regresso aos blogs vejo que houve um ruidozinho luso sobre o Guevara, isso por causa de um texto a que eu já aqui aludi. Já passou, que isto de blogs é por ondas, e como tal não valerá a pena colectar os elos permanentes. Mas registo um muito certeiro pensamento em alguns dos textos mais desagradados com as críticas ao “Che”. Dizem-no, é certo, algo criticável, ou pelo menos aceitam tal hipótese. Mas não deixam de o afirmar “um homem do seu tempo”, “um homem das lutas do seu tempo”, e isso enquadrando os tais hipotéticos erros ou defeitos que terá tido.
Correctissimo. Muito apreciei estas profundas, e até originais, reflexões. Gente de pendor sociológico (e alguns até são jornalistas, imagine-se, ainda assim gente afinal atreita à reflexão). Aprecio e entusiasmo-me: há gentes nos blogs do meu país que reflecte, e bem. Não se deixa ir em ondas e excitações.
Pois é verdade, e é inacreditável que os críticos manipuladores o escamoteiem: Ernesto Guevara, o “Che”, foi um homem do seu tempo. E das lutas do seu tempo.
Belos intelectuais, profundos até, estes guevarinhas…
Fevereiro 27th, 2006 — Che Guevara
Sobre a minha irritação com Che Guevara e os seus seguidores já andei por cá a resmungar. Daí o meu obrigado superlativo a Valter Hugo Mãe pela pedrada atirada.
Não esquecendo um excelente texto no ido Comprometido Espectador. Junto ainda os meus. Tanta coisa, não haja dúvida, uma irritação de estimação.
Outubro 26th, 2005 — Che Guevara, Politica Portuguesa
(assim tipo Bloguitica)
Das presidenciais portuguesas não digo. Aliás, já disse: não voto. Se votasse não votaria em Manuel Alegre. Nem desgosto, é mais por causa daquele livro “CHE” (Caminho, 1996):
A serra está em nós. Começa
em certas noites no nosso próprio quarto
irrompe subitamente sobre a mesa de trabalho
pode aparecer à esquina
em plena rua
…
Inútil discutir estratégia ou táctica.
Inútil saber se entre a serra e a cidade
há ligação ou não.
O que importa é o impulso que vem de dentro
subir a uma montanha dentro de si
olhar em frente e dizer:
“Sejamos realistas
exijamos
o impossível”
…
Há uma possibilidade de Che em cada um
…
De todos os guerrilheiros
ele é o único insepulto
nem sequer se sabe se ressuscitou
ao terceiro dia.
Não está em parte nenhuma
o que significa que pode estar em toda a parte
Não critico a poesia, quem sou eu. E nem por esse guevarismo o afasto. Do que está no poema, dessa “serra”, quem me dera subi-la, vivê-la. Não é por isso. É mesma coisa de geração, Che é-lhe como a tantos coisa ícone, símbolo de melhorar, mudar, rasgar. Pena que “inútil discutir estratégia ou táctica”, porque é mesmo isso que é útil. Ícone dele, ajudar-lhe-á a sentir e pensar, ele e alguma da gente dessa era. Eu venho depois, minhas coisas ícones foram mais Kiff the Riff, Rust Never Sleeps e o Lou Reed a chutar-se em palco, serras outras ou se calhar não. Eu não me chutava, mas estes guevaristas e os alter-guevaristas de agora também de guerrilheiros só quando saem do sofá em excursão a Porto Alegre (Viva PT, viva Lula): estamos na mesma?
Nem tanto, pelo menos com Alegre. Ele ainda no Guevara e eu não me imaginando aos 50 e tal anos a escrever loas aos chutos alive. Coisa de arranjar novos ícones, talvez. Ou de me desiconizar. Toda a diferença. Uma serra de diferença.
****
A propósito de quê o arrazoado? É que ao ler a ordinarice no A Praia (sem elo, momento higiénico) deu-me uma urgência de Alegre a Presidente. E lembrei-me da história dos colos de Santana Lopes. Que isto das ordinarices, e eu sei-o bem que as pratico e quem cá vem sabe-o bem, quando se têm são mesmo propositadas. Que gaffe, isso é outra coisa.
Diante desta gente o que há é uma cordilheira de diferença. Não de nascença. É mesmo na vida.
