Archive for the ‘Livros Moçambique’ Category

Etiópia Oriental

Segunda-feira, Agosto 16th, 2010

Recebo em casa o Jornal de Letras, edição de 28 de Julho. Contém um interessante dossiê sobre literatura de viagens (não está disponível no sítio), questões a 16 escritores sobre quais os seus livros de viagens preferidos. Cada um apontou cinco e a redacção do jornal compôs uma selecção de 15 livros dedicados a cada um dos continentes, um pouco enviesada para a literatura portuguesa actual, mas isso não lhe tira mérito. É interessante, procurar o que foi apontado, descobrir alguns, lembrar outros. Nessa minha busca noto que infelizmente ninguém lembrou este majestoso livro de Frei João dos Santos, “Etiópia Oriental e Vária História de Cousas Notáveis do Oriente“, dedicado na sua maioria à zona do Zambeze no final do século XVI. O autor, missionário de então, era um espantoso observador, o livro um prodígio de olhar e de narrativa, incontornável na história do pensamento português. E é um manancial para a leitura da história social deste país. Tudo isso não obsta a que esteja relativamente esquecido e seja de difícil acesso.

A edição que possuo é da Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, publicada em 1999. Tem introdução de Manuel Lobato, e notas dele próprio e de Eduardo Medeiros. Uma preciosidade. A ver se aparece recomendada no próximo período de férias no hemisfério norte. E (re)editada num dos do sul.

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Cidades Africanas

Sexta-feira, Julho 30th, 2010

Num recanto de uma livraria lisboeta (no King) descubro alguns exemplares desta revista, a qual desconhecia.O nº 5 da “Ur. Cadernos da Faculdade de Arquitectura da Universidade Técnica de Lisboa“, dedicado a “Cidades Africanas“. Publicada em Maio de 2005 (12 euros). Um maná para nós, interessados – profissional ou afectivamente: tem mais de 20 artigos sobre a matéria. Artigos de Cristina Delgado Henriques, Pancho Miranda Guedes, José Forjaz (e ainda uma sua entrevista concedida a Isabel Raposo), e tantos outros nomes com obras reconhecidas sobre a matéria, José Manuel Fernandes, Maria Clara Mendes, Ilídio do Amaral, Isabel Raposo, etc. Apesar da já antiguidade da revista (5 anos), valerá com toda a certeza um mergulho atento.

Depois o resmungo. Este tipo de revista não esgota, aliás as académicas custam a fazer circular. Esta, como tantas outras, foi publicada com o apoio de instituições estatais. Entre elas o IPAD (instituto português de apoio ao desenvolvimento, a chamada “cooperação”). Com toda a certeza este apoio implica a recepção de exemplares (é a prática usual). Mas estes não são distribuídos, perdendo-se assim a possibilidade de divulgar os trabalhos dos especialistas, por esse modo criando possibilidades de diálogo e, até, de trabalho comum. Nem distribuição de exemplares – há alguma lógica de apoiar isto e não o anunciar/distribuir nas faculdades de ciências sociais com as quais se tem “cooperação”? -nem tampouco a divulgação da publicação (via internet, via delegações nos países com os quais o instituto trabalha). Nada, dá-se o apoio financeiro e pronto, está concluída a função. Passam-se os anos e não muda a atitude. É, entenda-se, falta de gosto no que se faz. Nada mais.

