Archive for the ‘Maputo’ Category

O Contrato Social

Sexta-feira, Setembro 3rd, 2010

Paulo Granjo, antropólogo português que há muito vem trabalhando em Moçambique, publicou no jornal Público o artigo “A Razão e o Sentido de Dois Motins”, sobre a situação em Maputo. Para ler com atenção, em articulação com o texto que colocou no seu blog: “Novos Motins em Maputo e Maria Antonieta na Costa do Índico“. Face a este último texto, mais completo (o jornal tem limites de espaço), tenho duas notas: uma irritação profunda; e uma discordância.

A irritação. Ao saber da proposta da substituição do pão (base da alimentação urbana) pela batata-doce e outros produtos imediatamente me lembrei da história de Maria Antonieta. Para quem não a saiba aqui a resumo: diz a história, muito provavelmente apócrifa e que contra ela foi usada na altura, que esta rainha de França tendo sido defrontada pelos pobres com pedidos de pão lhes terá respondido “se não têm pão que comam brioches“. O dito, por mais falso que tenha sido, ficou como símbolo da insensibilidade governativa – até pelo triste fim que a rainha veio a ter (guilhotinada após a revolução de 1789). E Paulo Granjo antecipou-se na “postagem”, inutilizando-me um proto-post, coisa que os bloguistas encartados raramente perdoam.

A discordância. Granjo avança como explicação para os acontecimentos a ideia da existência de uma particular concepção de poder, “tradicional” e “africana” que ancora o contrato social [para interessados no texto tem uma ligação para um artigo académico em que desenvolve o tema]. Ou seja, considera que pela vigência dessa ideia de “poder” “só em casos extremos deverá ser posto em causa o poder instituído; mas pressupõem, também e em contrapartida, que quem ocupe esse poder tem a obrigação de salvaguardar um mínimo de bem-estar e de dignidade das pessoas que governa. Pode (e tem o direito de) «comer mais», mas não de «comer sozinho» e à custa da fome dos outros.”.

A minha discordância não se prende com questões sobre a hipotética especificidade (e como tal da sua dinâmica explicativa), da realidade ou abrangência dessa proposta concepção “tradicional” ou “africana” de poder. Num registo destes (in-blog) o que me parece é que esta proposta interpretativa está presa a discursos locais (não “aos” discursos locais) – não o digo como defeito, digo-o como característica. E se assim é, se estamos face a discursos locais [às vezes a gente chama-lhes émicos] permite uma resposta nos mesmos termos. Através do dito popular, tantas vezes repetido de norte a sul, e significando (criticamente) a prática do poder: “os cabritos comem onde estão amarrados“. Entenda-se, o voraz cabrito onde amarrado come, não contratualiza.

jpt


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Maputo

Sexta-feira, Setembro 3rd, 2010

O que é Maputo? Interessante a quantidade de pessoas – moçambicanas e estrangeiras - às quais ouvi dizer nestes últimos dias que a cidade está “sitiada”, “fechada”, “rodeada”. Isso de que as pessoas não conseguem entrar na “cidade”, etc. Hoje no telejornal da portuguesa SIC Notícias o meu bom amigo Pedro Monjardino foi entrevistado (por telefone) e descreveu bem os factos que aconteciam e, avisado, também referiu “a cidade, ou seja o que aqui chamamos Maputo-cimento”. Mas também ele (até ele) acabou, no correr das palavras e pela força do uso, por deslizar para o corrente “cidade” como sinónimo deste “cimento”, no fundo a velha Xilunguine – epíteto tão recordado na literatura moçambicana. Ora isto não corresponde à verdade. As pessoas podiam sair e entrar na cidade, a cidade não esteve cercada [sendo certo que não se podia transitar na via da Matola]. O que se passa é que os bairros, o “caniço”, são a cidade. E de lá se podia e pode sair – desde que não seja para o centro da cidade. E desde que não se venha do centro da cidade.

Não é meu preciosismo. Apenas a nota de que esta “distracção” – este cimentocentrismo - tem imensas implicações no olhar que se quer “analítico”. Comece-se por olhar o mapa acima. E perceber-se que é uma amputação da cidade. Ou, por outra, que é o mapa do velho Xilunguine. E a partir daí pense-se Maputo. Exagero meu? Googlem “maputo mapa” ou “maputo map”. E encontrem a cidade mapeada na internet. Vejam o quão difícil é encontrar a cartografia da verdadeira cidade de Maputo. Extensa, plana, urbana. Sociologicamente urbana e maputense. Economicamente urbana e maputense. Identitariamente urbana e maputense.

Também por isso se pode dizer que “em Maputo os brancos, os turistas e a classe média africana está fechada em casa“. Ou que estão (estamos, os maputenses) “sitiados”. Porque com esta “cartografia” amputada, e concomitante sociologia amputada, nem se vê que em Maputo a população tende(u) a fechar-se em casa. Falo da população do grande Maputo, aquele que não está nos mapas vulgares. E, acima de tudo, nas dicotomias. Ainda mais vulgares.

jpt


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Adenda sobre os moralismos que falam

Quinta-feira, Setembro 2nd, 2010

Com toda a certeza que neste momento o mais importante em Moçambique não é referir o que lá longe se diz sobre o país e sua situação. Mas abaixo deixei um suave resmungo sobre os moralismos, internos e externos. E logo me caem no ecrã alguns exemplos disso, tão ocos que não consigo evitar pontapeá-los – ainda que saiba ser fútil perda de energia. Mas o tom ufano das suas certezas é tão irritante que me exige as caneladas.

1. O 2+2=5 indexa textos sobre as manifestações de Maputo. Por aí chego à opinião de Francisco Louçã, o “coordenador” do Bloco de Esquerda. Os mais veteranos leitores do ma-schamba dirão que reajo à minha “bête noire”. Porventura sê-lo-à. Mas é inenarrável. Eis como termina o acórdão da sua sentença: “Quando visitei Maputo, há uns anos e na véspera de uma cimeira africana, encontrei logo ao sair do aeroporto a construção acelerada de um muro elevado, que bloqueava um grande bairro de barracas: era para que os delegados estrangeiros não vissem a miséria. Este é o retrato da pobreza e da prepotência: oculta-se a miséria porque não se acaba com a miséria.”

Sei que os comunistas têm um fetiche com muros e que, desde que alguns caíram, têm com eles uma relação edipiana. Mas lendo este naco de prosa avanço para o método comparativo – é legítimo, não está Louçã a parodiar o método indutivo? E lembro-me do grande Carlos Lopes. Sportinguista, campeão olímpico, várias vezes campeão europeu, três vezes campeão mundial de corta-mato. Em 1985 foi campeão mundial no vale do Jamor [acima o recorte recuperado aqui]. Ora para acolher esse mundial o governo português de então construíra um enorme muro (um tapume) para esconder o miserável amontoado de barracas de refugiados timorenses (sim, esse pelos quais quinze anos depois os portugueses se vestiram de branco e karaokaram o lânguido “ai timor”) ali plantado. Será esse episódio significativo para definir, explicar ou até apenas ilustrar o sistema político e suas articulações socioeconómicas no Portugal de então e subsequente? Não, não é, por mais ridículo e afrontoso que o episódio então tenha surgido.

Quer-se pegar num ponto e nele basear uma conclusão? Ok, pegue-se, mesmo. Conheça-se e entenda-se. Na praça do aeroporto de Mavalane (Maputo) um dos seus topos articula com a zona do caniço. Na sua extremidade estava até, se bem me lembro, uma lixeira. A zona foi tapada com cenários de grande dimensão, com dizeres em francês, para simular a Kinshasa de Mobutu. Eram os cenários de Ali, de Michael Mann, filme em grande parte rodado em Maputo. Os quais foram ficando após a conclusão dos trabalhos. Algum tempo depois foram retirados. E fez-se o pequeno muro, ao longo de uma curva, tentando manter alguma “estética” da praça, agora “habituada” a um outro visual (um visual de “cimento”, chamar-se-ia aqui), como se “hall” de entrada da cidade. É risível? Sim, um pouco. Mas é isso demonstrativo, denotativo, ilustrativo de uma situação política estrutural? Afirmar isso é uma pura demagogia, básica. E desmontada por qualquer corrida entre Mavalane e a drenagem (ou seja, a imediata continuação desse caminho principal de saída do aeroporto), feita numa paisagem similar, de caniço, e sem outros muros. Para que agita o coordenador a sua palavra leve e vã? Ou, como diz o outro, “porque não te calas?”.

2. Henrique Fialho – que é dono de um excelente blog – cita (assim subscrevendo) outro naco moralista a explicar as coisas de Maputo (e com toda a certeza a receber a concordância da blogo-inteligência lusa left-wing e/ou conimbricense): “Por que não aumentam o preço dos veículos todo-o-terreno, das casas de alta cilindrada, desses artigos a que o povo não chega para conseguir comprar pão e pagar água, electricidade e transportes?”. Não me vou por a discutir a diferença entre preços tabelados e não tabelados, neste eixo de argumentação talvez fosse um sofisma. Nem a resmungar outra vez contra os textos medievais, mais ou menos cristãos, dos “ricos” vs “pobres”. Nem a argumentar sobre o peso simbólico dos “for-bai-for”, esse anti-cristo da esquerda parva europeia. Só vou lembrar a complexidade do mercado automóvel em Moçambique, a chegada dos recondicionados japoneses via Dubai (e como isso é ilustração das malhas que a economia global tece) e, já agora, do aumento dos preços dos carros novos. E do enorme aumento dos preços das casas em Maputo. Factos ambos que têm explicações e efeitos múltiplos, sociais e económicos e muito se articulam com as redes do poder político. Mas que servem para assinalar essa pequenina coisa da empiria que, chatice, torna mais complicadas as coisas. E nisso torna lixo a pompa das tiradas moralistas, cheias de invectivas e de si-mesmas. E ridículos os aplausos à missa.

Missa essa cheia de crentes. Muito comunitários, diga-se. Cheios de benzeduras e vade retros. E sermões entre-laudatórios.

jpt


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AS GUERRAS DO PÃO

Quinta-feira, Setembro 2nd, 2010

por ABM (2 de Setembro de 2010)

A propósito do que se está a passar estes dias em Maputo.

Tenho vindo desde há uns meses, nesta casa, a realçar, por um lado, a periclitância, em aspectos cruciais, do “milagre económico” moçambicano, especialmente no que concerne o cidadão e consumidor médio moçambicano.

