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Agosto 19th, 2008 — Livros Moçambique, Maria Helena Massena Ferreira, Medicina Tradicional

“Marias Deste Nosso Mundo” (Ndjira, 2006), de Maria Helena Massena Ferreira. Médica pediatra do Hospital Central, professora universitária (presumo que jubilada), de ascendência portuguesa e em Moçambique desde os anos 50, quando aportou já mãe à então colónia. Na nota biográfica descrevendo-se como de um núcleo familiar oposicionista (”Democratas de Moçambique”?, não está explícito).
Sem objectivos literários, em parte memorialista, o livro consta de 5 pequenas histórias (e um poema), das muitas que a médica terá para recordar. Esse o seu interesse, o eco da permanência das “doenças da fome” - tantas vezes esquecida quando no seu avatar subnutrição -, elas descritas bem como a sua constância no mundo infantil. E a memória dos efeitos desestruturadores das redes familiares que a guerra teve, de como potenciou não só as doenças como a incapacidade dos núcleos familiares se reproduzirem.
É um texto sobre mulheres, e sobre a sua fragilidade estrutural (Marido sem amor / Maria humilhada / O desgaste de sofrer) [p. 54], mães e avós tentando fazer medrar as suas crianças. E do esforço da médica, uma postura iluminista, tanto no olhar sobre práticas e concepções outras, tão presentes no sul e centro - os diagnósticos por imputação de feitiço, as madrastas “madrastas”, símbolo da desestruturação das parentelas, os cuidados maternais em linha matrilinear chocando com a lógica patrilinear, etc. - que tanto penalizam as mulheres e sua prole.
Interessante ainda, exemplo geracional, a memória grata sobre os anos 80, o “tempo do carapau e do repolho” como aqui se diz. Ainda que aflorando de modo breve lá está o elogio dos mecanismos colectivos de gestão e a, ainda hoje algo surpreendida, descoberta do tradicionalismo afinal não tão-revolucionário - pelo menos em questões cosmológicas e de género - dos grupos dinamizadores, formas de base da administração pública de então.
Na sua linearidade retórica um testemunho interessantíssimo. Sobre a saúde infantil, sobre o mundo das relações de género. Mas também sobre o processo de constituição do Estado-nação.
Agosto 12th, 2008 — Livros Moçambique

Lançamento hoje no Centro de Estudos Brasileiros, às 17 horas, deste “Há Mais Bicicletas - mas há mais desenvolvimento?”, de Joseph Hanlon e Teresa Smart, editado pela Missanga.
Livro a exigir regresso quando concluir a sua leitura - após os três primeiros capítulos fica-me a ambivalência diante dele: por um lado a oportunidade do seu questionamento, será que o crescimento macroeconómico do país se está a reflectir no efectivo desenvolvimento nacional (não, é a resposta)? Será justificado (produtivo) o actual ênfase da Ajuda Internacional no investimento na esfera social (saúde, educação) em detrimento da esfera económica, directamente produtiva (não, é a resposta)? É o Mercado suficiente para o desenvolvimento ou o Estado tem que intervir na Economia (tem, é a resposta anunciada)?
Mas por um outro lado fica o desconforto com a argumentação. Desde a eterna repetição da herança do colonialismo grosseiro português, tese do marxismo anglófono de 60s (teleologia, sublinhando a supremacia do colonialismo desenvolvimentista britânico por um lado, mera repetição do Marx sobre a colonização da Índia em XIX, por outro. E incapaz de suportar as comparações nos percursos nacionais subsequentes), à redução da guerra civil a causas externas, bem como menores exemplos panfletários - a explicação do êxodo português devido à propaganda colonial surge, como se ritualmente. Tudo isto podem ser detalhes na obra, longe do cerne do seu tema, mas desconfortam na leitura do argumento, fazem desconfiar dos alicerces. Será livro de jornalista, não se lhe exigem cuidados de rigor (ou seja, não se esperam), mas o jargão ideológico deslustra.
Finalmente - e, repito, vou na página 71 - a tese da Grande Dívida do ocidente ex-colono transpira uma profunda desvalorização do contexto em causa. É obviamente demagógico, confusionista em português moçambicano, afirmar:
“Pode parecer muito dinheiro [11 biliões (jpt: milhares de milhões, mais exactamente) de dólares, a Ajuda Internacional concedida a Moçambique desde 1992, nas contas dos autores], mas os países doadores dispendem por dia com um cão tanto como dispendem com um Moçambicano numa semana. Os gastos com animais de estimação em 2006 foi de 36,6 biliões de US$ nos Estados Unidos e 7,5 biliões de US$ no Reino Unido. Isto dá cerca de 350 US$ por animal e por ano, mais ou menos 7 vezes a ajuda utilizável por moçambicano por ano.” (p. 37) Não me parece necessário discutir o sinuoso do raciocínio económico (e político) aqui presente. Mas transparece as armadilhas do aparente progressismo, de raiz missionária. Não é uma formulação destas a radical “petização” (de “pet”, não de “petiz”, nem de “petiz”) dos moçambicanos?
Mas não só, tamanha confusão entre Estado (agente doador) e “sociedade”/”famílias”/”indivíduos” (alimentadores de cães) implica uma outra coisa, letal para a argumentação: a incapacidade de destrinçar entre sociedade e Estado. Não é mera demagocia, não é mero deslize, não é mero “coitadismo”. É o eco da crença da unipolaridade estatal, da Razão. E da redução do social a esse Centro. E aqui sim, questão maior, questionando o raciocínio sobre o desenvolvimento de uma sociedade, projecto do livro.
Enfim, a continuar até ao fim. Pois se a infraestrutura ideológica é muito complicada tal não obriga a que os resultados não sejam interessantes.
Maio 5th, 2008 — Alexandre Lobato, Ilha de Moçambique, Livros Moçambique

