Escrevo “burguesia” um outro escriba lê “luta de classes”. Obviamente que me lembro deste velho grupo – e descubro que ainda anda por aí. Como os tresleitores – sempre impantes.
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Escrevo “burguesia” um outro escriba lê “luta de classes”. Obviamente que me lembro deste velho grupo – e descubro que ainda anda por aí. Como os tresleitores – sempre impantes.
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Julgo poder falar em nome do quarteto co-bloguista quando dedico ao nosso PSB esta mais-do-que-nunca adequada canção (a qual presumo ser muito do seu agrado). Bem-vindo a esta prestigiada década.
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A implacável dona do 100Nada, veterana companheira do ma-schamba e Prémio Gandula 2005 (Condição Feminina – Prémio de Carreira) vituperou o texto anterior, o gadgetismo que nele se encerra e a minha decadência bloguística e pessoal que assim demonstro. Remata ela, fulgurante: “Tss tsss…há uns anos, teríamos aqui um post a dizer cobras e lagartos de tais mariquices. Estás a amansar o blogar, é o que é.” Com alguma tristeza
tenho que confessar a pertinência do Grilo Falante, a agitar a minha distracção ou, talvez, a apelar a irado canto do cisne. Tão visceral foi a pancada recebida que renuncio desde já ao gadgetismo propagandístico – sob o qual, assinalo, não me encontro pouco acompanhado. E ausento-me em busca de assuntos para pontapear haddockianamente, de alguma semi-juventude entretanto perdida. Até breve (?). E muitíssimo obrigado.
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Não possuir eu o tal de blackberry – com isso o tuitanço, o bloganço, o facebookanço via “telemóvel”/”celular” – não significa que seja imune ao apreço pelos gadgets. Nem eu nem os co-bloguistas. Por isso mesmo colocámos no ma-schamba, ao fundo de cada texto, esse botão “Gosto” (aka “I like”) com o qual o facebook acaba de atacar vigorosamente o Império Google, conforme nos diz o Paulo Querido, guru destas coisas da internet. Mas para não se dizer que tomámos partido nesse choque de titãs activámos o sistema (plugin) de partilha em várias redes sociais: em cada caixa de comentários os prezados leitores passam a encontrar um rol de ligações a essas redes, nas quais poderão partilhar e divulgar os textos e imagens aqui deixados. O colectivo machambeiro agradecerá, com toda a certeza. E espera que sejam gadgets do vosso agrado. Ou seja, que “gostem”, que “li(n)kem”!
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por ABM no texto e MVF nas fotos (São Bento, Lisboa, 11 de Fevereiro de 2010)
Pelo menos cinco Maschambeiros compareceram ao princípio da tarde para participar na manifestação, para que foram convocados os signatários de um grupo onde já pontificam cerca de vinte mil nomes, em sinal de preocupação com as alegadas esforços de violação ao direito à liberdade de expressão.
ABM, Pedro S, Jaime S, Marta R e Miguel VF aproveitaram o lindo sol (o astro, não o jornal) que se fazia sentir à hora de almoço para se juntarem aos cerca de cem manifestantes e um número considerável de profissionais da comunicação social, para criarem o que foi um evento algo mediático, dado não só o tópico, mas a tensão daquele momento, sendo que por essa hora já se sabia de uma decisão de um tribunal local de procurar impedir o Sol (o jornal, não o astro) de amanhã publicar uma segunda série de revelações relacionadas com supostos esforços do actual executivo de influenciar o que sai nas notícias em Portugal.
A decisão do tribunal foi solicitada por um administrador do Grupo PT com ligações ao PS, com vista a proteger o sigilo do conteúdo das conversas havidas em torno dos esforços do executivo de Sócrates de afectar o tratamento das notícias na estação de televisão da TVI. Recorde-se (já mencionado neste blogue) que desses esforços resultou a saída de José Eduardo Moniz e a extinção de um programa de notícias da responsabilidade da jornalista Manuela Moura Guedes, ambos ostensivamente hostis ao governo do dia e em particular ao PM.
