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A NOVA MAPUTO DOS RICOS

por ABM (9 de Março de 2010)

Se alguém tiver dúvidas quanto à pobreza ou riqueza, à ambição ou negociatas, ou ainda à sul-africanização, ou melhor, a Joanesburguização ou Durbanização da cidade de Maputo, observe apenas as visualizações, em baixo, do que se planeia (mais ou menos) para a marginal e os terrenos da defunta Feira Agrícola, Comercial e Industrial de Moçambique (FACIM) cuja pertença ignoro.

As maquetes foram-me enviadas pelo amigo do amigo do amigo. O que, se não me engano, significa que a esta hora metade de Maputo e arredores já as viu.

Longe de mim questionar o progresso e o crescimento da cidade, que não se soube libertar a tempo de ficar ensanduichada nos anos 60 e 70 pelos terrenos circundantes difíceis, pelo desafio de rasgar auto-estradas para Norte e uma ponte para Sul (a atempada libertação da longa noite colonial não deu tempo para isso, presume-se, e a pancadaria que veio a seguir também não deu tempo para mais).

Mas fazer ali uma espécie de Bairro da Coop 2 em estilo Noveau Sandton em frente à nesga da Baía é, enfim, algo menos do que eu esperava.

Eu sei que, ao preço que comanda o metro quadrado de terreno e de construção na cidade, surpreende-me que não apareça algum a fazer uma torre de 110 andares como aquelas no Dubai. É negócio, se calhar bom negócio, e se houver quem pague isto tudo, ainda melhor.

As minhas dúvidas existenciais, aliás, são outras. Fazer prédios ali se calhar até é a parte fácil. Mais duvidoso é saber como vai ser com coisas mais mundanas, tais como a infra-estrutura de água, electricidade e esgotos necessárias para suportar este projecto. Não havendo caves (a quota de água ali é elevada) onde vão parar os carros todos, e se os esgotos vão cair todos directamente na Baía ou se o projecto inclui a colocação de uma estação de tratamento de resíduos para a cidade. Finalmente, impermeabilizando-se uma área tão sensível e com uma enorme barreira atrás a qual não tem qualquer sistema formal de escoamento de águas pluviais, para onde é que vão escoar as águas quando cair uma daquelas chuvas a à antiga sobre Maputo?

Isto para não mencionar o facto elementar que aqueles terrenos não são terrenos normais: há cem anos, foram aterros feitos sobre uma praia, ou seja, não são à partida os melhores para se construirem sobre eles dezenas de prédios (razão pela qual nada se construiu ali durante mais que sessenta anos e aquilo era um parque verde da cidade, para quem não se lembra, com eucaliptos para suporte e drenagem). Na eventualidade de um tremor de terra mais estranho, as construções aí correrão o risco decorrente da liquefacção dos terrenos.

Já o referi antes e não sou o primeiro a dizê-lo: acho que é altura de se fazer uma ponte para a Catembe e expandir a cidade para Sul. E uma auto-estrada para Norte

E começar a pensar nos investimentos em infra-estrutura de base.

E em reabilitar e manter o que já existe.

E criar mais parques e zonas verdes para a cidade.

Mas isto é só uma opinião minha.

Maputo a Nadar

O Mercado Central em Maputo, 27 de Janeiro de 2010

por ABM (Alcoentre, 28 de Janeiro de 2010)

O JPT anda tão ocupado entre livros e blogues e a docência e a dolce vita da Sommerschield, que não deve ter reparado que depois de uma valente carga de água, a baixa de Maputo, um pouco como acontece com Veneza nas marés vivas, inundou mais uma vez ontem. Mas as minhas fontes secretas de informação discretamente tiraram as fotos que se seguem, captadas ontem na baixa da capital moçambicana e enviadas para o centro de operações ribatejano do Maschamba.

O que é curioso é que a cidade de Maputo, um invulgar aglomerado urbano especialmente se se tiver em conta que as cidades criadas pelos portugueses são invariavelmente um intragável e quase medieval emaranhado de casas e ruas, e que tem um traçado considerado moderno e bem conseguido, tem apenas um, incontornável, indesculpável, inexplicável calcanhar de Aquiles: a baixa.

Porquê?

As razões do problema são fáceis de explicar. Como o erro ocorreu é mais difícil explicar, pois acho que dava para perceber o que iria acontecer.