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25 de Junho: dia da independência de Moçambique

Quinta-feira, Junho 24th, 2010

35 anos de independência de Moçambique cumprem-se agora. Há exactamente seis anos aqui coloquei esta entrada, evocando a data. São hoje tão diferentes os leitores do ma-schamba que acho justificável a repetição:

1. Dia de constituição da Frelimo (1962).

FRELIMO/KATIKA KUPIGANA NA/UKOLONI NA UBEBERU/25 SETEMBRO, offset 2 cores, Frelimo, Dar-es-Salaam 19 (AHM 80), retirado de B. Salstrom, A. Sopa (1988), Catálogo dos Cartazes de Moçambique, Arquivo Histórico de Moçambique

2. Independência antecedida da viagem de Samora Machel “De Norte a Sul de Moçambique” – a célebre viagem “do Rovuma ao Maputo

retirado de A. SOPA (coord.) (2001), Samora. Homem do Povo, Maputo, Maguezo Editores

3. Declaração da Independência de Moçambique (1975)

25 de JUNHO DE 1975 / INDEPENDÊNCIA DE MOÇAMBIQUE, offset 2 cores, José Freire, DNPP, Maputo 1975 (AHM 96), retirado de B. Salstrom, A. Sopa (1988), Catálogo dos Cartazes de Moçambique, Arquivo Histórico de Moçambique

Discurso de proclamação da independência de Moçambique no estádio da Machava  (colecção Telecine), retirado de A. Sopa (coord.) (2001), Samora. Homem do Povo, Maputo, Maguezo Editores

A mudança de bandeiras:  ”Independência de Moçambique” de Dino Jehá, retirado de F. Ribeiro (coord.) (2003), Exposição Moçambique: Vida e História em Psikhelekedana.

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Matias Ntundo

Quarta-feira, Junho 9th, 2010

Inaugurou ontem na Fortaleza de Maputo uma exposição de gravuras de Matias Ntundo. Impressionantes como sempre, e a exigirem uma revisita sem a azáfama destas ocasiões. Mas aviso para se aprestarem na deslocação, de molde a ainda poderem comprar as célebres xilogravuras do artista – e a preços mais do que acessíveis. Para além disso poderão adquirir este excelente Matias Ntundo. Gravuras 1982-2010, preciosíssimo catálogo organizado por Gianfranco Gandolfo, também autor do texto introdutório, uma edição da Kapicua. (Saem parabéns nada protocolares para o Gianfranco e para o editor, José Capão, que livros com este alcance e qualidade ainda não são habituais na produção nacional).

Para exemplo dos interessados esta foi uma das obras que trouxe para casa, um já célebre ícone.

["Depois do massacre de Mueda, o padre português dá o baptismo às pessoas em perigo de morte", 1985]

Recordo ainda que muito recentemente a mesma editora publicou o Fábulas de Cabo Delgado, recolha de Gianfranco Gandolfo, reescrita de António Cabrita, com gravuras do artista. E aqui estão dois livros que são obrigatórias aquisições, sem dúvidas ou hesitações.*

*No ma-schamba (quase) sempre se compram os livros que se recomendam.

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Concurso Fotográfico sobre Pancho Guedes

Segunda-feira, Junho 7th, 2010

No sítio Pancho Guedes. A Aventura da Arquitectura, o Desafio ao Formalismo está o Regulamento do Concurso de Fotografia dedicado à obra do arquitecto bem como a Lista (e morada) de 112 das suas obras em Maputo, assim à mão de fotografar. As fotografias podem ser entregues até ao próximo dia 11 de Junho no Consulado de Portugal (Av. Mao-Tse-Tung) ou na Associação Moçambicana de Fotografia (Av. Julius Nyerere), e no próprio sítio há mais informações sobre a matéria.

Eu gostava de ter tirado esta fotografia

Adenda: A este propósito Duarte d’Oliveira lembra duas notas suas sobre Pancho Guedes como fotógrafo.

“Bebé Mamã” é o título de um pequeno livro (de 43 páginas, que reencontrei ao arrumar uma das estantes do meu escritório) editado pelo Serviço Extra-Escolar da Província de Moçambique “Para a Melhoria Educativa e Social das Populações Moçambicanas”. Não tem data de edição mas trata-se de um “Trabalho executado nas oficinas gráficas da Empresa Moderna, Lda.”, sediada em Lourenço Marques. O texto é de Deolinda Martins e as fotografias e arranjo gráfico são de A. d’Alpoim Guedes. [...] [Sobre Deolinda Martins]. Para além de informações complementares que se encontram nesse texto juntou-lhe ainda uma outra nota: Pancho Guedes – fotógrafo pela saúde da mãe moçambicana.

