Archive for the ‘Lusofonia’ Category

O Patriotismo segundo Eça de Queiroz

Sábado, Agosto 28th, 2010

[Eça de Queiroz, Por Obséquio Retire-se do Meu Personagem, Babel, 2010]

Uma “Carta a Pinheiro Chagas”, datada de 14.12.1880 – destrutiva do destinatário – que é um verdadeiro manifesto. De uma actualidade radical, apesar do tom de optimismo pedagógico da época.

Em nós outros não é por gorjeios de rouxinol parlamentar, por apóstrofes balbuciadas aos pés das Molucas, por soluços de um peito sufocado de êxtase, por serenadas e endechas, que se traduz o amor do país; é por emoções pequeninas, triviais e caseiras, que pouca relação têm com a estrondosa tomada de Ormuz: emoções de burguês que vive no estrangeiro, ao canto solitário do seu lume solteirão.” (45)

É que há duas espécies de patriotismo, meu caro Chagas.

Há em primeiro lugar o nobre patriotismo dos patriotas: esses amam a pátria, não dedicando-lhe estrofes, mas com a serenidade grave e profunda dos corações fortes. Respeitam a tradição, mas o seu esforço vai todo para a nação viva, a que em torno deles trabalha, produz, pensa e sofre: e, deixando para trás as glórias que ganhámos nas Molucas ocupam-se da pátria contemporânea, cujo coração bate ao mesmo tempo que o seu, procurando perceber-lhe as aspirações, dirigir-lhe as forças, torná-la mais livre, mais forte, mais culta, mais sábia, mais próspera, e por todas estas nobres qualidades elevá-la entre as nações. Nada do que pertence à pátria lhes é estranho: admiram decerto Afonso Henriques, mas não ficam para todo o sempre petrificados nessa admiração: vão por entre o povo, educando-o e melhorando-o, procurando-lhe mais trabalho e organizando-lhe mais instrução, promovendo sem descanso os dois bens supremos – ciência e justiça.

(…)

Dão-lhe [à pátria] sobretudo o que as nações necessitam mais, e o que só as faz grandes: dão-lhe a verdade. A verdade em tudo, em história, em arte, em política, nos costumes. Não a adulam, não a iludem: não lhe dizem que ela é grande porque tomou Calecut, dizem-lhe que é pequena porque não tem escolas. Gritam-lhe sem cessar a verdade rude e brutal. (…) Eis o nobre patriotismo dos patriotas.

O outro patriotismo é diferente: para quem o sente, a pátria não é a multidão que em torno dele palpita na luta da vida moderna – mas a outra pátria, a que há trezentos anos embarcou para a Índia, ao repicar dos sinos, entre as bênçãos dos frades, a ir arrasar aldeias de mouros e traficar em pimenta. Esse, a sua maneira de amar a pátria é tomar a lira e dar-lhe lânguidas serenadas. Esse sobe à tribuna de Parlamento ou ao artigo de fundo, e de lá exclama, com os olhos em alvo e o lábio em luxúria (…) – Deixa lá … Tu tomaste Cochim.

É esse patriotismo que, quando alguém salta uma verdade, acode de mão à cinta (…) - Olá, que injúria é essa à pátria? Pois não sabes tu, ignorante, que nós somos ainda temidos na Índia?

(…)

Este patriotismo (…) eu chamar-lhe-ia entre nós patriotice.” (32-35)

Essa patriotice tem no ma-schamba levado este nome.

jpt


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Uma Carta de Maputo no jornal Sol

Quarta-feira, Agosto 11th, 2010

["D. Quixote", gravura de Marti, editada em 1853]

Um acontecimento raro. A publicação na imprensa portuguesa de expressão nacional [jornal "Sol" - mas sem ligação na sua edição electrónica] de um texto de um português residente em Moçambique dedicado às relações entre o país e Portugal. O jornal “Sol” vende-se na rua mas eu nunca o compro, falhei portanto a leitura. Alguns amigos avisam-me, até porque o texto aborda dimensões educacionais e culturais, e enviam-me o texto num óbvio questionamento. O autor é Tiago Lagoia, patrício que não conheço e que presumo – pelo tom – que aqui seja recente. Não posso deixar de sorrir, lá se ecoa o secretário de estado vendedor de cortiça de que eu já falara (colhendo então invectivas de “estar sempre do contra”, até entre os meus mais próximos). Pois a este patrício – e, pelos vistos, aos seus parceiros moçambicanos – o ridículo do vazio intelectual desse governante também foi sonante.

Quanto ao resto Lagoia é mais um dos arautos da lusofonia. Coisa de que tanto já falei. E sobre a qual não vou repetir argumentos. Confesso que prefiro um secretário de estado socialista a louvar o Cristiano Ronaldo e a vender cortiça em Maputo do que alguém que vai em 2010 escrever no jornal “Sol” que “A lusofonia …. é um acto de amor“. E que sobre uma retórica aparentemente correcta – o desejo de ver ler Camilo Castelo Branco, o apreço por Craverinha ou Malangatana, a disseminação dos livros da literatura portuguesa ou moçambicana (“escrita em português”, entenda-se) – sonha com um locus cultural português em Maputo que congregue (que seja coito?) do meio cultural moçambicano. Coisa grande e vistosa, presumo.

É necessário falar de Camões em Moçambique? Nada a opor. Mas numa língua que tantas traduções (e recentes) tem de Cervantes o importante, o urgente, é mostrar, fazer ler, fazer amar (sim, “a leitura …. como acto de amor”) o D. Quixote. O resto, esse resto “lusófono”, esse sim é de “meter dó” que seja o que os jornais portugueses estejam disponíveis para acolher. A gente não se livra desta maneira de ver? Críticas à política estatal portuguesa de acção cultural externa, de “cooperação”? Sim, e tão necessárias s(er)ão. Em português (lusofonamente)? Sim, nesta língua de olhar o mundo, aberta ao mundo, de entendimento, de tradução. Definitivamente não lusófona. De velhas e bafientas perenidades. Mesmo que “amorosas”.

Nós, os lusófonos
Telmo Lagoia
Jornal “Sol”, 6 de Agosto de 2010

["Centro Cultural Português: um aspecto que mete dó" - legenda da fotografia da sua frontaria que surge a ilustrar o artigo]

Quantos quilómetros de lusofonia há em Mocambique? Que rios desta nação atravessamos com o nosso idioma? A língua nao se pesa como o cimento, nao se quantifica como os euros nem se enfarda como o bacalhau. No entanto, é dela que os políticos se socorrem quando querem falar desses e de outros temas. Com ela falam aos corações dos seus eleitores.

É a falar que a gente se entende.

Mas a lingua são os afectos e são as pessoas. A lusofonia não se publicita, pratica-se. Não é, fundamentalmente, um acto económico – é um acto de amor. E o amor, já se sabe, é eterno enquanto dura. Dura enquanto é acarinhado e alimentado.

Pontes, estradas, empréstimos a fundo perdido, perdões da dívida – está por estabelecer quem, no grande livro do deve e do haver da Historia, deve o quê e a quem. Discursos e inaugurações serão, talvez, actos necessários em política, conduto da nova diplomacia económica. Mas pouco nos dizem a nós, aos lusófonos.

Por que serão as estradas mais importantes do que Camilo Castelo Branco para o desenvolvimento da cultura que partilhamos? Por que razão um viaduto será mais marcante do que Craveirinha? Quantos parafusos valerá Mia Couto? Por que, estara Camões definitivamente ultrapassado pelas energias alternativas e Malangatana pelo gás natural?

E, sobretudo, estas coisas durarão mais do que a palavra dos poetas?

Por que será que Portugal insiste em exportar para este país uma versão de bolso de um discurso europeísta, pretensamente moderno? Por que insistirá o meu país na cultura do cimento, ao invés de cimentar a cultura que nos liga?

A lusofonia, o uso da língua portuguesa, vai diminuindo à medida que nos afastamos de Maputo e penetramos no interior de Moçambique. À medida que vamos percorrendo quilómetros, nas estradas que tanto orgulho temos em ajudar a construir.

Amo meu pais e sou avesso a qualquer discurso miserabilista sobre a pátria longínqua. Mas é por isso mesmo que me sinto confrangido com a pobreza e a falta de visão de uma política que, pelo menos no que respeita a Moçambique, se limita a declarações de circunstância e teima em tratar a nossa história comum a pontapé.

Inebriado por uma recente paixão europeia, Portugal insiste em virar costas ao mar – esquecendo que, ao fazê-lo, vira costas a si próprio. Submete-se cegamente às regras de Schengen – e finge que não tem responsabilidades para com aqueles com quem partilhamos tanto.

“É triste. Triste não saber o que responder a tantos moçambicanos que procuram uma oportunidade, um pretexto, para trabalhar sobre a lingua comum, para manter laços e criar novas cumplicidades. Que acabam, irremediavelmente, por ir bater a porta de outros países da UE mais avisados e atentos.

Há algum tempo tive oportunidade de, comemorando o Dia de Portugal em Maputo, ouvir o discurso de um responsável do nosso Governo. Estávamos alguns portugueses, mas a maioria dos presentes na embaixada eram altas figuras do Estado e da sociedade moçambicana.

Falou o governante da história que nos liga, do futuro que nos aguarda, de objectivos comuns aos dois povos (que chamamos “irmaos”), de cultura, da lingua portuguesa, de Camões, cujo dia se comemorava? Nada disso. Discorreu aborrecidamente sobre coisas bem mais importantes: o Cristiano Ronaldo e as exportações de cortiça portuguesa.

O meu pasmo só foi ultrapassado pelo dos colegas moçambicanos, que aventavam a hipótese de alguém lhe ter trocado os dossiês no avião …

Dir-me-ão que não é bem assim. Que bem vistas as coisas, bem somados os números, Portugal é um dos principais investidores externos em Moçambique.

Mas será o aprofundamento da lusofonia uma questão comparável às contas da mercearia?

Em Moçambique o salário mínimo ronda os 2700 meticais (56 euros).

Uma visita rápida às livrarias de Maputo revela que é quase impossível encontrar um clássico da literatura portuguesa a menos de 1000 meticais (21 euros).

Ou seja, há dezenas de milhares de jovens que estudam no ensino médio e na faculdade de letras a língua comum e a quem os pais nunca poderão comprar um livro.

Nao valeria a pena trocar meia dúzia de quilómetros de alcatrão por um apoio à divulgação e edição dos escritores- moçambicanos ou portugueses – que moldam a nossa lingua?

Onde é que se refugiam os escritores, os pintores, os criadores, os artistas e intelectuais mocambicanos?

Será no Instituto Camões que encontram abrigo e incentivo? Não é! Antes se reúnem e discutem no dinâmico e atento Instituto Franco-Moçambicano, A França não se socorre da desculpa de ser um doador para se distrair da promoção dos seus interesses na área da cultura. Nem a Espanha o faz. Nem a Finlândia.

Quando me queixo disto aos responsáveis portugueses em Maputo, oiço invariavelmente a mesma resposta: “Não se aprende a língua de estômago vazio!”

Acho que a desculpa é pobrezinha – e tem como único resultado permitir que as futuras gerações de moçambicanos sintam maior afinidade cultural com os países nórdicos ou com a Espanha do que connosco. Talvez fosse bom lembrar aos políticos portugueses que amanhã serão estes jovens a decidir quem fará as estradas e construirá as pontes em Moçambique.

Declaração de interesses (coisa algo em voga no bloguismo português): há muito tempo trabalhei no acima pontapeado Centro Cultural Português. E também no acima louvado Centro Cultural Franco-Moçambicano.

Adenda: chamo a atenção para a caixa de comentários, em particular para as intervenções de JNW que calçam que nem uma luva ao teor do texto.

jpt


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Lusofonia literária

Sexta-feira, Junho 25th, 2010

Muito bem diz o Henrique Fialho qu’isto de morrerem os escritores é momento em que “pede-se que dêem especial destaque aos livros do autor. A quem está de fora pode parecer mero oportunismo comercial, mas a quem está por dentro é como se uma lufada de ar fresco tivesse entrado pela livraria.”, e está a falar da morte do Nobel lusófono, Saramago. Percorro os escaparates comerciais da lusófona Maputo e nada – queixar-se-ão que vendem poucos livros? Mas como criticar se nem as vitrinas institucionais o fazem? Não existem (também) para isso?