Antes de Maputo ser o que era, a Lourenço Marques original era uma língua de praia que quando a maré subia ficava uma espécie de ilha onde hoje de situam os terrenos entre a Praça 25 de Junho e a estação dos caminhos de ferro.

Eventualmente, essa “ilha” foi ligada aos terrenos confinantes, aterrando a depressão que a separava dos então chamados Altos do Maé (que nem suspeito quem tivesse sido) e logo por cima foi construída a actual Avenida 25 de Setembro.

Só que alguém se enganou e deixou ali ficar uma depressão em relação aos terrenos (sobre os quais já se tinha construído) onde hoje ficam as ruas do Bagamoyo e Consiglieri Pedroso.

O resultado? Quando chove muito, a zona entre o Hotel Tivoli e o Mercado Central inundam, sem apelo nem agravo. É por essa razão que a actual sede do Millennium-BIM, começada a construir ainda antes de 1974 para ser a sede do então BCCI, e que tem quatro andares por baixo do piso térreo, tem uma estranha configuração no seu piso térreo. Literalmente, são barreiras dissimuladas para impedir que, numa cheia, as águas entrem para dentro do edifício. Mas já aconteceu.

Já houve vários esforços feitos para tentar resolver o problema, o mais recente dos quais durante a memorável vereação do Dr. Eneias Comiche, mas em última instância a área de recolha das águas que para ali fluem – praticamente metade da cidade de Maputo cimento – é demasiado grande para que a baixa aguente um tal embate.

Portanto, para quem está na baixa, a solução para já e estar atento aos boletins meteorológicos e mexer-se depressa na eventualidade de uma chuva torrencial.

E ter um barco a remos.

Detalhe da Avenida 25 de Setembro (para os menos informados, novo nome da velha Avenida da República)

Mais uma perspectiva da baixa inudada no dia 27 de Janeiro de 2010

Maputo em Pano de Fundo

por ABM (Cascais, 21 de Janeiro de 2010)

Não pagámos a renda e eu fiquei desligado durante dois dias. Coisas da internet.

Junto uma canção excelente, agradável, segundo o nosso leitor Sr, Sérgio Braz (cuja informação agradeço) da banda moçambicana 340 ml, que anda por Gauteng.

Os seus membros são Pedro (voz, sampler e percursão), Tiago (guitarra, coro e teclado), Rui (baixo e coro) e Paulo (percussão e coro) estudaram e vivem na África do Sul.

Já editaram dois álbuns: Moving (2003) e Sorry For The Delay ( 2008).

Como certas histórias que se contam por aí, eu oiço tanto a canção, ou vejo as pessoas a dançar à minha frente, como vejo ali tudo o que está à volta.

Maputo, Moçambique, no esplendor da sua decadência e renascença.

E danço.

A canção é Fairy Tales.

Voltem sempre. Magnífico.

Lizzie Had a Dog in LM

Lizzie & Bóbbi

por ABM (Cascais, 16 de Janeiro de 2010)

A lógica da breve discussão prévia o impunha e uns meros 15 euros o resolveram.

Disfarçado de dono de um veleiro de passagem por Cascais, e após breve e inócua aventura na Livraria Bulhosa no Cascais Villa, peregrinei até à quiçá mais próspera e dotada FNAC do Cascais Shopping, com a Dulce Gouveia a reboque, para comprar a grande obra recente da Escritora de origem moçambicana, publicada pela Editora sediada em Coimbra.

Mas na secção dos livros dou logo de caras com o José Rodrigues dos Santos no corredor, que é máfia moçambicana do melhor e estes dias uma espécie de versão lusa do Dan Brown. Com ele não há cá memórias para ninguém. Antes que ele pensasse que eu ia ao livro dele sobre a Al-Khaeda, que se encontra à venda em todas (mas todas) as livrarias, grandes superfícies, aeroportos e até por baixo de vãos de escada, escapuli-me pelo café da loja para o outro lado e fui ter com uma daquelas meninas simpáticas da FNAC que usam um coletezinho verde e nos ajudam a encontrar os livros.

“Olá, boa tarde. Procuro o novo best seller daquela escritora nascida em Moçambique Isabela Figueiredo e não encontro”.

“Só um momento, sefachavor”.

Clic clic clic clic no computador.