Por outro lado, tenho manifestado alguma estranheza pelo facto de, apesar de se prever e ser perfeitamente expectável um recrudescer na taxa de inflação – que tem um efeito económico corrosivo e um impacto político explosivo na população em geral – de facto a imprensa e os agentes políticos, em vez de dizer, preto no branco, que se avizinhava um período de dificuldades e de sacrifício, quer uma parte crítica da imprensa, quer o discurso oficial e oficioso, consistentemente focava na “história de sucesso” da economia moçambicana, com correspondentes associações à eliminação da pobreza e a um número quase infinito de investimentos (privado estrangeiro, governamental estrangeiro, governamental nacional, donativos, “cooperação” etc).

Ora, excluindo os chamados mega-investimentos, se até ao final do ano transacto se assistiu a uma crescente asfixia nos factores de base que definem a economia moçambicana, esse contexto agudizou-se muito significativamente no primeiro semestre do ano.

Como era de esperar, o metical desvalorizou significativamente, seguido por uma pressão insustentável nos preços dos alimentos e energia. O custo do dinheiro (na forma de taxas de juro) subiu e, mais grave no contexto actual, a menor liquidez na economia, quer em meticais (em pouco assistida pela recente emissão de obrigações do tesouro moçambicano) mas especialmente em dólares, coloca novos desafios aos agentes económicos, incluindo as instituições financeiras, neste momento na parte final da maior expansão creditícia da história económica do país.

No fim do dia, a equação macroeconómica é simples e conhecida de todos: 1) o país continua a importar muito mais do que exporta, 2) continuam a haver consideráveis obstáculos ao investimento privado estrangeiro, 3) permanecem os desafios enormes de se encontrar alimento e emprego para uma população pouco habilitada, rural ou recentemente urbanizada.

No entanto estas não foram causas directas das perturbações de ontem e de hoje em Maputo.

A maioria da população moçambicana, que vive nas zonas rurais e cultiva o que come, é relativamente imune a eventuais oscilações nos preços dos alimentos.

O mesmo não acontece com as populações urbanizadas, especialmente em Maputo, onde a maioria dos residentes da cidade e arredores não tem a possibilidade de, por exemplo, manter um emprego na cidade e uma machamba para obter alimento.

Como em qualquer cidade, têm que pagar renda, água, luz, comida e transporte.

Ora, como é sabido, o custo destes factores acabou de aumentar significativamente, sendo que, presume-se, os salários auferidos pela maioria da população não acompanharam a taxa da inflação.

De entre estes, o mais politicamente sensível é o preço do pão, que constitui um pilar da alimentação, especialmente entre os cidadãos mais pobres.

Especialmente os que vivem nas cidades e em seu redor.

Creio que é neste contexto global que se criaram as condições para que uma camada da população se sinta autorizada para agir da forma como se tem observado.

Este é um problema sério que vai ter que ser resolvido.

Gostava de recordar aos exmos leitores que infelizmente não há aqui novidade. Há precedentes para este tipo de situação. Um dos mais terríveis ocorreu na União Soviética nos anos 30, quando o ditador Estaline, para manter o pulso nas cidades, mandou brigadas para o mato que obrigavam os agricultores a entregarem-lhe as suas colheitas para alimentar as cidades, tendo milhões de agricultores morrido de fome como consequência.

E é interessante recordar as chamadas Lutas do Pão em Portugal continental nos anos 20 do século passado. Um interessante e elucidativo artigo de Jofre Alves sobre o assunto dá detalhes sobre como foi e permitirá ao exmo. Leitor estabelecer alguns paralelos com o que se passa em Maputo.

Esta não é a única leitura dos eventos de Maputo ontem e hoje, em que já se lamentam várias mortes e perto de uma centena de feridos.
Alguns jornais de Maputo hoje editorializavam furiosamente, apontando o dedo ao poder político (que por sua vez, reduz o fenómeno ao oportunismo de meia dúzia de mal intencionados) ou ainda às disparidades sócio-económicas visíveis em Maputo.

Não ajuda que a geografia da cidade de Maputo, na ausência de acções concertadas por parte das autoridades policiais, permita que literalmente meia dúzia de pessoas consigam fácil e rapidamente selar a cidade e colocá-la quase sob estado de sítio.


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Reportagem fotográfica das manifestações de Maputo

Quinta-feira, Setembro 2nd, 2010

A reportagem fotográfica das manifestações realizada por António Silva (que também é confrade bloguista).


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Da sociologia apressada

Quinta-feira, Setembro 2nd, 2010

[Fotografia de Grant Lee Neuenburg]

Há e haverá imensa coisa a dizer sobre as manifestações de Maputo, as actuais e as similares ocorridas a 5 de Fevereiro de 2008. Cada cabeça sua sentença, com toda a certeza. Eu, um não-politólogo, boto a minha, de modesto alcance. Parte destas erupções provêm das modalidades de representação políticas existentes. Contrariamente ao que muitos afirmam o partido Frelimo não é um mero partido-Estado, aspira sim a ser um partido-sociedade. Com isto pretendo sublinhar que qualquer forma de organização é entendida como local de necessária penetração do partido, seja ela político-partidária, religiosa, económica, associativa, desportiva, sindical, ou de qualquer outra índole. Há quem invective de modo moralista esta prática, do que discordo. Pois não é um “mal”, trata-se sim do produto de uma específica concepção de poder, que o coisifica (este torna-se uma “coisa” a ter – e o mais possível – e não uma relação a dirimir). Isso tem um corolário na prática política, o objectivo de obter o máximo de “poder” possível, da forma como esse “poder” é entendido. Ou seja, de adquirir o máximo dos cargos políticos e similares, e de assim potenciar o controle das modalidades de organização social. Se é certo que este objectivo é inalcançável na totalidade (nenhum partido, por definição, pode agregar toda a sociedade, a sua multiplicidade) este modo de entender a prática política e partidária implica duas dimensões interligadas: uma constante insatisfação, pois há sempre algo mais a controlar e a dirigir, e uma constante mobilização e vigilância interna, exactamente porque há sempre algo mais a controlar, a dirigir. É um “modo de vida”, não no sentido (moralista) de apropriação mas sim de reprodução, de vivificação.

Simbólicas desta noção particular de poder foram as não tão antigas declarações de dirigentes partidários que anunciavam a crença em que o partido Frelimo estaria no poder por mil anos e, ainda, que desejava 100% dos cargos elegíveis numa das últimas eleições. Ou seja, a vontade de democraticamente apagar – no momento e para o futuro – as oposições organizadas, cuja existência é sempre vista como sinal de fraqueza do poder vigente. Esta vertigem de esvaziar a oposição tem este corolário – em dias como hoje surgem os vários “experts” referindo o facto de que estes movimentos contestatários são acéfalos, desorganizados, mero banditismo, manipulações (“o inimigo externo” ainda surge). No fundo significando que são ilegítimos, tanto quanto a práticas como a causas. Mas também referindo a inexistência de interlocutores (organizações) com quem dialogar (exercer o poder)

Mas no “fim do dia” o que tudo isto significa é que esvaziando de representatividade, fazendo desaparecer, as organizações das oposições fica-se diante das manifestações. Apenas. E diante destas, seus excessos e dos excessos reactivos que provocam ficamos diante de uma vasta panóplia de discursos moralistas: os adversos aos “bandidos” manifestantes, os adversos aos “corruptos” governantes. Ambas vão mal, em minha opinião. Ou seja, ambas inexplicam.

Outro exemplo de explicações moralistas, de sociologias apressadas vêm de longe, tudo reduzindo à luta entre “pobres” e “ricos”, como se estivéssemos a ler textos multisseculares. Em Portugal o muito lido Eduardo Pitta reduz assim (deixando presente o perene incómodo pós-colonial, a constante agitação com os “brancos em África”): “A comunidade branca e a classe média negra estão trancados em casa. Os turistas fechados nos hotéis.”. Esta pressa (e esta identificação por um lado muito particularizada, por outros lados completamente a traço muito grosso) é de quem obviamente não sabe quem e quantos se fecham em casa. Entenda-se, a velha dicotomia (polvilhada de racialismo resmungão) tão simplificadora nada explica. Nem a empiria do dia, nem o sistema que a engloba. Explicará apenas, talvez, quem a escreve.

jpt


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Moçambique-Nigéria na TVM

Quarta-feira, Setembro 1st, 2010

[Fotografia colhida aqui]

São 14 horas e a TVM inicia a transmissão em diferido do jogo de futebol Moçambique-Nigéria, realizado em Março de 2010 para o apuramento para o CAN.

Entretanto continua a tocar-me o telefone, gente a saber o que se passa, como estamos, o que penso. Tudo bem com a família, afianço. Quanto ao resto, e diante desta espantosa transmissão, avanço que há dois anos e meio, a propósito das manifestações de 5 de Fevereiro, deixei aqui o A neo-jacquerie de Maputo. Não tenho nada a acrescentar. Transcrevo o final desse texto, que me parece actual. Apenas frisando que as minhas esperanças de então continuam assim, meras esperanças.

4. Compete, com primazia, aos teclistas moçambicanos a análise dos acontecimentos que se vêm sucedendo. Este residente apenas pode transpirar o que vem inalando: há um hiato entre o real e a compreensão que os poderes dele têm. A vulcanização urbana (e aqui estou de acordo com [Carlos] Serra) e o receio rural – pois se há episódicos movimentos reactivos nas cidades no campo o Estado é temido, tal como os seus agentes (mesmo sendo um mero antropólogo estrangeiro), um silêncio que pode ser tomado como adesão mas não a é. Tudo isto aponta para novas formas de diálogo social. Resta saber se intra-partidárias se trans-partidárias. Esperemos (um “nós” de gradualistas) que das primeiras.

jpt


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Vuvuzelas proibidas em França

Sexta-feira, Agosto 13th, 2010

Notícia de hoje mesmo. As vuvuzelas foram proibidas no futebol francês. Não posso deixar de lamentar essa barreira a esse simpático instrumento, criação moçambicana – contrariamente ao apregoado por recentes mitos apropriadores. Como está provado no logotipo acima mostrado, o do popular (e até institucional) restaurante maputense “Piripiri”.

[Imagem obtida aqui.]

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Alienação

Sábado, Maio 15th, 2010

A princesa cá de casa vai aniversariar, outra vez, de novo, a sua infância corre veloz, a minha velhice voa. A extremosa mãe planeia-lhe a festa, como sempre procurando pequenas inovações. Este ano por que não uma coisa mais “natural”, ligado a essas coisas do pensar (comer, viver, sentir) alternativo, uma mensagem diferente para a miúda, ainda que fluida? Que sim, diz o morcão pai, que cresça ela o mais ampla possível e venha a fazer as suas opções, mais malucas ou incompetentes do que as do ascendente não virão a ser, quase de certeza. E lá vamos nós, este materialista empedernido que vê satãs em todos esses esoterismos ou espiritualismos, mas que se desvanece com as coisas prá sua princesa delfina.

