Archive for the ‘Mundo’ Category

O Universo e o Hubble

Sábado, Agosto 21st, 2010

“No blog desnudas a alma” exagerou, criticamente, um amigo meu no jantar de ontem:

Como sabem os leitores aqui nunca falo de trabalho, mas segue-se excepção. E como sabem os meus amigos mais próximos, meus colegas e alunos, atravessei (?) um profundo mau-momento nos últimos meses. Não terá sido provocado por isso mas despoletou-se quando percebi que a esmagadora maioria dos alunos universitários com os quais trabalho não têm quaisquer ideias actualizadas sobre as características do universo. Tudo isto brotou numa aula (e nas imediatamente subsequentes) aquando de um impreparado exemplo sobre a “revolução coperniciana” – falava-se de Kuhn numa para mim nova disciplina introdutória de ciências sociais. Ali me deparei, em total espanto, com o facto de que os futuros colegas têm uma concepção geocêntrica do universo ou, em alguns casos, heliocêntrica.

Na altura esta apreensão causou-me uma dolorosa e perplexa consciência do hiato (abismo) ali existente entre nós. E da necessidade de reflectir sobre os conteúdos e formas da comunicação. Como ser docente quando o(s) discente(s) te(ê)m uma tão diversa apreensão do mundo? Para além dos problemas imediatos isto levanta também um doloroso questionar sobre a estrutura curricular do ensino secundário em Moçambique (o que se ensina e quando. E, porventura, também o como). Mas também da divulgação científica nos meios de comunicação. Não se exagerem as dificuldades, quem chega à Universidade tem acesso a televisão, ao omnipresente rádio e, também, a jornais. Lembro de imediato a televisão, pública e privada. Que estação tem divulgado programas sobre o universo?, dedicados a qualquer divulgação científica – certo é que terão que ser atractivos e divulgados, popularizados. E certo é que a estação mais vista pelo povo será a Miramar, cuja filiação evangelista não me parece compatível com versões não criacionistas deste nosso “vale de lágrimas”.

Mas não é o meu papel discorrer sobre conteúdos programáticos do ensino de “ciências naturais” (como antes se dizia) no ensino secundário moçambicano nem tampouco sobre o painel de programas da TVM ou concorrentes privadas. Fico-me, angustiado, diante dos meus alunos. Sou um modesto antropólogo, entregue a alguns programas temáticos. E o “mundo” não faz parte deles. Mas sem esse “mundo” que entenderão sobre o mundo, como entenderão o mundo? E como apresentar(-lhes) este vasto “mundo”? Em rombas palavras de nada especialista do assunto? Em pobres fotocópias roubadas a velhos exemplares da editora “Gradiva”? Uma radical impotência.

Recebo agora (via fb) esta ligação ao Sítio do Telescópio Hubble (em inglês). É para os alguns alunos que aqui passam de quando em vez. Pode ser que desperte alguma inquietação sobre o que é “isto”. O como é “isto”. E dê para perceber que a gente não está no seu “centro”. Com tudo o que daí vem. Ou (espera-se) poderá vir.

jpt


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Nómadas

Sexta-feira, Agosto 20th, 2010

A França, esse mito que a pragmática Washington construiu em Hollywood pela mão de Mihaly Kertesz, decide expulsar umas centenas de ciganos. A “Europa comunitária”, que congrega a “Europa das Nações”, discute mas pouco. Os “nómadas” são sempre uma chatice. Fracos “cidadãos” dessas “nações”. E, como tal, dessa “supra-nação”.

(Se fossem judeus pobres Paris seria mais mansa. Afinal Vichy foi anteontem. E os francófilos – de hoje – calar-se-iam.)

jpt


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O ADVENTO DE UMA NOVA ERA

Quarta-feira, Agosto 4th, 2010

por ABM (4 de Agosto de 2010)

Acima, uma magnífica paródia sobre a actualidade internacional, vindo dos EUA. O vídeo foi produzido por uns tais irmãos Gregory.

Recomendo que o exmo. leitor aproveite para se rir agora, pois os próximos doze meses vão ser qualquer coisa de verdadeiramente memorável.

O texto do vídeo:

HC: Tun tun tun tun tun tun tun tun
Seamos un tilín mejores
Y un poco menos egoístas
Tun tun tun tun tun tun tun tun
Huele a esperanza
FR: In this common endeavor
Huele a esperanza
GB: All of us work together
HC: Tun tun tun tun tun tun tun tun
BO: We must embrace a new era of engagement
Because the time has come
UN Choir: To smell the hope!
GB: For growth to be sustained
It has to be shared

UN Choir: ohhh, We can smell the hope!
BO: The time has come
UN Choir: To smell a better world!!
FR: A better world to live in for future generations everywhere.

AG: Don’t get sick
That’s right, don’t get sick
If you have insurance, don’t get sick
If you don’t have insurance, don’t get sick
If you’re sick, don’t get sick
Just don’t get sick
That’s the Republicans’ health care plan
CC: He has a chart
AG: An angry chart
CC: A chart that helps us learn!
AG: ooh ooh ah ah
If you get sick in America, die quickly
That’s right–the Republicans want you to die quickly if you get sick
AG: I agree!
CC: He agrees!
AG: Angrily!
CC: Cuz he’s angry!

KO: Afford to live?
Are we at that point?
Are we so heartless?
How can we not be united against death?
Us: My BFF Gilgamesh knows eternal life’s an impossible quest

The resources exist for your father and mine to get the same treatment
Us: Yeah, we’re in agreement
But first we gotta lay down some
All: High speed rail
Us: Bail out some
All: Banks
Us: Save your daddy with the leftover change

KO: How can we be so heartless?
Us: We’re nihilists!
KO: How can we be so heeeeaaartless?
Us: We’re tryna die quick!
KO: What more obvious role could government have
Than the defense of the life of each citizen?