O esforço, primariamente dos organizadores do grupo de apoiantes de Mário Crespo do Facebook, resultou, na medida em que os media reproduziram as preocupações expressas pelos presentes com a liberdade de expressão.
Houve algumas desinteligências na missão Maschambiana. Miguel VF não conhecia ninguém, que não o conhecia a ele (a nossa prezada initimidade é prezada mas é recente), Marta R veio sem avisar e estava do outro lado da manifestação, ABM, Pedro e Jaime enganaram nas horas e chegaram cedo uma hora, pelo que decidiram passar essa hora a comer rissóis e sandes de peixe espada com Coca Cola numa tasca boa e baratinha mais acima na rua de São Bento, mesmo em frente à casa onde viveu Amália Rodrigues, e depois ficaram sentados mais ou menos à frente da Fundação Mário Soares, a banharem-se no sol (o astro) enquanto os manifestantes se iam congregando.
O aparato de carros-satélite de televisão e de polícia e de barreiras era quase caricato para um grupo eminentemente pacífico e erudito. A manifestação acabou por ser uma pacata conversa entre jornalistas, os líderes da pandilha e o ocasional político ou activista que produziu meia dúzia de sound e video bytes para as cadeias.
Por volta das 14 horas todos arrumaram as botas e foram para casa ou de volta para o trabalho.
Entretanto é meia-noite e o Sol está nas bancas com mais revelações.
As fotos:

Dentro da AR, o parlamento debatia e aprovava o orçamento de Estado para 2010, que foi aprovado e o tal que é suposto "baixar" o défice para 8.5%
Adenda de jpt: quem quiser ver a “nossa” Marta na manifestação é espiar aqui.
Cumprindo o que foi recentemente alvitrado podemos agora confirmar a integração no plantel do ma-schamba de um neo-blogador . Trata-se de Pedro Sá da Bandeira, também aqui identificado. Um reforço no qual depositamos tantas esperanças que justificam o nosso “esquecimento” da sua condição benfiquista (característica que não mais aqui será aflorada, como é óbvio). Sê bem-vindo. E diverte-te.
Acabo de chegar ao ma-shamba, contente e de boa saúde. Depois de morosas negociações, o desenlace foi o que o iniciador da cousa, o venerável amigo José, quis que fosse, ou seja, a minha modesta contribuição para o blogue. Note-se que o antes citado, se deslocou expressamente a Lisboa para fechar o contrato de elevado valor pecuniário.
E como começar, agradecendo o convite e a hospedagem, já que a amizade cumpre-se e não se agradece? Talvez com aquilo que penso fazer melhor. Assim, cá fica nesta 1ª contribuição, uma fotografia, inédita até agora. Nada como o ma-shamba para estreias universais, parece-me. Foi feita esta imagem aquando de fugaz passagem por Moçambique, no Xai Xai.
Vosso
mvf
Estação de Caminhos de Ferro, Xai Xai
Estamos já em condições de informar que o ma-schamba acaba de garantir dois reforços. Os respectivos passes bloguísticos foram algo dispendiosos mas estamos certos que o investimento colherá dividendos. Um desses novos machambeiros, cuja aquisição exigiu prolongadas negociações, está já em condições de ser anunciado: trata-se de Miguel Valle de Figueiredo (para pormaiores consultar aqui), um neo-blogador que – entre outras qualidades – apresenta um inamovível ânimo sportinguista. O segundo reforço está já garantido e será em breve anunciado. Para tal espera-se apenas a conclusão dos seus testes médicos.
[Marcello Caetano ovacionado no estádio de Alvalade, num Sporting-Benfica, no final de Março de 1974. Fotografia copiada do Dias Que Voam]
O bom de ter um blog colectivo é poder entrar em polémica interna (já que para a externa isto “foi chão que deu milho” …). Vem isto a propósito do ditirambo do ABM “The best of maschamba” e respectivos comentários. Onde há muita coisa com que discordo. E que me apetece aqui realçar pois ultrapassam a questão abordada.