Aportamos pois à capela do alternativo, do “espiritual”. Entre outras coisas normais das festinhas imagina a mãe uma aula de dança, “street dance” para cativar os rapazes, qu’ós 8 ou 9 anos são mais dados à porrada e à bola do que às danças com as meninas (mais dois ou três anos e teremos “quarto-escuro”, já me estou a mentalizar para isso). Que sim, que bela ideia, dizem os sacerdotes (ou seriam sacristões?) do espiritual. Que vão mandar a cotação, para que nós acordemos isso dos balões, das mobílias, dos comes-e-bebes. E da aulita de dança, 30 putos uma horita se aguentarem.

Dias depois chega a cotação: para a “aulinha” de dança, para a animação, são 300 USD! 300 USD para animar um bando de putos, encobertos na espiritualidade alternativa, na “naturalidade” do ser, meia dose de metafísica, um gole de saúde física, uns pozinhos de calmaria. Em Maputo, 2010, 300 USD para uns movimentos, mais que introdutórios, uma hora quase de certeza nem tanto, com os filhos dos “ricos” . E há, com toda a certeza, quem pague.

Pois, o mau feitio é o do jpt, enojado com o escarro que assim recebe. Empedernido materialista cheio de desprezo por estes “naturistas”, muito giros, sempre, que todos lhes acolhem os meneios, sempre dengosos, aquela “aisance” que põem no gesto e na fala. O alienado, está-se mesmo a ver, sou eu. 300 USD, uma horinha se tanto, no meio das sparlettas e das mini-pizzas dos putos de 8 anos. Em Moçambique, Maputo, 2010. E há quem pague esta miséria, “naturista”. “Espiritualista”. Um nojo. Os que pagam. Os que pedem.

jpt


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A NORTE DO NORTE

Terça-feira, Maio 11th, 2010

O Norte do Norte: o Rovuma, junto à Tanzania

por ABM (11 de Maio de 2010)

Não se pode deixar passar despercebida nesta casa a inauguração, durante o dia de amanhã, da ponte que atravessa o rio Rovuma e que passará doravante a ligar o lado moçambicano da fronteira com o lado tanzaniano, por via rodoviária.

Como nunca lá meti os pés nem pelos vistos há fotografias da tal dita cuja ponte (“Ponte da Unidade”), fiz o que se pode fazer hoje em dia: percorri toda a extensão do rio Rovuma no Google Maps, até encontrar o que me parece ser (à data de 2007) o local da ponte. É a foto que se vê em cima. Tirando a ponte, não parece haver rigorosamente nada de cada lado da fronteira. Mas a esta hora os terrenos já estão todos com dono e já há balcão do BIM por perto.

Esta ponte, segundo reza a imprensa, faz parte de um velho desejo expresso por Samora e Nyerere lá para 1975. Como supostamente só custou 30 milhões de dólares (e da melhor construção chinesa), temo só de pensar quanto é que vai custar a unidade entre os povos quando alguém tiver que passar para o lado de lá e vice-versa.

Aliás, para já interrogo-me qual será o uso da ponte, tirando os traficantes de droga, os candongueiros e os batedores de carros de Gauteng, que subitamente passaram a ter um novo mercado (se a PRM não lhes pregar uma entretanto). Aliás, não sei se, nestes termos, a abertura deste novo acesso ao território moçambicano não vai trazer tantos problemas como benefícios. Acredito que haverá bastante trânsito de transbordo da África do Sul para os países a Norte. Mas, e de lá?

A ver vamos. Para já, aguardam-se os discursos solenes, os desfraldares de bandeiras, o reiterar da amizade tanzaniano-moçambicana e o brindar do champanhe.

E removido este obstáculo dos equilíbrios regionais e das promessas por cumprir, talvez agora se possa descomplexadamente fazer a única ponte que falta para ligar o país de Norte ao Sul, o Sul que falta para completar e preparar rapidamente a expansão da capital moçambicana (que já se faz tarde), o tal Sul que deu mais dores de cabeça em tempos aos diplomatas portugueses dos tempos do Império que quase todo o resto da então projectada colónia.

E a ponte até é curtinha. Por detrás (espero que bem por detrás) da velha estação dos CFM até à Catembe é quase, apenas, um salto.

A Norte, Maputo. A Sul, A Ka Tembe, e o Sul de Moçambique


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Feira do Livro em Maputo

Sábado, Abril 24th, 2010

No Jardim dos Professores, à Josina Machel, de ontem até amanhã, há feira do livro. Vale a pena visitar, e saudar, pois tem ar de quem se poderá institucionalizar, tornar periódica – até pelo local, popular e central [ali estamos no "museu"], que está cuidado e infraestruturado (sanitários, cafés, acessos fáceis, limpo), sendo espaçoso o suficiente para acolher uma Feira do Livro do Maputo. Virá a ser?

Nesta realização um bom conjunto para a cidade. Há muita animação cultural, música (ontem ouvi Stewart), lançamento de livros (ontem vi Aurélio Rocha apresentar o “Ilha de Moçambique”, que acaba de concluir com Augusto Nascimento e Eugénia Rodrigues), mesas-redondas, sessões de autógrafos (hoje ao fim da tarde estarão lá os pesos-pesados da prosa moçambicana), saraus de poesia e teatro (entre outras a Lucrécio Paco estará hoje), imensa coisa. As actividades de palco poderiam ser um pouco melhor coordenadas, acima de tudo alguém poderá marcar o compasso, e explicar ao apresentador que mostrar livros, abrir-lhes caminho, tem um “tempo” diferente do que o da música, dizer-lhe para não ter medo dos vagares, do falar baixo. São livros, não é o Fama Show, vamos com calma. Mas isso são pormenores, o programa está francamente muito apetecível.

Algumas das livrarias estão representadas, uma distribuidora pelo menos, várias das editoras (cujo número tem vindo a crescer um pouco), organismos públicos e instituições. Dá para comprar alguns livros com descontos, que variam, mas ainda há expositores cacatas (forretas), que julgam que ir para uma feira dar 10% de desconto é uma estratégia aceitável – é uma parvoíce, é uma estratégia de mercearia de vão de escada, apenas apouca as empresas em causa. Mas outros entram no espírito (estratégia) de feira. Acima de tudo permite encontrar e até conhecer livros desaparecidos, e falo de edições nacionais, as quais continuam a sofrer o problema da inércia da distribuição e, acima de tudo, da reposição. Nestas reposição estou todo contente, havia perdido o “Sebastião Langa. Retratos de Uma Vida” (Arquivo Histórico de Moçambique, 2001), um livro fundamental e tão belo.

Há também as “mesas” estrangeiras, de algumas instituições de acção cultural externa que existem na cidade. O Alemanha-Moçambique, com mostra de livros – mas aqui há a dificuldade da língua. Uma representação italiana – mas é o mesmo, ou quase, que me é custosa a leitura. O Camões com uma pequena mostra de ficções sobre o 25 de Abril existente na sua biblioteca. Os franceses, que são uma delícia sob vários pontos de vista, vendem o fundo da biblioteca (que está a ser renovada) a 50 e 100 meticais cada livro. Não abunda em “panache” mas também a França já não é o que foi em tempos. Por isso mesmo trouxe um Cocteau, um Cohen (Albert) e um Constant – hoje voltarei para ver de outras letras do alfabeto.

Depois há, e nos últimos anos é sempre um caso à parte, a representação espanhola – continuam, no que respeita à cultura a saber marcar presença, e nisso a diferença. Agora apresentam uma banca não muito vasta mas super-interessante, acima de tudo super-interessada: nota-se que foi preparada, planificada, que entrou nos cuidados de programação, que alguém se preocupou com a Feira do Livro de Maputo, que têm gente a trabalhar na acção cultural externa, que têm objectivos e alguns meios, por modestos que sejam. Isso o mostra a vinda de escritores para apresentarem livros: uma poetisa nicaraguense, um ficcionista guineense, um desenhador aqui anteriormente residente (também os italianos trazem um ilustrador) - com toda a certeza que são estas actividades que podem apoiar, induzir, irmanar, a ideia de uma feira do livro anual local. Para mais os espanhóis surgem apresentando livros, edições patrocinadas (e por isso as vendem a meros 100 meticais cada). Mas todos os Estados patrocinam e só os espanhóis aparecem mostrando o que têm, possibilitando o que têm, neste caso trabalhos apetecíveis, de qualidade e interesse - com toda a certeza que a sua produção cabe num projecto político hispânico. Mas tem qualidade. E, se existe, mostra-se. Por isso mesmo aqui está. Fiquei com três antologias poéticas do século XX, a hispanidade poética de Chile, Peru, México - e por lá ficaram as antologias relativas à Venezuela, ao Equador e mais países, que tem que haver limites nem que sejam os físicos, das estantes.

Não há dúvida, os espanhóis têm vindo a trabalhar bem na promoção das suas actividades culturais, do seu país. Que venha o Cervantes para Maputo. E depressa, para trazer algo do mundo com ele.

jpt


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O NOVO CENTRAL PARK DE MAPUTO

Sábado, Abril 24th, 2010


por ABM (24 de Abril de 2010)

Armando Guebuza anunciou ao mundo ontem que um dos maiores espaços ainda verdes à volta da cintura da cidade de Maputo, chamado o paiol de Malhazine, será fechado e convertido num parque e jardim com 600 hectares.

Este espaço fica situado quase directamente a Norte da cidade para quem vai pelo Bairro da Coop acima, à direita da Avenida de Moçambique.

Após décadas em que os parques da cidade foram abusados, menosprezados e até confiscados, eis uma medida extremamente positiva e com enorme impacto para o futuro da cidade. A governância está de parabéns.

No Google Earth, o futuro parque tem o aspecto que se pode ver acima.


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AS NOVAS TOPONÍMIAS

Quinta-feira, Abril 1st, 2010

por ABM (Alcoentre, 1 de Abril de 2010)

Esta coisa de mudar os nomes às coisas em partes de África é uma festa que não acaba.

Alguns exmos Leitores não devem ter reparado que há uma semana, pela Resolução 20/AM/2010, a Assembleia Municipal de Maputo mudou os nomes de todos os distritos municipais de Maputo.

Assim, o DM1 passou a chamar-se Kapfumo, o DM2 passou a chamar-se Nlhamankulo, o DM3 KaMaxaquene, o DM4 KaMavota, o DM5 KaMubukwana, o DM6 Ka Tembe e o distrito da Inhaca KaNyaka.

Confesso que nem suspeito quais eram os nomes anteriores. Nem quais as implicações para os nomes (tradicionais?) das localidades afectadas.

Eu também gostava de mudar os nomes dos sítios por onde pairo em Portugal. Mas ninguém me deiixa mudar o nome de Cascais e no caso de Alcoentre, pesem as implicações anatómicas subjacentes e o facto de ser o nome do invasor colonial fascista imperial árabe há mil anos, disseram-me que nem pensar. Ninguém quer e dizem que é muito caro.

