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Ainda a ortografia. E sobre a prática …

Vasco Graça Moura: “Babel e Outras Confusões” explicita o que toscamente tentei argumentar no Leigas Considerações Sobre o Acordo Ortográfico.

Ontem, jantar em casa-própria, algumas das convidadas, sábias, completamente de acordo com Fernando Cristovão: a grafia é mera convenção, posterior à fala, não a influenciando. O bacalhau com couves estava aprazível, não me alonguei na discordância. Esta entre gente da linguística e da literatura vs um mero antropólogo. No assunto têm mais técnica do que eu. Mas dá-me a sensação que não entendem bem o que é a prática (praxis, no calão académico, sempre dado a estrangeirismos), que não entendem bem o que é um processo social, fiando-se no apartar das coisas. Fica, depois dos soberbos doces, esta alfinetada. Ferroada …

Ortografia

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Sou fraco leitor de revistas. Quando as trago deixo-as acumuladas por aí, tantas delas têm época, prazo de validade - coisa que os livros também têm (nem que seja o dos nossos interesses) mas vai-se fingindo que não. Uma para este fim-de-semana, excelente: Historia. Um número velho (nº 703, Julho de 2005), abandonado na sub-estante, com um belo caderno especial - em trinta leves páginas se aborda a História da Língua Francesa (isto para além de outros artigos de interesse: pesquisa arqueológica sobre os trácios, na Bulgária; legislação familiar na Roma imperial; navegações comerciais francesas de XVIII, etc.). Enfim, coisas que cá não chegam …

No final do espaço dedicado à História da Língua Francesa uma entrevista com Bernard Pivot. Uma frase, em título: “L´ortographe est une politesse”.

Entendo-o como “é a civilização”.

Acordo Ortográfico (ainda)

O artigo no Sol da autoria de Fernando Cristovão, personalidade de grande reputação, “O Acordo Ortográfico e o uso da língua“. Termina: “Para além de tudo isto, não vale a pena a chantagem de se confundir ortografia com língua, estilo, pronúncia, etc. - porque a ortografia é convenção que em nada interfere com o uso da língua“. Assim sendo mata as minhas leigas considerações aqui deixadas. Sou leigo, repito. A formulação do Professor Fernando Cristovão surpreende-me e custa-me a integrá-la. Mas não tenho como duvidar deste (tamanho) saber alheio.

ainda sobre a ortografia

Coloquei mais uma adenda ao Leigas Considerações sobre o Acordo Ortográfico.

Leigas considerações sobre o Acordo Ortográfico

Ciática. Primeira noite de insónia. De nem dormir nem ler. A desoras na RTP-Internacional assisto ao diferido do Prós e Contras sobre o Acordo Ortográfico. O assunto pouco me diz pois por demais técnico para não repetir eu, total leigo, meros lugares comuns assentes em preconceitos. Só me parece que o estafado argumento dos seus defensores, o do dinamismo plural da língua, esconde a vontade normativa: a de que o novo acordo a venha a fixar, sossegar. Desconfiança minha … E, já agora, também me parece que se tal é a dinâmica um acordo velho de vinte anos, do tempo do Toninho Cerezzo, talvez já tenha passado de prazo.

Sobre o programa algumas coisas, para mim denotativas do conteúdo destas discussões:

1. Uma obsessiva e esparvoada tendência para discutir exemplos de como se dirão as palavras após a amputação de letras (eu acho óptimo, e digo-o, que se diga óPtimo com P maíusculo, mas se era para ficar a noite toda a discutir isso então não era precisa a reunião de ilustres intelectuais, a rapaziada no café entre a imperial e os tremoços resolvemos a questão).

2. Um exemplo máximo de arrogância mal-criada: Carlos Reis - que por vezes vem a Moçambique - virando-se para um outro professor universitário, que lhe explicava algo de linguística tão simples que até antropólogo percebe (em palavras simples, que não é inata a superior facilidade da aprendizagem de um “f” sobre um “ph”), e como tal não lhe cabe no argumento disparando-lhe que não lhe reconhece  capacidades pedagógicas dado que não o convencera. Eu, logo ali, fico adversário dos argumentos do distinto “Professor” (como gosta de ser tratado ainda que entre pares) Carlos Reis e da Dama que defende. Uma ordinarice que me resolveu a dificuldade da opção: logo passo ao “Delenda Acordo Ortográfico est“, baseando-me nesta profunda reflexão teórica. Apenas lamento que o outro (falta-me o nome) não tenha tido o discernimento de o mandar a alguma parte. Arrogante de merda …