“Sim, devemos ter ainda uma cópia na loja, deixe-me ir ver”.

E desapareceu.

15 minutos à espera.

Após o que a menina surgiu do nada com um livrinho pequenino na mão.

“Quanto é?”

“15 euros”.

“15 euros! Bolas. Deixe-me cá ver”.

E peguei no volume. E inspeccionei-o.

Preliminarmente.

Na verdade o livro é algo estranho.

A seguir à capa e a contra-capa, tem quatro folhas verde-alface sem nada, duas de cada lado, que deve ser para o leitor precavido tomar apontamentos. No fim, a seguir à folha verde-alface, diz uma nota que foi composto numa empresa gráfica na bela Vila Nova de Famalicão, “34 anos após o regresso da autora a Portugal”. Ok. Suponho que uma anotação válida para quem ao chegar ao fim do livro ainda não se tiver apercebido desse facto da vida da autora, ou que não saiba fazer contas de subtraír (pois 2009-34 = 1975) infelizmente um provável infortúnio com o estado da educação nos dias que correm.

Só que na pala interior da capa tem mais uma foto simpática da Isabela, esta circa 2009 e sans Bóbbi, e mais uma notinha a dizer que ela nasceu em Lourenço Marques em 1963, que em 1975 veio para Portugal, e que nunca mais voltou.

Espera aí: se aqui diz que ela nasceu lá, que veio para cá e que nunca mais voltou, porque é que no fim do livro diz que ela regressou a Portugal?

É um mistério. Assumo que deve fazer parte da complexa e mística dialética subjacente aos conteúdos ali abordados. Ora veja-se.

Ela nasce e cresce em Moçambique.

Mas ao viajar para Portugal em 1975, regressa.

Ora isto é para mim uma alegoria fantástica.

Tem umas fotografias: na capa (a foto ali no topo) a Isabela avec Bóbbi. Depois duas piquininas de Lourenço Marques nos tempos e que mal se conseguem ver, e a seguir vêm: a Isabela a segurar o rádio de papá debaixo de uma papaeira, a Isabela vestida de saloia portuguesa num barco, a Isabela a fazer pose num parque, a Isabela na marginal de Lourenço Marques e a Isabela na comunhão.

Na página 7, presume-se que para dar o tom do que está para vir, três citações, uma de Paulo Auster a falar do pai (o do Paulo Aster), e duas do italiano Primo Levi, a mastigar a presumível fungibilidade da Memória Humana. Bem, ou pelo menos a dele.

E, presume-se, por osmose subliminar associativa, a da Isabela.

A menção do americano Paulo Auster confunde-me e levanta-me imediatas suspeitas quanto à proeminência fotográfica do Bóbbi. Pois na sua Timbuktu, não a africana mas uma mitológica e utópica urbe, são as memórias do rafeiro Mr. Bones que descascam, numa odisseia tão deprimente como cativante, a existência de Willy Christmas, um homem infeliz e falhado, que morre à porta da casa onde o seu ídolo, Edgar Allan Poe, vivera. Será isso? O que acha, quais as memórias de Bóbbi da sua dona e da Lourenço Marques que a viu nascer e crescer? será que Bóbbi também regressou?

Primo Levi suscitou-me ainda maior supresa. Pois a sua escrita, sendo judeu e tendo passado pelos maiores horrores da carnificina Nazi, incluindo quase um ano em Auschwitz-Birkenau, é mais conhecida pelo conteúdo memorialista desse período – memórias que o perseguiram até à morte. Em 1987, o grande Elie Wiesel, que era professor na Universidade de Boston, onde estudei gestão e um pouco sobre o judaísmo nessa altura e durante dois anos, e ele próprio um sobrevivente do horror Nazi, disse que, quando morreu – e referindo-se às suas peristentes e pungentes memórias – Levi na verdade morrera em Auschwitz mas quarenta anos depois.

Que associações poderá haver entre a obra e o percurso de Primo Levi e este livro de Isabela? A curiosidade avoluma-se dentro de mim.

Procurei, e descubro que o livro não tem índice. Tem, isso sim, em 136 páginas (as que estão numeradas), textos sequenciados, de 1 a 43. Sem títulos. Só os números.

E na verdade, aí me apercebi, afinal aquilo não é só um livro (daí, decorrem, presume-se, os 15 euros).