Mas mesmo assim quis participar na moda e, em nome dos bons velhos tempos, decidi mudar o nome da rua que dá acesso à minha casa para uma algo mais genuinamente moçambicano, pelo que anuncio a tabuleta que está lá em cima, acabada de fazer, e que deve ser inaugurada lá mais para o verão, juntamente com umas febras, tinto e fados do Sr. José Luis (que está a segurar a tabuleta).

Famba Ti Cunza
, termo de raiz ronga, era o que eu dizia algumas vezes a umas pessoas quando eu era mufana.


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O meu primeiro dia em Maputo

Quinta-feira, Abril 1st, 2010

Início de Outubro de 1994, ao tempo das primeiras eleições multipartidárias. Cheguei a Maputo, um bafo que ainda lembro, um domingo ao começo da noite, via Joanesburgo onde no aeroporto então Jan Smuts (que viria a ser JHB e depois Oliver Tambo) encontrara por mero acaso o JC, já veterano aqui, de estadias várias e investigação feita. Vinha eu da Bulgária, eram as viagens Lisboa-Maputo na Air Balkan, na ida três dias em Sofia – cidade afinal supra-desinteressante, pude concluir -  mais três na volta, ainda assim bilhetes a dois terços do preço  da TAP, já ao tempo em exploração desabrida das linhas africanas. O meu irmão, em Moçambique há mais de uma década, foi-me buscar a Mavalane e levou-me para casa, ali nos PHs da COOP, então dos melhores prédios da cidade – o que eu pude comprovar na semana seguinte em que aqui fiquei, havia água, elevador parte do dia, e não faltava a electricidade. Do resto que pensei, vi e ouvi já aqui contei.

No dia seguinte não madruguei. Fiquei-me num longo mata-bicho com a minha cunhada e depois do almoço o mais velho foi-me mostrar a cidade, um giro rápido e dado à logística. Começámos pela Mao-Tse-Tung, não pelo consulado mas sim pelos cigarros que se compravam (e compram) ao Estoril (JPS para ele e já não me lembro então quais para mim). Depois fizemos a Nyerere, avisou-me que “para lá é a universidade” mas seguimos cruzando o ex-libris Polana e apontou-me o 720 da avenida, a nossa Embaixada – queria que fosse logo ali falar com o José Capela, lendário adido cultural, referência para quem vinha investigar, de quem eu lera uns livros de história, a quem eu vinha recomendado, e de quem ainda desconhecia o determinante que viria a ser na minha vida. Mas disse-lhe que não, “hoje não“, tinha seis meses à frente, poderia voltar no dia seguinte. Daí que fomos à baixa, bebemos um café no Continental, onde ele distribuía moedas pelos putos, rodeámos a praça, de esguelha vi a Fortaleza, foi-me mostrar o Bazar como se uma atracção turística, depois a praça dos “chapas”, essa que anos depois vim encontrar como a praça da estação dos CFM. Daí voltámos a subir a cidade, chamou-me a atenção para a estátua do Samora (“coreana“, avisou), para a Casa de Ferro, e foi parar na Franca (onde acho que ainda havia inscrições da FNAC, ou será uma falsa memória?), onde os putos de rua lhe chamavam, e nunca percebi porquê, de “francês” (seria o sotaque dele?, estranhamente arrastado e até cantado parecia-me a mim). A Franca que era o “centro comercial” da cidade, avisou, herança dos tempos socialistas, loja em divisas para estrangeiros e membros do partido que tinha sido, vim a saber. De seguida foi-me mostrar o PiriPiri, que havia sido assaltado há dias, com mortos e tudo, e logo ao seu lado o vão-de-escada do Sérgio, um sítio seguro para se trocarem os dolares, muito parcos os meus, lembro bem. Finalmente, e que se lixasse o trabalho nessa tarde, levou-me pela Costa do Sol, um nada construído entre o parque de campismo e o Marítimo, e foi-me mostrar os viveiros de plantas da cidade, julgo que onde agora são as urbanizações sem-qualquer-gosto fronteiros à zona das escolas estrangeiras.

Depois levou-me para casa, não queria que eu andasse a pé pela cidade, temia que fosse eu assaltado logo no primeiro dia e – apesar dos meus trinta anos – que iria ele “dizer à mãe?!”. Não protestei, assumi o papel de mais-novo sob tutela. Ainda por cima porque mal sabia ele (e eu, naquele momento) que nessa mesma noite iria sair com o JC e com AP (que cá vivia, que viria eu reencontrar anos depois, e agora até no facebook) para jantar na Feira Popular, no Zo-Zô, um bordel célebre para todos menos para nós recém-chegados, o qual seria, pensei (e estava certo), dos poucos sítios onde se podia beber um copo à noite num dia de semana na cidade.

Mas antes disso, naquela tarde, quando me levava a uma cerveja rápida no Piripiri – e a apresentar-me a alguns conhecidos ali residentes (pareciam isso) na esplanada – cruzámos uma ruína e confidenciou-me um sonho dele, daqueles que são de dizer mas nunca de fazer: “tivesse eu dinheiro, comprava esta ruína e reabilitava-a“, que gostava da casa e da avenida, uma 24 de Julho então tão sossegada, onde se imaginava a viver, em sítio chão, e perto do pouco de azáfama que lhe faria falta.

Não podíamos adivinhar que, poucos anos depois, eu aqui viria parar. E que haveria mesmo de morar diante daquele seu falso, vá lá, semi-sonho. E que quinze anos depois, quinze anos de ruína militante, a casa seria finalmente vendida, a espera concluída, para que mais um prédio viesse a brotar. Que já aí vai, em cada semana mais um andar. Quinze anos esteve ali a ruína, em sítio nobre. A dar sonhos a alguns. Uns para viver, outros para ganhar. A enorme diferença.

jpt


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QUEM VIVE NA PERIFERIA

Terça-feira, Março 30th, 2010

por ABM (Alcoentre, 30 de Março de 2010)

Nas últimas semanas referi primeiro um projecto ambicioso para construir um bairro de luxo nos aterros onde se situava a FACIM na zona baixa da cidade de Maputo, e a seguir um artigo sobre o crescimento quase desmedido da periferia da capital moçambicana. É oportuno ver o quadro acima, baseado em dados da ONU, sobre o que se tem passado no mundo, e tirar uma ou duas ilacções.

Refira-se que os dados, citados numa peça do Economist desta semana, compreendem o periodo entre 1990 e 2007, ou seja, excluem os efeitos da crise que estalou em Outubro de 2008 e que começou com a falência do banco norte-americano Lehman Brothers.

Já por mais que uma vez afirmei que a maior revolução em termos do planeta e da nossa espécie, iniciada no século XVIII na Europa e que agora percorre o planeta, é a urbanização, isto é, a saída em massa das populações das zonas rurais para cidades. Esta migração tem tido e continuará a ter consequências profundíssimas em todos os aspectos da vida e actividade humanas, para o ambiente, para a terra. É uma revolução cataclísmica.

Referirei aqui a África do Sul, que está no quadro, e Moçambique e Portugal, que não estão.

Em vinte anos, a população sul-africana que vive em bairros da lata, que em 2007 se estimava ser cerca de 8.4 milhões de pessoas, diminuiu em cerca de metade em termos percentuais. Ou seja, presume-se que essa alteração assentou na integração de milhões de pessoas na fibra das cidades sul-africanas, o que em parte reflecte a evidência de que o objectivo – o sonho – de um (essencialmente, negro) sul-africano poder viver numa cidade é não só altamente desejável como um objectivo exequível.

Ora a taxa de sucesso nesta migração, ainda que se tenha reflectido em maiores taxas de criminalidade e a saturação das infra-estruturas sul-africanas, paradoxalmente é se calhar o maior sucesso da fase do pós-apartheid. De certa forma manteve a África do Sul a caminho do futuro (e o futuro, inexoravelmente, é a urbanização) e politicamente permitiu manter a paz política através da concretização do novo “sonho sul-africano” e ainda (pelo menos por enquanto) relegar para segundo plano a questão emocional mas largamente irrelevante da posse da terra, que naquele país podia ser tão quente senão mais do que no vizinho Zimbabué. Que está e vai estar de rastos.

No caso de Portugal, a saída das pessoas das zonas rurais, quer por via da urbanização para as cidades portuguesas, quer por via da emigração (que na verdade é outra forma de urbanização) acentuou-se nos anos 50 do século passado e percentualmente está a atingir os níveis médios da Europa Ocidental, com a consequência que um tema recorrente e popular na política portuguesa nos últimos anos é a “desertificação” das zonas rurais e interiores (as principais cidades portuguesas situam-se na faixa litoral atlântica). Esta tendência não se vai alterar. As muitas vilas e aldeias portuguesas, que hoje fazem lembrar as boom towns desertas do Faroeste americano de há cento e trinta anos atrás, irão continuar a esvaziar-se à medida que as gerações mais velhas morrem. As escolas continuarão a fechar, os serviços a deslocarem-se para onde está agora a viver a maior parte dos portugueses (fábricas, hospitais, polícia, serviços). O luxuoso capricho de tentar “fixar” as populações no interior tem sido apenas isso: luxuoso, e caprichoso.

O caso de Moçambique é mais difícil de quantificar mas mais interessante .

É mais interessante pelo percurso da sua urbanização e pelas escolhas políticas feitas antes e depois da independência.

Nos anos 50 e 70 e até 1974, as cidades moçambicanas, em larga parte “alimentadas” pelo crescimento económico e industrial e pela migração de quadros médios e técnicos especializados, a maior parte dos quais vindos de Portugal dada a inexistência de meios de os formar na então província portuguesa (mais conhecidos localmente por “os brancos”) caracterizavam-se pelo crescimento concumitante de vastas periferias residenciais e industriais para onde gradualmente se deslocavam as populações africanas vindas das zonas rurais. No Sul, essa migração era há muito “desviada” pela então deslocação de centenas de milhares de homens para alimentar a indústria mineira e agrícola sul-africana, iniciada nos anos 80 do século XIX com as descobertas de vastos depósitos de ouro e de diamantes em Kimberley e no Witswatersrand.

Mas a situação alterou-se radicalmente com o advento da independência, quando a economia entrou em colapso quase imediato e radical, e a liderança política da altura fez dogma da ruralidade, consagrada numa legislação chamada lei da terra – legislação e dogma que, com enormes, quase aberrantes buracos, permanecem até este dia, com algumas consequências funestas.