[”Ilha de Moçambique com a representação da fortaleza de São Sebastião”, António Bocarro, Livro das Plantas de Todas as Fortalezas, Cidades e Povoações da Índia, Goa, 1635. Ilustrações de Pedro Barreto de Resende]
“Dehérain publicou há cinquenta anos, num livro cheio de interesse - Études sur l’Afrique -, quinze páginas sobre a malograda expedição holandesa enviada em 1662 à conquista de [Ilha de ] Moçambique. Compreeendia sete navios, com 1227 homens, o que dá suficiente ideia da grande importância que lhe deu em Amsterdão o Conselho [da Companhia das Índias]. No Brasil corriam mal para os Holandeses os feitos da guerra, mercê da tenacidade com que os colonos os combatiam, mas na Índia tudo lhes corria bem. Colombo e Calecut foram tomadas em 1656, Jafanapatão em 1658 e Negapatão em 1660. Cochim, fundação do Estado da Índia, seria por nós perdida em 1663. Os Holandeses tinham decidido expulsar os portugueses do Índico, e resolveram conquistar Moçambique, porto fundamental do comércio com a África e da dominação naquele oceano. (…)
A Companhia [das Índias] armou especialmente cinco navios, destacou mais dois da linha de Java e juntou-lhes um iate que deveria ficar depois no Cabo. Um dos navios chegou porém tarde ao Cabo e não alinhou à partida. O comando foi confiado a Huybert de Lairesse e tudo se preparou no maior segredo, a fim de nada chegar ao conhecimento da espionagem portuguesa. A Fortaleza de Moçambique deveria ser tomada de surpresa; não sendo possível, recorrer-se-ia ao assalto; o último meio a adoptar seria o cerco. (…)
A viagem da Holanda ao Cabo foi trabalhosa, com algumas baixas - perto de 90 mortos. Para recompor as guarnições, Lairesse demorou-se no Cabo até 26 de Setembro de 1662, época do ano já avançada para o resto da viagem, que de regra não deve exceder Agosto. Naquele dia deixaram o Cabo, a caminho de Moçambique, 5 navios de linha e 2 ligeiros, com 1227 homens, em que 646 eram soldados.
A notícia do malogro da expedição chegou ao Cabo em Janeiro de 1663, por um dos navios da frota. Esta tinha gasto mais de um mês para atingir o cabo das Correntes. Outro mês foi gasto para atingir a baía Verhagens, que Dehérain julga ser (…) a actual baía de Mafamede (Mofomeno) [entre o cabo de S. Sebastião e Sofala].
Não faltaram temporais e ventos contrários; os mantimentos começaram a escassear; apareceram as doenças. Lairesse resolveu retroceder para sul do cabo das Correntes para repousar as tripulações e andou para trás em 24 horas o caminho que para diante lhe consumira cinco semanas. Ancoraram num ponto da costa a que chamaram Baracatta, e não está identificado, e aí estiveram os navios mais de um mês, ameaçados de caírem sobre a costa. Tinham morrido 114 homens e 218 estavam doentes. Lairesse decidiu desistir.
Dehérain estranha, com justa razão, que Lairesse se tivesse metido tão aventurosamente ao Índico sem respeitar o regime das monções. E foram inegàvelmente os ventos que salvaram Moçambique. A praça dificilmente poderia resistir, e, tomada, seria quase impossível reavê-la, porque o tratado de paz luso-holandês de 6 de Agosto de 1661 entraria em vigor com o status quo da data da ratificação, e possessões portuguesas que tivessem sido conquistadas pela Holanda permaneceriam em seu poder. Por isso a Companhia tanto recomendara a Lairesse que andasse ligeiro.” (meu sublinhado, jpt)