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A RTP e a pobre língua de pau nacionaleira

Terça-feira, Junho 22nd, 2010

Bem arrependido estou de ter desistido dos bilhetes os jogos de Portugal no mundial, primeiro, e de ainda ter resistido a amável e insistente convite de casal amigo para que os acompanhasse ao Cabo – telefonaram do estádio, eufóricos. Hoje, jogo histórico, perdi algo para contar aos netos futuros mas também para fruir no presente. Constato-me, e não pela primeira vez, uma cinzenta mistura de blasé e forreta, essa que a ninguém dá felicidade ou saúde.

Assisti ao jogo de ontem num local público, em verdadeiro ambiente pátrio. Ali aportei cerca das 13 horas, engalanado com uma bandeira nacional, daquelas dos pagodes chineses e com o blasfemo nome do banco patrocinador inscrito, restos de evento anterior, a qual foi de imediato pendurada, qual cortina, na porta do estabelecimento em causa. Após isso encetei aquela que viria a ser uma longa fileira de cervejas 2M (Mac-Mahon) que começaram por acamaradar com uns estrepitosos pastéis de massa tenra, arroz branco e deliciosa salada, franca e vivamente recomendáveis. Enquanto deglutia a tão típica refeição foi-se o areópago enchendo de algumas dezenas de patrícios, estes carregando diversos graus de angústia. Em breve começou o jogo e pude constatar alguma volubilidade das opiniões, as minhas e as alheias: dos miseráveis centro-campistas ao meio campo de luxo decorreu algum tempo, da aventesma Hugo Almeida ao finíssimo ponta-de-lança seguiu-se um mero ápice, da condenação geral daquela reles vergonha à celebração da glória da óbvia conquista do ceptro mundial apenas um pouco mais, do amaricado Ronaldo ao génio Cristiano Ronaldo uns breves momentos suplementares. Terminado o evento todos saímos em ombros, orelhas e rabos cortados, vuvuzelando um “este ano é que é!!” bem sonoro ao longo avenidas maputenses.

Algumas horas depois, já em casa, vejo o noticiário da RTP-África. Como sempre em momentos similares surge a reportagem que vem comprovar na rua, ao espelhar o sentir popular, os infindos laços pós-imperiais, assim demonstrando pelo “mundo (em) português” o amor que nos une, como os moçambicanos (e restantes) sofrem e torcem por Portugal. Desta vez acorreram ao restaurante Mundo’s, ali à Nyerere – normalmente cheio para os jogos mas então nem tanto, talvez por ser hora de almoço, talvez porque a habitual clientela (será o local mais diversificado de Maputo) não é a típica adepta dos nossos “adamastores”. Isso não desanimou o repórter, que sabe bem ao que vai, ao mandamento lisboeta “mandem-me lá uns pretos, perdão, negros, a gritar por Portugal“. Daí que se encostou ao passeio fronteiro aos ecrãs e arranjou um ângulo fechado de câmara arrebanhando meia dúzia de vendedores ou pedintes, desses que vão vendo os jogos na rua, vendendo umas tralhas ou cravando os restos de take away. Ali bem a jeito para gritarem “viva portugal”, “prefiro o ronaldo”, etc e tal. E dá para passar no telejornal, para o sossego da gente lusa, em África (malgré tout) amam-nos. Siga.

Qualquer um que aqui esteja, mesmo que jornalista, pode perceber que o mundial de futebol, ainda para mais este em África, é um forno de identidades, de solidariedades, de sua construção e vivificação – também por isso tão induzido é, também por isso o seu enorme sucesso. Mas isso não interessa pois o que urge é uma reportagem daquelas. Encomenda obrigatória pois quando os nossos futebolistas marcam uns golos mais sonoros logo surge no ecrã o roteiro da gesta lusa: como se apoia-sofre-ama Portugal nos grandes pólos de emigração portuguesa e nas ex-colónias. É isto incompetente? Não, nem é disso que se trata. É um ritual ideológico televisivo, faz parte da reprodução de uma ideia (estatal) de identidade portuguesa e é uma (frustre) iniciativa de política externa. E é também desonesta, esconde a realidade criando uma outra, uma imagem política. Para mais – e ainda por cima no dia dos festivos 7-0 -, é uma vergonha.

Divertir-me-ia se a RTP-África fosse para os MacDonald’s ou Portugálias em Lisboa filmar os clientes portugueses aquando dos jogos importantes dos “mambas” ou dos “palancas”. Se entrevistasse arrumadores junkies ou vendedores da “Cais” metendo-lhes bandeiras de Moçambique ou Cabo Verde nas mãos e induzindo-os a gritar, com perdigotos, loas ao Dominguez ou ao Mexer. E se depois passasse essas tralhas no telejornal. Mas não faz tal.

Demagogo, eu? Muitíssimo menos do que a RTP-África ali ao Mundo’s. Na sua lusofonia “nacionaleira” e tão estafada.

jpt


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UM REQUIEM POR SARAMAGO

Sexta-feira, Junho 18th, 2010

por ABM (18 de Junho de 2010)

Morreu hoje mais um membro do Partido Comunista Português.

Dizem que escrevia bem e como tal, não sei por que processo, os membros lá da Academia Sueca, concederam-lhe há doze anos um prémio Nobel. Eles lá sabem e nós agradecemos, pois por uns momentos e mais uma vez, achámos que a cultura e a língua portuguesa ascenderam aos píncaros, em vez de serem usadas para coisas mais rascas como falar com a menina da caixa do hipermercado Continente de Cascais e encher os diálogos das telenovelas da TVI todas as noites.

Rumores de que escrevia sem acentos e sem vírgulas e a texto corrido são completamente falsos, só quem não o lê é que pensa assim. Os outros sabem-no, mas, curiosamente, chamam-lhe “inovação artística universalista”. Eu não achava graça àquilo mas a culpa é do ambiente em que cresci, em que fui torturado para ter cuidado com a pontuação, as vírgulas e os parágrafos senão estava feito.

Era um tipo particularmente tortuoso e demonstrava-o nos seus textos. Antes de morrer, matou Jesus Cristo, denunciou a Bíblia e mudou-se para a Espanha, dizendo que não gostava do vizinho. Que era Portugal, onde teve a sorte de nascer e crescer no Ribatejo, o meu retiro português. Que achava que devia ser integrado numa união ibérica (por outras palavras, Espanha). O João César das Neves costumava fazer tiro ao alvo ao Saramago sempre que podia no seu (de Saramago) velho jornal.

Tinha a virtude de, de uma forma original, questionar tudo e mais alguma coisa, o que me faz lembrar a juventude (não comuna) dos anos 60 e 70, só que ele fazia-o de forma refinada, algo erudita, e retrovertida do português barroco. Com a idade, tornou-se tão irreverente que nem os velhotes lá do PC já o aturavam.

Para mim, era uma espécie de psicanalista amador que tentava meter um paciente no divã virtual e que o tentava curar com tratamentos de choque, sem nunca se ter apercebido que o doente era irreformável e incurável. O paciente, que era um país inteiro (Portugal) ignorava-o displicentemente e teve que engolir desassete sapos quando os nóbeis telefonaram para Lisboa.

José Saramago teve a grande sorte de se juntar, tardiamente a uma grande mulher, a Pilar, perante quem naturalmente me curvo pela perda do companheiro. Acho que esses foram os seus únicos bons anos.

Os bardos da praça e os comentadores de bancada já se redobram em esforços para o enaltecer como Grande e os Maschambianos deverão vestir-se de preto e carpir apropriadamente. Eu vou ver se espero uns anitos antes de tentar digerir aquilo tudo.

E entretanto vou lendo um pouco de Oliveira Martins e Eça.

Não sei como dizer de uma forma mais simpática, mas não me revejo nem nunca me revi, nem na pessoa, nem na sua obra. Nem como pessoa e muito menos como falante de português ou utilizador fortuito desta coisa maleável que é a cultura que uns tantos partilham, de uma forma ou outra.

Mas insistem que estou errado. E eu que não estou. Fica-se por aqui. A grandeza dos homens e da sua obra é sempre relativa aos tempos.

Entretanto, preparem-se para o Regime descambar numa longa e solene despedida.


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Diásporas

Domingo, Maio 30th, 2010

[Planisfério de Cantino]

Escreve-me um confrade dos blogs e vai informando que se está a preparar para um encontro de escritores na diáspora, coisa muito em voga. Longe de mim a ideia de andar a policiar identidades alheias, cada um como cada qual. Mas quando ouço estas reivindicações, às vezes só estratégicas, outras tantas sentimentais/sentimentalonas, lembro-me sempre do que Eduardo Pitta escreveu a propósito de Rui Knopfli (“Rui Knopfli“, em Aula de Poesia, 2010) ainda que não lhe negando uma “pátria literária” (106) em Moçambique: “A nenhum inglês culto ocorreria argumentar que Thackeray, Kipling ou Orwell são escritores indianos! Tal como Camus e Derrida não são escritores argelinos. E Marguerite Duras não é uma escritora indochinesa.” (102-103)

Mas é claro que estas andanças não se resumem aos voluntarismos individuais, aos psicologismos explicativos. É mesmo coisa ideológica, isso da “ligação especial”, etc. E tal. Já teve outro(s) nome(s). Agora é diáspora.

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Mourinho

Domingo, Maio 23rd, 2010

Não é a língua. É o que se faz com a língua (ou a partir dela) que é importante. Informar no “Terreiro do Paço”, sff. (E sublinhar com ecos dos outros lugares onde se vê na tv um “tuga” mourinho a ganhar).

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Prémio Camões a Arménio Vieira

Quinta-feira, Maio 20th, 2010

Ontem foi entregue o Prémio Camões a Arménio Vieira. Reportagem breve no telejornal da RTP (ou seria SIC?) entre as notícias dos protocolos de “cooperação” (“onde é que nós já ouvimos isto?“) entre Portugal e Brasil. Nas imagens sobre a cerimónia de entrega, onde não apareceu o premiado (terá estado ausente?), excertos das declarações do presidente do Brasil e do presidente de Portugal [aqui o discurso de Cavaco Silva]. Ambos enfáticos sobre a importância da “língua portuguesa” no mundo, credora (Cavaco Silva colocou mesmo o caso assim) do respeito e atenção alheia. Sobre a obra do premiado, sobre a literatura dele ou em geral? Nada.

Nenhum deles, dos presidentes, terá um assessor que seja para dourar a pílula? Para fingir ao laureado que é dele que se trata, que é o seu ofício e a sua obra que se invoca e premeia? Não é por nós, é mesmo pelo desgraçado ali aprumado, até trémulo. Imagino-o, com a placa e o cheque na mão, acabadinhos de receber, a olhar em redor a ver se alguém lhe liga. No meio dos outros, assessores dos protocolos de “cooperação”. “Você é quem?!” “ah, o escritor … sim, sim, muito importante, muitos parabéns“, “vá, estão ali os jornalistas (ou melhor, as jornalistas) para falar consigo, vá lá, vá lá“.

São boas estas coisas da lusofonia. [e lembro-me de um assessor de PM que veio aqui no século passado e vendeu o espectáculo de gala do Presidente de Moçambique a um banco português qualquer. E que, diante do desespero de quem o aturava, ainda se abespinhou, o sacana ...].

Eu continuo na minha, dava o prémio ao Vargas Llosa. E chamava Cervantes a meia dúzia de avenidas. Porque deveria ser isso a cultura em Portugal. Onde a gente fala português.

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O NOVO PS

Quinta-feira, Maio 20th, 2010

por ABM (19 de Maio de 2010)

O que é que será que os nossos brothers brasileiros sabem que não se sabe em Portugal para fazer humor assim?


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Manuel Alegre em Maputo

Sexta-feira, Março 5th, 2010

O discurso de Manuel Alegre na entrega do prémio Leya ao escritor João Paulo Borges Coelho, a propósito do livro “O Olho de Hertzog“. Sim, o culturalismo – mas aceitável, pois discursos protocolares não são os locais para problematizações. E, pelo menos, sem hífens. [Texto retirado da sua página pessoal]

 

Manuel Alegre na entrega do Prémio Leya em Maputo:
“A língua e a cultura é que fazem a alma de uma nação”
04-03-2010


O Presidente Samora Machel, pouco antes da sua visita a Portugal, disse a um jornalista português: “Camões não é só vosso, Camões também é nosso”. Esta frase, que profundamente sensibilizou o povo português, não foi só uma homenagem ao poeta que na Ilha de Moçambique acabou de escrever o poema que é, de certo modo, um acto de fundação poética de Portugal. O que o Presidente Samora Machel pretendeu significar foi que a língua portuguesa tinha deixado de ser língua de ocupação para passar a ser uma língua de liberdade, de independência e de partilha. Ou como diria Miguel Torga: “um traço de união”.