O efeito combinado destas realidades foi que a população moçambicana permaneceu no mato e quer o processo de modernização social, representado pela urbanização, que invariavelmente se traduz em mais oportunidades de trabalho, maior disponibilidade de serviços e qualidade de vida, congelou. De facto, a apregoação das virtudes da vida rural tornou-se em quase uma religião de Estado e uma forte (mas, a meu ver, falsa no longo prazo) mola de apoio do regime. Ainda hoje faz parte do discurso político a (totalmente falaciosa) afirmação de que uma das grandes “conquistas” da independência foi a posse da terra pelo “povo” (na realidade, à disposição de quem manda).

Pois a prazo, a terra é apenas – apenas – um factor de produção. Como exemplo, nos Estados Unidos, de longe a maior potência agrícola do planeta, menos que 1 por cento da população trabalha a terra.

A segunda migração urbana de Moçambique consistiu em tirar os portugueses e seus descendentes (“os brancos”) das cidades e substitui-los por moçambicanos. Para o efeito, o governo, que, convenientemente, apregoava uma linha dura de marxismo-leninismo, para além da terra, nacionalizou quase tudo. Em 1984, quando visitei Moçambique pela primeira vez desde a independência, as cidades e arredores estavam congeladas, as casas construídas até 1974 cheias de gente que viera do mato e quase sem nada que fazer. Os efeitos das guerras e da consequente repressão começavam a fazer-se sentir.

A terceira migração ocorreu no fim dos anos 80 quando a guerrilha da Renamo, com o apoio logístico das forças de segurança sul-africanas, espalhou a guerra pelas vastas zonas rurais moçambicanas e aterrorizou as populações que ali viviam, uma parte das quais fugiu e refugiou-se nas cidades e suas periferias, cujo controlo e relativa segurança eram ainda asseguradas pela Frelimo. Quando a guerra acabou em Outubro de 1992, as principais cidades moçambicanas estavam inundadas por gente rural essencialmente refugiada.

Uma boa parte da qual não voltou para os campos, que estavam abadonados, minados e sem quaisquer infra-estruturas. Afinal, a miséria peri-urbana era menos sombria que a enorme incerteza de sobreviver no mato, sem qualquer rede de apoio.

As cidades moçambicanas e o establishment político levaram algum tempo a reagir. A ideologia “ruralista” e a lei da terra intocadas, a sensação do observador externo era que se esperava que, cessadas as hostilidades, as pessoas voltariam para os campos e tudo voltaria a ser como dantes.

Só que não voltaram.

E aconteceu entretanto outro fenómeno; a população continuou (e continua) a crescer agressivamente. O que significa que em 2008 Moçambique passa a ter um cenário curioso: ao mesmo tempo, apesar de todos os esforços, continua com perto de 80 por cento da sua população total, que se cifra perto dos 22 milhões de pessoas (havia 6 milhões em 1974) a viver no mato e primariamente da subsistência – eufemisticamente descrita como “actividade agrícola”- enquanto que os remanescentes 20 por cento residem nas cidades e suas periferias, as quais, na sua configuração básica, continuam a ter quase exactamente a mesma estrutura que tinham em 1974, com a agravante dela não ter sido mantida nem tão pouco expandida.

Aliás daqui se extrai uma curiosa estatística: apesar de percentualmente, segundo os magos destas coisas, haver hoje uma percentagem da população abaixo de um mitológico (qualquer) “limiar da pobreza absoluta”, em números reais hoje há muito mais moçambicanos na miséria do que nunca.

Os poderes constituídos, convertidos entretanto a uma espécie de capitalismo keynesiano em que os capitalistas são eles e a parte keynesiana é composta por um curioso sortido de países doadores, ONG’s, empréstimos de instituições internacionais e grandes empresas, têm feito o que podem. O que se tem traduzido por “grandes” projectos de extracção daquilo que os portugueses pelos vistos se esqueceram que estava debaixo dos seus pés durante 475 anos.

Só que, à excepção daquela estação espacial que é a Mozal, e que fica entre Boane e a Matola, esses projectos têm que ficar situados por cima de onde os bens se encontram, que são sítios como Moatize, Moma, Pande, etc.

Bom, mas não vai resolver por si só o problema dos números.

Nos países que passaram por este processo, a urbanização foi acompanhada por forte (ou melhor, quase selvagem) crescimento industrial e comercial nas cidades e suas periferias, que geravam, bem ou mal, empregos aos milhares.

Mas o mundo de hoje já não é o que era. Não é fácil promover a substituição de produtos manufacturados importados pelos mesmos produzidos domesticamente, até porque, neste caso, como se sabe, só entre a China e a vizinha África do Sul, não há quase nada que Moçambique possa possivelmente fazer que estes dois países não façam melhor, mais barato, mais depressa e com maior qualidade.

Portanto, se já há algum (peco aqui pela contenção) sub-emprego urbano e suburbano pela ausência de uma “revolução comercial e industrial” urbana, como é que vai ser quando, nos próximos 50 anos, aproximadamente metade da população rural de Moçambique, e os seus descendentes, se deslocarem para as periferias das cidades, em busca de emprego e de uma melhor vida? Estamos a falar de 12 milhões de pessoas. Como vão Maputo-Matola, a Beira, Nampula, Chimoio, Xai-Xai, Inhambane, aguentar?

Como vai ser gerir Maputo com cinco, seis milhões de habitantes, noventa por cento dos quais provavelmente, praticamente, à beira da miséria?

Por outro lado, o que vai acontecer nas zonas rurais?

Este irá ser seguramente um dos maiores desafios da liderança da geração dos pós-fundadores.

Um desafio logístico, político e de paradigma.


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A OUTRA MAPUTO

Sábado, Março 27th, 2010

Quando Maputo era LM, 1970. Vista da rotunda ao pé do Hotel Girassol. Foto tirada pelo pai BM

por ABM (Alcoentre, 27 de Março de 2010)

Há dias, falou-se nesta casa num mega-projecto que cedo se confirmou e que importará num investimento imobiliário de luxo na zona da FACIM, com o valor de 1200 milhões de dólares.

O meu amigo Deep Throat do Centro (DTC) referiu-me um artigo da autoria de Floris e Moschetti, publicado há um ano na Além-Mar e que aborda assunto concomitante, que é a inexorável migração das populações rurais para as zonas urbanas e, neste caso, o que é que isso pode significar. Merece leitura e aqui se reproduz com vénia:

Bairros de lata: vulcões prestes a explodir
por: F. FLORIS e D. MOSCHETTI

O êxodo rural, as calamidades naturais e a crise económica global estão a fazer aumentar assustadoramente a população urbana pobre, sobretudo nos países a sul do mundo. Com habitantes a viverem na incerteza e na precariedade, sem oportunidades reais, os bairros-de-lata configuram-se como vulcões prontos a explodir a qualquer momento e pretexto.

Em África a população das grandes cidades aumentou 10 a 12 vezes entre 1960 e 2005. Este incremento não esteve associado a um desenvolvimento económico correspondente. Pelo contrário: o produto interno bruto (PIB) diminuiu 0,66 por cento ao ano. Contudo, as cidades em África jogam um papel crucial no crescimento económico nacional. Hoje, em geral, a taxa anual média de crescimento da população africana anda à volta de 4 por cento, enquanto o das grandes cidades atinge 8 por cento, e não são casos excepcionais os de cidades que crescem 10 por cento ou mais, especialmente em regiões onde o êxodo rural se acentua devido a calamidades naturais ou fenómenos ligados ao desenvolvimento desigual do território.

Miragem

Além disso, a taxa de crescimento populacional em instalações urbanas precárias e marginais é por vezes superior a 25 por cento ao ano. Anualmente, mais de 5 milhões de africanos procuram uma nova residência nas periferias das cidades. A grande maioria da nova população urbana parece destinada a sobreviver na total incerteza, na precariedade, na procura, destituída de oportunidades reais, de uma melhoria das suas condições de vida, à margem da «grande miragem» representada pela cidade moderna. Escreve Peter C. W. Gutkind, autoridade de renome mundial no campo da antropologia urbana, falecido em 2001: «As cidades da África são, na maioria, novas. O seu nascimento é fruto da colonização que modelou a estrutura urbana com base em modelos não africanos, que favorecem um modo de vida completamente diferente e alheio à realidade local.» O resto fê-lo a incúria para com as zonas rurais – falta de investimentos e de apoio à economia familiar e de políticas tendentes à protecção dos solos – e a ausência de investimentos na construção civil popular nas cidades.

O primeiro factor, isto é, a falta de projectos tendentes a proteger as áreas rurais, provoca a fuga das aldeias e determina a decisão de procurar algures um lugar onde satisfazer as necessidades que a vida nas aldeias não satisfaz. Esta procura concentra-se na única alternativa possível: a cidade. Assim, a presença de um sistema urbano inarticulado implica e favorece a concentração de populações em pouquíssimos centros, que têm de acolher fluxos relevantes de gente.

Bairros-de-lata

É um «crescimento urbano sem cidade» que dá origem aos famigerados «slums», os bairros-de-lata: espaços autoconstruídos em terrenos do Estado, sem que haja um único tijolo, uma única viga de ferro e um único metro quadrado de vidro. «Nos países em vias de desenvolvimento», recorda-nos o professor Claudio Stroppa, «a dissolução da estrutura agrária agrava o êxodo dos camponeses sem terra; os bairros-de-lata acolhem-nos e desempenham um papel de mediação entre cidade e campo. Os bairros-de-lata muitas vezes consolidam-se e oferecem aos seus habitantes um “sucedâneo” da vida urbana, porventura miserável, mas muito intensa.»

Os efeitos destas contradições são evidentes na expansão das cidades. Trata-se de espaços complexos, onde estão presentes muitos dos contrastes que caracterizam a vida do planeta. Trata-se de cidades divididas por numerosas fronteiras, cujo simples atravessamento produz o sentido de passagem de uma fronteira a outra. Mas são fronteiras não simplesmente físicas: para entrar nos slums passa-se pela «fronteira do medo», enquanto para aceder aos bairros ricos se atravessa a «fronteira do bem-estar».

As cidades assim fragmentadas, em vez de serem lugares de encontro e de integração entre grupos sociais diferentes pelo nível económico, cultura e proveniência, transformam-se numa espécie de arquipélago constituído por muitas ilhas, marcadas pela qualidade das suas construções, pela presença (ou ausência) de infra-estruturas e serviços, pelas maiores ou menores condições de segurança.

Obviamente, as ilhas comunicam, os seus habitantes entrelaçam relações, e uma chave de entrada de uma ilha a outra é a conveniência económica, capaz de instituir relações e níveis de comunicação. Os ricos precisam de mão-de-obra barata e os pobres precisam de trabalhar. Nascem, assim, os intercâmbios, as subempreitadas, o fornecimento de serviços, o comércio nos slums de produtos industriais. Protagonista deste fluxo é o sector informal da economia, capaz de gerar postos de trabalho, riqueza e capacidade de poupança para a maioria dos habitantes das residências informais.