Junho 12th, 2005 — Che Guevara, Maputo, Roupa Velha
Hoje uma saída nocturna, uma incursão nesse afinal não mito daqui, o “sexta-feira, dia dos homens”. E, para mim, algo tão raro nos tempos actuais, e nunca o imaginaria assim há alguns anos. Combinámo-nos ali à praça da OMM, o meu amigo quer-me apresentar a um bar quase novo, até “complexo” ao que parece, local de companheiro seu e dele visita prometida e já muito adiada. Ali o encontrarei, um aperitivo e “depois se verá” quais as nossas paisagens para conversa e maldizeres.
Sou o primeiro mas nem espero, coincidência pontual, ei-lo ali. A apresentar-se numa das suas t-shirts estampadas com o tal Che Guevara, elegâncias nele até tardias, conquistas de recentes viagens do turismo académico, este sempre, e por mais óbvio que pareça ser o destino, coisas do bazarismo político. Não lhe perdoo estas vestes da ironia, bem sabe ele que abomino esse neo-ícone, em tempos de qualquer coisa facistóide e assassina, agora a querer-se dietético, “light”, fresco de uma moda assim muito alter, alterglobalização chamam-lhe até, em óbvios requebros. Não lhe perdoo, já disse, reajo à óbvia provocação, tal como o faço sempre que me invade a casa em propósitos semelhantes, que hoje não é a primeira afronta risonha. E daí o meu imediato “Foda-se, meu cabrão, agora fazes-me andar aí na rua com um comuna“. E ele a rir-se, é mesmo de propósito, a invectivar-me “que queres, é a revolução necessária!!“, a cutucar o tuga reaccionário, mesmo que para ele branco simpático, qual negativo do Sidney Poitier, a modos que branquinho bonzinho. E assim nos ficamos, nos obrigatórios insultos, a marinarem coisas de uma amizade.
É nisto que já estamos no tal aperitivo tornado vários, pois gente algo conhecida a surgir à mesa e por isso conversa vária, às vezes mole outras nem tanta, como é assim nestes assins. Depois lá chega o nosso “e agora?” e eis-nos a jantar na Feira Popular, fieis ao que aqui vai vigorando, isso de que, apesar do outro tudo, “para restaurantes não há como os portugueses” – e é aqui que lhe lembro a expressão que ouvi ao Rangel, mas que me diz ser de Samora, essa pérola do “só não descolonizei o estômago”, devaneio que logo nos dá para a teorização, nele deformação profissional, em mim prosápias de provocador: se há lusofonia o que ela é mesmo é gastronómica….e futebolística, acrescentamo-nos de rajada.
Enfim, lá avançamos o nosso jantar, bera diga-se, a injustificar o apreço universal pela tasca lusa, entre os tais maldizeres, as políticas que sempre vão mal, como é de sua natureza ou das nossas manias não sei, a eterna uma ou outra mulher do “ai se pudéssemos”, o “como está ele…?” sobre parcos amigos, trabalho e trabalho, livro ali e livro acolá, vá lá, para nos darmos o toque. “E agora?”, digestivos digeridos, “e agora?” Discoteca? bar? jazz? mas já?, se avançámos tanto que nem meia-noite é, e há que gozar a noite, arrastá-la. “Agora?”, e sou eu que desafio, “já que estamos aqui no portão então vamos passear na feira“, sei que ali uma miséria felliniana mas ao qual atribuí encanto, talvez mesmo por isso, no domínio da insensibilidade, sei-o, a do mais querer olhar.
E lá vamos, em vagares, a esmoer os pavorosos jantares, um par de quarentões, eu oscilando a rotunda barriga, nítido tuga desses matrecos até recém-chegados, ele escondendo a sua na brilhante t-shirt guevarista e, nem que seja por esta, óbvio “estrutura” local, deste modo a rejuvenescer-se com velhas ideias, a esquecer-se do hoje. E nisso caminhamo-nos para além do Coqueiro, o zambeziano quase fronteira, que o império não-familiar começa por aí, é-nos um passeio a demorar a decadência da decadente Feira, mais fechadas as barracas restaurantes, vazias as discotecas-bordéis. Mas isso é o do todas as vezes por aqui, que esta sempre parece pior do que antes. Mas continua, impávida e, portanto, decerto lucrativa.