1. O texto do ABM refere-se ao livro “Caderno de Memórias Coloniais“, de Isabela Figueiredo, autora do Novo Mundo (e anteriormente do O Mundo Perfeito). Ainda não li o livro em causa – soube da sua edição através do Francisco José Viegas e li a crítica de Eduardo Pitta, opiniões literárias que muito prezo, mas ainda não o comprei. Há alguns anos li o O Mundo Perfeito e fui, progressivamente, abandonando o seu convívio. Meu gosto, apenas. Entendera o conteúdo, cansei-me da escrita. Coisa normal que não tem que ser nem adjectivada nem explicada. Como é óbvio sem ter lido o livro, tendo uma longínqua memória de alguns textos (os quais, aliás, coligidos – e julgo que aumentados – em livro até poderão saber-me diferente) e agora apenas com algumas citações desgarradas, seja no Da Literatura seja no Jugular, procurarei nada dizer sobre o seu conteúdo nem sobre a sua forma.
Mas ocorre-me citar o Francisco José Viegas: “Isabela Figueiredo, neste livro, fornece uma das imagens possíveis, explosiva, comovente, em chamas. É bom ver que, finalmente, se pode falar livremente sobre África.”. É disso que se trata. Nos últimos tempos do ma-schamba por várias vezes o trio teclista e alguns dos prezados comentadores residentes temos falado do interesse, da necessidade, em produzir e recolher as memórias do período colonial. Nesse sentido não há as “memórias correctas”. A cada um as suas. Que se queiram assumir como absolutas, correctas, é inadmissível. Que as queiram assumir como inaceitáveis, é inaceitável. Assim a insurreição diante do livro, ainda por cima assente numa pequena nota crítica de Fernanda Câncio, parece-me algo apressada (vamos lá a ler o livro) e, fundamentalmente, em contra-corrente com o que, no meio das nossas divergências, aqui temos vindo a defender.
O ABM e comentadores acusam a autora de ser jovem quando saiu de Moçambique, o que invalidará as memórias. Ora o livro não é um texto histórico, factual. Nesse âmbito que interessa, ou seja o em que é que menoriza, que tenha ela saído jovem de Moçambique? Recordo uma outra bloguista que jovem saíu de Moçambique, e cujo livro memorialista não levantou essa questão: Isabella Oliveira, do Chuinga.
2. A questão de fundo parece-me ser de fácil identificação: a autora invoca o racismo dos colonos portugueses. Discutir a forma como o faz, repito-me, exigirá ler o livro (ou mergulhar nos seus blogs). Mas a questão fundamental não é essa: a questão relevante é a de auto-inteligibilidade, de auto-compreensão, no fundo a da construção das memórias de cada um. Dos que conheço (e dos que leio) a esmagadora maioria dos portugueses que viveram o período colonial em África assentam a sua percepção desse real numa tríade, mais ou menos difusa: teórica - a de uma simpática particularidade miscigenadora portuguesa (um digest de Gilberto Freyre, reavivado pela intelligentsia socialista lusófona do fim do milénio, profundamente herdeira do republicanismo colonial); histórica - a da inexistência de um verdadeiro racismo, ou de um racismo violento, no sistema colonial português (percepções assentes no memorialismo sobre as interacções infantis, juvenis, domésticas, sexuais, até escolares, mas nunca sistémicas); política – as ditaduras subsequentes às independências foram piores do que o colonialismo (concepção sempre recorrendo à quantificação do mal).
Apontar(-lhes) que o extraordinário mas datado trabalho de Freyre teve evoluções ou até propor(-lhes) que era acima de tudo um discurso afirmativo da superioridade civilizacional (e portanto do necessário primado na cena americana e mundial) do Brasil sobre os EUA? Não colhe. Afirmar(-lhes) que as ditaduras de Luís Cabral, de Agostinho Neto, a socioeconomia de guerra de Eduardo dos Santos, o totalitarismo de Samora Machel não são comparáveis, em termos de regime, da sua natureza, das suas constituintes, com o colonialismo? Não colhe. Afirmar(-lhes) que o regime colonial era racista, no seu sistema, na sua essência, e que um regime e um sistema só vivem pelos seus agentes, pelos seus indivíduos, ainda que estes diversificados na sua heterogeneidade individual e contextual? Nem (lhes) interessa.