Logo a seguir ao texto Número 43, depois de uma folha com umas das fotos piquininas de Lourenço Marques que não se vê bem, tem outra onde apenas figura, a meio, a singela e solitária frase, que se presume dedicatória: “À memória do meu pai”.

Repare-se no detalhe: não é em memória do pai. É à memória do pai.

Hum.

E a seguir tem uma página que diz, na vertical, com o texto a apontar na direcção da lomba do livro, em letras garrafais “Adenda” onde, aí sim- surpresa!- tem um índice, mas um indicando o que vem a seguir (aos textos numerados de 1 a 43): seis textos descritos como posts, incluindo o intrigantemente títulado Falta dinamitar o Cristo-Rei e logo abaixo o assaz mais invocativo de assunto gastronómico, Fígado de Porco; e,  finalmente,  Uma conversa com Isabela, que inclui, um pouco como nas (brevemente findas) conversas do Professor Marcello na RTP aos domingos à noite, e à margem das doze páginas do texto da entrevista propriamente dita (feita por não se sabe quem) as sugestões dela de dez livros, cinco datas e cinco lugares.

Portanto, isto é o que se pode chamar um pacote completo.

Que agora é meu.

Por, afinal, uns modestos 15 euros.

E que, feito o investimento e aguçada a curiosidade, vou ler este fim de semana, de fio a pavio.

E de que logo darei conta aos exmos leitores, após reler também a prosa canciana et al.

Para tirarmos esta coisa a limpo de uma vez por todas.

Um bom fim de semana a todos.

O Fim do Mundo em Moçambique



por ABM (Cascais, 11 de Dezembro de 2009)

Cortesia de Hollywood e por apenas cerca de cinco dólares (excluindo uma lata de Coca Cola e uma dose de pipocas) o exmo leitor pode ver a mais recente versão do fim do mundo, que é suposto ocorrer no dia 21 de Dezembro de 2012, mais ou menos daqui a três anos.

O novo filme de Roland Emmerich, que custou “apenas” 260 milhões de dólares a produzir e que dura umas quase insustentáveis duas horas e quarenta minutos de ponta a ponta, parte de bases interessantes. Uma, que é mais do estilo “voodoo”, é que o calendário da mais ou menos extinta civilização meso-americana dos Maias, e que nas contas deles indica que o mundo começou há seis mil e tal anos, acaba precisamente no dia acima referido, em resultado de algum (não confirmado) alinhamento de corpos celestes, que eles viram mas que nós hoje não descrutinámos ainda.

Outra base, também comprovada, é que em 2012 haverá um ressurgimento da actividade solar, sendo nessa altura a terra assolada por uma dose acrescida de ventos solares. Isto acontece todos os 11 anos e qualquer vulgar mortal que tenha um rádio de onda curta, opere um satélite, ou faça a gestão de uma rede eléctrica sabe isso.

Uma terceira base é que parte desse vento solar inclui umas minúsculas partículas chamadas neutrinos, que só agora andam a ser estudadas, e que têm a particularidade de poderem atravessar, supõe-se, o planeta de um lado ao outro. Neste filme, o aumento nos neutrinos “ferve” o interior da terra, causando a novimentação das placas terrestres – onde assentam os continentes.

Com esses pressupostos, temos 260 milhões de dólares de fim do mundo, desta vez à escala global, com cenas longas e chatas para entreter meninas teenager californianas e as suas congéneres no resto do mundo. Isso inclui a Califórnia literalmente cair para o mar (o que, sendo do imobiliário mais caro do mundo, dá um certo gozo ver), as magníficas pinturas de Michelangelo na Capela Sistina a desfazerem-se em pó por cima do Papa e os seus acólitos, a gigantesca cratera vulcânica que se situa no que é hoje o parque norte-americano de Yellostone a explodir, o Cristo-Rei no Rio de Janeiro a cair, Nova Iorque a ser demolida mais uma vez, e o maior tsunami na história do cinema a subir até ao pico mais alto da cadeia de Everest, no Nepal.

Isto com a habitual dose de amor, choro, baba e ranho, traição, humanidade e egoísmo que acompanham estas mega-produções.