Nisto do ir andando cruzamos duas raparigas, jovens, bonitas, bem postas como se dizia antes do nosso tempo, que nos saúdam, sorrisos largos, e mais a mim, num “boa noite, como estás?”, ao que respondo, simétrico, em palavras e sorriso mas continuando a andar, nisso decerto menos afável. Mas uma delas, mais decidida, avança e interrompe-me, os dois beijos lestos, sempre ditos “beijinhos”, a surpreender-me, e eu no arquear de sobrancelhas “Nós conhecemo-nos?”, a interrogar-nos, que isto de ser professor, e algo distraído ainda para mais, traz constantes surpresas. Mas que “sim, conheço-te do Piri-Piri, costumo ver-te lá“, “ah”, sossego, a aferir o registo e então deixo-lhe o meu melhor gentil “então boa noite, obrigado, até à vista“, um adeus que é logo barrado num ainda mais simpático “Vocês não querem companhia?” e nós, sempre sorridentes, num coro de “não, obrigado, não é preciso“, e eu acrescento, para não lhes ferir as susceptibilidades, e já agora também para auto-justificação, a explicar a recusa, “somos amigos, viemos só passear“, que isto não é por causa delas, não é desprezo, não senhora, ao que a mais primeira, à tal reclamação de amizade, confirma “sim, eu sei, costumo ver-vos juntos no Piri-Piri“, e aqui já está a inventar, reunir ambiente, numa insistência do oferecimento. E eu a repetir-me, no sorriso e no “não estamos a precisar”, as meninas que não levem a mal, somos só amigos a ver passar a noite, e esta mais atrevida logo num “oh!!” duvidoso, que melhor companhia poderemos nós esperar mais à frente?
O meu parceiro decide intervir, decerto sabedor que é mais este branco que as acicata, mais dados aos dolares fáceis somos nós, ao que se diz e deve ser verdade. E que por isso ser-lhe-á mais fácil resolver aquele nada impasse, apenas coisa de gentileza bem-disposta, do continuar a andar sem desagrados, do sempre tratar bem as mulheres, ainda para mais neste aqui, “sabes, é isso mesmo, somos amigos, estamos só a passear“, o que até é, e mais pelo tom, um agradecimento a tão simpática oferta.
Mas nessa sua insistência vem ele mudar o ambiente, a brotar um gelo no olhar da rapariga, aquela mais provocante, súbito um diálogo entre ambos, eu de imediato de fora, estrangeiro excluído, “São amigos? Claro, vê-se! É por isso que andas com a cara dele na t-shirt?”, ao que ambos estancámos, um abismo de surpresa, deliciosa para mim, nem tanto para ele agora rubro (sim, rubro) de espanto, e ela a avançar, agora ácida, o desprezo à solta “E tu não tens vergonha? Não tens vergonha de andar com essa t-shirt“, e eu, até cruel, já me estou a rir, ele com um embaraço gigantesco, tentáculos na voz, sem mesmo balbuciar, o que poderá ele dizer?, e eu, malévolo, a sublinhar, “é isso mesmo … somos amigos, eu é que lhe fui eu que lhe ofereci esta minha t-shirt, ele gosta de mim e usa-a“, e o meu amigo, ali desgraçado, resmungando (a implorar-me o silêncio?), a necessitar de uns passos à frente para também ele se poder rir desse seu Che Guevara, afinal na sua terra, às suas vizinhas, ícone coisa tão outra.
Ainda nos estamos a rir, gargalhadas, quando entramos na primeira porta, refúgio mesmo. E eu já com a esperança que se tenha perdido aquele altercomunista, voltemo-nos burgueses. Aliás, a noite está aí, é certo que assim voltaremos.
Maio 24th, 2005 — Che Guevara
Há exactamente um ano aqui coloquei uma óptima fotografia.
Fevereiro 4th, 2005 — Che Guevara
Abaixo, citei Lobo Antunes, um verdadeiro Átila no seu “poster do Guevara…e que funciona um pouco para mim como uma espécie de jóia magnética Vitaphor da alma:.”.
Perguntei então se alguém saberia o que é (era) essa Vitaphor. Alguns leitores corresponderam a este meu anseio, e aqui os coloco (é assim como no Abrupto).
Via email, Eduardo Domingos informa que o meu sistema de comentários não funciona (vá lá, uma boa desculpa para não ter comentários) e propõe que o tal Guevara seja
Vitaphor - Mediaphor GmbH, D-33106 Paderborn, abrindo caminho para toda esta teoria
Wie wir Menschen brauchen auch unterschiedliche Pflanzen ganz individuelle
Nährstoffe. Mischen Sie sich Ihren perfekten Spezialdünger selbst, ganz
individuell abgestimmt auf Ihre Pflanzen mit dem BaukastenDünger Vitaphor: Für
25o verschiedene Pflanzen, zum Beispiel Rosen, Rhododendren, Geranien, Kräuter,
Zitruspflanzen, Kakteen, Funkien, Bonsais, Hydrokulturen, Tomaten, Erdbeeren und
viele mehr. …(tomar ao deitar)
Já o
Manuel encontrou a casa dos comentários aberta (afinal?!) e botou: “Ah, mas quanto à jóia Vitaphor, posso dizer que era amplamente divulgada na TV. Era daquelas com propriedades magnéticas e o diabro a quatro, que proporcionava um excelente bem-estar a quem a adquirisse.Também havia as pulseiras magnéticas…Será que ainda há?Um abraço”
Estou na dúvida, até porque a mim o alemão custa-me a entender…Mas está lançada a angústia, afinal que era o Guevara?
