“… essa mitologia cultural europeia, com a sublimação da Grécia e a subalternização de Roma, resultando da complexa relação de nossos sucessivos presentes - o nosso também -, com um passado sempre outro na luz desses presentes, tem a sua lógica. Acrescente-se que essa sublimação do helénico em detrimento do latino - já presente na própria cultura romana - faz parte de um combate de outra ordem que a meramente cultural, que tem como objecto, explícito ou implícito, a imagem e o papel do cristianismo na história da civilização europeia. À latinidade ficará associada a catolicidade, na sua versão historicamente justa de romana. (…)
Quando, no século XIX, o germanismo se começa a impor, como discurso filosófico, filológico e cultural, surge então, como reflexo de área cultural em perigo - como hoje com a América - a ideia de defesa de latinidade e mesmo de uma romântica União Latina, sonho de poetas (Mistral) mais do que de historiadores e políticos. Essa ideia nebulosa não vai além da sua expressão folclórica, exalta a latinidade dos povos latinos, na Europa ou fora dela, como herdeiros e exemplo de um modo de ser, de certo modo de uma visão do mundo, de um gai savoir que, embora sem relação profunda com a visão de Nietzsche, reenvia para um certo paganismo provençal um culto das realidades solares e naturais que vale bem e mais do que o culto nórdico do progresso científico, em sua, do que se chamava então e ainda hoje “o materialismo” ou, na sua forma soft, o pragmatismo.”
(Eduardo Lourenço, “Digressão Sobre a Latinidade“, A Morte de Colombo. Metamorfose e Fim do Ocidente Como Mito, Lisboa, Gradiva, 2005, pp. 138-140)
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Revisão da Matéria Dada
Novembro 15th, 2006 — Eduardo Lourenço, Lusofonia
Fevereiro 22nd, 2006 — Lusofonia
Outubro 31st, 2005 — Lusofonia
Ligar um texto alheio pode ser conselho/convite à leitura. Ou, se argumentando sobre o assunto abordado, será também constituição/convite de diálogo:
A Susana do Lida Insana botou o Desmemoriados, referindo a minha última courela de lusofonia. Dado que opina sobre o assunto entendo o texto como um convite, amável, ao diálogo, à consideração. Hesito, vou ver e tenho 56 entradas na categoria “lusofonia”, muita repetição, muita insistência, muita palha decerto. Casmurrice porventura. Parvoíce talvez. E, acima de tudo, não tenho mais nada a dizer do que aqui botei à exaustão. [”Onde é que tu queres chegar com tudo aquilo da lusofonia?”, perguntava-me um meu afilhado de casamento aquando da minha última ida a Lisboa. Honestamente? … a lado nenhum. Mais que não seja dado que não acredito que um blog dê para chegar a algum lado]. Mas não resisto, é mania minha.
A Susana escreve sobre a lusofonia. Vou citá-la, mas o melhor é ler tudo, que a citação é sempre redutora:
- “A mensagem do dia é que a lusofonia, seja ela o que for, existe.” e que “que a verdadeira oposição é entre os que têm e os que não têm consciência de que esta é uma das bases da nossa identidade, qualquer que seja a maneira como a representamos.”
Pois, “seja o que ela for, existe”. Tá bem. “É uma das bases da nossa identidade, qualquer que seja a maneira como a representamos”. Tá bem. Ou por outras palavras, Assim Seja.
- “Não são os espanhóis que são “nossos irmãos”, não são os primos brasileiros; são os africanos da matriz cultural portuguesa“. Tá bem. Assim seja.
Haverá alguma hipótese de discutir formulações destas? Se há isso ultrapassa-me, minha lamentável incapacidade.
Passo. A categoria “lusofonia” encerra. (Até à próxima, se calhar. Mas isto desgasta, caramba).
Março 31st, 2005 — Alfredo Margarido, Lusofonia
Um leitor do Ma-Schamba acaba de me enviar um texto da autoria de Igor José de Renó Machado. Uma recensão crítica ao livro de Alfredo Margarido (2000), “A Lusofonia e os Lusófonos: Novos Mitos Portugueses“.Como aqui tenho vindo a escrever sobre o asssunto “lusofonia” julgo de interesse colocar o recém-chegado texto. Com alguns pontos não concordo, com algum enfoque discordo radicalmente. Mas isso é natural, a cada um sua sentença. Mais tarde direi das minhas discordâncias. Às visitas já cansadas deste tema as minhas desculpas, é só clicarem “fuga”. Aos que têm apreço por este “abaixismo” à mediocridade aparatchikista, obrigado.