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A LISTA DOS HERÓIS

Segunda-feira, Maio 24th, 2010

por ABM (24 de Maio de 2010)

Num sítio relativamente obscuro na internet chamado Rostos On-line, pode-se ler o seguinte:

Novo livro de Dalila Cabrita Mateus e Álvaro Mateus é lançado amanhã pela Texto Editora
Nacionalistas de Moçambique recorda a vida de dez pessoas, nove homens e uma mulher, que marcaram a história de Moçambique

Realiza-se amanhã, dia 25 de Maio, pelas 18h30, na FNAC Colombo, em Lisboa, a sessão de lançamento do livro Nacionalistas de Moçambique, de Dalila Cabrita Mateus e Álvaro Mateus.

A obra aborda a vida política de dez pessoas que deixaram a sua marca na história de Moçambique. Uns desconhecidos ou quase desconhecidos. Outros conhecidos na sua vida literária ou artística, mas menos conhecidos como nacionalistas. E ainda outros, a justificar que se volte a sublinhar o seu contributo para a luta de libertação nacional.

Hoje, 45 anos decorridos sobre o início da luta armada, conquistada a independência e ultrapassada a guerra civil assim como outros obstáculos ao desenvolvimento, o povo moçambicano vive em paz, consolida a democracia e afirma a sua identidade na arena internacional. Dalila Cabrita Mateus e Álvaro Mateus consideraram ser esta uma boa altura para eternizar, num livro, a vida de dez nacionalistas, uma mulher e nove homens, que lutaram para que o seu povo pudesse viver em paz, com liberdade e prosperidade.

Dalila Cabrita Mateus, nascida em Viana do Castelo, é licenciada em História, mestra em História Social Contemporânea e doutora em História Moderna e Contemporânea. Investigadora do Centro de Estudos de História Contemporânea Portuguesa (ISCTE), é também consultora do Projecto «ALUKA»(EUA). Tem participado em conferências e colóquios, nacionais e internacionais, sobre a problemática das lutas de libertação nacional. É autora ou co-autora de vários livros ligados à temática da Guerra Colonial.

Álvaro Mateus nasceu em Moçambique. Estudante universitário em Lisboa, foi dirigente da Casa dos Estudantes do Império. Nos primeiros anos de guerra colonial, promoveu e coordenou um jornal clandestino contra o colonialismo e a guerra. Ao longo da vida foi quadro político, jornalista, locutor, publicista e tradutor, advogado e professor.

Hum…. quem serão essas dez personalidades…..deixa cá ver…nove homens e uma mulher….Mondlane, Samora e mais oito….hum….vou esperar para ver.

Mas este não é um daqueles livros que se lançavam bem primeiro em Maputo e depois Lisboa? Mas a editora lá sabe. O Shopping Center do Colombo em Lisboa à partida não é o templo sagrado ideal para o lançamento de uma obra com este peso tão peculiar. Mas tem a vantagem de ser acessível e ter estacionamento por perto.

Entretanto, aceitam-se apostas sobre os outros oito.

Sugestões: pessoas como António Ennes e Mousinho de Albuquerque não dá. Mais simpáticos: a Noémia e o Chissano. Mais polémicos: o Uria e o Dlakhama. Mais politicamente correctos: o Sr G, Marcelino, e alguns dos actuais generais. Nas mulheres, a Graça e a Josina.