Fevereiro 4th, 2005 — Che Guevara
Já agora, e como aqui escrevi (e fotomostrei) várias vezes sobre a moda Che Guevara, não resisto a este pequeno trecho de “Os Cus de Judas” de Lobo Antunes (Círculo de Leitores, 1984, p. 30), que há pouco descobri:
“Duas coisas, minha boa amiga, continuo a partilhar com a classe de que
venho, desapontando o poster do Guevara, esse Carlos Gardel da Revolução, que
pendurei sobre a cama a fim de que me proteja dos pesadelos burgueses, e que
funciona um pouco para mim como uma espécie de jóia magnética Vitaphor da
alma:…”
(O que seria uma jóia Vitaphor?)
Dezembro 5th, 2004 — Blogs, Che Guevara
A Lolita do Blogame Mucho escreveu há dias sobre Fidel, rematando: “Fidel é um ditador, mas não é um mau ditador: é um ditador puro. Com o que isso tem de mau, também. Forcem-no, nada conseguem. Respeitem-no, reparará erros.” Eu permiti-me discordar e resmungar acerca dessa óbvia simpatia pela personagem. Não quero eternizar a discussão, cada um como cada qual. Mas como tive resposta agradeço-a com alguns pontos na “volta do correio”:
[actualizado com adenda]
1. Será pouco importante para a questão, mas como a Lolita usou o Maquiavel eu citei-a. Diz ela que desajeitadamente, enquanto (me) explicita o real sentido da sua obra, acessível “a quem conhece, ainda que pela rama a sua obra”. Lamento pois tê-lo utilizado, ainda por cima de forma tão grosseira: confesso que tendo-o lido, e a alguns dos seus comentadores, não apreendi uma certeza sobre o que realmente quis dizer. Terei a minha ideia, a minha interpretação. Mas muito pouco assertiva. Meu defeito de compreensão, decerto, que essas não são as minhas áreas.
2. Associei aquela visão sobre Fidel, e volto a fazê-lo, à (já) velha teoria comunista explicativa da queda do “mundo socialista”, aquela que consagrava como causa os “erros e desvios” (a maldita “natureza humana”?), uma nada marxista explicação na boca e na tecla desses veros marxistas (leninistas). E para que não se pense que abuso das palavras, esses “erros e desvios” foram não só recorrentes como ainda consagrados em documentos de pelo menos um congresso do PCP nos inícios dos 90s. Será talvez abusivo associar a Lolita ao PCP, e lamento se a desagradei, mas lendo-lhe a crítica ao Estado da Nação onde todos “comem pela medida grande” com a excepção implícita do “partido”, não pude deixar de o fazer. Não conhecendo a bloguista não lhe estou a imputar militâncias ou simpatias (muito legítimas, diga-se), mas permito-me associar discursos e modos de pensamento que surgem comuns.
3. Diz ainda que “o JPT, […] quis confrontar-me com as minhas contradições”. Mais um lamento meu, aqui pela minha falta de clareza, a tal “molhada” que denuncia. Pois o que procurei realçar não foram as contradições do pensamento da Lolita, eu quis sublinhar foi a sua total coerência, explícita em dois textos políticos, um valorizando o PCP o outro valorizando Fidel. E o quanto eu discordo dessa coerência, da qual todas as questões “morais” são meros corolários [da ligação entre moral e política necessitaria de outro (e enorme) post, passo].
4. De lamento em lamento tenho ainda que referir o quanto me desgosta esta minha tendência, por ela sublinhada: “Não se deixem levar pela simplória, mas eficaz, estratégia americana recorrente: ou estás comigo ou estás contra mim.”. É uma fragilidade, aborrecida ainda que humana, isto de torcer o nariz à pureza de um ditador só porque os americanos não gostam dele. Sendo franco, é mesmo uma imbecilidade. Reconheço-me simplório produto.
5. Lamento pois não ter essa habilidade reflexiva. Essa que, apesar de algumas semelhanças de pensamento com alguns movimentos sociais e políticos (naturais, não somos ilhas), permite à Lolita afirmar “Não me agradam moralismos lineares; prefiro pensar sozinha, no remanso do lar, a ler a mais e a deixar-me intoxicar de propaganda”, algo que lhe permite uma superior compreensão sobre o mundo que a rodeia.