Eis:
MARGARIDO, Alfredo. 2000. A Lusofonia e os Lusófonos: Novos Mitos Portugueses. Lisboa: Edições Universitárias Lusófonas. 89 pp.
Igor José de Renó Machado
Doutorando, Unicamp
O livro A Lusofonia e os Lusófonos é um libelo contra uma forma hegemônica do pensamento social português, representada por intelectuais, colunistas de importantes jornais e intelectuais orgânicos do partido do governo (o PS) e do leque político que se estende até a extrema-direita. Sob uma ironia refinada e uma crueza ácida, Margarido põe à mostra as entranhas nada gloriosas dessa forma de pensamento que domina a Comunidade dos Povos de Língua Portuguesa (CPLP) e a diplomacia portuguesa e que, embora ignorada no Brasil (como, ademais, o próprio Portugal), é insidiosa e efetiva na relação de Portugal com os países africanos que se livraram do jugo português após sangrentas guerras coloniais. É insidiosa também na organização interna da imigração para Portugal que, de acordo com as regras da União Européia, fecha as portas aos imigrantes das ex-colônias. Nesse sentido, a lusofonia afeta diretamente a vida dos cerca de 50 mil brasileiros imigrantes em Portugal, se contarmos apenas os números oficiais.Margarido considera que a partir de 1960 se deu o rompimento de Portugal com o Atlântico, momento marcado pelas guerras coloniais, imigração e pelo nacionalismo racista. A lusofonia surge como ferramenta ideológica para recuperar esse espaço atlântico, apagando a história colonial e as relações polêmicas com os povos de língua portuguesa, mediante a tentativa de controle da língua “mãe”. A importância da língua aumenta apenas quando desaparece o controle direto das populações e, após 1974, quando se lhe confere o papel que foi dos territórios colonizados: o de recuperar a grandeza portuguesa. Ao mesmo tempo, controlam-se cada vez mais as populações “residuais” dos tempos coloniais - os imigrantes - em Portugal e no restante da Europa. Exibe-se a contradição entre a pretensão de um “espaço lusófono” e o exagero da submissão portuguesa às leis de Schengen, que cria uma Europa racista, eugênica e desumanizada. E essa violência racista é dirigida, em cada país, a grupos específicos (em Portugal, são os cabo-verdianos o alvo preferencial do racismo, diz o autor, mas podemos acrescentar: os moçambicanos, guineenses e brasileiros).
O discurso da lusofonia encampa um projeto missionário de “civilização” após as guerras coloniais (nesse sentido, pós-colonial), agora focado na língua. O primeiro sintoma dessa virada acontece com a mudança de vocabulário após as independências africanas, similar à francofonia, criando um suposto “espaço lusófono” e uma história comum cor-de-rosa. A contradição aparente é que o atual europeísmo da União Européia condena os particularismos nacionais (principalmente o dos países mais pobres da União), o que impede a formação de espaços lusófonos, francófonos ou hispanófonos reais, como fica claro pelas políticas de controle de imigração cada vez mais duras e desumanas na Europa. Só há e só pode haver espaço lusófono em um discurso mítico.
Margarido critica a visão lusófona do passado, como se o “Outro” só existisse após o encontro com algum navegador português, esquecendo-se a outra face do encontro: a invasão. Além disso, faz digressões sobre o trauma ocorrido com a independência do Brasil em 1822, que levou o discurso colonial português a reafirmar os “direitos” às demais colônias e populações. Esse trauma surge e ressurge de várias maneiras: ou escamoteando a independência brasileira como sendo um fator português, dado que foi proclamada por D. Pedro I, ou vendo no Brasil um Estado-filho ou Estado-irmão mais novo, implicando sempre laços que devem manter tais países unidos (se o Brasil continuar sempre infantilizado).
A partir da década de 20, os nacionalistas brasileiros passam a se preocupar com o povo, e Gilberto Freyre vai derivar o Brasil do apetite sexual português. Mas o luso-tropicalismo só existe em Portugal no pós-45, quando o que já era ruim é mutilado para servir à hegemonia colonial portuguesa, fechando os olhos a toda sorte de violências (que culminaram nas malfadadas guerras coloniais), barrando inclusive a possibilidade de modernização do país. Aqui não se pode deixar de dizer que Margarido produz um “nacionalismo alternativo”, que luta contra a lusofonia para que Portugal chegue à modernidade. Como um exilado permanente, lecionando na França, e como um dos principais críticos do colonialismo português, Margarido pode ser visto como um intelectual “contra-hegemônico”.