Confrontações

As ilhas vivem lado a lado e, no dia-a-dia, por vezes confrontam-se. Mas apresentam aspectos fortemente contrastantes: há island cities, «cidades-ilhas» ricas, do Primeiro Mundo, e outras pobres, do Terceiro Mundo. De um ponto de vista estético, o moderno arranha-céus e a barraca são os símbolos de cidades-arquipélagos, como Nairobi, Joanesburgo e Rio de Janeiro.

As island cities vivem em dois níveis. Uma parte «está no alto», ligada economicamente com o resto do mundo, porque a tecnologia que sustenta a rede global permite trabalhar e comunicar via éter. Esta parte do arquipélago está acima da outra e, muitas vezes, comunica mais em sentido horizontal, com as distantes cidades do mesmo nível, do que verticalmente, com o resto da própria cidade. A parte pobre do arquipélago, pelo contrário, está fortemente ligada à terra, porque luta diariamente para pertencer a essa terra, quer ocupando as estradas com os trabalhos informais, quer construindo a sua casa, geralmente pequena, pelo menos ao início, para poder ser edificada no menor espaço de tempo possível.

Na África Subsariana, na América Latina, no Médio Oriente e em algumas regiões da Ásia, a urbanização sem crescimento é também o resultado de uma conjuntura mundial específica – a crise da dívida do fim dos anos 70 e a reestruturação das economias em vias de desenvolvimento sob a égide do Fundo Monetário Internacional (FMI) nos anos 80 – e não tanto do êxito sabe-se lá de que lei coerciva do progresso tecnológico.

Explosão

A explosão dos bairros-de-lata foi analisada pelo relatório das Nações Unidas de 2003, The Challenge of Slums, «O desafio dos bairros-de-lata». O texto, o primeiro autêntico estudo a nível mundial sobre a pobreza urbana, compreende inteligentemente diversas sondagens locais, de Abidjão a Sydney, e estatísticas globais que incluem, pela primeira vez, a China e os países do antigo bloco soviético. O relatório lança uma advertência sobre a ameaça planetária da pobreza urbana. Os autores definem os bairros-de-lata como espaços caracterizados por sobrepovoamento, habitação precária ou informal, reduzido acesso à água corrente e aos serviços de saneamento, vaga definição dos direitos de propriedade.

Trata-se de uma definição pluridimensional e, em parte, restritiva, na base da qual se calcula, contudo, que a população dos bairros-de-lata atingia em 2001 pelo menos a 921 milhões de pessoas. Hoje os habitantes destes aglomerados representam 78,2 por cento da população urbana dos países menos desenvolvidos e um sexto dos cidadãos do planeta. Considerando a estrutura demográfica da maior parte das cidades do Terceiro Mundo, pelo menos metade desta população tem uma idade inferior a 20 anos.

A taxa mais elevada de habitantes de bairros-de-lata regista-se na Etiópia e no Chade, com 99,4 por cento da população urbana. Seguem-se o Afeganistão, com 98,5 por cento, e o Nepal, com 92 por cento. Todavia, as populações urbanas que mais se encontram na miséria são certamente as de Maputo (Moçambique) e Kinshasa (R. D. Congo), onde o rendimento de dois terços dos habitantes é inferior ao mínimo vital diário. Em Nova Deli, os urbanistas deploram a existência de «bairros-de-lata dentro de bairros-de-lata»: nos espaços periféricos, à histórica classe pobre da cidade expulsa em meados dos anos 70 acrescentam-se recém-chegados, que colonizam os últimos espaços livres. No Cairo, Egipto, os que chegam agora ocupam e arrendam partes de habitações sobre os tectos, gerando novos bairros-de-lata «suspensos no ar».

População subestimada

A população dos bairros-de-lata é muitas vezes subestimada, por vezes em grandes proporções. No final dos anos 80, por exemplo, Banguecoque, a capital da Tailândia, tinha uma taxa oficial de pobreza só de 5 por cento, mas alguns estudos demonstravam que um quarto da população, o equivalente a 1,10 milhões de pessoas, vivia nos bairros-de-lata e em habitações de risco.

Existem mais de 250 mil bairros-de-lata no mundo. As cinco grandes metrópoles da Ásia do Sul (Carachi, Bombaim, Deli, Calcutá e Dacca) albergam quase 15 mil zonas urbanas tipo do bairros-de-lata, para uma população total de mais de 20 milhões de pessoas. Os habitantes dos bairros-de-lata são ainda mais numerosos nas costas da África Ocidental, enquanto imensas urbanizações de pobreza se estendem até à Anatólia e aos planaltos de Etiópia, envolvem as zonas aos pés dos Andes e dos Himalaias, proliferam à sombra dos arranha-céus da Cidade do México, Joanesburgo (África do Sul), Manila (Filipinas), São Paulo (Brasil) e colonizam as margens do rio Amazonas, do Congo, do Níger, do Nilo, do Tigre, do Ganges, do Irrawaddy e do Mekong.

Os nomes do «planeta-bairros-de-lata» são todos intercambiáveis e, ao mesmo tempo, únicos no seu género: bustees em Calcutá, chawl e zopadpatti em Bombaim, katchi abadi em Carachi, kampung em Jacarta, iskwater em Manila, shammasa em Cartum, umjodolo em Burban, intra-muros em Rabat, bidonville em Abidjão, baladi no Cairo, gecekondou em Ancara, conventillos em Quito, favelas no Brasil, villas miséria em Buenos Aires e colónias populares na Cidade do México.

Um estudo recente, publicado pela «Harvard Law Review», calcula que 85 por cento dos habitantes das cidades do Terceiro Mundo não possui nenhum título de propriedade legal. Está em acto uma contradição estridente, porque o terreno onde crescem os slums é de propriedade dos governos, enquanto as casas construídas são de propriedade de poucos que impõem rendas puxadas aos pobres urbanos, os quais não possuem sequer a barraca em que vivem.

Dependência

As formas de instalação dos bairros-de-lata são muito variáveis: desde as invasões colectivas da Cidade do México e Lima aos complexos e muitas vezes ilegais sistemas de arrendamento dos terrenos na periferia de Pequim, Carachi e Nairobi. Em algumas cidades, por exemplo em Nairobi, o Estado é formalmente proprietário da periferia urbana, mas a especulação fundiária permite ao sector privado realizar enormes proventos à custa dos mais pobres. Os aparelhos políticos, nacionais e regionais, contribuem para este mercado informal – e para a especulação fundiária ilegal – e conseguem inclusive controlar as vassalagens políticas dos habitantes e explorar um fluxo regular de rendas e luvas. Destituídos de títulos de propriedade legais, os habitantes dos bairros-de-lata são obrigados a uma dependência quase feudal com relação aos políticos e burocratas locais. A mínima infracção à legalidade clientelar resolve-se com a expulsão.

A oferta de infra-estruturas, pelo contrário, está longe dos ritmos de urbanização, e os bairros-de-lata muitas vezes não têm qualquer acesso ao saneamento e aos serviços do sector público. E todavia, apesar de serem locais que se definem em termos de ausência – aquilo que não têm diz o que são –, os slums atingirão os 2 mil milhões de habitações em 2030, porque representam a única solução habitacional para a humanidade em excesso do século XXI.

Os bairros-de-lata poderão transformar-se em vulcões prestes a explodir? E os habitantes poderão transformar-se em sujeitos políticos capazes de «fazer história»? Muito dependerá da capacidade de desenvolver uma cultura de organização colectiva, mesmo se, como explicava Kapushinski, «os pobres, normalmente, estão calados. A miséria não chora, não tem voz. A miséria sofre, mas sofre em silêncio. A miséria não se revolta. De facto, os pobres só se insurgem quando pensam poder mudar alguma coisa». Saberemos ser parte desta mudança?

Amontoados nas cidades

Durante este ano de 2008, a população urbana terá superado a população rural. O processo de urbanização do planeta desenvolveu-se mais rapidamente do que o previsto pelo Clube de Roma no famoso estudo «Os limites do crescimento» publicado em 1972. Em 1950 existiam no mundo 86 aglomerados urbanos com mais de um milhão de habitantes. Hoje são 400. E calcula-se que, no ano 2015, serão 550. Desde 1950, os centros urbanos absorveram dois terços da explosão demográfica do mundo. Hoje os números da população urbana (3200 milhões de pessoas) ultrapassam os do conjunto da população mundial em 1960.

As previsões indicam que 95 por cento do crescimento da humanidade terá lugar nas zonas urbanas dos países emergentes. A população destes países deverá duplicar no curso da próxima geração. Este crescimento será liderado por países como a China, a Índia e o Brasil. A característica mais espectacular desta evolução será o multiplicar-se das cidades com mais de oito milhões de habitantes e o impacto das megacidades com mais de 20 milhões de habitantes. Na Ásia, por exemplo, em 1995 só Tóquio tinha atingido estes níveis de urbanização. Mas calcula-se que em 2025 só na Ásia haverá mais de 10 aglomerados urbanos destas dimensões, entre eles: Jacarta, na Indonésia, que terá uma população estimada em 24,9 milhões de habitantes; Dacca, no Bangladesh, que terá uma população de 25 milhões; Carachi no Paquistão com 26,5 milhões de habitantes; Xangai, na China, com 27 milhões; Bombaim, na Índia, com 33 milhões.

Mas a urbanização não dirá respeito só às megacidades. O crescimento urbano acentuar-se-á sobretudo nas cidades pequenas e médias, zonas urbanas secundárias, muitas vezes a acrescer sem planificação e serviços adequados. A China é o exemplo desta urbanização: o número das cidades passou de 196 em 1978 para 640 em 2008. Também na África, o crescimento explosivo de grandes cidades como Lagos, na Nigéria (que passou de 300 mil habitantes em 1950 para os 10 milhões de hoje) foi acompanhado pelo crescimento de pequenos aglomerados urbanos, como Ouagadougou no Burkina Faso, Douala nos Camarões, Antananarivo no Madagáscar. Na América Latina, enquanto antes o crescimento urbano foi monopolizado pelas grandes urbes, hoje são as cidades pequenas a crescer mais, como Tijuana no México, Curitiba, Salvador e Belém, no Brasil, Temuco no Chile. Na China, o êxodo da população rural para as cidades é determinado por uma revolução industrial e um processo de transformação social em acto. Mas em muitos dos países do Sul o processo de urbanização é alimentado por outras causas e não é acompanhado pela industrialização nem por qualquer outra forma de desenvolvimento e de promoção social.