Estranha contradição e, ao mesmo tempo, soberbo privilégio de uma língua que tendo sido a do sistema colonial, foi também a língua em que os povos começaram a pensar e procurar poética e politicamente as suas raízes e a sua identidade. Nos poemas, nas revistas, nos textos fundadores, mais tarde na luta de libertação e finalmente na proclamação da independência.

Língua de luta e poesia. Angola independente já estava nos poemas e nos textos em que Agostinho Neto, Viriato da Cruz e Mário de Andrade afirmaram a sua angolanidade e proclamaram: “Vamos redescobrir Angola, vamos a ser nós mesmos”. E o mesmo aconteceu em Moçambique com os poemas de Craveirinha, Marcelino dos Santos, Jorge Rebelo e as palavras inspiradas e proféticas de Samora Machel. E também em S. Tomé e Príncipe, com os poemas de Alda Espírito Santo. E na Guiné e Cabo Verde com a escrita e a palavra de Amílcar Cabral. E depois em Timor com os poemas e as armas de Xanana Gusmão. As armas e a poesia andaram juntas. Na mesma língua.

Já no século XIX Almeida Garrett tinha escrito um ode que saudava a independência do Brasil, sublinhando que ela acrescentava a “lusa liberdade”. E Portugal existiu sempre naquela “lusitana antiga liberdade” de que falava Camões e que os seus poetas sempre cantaram mesmo quando o povo português era também um povo oprimido.

Língua de múltiplas resistências. Língua de ocupação colonial mas também de libertação nacional. Língua de ditadura sobre o povo português mas também de liberdade resgatada a 25 de Abril de 1974.

Língua de fraternidade entre os combatentes de um e outro lado. E entre resistentes que se encontraram nas mesmas prisões e nos mesmos exílios. Língua dos nossos encontros, desencontros e reencontros. E hoje, sobretudo, língua de amizade, de construção e de futuro.

Esta é a língua que o Prémio Leya pretende divulgar e celebrar.

Como Presidente do Júri, e também como escritor português, é para mim uma honra e um motivo de alegria estar aqui a participar nesta celebração simbólica com o Presidente Armando Guebuza, também ele um confrade da escrita e com o Primeiro Ministro José Sócrates, com quem às vezes converso sobre o papel da língua portuguesa e a necessidade de a trazermos para a linha da frente da acção política na cena internacional.

Porque esta é uma arma que nós temos: a língua como instrumento de cultura, de partilha e desenvolvimento. E como factor de unidade e afirmação internacional da Comunidade dos Povos de Língua Portuguesa. Temos uma das línguas mais faladas do mundo. É uma grande riqueza para quem não é rico. E se as relações económicas têm cada vez mais um papel essencial, não esquecemos que a língua e a cultura é que fazem a alma de uma nação.

O Prémio Leya de 2009 foi atribuído ao escritor moçambicano João Paulo Borges Coelho pelo seu romance “O Olho de Hertzog”, um livro surpreendente que vem enriquecer a literatura de língua portuguesa. Pela originalidade da narrativa, que nos restitui, com grande mestria, esta velha cidade e um contexto histórico em que se conjugam os combates das tropas alemãs contra as tropas portuguesas e inglesas na Primeira Guerra Mundial, o confronto entre africânderes e ingleses, a emigração moçambicana para a África do Sul, as primeiras greves dos trabalhadores africanos, a riquíssima personagem do jornalista João Albasini, pioneiro do nacionalismo moçambicano, e a busca do Olho de Hertzog, que é uma metáfora da demanda do destino individual e colectivo.

Em nome do júri, quero felicitar João Paulo Borges Coelho e agradecer-lhe a qualidade da sua escrita e a beleza de um romance que nos inquieta, nos reconforta e nos faz acompanhá-lo na procura do mistério do ser que é, ao fim e ao cabo, o próprio mistério de “O Olho de Hertzog”.


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O hifenismo

Domingo, Fevereiro 28th, 2010

Na próxima semana Manuel Alegre estará em Maputo em actividade literária. Ao que me dizem de Lisboa aqui vem hifenizar* a literatura – pois assim pensa. A tresleitura que Manuel Alegre assim fará da realidade literária e histórica não será muito importante, não é isso que conta quando lemos os livros. Mas é interessante, e sonoro, sob outro ponto de vista. O hifenismo denotará o pensamento político, sob retórica cultural, do poeta e ficcionista. A incompreensão da multiplicidade dos processos históricos, da acção individual e colectiva. O hifenismo transpirará uma velha ideia de comunhão identitária trans-individual e trans-social, autónoma dos indivíduos, “naturalizadora” pelo que obrigatória, mas também moralizadora, porque assente na “tradição”, na “descendência” consideradas indiscutíveis. Este hífen, que Alegre trará na comitiva, é um “dado”, não literário mas ideológico.

Mas o hífen de Alegre não se esgota nisso. Tem subjacente, mas muito muito à flor da pele, um notório racismo.

E tudo isto é típico da vulgata para literatos a que chamam “lusofonia”. Manuel Alegre, e os que como ele pensam, nunca compreenderá isso. Porque são temáticas que lhes ultrapassam o património intelectual. E porque são questionamentos que lhes põem em causa o património político.

Como ele diz “a mim ninguém me cala” resta esperar que a segurança do aeroporto da Portela lhe apreenda o hífen.

*Se o hifenismo se soltar eu trarei aqui transcrição. Se se perder no caminho assim ficará

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Fernando Nobre

Segunda-feira, Fevereiro 22nd, 2010

Fernando Nobre, presidente da AMI, anunciou a sua candidatura a Presidente da República. Será relativamente desconhecido em Portugal, excepto para o meio mais ligado à “cooperação” (Ajuda Pública ao Desenvolvimento, Ajuda Humanitária) no qual é personagem conhecida. A sua candidatura provoca-me duas considerações simpáticas, ambas no registo do “wishful thinking”, independentes da pessoa em causa, e que procuram abstrair-se dos cenários “conspirativos” que a imprensa logo teceu em volta da anunciada candidatura (“soaristas” vs “alegristas”, “PS vs BE”, etc. e tal):

a) Uma candidatura oriunda deste meio profissional/intelectual, extrovertido por essência, talvez influencie alguma mutação no discurso político num país onde este está pobremente auto-centrado, ao invés das formas de integração internacional radical que a sociedade tem (económicas, educacionais, culturais, institucionais). O que não será totalmente estranho ao crescente apartar entre sociedade e política institucional, à ineficiência desta. E, secundariamente, talvez impulsione uma maior atenção social (mediática também, mas fundamentalmente dos cidadãos) às relações internacionais e no modo como o país nelas evolui.

b) Como adepto da democracia multipartidária e cansado do óbvio esgotamento do quadro actual (o corporativismo cleptocrático do ps, o longo estertor do psd – que lhe sucede ao corporativismo cleptocrático -, a pérfida ascensão do neo-comunismo) é-me simpática a entrada em acção de novos protagonistas democráticos, e a hipótese destes transportarem algumas novas ideias, novas entoações e – e isso seria o fundamental – trazendo novas práticas políticas. Foi um pouco o que esperei aquando do surgimento do MEP. Não significa isto apoio (ou voto) mas pelo menos simpatia, um “vamos a ver”.

Neste quadro dificilmente me poderia ter desiludido mais (ainda que a ilusão não fosse grande) com a entrevista de Fernando Nobre ao Expresso. É o próprio jornal que sublinha algumas das suas considerações nas quais o agora candidato procura traçar a sua especificidade (intelectual, política, pessoal): “”Vontade, todos os candidatos poderão ter. Mas nenhum terá a minha multiculturalidade, a minha lusofonia e mundividência” e em remate quase-final “Eu sou, talvez, o português – porque para mim o português é isso: o mundo, a miscigenação, a interculturalidade“.

Deixemo-nos de rodeios. Isto é o grau zero. A sua geneologia é conhecida, a estufa (a intelectualidade socialista portuguesa finissecular) também. Com estas características Fernando Nobre será – seja como muito improvável presidente, seja como provável candidato – um retrocesso em termos sociais e em termos culturais. Entenda-se, é deste discurso, desta auto-incompreensão, deste “português”, desta poluição que a sociedade portuguesa tem, e definitivamente, que se libertar. Ou seja, é outra a mundividência que urge nos nossos políticos.

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VAMOS LÁ SER TUGAS À FORÇA

Terça-feira, Fevereiro 16th, 2010

Watch this video on VideoSurf or see more Made Videos or Nancy Sinatra Videos

por ABM (Cascais, 16 de Fevereiro de 2010)

Gostava de explicar aos exmos leitores que geralmente não gosto de ouvir música no rádio. Tirando as estações de música clássica, desde sempre. Tolero o ocasional devaneio musical mas muito pouco, O que gosto de ouvir na rádio é gente a falar: jornalistas, entrevistados, comentadores, escritores, pessoas que telefonam, debates, etc.

Nos Estados Unidos existe um formato de estação de rádio para isto: chama-se talk radio. Dão notícias, entrevistas, programas em que as pessoas telefonam, programa da manhã com notícias e anedotas para quem está a ir no carro para o emprego, a mesma coisa quando estão a regressar a casa, programas para depois do jantar, conversas a meio da noite. Hoje pouca gente sabe que o Sr. Larry King, que mundialmente é conhecido por fazer entrevistas de meia hora ou uma hora na CNN, tornou-se conhecido nos EUA porque durante anos e anos e anos ele fazia todas as noites da semana, com repetição do melhor programa no sábado à noite, numa cadeia de estações chamada Mutual Broadcasting Network, da meia noite e seis minutos até às cinco da manhã um programa ao vivo. Eram magníficos e muito, muito maus, para o meu sono. Só anos mais tarde é que ele passou para a televisão com a CNN.

Em Portugal, só a estação TSF se aproxima vagamente desse formato (e por isso a escuto mais que as outras todas juntas) e mesmo assim, tirando raras excepções, não é uma estação de talk radio. Nem sequer de notícias é: quando houve um tremor de terra de 6.0 na escala Richter há umas semanas no continente português, eles continuaram a transmitir música gravada como se nada se tivesse passado até ao cimo da hora, quase meia hora depois do safanão. E quando dão notícias, repetem a mesma lenga-lenga ad aeternum, que deve ser para os que tinham os ouvidos entupidos há cinco minutos atrás. As entrevistas são pouquíssimas para o que podiam fazer e demasiado curtas.

Mas o que me irrita mais é que passam música. E com que critérios não sei. Tanto se lhes dá para uma balada dum roqueiro qualquer, como uma salsada moderna que eu não conheço e que, sinceramente, pagaria para não ouvir. Quando começa aquela mistórdia musical sem eira nem beira, tenho o problema adicional que é que o meu velho e delapidado carro tem um rádio que não muda de estação facilmente. Tenho que andar aos murros nos teclados até me aparecer outra estação, e em geral as escolhas são de fugir. Outro dia apanhei umas beatas a rezar o terço vez após vez na Rádio Renascença.

O que me surpreende (e já volto à música). Qualquer vertebrado pensante já se deve ter apercebido do que aconteceu ao mundo nos últimos dez anos. Toda a gente praticamente tem acesso quase gratuito exactamente, precisamente, aos tipos de música que gosta de ouvir. Poder gravá-la via computador ou por uma variedade de meios, e estar uma vida a ouvir Amália, o Frank, o Puccini ou lá o que quiserem é uma banalidade da vida actual. As audiências fragmentaram-se e portanto quem continua a apostar em programação generalista está a dar – na minha humilde opinião – tiros para o ar.  A vantagem de uma talk radio é que é barata, tragável se bem gerida e eu acho que muita gente havia de gostar de ouvir programas interessantes.

E note-se – surpresa – é em português. Feita por portugueses. Como este blogue.

Claro que há uma coisa que em Portugal não funcionaria – e eu suspeito que é por isso que verdadeiramente não há talk radio em Portugal. É que para se ter bom talk radio tem que haver lá gente com cor e com cabeça. E em Portugal regra geral quem tem cor não tem cabeça, e quem tem cabeça não tem cor (nenhuma). É qualquer coisa étnico-cultural daqui. E  em Portugal quase todos vivem para pretender que têm cabeça, mesmo que não tenham. Por exemplo, nunca vi país na terra com mais carros pretos, cinzentos escuros e azuis escuros como este.  Se se for a um centro comercial num domingo numa tarde de inverno, presume-se que todos vieram de um funeral, quer pela cor sorumbática da roupa, quer pela atitude sério-sorumbática das multidões. O português não consegue rir para quem não conhece à sua volta. Deve ter medo que lhe levem os dentes.