3. O trá-lá-lá entusiasta dos “representantes” da “África de expressão portuguesa”, Inocência Mata e João Melo. Foi preciso que Vasco Graça Moura (que não será exactamente um “africanista” ou um “africanófilo”) lhes lembrasse a inexistência de uma reflexão normativa sobre a interacção entre línguas africanas e o português, coisa que nem lembravam nas suas excitadas intervenções em prol de um qualquer pluralismo. João Melo diz (e sorridente!!!) “nós ainda não as decidimos“:

a. Então está à espera de quê?;

b. Alto lá, mas são eles (esse “nós” de João Melo) os donos da língua? São eles que vão nesses casos impor as regras à língua comum? Aqui o argumento da comum propriedade (e, portanto, da partilha normativa) não se coloca? Afinal não são só os malandros dos portugueses (os colonos) que querem mandar na língua?

Indigência total.

4. A grandiloquência de Vasco Graça Moura (”maior atentado à cultura e história portuguesa” tirar umas consoantes avulsas? até da minha ciática duvidei …) e o flanar entre-poetisas de Maria Alzira Seixo, assim completamente incapazes de culminar um raciocínio. Lá o termino eu, em linguagem de café: tirar consoantes “mudas” emudece as vogais antecedentes. Num sotaque urbano português  (pois se emudece é na fala e não na leitura, algo que até parece estranho entre tanto perito em literatura escrita a falar do assunto) que tende para o emudecimento omnívoro das vogais e para a amputação das extremidades das palavras isso tenderá, possivelmente, para a incompreensão auditiva entre os falantes de diferentes sotaques e, fundamentalmente, para a crescente incompreensão outra diante dos portugueses.

Aqui puxo dos meus [pequenos] galões (ainda que não induza ninguém a chamar-me “professor” ou “doutor” nem costume achincalhar colegas em público): sendo um tipo burguês, ainda por cima lisboeta, que lecciona em Moçambique sei bem das dificuldades com que me entendem o cântico (e não é por causa dos duplos “cc” que vou escrevendo). E após uma década já vou com isto do sotaque um bocado mudado, mais aberto, é ver os colegas que chegam de Portugal e o desespero auditivo (donde intelectual) dos alunos para os compreender.

5. Diverti-me imenso com a ideia de que se deve escrever como se fala (e mais os exemplos dos doutos ou laureados intervenientes). Lembrei-me do meu pai António, portuense (acontece nas melhores famílias) ao longo da vida a resmungar com o meu sotaque. Confesso que, para vergonha dele e até minha, digo “Coâlho” e escrevo “Coelho” e tantas outras. Fico livre?! Nunca mais o meu pai me chateará, legitimamente, sobre os meus “dezóitos” e afins. A rapaziada nem sabe o que a espera …

6. Um ilustríssimo amigo telefou-me, perdão, tefonou-me hoje a rir-se das preocupações ortográficas lá na minha terra. Mas acima de tudo a lamentar o ter-lhe sido impossível assistir ontem ao lançamento do “Caetano e o Ocaso do “Império”. Administração e Guerra Colonial em Moçambique Durante o Marcelismo (1968-1974) da nossa amiga comum Amélia Souto. Perguntando ainda se eu atentara no modo como a imprensa escrita e televisiva se tinha referido ao livro. Como? “Caetano e o caso do “Império“, claro. Deu para uma boa gargalhada, ainda que em ciática. Mas não ríamos dos jornalistas. Era mesmo dos “Professores”.

7. Finalmente, é engraçado ver como tantos costumeiros adversários da globalização (a pobre esquerda a-crítica, aqui “luso-tropical”) surgem agora seus defensores. Paladinos, até.

Depois da arenga vou-me dedicar ao estudo: sintaxe. A ver se ainda vou a algum programa de televisão. Sobre normas e línguas …

Adenda: sobre esta matéria excelente artigo de Rui Ramos: “O nosso império é a língua portuguesa”, demonstrando como as aparências (pluralizadoras) tanto enganam, e o não menos esclarecido texto de Nuno Pacheco: “A língua, o acordo e uma falsa unidade ditada pela política”. Ambos transcritos no De Rerum Natura.

Outra Adenda: No mesmo blog dois textos que vêm as coisas de modo diferente - adversários do Acordo Ortográfico consideram que a escrita não deve ser regrada (chamam-lhe “legislada”): este e este. Para além de não compreender, meu defeito decerto (lá perguntei mas não me responderam, infelizmente), qual a especificidade deste fenómeno social institucional, especificidade que o exima à regulação que todos os outros similares apresentam, o simples facto de estar aqui a escrever e alguém me ler permite entender o vácuo da argumentação - mas as comemorações de Maio de 68 vêm aí, e entende-se o “espírito de geração”.

