(por AL em reminiscências) -

O jornal The Independent de ontem trazia uma notícia sob o título (tradução minha) “Como o Ocidente envenenou o Bangladesh”.
De acordo com o artigo, cerca de 20 milhões de pessoas no Bangladesh correm o risco de morte prematura devido a um projecto de água limpa, bem intencionado mas mal planeado. Resumindo muito brevemente, na década de 1970 as Nações Unidas e o Banco Mundial, numa tentativa de melhorarem a qualidade da água potável responsável pela morte prematura de 250.000 crianças por ano devido a diarreias e outras doenças associadas a águas inquinadas, enveredou num projecto de investimento em massa na abertura de furos para água potável. Embora tendo realizado toda uma série de testes para verificar a qualidade da água e os níveis de diversas substâncias contaminantes, não foi realizado qualquer teste para verificar os níveis de arsénico que, nesta região, ocorre naturalmente. Vinte anos depois verificou-se que cerca de metade dos 10 milhões de furos estavam contaminados com altos níveis de arsénico. Calcula-se agora que 1 em cada 10 pessoas que consomem água destes furos corre o risco de morte prematura devido a cancros de pulmão, bexiga e pele. Apesar dos esforços entretanto despendidos para controlar esta catástrofe, calcula-se que cerca de 20 milhões de pessoas dependam ainda do consumo da água destes furos contaminados. A contaminação estende-se ainda às culturas irrigadas com esta água.
Aparentemente, a contaminação dos lençóis de água com arsénico ocorre naturalmente nesta região e, embora as Nações Unidas e outras agências de desenvolvimento argumentem terem sido realizados todos os testes que, na época, correspondiam aos padrões internacionalmente estabelecidos, grupos activistas no Bangladesh contrapõem que se deveria ter tido mais cuidado com a geologia e topografia locais. Entre argumentos e contra-argumentos não se apuram responsabilidades.
Embora este caso seja dramático e de terríveis consequências, este parece-me a mim um problema comum e recorrente do “desenvolvimento internacional”: cumprem-se os padrões internacionalmente estabelecidos e reconhecidos e ignoram-se demasiadas vezes as especificidades locais. Ao longo de muitos anos de trabalho nesta área, tenho algumas histórias deste género que posso partilhar. Felizmente sem as consequências devastadores do Bangladesh, mas que ilustram bem o impacto das condições endógenas nas melhores das intenções exógenas.
Lembro-me de um projecto de um poço numa tabanca da Guiné-Bissau, em que as mulheres tinham que andar cerca de 2 km até à fonte de água mais próxima. Veio uma ONG com fundos para a abertura de um poço. O chefe da tabanca gostou e aprovou; reuniu-se a tabanca e a população alinhou; as mulheres mostraram agrado. E assim se fez e se inaugurou com pompa e alegria o dito poço. Nos primeiros dias foi um corrupio ao poço, mas com as semanas foi abrandando o ritmo da frequência e passado alguns meses o poço não era mais usado e as mulheres iam novamente duas vezes por dia ao rio, a 2 km de distância. Tinha sido feito o melhor dos planeamentos, tinha-se obtido o apoio dos utentes, tinham trabalhado no projecto gentes empenhadas. O que ninguém tinha percebido e que as mulheres não contaram, talvez porque isto não são coisas que se contem de ânimo leve a quem connosco pouco convive, é que era quando iam buscar água ao rio, longe da aldeia, que elas partilhavam as suas histórias e experiências; que as mais velhas aconselhavam as recém-casadas ou as casadoiras; que as adolescentes ouviam dos factos da vida; que o ir buscar água ao rio representava para elas momentos de intimidade feminina partilhada, que o poço, estando no meio da aldeia, não conseguia proporcionar. Era lá no rio, longe dos ouvidos dos homens que as mulheres tinham criado o seu espaço.