Pior ainda, nenhum meio de comunicação social em Portugal regra geral aposta em “personalidades” – a não ser que sejam cómicos gays (na base de que é impossível serem levados a sério) pois que essas são para matar na primeira oportunidade.

A verdade é que, para se ser personalidade, um requisito básico é que tem que se a ter. E tê-la, neste país, significa que, mais cedo ou mais tarde, tem que se dizer esta ou aquela verdadinha que vai infalivelmente seriously piss off o sôr ministro ou o rei da batata frita, que telefona ao patrão da estação a insultar o gajo ou então, como agora está na moda, telefona a uma qualquer holding chamada  Going On, que compra a estação (como faz o patego estúpido do anúncio do Euromilhões) e mete lá um mentecapto a fazer relatos de touradas. Como os portugueses individualmente são seres humanos sublimes mas no agregado são um fenómeno keynesiano de estupidez colectiva induzida exponencial, comem, comem e calam.

Aliás, regra geral o consumidor e o cidadão aqui quase sempre come e cala. Com tudo. Os professores são incompetentes? come e cala. O supermercado vende batatas que apodrecem em dois dias? nimguém vai andar de carro 20 minutos em bichas até ao supermercado fazer o gerente comer as batatas que vendeu. O médico não parece saber o que faz? paga-se e não se bufa. O défice este ano vai estoirar? para o ano há-de ser melhor, alguém que resolva. O vizinho do lado não paga as cotas do condomínio há três anos e comprou um carro novo há dois meses? não esquecer de fazer sempre aquele estranho (e unicamente português) cumprimento simpático mudo à saída no corredor a dizer “olá!” mas que na realidade significa “ó meu grandessíssimo filho da puta como estás tu?”

Por tudo isso, frequentemente sinto que, como os meus concidadãos, o colectivo português vive um quotidiano de entrelinhas acinzentadas, sempre resguardado, sempre à espera da próxima catanada, da próxima sacanice, ou da próxima oportunidade de obter algo em troca de nada, sendo a base da felicidade quando não se leva com ela mais vezes do que é normal, ou quando se constata que os outros (e os outros são todos os outros menos os “amigos”) estão pior que nós. Sendo que o normal é levar com as desgraças em cima. Aí, tem-se pena.

Ah, adoro estas generalizações. É tudo mentira, não é? ok.

E nesta questão da desgraça, o país tornou-se num esquema de pirâmide: a sujeira estes dias democratizou-se, vai do mais baixo ao mais alto nível da sociedade.

Voltando ao rádio, o tema que gostava de fechar aqui. De há uns meses para cá, nas vezes quando me deu para escutar a tal de TSF, comecei a reparar em três coisas.

A primeira, foi que começaram a passar música portuguesa com uma frequência suspeita. Ao princípio pensei que se tinham enganado, que tinham posto a senhora da limpeza a tomar conta da estação, ou que tinham ficado estúpidos e não tinham reparado no ecletismo das suas audiências. Em Alcoentre toda a gente sabe que o que vende é música pimba, fados e a as canções da Ágata a chorar o milésimo desgosto de amor sobre o homem da vida dela que (para variar) se pirou pela vigésima vez com a empregada ucraniana. Em Cascais e Lisboa já não é bem assim. Ainda por cima, as músicas que tocam, que são medíocres quase sem excepção, são de gente que não conheço, cujo estilo não gosto e cujas mensagens nada me dizem.

A segunda coisa que reparei, e que me deixou ainda mais apreensivo, foi que, mesmo quando mudava de estação, acontecia o mesmo, ou seja, levava com uma espécie de música pimba de vanguarda, e habitualmente a mesma que estava a dar na TSF.

A terceira, e de longe a mais desconcertante, foi quando me apercebi que, juntamente com a música pimba de vanguarda portuguesa, começaram a juntar-lhe a mesma gente, mas desta vez ou a tocar em ou em inglês, ou ainda mais surpreendemente, começaram a passar músicas americanas e inglesas, tocadas em inglês, mas por portugueses (!).

Não sei como explicar ao exmo leitor o que é ouvir o these boots are made for walking (a grande canção de Nancy Sinatra, sff de ver em cima) cantados vinte vezes na TSF, pela actriz Maria de Medeiros, irmã da agora deputada socialista residente em Paris e que vem a Lisboa de vez em quando receber o taco e atender as sessões do parlamento. Ou as baladas britânicas do jovem David Fonseca, simpático e esforçado mas para mim uma versão cultural do que é o milho transgénico para a alimentação.

Pois só a noite passada é que esclareci este mistério. Afinal eu não estava a alucinar. É que os poderes constituídos aqui do burgo, em 2006, passaram uma lei qualquer a obrigar as estações de rádio portuguesa a passar 25 a 40 por cento da música que vai para o ar por….. leia-se (decalco de uma peça da RTP):

A lei da Rádio determina que as rádios estão sujeitas ao cumprimento de quotas no que respeita à programação de música portuguesa, que uma portaria de Abril de 2007 fixou em 25 por cento.

O cálculo das percentagens é apurado mensalmente e tem como base o número de composições difundidas por serviço de programas no mês anterior.

A lei estabelece ainda que 60% da emissão de música nacional deve ser preenchida por música composta ou interpretada em língua portuguesa por cidadãos dos Estados membros da União Europeia.

A lei prevê o pagamento de coimas entre os 3 e os 15 mil euros para as estações locais e entre 30 e 50 mil euros nas estações nacionais.

Quando eu vivia fora de Portugal, achava alguma piada e respeitava o facto de que as estações que emitiam para as comunidades portuguesas, quase só passavam fados, música pimba e aqueles clássicos do tempo da Maria Cachucha. Pois era aquilo ou o vasto mar estrangeiro que nos rodeava. Agora, que se tenha importado o costume e que se tenha dele feito lei em Portugal é que foi novidade. Ou seja, em vez dos artistas daqui competirem honestamente pelo privilégio de me tentarem impingir a sua arte, o governo da república socialista portuguesa espeta-nos como uma espécie de IVA cultural em cima e somos obrigados a comer o que nos servem.

Mas como gente como eu não aguenta aquilo, e usando as regras impostas, inventou a música estrangeira, cantada em língua inglesa, por portugueses.

Já não bastava a porcaria do acordo ortográfico e os subsídios aos famosos filmes nacionais que rigorosamente ninguém vê. Esta liberdade socratiana está-se a revelar um verdadeiro assombro cultural.

Felizmente, há a minha teimosia em fazer o que me apetece e a tecnologia. Imitei o que qualquer teenager português hoje faz sem sequer pensar. Por cinco euros e 99 cêntimos, recentemente comprei uma espécie duma cassete com um fiozinho, que liga o meu velho rádio a um aparelhinho que cá se chama um MP3 (mas que na realidade é um MP4), onde gravei na internet não sei quantos gigabytes de: Sinatra, Nat King Cole, Chico Buarque, Óscar Peterson, Walter Wonderley, The Beatles, Mozart, etc etc etc. Até lá tenho o Poker Face da Lady Gágá.

E agora, quando acabam as notícias da TSF no meu carro, a programação passou a ser a minha. Em casa, pela internet e o computador, oiço a LM Radio a partir de Maputo.

Isto antes que eu comece a ouvir a Maria de Medeiros a arranhar o My Way do Frank numa estação portuguesa.

Bie, bie, TSF.


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Guia Prático da Nova Ortografia: sobre o Acordo Ortográfico

Segunda-feira, Fevereiro 8th, 2010

Leitora amiga do ma-schamba acaba de me enviar o Guia Prático da Nova Ortografia. Para que eu me prepare – e tenho até 2012.

Selecciono [seleciono] este exemplo (que consta na página 6) do dito documento. Atentem (e muito em particular os leitores que praticam os sotaques portugueses): na coluna da direita está escrito, e envolto a vermelho: “o que não se pronuncia não se escreve“. Portanto, a partir de agora não se diz / não se escreve “colecção“/”coleccionador” mas sim “coleção“/”colecionador“; idem para “direcção“ / “direccional” que passa a “direção” / “direcional“; idem para “leccionar” / “leccionação” que passa a “lecionação” / “lecionação“. Escrever-se-á “ação” (não “acção“), “correção” (não “correcção“), “extração” (não “extracção“), “fração” (“fracção“), ”proteção” (não “protecção“), “reação” (não “reacção“), “seleção” (não “selecção“), “ato” (não “acto“), “ator” (“actor“), “atual” (não “actual“), “afeto” (não “afecto“), “arquitetura” (não “arquitectura“), “coletivo” (não “colectivo“), “detetar” (não “detectar“), “direto” (não “directo“), “diretor” (não “director“), “letivo” (não “lectivo“), “objetivo” (não “objectivo“), “projeto” (não “projecto“).

Ouviram as diferenças? Perdão, leram as diferenças? Não se trata de ser fundamentalista. É apenas dizer que estão a mexer na fala, que “tirar consoantes “mudas” emudece as vogais antecedentes. Num sotaque urbano português que tende para o emudecimento omnívoro das vogais e para a amputação das extremidades das palavras isso tenderá, possivelmente, para a incompreensão auditiva entre os falantes de diferentes sotaques e, fundamentalmente, para a crescente incompreensão outra diante dos portugueses.” E, claro, dizer de todos esses que afirmam a independência radical entre a grafia e a fala, que afirmam (como se assim concluíssem algo) que a grafia é uma “convenção” – como se a fala não o fosse também -, de toda essa gente que afirma tais dislates com ar doutoral, que não passam de tralha. De gente átona, por assim dizer.

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Bola com Feitiço, de Uanhenga Xitu

Domingo, Janeiro 24th, 2010

[Uanhenga Xitu, Bola Com Feitiço, Cotovia, 2009]

Em altura de CAN, ainda para mais decorrendo em Angola, recupero este delicioso livro recentemente publicado em edição de bolso. Contém dois contos saborosos, debruçados sobre as transformações havidas no mundo suburbano e rural da Angola tardo-colonial. O primeiro, “Mestre Tamoda”, é uma delícia corrosiva sobre a modernidade como mecanismo de ascensão social (e identitária). Tamoda é um camponês que regressa à aldeia natal, proveniente de Luanda, na posse de um património linguístico poderoso, o domínio do português. E decide capitalizá-lo, encetando a actividade de mestre informal da língua por via de um linguajar criativo, um verdadeiro “tamodismo”. Adquirindo prestígio entre a juventude logo será entendido como subversivo – ele introduz um português criativo e muito rebuscado mas também o uso dos cabelos frisados. Até que ponto este “Tamoda” simboliza os experimentalismos linguísticos de alguma literatura africana é questão que só posso especular, se calhar afastando-me dos propósitos do autor – mas como a obra é também minha, leitor, dela me aproprio nesse sentido. E ainda utilizando-a para reflectir sobre as questões sociais da “lusofonia”, da qual Tamoda foi, no seu ficcional tempo, grande cultor.

“Bola com Feitiço” é um delicioso retrato das inovações “sincréticas” acontecidas com a “modernidade”. Duas aldeias vizinhas confrontam-se por via do futebol (uma inovação colonial) e convocam os respectivos curandeiros para obterem sucesso. Tudo isso cruzado com as diversas formas de integração das novidades propostas: os jogadores logo se distinguem entre os que aceitam os tratamentos feitícicos e os que os recusam, distinção homóloga à que os divide entre católicos (que os seguem) e crentes de outras igrejas cristãs (que os recusam) – neste bem-humorado episódio narrando-se como a modernidade colonial, religiosa nesta caso, tão diversamente foi apropriada.

5 euros muito bem utilizados.

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Acordo Ortográfico: numeração

Terça-feira, Janeiro 12th, 2010

biliao

A AL preocupou-se com O Rigor dos Números e pergunta quanto é um bilião. Pois para mim sempre significou um milhão de milhões, assim aprendi e assim comanda a lógica – um milhão é um milhar de milhares, um bilião é um milhão de milhões, não tem nada que pensar, nem que opinar. Nem que “acordar”? Isso já não direi pois no Brasil o valor é outro, com toda a ilógica. Mas como temos todos que escrever da mesma forma para que o “português” (a nossa querida Pátria, nunca esquecer) seja “grande” e “relevante” no mundo, para que o português seja bilião … então este bilião deverá significar – o que os brasileiros disserem. Tá légal, meu bêm?!