O que trai o filme são as sequências infindáveis de cenas de perigo em que os nossos heróis (apropriadamente, uma família “moderna” – pais divorciados, o namorado da mãe a reboque, filhos parvinhos mimados e ressabiados) sucessivamente escapam por um triz à mais certa destruição. Na vida real, à primeira pedrada morremos. Mas aqui é umas atrás das outras e sempre tudo a andar. O que me surpreende, pois gastarem-se milhões e milhões em efeitos especiais para emprestar maior credibilibidade às cenas e depois fazer isto é deitar bom atrás de mau dinheiro.

Para os moçambicanófilos, há mesmo mesmo no fim do filme uma cena que não sei se devo rir ou chorar mas que é interessante. Depois de toda a hecatombe, a coisa acalma e os sobreviventes deste fim do mundo rumam, de barco, para o que consideram o lugar mais seguro e com mais chance de vida no que restou da Terra – nomeadamente, a cadeia de montanhas Drakensberg, que percorre a actual África do Sul e que acaba nos Libombos na parte Sul de Moçambique. Como o nível do oceano subiu algumas centenas de metros, no filme vê-se vagamente a maior parte do Sul de Moçambique…debaixo do mar.

Quando saí do cinema só me ria a pensar no que seria os Zulus e os Khosas, depois de aturarem 300 anos de guerras com os boers e lutarem para voltarem a ser os donos daquilo, e de sobreviverem um apocalipse…verem aparecer no horizonte três barcos cheios de gente para colonizar novamente a sua terra.

Seria Vasco da Gama all over again.

Claro que há um elemento interessante a meditar aqui. A julgar pelos apóstolos da desgraça, o mar vai subir uns cem metros nos próximos séculos. E, nesse caso, se se observar um mapa topográfico de Moçambique, o Sul do país literalmente desapareceria debaixo do mar. Para o exmo. leitor perceber o que isso significa, experimente subir ao topo do prédio de 33 andares na baixa de Maputo, que tem cerca de cem metros de altura. Olhe à sua volta e imagine o que é que significa o mar estar a essa altura.

Mas nem é preciso ir tão longe. Até ao fim deste século o mar deverá subir 1 a 2 metros. E se isso acontecer, a maior parte do caminho entre Maputo e a Ponta do Ouro – que já esteve debaixo do mar, pois aquilo é quase tudo areia da praia – será completamente inundada. A marginal de Maputo e toda a orla marítima até junto de Marracuene serão permanentemente inundadas.

Democracia

jpt

Maputo 2009

Nyerere demolição 1

[Av. Julius Nyerere, Novembro 2009]

 

Esta é uma das imagens de Maputo 2009, ano da explosão do imobiliário na capital, da substituição das antigas casas em troca de modernos (entenda-se, altos) edifícios. A cidade não voltará a ser o que era, o primado do volume já consagrado nos projectos urbanísticos tardo-coloniais está aí, acompanhando o crescimento de investidores. É certo que o relativo imobilismo da construção de prédios nas zonas centrais da cidade não poderia ser eterno. E que muito do parque imobiliário estava decadente ou desadequado. Mas é com alguma angústia que se poderá prever a extrema densificação do urbanização, o tal endeusamento do volume. E, não só por razões estéticas, também pela erupção da previsível barreira entre a cidade e o mar e rio, já aí. Para além da multiplicação de utentes, não acompanhada de estruturas rodoviárias.

Em lado nenhum o negócio imobiliário conhece barreiras – que não sejam as da falta de financiamento. Não será em Moçambique coisa diferente. Mas sobreviverão algumas zonas ex-libris de uma cidade que é lindissima? Sê-lo-á no futuro? Ou apenas mais uma mescla de torres de vidro (para o ar condicionado), sonhos dos arquitectos do apenas-hoje, ou de Maputos Shoppings e Mesquitas “Velhas”?

Restará alguma nesga de céu?

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As Acácias da Cidade ou a Cidade das Acácias

Na sequência do aniversário de Maputo presto aqui uma modesta homenagem a quem a enfeita – as acácias rubras que, a partir de Outubro, pintam a cidade de vermelho. Desconsigo dissociar Maputo das suas acácias.

Acacias

Acacias_2

Acacias2

AL

Dois triângulos?

obrigatórios? Uma para atrás outro para a frente do carro, quando este avariado? Para a frente do carro? Boato? Verdade? Pelo sim pelo não já está o segundo, amais o colete nocturno. Dois triângulos?

O tonto

A criancinha, filho amadíssimo, no “lugar do morto”.