KC: How is the Nobel Peace Prize decided?
BS: Well, uh, that is what people were asking all day today
Bølverk: We mix a secret potion,
And roll the ancient dice,
Then hire a focus group
And have a human sacrifice.
KC: A lot of people are asking today why do you think the committee elected President Obama?
Bølverk: I believe a prize for peace should go to the biggest wuss.
BS: They were giving Obama a prize for not being George Bush.
Choir: They can smell the hope!!
KC: Take a deep breath!
Choir: And hope a smelly world!
KC: A deep breath!
FR: A better world to live in for future generations everywhere


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Vale (Quase) Tudo

Segunda-feira, Agosto 2nd, 2010

Guiando a 190 milhas por hora Michael Schumacher aperta Rubens Barrichelo contra o muro limite da pista, procurando evitar ser ultrapassado. Ontem, no Grande Prémio da Hungria de Fórmula 1. Uma instituição disciplinadora, como tantas outras.

Adenda: o ma-schamba não é muito dado à Formula 1 em particular (nem tampouco a corridas em geral) – ainda que há alguns anos, em compita com apenas mais um bloguista, aqui (e ) se dissertou sobre o Villeneuve, o Pironi e até o Cevert ou o Ronnie Peterson. Agora, dada esta entrada, um leitor amigo enviou-me o youtube da ultrapassagem. Aqui fica o momento épico da F1 – a fazer lembrar esses tais grandes dias do Pironi e do Villeneuve.


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Sobre Cuba

Quinta-feira, Julho 29th, 2010

Cada vez que aqui se fala de Cuba e sua ditadura aparecem a brigada “revolucionária”, referindo o embargo americano como causa dos males, e louvando (ainda que por vezes sob o paradigma da teoria a-histórica dos “erros e desvios”) o regime castrista. Foi a pensar nesses “revolucionários” (quasi todos habitando nas democracias “formais” pró-americanas, já agora) que recortei esta coluna do jornal “i”, da autoria de Hugo Gonçalves (indisponível na internet, daí este “sujar de mãos”), publicado a 14.7.2010 a propósito do final do calvário reivindicativo de  Guillermo Fariñas. Há quem não possa ver. E há quem não queira ver.

Para os que queiram ver, aqui fica uma entrevista de Guillermo Fariñas. Um “embargador”, na “visão” de outros.

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Sandro Pertini

Quinta-feira, Junho 17th, 2010

Em 1982 foi o mais apaixonante mundial que vi. Em tempos de uma única estação televisiva (e muito a preto-e-branco), sem imaginarmos um futuro de parabólicas e canais por cabo. Nem ainda computadores pessoais e internets. O conhecimento da actualidade era muito (muitíssimo) menor. Também por isso aquele Brasil chegado à Europa tanto encantou: Cerezzo, Falcão, Sócrates (“o Doutor” – era dentista) e Zico irromperam diante dos espantados e logo apaixonados adeptos – surpresas que hoje, no ecrã global e constante, já não são possíveis. A tudo isso se juntou o toque de drama épico, a derrota dos “heróis”, semi-divinos, diante de uma alegre Itália.

Era uma Itália peculiar, com o letal “menino de ouro” Paolo Rossi vindo de uma suspensão por corrupção (vendiam jogos) e um guarda-redes quarentão (Dino Zoff, que nos preparava para o nosso Carlos Lopes, outro quarentão que chegaria à lenda olímpica dois anos depois). E foi essa equipa, que jogava imenso, que foi ganhar a final diante da Alemanha – para satisfação de todos, suspeito que até dos próprios brasileiros. A Alemanha então campeã europeia que se apresentava já sem o jovem Bernd Shuster, aquele que há pouco foi treinador do Real Madrid, o qual era um jogador maravilhoso, que me lembre uma mistura entre nº6 e nº8 que ganhava as bolas e as metia (à distância) onde queria, assim fazendo jogar. Mas era peculiar, aos vinte anos foi para o Barcelona e desistiu da selecção – sempre o associei a Boris Becker no grupo dos alemães ilustrados, o Becker que mais tarde (nos) avisou para não se dar as olimpíadas de 2000 à Alemanha tamanha a onda de nacionalismo racista que os seus patrícios navegavam. A equipa alemã de 1982 era a de Rummenigge – agora presidente do Bayern Munique -, esse que avisou em Espanha que era o filho que todas as mães alemães gostariam de ter: “alto, louro e de olhos azuis”. Para mal dos intelectuais anti-futebol (a brigada da alienação) a vitória de Scirea, Zoff, Altobelli, Conti, Rossi, do grande Antognoni foi então a vitória da estética na bola mas também a derrota da barbárie pseudo-ariana, essa então bem mais fresca do que hoje.

Também por isso tudo muito me lembro da simpatia, generalizada – e mesmo ainda durante o jogo -, para com aquele velhinho aos pulos na tribuna real. Nesse tempo o conhecimento não vinha na rapidez de um clic e não sabíamos ainda do perfil rijo e combativo de Sandro Pertini, o velhíssimo presidente da Itália de então – e que nos parecia o genuíno Matusalém. Esse que encantou o mundo com os seus saltos com os golos, a sua alegria vivamente genuína, esquecido da contenção dos protocolos, ali ao lado do rei anfitrião, de Havelange e de um qualquer chanceler alto, louro e de olhos azuis. E ainda me lembro do eufórico Pertini, enquanto os jogadores passavam a colher a Taça e as medalhas, a limpar o fornilho do cachimbo e logo a oferecê-lo a Enzo Bearzot, o treinador campeão. Dádiva de homem para homem, um pouco da sua alma ali, como qualquer fumador de imediato percebe(u).

É um pouco por tudo isto, por eu próprio já ser quase tão velho como Pertini então era, que ao ver este “marketing” Sul-Sul tanto se me torce o nariz. Não acredito que seja mais algo do que trabalho de assessoria. E não tenho eu olhos azuis e cabelos louros, como aqueles de quem este vuvuzeleiro não gosta. Assim se dizendo um Rummenigge de hoje. Soprando-se. Só.

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A DESGRAÇA AO VIVO

Sábado, Junho 12th, 2010

Free Webcam Chat at Ustream

por ABM (12 de Junho de 2010)

Se o exmo leitor não tiver mais nada que fazer hoje, poderá achar interessante assistir ao vivo, enquanto bebe um cafézinho, a não sei quantos mil metros de profundidade, ao maior derrame de rama de petróleo na história da Humanidade, algures no golfo do México, cortesia da empresa British Petroleum. A emissão vem-nos pela mão da cadeia norte-americana PBS.

Claro que isto tudo pode ser resolvido, se todos nós passarmos a andar a pé e a não desperdiçar electricidade e a consumir desenfreadamente.