Outra contradição da lusofonia é a atual preocupação com a língua, que nunca foi objeto de cuidados quando da época colonial. No Brasil e nos países africanos (até 1961) não se criaram universidades e a política de não-educação era uma forma de manter o estatuto de inferioridade do colonizado. Os africanos sem escrita eram considerados “fora da história” e só “entram na história através das formas de dominação” (:51). A língua passa a ser, depois de ignorada sistematicamente pelo colonialismo tardio português, o elemento de continuidade da dominação colonial, e “a exacerbação da ‘lusofonia’ assenta nesse estrume teórico” (:57). Recorrendo a Saussure, o autor demonstra como uma comunidade lingüística é baseada na religião, convivência, defesa comum etc., o que é definido como etnismo. A relação desse etnismo com a língua é uma relação de reciprocidade, ou seja, é a relação social que tende a criar a língua, portanto, a língua não pode ser a pátria de ninguém. Essa fórmula pessoana apaga o peso dos “costumes” nas considerações sobre a língua, fazendo com que os povos com outros costumes possam ser lusófonos apenas por falarem português (minha pátria é minha língua… mas quem é que manda nessa pátria?). A idéia de uma pátria lingüística é uma hierarquia que apenas repõe aquela do Império.
É interessante ver o papel da língua brasileira em Portugal, através do avanço da mídia brasileira na Lusitânia. Na verdade, essa presença influenciadora é profundamente incômoda para a intelectualidade portuguesa, que acaba por reduzi-la a um sinal da “criatividade” natural do brasileiro. Esse falar brasileiro “criativizado” pelos portugueses repõe o mesmo preconceito lusófono: a criatividade e a criação artística são o outro lado da selvageria e, portanto, a natural criatividade do brasileiro é mais um sintoma de sua inferioridade intelectual, pois ao criativo é negada a razão, como forma de tentar conter dentro das estruturas de um lusofonismo detestável a presença da fala brasileira.
Aqui se pode questionar Margarido, mesmo reconhecendo a irônica provocação que é elevar a língua brasileira ao status de “língua oficial” da suposta lusofonia. Para tentar desmontar e provocar a intelectualidade portuguesa, profundamente incomodada com a presença do falar brasileiro, Margarido argumenta que é a língua brasileira a mais bonita, maleável e “erótica” e, portanto, a única candidata a uma suposta língua lusófona. É questionável recorrer, para criticar a lusofonia, à imagem estereotipada que ela própria reproduz, ao acentuar o caráter “erótico” do português falado no Brasil. Uma das características da lusofonia é a separação entre civilização e selvageria, na qual Portugal representa o processo civilizatório e a língua equivale a “civilizar”. Se assim é, o apelo à “natureza erótica” da fala do brasileiro é mais um recurso, mesmo quando usado ironicamente, à lusofonia, pois o brasileiro erotizado é rebaixado ao pólo “selvagem” dessa divisão básica do discurso lusófono. De fato, não é a fala do brasileiro que é erótica (afinal, o que é isso?), mas é porque ele é visto de modo erotizado que a fala é considerada erótica. Isto por si só dá a entender ao leitor brasileiro a força desse discurso lusófono em Portugal, pois nem mesmo seu crítico mais ácido consegue se desvencilhar dele completamente.
Ora, a lusofonia não passa de um “doce paraíso da dominação lingüística que constitui agora uma arma onde se podem medir as pulsões neo-colonialistas que caracterizam aqueles que não conseguiram ainda renunciar à certeza de que os africanos [e brasileiros, acrescentaria] só podem ser inferiores” (:71). A lusofonia serve como ferramenta de manutenção das distâncias racistas em que se baseou o discurso colonial após seu fim sangrento, apagando o passado e recuperando a antiga hegemonia. O que Margarido não diz explicitamente, mas que se pode derivar de seus argumentos, é como serve a lusofonia de estrutura da ordem hierárquica que escalona os imigrantes, “resíduos” do Império que procuram em Portugal fugir ao desastre que em casa foi a herança portuguesa. É uma suprema (e dolorida) ironia que os imigrantes sirvam como o campo preferencial de reordenação simbólica da ordem imperial.