Mas talvez não. O leitor do ma-schamba Francisco Belard simpaticamente enviou-nos a informação, a qual muito agradeço, de que deveríamos tentar tirar as dúvidas no “A Folha. Boletim da Língua Portuguesa nas Instituições Europeias”, produzido pelos tradutores portugueses nas instituições europeias. No número aqui ligado (de 2004) está um texto de Paulo CorreiaEm torno do bilião” que nos garante que poderemos (face ao francês e ao inglês) continuar a chamar “bilião” ao milhão de milhões. É, pelo menos, essa a prática daquele grupo profissional supra-especializado e conhecedor. Pode ser que Bruxelas nos valha!

Mas nunca fiando, mais vale não sabermos mesmo quanto significa o tal bilhão. Para que brilhe alto a nossa gesta.

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(N)A “Pátria Amada”

Segunda-feira, Janeiro 4th, 2010
  • Lisboa

1. Inverno. Um calor de estalagmites.

Dizer

2. Crise. Qualquer emigrado português sabe que ir à “terra” é para ouvir os constantes lamentos dos amigos, da família, dos populares, com a “crise”, e etc. e tal. Mais agora, com a desgraça internacional a repercutir-se nos dois milhões de portugueses abaixo do limiar da pobreza, mais de dez por cento de desempregados, o país sem luz ao fundo do tunel, sem projecto.  E depois … basta ver o potlatch radical dos últimos dias antes do tal solstício dito Natal! Basta perguntar no talho, no café (o bolo-rei), na livraria, na loja de brinquedos, nos restaurantes e afins, etc e tal vinícolas e isso, o obrigatório “então, e este ano como vai?”. Crise? Já lá vai, que “estamos melhor que o ano passado”. Crise? Como crise se a felicidade está ali mesmo, nos balcões dos chópings? E tudo segue, no dia 26 abrem os saldos e as multidões reiniciam o seu caminho de cigarras. O vazio (versão portuguesa do conradiano “horror”).

[Fotografia de inscrição ao Teatro Politeama, Lisboa, Dezembro 2009]

avc

3. A gula. Crise? E é um “trocadilho” fácil, o com esta campanha de época, o tome atenção aos AVCs que encheu os painéis das cidades. Crise? Só se for a da gula, essa motriz dos AVCs. No fundo o símbolo da Europa Ocidental, obesa, no seu estertor. As causas? Exactamente a tal falta de visão, de preocupação. De razão. Tudo isso do a cada um o seu sapatinho, e nada mais … Aliás, a cada um o seu sapatão.

paulo duarte

4. Paulo Duarte, afirma-se de origens humildes, foi um futebolista modesto e não enriqueceu, é agora o seleccionador do Burkina-Faso. Deu uma entrevista ao jornal Record. Interessantíssima, muito para além do patois futeboleiro habitual. De como olha o país africano para onde, surpreendentemente, foi trabalhar há já dois anos. E de como reconhece que para preconceitos era ele que os carregava ao início. Mas mais do que isso, também ele de longe a re-olhar os seus patrícios: “Se as queixas, por isto ou por aquilo, fossem modalidade olímpica, os portugueses estariam cobertos de ouro. Somos muito assim. Completamente. As dificuldades da vida são muitas, para toda a gente, mas há coisas que não podemos esquecer: a maior parte dos portugueses que vive mal tem uma casa, duas televisões, um vídeo, dois telemóveis, dois carros, um emprego, mal remunerado mas temos, tem água, tem luz, tem gás, tem comida na mesa, tem roupas adequadas ao clima. Com maior ou menor dificuldade, chegue o dinheiro ou não ao fim do mês, tem isso tudo“. Sei que é muito fácil apupar este tipo de visão. Mas seria conveniente que os habitantes de um país que não produz o que tanto consome pensassem um pouco no facto de que a sua ladaínha lamurienta não encanta (enfeitiça) os que de longe os assistem. Fica o meu desejo das maiores felicidades a Paulo Duarte, homem a pensar. Força Burkina-Faso!

pai natal

5. Quadra natalícia: Eu também! Pois se o mito sublinha o amor transposto para o espírito de dádiva neste emigrante o real é a volúpia da posse, sacos de auto-prendas esquecendo-me dos “entes queridos”, esvaziando-me o porta-moedas extinto que foi, e já em tempos, o cartão de crédito, malfeitoria ocidental. Malditas livrarias ….

stuyvesant logo

6. Saúde. Viver em flat e enfrentar tantas proibições tabagísticas em locais públicos: assim a fumar bem menos.

Corcunda de notre dame

7. Oferta infantil. Uma enorme oferta de espectáculos e actividades infantis. Gloriosa. Diz quem sabe que este Corcunda de Notre Dame foi do melhor que já viu, e já viu várias coisas.

asterix

8. Cultura. Na revista “Os Meus Livros” (nº 82, ano 7, 12.2009) a coluna “Caldeirada de Letras” (p. 52) contém um acertado texto da autoria de Luís Graça: “Astérix Ortografix“. A propósito da edição do “O Aniversário de Astérix e Obélix, o Livro de Ouro” (fraquinho, já agora) uma crítica as  novas traduções dos nomes das personagens, um incompetente ataque à tradição asterixiana. (Algo que em tempos já aqui referi).

Artis

9. Surpresa. Encontro o Bartis (ok, o Bar Artis) reaberto. Um ícone do Bairro Alto, ali à Diário de Notícias, agora com nova gerência (propriedade dos donos do velho restaurante “Sinal Vermelho”), a vender apenas produtos portugueses (quer um whisky, um gin, um vodka? Beba aguardentes vinícolas – aprecio o acto). Mas mais do que isso – e ainda que lamentando isso do balcão estar agora ao fundo da sala – de louvar a reabertura de um local biográfico. Mesmo que já sem o seu velho proprietário, o célebre Mário, e – aí sim, lamentavelmente – desprovido da lendária Paula, rutilante alma. Mas está lá o Bartis ….

onesimo marx e darwin

10. Inteligência: a primeira auto-prenda, logo no dia da chegada, este “De Marx a Darwin. A Desconfiança das Ideologias” (Gradiva, 2009), um para mim desconhecido livro de Onésimo Teotónio Almeida. O autor é um homem inteligente, o livro idem. Uma delícia, sobre paradigmas cientificos, suas características e limites, e ainda da hipotética relação da ciência com a religião, da ética com a lei. Para mais muitíssimo acessível (efeitos da tal inteligência). Deixo uma citação. Que é letal para alguns meio lusos, e não é preciso recuar ao guterrismo: “Nem tudo na ética está codificado na lei, a lei civil é apenas a imposição da obrigatoriedade de uma ética mínima para o funcionamento das sociedades. Mas se a ética transcende a lei, e por vezes choca com ela, ambas têm os mesmos alicerces. Os debates legais resultam de confrontos entre valores éticos, de combates morais, e nem todos conseguem reunir consensos que se traduzem no estabelecimento de normas legais (ou, pura e simplesmente, de leis sancionadas pelos tribunais e pelas forças do Estado que velam pelo seu cumprimento), contudo muitos valores morais não precisam de ser codificados em lei. Há normas éticas aceites pela maioria que nunca foram consignadas em nenhuma legislação. Os ventos da história e o rumo de cada cultura acaba conseguindo para esta ou aquela norma ética um estatuto legal. Mas nunca a lei cobre todo o domínio da ética, até porque nela, a ética, há um mínimo que suporta legislação (o domínio do dever), porém existe um outro bem mais vasto, o da virtude – a arethé grega – que não poderá nunca ser legislado.” (125)

sporting logo

11. Drama. Rui Santos sobre o Sporting. O jornalista em causa capta pouca adesão – como o prova o baixo número de subscritores das suas incessantes petições informáticas, abundamentemente publicitadas em inúmeras horas televisivas (basta compará-las com as petições lançadas in-blog para comprovar essa sua fragilidade). No entanto a sua denúncia sobre a destruição do Sporting Clube de Portugal por parte do núcleo socioeconómico, em tempos albergado sob o epíteto “Projecto Roquette”, é inultrapassável. E de registar pois estabelecida em jornal de grande divulgação. E, por extrapolação, diz muito sobre o Portugal de hoje, esse da cega aceitação de auto-anunciadas elites sublinhada pela “falta de alternativas”.

fnac

12. Capitalismo. A edição portuguesa está pelas “ruas da amargura”. Sob a tutela dos interesses comerciais, de grupos editoriais desligados da cultura (e, porque multinacionais, do contexto nacional). E esmagada pela pressão oligopolista dos grandes potentados livreiros, também eles apenas virados ao lucro. Assim se apaga a hipótese da edição ensaística e apenas subsiste a chamada “literatura leve”, a capa brilhante, o conteúdo inexistente, a forma “plana” – em particular expressa nos registos da “exo-ajuda” e do chamado “romance histórico”.

Prova dessa superficialização produzida nas grandes superfícies encontro-a na FNAC do Chiado, chego à secção dos livros e deparo-me com o primeiro escaparate – aquele que me recebe e me despedirá, dentro de algum tempo, portanto o que mais apelará à aquisição. Uma das faces para a literatura nacional (prosa) considerada relevante (os peixotos, cachapas, saramagos, lobos antunes, tordos e torgas e isso). A outra face de prosa estrangeira, e não resisti a transcrevê-la, para aqui comprovar o “estado da arte” a que se chegou, do esmagamento cultural por via do comércio (do capitalismo, por assim dizer). São 18 colunas, cada qual com quatro livros, novas edições (traduções) ou recentes reedições. Por mim recenseadas, como denúncia. Apresento apenas os autores, para economia de ma-schamba. Eis então o painel do escaparate melhor situado:

1. Bernhard; Bernhard; Mishima; Mishima. 2. Beckett; Walser; Walser; Mme Lafayette. 3. Hesse; Hesse; Jane Austen; Jane Austen. 4. Hemingway, Dumas, Diderot, Dickens. 5. Iris Murdoch, Iris Murdoch, Rilke, Colette. 6. Susan Sontag, V. Wolff, V. Wolff, Lampedusa. 7. Thoreau, Flannery O’Connor, Orwell, Orwell. 8. Maugham, Mann, Beckett, Mailer. 9. Daphne du Maurier, Céline, Saint-Exupery, Walty. 10. Flaubert, Yourcenar, Yourcenar, Hsek (?). 11. Kafka (X4). 12. Aitmatov, Kafka (X3). 13. Jack London, Boris Vian, Victor Hugo, Lautréamont. 14. Proust, Proust, Calvino, Calvino. 15. Calvino (X4). 16. Calvino, Pasternak ,Turgueneev, Gogol. 17. Tolstoi, Zweig, Svevo, Bulgakov. 18. Dostoievski, Dostoievski, Lidmila Ulitsvaia (?, será assim?, não conheço), E. Waugh.

Lastimável. Esta prática comercial, esta subjugação editorial. O primado da mediocridade. Efeitos, necessários entenda-se, do capitalismo. Vil.

Charme Discreto da Burguesia 2

13. O Charme Discreto da Burguesia. Olivais-Sul, Lisboa, Dezembro de 2009.

Ler Dezembro 2009

14. Império. A Ler (nº 86, Dezembro de 2009), coluna “Booktailoring”, de Paulo Ferreira e Nuno Seabra Lopes. Procurando um registo cómico em futebolês (o dia em que os humoristas escreverem em raguebês ou golfês será bem arejado…) o texto ”Um jogo entre linhas“ que aponta os “jogadores mais influentes do mercado editorial português em 2009“. Não vou discutir os critérios. Apenas o eco da minha reacção: “tenho que ter cuidado, pareço da patrulha ideológica“, resmungo-me. Pois na “selecção nacional” deles lá estão o Agualusa e o Mia Couto. Sim, eu sei que na selecção de futebol estão o Liedson, o Pepe e o Deco. Mas nesta, na literária, não há brasileiros. É, na cabeça dos humoristas, uma selecção portuguesa de Portugal, mas afinal uma transpiração da pobre lusofonia. Ou seja, e isto muito para além dos escritores em causa, da cabeça dos humoristas ninguém retira(ou) o Império. Nem na Ler… Absurdo. Mas um absurdo sintomático.

jornal i

15. O jornal I é o melhor jornal nas bancas. Já no Verão passado me parecera tal. Agora confirmam-me tal alguns amigos. Alguns até acompanham a opinião com um “é de direita mas …”. Mas digo eu, que o vejo sem publicidade e oferecido nas bombas da Galp. Mau sinal? A ver se se aguenta …

Jose Cutileiro Bilhetes de Colares

16. Delícia. Inúmeras bancas de livros em saldo (aliás, monos), um “apelo às dádivas”. Nelas sempre se encontram exemplares desta bela colecção “Horas Extraordinárias” que o Independente foi publicando há alguns anos. Cada vez que em Lisboa lá carrego alguns. Agora é a vez (a 2,5 euros, imagine-se) de adquirir este saborosíssimo “Bilhetes de Colares de A.B. Kotter (1993-1998)“, “porventura” de José Cutileiro. Obrigatório regressar a esta Quinta da Beldroega, sita na Várzea de Colares, seus habitantes e visitantes, ponto máximo de observação deste país. Pelo olhar-mestre do Senhor Doutor Kotter, traduzido pelo ex-comando J. Fonseca, fiel à máxima de que “Como a leitora sabe, eu nunca me imiscuo na política deste maravilhoso país que tão generosamente me acolhe no seu seio. Não cabe a um estrangeiro fazê-lo; menos ainda a um estrangeiro sem razões de queixa.” (66). Ainda que com ele se possa discordar, por vezes, como aqui: “Já tentei explicar-lhe que o snobismo não é tão mau como parece porque, vistas bem as coisas, sempre é o contrário da inveja…”. Discordância que, se seguida, levaria por caminhos muito diversos. Mas mais do que a justificar a corrida aos monos…

fontes pereira de melo

17. Política. Nenhum dos meus amigos – desses que cada vez menos encontro -, nenhum dos meus familiares, nenhum dos teclistas lidos in illo tempore, enfim nenhum desses que tanto vituperaram (vituperámos) o “fontismo” cansado, travestido de “desenvolvimento”, do primeiro-ministro Cavaco Silva tem agora uma palavra irritada contra o proto-fontismo de José Socrates. Mas para quê falar, se é para falar encastrado?