Mas fazer isso não é civilizado, pois não? então de vez em quando a consequência é o que se vê ali em cima.

Um repucho de petróleo em bruto, ao vivo e a côres.


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A CRISE E A GUERRA EM 2010

Terça-feira, Junho 8th, 2010

por ABM (8 de Junho de 2010)

Há uma semana, o Stockholm International Peace Research Institute (SIPRI), um instituto de pesquisa independente fundado em 1966 e financiado primariamente pelo governo sueco (em inglês think tank, que outro dia vi traduzido como um “tanque de pensamentos”) publicou o seu Anuário de Armamentos, relativo a 2009.

Se o exmo leitor for como eu, assistirá durante o ano a resmas de notícias e programas sobre guerras e ameças de guerras por todo o mundo, sem perceber muito mais do que o calor e a tragédia do momento, e quem são os bons e os maus da fita – se conseguir.

É aqui que o SIPRI pode dar uma ajuda, pois entre várias outras funções, o Instituto tenta acompanhar o dinheiro que se gasta despesas e investimentos militares em cerca de 172 países.

Então o que nos dizem os suecos do SIPRI sobre o que se está a passar neste campo?

Segundo o sumário do seu relatório, no ano de 2009 estimaram que o mundo gastou em despesas militares 1.531 mil milhões de dólares, representando um aumento, em termos reais, de 5.9%, 49% se comparado com os valores para o ano de 2000.

Os Estados Unidos, que mantêm um aparato bélico impressionante e que estão envolvidos em vários conflitos abertos ou latentes, representam mais de metade do valor do aumento observado em 2009. Curiosamente, os analistas do SIPRI apontam para a curiosidade de, apesar da retórica e expectativas em relação à presdência de Barack Obama, na realidade os Estados Unidos praticamente não alteraram numa vírgula a sua postura em termos de investimentos militares, que continuam a crescer de forma significativa, tendo o orçamento de defesa dos Estados Unidos em 2009 sido de 661 mil milhões de dólares e o valor para 2010 de 719 mil milhões de dólares e o (preliminar) para 2011 de 739 mil milhões de dólares.

Ou seja, o equivalente a 350 projectos como o famigerado TGV português.

Uma curiosidade, é que no caso dos países que produzem petróleo e gás, o aumento na despesa militar foi astronómico, na ordem dos 200 a 400 por cento em relação a anos anteriores.

Em África a Sul do Sahara, em 2009 gastaram-se 17.4 mil milhões de dólares em despesa militar (o que os EUA gastam em menos de uma semana), um aumento em termos reais de 5.1 % em relação ao ano anterior e 42% em relação aos valores de 2000. Os grandes protagonistas nas despesas militares na África sub-sahariana são Angola, a Nigéria e a África do Sul.

Já a Europa gastou 386 mil milhões de dólares em 2009 – cerca de metade do que os EUA gastaram.

No Médio Oriente gastaram-se 103 mil milhões de dólares.

A América do Sul gastou 58.1 mil milhões de dólares.

A Ásia e a Oceania gastaram 276 mil milhões de dólares. Só a China gastou 100 mil milhões de dólares, menos de um sexto do que os americanos gastaram. No entanto, nos últimos dez anos, o orçamento chinês é o que exibe de longe a maior taxa de crescimento em termos de despesas militares.

Para além disso, em 2009 realizaram-se 54 operações de manutenção da paz que custaram 9.1 mil milhões de dólares e envolveram 219 mil pessoas. Estes valores representam um aumento de 16% em relação ao ano anterior, devido principalmente ao envolvimento internacional no Afeganistão.

Ainda em 2009, o SIPRI estimou que a operação norte-americana no Afeganistão custou 65 mil milhões de dólares, contra 61 mil milhões de dólares gastos no Iraque.

O SIPRI estima que em 2009 os poderes nucleares conhecidos detinham cerca de 7.500 armas nucleares, das quais cerca de 2.000 estão em alerta permanente e podem ser arremessadas numa questão de minutos.

Tudo isto para só nos sentirmos mais seguros e protegidos em casa à noite.

Em resumo, em termos militares, até agora não houve crise nenhuma.

Tirando Portugal, que acho que anda relativamente nas lonas em termos das suas despesas e aparato militares (orçamento de 2.4 mil milhões de dólares em 2009, contra 18.3 mil milhões de dólares dos nuestros hermanos), está tudo bem.

Podemos ir à praia descansados este verão.

Aqui não há crise.


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POMPA, CIRCUNSTÂNCIA E 11%

Terça-feira, Maio 25th, 2010

por ABM (25 de Maio de 2010)

O novo governo britânico, que não tem bem os mesmos problemas do seu congénere português, vai, entre outras coisas, começar por cortar 11 por cento na despesa pública, percentagem que aqui na terra dos brandos costumes, suscitaria imediatamente visões de uma revolta seguida de batalha campal.

Lá em Londres, foi anunciado como se vê em cima.

De facto, em Lisboa, há um ano e meio que só se anuncia, repetida e sucessivamente, o fim da recessão – ali perpetuamente referida como “a crise”.


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Madrid Me Mata!

Segunda-feira, Maio 17th, 2010




PSB


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A Ilha no Tecto do Mundo

Quarta-feira, Abril 21st, 2010

50 fotografias no AstroPT, dedicadas à erupção do impronunciável vulcão islandês. Fantásticas.

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Islândia

Segunda-feira, Abril 19th, 2010

Julgava-os lá no topo do mundo, descansados e ordeiros. Afinal, primeiro não controlam os gastos, abrem falência, incomodam-nos. Depois, não controlam os humores, libertam gases e cinzas, incomodam-nos. Não há quem os invada para pôr cobro ao despautério?

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Conservação da Natureza

Quarta-feira, Março 31st, 2010

Bloguista amigo difunde artigo da BBC News que é exemplar sobre o mau trabalho das agências internacionais relativamente à conservação vida marinha. Lê-se e não se quer acreditar. Como é possível, no estado calamitoso em que estas coisas (as da conservação) já chegaram que ainda se funcione assim.

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AS NOVAS E AS VELHAS FRONTEIRAS

Quarta-feira, Março 31st, 2010

por ABM (Alcoentre, 31 de Março de 2010)

Ouvi dizer que a fronteira Ressano Garcia-Komatipoort vai finalmente ser alterada. Aquilo realmente anda-se a tornar num filme de terror aos fins de semana, feriados e férias.