Continuo a insistir. É importante ouvir a memória do tempo colonizado. A dos colonizadores, a dos colonos, a dos colonizados. Todos eles, na sua multiplicidade, na sua diferença, as constroem. Com resultados muito diversos.
3. O que eu concordo, e muito, é na inadmissibilidade, tantas vezes explícita e muitas outras implícita, de traçar um corte na sociedade portuguesa de então: a racista (fascista) colona, a longínqua oprimida metropolitana. Algo encetado logo no 1974, no preconceito português tardo-metropolitano contra os “retornados” e ainda recorrente. Está aí em cima, e não apenas para provocar, a fotografia de 31 de Março de 1974. Marcello ovacionado pelo povo de Lisboa. Não para negar, pura e simplesmente, a adesão do povo português à democracia e à paz (ou à paz e à democracia, inversão que o “fernãolopismo” encomiástico nunca admite). Mas para a matizar, complexificar.
E também na inadmissibilidade, porque desadequação, de entender “racismo” como uma universalidade e uma homogeneidade de práticas e concepções, seja in illo tempore seja nos tempos actuais. Muito menos como se uma “condição nacional”, um “pecado original particular”. A autora percorre esse caminho? (algumas citações deixam-no entrever). Simplifica o seu olhar, empobrece-o? Talvez assim seja, mas isso será coisa a discutir depois de lida. E reconhecendo que o seu interesse lhe vem exactamente da sua subjectividade, que extremada seja, e não apenas da sua factualidade – e com isto não nego o interesse de memórias assentes em factos, documentos mais literais. Apenas a elas não me restrinjo.
4. A este propósito o ABM critica a edição em livro de textos de blogs, com isso ironiza. Pois eu, pelo contrário, acho muito bem, nada tenho contra livros, nada tenho contra blogs. Nada tenho contra livros que geram blogs, nem blogs que geram livros. Há blogs e livros que são uma merda, outros nem tanto. Alguns são muito bons. E até já saíram livros imortais (blogs não conheço). Eu por acaso gostava de ter tido um livrito com textos do ma-schamba, até lhe dei um título: “Ao Balcão da Cantina“. Para oferecer aos amigos no Natal, para dar aos meus pais e restante família. Tudo autografado “com apreço, com amor, com amizade, com reconhecimento e gratidão, etc. e tal”, conforme os casos. Mas não pegou, paciência. Quando houver um mp3 para livros talvez aconteça.
5. A comentadora Sabine tem toda a razão – muito do que o ABM critica está espetado em textos antigos meus aqui metidos. É esta a piada de ter um blog colectivo que não é um instrumento político (ou de outra qualquer índole). Somos amigos que não concordamos em muita coisa. E partilhamos um blog (há um convidado que ainda não respondeu – e que grande reforço que ele seria/á?, há dois putativos colaboradores que estão com vergonha, ou enfadados?, se calhar até chegará mais gente, a ver vamos).
6. Ainda a este propósito o companheiro Carlos Gil foi colocar este texto no Jugular e acusa Fernanda Câncio de ter censurado essa inserção. Dois pontos: a) discordo completamente que se possa afirmar censura. Há anos que para aí pus qualquer coisa como ”o blog é a minha casa e só entra quem eu quero“. Isto dos blogs (mesmo um blog como o Jugular, que tem uma dimensão política-pública – eu acho-o um instrumento) não são orgãos de comunicação social. Assim sendo têm outras obrigações, outras exigências, outra “deontologia” (metaforicamente falando, claro). E neste registo seleccionar textos, seleccionar comentários é perfeitamente legítimo, normal, admissível. Nós aqui não o fazemos (mas também só temos comentadores amigos – o que deriva, é a minha opinião, do tom do blog. E da sua modesta dimensão quantitativa, claro), mas compreendo perfeitamente que isso seja feito alhures. E não só não acho censura como não condeno.