Quanto à auto-sapiência e à teoria da relatividade curvo-me, expectante de futuras lições.
6. Finalmente lamento ainda não possuir tal espelho mágico, em que me visse tão culto, livre e despreconceituoso. Cantando, qual filho de Hergé, “rio-me de me ver tão belo neste espelho”. Ainda que cobiçoso é meu sincero desejo que nunca se lhe parta o espelho.
Adenda:
1. A Lolita ripostou dizendo-me conjecturando sobre onde a colocar ideologicamente. Sim, um elogio a Fidel e os termos em que foi desenvolvido, causam-me estupefacção. E em meu entender são concepções que têm linhagem, um contexto. Apontei-o, interpretei-o. Não falei, como se queixa, de si, falei daquele que me parece ser o contexto da sua percepção. Não se reconhece nesse campo político em que a integrei, tudo bem. Quantas vezes ecoamos ou recriamos perspectivas de outrém sem que isso signifique uma associação. E que a houvesse, seria legítima e não da minha conta. Para mim realmente importante foi reconhecer os traços estruturais de um apoio actual a Fidel, e de como eles se assemelham a um já antigo discurso sobre o “mundo socialista” que considero acima de tudo autofágico. E isto não é um discurso “ad hominem”.
2. Num outro âmbito Lolita expressa o seu desagrado pois pessoalizei, improdutivamente (e deselegantemente?), a questão, atacando-a e negando-me ao que realmente lhe interessava, discutir Fidel e Maquiavel.
De Maquiavel diz-me fazendo “meta-crítica”. Mas que fique claro, às vezes as palavras valem o seu sentido literal. Não tenho certeza sobre o que o autor quis dizer. Não há qualquer meta-crítica. Mas sobre isso interessa-me perceber como é que pessoalizei/rebaixei a questão.
Sobre Maquiavel Lolita escreveu, eu usei isso e recebo esta resposta à “molhada” que entende ter eu realizado: “Quem conhece, ainda que pela rama, a sua obra sabe que Maquiavel …”; por favor, isto é uma locução retórica em que não só se afirma o pensamento do autor como se exclui qualquer hipótese de contradição, pois basta-o “conhecer ainda que pela rama”. Discutir então para quê? Para mais não o tendo eu usado neste último sentido (aliás, usei-o no sentido em que Lolita o tinha referido) é óbvio que se depreende pelo seu texto que o utilizei sem o ter lido nem que seja pela rama, que o usei na ignorância. Não está portanto somente a falar de um autor mas também a afirmar a ilegitimidade deste locutor (o tal JPT) que o utilizou. Sim, eu sei que as intenções retóricas são infalsificáveis, mas esta, até pela sua recorrência, é óbvia.
Uma discussão sobre Maquiavel? Pelo contrário, uma asserção sobre Maquiavel e uma pessoalizada ilegitimação do interlocutor.
3. Discutindo Fidel Lolita é explícita, aqueles que discordaram do seu post deixam-se “levar pela simplória, mas eficaz, estratégia americana recorrente: ou estás comigo ou estás contra mim.”. Estamos a falar de Fidel? Não, estamos a falar dos medíocres (simplórios até) mecanismos de compreensão e análise utilizados por aqueles que consigo discordam.
Uma discussão sobre Fidel? Pelo contrário, uma desvalorização pessoalizada dos interlocutores.
Em absoluta e explícita contraposição a essa frágil postura intelectual daqueles que a criticaram Lolita apresenta-se: “Não me agradam moralismos lineares; prefiro pensar sozinha, no remanso do lar, a ler a mais e a deixar-me intoxicar de propaganda. Tento, isso tento.”. Perdão, há mais pessoalizar do que isto? A afirmação implícita mas clara de uma superioridade de metodologia intelectual e moral: esta não lhe é linear, implícita contraposição aos que a criticaram; pensa sozinha, de onde se estabelece que os seus críticos não o fazem, pensa no remanso do lar, os outros porventura não só no colectivo mas também no meio da turba, lê mais, os outros decerto nada ou pouco, e não se intoxica de propaganda, o que os outros fazem, não só pelo pensamento colectivo a céu aberto, linear, mas também pelo já acima anunciado “simplório” procedimento.
4. Depois de escrever todas estas afirmações, menorizando os métodos pessoais de pensamento e apreensão da realidade daqueles que com ela discordam, Lolita regressa protestando a pessoalização da minha resposta, lamentando-lhe a falta de elevação da argumentação.