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O Dicionário de Saul Dias Rafael

Sábado, Abril 24th, 2010

Uma verdadeira preciosidade, este livro que ontem finalmente adquiri. Trata-se do “Dicionário Toponímico, Histórico, Geográfico e Etnográfico de Moçambique” (Arquivo Histórico de Moçambique, 2002) da autoria de Saul Dias Rafael (dito Matanato), um antigo funcionário da administração estatal portuguesa – a alcunha aposta ao nome é um epíteto valorizador pelo qual o autor foi conhecido ao longo da sua carreira, mas não recordo agora seu exacto sentido nem a língua que o contém. Saul Dias Rafael residiu 44 anos em Moçambique, tendo-o conhecido profundamente. É o fruto desse conhecimento empírico e de uma vasta pesquisa documental e bibliográfica que se colecta neste livro, cofre de um manancial de informações absolutamente únicas. Com toda a franqueza é um livro obrigatório para quem pesquise sobre país, ícone para quem goste do país.

Adenda: 1100 meticais p.v.p. mas a 700 meticais na actual Feira do Livro, no balcão da UEM. Eu aconselho uma visita.


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Feira do Livro em Maputo

Sábado, Abril 24th, 2010

No Jardim dos Professores, à Josina Machel, de ontem até amanhã, há feira do livro. Vale a pena visitar, e saudar, pois tem ar de quem se poderá institucionalizar, tornar periódica – até pelo local, popular e central [ali estamos no "museu"], que está cuidado e infraestruturado (sanitários, cafés, acessos fáceis, limpo), sendo espaçoso o suficiente para acolher uma Feira do Livro do Maputo. Virá a ser?

Nesta realização um bom conjunto para a cidade. Há muita animação cultural, música (ontem ouvi Stewart), lançamento de livros (ontem vi Aurélio Rocha apresentar o “Ilha de Moçambique”, que acaba de concluir com Augusto Nascimento e Eugénia Rodrigues), mesas-redondas, sessões de autógrafos (hoje ao fim da tarde estarão lá os pesos-pesados da prosa moçambicana), saraus de poesia e teatro (entre outras a Lucrécio Paco estará hoje), imensa coisa. As actividades de palco poderiam ser um pouco melhor coordenadas, acima de tudo alguém poderá marcar o compasso, e explicar ao apresentador que mostrar livros, abrir-lhes caminho, tem um “tempo” diferente do que o da música, dizer-lhe para não ter medo dos vagares, do falar baixo. São livros, não é o Fama Show, vamos com calma. Mas isso são pormenores, o programa está francamente muito apetecível.

Algumas das livrarias estão representadas, uma distribuidora pelo menos, várias das editoras (cujo número tem vindo a crescer um pouco), organismos públicos e instituições. Dá para comprar alguns livros com descontos, que variam, mas ainda há expositores cacatas (forretas), que julgam que ir para uma feira dar 10% de desconto é uma estratégia aceitável – é uma parvoíce, é uma estratégia de mercearia de vão de escada, apenas apouca as empresas em causa. Mas outros entram no espírito (estratégia) de feira. Acima de tudo permite encontrar e até conhecer livros desaparecidos, e falo de edições nacionais, as quais continuam a sofrer o problema da inércia da distribuição e, acima de tudo, da reposição. Nestas reposição estou todo contente, havia perdido o “Sebastião Langa. Retratos de Uma Vida” (Arquivo Histórico de Moçambique, 2001), um livro fundamental e tão belo.

Há também as “mesas” estrangeiras, de algumas instituições de acção cultural externa que existem na cidade. O Alemanha-Moçambique, com mostra de livros – mas aqui há a dificuldade da língua. Uma representação italiana – mas é o mesmo, ou quase, que me é custosa a leitura. O Camões com uma pequena mostra de ficções sobre o 25 de Abril existente na sua biblioteca. Os franceses, que são uma delícia sob vários pontos de vista, vendem o fundo da biblioteca (que está a ser renovada) a 50 e 100 meticais cada livro. Não abunda em “panache” mas também a França já não é o que foi em tempos. Por isso mesmo trouxe um Cocteau, um Cohen (Albert) e um Constant – hoje voltarei para ver de outras letras do alfabeto.