A ponte

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Há algum tempo, e depois de uma incessante busca, aqui deixei registo de uma verdadeira ponte lusófona, até surpreso por a ter conseguido encontrar, tão procuradas elas o são (foram?). E ainda para mais na até longínqua Mocuba.

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Agora, por mero acaso, encontro a fonte de tão inusitado encontro. E isso ao ler “Cardeal Cerejeira. Fotobiografia“, de José da Cruz Policarpo (Lisboa, Editorial Notícias, 2002), interessante introdução ao fotobiografado e à sua (longa) época, a fazer justiça ao desafio do autor: “Evocar a sua figura através de fotografias da época, aguçará o apetite para um estudo histórico de maior fôlego” (13).

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[Cerimónia de Abertura da Exposição do Mundo Português (2 de Julho de 1940).]

Uma época rica, uma iconografia ideológica hoje deliciosa de observar e de analisar. E de, até malevolamente, deixar reconhecer descendências.

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Aprendo ainda que “Depois da Madeira, São Tomé e Angola, onde visitou várias cidades, Cerejeira chega a Moçambique (na foto … desembarcando do Serpa Pinto) onde preside à cerimónia da sagração da Catedral de Lourenço Marques (14 e 15 de Agosto) e em Mocuba, sobre o rio Licungo, inaugura uma ponte com o seu nome.” (109).

Ora aí está, a tal ponte lusófona, ex-Cerejeira. Não há coincidências. Nem no já longínquo então. Nem no próximo então. O mesmo pacote intelectual: medieval; neo-medieval.

Acordo Ortográfico

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Há quinze dias visitas por cá indagando o que se pensa sobre isso. “Isso”? Ah, o Acordo Ortográfico. Andam a discutir isso, agora? Ontem longínquo telefonema a interromper conversa, mais longínqua gente a perguntar o que se pensa por cá de tamanha questão. Hum, acho que andam a discutir coisas mais importantes …

Argumento a favor: a evolução da língua nos seus diferentes contextos implica a sua diferenciação de pormenores, obriga à actualização da padronização. Argumento contra: a  evolução da língua nos seus diferentes contextos implica a sua diferenciação de pormenores, obrigará à actualização da padronização. Em dez anos? - pois é óbvio que o argumento favorável crê (ainda que simule descrença) no poder regulador e estabilizador da concordata ortográfica.

Opinião de amigo daqui. “Isso é coisa vossa. Fica X% à brasileiro, 0,X% à português. Então decidam…”. Opinião deste amigo do amigo: “centre” ou “center”? chópingue ou xópingue? O do livro, claro.

Não sei o que me surpreende mais: se o tornarem isto uma questão técnica, se o tornarem uma questão política. Pois é só do dinheiro do livro escolar que se fala, nada mais. Importam-se de não incomodar?

(19.12.2007). Acordo ortográfico. Não tenho qualquer posição veemente. Apenas uma questão. Como se passará a escrever: xópingue ou chópingue?

Uma pequena delícia: a factual demissão do gerúndio. Para além do fruir desta pérola - e de uma hipotética discussão sobre os conteúdos das formas do português - serve também como entrada para quem ainda não conheça o De Rerum Natura, actualmente o mais estimulante dos blogs que conheço.

Coisas do sotaque


(Lumbo, Agosto de 2007)


O ensaio inicial, “Uma Arte de Sobrevivência”, dedicado ao que será ser português parece-me um regresso ao culturalismo (e que me parece articular com os seguintes “Uma Tragédia Portuguesa, com certeza” e “Tabucchi, como nós”, assim associando o “desassossego” às outras componentes do tal “ser português”, entre as quais se recupera Teixeira de Pascoaes). Não vai daqui crítica, é um tom característico do “ensaísmo” português, em particular quando fala de Portugal (e com esta afirmação estou também eu pisando o culturalismo).O “ensaio” quase sempre me confunde, por mais interessante que seja, como este livro (heurístico é uma palavra exo-bloguistica). Por um planar assumido, descontrolado. Às vezes espanta, mesmo que ensaio. E ilegitima o discurso. Assim (ainda que sabendo que a citação pode truncar os argumentos, e que mais vale ler o todo):

Em certo sentido, somos uma ilha inventada por nós: nos últimos quatro séculos, sempre nos relacionámos com os outros quando eles vinham ter connosco e não porque os procurassemos.”(20)

Li uma história diferente.