Se nos conhecessemos talvez tivesse consigo o à vontade para lhe dizer o coloquial “é preciso ter lata!”. Como não é o caso fico-me no muito mais desagradável, ainda que mais polido, termo desfaçatez.
Quanto ao tal espelho ainda acredito que se reler bem o que ripostou às críticas que lhe fizeram talvez conceda que não é cá em casa que habita. Ou talvez não o conceda, mas isso já é consigo. Passo.
Cumprimentos
Dezembro 3rd, 2004 — Blogs, Che Guevara
No muito apreciável Blogame Mucho o Besugo defende o Polga (coitado, diz ele) e (quase) empresta o Beto ao Estrela da Amadora. Enfim, discordo mas que fazer? Por exemplo ler com atenção o dito blog.
Regresso ao fim (ao hoje) e a Lolita com sarcástica prosa sobre o “estado da nação” portuguesa, bate forte e feio no “populismo da coligação, “no Vitorino (a) pensar por Sócrates”, no Marcelo “espécie de Pelágio intelectualizado”, no “Cavaco Silva” exarcebado, no Sampaio pois “Maquiavel está mais actual do que nunca e Sampaio agradece. Sai pela porta grande, de Janeiro a um ano”, e no “que remanesce [pois] são bloquistas e populares, coloridos e inconsistentes, activistas dos gritinhos ensaiados e das patetas lições de vanguardismo e/ou de reformismo”.
Bela prosa. E até ironiza “Mas em política importantes são os fins, não os meios.”. Assim de repente parece que não fica pedra sobre pedra, é malhar nesse Estado da Nação. Como convém, não há nada como os livre-pensadores.
Depois sigo ecrã abaixo, direcção dos dias passados, e ei-la, súbito teorizando que “Mas em política importantes são os fins, não os meios.”. Blogando assim “Fidel é um ditador, mas não é um mau ditador: é um ditador puro. Com o que isso tem de mau, também. Forcem-no, nada conseguem. Respeitem-no, reparará erros”.
Ah, afinal é isso! (volta-se ao post acima e, claro, claro, faltava algo, aquele algo.). Não há dúvida “Maquiavel está mais actual do que nunca…” como afirma. Vê-se, com esta retórica.
Fico-me com esta, a da semana. Fidel, o Puro. Os princípios bons e os meios que se lixem. E depois, do cimo de tanta moral, de tão bons princípios toca de dar porrada nos outros. Impuros, claro está. Que coisa…Passo.
Outubro 14th, 2004 — Che Guevara, Icones
Ainda o contraditório sobre o líder comunista Ernesto Guevara o sempre excelente
Aulil apresenta
peça da sua iconologia, esta de origem cabo-verdiana.
A este propósito, e não me querendo eternizar nesta minha irritação com a persistência acrítica deste nó de imaginário, recupero as palavras do Machado da Graça. Como ele afirma nesta matéria a minha distinção deve ser de geração. Para mim o símbolo de uma atitude no mundo é mais Corto Maltese.
Não me alongarei mais no assunto, o desprezo pelas t-shirts estampadas não me levará a mais (ainda no domingo era uma menina de três anos, brincando com a Carolina, que horror). Que passeiem as trombas (bonitas, concedo) de um lider comunista, que ensinem as belezas de um adepto dos fuzilamentos, que adorem um autor de uma ditadura infecta e inspirador de algumas outras, que rezem e cantem um exportador de revoluções indesejadas. E que sigam o exemplo de quem não percebia os locais e os homens que exigia mudar (não é um problema de método, Machado, é um problema de conceptualização) . E que atravessou este mundo carregado das suas certezas. Façam isso. E vistam as criancinhas. Os adolescentes tardios.
Eu, quando me der a angústia, vou ler o Corto (que também morreu abatido, e neste caso pelos fascistas explícitos). Ou o Blueberry, que tem a desvantagem de ser imortal.
À laia de adenda: nunca gostei de roupa com informação. Publicitária ou outra. Vá lá, um crocodilo Lacoste acompanhou a minha juventude. E um pequenissimo trapo vermelho acampou no meu rabo, nomeando as calças de ganga. E ainda lá está. Prova que não sou fundamentalista.
Outubro 12th, 2004 — Che Guevara, Icones, Machado da Graça
Machado da Graça enviou o seu “contraditório” (como agora se diz) às minhas opiniões muito
pouco positivas sobre
Ernesto Guevara, sublinhadas pela irritação face a tantas t-shirts e quejandas estampadas com o ícone.