Mais, as razões aduzidas por Fernanda Câncio são aceitáveis. Dela nunca li trabalho algum, nunca a vi na televisão ou escutei na rádio. Li alguns, muitos poucos, textos em blog. Dela apenas ouço o que a vox populi diz (que tem um namorado; que é muito arrogante). Que ela não lhe queira (à tal voz …) ceder demonstra fibra – seria muito mais fácil dizer “sim, senhores e senhoras, sou a tal, mas vamos passar à frente” e a gente passado algum tempo nem ligava ao facto. Mas era uma cedência, a mulher acha que não temos nada a ver com isso e prefere manter o bruaáá sobre a sua vida afectiva do que ceder. Aqui entre nós só lhe fica bem. Apesar dos (meus) pesares … que são muitos. Ou seja, só isso é que lhe fica bem, qu’isto não está para salamaleques com os aparelhos socialistas, seus apaniguados, coniventes e (infelizmente, muito infelizmente) com os seus recém-cooptados. Ou por outra, nada me moveu contra a mulher de Bettino Craxi. Mas nunca aceitei que Mário Soares lhe fosse dar um abraço. Nem que Jorge Sampaio fosse abraçar Abílio Curto, desconhecendo até se este foi ou é casado. Ambos abraços em registos oficiais, nunca esquecer. O resto é nada. Ou, vendo bem, é tudo o que se vai vendo no meu país. Mas, na realidade, isto já nada tem a ver com o livro de Isabela Figueiredo.
jpt [texto ligeiramente modificado]
por ABM (Alcoentre, 9 de Janeiro de 2010)
Fernanda Câncio, a putativa (segundo certa imprensa) namorada do actual primeiro-ministro português, José Sócrates, e fogosa escriba num Diário de Notícias infelizmente cada vez menos de referência, escreveu um curioso texto – que saiu na sua edição de hoje – sobre uma sra chamada Isabela, que, depreendo da leitura, como muitos de nós saiu um pouco a pontapé do Moçambique pós- independente e revolucionário aos 12 anos de idade, e sobre um livrinho que ela escreveu e que acabou de ser publicado, que dá pelo nome algo enigmático de Caderno de Memórias Coloniais.
Que não li.
Mas li o comentário de Câncio, que sempre vale alguma coisa e que me deixou algo mistificado.
Vamos por partes.
Deixou-me algo mistificado porque a Fernanda que, como já vi outras pessoas dizer noutras ocasiões, deve perceber tanto da realidade colonial como eu de física nuclear, começa por colocar legiões de “retornados” num vasto manicómio virtual, todos mentirosos e todos vivendo numa ilusão colectivamente induzida com o fito de não enfrentar uma inconfessável série de “crimes contra a Humanidade”, que, lá vai o argumento, só pode ser o que (no meu caso) os nossos pais e avós andaram todos lá pelas Áfricas durante séculos a cometer contra os nativos. Voluntária e até empenhadamente e, no caso do pai da Isabela, com requintes de malvadez.
Isso a acrescentar àquela outra Grande Ilusão Colectiva dos brancos e portugueses da África portuguesa (nunca os de cá, coitados) claro, a de que aquilo era “nosso”. Que se sabia perfeitamente que não era, especialmente a posteriori.
Bem, todos – especifique-se – menos a sua amiga Isabela.
No seu caso, Fernanda diz que a Isabela baseou os Cadernos nos seus escritos, alguns dos quais foi colocando num blogue de que nunca ouvi falar antes na minha vida, que alimenta regularmente e que se chama – algo deceptivamente – Mundo Perfeito. Bem, não pode ser assim tão perfeito como isso, se a imagem de cabeçalho que a Isabela escolheu para a porta do seu blogue é um corpo de mulher de cuecas e com cabeça de cão, sentada numa estufa com flores. É uma invocação que diz muito. Para mim uma alegoria de um mundo perfeito ( aquilo a que Sir Thomas More chamou em tempos de Utopia )podia ser a fotografia acima – mais ou menos. E ainda tem à porta da estufa retinintes e polidos avisos sobre os seus direitos de autora, que, na minha experiência na internet, são ah tão simpáticos como não valem um caracol furado. Neste meio a ofensa não se combate com avisos, combate-se com unhas e dentes.
Ou ignora-se.