[Alexandre Lobato, Quatro Estudos e Uma Evocação Para a História de Lourenço Marques, Lisboa, Junta de Investigações do Ultramar, 1961, pp. 25-28]

[Gravura reproduzida de Rafael Moreira (coord.), A Arquitectura Militar na Expansão Portuguesa, Lisboa, Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1994]
Maio 1st, 2008 — Ilha de Moçambique, Literatura Moçambique, Livros Moçambique, Mia Couto

Ilha de Moçambique
Não é a pedra.
O que me fascina
é o que a pedra diz.
A voz cristalizada,
o segredo da rocha rumo ao pó.
E escutar a multidão
de empedernidos seres
que a meu pé se vão afeiçoando.
A pedra grávida
a pedra solteira,
a que canta, na solidão,
o destino de ser ilha.
O poeta quer escrever
a voz na pedra.
Mas a vida de suas mãos migra
e levanta voo na palavra.
Uns dizem: na pedra nasceu uma figueira.
Eu digo: na figueira nasceu uma pedra.
(Mia Couto, idades, cidades, divindades, Maputo, Ndjira, 2008)
Abril 11th, 2008 — Amélia Souto, História Moçambique, Livros Moçambique
Abril 8th, 2008 — Inez Andrade Paes, Literatura Moçambique, Livros Moçambique

Inez Andrade Paes, O Mar Que Toca em Ti, edição de autor, 2006.
-A senhora voltou, disse.
Voltei para curar feridas antigas e levar outras.
Voltei para vos ver e convosco ajudar o meu estar …” (p.9)
Um pequeno livro, reportagem dos sentimentos de um breve Natal em Pemba, um regresso presume-se que algumas décadas decorridas - a autora pertence a conhecida família local. A casa velha que revisita, antigos amigos e seus andares de hoje. Mas o que se sente mais importante: o som da língua que lhe falta desde então, o arrastado tempo do areal. E, ainda mais, aquele mar. Enquanto isso ainda abertura, partilhando-se com as pessoas, ouvindo alguns sonhos avulsos - que outros já nem atentamos. E impressões até impressionadas com o agora. Mas impressões sem tese, nisso saudável forma de acompanhar o hoje do que lhe foi casa.
A mim, que tão breve lá fui e ainda assim me adoptei, lembrou-me a minha última vez em Pemba. Ainda a arrumar as malas no hotel e a Inês: “és diferente aqui!”, “diferente? como?”, “ficas como dantes“. Não sei porquê!
Janeiro 26th, 2008 — Cheias, Ciências Sociais Moçambique, Livros Moçambique, Viagens Moçambique

Estão as águas subidas ainda que nestes dias descendo. Mas nelas sempre habita a promessa de mais o serem. Eu estou de regresso ao Zambeze, agora para outras águas, digo-me. (há noites em que à noite temo o abutrismo…)

Janeiro 25th, 2008 — Amélia Souto, Livros Moçambique

Chega-me agora às mãos este “Caetano e o Ocaso do “Império”. Administração e Guerra Colonial em Moçambique Durante o Marcelismo (1968-1974)“, livro que retrata a tese de doutoramento na Universidade Nova de Lisboa de Amélia Souto, editado pela Afrontamento.
Um trabalho de História Política e Institucional que assim se inicia:
“Parto da hipótese de Marcello Caetano não ser apenas o herdeiro da política colonial salazarista mas seu cúmplice, no sentido em que a ajuda a construir, a ela adere e com ela colabora. (…) traz consigo a ânsia do poder há muito esperado e uma forma de pensar as colónias e o colonizador que pouco se diferencia do seu antecessor (apesar de algumas nuances na terminologia com que a apresenta). E, embora reconhecendo a necessidade de mudanças e a guerra como um dos principais problemas enfrentados pelo Estado Novo, as suas convicções, os seus pressupostos ideológicos e as suas alianças com as diferentes facções do poder tornaram-no prisioneiro voluntário da ortodoxia e fizeram-no aceitar conscientemente o compromisso com a política colonial e com a manutenção da guerra.” (9)
Depois são 420 páginas - que, no meu caso, terão que ficar adiadas. A reduzir esse adiamento decerto o interesse que logo me despertam os dois capítulos finais, dedicados à “Oposição Democrática em Moçambique” (os oposicionistas portugueses residentes - dos quais o mais célebre e de futura influência é António Almeida Santos) e ao “Poder Espiritual - a Igreja Católica”.
Presumo que o lançamento do livro ocorrerá no final de Fevereiro.
Novembro 25th, 2007 — Linguística, Livros Moçambique