Aqui o deixo, cumprindo a obrigação, que o Ma-Schamba é blog democrático, ainda que por vezes mal-disposto e azedo. E também porque corrompido por esses “os frescos anos” com que o Machado me brinda…
O Ernesto
Machado da Graça
12 Outubro 2004
Há dias, no teu blog, desancaste violentamente o Ernesto. Chamaste-lhe tudo, de sanguinário para diante. Li e resolvi deixar passar. Os teus frescos anos não dão para compreender o que ele significou para a minha geração.
Dias depois uma dessas recolhas de efemérides lembrou-me que fazia não sei quantos anos que ele disse a um soldado meio aterrorizado: “Coragem, dispara, vais matar um homem”. Coisa que o soldadito fez, disparando-lhe uma rajada de metralhadora para cima. Isto numa pequena escola, atrás do sol posto, na Bolívia.
A decisão de lhe dispararem aquela rajada parece ter sido tomada muito mais a norte, provavelmente num gabinete alcatifado na sede da CIA. E veio, pelos canais hierarquicos do costume: CIA – Generais no poder na Bolívia – militares nas montanhas.
Aparentemente havia quem o quisesse manter vivo para ser julgado, mas a CIA não foi nisso. O Ernesto vivo continuaria a ser sempre uma dor de cabeça.
Era o tempo da guerra do Vietnam. Centenas de milhares de soldados americanos andavam atascados até aos tomates nos arrozais a levar tiros que vinham não se sabia bem de onde. E voltavam à América, limpos e bem fardados, em bonitas caixas de madeira cobertas por uma bandeira. E como se gastou madeira para fazer essas caixas naqueles anos…
E o Ernesto queria fazer dois, três, muitos Vietnams. Queria espalhar Vietnams por todo o lado, para multiplicar as caixas cobertas de bandeiras.
Sanguinário, portanto? Sim, como todos os militares. E ele, desde a Sierra Maestra tinha passado a ser um militar. Subiu para lá como médico mas um dia, no meio de um combate, teve que escolher entre salvar o saco dos medicamentos ou uma caixa de munições. E escolheu salvar as munições. Foi uma opção que continuou até à morte.
Mas é preciso pensarmos que há dois principais tipos de militares: os que são militares porque a isso são obrigados (serviços militares obrigatórios e quejandos) e os que o são por escolha própria. E, nestes últimos, os que o são seja qual for a guerra e os que só o são se estiverem de acordo com a guerra a travar.
E o Ernesto, é claro, era destes últimos. Era ele quem escolhia a guerra. Não era apanhado, desprevenido, no meio dela.
Escolheu ir para Cuba quando ele, argentino viajante, conheceu o Fidel no México. Escolheu vir para África para tentar pôr em prática a Teoria do Foco no Congo. Escolheu ir para a Bolívia pela mesma razão, julgando que conseguiria comunicar melhor com os sul-americanos do que com os africanos.
Mas porquê essa vontade permanente de fazer a guerra?
Porque o Ernesto verificou, em Cuba, que uns tiros dados no momento certo podem mudar um país de bordel dos americanos para qualquer coisa de decente. E de bordeis identicos estavam a África e a América Latina cheias. E não eram coisas que se mudassem com boas palavras e agitar de raminhos de oliveira.
Em África não foi o objectivo que esteve errado. Foi o método. Muito provavelmente na Bolívia também.
Agora que os regimes da altura só sairiam à porrada veio a comprovar-se pelas inúmeras gravuras juntas. Não foi porque um achasse que era necessária a guerra e outro não que o Ernesto e o Mondlane discordaram. Foi porque um queria fazer o foco no Congo, ganhar o controlo do país e espalhar a revolução pelos vizinhos e o outro queria fazer a guerra apenas no seu país, onde era mais fácil mobilizar os combatentes para uma guerra que lhes daria frutos imediatos.
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De qualquer forma o Ernesto aparecia como o pequeno David que enfrentava, quase com as mãos nuas, o Golias americano, imponente e opressor.
Com as mãos nuas e limpas, porque podendo ter ficado no governo de Cuba a beneficiar das mordomias próprias dos cargos governamentais, preferiu voltar para o mato a arriscar o pêlo pelas coisas em que acreditava.
Por cima de tudo isso teve a sorte de ser fotogénico e ter encontrado fotógrafos que o imortalizaram (mesmo depois de morto, como bem notaste).
É por isto tudo que não concordo com a descrição que publicaste dele.