Coragem Suicidária

Cumprir o traçado da Av. 25 de Setembro.

Desenvolvimento Sustentável

Uma grua estacionada há semanas na Av. Julius Nyerere, ocupando uma faixa, para limpar (e reparar) o Hotel Avenida. A Teixeira Duarte construíu. Quem terá desenhado?

Desenvolvimento Sustentável

Três edifícios de trinta e tal andares num canto da Av. Julius Nyerere.

Maguerre

Será influência do carro, velho musso amassado, riscado, já deficitário de bem visíveis artefactos. Talvez da roupa, claro, as gangas puídas, as camisas usadas, mesmo que ainda não passajadas. E o ar, um perfil amarrotado tal e qual o estado das vestes, a cara devastada, quiçá condizente com o coração que a persegue. E ainda o ser ali já hábito, diário até, sempre nestes propósitos. Tudo isso justificará o chegar-se às vizinhanças do prédio polana, os arrumadores a acorrerem, um deles, o mais próximo, solícito no “arruma aqui, aqui“, o outro mais adiante, entre batiks, a chamar, “maguerre“, “oh maguerre, aqui é melhor“, compete pela moeda mas sabe-se em desvantagem, mais longe que está, é pois mais do que isso toda aquela sua insistência, “maguerre, vem para aqui…tem lugar para ti, maguerre“, uma provocação a pôr tudo aquilo em causa, quem sabe?.

O português arruma o carro, enquanto tira a moeda para o mais próximo, olha aquele outro que se aproxima, em despreocupado registo cara-de-pau. Hesita, sei que está a interpretar o sentido, adivinho-lhe até alguma (auto)ironia. Mas, por que não?, irrito-me: “V. está-me a faltar ao respeito! Eu conheço-o de algum lado?!”, armo-me de mais velho. O arrumador surpreende-se, ar traquinas, até põe a mão na boca, o colega finge “você. não tem respeito aqui pelo amigo?”. E eu avanço, sei que ridículo, agora maguerrizado. Em definitivo?

 

Rua Barrack Obama, Maputo

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Nova rua de Maputo, adjacente à Sebastião Marcos Mabote (que parte de Magoanine à CMC)”

A iconização popular de Obama é, já, um facto espantoso. E imparável.

[Fotografia de Carla Lemos, que me foi enviada, a meu pedido, pela Marta Reprezas. A ambas a minha gratidão]

3 Missed Calls

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O enigma no nome do chapa ….

Gilberto Freyre?

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Benfica-Sporting

Ontem não fui ao Núcleo. Pois sábado à noite, aproveitei e optei pelo ecrã gigante do bar. Depois daquela miséria fiquei-me por lá, ao balcão entre alguns, procurando o responsável pela derrota – a “culpa não pode morrer solteira“, dir-me-ão.

Depois, acidez já algo dissolvida em vapores escoceses, alguém chega. “Leio o teu blog“, diz. E, também, “és patético.

O Paulo Bento pode ter qualidades. Mas Camp Nou e Luz não enganam. Está na altura dele sair.

Na Drenagem

No caminho para o aeroporto, na Drenagem, do banco de trás ela pergunta-me se quero algo dos Estados Unidos. Blasé digo-lhe que nada, certo que poderia pedir uma garrafa de bourbon mas isso compra-se em qualquer sítio e em sendo assim “que posso eu querer da América!?”. Ela sorri e fulmina-me “um ipod!”, até vai trazer um para a amiga agora ao volante . Vacilo mas resisto, “um ipod? Eu nem nunca vi um, sei lá o que isso é…”. Lesta, chega-se à frente para o entre nós e puxa do seu, um cartãozinho roxo, aparente minudência, e como estamos parados na (longa) fila do semáforo começa a mostrar-nos os tais 8 giga, o dedo a girar as 6 mil músicas ["Ben Harper, nem nunca ouvi", insisto-me, "já ouviste, já!", não quer ela crer"], não sei quantas fotos e filmes, uma vida no bolso.