Ora eis algo que não me ocorrera antes, isto de ter um blogue na internet, onde vou escrevinhando umas coisinhas e um belo dia, imagino que para aqueles que não têm internet, arranjo uma editora e escarrapacho tudo outra vez numa publicação, à laia de The Best of Maschamba. Bem, sempre tira a impressão fungível e a desconfortável sensação de estar sózinho num submarino e que as palavras que aqui escrevemos em suporte incompreensivelmente electrónico, pareçam um pouco menos aquilo que os americanos chamam pissing in the wind (no nosso vernacular, fazer chichi ao vento). Tenho que falar com o nosso Senador e a Sra Baronesa em reunião de Conselho de Machamba, mas receio que, numa futura edição do Caderno de Memórias Maschambianas, eu seja sumariamente relegado para uma recôndita nota de rodapé.
E lá se iria a etérea sensação da imortalidade literária.
Mas podia oferecer cópias dos livrinhos pelo Natal, o que com um blogue, admita-se, não se pode fazer.
A mistificação do comentário publicado no DN sobre a Isabela tem que ver com a evocação de um passado moçambicano que mais parece uma longa e pesada sessão de terapia duma branca com sentimentos negativos sobre a sua experiência africana e, quiçá, sobre o seu estatuto de retornada num Portugal revolucionário e recém-exorcizado da sua experiência colonial-bélica. Pelo meio, vagueiam ideias da injustiça daquilo tudo, o trauma do (presumo) rescaldo do 7 de Setembro de 1974 e ainda o fantasma do pai, que, recita, chamava coisas feias aos colonizados com pele mais escura e que, num contexto em que – creio – ninguém tinha “direitos”, tinham ainda menos que os colonizados mais clarinhos. A Fernanda, cuja experiência africana (e muito menos moçambicana) repito, desconheço por completo, arremata, no que presumo possa apenas ser uma infeliz exaltação literária, dizendo que vivia-se (em Moçambique) num país onde se podia atropelar um negro e não ir para a prisão. Pois. E esqueceu-se de referir que comíamos meninos pequenos para o matabicho.
Decorre que com a independência tudo isso acabou. E que com os assassínios de brancos por representantes armados da maioria negra nos arredores de Lourenço Marques em 1974 fez-se, apenas, justiça. Ai sim Fernanda? hum, sorte, então eu ter sobrevivido aquela pouca vergonha toda, e não graças à sua boa vontade.
Há aqui dois aspectos que me induzem a pensar que talvez este tipo de intro-retrospecção tenha que ser trabalhado um bocadinho mais.
O primeiro aspecto é que, segundo a Fernanda, cuja retórica para estes efeitos, aceite-se, é mais ou menos irrelevante, a Isabela saíu de Lourenço Marques em 1975 com 12 anos de idade. Se calhar viajámos os dois no mesmo avião da TAP em alturas diferentes, só que eu tinha 15 anos de idade, diferença que importa para efeitos desta discussão. Pelo menos eu já não era virgem, naquele e em muitos outros aspectos da vida.
Ora, para alguém que saíu de Lourenço Marques em 1975 com 12 anos de idade, a análise global da situação que a Fernanda diz que a Isabela faz, a crer-se biográfica e despida de preconceitos e análises que só possam ter sido posteriormente adquiridos, devem ser deveras de assombrar, vindos de uma miúda. A minha irmã mais nova, que tinha a mesma idade e teve o mesmíssimo percurso que a Isabela, mal sabia jogar ao berlinde. E lá em casa ainda estamos à espera dos seus cadernos.
Mas admita-se que pode ser que seja a nua verdade no seu caso pessoal, em que a forma como pinta o pai assusta mais que o papão colonial-racista. O que refere dava para horas e horas (e horas e horas) de sessões de psicoterapia.
Mas não logra por um segundo pintar uma realidade maior.