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A exposição de Pancho Miranda Guedes em Maputo

Quinta-feira, Março 25th, 2010

Convirá lembrar que continua disponível no consulado de Portugal (Av. Mao-Tse-Tung) a exposição fotográfica dedicada à obra de Pancho Miranda Guedes: “Pancho Guedes. A Aventura da Arquitectura, o Desafio ao Formalismo“, a qual foi efectivamente organizada pela cônsul Graça Gonçalves Pereira – cujo trabalho nunca será realçado em demasia - , com a colaboração de Rita Neves. O conjunto fotográfico permite – ainda que a sua apresentação sofra os efeitos da exiguidade do espaço disponível – mergulhar nos trabalhos que o mais importante arquitecto da história da cidade aqui plantou. Parece-me pois que será aconselhável a todos os amantes de Maputo uma visita, atenta, a esta exposição – que foi inaugurada na recente passagem de P.M. Guedes por Maputo. Auto-imperdoável o esquecimento, poder-se-á dizer.

O catálogo, cuja capa acima reproduzo, e que integra  um conjunto de textos (Luís Lage, José Forjaz, Malangatana, da organizadora) para além de inúmeras fotografias, inclui ainda uma separata “Edifícios em Maputo” a qual contém uma listagem das obras do arquitecto na cidade. Fica aqui a sua reprodução (pressionando as imagens elas engrandecem) – um roteiro para vários passeios.

Sim, também vem muito a propósito nesta era em que o Maputo-cimento está a mudar, radicalmente, de formato. Poder-se-á até dizer que carregar esta separata e calcorrear a cidade será uma forma, mais ou menos nostálgica consoante o que cada um pensar ser o “desenvolvimento” e o “urbanismo”, de nos despedirmos de um certo Maputo-cimento. E de, vá lá, acolhermos um outro Maputo-cimento. E que cada um escolha o que prefere admirar. Quanto ao que preferirá para viver isso não será dos amantes da arquitectura a decisão. Nunca é, diga-se, em parte alguma do mundo o é. Ou foi.

jpt


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O Mestre e o Aprendiz

Quarta-feira, Março 24th, 2010

Shikhani com Tchalata.

Galeria e Biografia de Shikhani.
Texto sobre Tchalata.

PSB


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A NOVA MAPUTO DOS RICOS

Terça-feira, Março 9th, 2010

por ABM (9 de Março de 2010)

Se alguém tiver dúvidas quanto à pobreza ou riqueza, à ambição ou negociatas, ou ainda à sul-africanização, ou melhor, a Joanesburguização ou Durbanização da cidade de Maputo, observe apenas as visualizações, em baixo, do que se planeia (mais ou menos) para a marginal e os terrenos da defunta Feira Agrícola, Comercial e Industrial de Moçambique (FACIM) cuja pertença ignoro.

As maquetes foram-me enviadas pelo amigo do amigo do amigo. O que, se não me engano, significa que a esta hora metade de Maputo e arredores já as viu.

Longe de mim questionar o progresso e o crescimento da cidade, que não se soube libertar a tempo de ficar ensanduichada nos anos 60 e 70 pelos terrenos circundantes difíceis, pelo desafio de rasgar auto-estradas para Norte e uma ponte para Sul (a atempada libertação da longa noite colonial não deu tempo para isso, presume-se, e a pancadaria que veio a seguir também não deu tempo para mais).

Mas fazer ali uma espécie de Bairro da Coop 2 em estilo Noveau Sandton em frente à nesga da Baía é, enfim, algo menos do que eu esperava.

Eu sei que, ao preço que comanda o metro quadrado de terreno e de construção na cidade, surpreende-me que não apareça algum a fazer uma torre de 110 andares como aquelas no Dubai. É negócio, se calhar bom negócio, e se houver quem pague isto tudo, ainda melhor.

As minhas dúvidas existenciais, aliás, são outras. Fazer prédios ali se calhar até é a parte fácil. Mais duvidoso é saber como vai ser com coisas mais mundanas, tais como a infra-estrutura de água, electricidade e esgotos necessárias para suportar este projecto. Não havendo caves (a quota de água ali é elevada) onde vão parar os carros todos, e se os esgotos vão cair todos directamente na Baía ou se o projecto inclui a colocação de uma estação de tratamento de resíduos para a cidade. Finalmente, impermeabilizando-se uma área tão sensível e com uma enorme barreira atrás a qual não tem qualquer sistema formal de escoamento de águas pluviais, para onde é que vão escoar as águas quando cair uma daquelas chuvas a à antiga sobre Maputo?

Isto para não mencionar o facto elementar que aqueles terrenos não são terrenos normais: há cem anos, foram aterros feitos sobre uma praia, ou seja, não são à partida os melhores para se construirem sobre eles dezenas de prédios (razão pela qual nada se construiu ali durante mais que sessenta anos e aquilo era um parque verde da cidade, para quem não se lembra, com eucaliptos para suporte e drenagem). Na eventualidade de um tremor de terra mais estranho, as construções aí correrão o risco decorrente da liquefacção dos terrenos.

Já o referi antes e não sou o primeiro a dizê-lo: acho que é altura de se fazer uma ponte para a Catembe e expandir a cidade para Sul. E uma auto-estrada para Norte

E começar a pensar nos investimentos em infra-estrutura de base.

E em reabilitar e manter o que já existe.

E criar mais parques e zonas verdes para a cidade.

Mas isto é só uma opinião minha.


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MAPUTO

Segunda-feira, Março 1st, 2010

PSB


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Maputo a Nadar

Sexta-feira, Janeiro 29th, 2010

O Mercado Central em Maputo, 27 de Janeiro de 2010

por ABM (Alcoentre, 28 de Janeiro de 2010)

O JPT anda tão ocupado entre livros e blogues e a docência e a dolce vita da Sommerschield, que não deve ter reparado que depois de uma valente carga de água, a baixa de Maputo, um pouco como acontece com Veneza nas marés vivas, inundou mais uma vez ontem. Mas as minhas fontes secretas de informação discretamente tiraram as fotos que se seguem, captadas ontem na baixa da capital moçambicana e enviadas para o centro de operações ribatejano do Maschamba.

O que é curioso é que a cidade de Maputo, um invulgar aglomerado urbano especialmente se se tiver em conta que as cidades criadas pelos portugueses são invariavelmente um intragável e quase medieval emaranhado de casas e ruas, e que tem um traçado considerado moderno e bem conseguido, tem apenas um, incontornável, indesculpável, inexplicável calcanhar de Aquiles: a baixa.

Porquê?

As razões do problema são fáceis de explicar. Como o erro ocorreu é mais difícil explicar, pois acho que dava para perceber o que iria acontecer.

Antes de Maputo ser o que era, a Lourenço Marques original era uma língua de praia que quando a maré subia ficava uma espécie de ilha onde hoje de situam os terrenos entre a Praça 25 de Junho e a estação dos caminhos de ferro.

Eventualmente, essa “ilha” foi ligada aos terrenos confinantes, aterrando a depressão que a separava dos então chamados Altos do Maé (que nem suspeito quem tivesse sido) e logo por cima foi construída a actual Avenida 25 de Setembro.

Só que alguém se enganou e deixou ali ficar uma depressão em relação aos terrenos (sobre os quais já se tinha construído) onde hoje ficam as ruas do Bagamoyo e Consiglieri Pedroso.

O resultado? Quando chove muito, a zona entre o Hotel Tivoli e o Mercado Central inundam, sem apelo nem agravo. É por essa razão que a actual sede do Millennium-BIM, começada a construir ainda antes de 1974 para ser a sede do então BCCI, e que tem quatro andares por baixo do piso térreo, tem uma estranha configuração no seu piso térreo. Literalmente, são barreiras dissimuladas para impedir que, numa cheia, as águas entrem para dentro do edifício. Mas já aconteceu.

Já houve vários esforços feitos para tentar resolver o problema, o mais recente dos quais durante a memorável vereação do Dr. Eneias Comiche, mas em última instância a área de recolha das águas que para ali fluem – praticamente metade da cidade de Maputo cimento – é demasiado grande para que a baixa aguente um tal embate.

Portanto, para quem está na baixa, a solução para já e estar atento aos boletins meteorológicos e mexer-se depressa na eventualidade de uma chuva torrencial.

E ter um barco a remos.

Detalhe da Avenida 25 de Setembro (para os menos informados, novo nome da velha Avenida da República)

Mais uma perspectiva da baixa inudada no dia 27 de Janeiro de 2010


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Maputo em Pano de Fundo

Sexta-feira, Janeiro 22nd, 2010

por ABM (Cascais, 21 de Janeiro de 2010)

Não pagámos a renda e eu fiquei desligado durante dois dias. Coisas da internet.

Junto uma canção excelente, agradável, segundo o nosso leitor Sr, Sérgio Braz (cuja informação agradeço) da banda moçambicana 340 ml, que anda por Gauteng.

Os seus membros são Pedro (voz, sampler e percursão), Tiago (guitarra, coro e teclado), Rui (baixo e coro) e Paulo (percussão e coro) estudaram e vivem na África do Sul.

Já editaram dois álbuns: Moving (2003) e Sorry For The Delay ( 2008).

Como certas histórias que se contam por aí, eu oiço tanto a canção, ou vejo as pessoas a dançar à minha frente, como vejo ali tudo o que está à volta.

Maputo, Moçambique, no esplendor da sua decadência e renascença.

E danço.

A canção é Fairy Tales.

Voltem sempre. Magnífico.


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Lizzie Had a Dog in LM

Sábado, Janeiro 16th, 2010

Lizzie & Bóbbi

por ABM (Cascais, 16 de Janeiro de 2010)

A lógica da breve discussão prévia o impunha e uns meros 15 euros o resolveram.

Disfarçado de dono de um veleiro de passagem por Cascais, e após breve e inócua aventura na Livraria Bulhosa no Cascais Villa, peregrinei até à quiçá mais próspera e dotada FNAC do Cascais Shopping, com a Dulce Gouveia a reboque, para comprar a grande obra recente da Escritora de origem moçambicana, publicada pela Editora sediada em Coimbra.

Mas na secção dos livros dou logo de caras com o José Rodrigues dos Santos no corredor, que é máfia moçambicana do melhor e estes dias uma espécie de versão lusa do Dan Brown. Com ele não há cá memórias para ninguém. Antes que ele pensasse que eu ia ao livro dele sobre a Al-Khaeda, que se encontra à venda em todas (mas todas) as livrarias, grandes superfícies, aeroportos e até por baixo de vãos de escada, escapuli-me pelo café da loja para o outro lado e fui ter com uma daquelas meninas simpáticas da FNAC que usam um coletezinho verde e nos ajudam a encontrar os livros.

“Olá, boa tarde. Procuro o novo best seller daquela escritora nascida em Moçambique Isabela Figueiredo e não encontro”.

“Só um momento, sefachavor”.

Clic clic clic clic no computador.

“Sim, devemos ter ainda uma cópia na loja, deixe-me ir ver”.