Estamos nisso, até embevecidos, e de súbito um braço cruza-me, vindo pela janela para lhe arrancar o brinquedo-alma. Vacilo, incompreendendo, olho com vagares vendo o ladrão escapar-se por uma estreitíssima ruela. Depois, muito tempo depois, expludo e saio a correr atrás dele, para um sprint sinuoso num espaço em que julgo não caber, o homem, t-shirt vermelha berrante, afinal lento, parece-me. Na concentração da corrida exclamo apenas dois ou três “ladrão, filho da puta!!” que farão algumas crianças e mulheres olharem-nos dos seus pequenos pátios, as suas surpresas em breve notarei . De súbito, e estou a falar de uns labirínticos cem metros, uma bifurcação, ensaio uma ensaio outra, e nada se vê, tal o emaranhado das vielas. Estanco, resmungo mais uns palavrões. E, cruzando os espantos ali vizinhos, regresso ao carro.

Nele, a mais velha ao volante tem no olhar a censura à minha inconsciência de por ali ter entrado – que faria eu se o tivesse apanhado?, penso ao vê-la – e desculpo-me, qual menino, “o gajo é que se arrisca ao pneu“. A mais nova, sorridente, resume: “Bem, afinal tenho que trazer dois ipods! Ou três?”, provoca ainda. Desisto, “traz-me lá essa merda …”.

Avançamos. Elas falando, talvez esconjurando. Eu, calado, ensimesmado, sei que é estúpido, mas vou esmagado com a minha impotência, o meu falhanço. Uma hora depois, talvez um pouco mais, hei-de sorrir. Ao meu ridículo.

Lusofonia: comprovação da sua existência

Muito aqui escrevi sobre Lusofonia, sempre criticando-a enquanto ideologia vácua e inexistência empírica. Comprovo agora o meu erro. A Lusofonia existe, uma constante linguística, que é enquadramento ideológico, partilha de valores e métodos, comunhão de objectivos, assim que se torna comunidade.

E eis a sua comprovação empírica, o cartaz (que no actual jargão lusófono se intitula “outdoor”) da moda em Maputo:

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A lusofonia publicitária. Aqui como alhures boçalzita na piscadela de olho.

O Sagres na baía

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Machado da Graça ascendeu ao promontório e, fogueira acesa e mira em riste, durante horas inquiriu o horizonte em busca de velas desfraldadas. Algo desiludido constatou que o N.R.P. Sagres, velejada que foi com a tradicional pancada a rota do Cabo a esta baía, aqui aportou com o lastro todo e em ritmo de gasolina. Aguada feita o navio já estará em demanda da Beira. E aqui fica o testemunho do Machado – ao qual agradeço o envio.

O Sagres em Moçambique

O “Sagres” está em Maputo e irá à Beira. Aqui é mostrado à chegada.

Diário

Andas quezilento” é com o que fico de um recente jantar, opinião ponderada (e apoiada) de boa amiga. Prometo calar-me, de ora em diante. Não julgar os alheios nem mesmo os com quem choco. Aceitar os sem “sem fé nem lei” como coisa da vida, disfarçados de ateus e libertários, até com toque de boémia como se esta coisa libertária, disfarce com que seguem sem outro fundamento que o da auto-permissão.

Vou sozinho ver a selecção à esplanada, acompanhando prego e chouriço, tuguismo viriato radical. Na minha mesa senta-se um amigo. Pouco depois chega um casal e ele faz menção de nos apresentar. O tipo chegado conhece-me – eu nem o reconheci ali no imediato – lá do norte, uns quinze anos antes. Dele lembrarei uma má onda, grosseiro, ordinário. Muito. Não a largou. Ao “este é o jpt” responde lesto, no arrastar marialva do sotaque, “conheço bem o personagem … aquele que trabalhou no consulado” – algo que nunca fiz, mas é uma confusão que aprendi recorrente em determinado grupo étnico de estrangeiros, erro muito freudiano. E afasta-se, (como se?) enojado. O meu amigo levanta-se e segue-o para a outra mesa. No fim do jogo não se despedirá, porventura alquebrado com a derrota, concedo(-lhe).

Andas quezilento“, é o que me diz uma boa amiga. E por isso mesmo, só por causa dela, nem disse nem digo nada. Sigo. Sem fé e com lei. Ateu não libertário. Trôpego às vezes. Mas nunca filho-da-puta.

Mesmo se quezilento.