E a propósito da entrada anterior vasculhei as prateleiras em busca de outros dicionários que transitem entre as línguas nacionais e o português. E só encontrei este Dicionário Macua-Português, da autoria de A. Pires Prata (Lisboa, Instituto de Investigação Científica Tropical, 1990), ainda que tivesse ideia de possuir mais obras aparentadas.
Será que entre os leitores haverá conhecimento da existência de outros dicionários? E, sendo esse o caso, dar-se-ão ao trabalho de aqui deixar as indicações bibliográficas para que os possa eu adquirir?
Novembro 23rd, 2007 — Linguística, Livros Moçambique
Foi ontem apresentado o “Dicionário de Português-Gitonga / Gitonga-Português e Compêndio Gramatical“, obra da autoria de Amaral Bernardo Amaral, Sara Jona Laisse e Eugénio Nhacota. Ambicioso trabalho que se apresenta como desejando ser o “embrião dum futuro dicionário bilingue” de português e desta língua “falada pelo povo Tonga (Vatonga), que habita os territórios correspondentes aos distritos de Inhambane, Maxixe, Jangamo, Morrumbene, e com ramificações nos distritos de Massinga, Homoíne e Inharrime“. Bela oferta esta, uma edição da Câmara Municipal de Oeiras, realizada ao abrigo do Acordo de Geminação/Gemelagem entre Inhambane e Oeiras - prova que estes acordos sempre podem funcionar.
Novembro 15th, 2007 — Livros Moçambique
Um caso, que não será de fazer cair o prédio Pott, mas que é desagradável. A Imprensa Universitária que vem trabalhando pior do que o que seria desejável (e o menor dos defeitos não será o de não distribuir os livros que edita) deu em auto-plagiar-se. Podemos encolher os ombros e dizer que não é muito grave que o departamento gráfico de uma editora reutilize ideias gráficas que lhe são dadas por um autor publicado? Talvez. Reduzimos tudo a descuido e pronto.Mas sendo uma imprensa universitária, aqui mesmo ao lado, com que cara é que amanhã nós professores vamos dizer aos alunos para não mergulharem na internet em busca de trabalhos para plagiar? Não, não é descuido. É atitude. Condenável, em particular por ser cá em casa.
Novembro 10th, 2007 — António Sopa, Livros Moçambique, Maputografia
Para além do feriado (ainda que sábado) uma boa forma de hoje comemorar os 120 anos da cidade será olhar este interessantíssimo estudo
[António Sopa, Bartolomeu Rungo, Maputo-Roteiro Histórico Iconográfico da Cidade, Centro de Estudos Brasileiros, 2006, 56 pps.]
O livro foi realizado em 2005, para a produção das exposições “Xilunguine, as origens da cidade” e “Percurso histórico da cidade de Maputo”. Vasta iconografia, percorrendo as origens da povoação, passando pelo seu traçar colonial, até, e aqui muito se saúda, ao desenvolvimento do além-cimento. A cidade mesmo, sem os espartilhos conceptuais, conservadores - e quantas vezes saudosistas - de outras abordagens iconográficas.
(c. 1880)
(1960-1970)
(1996)
Novembro 7th, 2007 — Ciências Sociais Moçambique, Livros Moçambique
António da Costa Gaspar, Diagnóstico de Focos e Origem de Conflitos Sociais nas Comunidades Urbanas e Periféricas, Maputo, Organização para a Resolução de Conflitos (www.orecmoz.org.mz), 2003
Um estudo patrocinado pela Organização para a Resolução de Conflitos, “associação moçambicana vocacionada a prestação de assistência e advocacia na gestão pacífica e resolução colaborativa de conflitos.” (iv), actuante desde 2000, promovendo os direitos dos cidadãos e reduzindo “a violência conflitual através da criação de um ambiente harmonioso” (iv). Este trabalho procura identificar focos, causas e tipos de conflitos ao longo do país, sob uma abordagem, explicitamente assistencialista, e vem financiada pela ICCO (Organização Interclesiástica para Cooperação ao Desenvolvimento), a EED (Serviço das Igrejas Evangélicas da Alemanha para o Desenvolvimento) e a DIAKONIA (organização não-governamental das Igrejas Livres da Suécia).