E desapareceu.

15 minutos à espera.

Após o que a menina surgiu do nada com um livrinho pequenino na mão.

“Quanto é?”

“15 euros”.

“15 euros! Bolas. Deixe-me cá ver”.

E peguei no volume. E inspeccionei-o.

Preliminarmente.

Na verdade o livro é algo estranho.

A seguir à capa e a contra-capa, tem quatro folhas verde-alface sem nada, duas de cada lado, que deve ser para o leitor precavido tomar apontamentos. No fim, a seguir à folha verde-alface, diz uma nota que foi composto numa empresa gráfica na bela Vila Nova de Famalicão, “34 anos após o regresso da autora a Portugal”. Ok. Suponho que uma anotação válida para quem ao chegar ao fim do livro ainda não se tiver apercebido desse facto da vida da autora, ou que não saiba fazer contas de subtraír (pois 2009-34 = 1975) infelizmente um provável infortúnio com o estado da educação nos dias que correm.

Só que na pala interior da capa tem mais uma foto simpática da Isabela, esta circa 2009 e sans Bóbbi, e mais uma notinha a dizer que ela nasceu em Lourenço Marques em 1963, que em 1975 veio para Portugal, e que nunca mais voltou.

Espera aí: se aqui diz que ela nasceu lá, que veio para cá e que nunca mais voltou, porque é que no fim do livro diz que ela regressou a Portugal?

É um mistério. Assumo que deve fazer parte da complexa e mística dialética subjacente aos conteúdos ali abordados. Ora veja-se.

Ela nasce e cresce em Moçambique.

Mas ao viajar para Portugal em 1975, regressa.

Ora isto é para mim uma alegoria fantástica.

Tem umas fotografias: na capa (a foto ali no topo) a Isabela avec Bóbbi. Depois duas piquininas de Lourenço Marques nos tempos e que mal se conseguem ver, e a seguir vêm: a Isabela a segurar o rádio de papá debaixo de uma papaeira, a Isabela vestida de saloia portuguesa num barco, a Isabela a fazer pose num parque, a Isabela na marginal de Lourenço Marques e a Isabela na comunhão.

Na página 7, presume-se que para dar o tom do que está para vir, três citações, uma de Paulo Auster a falar do pai (o do Paulo Aster), e duas do italiano Primo Levi, a mastigar a presumível fungibilidade da Memória Humana. Bem, ou pelo menos a dele.

E, presume-se, por osmose subliminar associativa, a da Isabela.

A menção do americano Paulo Auster confunde-me e levanta-me imediatas suspeitas quanto à proeminência fotográfica do Bóbbi. Pois na sua Timbuktu, não a africana mas uma mitológica e utópica urbe, são as memórias do rafeiro Mr. Bones que descascam, numa odisseia tão deprimente como cativante, a existência de Willy Christmas, um homem infeliz e falhado, que morre à porta da casa onde o seu ídolo, Edgar Allan Poe, vivera. Será isso? O que acha, quais as memórias de Bóbbi da sua dona e da Lourenço Marques que a viu nascer e crescer? será que Bóbbi também regressou?

Primo Levi suscitou-me ainda maior supresa. Pois a sua escrita, sendo judeu e tendo passado pelos maiores horrores da carnificina Nazi, incluindo quase um ano em Auschwitz-Birkenau, é mais conhecida pelo conteúdo memorialista desse período – memórias que o perseguiram até à morte. Em 1987, o grande Elie Wiesel, que era professor na Universidade de Boston, onde estudei gestão e um pouco sobre o judaísmo nessa altura e durante dois anos, e ele próprio um sobrevivente do horror Nazi, disse que, quando morreu – e referindo-se às suas peristentes e pungentes memórias – Levi na verdade morrera em Auschwitz mas quarenta anos depois.

Que associações poderá haver entre a obra e o percurso de Primo Levi e este livro de Isabela? A curiosidade avoluma-se dentro de mim.

Procurei, e descubro que o livro não tem índice. Tem, isso sim, em 136 páginas (as que estão numeradas), textos sequenciados, de 1 a 43. Sem títulos. Só os números.

E na verdade, aí me apercebi, afinal aquilo não é só um livro (daí, decorrem, presume-se, os 15 euros).

Logo a seguir ao texto Número 43, depois de uma folha com umas das fotos piquininas de Lourenço Marques que não se vê bem, tem outra onde apenas figura, a meio, a singela e solitária frase, que se presume dedicatória: “À memória do meu pai”.

Repare-se no detalhe: não é em memória do pai. É à memória do pai.

Hum.

E a seguir tem uma página que diz, na vertical, com o texto a apontar na direcção da lomba do livro, em letras garrafais “Adenda” onde, aí sim- surpresa!- tem um índice, mas um indicando o que vem a seguir (aos textos numerados de 1 a 43): seis textos descritos como posts, incluindo o intrigantemente títulado Falta dinamitar o Cristo-Rei e logo abaixo o assaz mais invocativo de assunto gastronómico, Fígado de Porco; e,  finalmente,  Uma conversa com Isabela, que inclui, um pouco como nas (brevemente findas) conversas do Professor Marcello na RTP aos domingos à noite, e à margem das doze páginas do texto da entrevista propriamente dita (feita por não se sabe quem) as sugestões dela de dez livros, cinco datas e cinco lugares.

Portanto, isto é o que se pode chamar um pacote completo.

Que agora é meu.

Por, afinal, uns modestos 15 euros.

E que, feito o investimento e aguçada a curiosidade, vou ler este fim de semana, de fio a pavio.

E de que logo darei conta aos exmos leitores, após reler também a prosa canciana et al.

Para tirarmos esta coisa a limpo de uma vez por todas.

Um bom fim de semana a todos.


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O Fim do Mundo em Moçambique

Sexta-feira, Dezembro 11th, 2009



por ABM (Cascais, 11 de Dezembro de 2009)

Cortesia de Hollywood e por apenas cerca de cinco dólares (excluindo uma lata de Coca Cola e uma dose de pipocas) o exmo leitor pode ver a mais recente versão do fim do mundo, que é suposto ocorrer no dia 21 de Dezembro de 2012, mais ou menos daqui a três anos.

O novo filme de Roland Emmerich, que custou “apenas” 260 milhões de dólares a produzir e que dura umas quase insustentáveis duas horas e quarenta minutos de ponta a ponta, parte de bases interessantes. Uma, que é mais do estilo “voodoo”, é que o calendário da mais ou menos extinta civilização meso-americana dos Maias, e que nas contas deles indica que o mundo começou há seis mil e tal anos, acaba precisamente no dia acima referido, em resultado de algum (não confirmado) alinhamento de corpos celestes, que eles viram mas que nós hoje não descrutinámos ainda.

Outra base, também comprovada, é que em 2012 haverá um ressurgimento da actividade solar, sendo nessa altura a terra assolada por uma dose acrescida de ventos solares. Isto acontece todos os 11 anos e qualquer vulgar mortal que tenha um rádio de onda curta, opere um satélite, ou faça a gestão de uma rede eléctrica sabe isso.

Uma terceira base é que parte desse vento solar inclui umas minúsculas partículas chamadas neutrinos, que só agora andam a ser estudadas, e que têm a particularidade de poderem atravessar, supõe-se, o planeta de um lado ao outro. Neste filme, o aumento nos neutrinos “ferve” o interior da terra, causando a novimentação das placas terrestres – onde assentam os continentes.

Com esses pressupostos, temos 260 milhões de dólares de fim do mundo, desta vez à escala global, com cenas longas e chatas para entreter meninas teenager californianas e as suas congéneres no resto do mundo. Isso inclui a Califórnia literalmente cair para o mar (o que, sendo do imobiliário mais caro do mundo, dá um certo gozo ver), as magníficas pinturas de Michelangelo na Capela Sistina a desfazerem-se em pó por cima do Papa e os seus acólitos, a gigantesca cratera vulcânica que se situa no que é hoje o parque norte-americano de Yellostone a explodir, o Cristo-Rei no Rio de Janeiro a cair, Nova Iorque a ser demolida mais uma vez, e o maior tsunami na história do cinema a subir até ao pico mais alto da cadeia de Everest, no Nepal.

Isto com a habitual dose de amor, choro, baba e ranho, traição, humanidade e egoísmo que acompanham estas mega-produções.

O que trai o filme são as sequências infindáveis de cenas de perigo em que os nossos heróis (apropriadamente, uma família “moderna” – pais divorciados, o namorado da mãe a reboque, filhos parvinhos mimados e ressabiados) sucessivamente escapam por um triz à mais certa destruição. Na vida real, à primeira pedrada morremos. Mas aqui é umas atrás das outras e sempre tudo a andar. O que me surpreende, pois gastarem-se milhões e milhões em efeitos especiais para emprestar maior credibilibidade às cenas e depois fazer isto é deitar bom atrás de mau dinheiro.

Para os moçambicanófilos, há mesmo mesmo no fim do filme uma cena que não sei se devo rir ou chorar mas que é interessante. Depois de toda a hecatombe, a coisa acalma e os sobreviventes deste fim do mundo rumam, de barco, para o que consideram o lugar mais seguro e com mais chance de vida no que restou da Terra – nomeadamente, a cadeia de montanhas Drakensberg, que percorre a actual África do Sul e que acaba nos Libombos na parte Sul de Moçambique. Como o nível do oceano subiu algumas centenas de metros, no filme vê-se vagamente a maior parte do Sul de Moçambique…debaixo do mar.

Quando saí do cinema só me ria a pensar no que seria os Zulus e os Khosas, depois de aturarem 300 anos de guerras com os boers e lutarem para voltarem a ser os donos daquilo, e de sobreviverem um apocalipse…verem aparecer no horizonte três barcos cheios de gente para colonizar novamente a sua terra.

Seria Vasco da Gama all over again.

Claro que há um elemento interessante a meditar aqui. A julgar pelos apóstolos da desgraça, o mar vai subir uns cem metros nos próximos séculos. E, nesse caso, se se observar um mapa topográfico de Moçambique, o Sul do país literalmente desapareceria debaixo do mar. Para o exmo. leitor perceber o que isso significa, experimente subir ao topo do prédio de 33 andares na baixa de Maputo, que tem cerca de cem metros de altura. Olhe à sua volta e imagine o que é que significa o mar estar a essa altura.

Mas nem é preciso ir tão longe. Até ao fim deste século o mar deverá subir 1 a 2 metros. E se isso acontecer, a maior parte do caminho entre Maputo e a Ponta do Ouro – que já esteve debaixo do mar, pois aquilo é quase tudo areia da praia – será completamente inundada. A marginal de Maputo e toda a orla marítima até junto de Marracuene serão permanentemente inundadas.


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Domingo, Dezembro 6th, 2009

Democracia

jpt


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