Embora ao leitor brasileiro o tema da lusofonia debatido por Margarido praticamente não faça o menor sentido (o que é ótimo e dói nos ouvidos portugueses), para os países africanos recém-saídos do - e destruídos pelo - período colonial, a temática lusófona é, no mínimo, repugnante. Mas é preciso alertar ao potencial público objeto da ideologia “lusófona”, os falantes de português, a não jogar o jogo da lusofonia, seja por subordinação causada pela miséria (no caso de Moçambique, Angola, São Tomé, Cabo Verde e Guiné), seja por desprezo (no caso do Brasil). Entre outras causas, é justamente por esse grande desprezo da opinião pública brasileira, que o mecanismo da CPLP pode curvar-se ao lusofonismo tacanho do governo português. Para imigrantes brasileiros e africanos das ex-colônias, entretanto, o discurso da lusofonia é uma armadilha terrível, pois o espaço lusófono, como mito que é, nunca se realizará na prática. A busca por direitos “especiais” baseados na lusofonia por parte de associações imigrantes oriundas do desastre colonial português, além de infecunda, apenas reforça essa “ideologia-estrume” (no dizer de Margarido).
mais…lusofonia [agente de desconhecimento]
Março 30th, 2005 — Lusofonia
“Ausente do obsidiante mundo dos padrões, a lusofonia não tem imagem estatística. E sem imagem estatística, não se existe na globalização comercial e financeira. Uma razão para esta inexistência global é julgarmos conhecer os oito países membros da CPLP como as nossas mãos. No imaginário lusófono, eles estão juntos na cultura e nos afectos: um é velho, outro é grande, os outros precisam de ajuda para crescer. Só que a história e geografia assim conotadas escondem o potencial de desenvolvimento porque não apreendem a governação (…)”[Braga de Macedo, “Governação no Espaço de Língua Portuguesa” in Mediafax, nº 3123, 27.09.04]
De novo a lusofonia?
Junho 8th, 2004 — Lusofonia
Peço desculpa pelo complemento: não será “curiosamente”, é um traço estruturante, em particular do posterior regime colonial.
Maio 18th, 2004 — Lusofonia
Lusofonia de novo. O Luís Carmelo está absolutamente imparável no Miniscente na sua abordagem à lusofonia. Temo (!?) que não fique pedra sobre pedra. Uma pérola.
Lusofonia
Maio 15th, 2004 — Lusofonia
O Luís Carmelo abordou no seu Miniscente um tema que me é caro (bem, para uma escrita literal seria melhor “que me é barato”): a lusofonia. Não resisti a botar pequeno comentário, que já teve complemento do dono da casa. Confesso que gostaria de por lá ler outras opiniões - nem que seja porque o assunto não é o Iraque.
E enquanto não volto à liça permito-me deixar aqui referência a um velho texto meu sobre o assunto, posto no Ma-schamba quando este era ainda mais marginal. Está aqui o Fragmentos de Lusofonia.
[Sei bem que a auto-referência é pecado de soberba. Ou será de gula…de leitores? Enfim pecado é, escolha a visita de que espécie será]
"Mundo Português"
Dezembro 22nd, 2003 — Lusofonia
José Alberto Carvalho é locutor da televisão estatal portuguesa. Nela apresenta o telejornal. Que tenha eu reparado há pelo menos um ano e meio que termina a sua função, algo impante até, com a reclamação de que emitiram para todo “o mundo português”. A primeira vez que tal ouvi nem quis acreditar. Foi-o talvez por coincidência ou talvez não, no momento da conferência de chefes de Estado do CPLP no Brasil. Acredito que entusiasmado por tão magno acontecimento se lembrou ele (ou o editor) de tal expressão: “o mundo português”. Terá sido o “inconsciente colectivo” nele(s) brotado, ali a querer apagar a história?Claro que os mais letrados se podem lembrar de Freyre e do seu “mundo que o português criou”. Mas Freyre pode ser lido e relido, e sempre como homem do seu tempo, e arguto, que o caminho dele era bem mais complexo do que lho quiseram dar. E deste Carvalho duvido que leia Freyre, pelo menos com olhos de ler. E duvido ainda mais que seja homem do seu (nosso) tempo. Daí que este “mundo português” do qual se despede, impante repito, todas aquelas noites é-lhe decerto mais parecido com aquele império que se expôs em 1940.