Amalia

18. Jonhy Lyndon (ex-Rotten). Amália. Coração Independente (no CCB). Não sou um amaliano, ainda que nela possa actualizar (reconheço, até acabrunhado) a expressão “de ir às lágrimas”. Pois ainda que não o seja (amaliano) saí preenchido da exposição. Para logo quem ali a meu lado me iluminar, como sempre na vida, num até desdenhoso “não aprendi nada”. E é isso, saio do amalianismo (no meu caso amador) e constato, a exposição não é um diálogo com Amália, é uma missa (certo, a haver divindade que seja ela), apenas uma missa. Ela adoraria. Mas está morta, não haverá outra forma de ser olhada?

Depois o tal diálogo com a mulher, a personagem, a artista, o mito  -  que se pretenderia? –  é atirado para um “posfácio”, de arte contemporânea. Nesse pacote, mas que assim surge externo, in-dialogante, um bailado (Ana Rito) muito interessante, a peça de Joana Vasconcelos também. E uma instalação visual óptima de Bruno de Almeida. Mas mesclado com coisas-obras a parecerem  modismo para “espantar a classe média baixa”. Francamente, não há paciência para quem atira um xaile para o chão e diz “arte!”. Olhar um cilindro branco com espelho atrás, “um artista (Amália) solitário no palco”. Em 2009? Ali tanta ruptura, tanta inovação como o busto realista atrás apresentado (Joaquim Valente), coisa de meados de XX, que foi muito ao gosto da representada. Honestamente uma desilusão. Pelo auto-centramento da exposição, que se pretende encantória. E pela tralha avulsa que se lhe colou à maneira de olhar actual – com as excepções referidas. Sempre me convenço que o epíteto “contemporâneo” faz eclipsar o espírito crítico, analítico. Cilindros brancos, mesas luz com banheiras coloridas, peças atiradas no chão. Hoje?

Coisas que sempre me fazem lembrar aquela entrevista do Jonhy Lyndon (ainda Rotten?) ao Philippe Manoeuvre, publicada na Rock & Folk cerca de 1982. Dizia o Rotten: “ser punk em 1980 é igual a ser hippie em 1976″… Xailes no chão?!

sahara ocidental

19. Sahara Ocidental. Uma militante esteve em greve de fome defendendo a causa do Sahara Ocidental, protestando contra a ocupação marroquina. A representação diplomática de Rabat em Lisboa concedeu uma entrevista ao jornal “i”, anunciando que Marrocos é “o polícia da Europa”. O silêncio europeu face à ocupação colonial do Sahara Ocidental passa por esta “política real”. Confesso que nada sei sobre a situação efectiva na região (no país, por outras palavras), acredito até que o terrível fundamentalismo “alqaediano” seja um papão agitado por Marrocos para colher o apoio à sua velha expansão – como os leitores saberão ninguém falava de Al Qaeda e muito poucos falavam de “fundamentalismo”/”integrismo” islâmico quando Marrocos  procedeu à ilegal anexação daquele território. Ou o seu inverso.

Mas enfim, são contas do difícil e imbrincado rosário da história. A mim interessa-me a reacção em Portugal. Nos jornais e na TV, nas conversas, ninguém ecoa a posição do Estado - o qual desde o governo Socrates assumiu a posição mais próxima da política colonial marroquino. É óbvio que o “distante” assunto a ninguém interessará, Marrocos está nos confins, parece-me até antípoda. À esquerda ninguém diz nada, nem mesmo o BE, onde Marrocos será quanto muito o locus de umas ganzas a legalizar, que isso dos princípios é uma canseira. O PCP silencia, mas é óbvio: para um partido sempre ao lado dos poderes coloniais e dos regimes monárquicos não se deveria esperar uma interrogação sobre a política diplomática portuguesa nesta questão. Ninguém questiona a questão. O fait-divers da senhora à fome acabou, entretanto o escritor José Saramago foi lá apoiar (à revelia do seu partido, à revelia de António Costa, o socialista de quem é apoiante) porque é uma ”causa justa” e pronto. Aliás, prontos …

20. Excelência. No canal Mezzo (que pena não haver em Maputo) um fantástico programa sobre Rafael Campallo, bailarino que desconhecia. Grande, grande …

Liceu Camões

21. O Antigo Regime. O álbum, merecido, celebrando o centenário da Escola Secundária de Camões (ex-Liceu Camões). Ainda que me arrepie sempre que ouço loas ao dito liceu (apesar dele próprio). Que é sempre agitado como se ícone dos “bons tempos” em que havia cultura, e educação que a sustentasse e reproduzisse, em Portugal. Ou seja, antes do povo estudar e, até, gerar professores. Tudo isso em discursos de ”progressistas”, até gente oposicionista germinada no velho Liceu – mas que verdade, verdadinha, suspira por trechos do dr. Salazar, em particular aquele de que ao povo basta ensinar a contar e a assinar. Quebrado isso ficámos como estamos. Que “eles” até a “doutores” vão.

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22. A desistência. Visito, acompanhando uma ínclita comitiva, a exposição do fotógrafo Korda. Celebrizado pela iconográfica fotografia de Ernesto Guevara, de sua autoria. Muito interessante, pelo que demonstra da produção do culto de personalidade do ditador comunista Fidel Castro, do qual Korda foi acompanhante durante a década de 1960s. Fantástica a sua entrevista, a forma como glorifica o próprio Ernesto Guevara, um absoluto contrasenso (assista-se às suas declarações, elogiando a “punição” que Guevara lhe fez).

Korda6Korda5 Mão de Fidel

Fidel Castro como ícone, até bíblico. A mão na terra produtiva, a pegada de Fidel, o seu “gigantismo”. A sua beleza sensual. Fascinante, como interpretável. Como produto e produtor de fascínio.

Korda1 - mulheres

Certo que se Korda fosse eslavo ou han teria tido problemas, acusações de “cosmopolitismo” (como aventou um amigo meu) não lhe faltariam. Basta ver esta fotografia, onde duas presumíveis beldades, até lânguidas, escutam no escuro as palavras solarengas do comandante, deixando imaginar outras prédicas, mais íntimas. Coisas deste discurso construtor do “fidelismo”, de Fidel Castro, muito dadas ao tom local, mas também à específica característica de Korda.

Mas para além dos seus méritos estéticos e jornalísticos surpreende que esta exposição, demonstrativa da arte glorificadora de Korda, que surge sob tutela da também estatal Casa da América Latina num espaço também estatal (Cordoaria Nacional), seja apresentada sem qualquer contextualização distanciada, sem referência enquadradora. Nada nos textos que a acompanham, talvez (mas desconfio que não) no catálogo – que muito presumivelmente será apenas encomiástico. Espantosa desistência. Dias passados comento esta minha estranheza numa mesa polvilhada de académicos, a nenhum pareceu estranha tamanha distracção “fidelista”, obviamente significante. Nem mesmo quando lhes disse ser Korda um pouco a Leni Riefenstahl do regime cubano, ou que diante de qualquer produtor de mitos e ícones se presume criar distância cognitiva, não apenas fascínio e adesão – coisas que tão bem “sabem” para outros casos. Um simpaticíssimo alto quadro do ministério da Cultura, ali entre variados acepipes, rematou que “a exposição é daquelas que se recebem”. E pronto! Desistência, pura e simples. E a gente assiste.

gravata

23. A gravata. Penso que foi no jornal “Sol”, uma pequena nota irónica sobre Francisco Louçã. Que o coordenador do BE aportara no parlamento usando gravata, ao contrário do seu significante traje político, esse que reclama dessassombro (e, claro, posição de classe). Para logo nos “sossegar”, afinal era apenas o dia em que o deputado cumpria provas públicas académicas e nesse campo fazia questão de cumprir as normas de vestuário. Passa tudo num sorriso, as pessoas dirão que é do espectro das decisões pessoais, etc. Mas este pequeno episódio, o respeito pela gravatinha no seio da corporação profissional ao invés da liberdade encenada no traje política, este pequeno episódio mostra bem a hipocrisia do senhor professor. O corporativismo fala mais alto, em maquilhagem de pequena-burguesia.

Escaparate

24. O escritor de escaparate. Já no pós-Natal mas ainda a caminho de mais uma comensalidade pantagruélica. No rádio do carro, enquanto subimos ali em Monsanto, capta-se uma conversa com escritor – desses que está em todos os escaparates natalícios, diga-se. Diz ele, face a pergunta da radiofónica voz: “a literatura é o que tem que ser!”. Abismado com tanta profundidade aumento um pouco o volume, para ouvir no que aquilo irá dar, e logo ouço mais uma pergunta “V. disse no seu blog que a literatura portuguesa não é apoiada pelas livrarias. Que vontade de escrever isso lhe dá?”, ao que responde o escritor, voz arrastada, sofrida, ”Nenhuma“. A meu lado, enfastiada, a senhora pergunta-me “queres ouvir isto?” e eu, mais assim como eu, logo riposto: “tira essa merda!”.

Rolling-Stones-Let-It-Bleed

25. Envelhecimento. Ligo o carro e na rádio reconheço os acordes da “Fanfarra para um homem comum” e logo surge a  “You can’t always get what you want” dos Stones. Elevo, e bem, o som e segue a canção-ícone, rock-barro da minha gente. Acto contínuo a bela rapariga a meu lado põe-me na boca …. uma castanha assada.

coppola tetro

26. Tetro, de Coppola, é um soberbo, lindíssimo, filme sobre Buenos Aires. Fantástico. A história é um pastel, a deriva patagónica um must de pirosice. Convém ver. Mas sem som nem legendas.

jose policarpo

27. Cardinalice. O Cardeal de Lisboa invectiva a “indiferença, agnosticismo e ateísmo” na sua homilia natalícia. Interrogo-me onde vai ele buscar essa ideia da igualdade entre “indiferença” e “ateísmo”. Que ”indiferença”? A prática, a ética, a solidária, a reflexiva? Um argumento vácuo, inaceitável, e que não cola com a imagem de profundidade intelectual que Policarpo sempre apresentou. Sem rodeios, é uma parvoíce ao nível daqueles que reduzem a igreja católica a fogueiras da inquisição e a erecções pedófilas. José Policarpo tem o direito (em determinada acepção terá até o dever) de combater o ateísmo e o agnosticismo. Mas tem toda a obrigação de matizar as suas argumentações e invectivas. E exactamente quando a sociedade presta homenagem a Manuel Clemente, bispo do Porto, enquanto homem de cultura elogiando-lhe a fina análise. Um deslize cardinalício, ao invés do momento vivido. A colher, claro, o silêncio do comum …

Homem em Furia

28. Homem em Fúria, de Tony Scott, competente filme de TV. Seria uma excelente peça de cinema de samurai, acho, não fosse o seguidismo ao paradigma psicologista, assim desvanecendo a profundidade abissal do protagonista. Um diálogo excelente: “Velho: Na igreja dizem que devemos perdoar; Creasy (Denzel Washington): Perdoar-lhes é com Deus. O meu trabalho é proporcionar-lhes o encontro.”

record

29. Acordo Ortográfico. O Record é o jornal que logo aderiu ao Acordo Ortográfico. Se dúvida houvesse sobre o substrato intelectual desta parvoíce provinciana a entusiasmada adesão de tão pobre jornal cessa qualquer hipótese de dúvida. Eduardo Pitta acha que os detractores do Acordo Ortográfico são “encenadores” que dão pontapés na gramática, e com ele concorda Filipe Nunes Vicente, outro grande-bloguista. Recordo que as maiores polémicas neste ma-schamba vieram desses meus actos pontapeadores e, envergonhado, lamento-os bem como à falência das minhas tentativas teatrais. Vou ali ler o Record – pode ser que por lá me expliquem que esta deriva homográfica lusófona nada tem a ver com um fundo tonto de apelo à gesta da “presença” e “expansão” da língua portuguesa, que nada tem a ver com a inexistência de verdadeira reflexão económica sobre os seus futuros resultados para a edição internacional em português (mas apenas em “desejos pensantes”), que nada tem a ver com a tonta e iletrada ideia feita da distinção radical entre a fala e a escrita (a “escrita é uma convenção” dizem os imbecis, convictos que a fala, em última análise, não o é; a “grafia não influencia a fala”, dizem “professores” sem perceberem que assim invalidam a sua tarefa).