É um livro exemplar e daí o seu especial interesse: o ecoando os resultados de uma pesquisa de terreno transpira o caldo ideológico que a organizou: a anti-globalização (anticapitalista?) com o extremo conservadorismo do olhar sobre a realidade. Um conservadorismo moralista, entenda-se, que molda problemática, objectos e assumpções assumidas. Se olharmos o enquadramento evangélico patrocinador não surpreenderá, mas não é com olhar de denúncia que a ele me refiro. É que raramente em livro se encontram firmadas estas balizas da normatividade desenvolvimentista, de modo tão cristalino.
Na pesquisa transposta a livro concluiu-se que “Os principais focos de violência localizam-se, essencialmente, em locais de exercício da economia informal que servem de base de sobrevivência da maioria das famílias a viver nos centros urbanos e seus arredores (…) Estes factores, estão de alguma maneira, associados aos efeitos da liberalização económica e das politicas macro-económicas vigentes no pais. Os efeitos nefastos da globalização, igualmente, têm estado a influenciar a atitude e comportamento dos cidadãos residentes, tanto nas zonas urbanas, como das perurbanas.” (viii). Está explícito, os focos de conflito alojam-se na economia “informal” donde dela brotam - do que é ela, enfim, não se discute. Sabe-se que é fruto da liberalização/globalização e daqui concluo ser a conflitualidade social fruto da desestatização da sociedade - correlação indiscutida: economia “informal”=conflitos.
Entre as principais origens dos conflitos (p. 40) estão os factores económico-financeiros (p. 42) no seio dos quais avulta o adultério, que “semeia a instabilidade no seio das famílias e nas relações inter-familiares. … Por exemplo, em Boane, a pratica de adultério é mais comum entre os homens adultos e mulheres cujos maridos se encontram a trabalhar na Africa do Sul. A prolongada ausência destes homens e justificada como estando na origem destas praticas agravadas, em algumas situações, pela insustentável e crescente carestia da vida. (…) Como se pode depreender, a pratica de adultério por parte de certas mulheres deve-se, em parte, a procura de alternativas de sobrevivência face ao elevado índice do custo de vida. (…) Este cenário descreve uma das origens da prostituição infantil, o que acaba se tornando numa base de sustento de algumas famílias vulneráveis.” (46-47). Comentar? O adultério é cometido por mulheres. O adultério é fonte de conflitos por causa das práticas das mulheres. O adultério (numa população onde os homens são [e]migrantes) é causado pela pobreza das mulheres, já ela provocada pela liberalização e globalização. Para quem conhece a concepção popular de “adultério” a sul do Zambeze (sociedades patrilineares, tendencial mas diferentemente patriarcais) como sendo equivalente a “prostituição” (”putaria” nos portugueses locais) fica-se com a sensação de que a análise fica presa às concepções morais populares, assumindo a sua moralidade.
Outros factores de eclosão de violência são os sócio-culturais (p. 50). Entre eles estaria a poliandria “um fenómeno que consiste numa mulher possuir mais do que um marido. Felizmente não e ainda uma prática aberta e publicamente exercida no seio da sociedade moçambicana. (…) No entanto isso não impede que algumas mulheres “forcadas pela carestia de vida” se envolvam na pratica do adultério numa base permanente ou temporária com vários homens, o que e, por sua vez, uma prática condenável”. (51-52) [meu negrito].
A resolução da conflitualidade doméstica, a análise dos mecanismos do pluralismo jurídico e seus valores condutores é fundamental. O assistencialismo enquanto patrocinador e financiador das análises sociológicas não é, por si só, condenável. Mas o laço evangélico, consciente ou inconsciente, não implicará a mera reprodução de santos valores e boas intenções?
Novembro 6th, 2007 — Fotografia Moçambique, Livros Moçambique, Ricardo Rangel



Boa notícia é regressar a Maputo e encontrar o precioso “Pão Nosso de Cada Noite” de Ricardo Rangel (edição Marimbique) nas livrarias, e distribuído com quantidade.
Novembro 4th, 2007 — Literatura Moçambique, Livros Moçambique, Nelson Saute