Entre Portugal e Espanha hoje em dia em geral é sempre a andar sem parar.

Aparentemente, numa fronteira qualquer entre a Índia e o Paquistão é assim como se vê em cima. Confesso que acho piada ao espalhafato, mas a realidade subjacente é pouco feliz.


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O MUNDO DE ACORDO COM LUC FERRY

Terça-feira, Março 30th, 2010

por ABM (Alcoentre, 30 de Março de 2010)

No meu estado de feliz ignorância, nunca tinha ouvido falar deste senhor, que é um francês que me parece ser um daqueles deliciosos adiantados mentais, com credenciais académicas que não acabam e uma curiosa visão do mundo, e que tive o prazer de ouvir esta tarde numa emissão da estação de rádio TSF durante um daqueles engarrafamentos de arromba na 2ª Circular de Lisboa, em rota de Cascais City aqui para a província.

Depois de ler José Gil, Luc Ferry, que foi ministro da educação lá na França e que parece que anda a promover um livro que escreveu sobre o amor e o casamento (cuidado que o tema engana, aquilo é duma abrangência fantástica), deu uma entrevista que absolutamente recomendo seja escutada. O exmo. Leitor Maschambiano pode sintonizar aqui e depois ir fazendo outras coisas no seu computador.

Fascinante visão do mundo actual, dos homens, da história, da filosofia, da religião.

Curiosamente, com uma tónica positiva. Com este não há a nebulosa neura que presentemente afecta uma parte significativa da população portuguesa e adjacente.

A entrevista é em francês, mas se o francês do exmo. Leitor estiver como o meu (je confésse que mon français d’aujourd’hui est un peu emmerdé par le temps) não se preocupe: a TSF meteu lá uma tradução simultânea do melhor que há.

Para o exmo leitor leu a entrevista que o nosso pensador top 25 do Mundo, e que veio de Quilimani, José Gil, deu a um jornal de Lisboa, oiça este senhor e tente estabelecer os contrastes nos pontos de vista.


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Equívocos

Terça-feira, Março 23rd, 2010

(por AL em reminiscências) -


O jornal The Independent de ontem trazia uma notícia sob o título (tradução minha) “Como o Ocidente envenenou o Bangladesh”.

De acordo com o artigo, cerca de 20 milhões de pessoas no Bangladesh correm o risco de morte prematura devido a um projecto de água limpa, bem intencionado mas mal planeado. Resumindo muito brevemente, na década de 1970 as Nações Unidas e o Banco Mundial, numa tentativa de melhorarem a qualidade da água potável responsável pela morte prematura de 250.000 crianças por ano devido a diarreias e outras doenças associadas a águas inquinadas, enveredou num projecto de investimento em massa na abertura de furos para água potável. Embora tendo realizado toda uma série de testes para verificar a qualidade da água e os níveis de diversas substâncias contaminantes, não foi realizado qualquer teste para verificar os níveis de arsénico que, nesta região, ocorre naturalmente. Vinte anos depois verificou-se que cerca de metade dos 10 milhões de furos estavam contaminados com altos níveis de arsénico. Calcula-se agora que 1 em cada 10 pessoas que consomem água destes furos corre o risco de morte prematura devido a cancros de pulmão, bexiga e pele. Apesar dos esforços entretanto despendidos para controlar esta catástrofe, calcula-se que cerca de 20 milhões de pessoas dependam ainda do consumo da água destes furos contaminados. A contaminação estende-se ainda às culturas irrigadas com esta água.

Aparentemente, a contaminação dos lençóis de água com arsénico ocorre naturalmente nesta região e, embora as Nações Unidas e outras agências de desenvolvimento argumentem terem sido realizados todos os testes que, na época, correspondiam aos padrões internacionalmente estabelecidos, grupos activistas no Bangladesh contrapõem que se deveria ter tido mais cuidado com a geologia e topografia locais. Entre argumentos e contra-argumentos não se apuram responsabilidades.

Embora este caso seja dramático e de terríveis consequências, este parece-me a mim um problema comum e recorrente do “desenvolvimento internacional”: cumprem-se os padrões internacionalmente estabelecidos e reconhecidos e ignoram-se demasiadas vezes as especificidades locais. Ao longo de muitos anos de trabalho nesta área, tenho algumas histórias deste género que posso partilhar. Felizmente sem as consequências devastadores do Bangladesh, mas que ilustram bem o impacto das condições endógenas nas melhores das intenções exógenas.

Lembro-me de um projecto de um poço numa tabanca da Guiné-Bissau, em que as mulheres tinham que andar cerca de 2 km até à fonte de água mais próxima. Veio uma ONG com fundos para a abertura de um poço. O chefe da tabanca gostou e aprovou; reuniu-se a tabanca e a população alinhou; as mulheres mostraram agrado. E assim se fez e se inaugurou com pompa e alegria o dito poço. Nos primeiros dias foi um corrupio ao poço, mas com as semanas foi abrandando o ritmo da frequência e passado alguns meses o poço não era mais usado e as mulheres iam novamente duas vezes por dia ao rio, a 2 km de distância. Tinha sido feito o melhor dos planeamentos, tinha-se obtido o apoio dos utentes, tinham trabalhado no projecto gentes empenhadas. O que ninguém tinha percebido e que as mulheres não contaram, talvez porque isto não são coisas que se contem de ânimo leve a quem connosco pouco convive, é que era quando iam buscar água ao rio, longe da aldeia, que elas partilhavam as suas histórias e experiências; que as mais velhas aconselhavam as recém-casadas ou as casadoiras; que as adolescentes ouviam dos factos da vida; que o ir buscar água ao rio representava para elas momentos de intimidade feminina partilhada, que o poço, estando no meio da aldeia, não conseguia proporcionar. Era lá no rio, longe dos ouvidos dos homens que as mulheres tinham criado o seu espaço.