Amanhã, pelas nove horas, Eugénio Lisboa falará na Escola Portuguesa. Sei, vagamente, que o tema será “a lusofonia” e algo mais (não sei mais pois a divulgação não atinge o vulgo - aliás a visita soube-a via blogoPortugal). Lá estarei, ouvindo alguém digno de apreço. E, no meu particular, visitando pela primeira vez uma Escola que acompanhei, oito anos atrás, semana a semana, capacete na cabeça, durante a sua construção. Quando era um projecto de cooperação.

Mais vale tarde do que nunca: encontrei-a, à tal ponte lusófona …

(Mocuba, Dezembro de 2006)

e aqui a ofereço a sub-intelectuais portugueses de extracção socialista, juntamente com o brinde …

um ciclista “lusófono”!

(idem)

“A condição de monoglota é uma obsessão romântica. Herder e Hamann acreditavam que cada um de nós tem as raízes no sangue e nos ossos de uma só língua. O que é ao mesmo tempo verdadeiro e falso.” (137)

“Para a arraia-míuda como a minha, ser poliglota é uma espécie de limite. É mais do que evidente que existem graus de à-vontade natural, de interioridade … que me serão para sempre inacessíveis. Por outro lado ser poliglota é uma riqueza ilimitada: é uma janela aberta que me permite olhar múltiplas paisagens!” (139)

“Ao contrário dos psicólogos e dos sociólogos do Reader’s Digest, que gostariam de nos fazer crer que educar as crianças em várias línguas é uma ocasião de esquizofrenia, sei na minha carne que isso é uma mentira absoluta, que as várias línguas são a promessa de uma profusa riqueza de experiência humana e, talvez, de sobrevivência, quando nos vemos reduzidos à fuga. (…) A vida é maravilhosamente diferente quando se muda de língua …” (140)

“Grosso modo, a partir da década de 1890, começou a desenvolver-se uma grande literatura poliglota. Oscar Wilde, que escreveu a sua Salomé em francês, terá sido uma das figuras mais significativas de toda a literatura moderna. A extraterritorialidade do irlandês relativamente ao inglês é um aspecto decisivo. Não sabemos em eu língua(s) Beckett compunha. Nunca falava disso. Borges é poliglota. Repete incessantemente que está mais perto do inglês do que do espanhol. Acima de tudo, há Nabokov: o francês, o russo, o inglês e o anglo-americano, que é ainda outra coisa. Os romances anglo-ingleses, como a Verdadeira Vida de Sebastian Knight e Convite Para Uma Degolação, são muito diferentes, digamos, de Lolita. Nele há, pois, uma comutação quádrupla, ou talvez anda mais do que isso. O maior livro de poesia inglesa, diz-se muitas vezes, é o Milton de 1667, que mistura o hebraico, o grego, o italiano, o latim e o inglês” (139)

George Steiner, Os Logocratas, Lisboa, Relógio d’Água, 2006 (2003) [tradução de Miguel Serras Pereira]

Revisão da Matéria Dada

“… essa mitologia cultural europeia, com a sublimação da Grécia e a subalternização de Roma, resultando da complexa relação de nossos sucessivos presentes - o nosso também -, com um passado sempre outro na luz desses presentes, tem a sua lógica. Acrescente-se que essa sublimação do helénico em detrimento do latino - já presente na própria cultura romana - faz parte de um combate de outra ordem que a meramente cultural, que tem como objecto, explícito ou implícito, a imagem e o papel do cristianismo na história da civilização europeia. À latinidade ficará associada a catolicidade, na sua versão historicamente justa de romana. (…)

Quando, no século XIX, o germanismo se começa a impor, como discurso filosófico, filológico e cultural, surge então, como reflexo de área cultural em perigo - como hoje com a América - a ideia de defesa de latinidade e mesmo de uma romântica União Latina, sonho de poetas (Mistral) mais do que de historiadores e políticos. Essa ideia nebulosa não vai além da sua expressão folclórica, exalta a latinidade dos povos latinos, na Europa ou fora dela, como herdeiros e exemplo de um modo de ser, de certo modo de uma visão do mundo, de um gai savoir que, embora sem relação profunda com a visão de Nietzsche, reenvia para um certo paganismo provençal um culto das realidades solares e naturais que vale bem e mais do que o culto nórdico do progresso científico, em sua, do que se chamava então e ainda hoje “o materialismo” ou, na sua forma soft, o pragmatismo.”

(Eduardo Lourenço, “Digressão Sobre a Latinidade“, A Morte de Colombo. Metamorfose e Fim do Ocidente Como Mito, Lisboa, Gradiva, 2005, pp. 138-140)