O segundo aspecto é que, por minha parte – e já o tentei explicar uma vez ao JPT e sob pena de me repetir – ao contrário de alguns eu vivi lá, e no meu microcosmo o pai BM e a quase totalidade das pessoas com quem contactava, não chamava nomes a ninguém, branco ou preto, eu não era inibido de me dar com ninguém com base na cor da pele e, se não disputo (mas não desta maneira) a sustentabilidade do tal “ídilio colonial” de Lourenço Marques que a Fernanda diz que não existia (existia, sim, que chatice), pintar essa era e todas as vastas e complexíssimas relações pessoais, económicas, sociais e raciais de Moçambique no fim da era colonial em Lourenço Marques com um simples rótulo de “racismo” e “abuso” é totalmente descabido. É falso. É absurdo. É ridículo. É uma fraude moral, intelectual e histórica. É projectar os seus preconceitos actuais, ignorar as suas causas e tentar justificar moralmente os seus efeitos e a pulhice que veio a seguir, e em que de longe as maiores vítimas – surpresa – foram sempre, e quase só, milhões de moçambicanos, que de uma ditadura passaram directamente para outra, não muito diferente.
Especialmente se se está a falar no começo dos anos 70, em Lourenço Marques.
Claro que lá havia racismo. Claro que havia injustiça, incluindo a racial. Claro que tinha que acabar. Que tinha que mudar. Claro que havia gente como o pai da Isabela. Se calhar até pior. Claro que aquilo era uma ditadura, com tentáculos em Portugal, um anacromismo total num mundo já quase sem impérios coloniais e em que os países comunistas activamente armavam e patrocinavam os que combatiam o que sobrava de colonialismo no mundo. Ser colonial a partir de 1950 tinha o seu custo em lágrimas, suor e sangue. Salazar estava disposto a pagá-lo, outros não. Em 1974, venceram estes.
Mas cuidado ao pintar tudo de negro. O pior racismo que vi na minha vida não foi em Moçambique, foi nos Estados Unidos quando para lá fui viver em 1977. Portugal hoje não é muito melhor. Quotidianamente vejo as maiores injustiças serem cometidas em Portugal hoje que não se distinguem assim tanto das injustiças que haviam em Lourenço Marques e que há em toda a parte. As injustiças económicas que se observavam há quarenta anos em Moçambique, aliás, ainda se mantêm em larga parte. Pois não é de um dia para o outro que se capacitam milhões de pessoas pobres, rurais e analfabetas que vivem de subsistência no mato e se lhes proporciona, e aos seus filhos, condições para ascensão social e económica.
O crime, se é que se pode dizer assim, não era do que a Isabela diz que vislumbrou aos dez anos de idade e muito menos dos tiques racistas do seu partido pai, que não conheci. É de um país que estava na mão de um ditador que escolheu manter um statu quo décadas depois da altura em que deveria ter iniciado medidas para atempadamente preparar e entregar o poder político e a gestão da nação moçambicana aos seus filhos, descomplexadamente e de cabeça erguida.
Provavelmente quer eu quer a Isabela teríamos lá ficado, a viver em paz e sossego e estaríamos a ajudar a construir esse novo país, em vez de andarmos à esmola de familiares hostis e dependentes de amizades que se calhar nunca o foram, olhando no espelho à noite e inventando na mente que aqui pertencíamos.
E a ter que tentar engolir de terceiros a tese de conspiração de que o que ali porventura encontrámos de bom e belo – e que hoje é apenas uma memória, só isso – não foi, não podia ser, que estamos a mentir aos outros e, pior, a nós próprios.
Vão à merda.
Dito isto tudo, acho que um dia destes lá vou ter que ir procurar o tal de livro para ver mesmo do que é que a Isabela está a falar.
Ou talvez não.
Quanto ao blogue, para já fico à porta.
(por AL enregelada e meia aluada sob efeitos severos de jet-lag)
Depois de 24 horas de aviões e aeroportos eis-me em casa, aproveitando os efeitos do jet-lag para por em dia o que por aqui se tem passado na maschamba. Os pobres dos meus neurónios ainda baralhados com os fusos horários sentem-se agora mais apaziguados depois de duas horas de leituras deliciosas (perdoem-me o que pode soar a auto-elogio, mas as entradas e os comentários que acabo de ler merecem!). O meu Natal foi diferente e dará certamente algumas entradas na maschamba, mas para já aqui fica um pequeno apontamento natalício das ruas de Pangim.
Agora são as malas, ainda feitas, que chamam por mim.