Outro projecto, num outro país africano, pretendia conter a degradação ambiental devida ao abate de lenha para consumo doméstico. Introduziram-se uns fogões ecológicos, muito giros e económicos, feitos de materiais locais. Organizaram-se workshops, fizeram-se charts, as mulheres gostaram dos fogões, houve distribuição e… os fogões não eram usados e a lenha continuava a ser abatida para cozinhar. O primeiro consultor avaliador do projecto, acabado de chegar lá do Canadá, constatou que os fogões não eram usados porque as mulheres quando cozinhavam se sentavam no chão e os fogões, mais altos que o lume de lenha, impediam que elas vissem o que mexiam dentro dos tachos e não eram cómodos. Como disse? Então o senhor quando chegou à aldeia não lhe trouxeram um banquinho, ou uma pedra para se sentar? Vai segundo consultor, consultora neste caso, mais sábia das condições locais e a quem contam a mesma história – os fogões são altos… Oh irmãs, tenham lá paciência, mas essa história não pega! Então vocês não se sentam em banquinhos e pedras para outras tarefas? Não podem fazer buracos no chão e assim reduzir a altura do fogão? Risos e entreolhados, tapares de cara com as capulanas, enfim, sinais evidentes que havia mais nesta história. Até que uma mais velha lá explica, com paciência para que a ignorante consultora perceba bem, que os maridos não gostam do sabor da comida dos fogões porque não sabe a fumo; e como não gostam da comida dos fogões em que elas cozinham, procuram namoradas que cozinham para eles com lenha. Então, a bem da paz doméstica, lá voltaram elas também à lenha, que o caminho para o coração dos homens pelos vistos passa mesmo pelo estômago. Ainda que para tal tenham que todos os dias ir um pouco mais longe para trazer a quantidade de lenha que necessitam.

Não pretende este post ser uma diatribe contra o desenvolvimento. Ambos os projectos protagonistas destas duas pequenas historias, tinham sido bem pensados e foram planeados cuidadosamente por gente muito empenhada no que fazia. Tiveram o cuidado de visitar os utentes dos projectos que estavam a conceber e fizeram o melhor que podiam dentro dos limites que tinham. Mas o “contexto local” não se fica a conhecer com duas ou três visitas e a confiança dos utentes não se ganha com uma workshop e um grupo focal. O “contexto local” é muito mais rico e variado do que se pensa geralmente à partida, mesmo quando se trata da nossa própria cultura, tal como ilustra a história que deixo a terminar este post.

A aldeia da minha mãe, a meia dúzia de quilómetros de Beja, é parca em habitantes mas fértil em histórias. Havia por lá um homem que teve um arremedo de trombose e teve que ir a Beja ver um “Sr. Dr. que veio de Lisboa”. Feitas as análises confirma-se o risco de doença cardio-vascular e detecta-se um nível altíssimo de colesterol. O Sr. Dr. lá de Lisboa recomenda uma dieta rigorosa ao doente, alentejano de cepa que da terra nunca saiu nem sequer para ir ao Barreiro (era para onde emigravam os da aldeia), explicando que, entre outras restrições, “agora carne, o senhor só pode comer carne branca, e volte cá para o mês que vem depois de repetir as análises”. Lá veio o nosso homem de volta à aldeia, com a mulher a reboque e determinada a fazê-lo cumprir a dieta. Passado o mês e repetidas as análises, a situação do doente tinha piorada com níveis de colesterol visivelmente superiores aos da análise anterior. Faz o Sr. Dr. lá de Lisboa inquérito rigoroso aos hábitos alimentares do doente, com este a jurar que carne só tinha comido branca. “Mas que raio de carne branca é que o senhor afinal tem comido?”. “Atão dótori? Qual havia de ser? Toicinho!”

A mim contaram-ma como verídica e até me apontaram o bom do senhor doente e de alto colesterol, mas quem sou eu? Eu vim lá da cidade, de Lisboa e embora filha de filha da terra, ainda me falta muito para conhecer o “contexto local”.


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Lula

Segunda-feira, Março 15th, 2010

[Guillermo Fariñas, jornalista cubano em greve de fome]

Ao comparar presos políticos cubanos com bandidos o presidente brasileiro Lula não está a fazer “política real”, benfazeja aos interesses do Brasil. Está, pura e simplesmente, a mostrar a sua matriz intelectual – adversa às liberdades individuais e colectivas. O velho-marxismo totalitário. Assassino. Do racismo de Lula já se sabia, disto também, nada surpreende. O que também não surpreende é a simpatia que a personagem – e todo este repelente pacote de ideias – colhe junto desses europeus travestidos no pop-guevarismo, maquilhado em guantanamices falsas como Judas.

jpt


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…para tudo se acabar na Quarta-Feira…

Sábado, Fevereiro 13th, 2010

O Carnaval é o que se sabe. Convém lembrar, sempre, que há crianças que só por estes tempos, encontram alguma alegria nas suas vidas (in)certas. Caso deste garoto (carioca do morro), sério e compenetrado no seu ensaio carnavalesco.
Agradeço ao recém – embaixador ( ao que julgo saber, promovido há poucos dias a título póstumo!!!) V de Moraes, a frase que sustenta a fotografia e post. Muito gosto eu de dizer “post” e/ ou “posts” :-)

Vosso
mvf

Rio de Janeiro, Brasil
©miguel valle de figueiredo


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O Fim do Mundo em Moçambique

Sexta-feira, Dezembro 11th, 2009



por ABM (Cascais, 11 de Dezembro de 2009)

Cortesia de Hollywood e por apenas cerca de cinco dólares (excluindo uma lata de Coca Cola e uma dose de pipocas) o exmo leitor pode ver a mais recente versão do fim do mundo, que é suposto ocorrer no dia 21 de Dezembro de 2012, mais ou menos daqui a três anos.

O novo filme de Roland Emmerich, que custou “apenas” 260 milhões de dólares a produzir e que dura umas quase insustentáveis duas horas e quarenta minutos de ponta a ponta, parte de bases interessantes. Uma, que é mais do estilo “voodoo”, é que o calendário da mais ou menos extinta civilização meso-americana dos Maias, e que nas contas deles indica que o mundo começou há seis mil e tal anos, acaba precisamente no dia acima referido, em resultado de algum (não confirmado) alinhamento de corpos celestes, que eles viram mas que nós hoje não descrutinámos ainda.