As ácapas (e o meu mau fígado)

I. Não foi anteontem. Mas ontem lá saí de casa. Arrastado em casal para beber um café ao fim da tarde, ali onde costumamos ir, difícil de chegar e não encontrar uma ou outra cara afável. Pequena esplanada, simpática, entre o Tribunal Administrativo e o Tribunal Constitucional. A cem metros da cancela da Presidência. A duzentos da esquadra da Nyerere (não será difícil ir lá ter, assim descrita).

Café(s) para mim, soda para a alma do casal. Arejamos. Depois, sete da noite, hora do banho filial e da rotina que se lhe segue. Chegado a casa toca o telefone. “Safaste-te de boa!”, nós a sairmos e o assalto a dar-se, quatro homens de Ácapas (assim dito, com familiaridade soa mais “clint”) a saquear a casa: levada a caixa, alguns bens dos incautos clientes e o automóvel de um destes. Tudo com vento levado, mas agora não metafórico.

[II. Blogo isto? Hum, para quê, a dar escatológico à afinal vidinha? Mas lembro-me de há um ano estar a fazer um churrasco (braai, ok) no quintal do Luís, senhoras lá dentro aos acepipes, e soarem na noite, ali ao lado, três ou quatro rajadas. E de sabermos no dia seguinte das mortes dos polícias, tudo ali ao Hospital Central. E de ter aqui contado, sem pormenores, do frisson. O bom do Carlos Gil colocou isso num daqueles Grupos MSN que volta e meia ecoam o ma-schamba. E então lá surgiu um ilustre bloguista, desses que daqui saiu há 30 anos mas que ainda é dono, dono companheiro mas dono, que não aceita o que julga crítica mas não conhece para poder reconhecer o que é crítica, a vituperar os burguesotes do Sommerschield que estão no bem-bom, no tão bem-bom que se assustam com uns ruídos quaisquer (no caso eu próprio). Pois para o encartado era claro que alguém dizer que ouviu tiros é crítica e abusiva, qual reaccionário neo-liberal neo-colono (ou até velho, quiçá). Pedi então ao Carlos Gil para colocar um texto no tal grupo MSN para dizer ao bloguista o parvo que o acho ser. O Gil é um gajo porreiro e disse que não, que o outro tipo é porreiro e sensível.

O Gil ainda cá vem (somo entrebloguistas veteranos ...). Pode ser que agora avise o "dono da terra" que aqui o burguesote teve outro frisson. E que, carro velho e finanças em baixo, ainda vive no Sommerschield. Pode ele, de novo, botar faladura. A achar que defende a terra de que se pensa dono.]

Noite(s) de Maputo

Kok Nam et al no ka mpfumo

A “mafia” de Tete recebe amanhã o escritor José Rodrigues dos Santos em Maputo: avisa o apaniguado Daniel da Costa.

Dia Mundial do Livro

Sessão comemorativa na Associação de Escritores Moçambicanos. Intitulada “Paixão pelo Livro” consiste numa organização conjunta AEMO, Embaixada de França, Embaixada de Espanha, British Council e Instituto Cultural Moçambique – Alemanha. Anuncia-se como integrando uma exposição bibliográfica de livros dos países participantes, uma outra de artes plásticas e uma discussão sobre a “problemática do livros”. Integra ainda uma “sessão cultural” (enigmática expressão de conteúdo sempre temível). Felizmente “na comemoração, participarão autores, editores, livreiros, educadores, bibliotecários, agentes culturais e outras entidades ligadas à cultura e à literatura em particular“.

Amanhã, 23 de Abril, às 16 h. 15 m. na sede da AEMO (Av. 24 de Julho, n.º 1420)

Centenário da Livraria Minerva

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Cumpriu-se esta semana. Um bom programa de fim-de-semana será o de uma associação às comemorações. Uma interessante exposição alusiva, colocada no Centro de Estudos Brasileiros, realizada por Machado da Graça, com particular atenção às artes tipográficas e ao percurso editorial deste século da Minerva.

E, logo de seguida, uma visita à Feira do Livro. 20% de desconto sobre os livros moçambicanos, 30% sobre os estrangeiros, suficiente para chamar a atenção. E, claro, a possibilidade de encontrar um painel mais alargado da edição nacional, coisa em que a Minerva tem mais artes do que as suas concorrentes.

IV Festival Internacional de Música

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Para mais informações consultar o Sítio do Festival.

Um ano depois …

“Apenas horizontalizaram o esqueleto. Ruínas agora re-ruínas.”