Talvez o Ernesto tivesse em si um pouco do D. Quichote, arremetendo, de Kalash em riste, contra os B 52.
Mas, que diabo, o D. Quichote continua a entusiasmar gente ao fim deste tempo todo.
E espero que o Ernesto também continue. Apesar de tudo continuo a achar que é preciso dizer aos jovens que devem lutar por aquilo em que acreditam em vez de fazer uma vida acomodadinha de discoteca e campo de futebol.
E o Ernesto continua a ser um modelo muito aceitável, na minha modesta opinião
Setembro 18th, 2004 — Che Guevara, Politica Portuguesa
Os mitos e a inteligência
Hoje no Público uma declaração assombrosa. Diz Mário Mesquita: “Certo é que, nesta Europa de 2004, para reavivar o espírito de Lord Keynes, a justiça social e a intervenção do Estado na economia, é necessário possuir alma de guevarista. Após a queda do muro de Berlim, o reformismo transfigurou-se, ficando, subitamente, revolucionário.”
Percebo, é uma metáfora este “guevarismo”. Mas metáfora alimentada de um pobre mito, já o resmunguei.
Ernesto Guevara é um ícone pop, t-shirts, cintos, cartazes e afins. Tornado símbolo porque bela presença e bem fotografada, um cadáver bonito ainda para mais.
Ernesto Guevara foi um líder sanguinário e um político inepto, buscando um ideologia totalitária. Como “exportador de revoluções” foi intolerante, incompetente, preconceituoso. Lê-lo é ler a sua extraordinária incapacidade para compreender o que o rodeava. E a sua profunda arrogância, o seu auto-convencimento.
Bastará a beleza, alguma valentia e uma morte em acção para ser metáfora, servir para pensar o real?
Estes discursos do “che” não são coisa de geração, como se diz. São palavras de gente incapaz de metaforizar o real, de o simbolizar, pobres no mastigar (eterno?) destes símbolos alheios às confusas ideias que lhes associam, gente assim desprovida dos meios de pensar o real. Nada a esperar sobre o futuro destes tristes guevaristas metafóricos. Foi chão que deu uvas. Alimentado à Onan.
Ou então, porque também os há, são palavras de quem é realmente “guevarista”. Gente inimiga, sanguinária, tal como o ícone que acolhem nas suas roupitas de marca. Sem qualquer pudor.
Maio 24th, 2004 — Che Guevara
Há algum tempo fui ali ao Piri-Piri ter com o meu mais que bom amigo Francisco. Esperei-o um pouco, até que ele me surgiu embrulhado numa t-shirt estampada com a célebre cara de Ernesto Guevara. Sabia-o regressado de um qualquer congresso em Cuba, decerto era aquilo um “recuerdo”, memórias dessas agradáveis coisas do turismo académico.
Confesso a minha incomodidade de então, ainda que muda. Que raio, que fazia eu ali em plena esplanada com o meu amigo e mais o espírito do argentino? Aqueceu-me a 2M mais depressa, ainda que tudo tenha sido esquecido na conversa.
Mas fiquei-me a pensar, que faz um homem destes, culto como ele o é, com todo o seu espírito crítico, um cáustico quase niilista, carregar aos 40 anos um ícone tão embotado pelo tempo e pelas verdades? Que falso peso o desse “che”?
Passados uns dias ele apareceu de surpresa cá em casa (ele e Idasse são os únicos que surgem sem telefonar, magnífica coisa em sociedade tão formal). Abro-lhe a porta e eis de novo o Guevara, agora portas dentro. Não me contive num “foda-se pá, então vens a minha casa com essa t-shirt!!”, resmungo que morreu na gargalhada dele, ali logo embrulhando um dito sobre a beleza das cubanas, lembro algo como o elogio das “bundas grandes”, coisas mais importantes que ideologias, e aí todos concordamos.
Estando então eu já de blog armado decidi escrever sobre este Ernesto Guevara por aí. Tive a sorte de encontrar uma fantástica montra na Interfranca com o dito cujo,

[Fotografia de Fernando Macedo]
como aperitivo de um texto sobre a estranheza face à persistência do mito. Texto que nunca terminei, para aí no meio de tralhas avulsas.
E que nunca terminarei. Pois pouco ficará para dizer depois da prosa que o Comprometido Espectador acaba de dedicar a este assunto. O acutilante suficiente.
Feliz coincidência.
Março 1st, 2004 — Che Guevara
Loja em Maputo. Fevereiro 2004.Fotografia de Fernando Macedo.
Este apontamento é especialmente dedicado ao Paulo Gentil. A enrolar um abraço na discordância.