Outra base, também comprovada, é que em 2012 haverá um ressurgimento da actividade solar, sendo nessa altura a terra assolada por uma dose acrescida de ventos solares. Isto acontece todos os 11 anos e qualquer vulgar mortal que tenha um rádio de onda curta, opere um satélite, ou faça a gestão de uma rede eléctrica sabe isso.

Uma terceira base é que parte desse vento solar inclui umas minúsculas partículas chamadas neutrinos, que só agora andam a ser estudadas, e que têm a particularidade de poderem atravessar, supõe-se, o planeta de um lado ao outro. Neste filme, o aumento nos neutrinos “ferve” o interior da terra, causando a novimentação das placas terrestres – onde assentam os continentes.

Com esses pressupostos, temos 260 milhões de dólares de fim do mundo, desta vez à escala global, com cenas longas e chatas para entreter meninas teenager californianas e as suas congéneres no resto do mundo. Isso inclui a Califórnia literalmente cair para o mar (o que, sendo do imobiliário mais caro do mundo, dá um certo gozo ver), as magníficas pinturas de Michelangelo na Capela Sistina a desfazerem-se em pó por cima do Papa e os seus acólitos, a gigantesca cratera vulcânica que se situa no que é hoje o parque norte-americano de Yellostone a explodir, o Cristo-Rei no Rio de Janeiro a cair, Nova Iorque a ser demolida mais uma vez, e o maior tsunami na história do cinema a subir até ao pico mais alto da cadeia de Everest, no Nepal.

Isto com a habitual dose de amor, choro, baba e ranho, traição, humanidade e egoísmo que acompanham estas mega-produções.

O que trai o filme são as sequências infindáveis de cenas de perigo em que os nossos heróis (apropriadamente, uma família “moderna” – pais divorciados, o namorado da mãe a reboque, filhos parvinhos mimados e ressabiados) sucessivamente escapam por um triz à mais certa destruição. Na vida real, à primeira pedrada morremos. Mas aqui é umas atrás das outras e sempre tudo a andar. O que me surpreende, pois gastarem-se milhões e milhões em efeitos especiais para emprestar maior credibilibidade às cenas e depois fazer isto é deitar bom atrás de mau dinheiro.

Para os moçambicanófilos, há mesmo mesmo no fim do filme uma cena que não sei se devo rir ou chorar mas que é interessante. Depois de toda a hecatombe, a coisa acalma e os sobreviventes deste fim do mundo rumam, de barco, para o que consideram o lugar mais seguro e com mais chance de vida no que restou da Terra – nomeadamente, a cadeia de montanhas Drakensberg, que percorre a actual África do Sul e que acaba nos Libombos na parte Sul de Moçambique. Como o nível do oceano subiu algumas centenas de metros, no filme vê-se vagamente a maior parte do Sul de Moçambique…debaixo do mar.

Quando saí do cinema só me ria a pensar no que seria os Zulus e os Khosas, depois de aturarem 300 anos de guerras com os boers e lutarem para voltarem a ser os donos daquilo, e de sobreviverem um apocalipse…verem aparecer no horizonte três barcos cheios de gente para colonizar novamente a sua terra.

Seria Vasco da Gama all over again.

Claro que há um elemento interessante a meditar aqui. A julgar pelos apóstolos da desgraça, o mar vai subir uns cem metros nos próximos séculos. E, nesse caso, se se observar um mapa topográfico de Moçambique, o Sul do país literalmente desapareceria debaixo do mar. Para o exmo. leitor perceber o que isso significa, experimente subir ao topo do prédio de 33 andares na baixa de Maputo, que tem cerca de cem metros de altura. Olhe à sua volta e imagine o que é que significa o mar estar a essa altura.

Mas nem é preciso ir tão longe. Até ao fim deste século o mar deverá subir 1 a 2 metros. E se isso acontecer, a maior parte do caminho entre Maputo e a Ponta do Ouro – que já esteve debaixo do mar, pois aquilo é quase tudo areia da praia – será completamente inundada. A marginal de Maputo e toda a orla marítima até junto de Marracuene serão permanentemente inundadas.


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Best New Song

Sexta-feira, Dezembro 11th, 2009

MEDAL Nobel-Prize

por ABM (Cascais, 11 de Dezembro de 2009)

Com o JPT em trânsito para a Europa e a Sra Baronesa para o seu retiro de verão em Goa, a loja ficou mais vazia esta semana.

Mas o mundo não parou. Ontem, sentado enquanto bebericava um espesso café com leite, assisti ao vivo na BBC à cerimónia de entrega, pelo Comité Nobel, do Prémio da Paz ao actual presidente dos Estados Unidos, Barack Hussein Obama.

Como muitos dos exmos leitores, cresci com os sucessivos anúncios das entregas dos prémios Nobel a uma variedade de personalidades, quase sempre tudo boa gente, merecedoras dos mais rasgados elogios, nunca deixando de achar curiosa a particularidade de ser uma prerrogativa da Suécia, um relativamente pequeno país escandinavo mais conhecido pelo seu clima inclemente, pela beleza das suas mulheres e pela qualidade dos seus automóveis (Saab e Volvo), gerir e atribuir estes prémios em relação à nata da raça humana. Fazem-no há mais que cem anos e toda a gente leva aquilo muito a sério.

Uma curta pesquisa leva-nos ao seu criador, Alfred Nobel, que na primeira chance pirou-se da Suécia e foi viver para a mais mediterrânica San Remo, com uns saltos a Paris, e ao seu testamento, onde, para além de umas massas valentes para um conjunto de pessoas de que hoje não reza a história (incluindo uns pós para os seus criados e o seu jardineiro – simpático) deixou um fundo estimado, na moeda actual, em cerca de 250 milhões de USD.

Isto supostamente porque Nobel, que enriquecera obscenamente com o negócio dos armamentos e explosivos, ficara horrorizado com a constatação do que se pensava de si quando, aquando da morte do seu irmão Ludwig em 1888, um jornal de Paris por engano ter publicado o seu obituário, intitulando-o le marchand de la mort est mort, elogiando-o mordazmente pelo seu feito de ter “encontrado melhores formas de matar mais gente mais depressa que nunca dantes na história”.

Seja como for, Nobel canalizou a maior parte do seu património para instituir os prémios (apenas cinco no início) que, depois de uma série de peripécias, começaram a ser atribuídos em 1901.