Outro projecto, num outro país africano, pretendia conter a degradação ambiental devida ao abate de lenha para consumo doméstico. Introduziram-se uns fogões ecológicos, muito giros e económicos, feitos de materiais locais. Organizaram-se workshops, fizeram-se charts, as mulheres gostaram dos fogões, houve distribuição e… os fogões não eram usados e a lenha continuava a ser abatida para cozinhar. O primeiro consultor avaliador do projecto, acabado de chegar lá do Canadá, constatou que os fogões não eram usados porque as mulheres quando cozinhavam se sentavam no chão e os fogões, mais altos que o lume de lenha, impediam que elas vissem o que mexiam dentro dos tachos e não eram cómodos. Como disse? Então o senhor quando chegou à aldeia não lhe trouxeram um banquinho, ou uma pedra para se sentar? Vai segundo consultor, consultora neste caso, mais sábia das condições locais e a quem contam a mesma história – os fogões são altos… Oh irmãs, tenham lá paciência, mas essa história não pega! Então vocês não se sentam em banquinhos e pedras para outras tarefas? Não podem fazer buracos no chão e assim reduzir a altura do fogão? Risos e entreolhados, tapares de cara com as capulanas, enfim, sinais evidentes que havia mais nesta história. Até que uma mais velha lá explica, com paciência para que a ignorante consultora perceba bem, que os maridos não gostam do sabor da comida dos fogões porque não sabe a fumo; e como não gostam da comida dos fogões em que elas cozinham, procuram namoradas que cozinham para eles com lenha. Então, a bem da paz doméstica, lá voltaram elas também à lenha, que o caminho para o coração dos homens pelos vistos passa mesmo pelo estômago. Ainda que para tal tenham que todos os dias ir um pouco mais longe para trazer a quantidade de lenha que necessitam.
Não pretende este post ser uma diatribe contra o desenvolvimento. Ambos os projectos protagonistas destas duas pequenas historias, tinham sido bem pensados e foram planeados cuidadosamente por gente muito empenhada no que fazia. Tiveram o cuidado de visitar os utentes dos projectos que estavam a conceber e fizeram o melhor que podiam dentro dos limites que tinham. Mas o “contexto local” não se fica a conhecer com duas ou três visitas e a confiança dos utentes não se ganha com uma workshop e um grupo focal. O “contexto local” é muito mais rico e variado do que se pensa geralmente à partida, mesmo quando se trata da nossa própria cultura, tal como ilustra a história que deixo a terminar este post.
A aldeia da minha mãe, a meia dúzia de quilómetros de Beja, é parca em habitantes mas fértil em histórias. Havia por lá um homem que teve um arremedo de trombose e teve que ir a Beja ver um “Sr. Dr. que veio de Lisboa”. Feitas as análises confirma-se o risco de doença cardio-vascular e detecta-se um nível altíssimo de colesterol. O Sr. Dr. lá de Lisboa recomenda uma dieta rigorosa ao doente, alentejano de cepa que da terra nunca saiu nem sequer para ir ao Barreiro (era para onde emigravam os da aldeia), explicando que, entre outras restrições, “agora carne, o senhor só pode comer carne branca, e volte cá para o mês que vem depois de repetir as análises”. Lá veio o nosso homem de volta à aldeia, com a mulher a reboque e determinada a fazê-lo cumprir a dieta. Passado o mês e repetidas as análises, a situação do doente tinha piorada com níveis de colesterol visivelmente superiores aos da análise anterior. Faz o Sr. Dr. lá de Lisboa inquérito rigoroso aos hábitos alimentares do doente, com este a jurar que carne só tinha comido branca. “Mas que raio de carne branca é que o senhor afinal tem comido?”. “Atão dótori? Qual havia de ser? Toicinho!”
A mim contaram-ma como verídica e até me apontaram o bom do senhor doente e de alto colesterol, mas quem sou eu? Eu vim lá da cidade, de Lisboa e embora filha de filha da terra, ainda me falta muito para conhecer o “contexto local”.