Bem, pelo menos parece o Miguel Veloso marcou um golo e diz-se que vai para a Fiorentina ou Barcelona, e o jornal deve falar disso …

cafe bica

30. Decadência Nacional. Cada vez mais difícil, talvez até mesmo impossível, encontrar uma “bica” (aliás, “café”, “expresso”, “italiana”) decente. Os estabelecimentos  comerciais especializaram-se em servir zurrapas. Café Chinês?

PResepio

31. Família. Em dois dias seguidos dois artigos interessantes, os de Miguel Pacheco, “Não São Sermões Sobre a Vida Íntima e Martim Avillez de Figueiredo, sobre a questão da “família”. Em ambos choco com este meu preconceito, o de que o discurso jornalístico aparece mais superficial do que o académico ou de reclamação intelectual. É aqui o inverso, total. Pois em ambos é explícita a ideia, ao contrário dos discursos dominantes, da necessidade e da virtude da família. Ultrapassando as velhas querelas hiper-liberais e hiper-marxistas, da família como local agente de repressão e reprodutor da exploração, do maléfico Pai-Padrasto Castrador e da malvada Mãe-Madrasta Castrada Castradora, do discurso da libertação do sacrossanto indivíduo face às algemas comunitário-familiares, da ultrapassagem da repressão por via do sacrossanto Estado-sociedade, local de protecção, produção e reprodução. Afinal instituição virtuosa, falível claro, de produção e interacção de valores sociais.

Há quem chame a isto conservadorismo. Lembra-me o Jonhy Rotten (já Lyndon?): “ser punk em 1980 …” (onde é que eu já li isto? …).

enchidos

32. Frases feitas? Um repasto, entre antropólogos e excelsas iguarias, no caminho entre enchidos fidedignos, sopa de rabo-de-boi, conduto incomensurável, doçaria relevante, reservas variadas e vintages culminantes. Algo a que, ali, estou há décadas habituado. Com emigrantes à mesa a conversa passa ao “estado do país”, claro. Donde ao casamento homossexual, que o resto foi resumido, como sempre, num “isto está mau” – mas que ninguém interprete este condicionamento do discurso popular como uma estratégia do governo, que é de esquerda, donde bom. Pessoa que há décadas muito me é querida e também minha mestra nas coisas antropológicas, talvez até causa quase-única desta minha formação, remata-me “O casamento é um contrato entre dois indivíduos“. Vacilo, e partirei destruído para casa. Pois se vindo de quem vem aquele libelo individualista … tudo aquilo que estudei, da reprodução estratégica de laços de filiação e de descendência, de articulação entre grupos sociais, de transferência de património (em sentido lato), de composição e recomposição familiar, tudo isso para onde foi, o que era? Nada, afinal a nossa sociedade é apenas um campo onde interagem indivíduos, livres, racional e radicalmente autónomos que contratualizam. Virtuosamente.

Vindo de quem vem? Já no carro, ao volante, entre a azia silenciosa e a flatulência reprimida, constato-me duas décadas de vida profissional enganada. Novo ano que aí vem – e até já veio – exige-me pois vida nova, profissão nova. Pois se a outra, a da até agora, inexiste afinal. Não dormirei, e desde então a insónia constante. Para onde ir? Que fazer? Ou antes, com que indivíduos contratualizar?

PortoVintage

33. Ideias Feitas?. “À mesa, entre antropólogos e excelsas iguarias, no caminho entre enchidos fidedignos, sopa de rabo-de-boi, conduto incomensurável, doçaria relevante, reservas variadas e vintages culminantes. Algo a que, ali, estou há décadas habituado. Com emigrantes à mesa a conversa passa ao “estado do país”, claro. Donde ao casamento homossexual – que o resto foi resumido, como sempre, num “isto está mau” – mas que ninguém interprete este condicionamento do discurso popular como uma estratégia do governo, que é de esquerda, donde bom. Pessoa [outra] que há décadas muito me é querida, e também minha mestra nas coisas antropológicas, talvez até causa quase-única desta minha formação” [in blog ma-schamba, post "(N)A "Pátria Amada" (ponto 32)], explica-me, simpática e até solidária com as minhas falhas de formação (e tantas ela colmatou nos bons velhos tempos), a diferença entre o matrimónio religioso, de vínculo indissolúvel, e o casamento civil, coisa moderna e passível de ser dissolvido. Por opção própria, por economia de discurso, não lhe dá nenhum enquadramento de história institucional, mas não posso aprender tudo no mesmo dia. Estava eu, portanto, a ouvir pela enésima vez esta profunda argumentação – e ainda não tínhamos chegado à questão das sufragistas, mas haveríamos de lá aportar – quando um conviva comensal rematou, glorioso: “vínculo indissolúvel?! Ah, mas isso é o que defendem os sindicalistas!! Afinal são iguais, a Igreja e os Sindicatos“.

Um vintage, este meu amigo, há décadas que vai vintage! Pena é que não meu mestre …

bachhaydn

34. O cadáver da Antropologia. Ao sábado ouvir Bach na Gulbenkian, ao domingo Haydn no CCB. Para além do encantamento da música – um registo em que me perco completamente, por falta de capacidade interpretativa, uma delícia – deixo-me, como sempre, a “olhar” público e músicos. Olhar esta disciplina, que faz milhares de músicos aprenderem a reproduzir e interpretar partituras de tons e sons velhas de séculos, atentos às suas diversas matizes, e ainda, até, criando-lhes novas formas. Disciplina que passam a milhares e até milhões de ouvintes, que vão sendo treinados a escutar (alguns até a entender). Disciplina essa a qual poderá ser chamada “civilização”, forma vasta de controle, molde gigantesco de sentir e ser. É um fim-de-semana bom para isso, isto de partilhar espaço civilizacional com patrícios relativamente diversos – nas formas do saberem os seus corpos, de controlarem tosses, espirros, flatulências, agitações, sentimentos, amores, aplausos. Mais “burgueses” à Praça de Espanha, mais “populares” (menos “cívicos”, menos ”civilizados”) em Belém, que tudo isto é um processo longo de aprender.

Mas de repente, ali a meio da Criação, de Haydn, entre tosses múltiplas e aplausos fora-de-tempo no seio dos ainda algo in-disciplinados, lembro-me da minha queridíssima amiga e mestra. Que é isso? Questionar-me sim, mas apenas sobre as contratualizações que ali nos uniam. Nada mais há a questionar, a inquirir. Paguei bilhete, é o meu contrato. Outros pagaram ainda impostos, é outro contrato. Todos comprámos produtos dos patrocinadores, mais contratos jurídicos. E basta, deixo-me a ouvir a música, incompreendendo. Feliz.

Jornal de Letras 1

35. A cremação da dita e ainda das suas primas. Jornal de Letras, já institucional presença. Tem defeitos, mas é melhor que exista. Muito estatal, no ponto de vista, nas formas de associação e financiamento. Também por isso local dos sinais dos tempos. Na última edição (nº 1024) vários artigos sobre a década agora terminada, “dez anos de letras, artes e ideias“. Extensas indexações de poesia e prosa literária, artes plásticas, música erudita e pop, cinema, dança e teatro. Ambiente, ensaio e ideias (sobre estas dois textos) também. Não discuto os critérios, gente sábia a escrever. Mas surge-me questão. No mundo das “ideias” ainda há referência para uma ciência social, a História. Até par as sua versão história intelectual (já agora, saúdo as referências a obras que me são bem queridas, “História do Pensamento Filosófico Português”, coordenada por Pedro Calafate, “Portugal Extemporâneo” de Carlos Leone). Depois … Eduardo Lourenço, mais alguns ensaios, o “Portugal Medo de Existir” (“os portugueses são …”).

Entenda-se, dois artigos sobre “ideias”, um sobre “ensaios”. Nem uma referência a trabalhos portugueses de Antropologia, de Sociologia, de Psicologia, de Geografia, de Linguística, de … olhando bem nem de Economia, nem tampouco de outra área de investigação. Ideias durante a década? Ideias sobre Portugal e sobre o mundo? Nada a referir. [Vou escrevendo e pensando que sobre Ciências Exactas/Naturais idem, idem. Mas haverá ideias aí?, dirão os especialistas do JL].

É o Jornal de Letras! Sinais dos tempos? Claro, como comprovei nesta minha deslocação.

inhamabane

36. Inhambane. Para lá sigo. Intentando, entre sol e calma, encontrar um novo rumo. Entenda-se, novos contratos. Apenas jurídicos, claro.

jpt


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José António Saraiva, os Jovens e o Pai

Quarta-feira, Dezembro 23rd, 2009

sapatilhas da moda nb kiks

por ABM (Cascais, 23 de Dezembro de 2009)

A propósito dos meus queixumes cinematográficos sobre os jovens, refiro a crónica de José António Saraiva, que dá a sua visão sobre o assunto. Claro que peca pela abrangência. Mas em média está correcto e aponta o dedo aos filhos da classe média (bem, da média-baixa para cima).

Li esta coluna não porque comprei o semanário lisboeta Sol, de que JAS é director, mas porque estava um monte de jornais para oferta à saída do cinema a semana passada e eu peguei numa cópia.

Gosto muito de ler JAS desde os idos tempos em que comprava, numa mercearia portuguesa na zona de Fox Point, em Providence, Rhode Island (EUA) inexplicavelmente espessas cópias do Expresso. Não era todas as semanas pois a mercearia só recebia algumas cópias e se eu chegasse tarde não havia nada para ninguém.

JAS era para mim o prato forte e leitura obrigatória do Expresso e nunca entendi muito bem a decisão dele sair de lá para fundar o Sol. Do pouco que sei, este jornal, não sendo editorialmente mau, não vale muito sem ele e parece-me que tenta ser o antigo Expresso sem o ser. O problema é que nem o actual Expresso se parece com o antigo Expresso.

Pode ser que seja eu que tenha mudado. Mas não acho.

Acresce que o jornal tem tido problemas financeiros aparentemente sérios e tem seguido uma estratégia muito peculiar de insistir em ser vendido nos países africanos onde se fala português, o que não entendo pois o mercado lá para as notícias e análise que o jornal faz cá não é grande. Não só não é grande como não se compadece com as pressões culturais, diplomáticas e políticas que caracterizam o tortuoso eixo que liga Lisboa às capitais dos países onde se fala português – especialmente Angola e Moçambique (que conheço melhor) onde há bons jornais e bons escribas.

E, do que fui informado, uma parte do capital do Sol está nas mãos de interesses angolanos. Qual a lógica, não sei.

Mas JAS continua em forma, mais velhinho e sábio como alguns de nós. O estilo e a substância não alteraram muito com os anos.

E, meritoriamente, sai no feitio ao pai, o grande António José Saraiva, que tive o prazer de ver quando visitou a Universidade Brown e em que falámos de um livro que ele então havia publicado recentemente, A Inquisição e os Cristãos Novos, que eu acabara de ler e tinha feito um (ridículo) trabalho para uma cadeira creio que do prof. Onésimo Teotónio Almeida.

Para mais sobre a Inquisição e os Cristãs Novos, leia-se esta entrevista de Francisco Bettencourt, que em tempos leccionou na Brown e em que fala da obra do pai Saraiva (chamando-lhe uma “tese marxista” – hum).