A nomeação de Barack Obama para o prémio Nobel da Paz de 2009 a meu ver só pode ser contabilizada contra o credo que Obama defende desde que decidiu concorrer para a presidência dos Estados Unidos e o que a sua eleição significou para o mundo, após dois mandatos de George W. Bush e o seu quase narcisismo nacionalista (para não falar do resto, incluindo a actual recessão). Pois que – como o próprio ocupou boa parte do seu discurso de aceitação a explicar, algo eloquentemente – nem ele tem obra feita, nem se pode omitir que é um presidente e comandante-em-chefe de um dos mais poderosos exércitos na história do mundo, envolvido em duas guerras violentas neste momento e a congeminar outras tantas.

Mais do que tudo, Obama sobressai pelos valores internacionais que defendeu – internacionalismo, cooperação, de querer tentar fazer coisas novas, de promover valores fundamentais por que, aliás, os Estados Unidos se bateram praticamente desde que ascenderam à cena internacional entre a I e a II Guerras mundiais, tais como a democracia e os direitos humanos. E uma causa relativamente nova – a preservação do ambiente.

Num mundo cada vez mais globalizado e à beira de um ataque de nervos após oito anos de Bush, ainda por cima vindo do primeiro presidente mulato de um país que até recentemente lutava contra os demónios da descriminação racial e com uma história atribulada no cumprimento da sua promessa de igualdade para todos e ascendência com base no mérito, o surgimento algo inesperado deste homem na cena internacional – um mundo cada vez mais globalizado de cidadãos não brancos, terá sido uma inspiração para muitos. Vagamente reminiscente do que foi a atribuição do mesmo prémio ao grande Nelson Mandela (conjuntamente, para quem já não se lembra, a um muito menos celebrado mas igualmente meritório Frederick de Klerk) em 1993.

Mas, convenha-se dizer, se isto fossem os Prémios MTV, Obama nesta altura teria ganho apenas o prémio “Best New Song”.

Ademais, não sei se repararam que no seu longo discurso ele não disse praticamente nada sobre o Médio Oriente, a quase permanente dor de cabeça do mundo desde que acabou a II Guerra Mundial e que promete novas violências.

A ver vamos no que isto vai dar.


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O Minarete da Discórdia

Quinta-feira, Dezembro 3rd, 2009

(por uma AL mistificada) –

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Lembram-se do Filipe da Mafalda? Aquele miúdo dentuça sempre com uma enorme angústia, que odeia os trabalhos de casa e que não sabe bem como se posicionar na vida? Pois nestas questões como a dos minaretes suíços é assim que me sinto – filipovada!

Se bem entendi, o referendo foi exigido pelo Swiss People’s Party de cariz nacionalista, que vê nos minaretes “o símbolo de um crescente poder político Muçulmano que poderá um dia transformar a Suíça numa nação Islâmica” (?!?!?!). Embora tal receio me pareça absurdo e eivado de xenofobia, acho que os suíços têm o direito de terem os medos que escolheram ter. Tal como acho que têm o direito de decidir o que põem ou não põem no seu país, quer agrade ou não aos outros. A democracia tem destas coisas e ou bem que se assume que o povo sabe escolher e se consulta em eleições e referendos; ou bem que se assume que o povo pouco ou nada sabe e, portanto, ignora-se e governa-se.

Pessoalmente acho que estão a dar tiros nos pés e que os receios de hoje semeiam os terrores de amanhã. Tem JPT razão quando menciona as questões importantes que este tema levantou, mas eu continuo filipovada! O que subjaz nisto tudo é a demonização de uma religião julgada exclusivamente pela lente do fundamentalismo, da burkha e da excisão feminina. É assim como julgar o catolicismo exclusivamente pela lente da inquisição. E neste processo também nos esquecemos que nos anos 70 o terror era irlandês, alemão e italiano; e que os MacVeighs actuais são evangelistas; e que cristãos e católicos também promovem a imposição do seu credo com as suas missões. E enquanto nos vamos esquecendo disto, esquecemos os milhões de muçulmanos que connosco convivem pacificamente e que cada vez têm menos espaço para expressar a sua dissidência. E assim alegremente, de amnésia em amnésia vamos radicando e fazendo radicar identidades e alimentando o fundamentalismo que tanto criticamos e receamos.

Clamamos agora que esta proibição é um atentado à liberdade religiosa. Mas a proibição dos minaretes não se estende à proibição de mesquitas (estas sim local de culto) que, de qualquer forma, já existem mesmo sem minaretes. E que, a proibição da construção de minaretes não implica a interdição da liberdade de culto que, neste caso, se pratica na mesquita e não no dito minarete. Minarete esse que nem existia nas mesquitas primordiais e continua a não existir em muitas das mesquitas modernas. Aliás a função do minarete é proporcionar um ponto alto de onde se possam chamar os fiéis para as orações. Assim como os campanários e os sinos nas igrejas de outras denominações religiosas e que em Portugal, por exemplo, tanta arrelia têm dado em certas freguesias. Gente haveria que certamente até votaria contra a existência dos campanários e dos sinos, houvesse ele um referendo semelhante em Portugal. E fosse ele assim, queria ver se a ONU e as Amnistias e os iluminados deste mundo também se pronunciariam sobre a intolerância das nossas beatas ou dos nossos médicos. Mas isto sou eu, claro!, que até sou parcial porque se me perguntassem, preferia mil vezes ser acordada pelo muezzin com a chamada do Ezan do que com o Ave-Maria fanhoso que pontua as badaladas horárias dos campanários das nossas igrejas:

Não sei quem são os dissidentes, críticos, apoiantes, delatores ou promotores deste debate do achobem/achomal, mas vistas bem as coisas apetece-me perguntar: “anda tudo parvo?” Desde quando é que a empena de um templo equaciona liberdade religiosa?