É Carvalho um reaccionário, um saudosista, um revanchista? A querer mudar a história com a sua pequena retoricazita? Não o creio, acho mesmo que é apenas um ignorante e nem tem consciência do que diz. De que é emitido, e por via de acordos entre Estados, para os países africanos que não se consideram “mundo português”. E que não o são. (Para bem de todos nós, diga-se.) E países onde tal afirmação constantemente repetida na nossa televisão estatal só pode criar desnecessários anti-corpos, resmungos, mal-estar: pois água dura em pedra mole …
Má vontade minha com um pequeno pormenor? Um episódio ridículo do corropio de ignorância, bem sonora a televisiva? Não acho. Trata-se da televisão pública, da informação estatal. Pode não ser a voz do dono (e francamente acho que não o é, já a vi bem mais seguidista), mas no estrangeiro representa o poder, a sociedade. Percepção que se reforça, naturalmente, em países onde a informação é ainda mais dependente do poder político do que a nossa o é, o que molda a visão que têm das outras.
Francamente, esqueço-me desse Carvalho. Custa-me é que noite após noite ninguém na RTP, áfrica ou não, lhe diga “ó homem, cale-se lá com isso”, que ninguém fora da RTP, áfrica ou não, lhe diga “ó homem, cale-se lá com isso…”. Ou será que realmente se pensa por aí que há esse “mundo português”?
Caramba, bastava dizer um “mundo em português”, um pequeno “em~” até talvez hipócrita, mas que diferença semântica. Politicamente correcto? Não, não! Historicamente correcto [e mesmo sobre a língua haveria tanto para dizer, mas aqui não vale a pena].
Mas enfim, ninguém acha necessário dizer algo. Pelo menos blogo aqui a minha curiosidade, o meu espanto, onde é que vão descobrir esta gente, estes carvalhos e afins, de onde brotam eles, tão viçosos e saudáveis? E que raio, vão eles sempre florindo, e bem alimentados exactamente por parecerem credíveis, confiáveis. E assim seguindo com fé e afinco o mandamento bíblico, crescendo e multiplicando-se.
Neste Maputo, que de há muito não é LM ou um qualquer outro “mundo português”, e onde como imigrantes vamos sendo julgados e/ou gozados por cenas como estas, olho-o(s) lampeiro(s) no ecrã e vou-me lembrando da velha pergunta de autor, “e não se pode exterminá-los”?
Mas, e pensando melhor, talvez não seja essa uma boa ideia, que bem piores se seguiriam, pois por aí parece não haver limite para tudo isso.
"Mundo Português" 2
Dezembro 22nd, 2003 — Lusofonia
Ontem mesmo, arrastando em Lisboa este tempo que por cá me resta, enfrentei aquele início de alfarrábio, ali postado entre o café Luanda e o café Polana, a avenida assim a agigantar-se em mapa cor-de-rosa. E descobri esta jóia, os poemas de Jorge Ferreira em “Saudade Macua”, um pequeno livro de 1969 e que então ganhou o Prémio Camilo Pessanha, atribuído pela Agência Geral do Ultramar e acredito que muito merecidamente.Sou mero leitor, nada especialista em literatura, serão as minhas opiniões sobre os méritos deste livro apenas senso comum. Mas não posso deixar de realçar a obra, talvez até retirá-la do esquecimento, desmerecido, tão percursora ela é das sensibilidades e noções de hoje, a abrangente lusofonia. Pois nela se corporiza (antevê?) este sentimento lusófono que vem unindo portugueses e seus irmãos de outros continentes, não só a história que nos une, como ainda a comunhão que a habita nos correres dos tempos. Veja-se como Ferreira antecipa estas décadas do hoje em dia, Estados talvez apartados pelos ventos da política, povos unidos pela língua e pelo sentir, por tantos interesses comuns. Repito, a revisitar, este hoje esquecido poeta:
“O Branco da Terra
s’Oliverra é o branco da terra
s’Oliverra é nossa pai
gente conhece
gente entende
a nosso amigo
s’Oliverra
machamba de s’Oliverra
é sempre bom
chi..s’Oliverra
branco tem feitiço!
S’Óliverra usa chapéu
sol é muito quente
e s’Oliverra
tem careca.”
Ah, tanta harmonia nesses dias, tanta harmonia para hoje.
(Jorge Ferreira, Saudade Macua, Agência Geral do Ultramar, 11)