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O Acordo Ortográfico

Domingo, Março 15th, 2009

O jornal Público ecoa declarações do ministro da Cultura português nas quais este reafirma a adopção do Acordo Ortográfico até ao fim do semestre. Já pouco haverá a fazer entre aqueles que se lhe opõem. Já aqui resmunguei contra o processo. Mas valerá recordar que tudo isto brota do baixo nível intelectual das elites pensantes portuguesas que se congregam junto ao poder PS, muito presas à crença numa união lusófona (gráfica, neste caso). Incapazes de lerem a história e o presente como plurais. Incapazes de pensarem a complexidade. E de nesta actuarem sem a querer fixar.

Evidentemente que é um problema sociológico: o porquê da colonização do sistema político nacional por determinados estratos (semi)letrados. Mas corresponde, mais profundamente, a um deficit intelectual do país, independente da grafia que considera correcta. Doloroso de assistir, em qualquer grafia.

Entenda-se, é um deficit geral, nada mitigado no observar das tonitruantes oposições ao dito, inútil e pacóvio, Acordo. Os recorrentes gemidos, mais ou menos lancinantes, contra “a destruição do português correcto”, a “traição à Pátria” [como neste mero exemplo] correspondem exactamente, em densidade de reflexão, ao entusiasmo de alguns com a “nova união gráfica”. São a outra face da moeda. Da mediocridade. Têm, pelo menos, a dignidade ética de saberem dizer “não”. Basta isso, para? Não. Nada mesmo. Mas pelo menos vão honestos.

(Adenda deselegante mas sociologicamente necessária: quando daqui a alguns meses o lobi socialista de Coimbra fizer eleger Carlos Reis como reitor, ou este se contentar com a presidência do Instituto Camões, perceberemos melhor a vital importância intelectual e política do Acordo para o conhecido professor, dele porta-voz, a causa de tanto esforço militante, de tão dourar tão mísera causa com os seus galões académicos – afinal mero intelectual de serviço. Mas, porque é sempre deselegante apontar o dedo, então quase ninguém o apontará. Apenas alguns horrorosos bloguistas, nada impolutos mestres da mísera bloguização do pensar e actuar, como denuncia José Pacheco Pereira – sempre cego à politização do bloguismo, e não do seu contrário.)

 


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Soneto das Barbies

Terça-feira, Março 10th, 2009

20090204_barbie-50-anos

Nos cinquenta anos da Barbie.

Soneto das barbies

Na discoteca vi à noite as barbies:
passavam pernilongas e lascivas
sem verem bem as minhas tentativas
e deu-me então a gana de exclamar: bis,

quero ter outra vez os meus vinte anos,
sabendo o que sei hoje, e atravessar-me
de coração pulando em puro alarme
no caminho das ditas, mas tais planos

podem sair furados, é melhor
fazer valer os trunfos que inda tenho
e franzir divertido o sobrecenho,
dando-lhes a entender que as sei de cor.

e sem saber se a tanto me aventuro,
vou-me dando ares de sedutor maduro
.

[Vasco Graça Moura, "Soneto das barbies", Uma Carta no Inverno, Quetzal, 1997]


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A cooperação portuguesa a propósito da visita a Moçambique do ministro da Justiça português

Terça-feira, Março 3rd, 2009

Para quem entenda algo de cooperação internacional (Ajuda Pública ao Desenvolvimento) não é difícil encontrar causas para a tendencial  ineficiência da cooperação portuguesa em Moçambique. Situam-se na história e na sociologia da administração pública portuguesa e no seu enquadramento cultural. Os anos passam e pouco (algo?) muda.

Corolário dessas características é a hiper-descentralização da cooperação, em que cada organismo estatal português (e aqui inclua-se a dimensão camarária) entende ter uma “agenda de cooperação” própria, a prosseguir com os seus parceiros locais. Para tantos dos intervenientes ou observadores  - e até funcionários – é óbvio ser este traço uma sobrevivência, a permanência da noção da administração diferida, um modus faciendi herdado do tempo colonial em que os organismos metropolitanos articulavam com os governos coloniais/”provinciais”.

No início das relações de cooperação bilaterais, após as independências, essa metodologia de contacto directo afirmou-se, até pelo facto dos organismos públicos portugueses terem acolhido antigos funcionários coloniais, com seus conhecimentos técnicos e pessoais e seus interesses (não obrigatoriamente interesseiros), que imprimiam uma dinâmica e um formato peculiares às concepções de cooperação e sedimentavam os “departamentos de cooperação” ou similares nos organismos públicos. Mas essa geração já não está no activo, a persistência do modelo depende hoje das inércias burocráticas, das reclamações políticas de autonomia sectorial e, não o menos importante, dos estratégias de carreira dos funcionários. Tudo isso impede a racional concentração (financeira e intelectual) desta área da política externa nos organismos devidos, tutelados pela Secretaria de Estado dos Negócios Estrangeiros e Cooperação.

Resultante desta metodologia economicamente perdulária e politicamente irracional, Portugal acumula “projectos” de cooperação de muito duvidosa viabilidade, real interesse ou capacidade de execução. Os dados estatísticos não mentem: em Moçambique, país onde abunda a cooperação internacional, Portugal tem muitissimo mais projectos agendados do que qualquer outro país, bem como do que todas as agências das Nações Unidas em conjunto. É apenas suplantado, e por escassa margem, pela Comissão Europeia, o maior doador em Moçambique. [Para que não se diga que é maledicência vejam-se os dados aqui e siga-se a documentação possível]. Nunca será demais dizer que esta volúpia “projectista” não é acompanhada nem por meios financeiros consistentes nem, e fundamentalmente, pelos recursos técnicos necessários (seja para co-execução seja para avaliação). E é importante frisar que este modelo baseado na figura do “projecto” está em contra-ciclo face às abordagens abrangentes, dominantes na cooperação internacional.

Um dos efeitos deste formato é o da intensa rede de visitas ministeriais e sub-ministeriais por parte dos governantes portugueses, obviamente excessiva, quantas vezes supérfula, por todos sentida como tal, até ridicularizada. Entenda-se, para além de outros considerandos sobre a sua eficiência, o trânsito governamental português em Moçambique (tal como, presumo, noutros países ex-colónias) é original, para não dizer excêntrico.

Vem isto a propósito de mais uma visita, a do ministro da Justiça Alberto Costa, ocorrida na passada semana, aqui deslocado para negociar o próximo programa trienal de actividades. Uma visita que, nas suas ocorrências, epitomiza o que de mal existe na cooperação portuguesa, nas suas dimensões executiva, conceptual e cultural.

A área da Justiça sempre foi considerada por ambos os Estados como prioritária nas relações de cooperação bilaterais. Para Moçambique tal inscreve-se numa especificidade nacional, considerada a manter, circundado que está por países herdeiros do sistema legal britânico. Daí o interesse mútuo, estratégico, em potenciar as acções nesta área (as duas décadas de ensino universitário a cargo da Faculdade de Direito de Lisboa são um bom exemplo de cooperação).

Por isso mesmo foram surpreendentes as declarações da ministra Justiça moçambicana, criticando publicamente o actual estado das relações de cooperação no sector, e identificando a causa da ineficiência nos próprios termos do acordo bilateral. Surpreendentes porque são inusitadas, ainda para mais em momentos de recepção. Entenda-se, o tom da ministra não se prende com as cíclicas (e até rituais?) retóricas de afastamento entre-Estados, e a isso não deve ser reduzido. É uma crítica política e técnica rara de ouvir a este nível, e evidentemente traduzindo uma desfuncionalidade da cooperação portuguesa nesta área sempre considerada fundamental.

O ministro português apresentou-se com uma vasta comitiva, uma dezena de pessoas, e cruzou o país até à Ilha de Moçambique, picando projectos [um resumo destes na peça da Lusa]. Poupo-me à ira algo demagógica com as despesas havidas – ainda assim tudo aquilo parece excessivo. em contramão a uma imagem de contenção orçamental. É claro que haverá sempre argumentos próprios a justificarem o séquito e os percursos. Mas registo que tamanho grupo não é o costume e que tamanhos desvios não são o costume. E que dão, aqui, a todos, uma óbvia aparência de digressão de veraneio de quem apouca a missão de que está incumbido.

Mas o fundamental serão os resultados. Uma grande delegação para renegociar os termos de um trabalho conjunto considerado vital e em actual depressão. Foram os novos termos ponderados, frutos de uma análise conjunta eficaz, serão potenciadores? Daqui a três anos alguém (?) fará a avaliação, mas parece-me óbvio que não foi isso o acontecido. De novo a incompreensão, a incapacidade para ouvir, analisar, integrar – até para cumprir as obrigações protocolares. Tudo isto emanando de uma atitude cultural que é, pelo menos, anacrónica. E que acampa como adversária dos interesses do Estado e do país. 

Como remate final da infeliz visita surge o ministro Alberto Costa propondo a adesão moçambicana à “Marca Lusófona”. Não valerá a pena insistir no descabido da fixação portuguesa no jargão “lusófono”, muito mais um obstáculo nas relações entre Estados e uma incongruência político-intelectual do que um eficaz instrumento. Julgava até essa retórica um pouco em desuso mas, como se vê, vai resistindo em alguns estratos da semi-intelectualidade ligada às esferas do poder actual. Entenda-se, para além de assim mostrar uma a-política incompreensão dos contextos visitados este discurso ministerial vem poluir as já difíceis relações sectoriais.

Uma perfeita ineficácia, até incompetência. Ainda para mais, e em complemento das problemáticas políticas e ideológicas ligadas ao hastear do jargão lusófono, é incompreensível que se venha a Moçambique, em crucial momento de relançamento de cooperação estratégica, propor uma económica “Marca Lusófona” exactamente quando aqui se procede ao lançamento da económica Marca Moçambique. Tudo mal pensado e, até, mal calendarizado. Um cúmulo de arrogante incompetência que nenhuma benevolência pode transformar em acaso ou distracção.

Claro que nada disto ecoa em casa própria. Nem este caso nem tantos outros. Aqui enquadrados por um corpo diplomático e afim que pratica o mutismo opinativo e, até, a elisão factual, e por uma imprensa pública (RDP, LUSA, RTP) que não arrisca a distância crítica, os agentes deste “modo cooperante” encomendam ainda trabalhos laudatórios na imprensa privada, realizados por jornalistas (quantas vezes juniores) que pouco ou nada compreendem do país que visitam, que pouco ou nada sabem da questão “cooperação” e que, fundamentalmente, estão constrangidos por essa realidade de viajarem a convite do Estado, como se em “missão nacional”. Veja-se, como exemplo, esta inenarrável peça de auto-propaganda, publicada no jornal Sol. O ministro mente. Ponto final parágrafo. O jornalista serve. Aliás, reproduz.

Há muito tempo que é tempo de isto mudar.


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Lusofonia: comprovação da sua existência

Quinta-feira, Setembro 18th, 2008

Muito aqui escrevi sobre Lusofonia, sempre criticando-a enquanto ideologia vácua e inexistência empírica. Comprovo agora o meu erro. A Lusofonia existe, uma constante linguística, que é enquadramento ideológico, partilha de valores e métodos, comunhão de objectivos, assim que se torna comunidade.

E eis a sua comprovação empírica, o cartaz (que no actual jargão lusófono se intitula “outdoor”) da moda em Maputo:

esta-preta-e-muito-boa.jpg

A lusofonia publicitária. Aqui como alhures boçalzita na piscadela de olho.


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Adequado ao momento

Segunda-feira, Julho 28th, 2008

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O beijo através do Atlântico, Mora (1922) – publicado na Ilustração Portugueza e na Revista da Semana (Brasil) para assinalar a primeira travessia aérea do Atlântico Sul.

[recuperado do Achtung Baby]


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Sporting-Benfica no Torneio do Guadiana

Segunda-feira, Julho 28th, 2008

Fim do jogo. O repórter da SIC entrevista os treinadores. Ao do Sporting trata-o por Paulo Bento. Ao do Benfica trata-o por “senhor Quique Flores”. Este, recém-chegado a Portugal, responde-lhe num castelhano rápido, de pronúncia até algo cerrada, assim quase imperceptível. O jornalista não o interpreta. Pelo contrário, introduz palavras castelhanas nas perguntas que lhe vai fazendo, “afición” e isso.

Foi no fim-de-semana. Da semana do Acordo Ortográfico. Da conferência da CPLP, com sua defesa do português.

Sorriso. O Sporting ganhou.


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Sobre a CPLP

Domingo, Julho 27th, 2008

Paulo Gorjão não foi lacónico: descreveu tudo.


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