Quanto ao referendo, acho que os Suíços estão de parabéns! Parece-me muito bem que se façam referendos mesmo para questões que possam ser consideradas triviais; sempre é melhor que ir-se reduzindo a cidadania e a participação democrática ao acto eleitoral. E achava muito bem que por aqui se fizesse um referendo sobre a construção da bendita igreja do Restelo, cujo design me parece mais apropriado para um casino temático em Las Vegas, sei lá,  com o nome de Noah’s Flood ou Biblical Waters, ou qualquer coisa no género. Senão soubesse melhor, diria mesmo que o projecto teria sido concebido pelo Sol Kerzner na ressaca de um episódio epifânico. Mas hey!, isto sou só eu; pelos vistos há quem goste! E já agora, o que está planeado para aquele campanário que tão alto se elevará sobre Lisboa? Uma aparelhagem capaz de atirar decibéis até Moscavide? E não acham que o campanário até parece um minarete disfarçado? Será que vem aí uma conspiração de surdos ou estará aqui o símbolo de um ecumenismo incipiente?

PS: Não querendo estragar a festa de anos da Maschamba tinha agendado este post, tendo-me esquecido no processo da diferença horária. Por lapso o post acabou por ser publicado ainda estava eu a editá-lo, facto para que fui alertada por ABM. Está agora acabado. Portanto, se já viu este post por aqui ligeiramente diferente não foi um poltergeist que invadiu o seu computador.


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O Paradoxo dos Minaretes Suíços

Quarta-feira, Dezembro 2nd, 2009

minarete01

Em referendo os suíços proibiram a construção de minaretes no seu país. Apesar de existirem apenas quatro. Muito haverá para discorrer sobre esta intolerante democrática decisão popular.

Há muitas reacções sobre o assunto. Algumas laudatórias e/ou contextualizadoras. Outras, a maioria, críticas da intolerância revelada. Não posso deixar de opinar sobre o que acho mais interessante deste episódio: mais uma vez são exactamente os sectores euro-ocidentais mais intolerantes para com a “cultura” euro-ocidental que mais defendem a tolerância para com a “cultura” exo-euro-ocidental.

Um paradoxo nada simples? Nem tanto, apenas a perenidade do “remorso do homem branco”. Em plena era neo-comunista, com todas as suas necessárias reformulações.

Sobre a tolerância democrática? A liberdade de culto religioso? O processo histórico que os originou? Os processos de formação e reprodução das identidades culturais e fisionomias políticas? Tudo questões importantíssimas. Mas questões a abordar independentemente dessas vertentes. Porque elas são, pura e simplesmente, poluentes. Nascidas e ornamentadas do culto contra a tolerância e a liberdade. Apesar das retóricas.

jpt


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Amadores

Terça-feira, Novembro 24th, 2009

(por AL deprivada de sono e inspirada pelo The Independent em 24 Nov 2009) –

Foi o Reino Unido abalado há uns meses pelo chamado escândalo das despesas dos membros do Parlamento. Basicamente alguns destes terão abusado do sistema vigente, concebido para compensar os deputados britânicos de despesas incorridas enquanto no desempenho das suas funções.

Embora a maioria não tivesse cometido ilegalidades no sentido restrito do termo e tivesse reclamado despesas a que, em princípio, teriam tido direito, o que escandalizou e chocou a opinião pública foi a forma como esse direito foi distorcido para poder ser exercido. Deputados que, por exemplo, passaram a reclamar como residência principal uma localidade fora de Londres para assim poderem reclamar despesas de deslocação e alojamento. Ou que, como menciona o artigo cujo link aqui se fornece, não tenham na realidade ficado em hotéis mas sim em casa de amigos. E como souberam os eleitores de tais semi-legalidades (termo adorável!)? Através da publicação on-line no site do Parlamento das reclamações dessas mesmas despesas, claro! Enfim, coisas de anjinhos…

A crise institucional foi enorme e levou ao estabelecimento de uma comissão de supervisão e reforma do regulamento das despesas. Originou ainda um inquérito judicial que culmina agora, ao que parece, na recomendação para que certos deputados sejam criminalmente imputados. Deveriam talvez vir fazer uns estágios aqui para os lados de S Bento e aprendiam logo a cortar o mal pela raiz: arranjavam uns jornalistas dispostos a levantarem suspeitas de manipulação nos registos electrónicos das despesas por uma, sei lá, mão oculta; questionavam a legalidade da publicação das despesas num site público (sim, que o povo é ingrato!); criticavam veladamente e de mansinho o colectivo por comportamentos “menos correctos” (como fizeram com os que gostam muito de ir ao Dubai); faziam umas ligeiras alterações aos regulamentos vigentes e, mais importante ainda, passavam a proibir a publicação das despesas dos deputados. Enfim, estes britânicos não passam de uns amadores!


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O Outro Maschamba?

Domingo, Novembro 15th, 2009

bananas c54

por ABM (Cascais, 15 de Novembro de 2009)

Esta noite tive que usar um computador diferente para verificar o meu correio e aproveitei para ver os comentários desportivos sobre o 1-0 que a equipa portuguesa de futebol extraiu dos visitantes bósnios.

Para encontar o endereço deste blogue, usei o Gúgele mas enganei-me. Os exmos leitores já se devem ter apercebido que o nome é Ma-Schamba, presumo que uma variação do termo “machamba”, que traduz uma área de terreno cultivada ou, hiperbolizando, uma fazenda.

Mas para variar enganei-me e, em vez do nome correcto, introduzi “mashamba”. Em fulminantes 0,1 microns de segundo, apareceram logo inúmeros resultados da minha “pesquisa” e logo fui dar a este Mashamba, que é a marca de um conjunto de empresas agrícolas sedeadas no Uganda e cujo objectivo é vender vegetais fresquinhos e acabados de colher aos mercados da Europa dentro de 36 horas do momento da respectiva colheita (bem lá se vão as emissões de CO2 para o lixo).

O site está magnificamente feito e recheado de informações sobre tudo e mais alguma coisa, inclusivé várias receitas para os alimentos que vende – como as bananas assassinas que se vêm lá em cima e que mais parecem mísseis Scud comestíveis.

Pareceu-me, pelos nomes dos “tops” das ditas cujas, que aquilo é um negócio que envolve nórdicos.

E, espera-se, resmas e resmas de ugandeses.


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O Nobel

Domingo, Outubro 11th, 2009

O Nobel da Literatura não foi para Roth – múltiplos cultos bloguistas se agitam pois “Roth não é vencedor apenas porque é americano”, maldita política, maldita ideologia. No dia seguinte o Nobel da Paz foi para Obama – múltiplos cultos bloguistas se agitam pois “Obama é o vencedor apenas porque é americano”. Raios partam … os múltiplos cultos bloguistas.

jpt


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