Depois há, e nos últimos anos é sempre um caso à parte, a representação espanhola – continuam, no que respeita à cultura a saber marcar presença, e nisso a diferença. Agora apresentam uma banca não muito vasta mas super-interessante, acima de tudo super-interessada: nota-se que foi preparada, planificada, que entrou nos cuidados de programação, que alguém se preocupou com a Feira do Livro de Maputo, que têm gente a trabalhar na acção cultural externa, que têm objectivos e alguns meios, por modestos que sejam. Isso o mostra a vinda de escritores para apresentarem livros: uma poetisa nicaraguense, um ficcionista guineense, um desenhador aqui anteriormente residente (também os italianos trazem um ilustrador) - com toda a certeza que são estas actividades que podem apoiar, induzir, irmanar, a ideia de uma feira do livro anual local. Para mais os espanhóis surgem apresentando livros, edições patrocinadas (e por isso as vendem a meros 100 meticais cada). Mas todos os Estados patrocinam e só os espanhóis aparecem mostrando o que têm, possibilitando o que têm, neste caso trabalhos apetecíveis, de qualidade e interesse - com toda a certeza que a sua produção cabe num projecto político hispânico. Mas tem qualidade. E, se existe, mostra-se. Por isso mesmo aqui está. Fiquei com três antologias poéticas do século XX, a hispanidade poética de Chile, Peru, México - e por lá ficaram as antologias relativas à Venezuela, ao Equador e mais países, que tem que haver limites nem que sejam os físicos, das estantes.

Não há dúvida, os espanhóis têm vindo a trabalhar bem na promoção das suas actividades culturais, do seu país. Que venha o Cervantes para Maputo. E depressa, para trazer algo do mundo com ele.

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Lançamento de peso

Quarta-feira, Março 17th, 2010

(por AL em antecipação livresca) -

É amanhã  que se “estreia” em Lisboa o livro mais recente de João Paulo Borges Coelho – O Olho de Hertzog. O lançamento é na Sociedade de Geografia (Rua das Portas de Santo Antão), às 18:00 horas.


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Manuel Alegre em Maputo

Sexta-feira, Março 5th, 2010

O discurso de Manuel Alegre na entrega do prémio Leya ao escritor João Paulo Borges Coelho, a propósito do livro “O Olho de Hertzog“. Sim, o culturalismo – mas aceitável, pois discursos protocolares não são os locais para problematizações. E, pelo menos, sem hífens. [Texto retirado da sua página pessoal]

 

Manuel Alegre na entrega do Prémio Leya em Maputo:
“A língua e a cultura é que fazem a alma de uma nação”
04-03-2010


O Presidente Samora Machel, pouco antes da sua visita a Portugal, disse a um jornalista português: “Camões não é só vosso, Camões também é nosso”. Esta frase, que profundamente sensibilizou o povo português, não foi só uma homenagem ao poeta que na Ilha de Moçambique acabou de escrever o poema que é, de certo modo, um acto de fundação poética de Portugal. O que o Presidente Samora Machel pretendeu significar foi que a língua portuguesa tinha deixado de ser língua de ocupação para passar a ser uma língua de liberdade, de independência e de partilha. Ou como diria Miguel Torga: “um traço de união”.

Estranha contradição e, ao mesmo tempo, soberbo privilégio de uma língua que tendo sido a do sistema colonial, foi também a língua em que os povos começaram a pensar e procurar poética e politicamente as suas raízes e a sua identidade. Nos poemas, nas revistas, nos textos fundadores, mais tarde na luta de libertação e finalmente na proclamação da independência.

Língua de luta e poesia. Angola independente já estava nos poemas e nos textos em que Agostinho Neto, Viriato da Cruz e Mário de Andrade afirmaram a sua angolanidade e proclamaram: “Vamos redescobrir Angola, vamos a ser nós mesmos”. E o mesmo aconteceu em Moçambique com os poemas de Craveirinha, Marcelino dos Santos, Jorge Rebelo e as palavras inspiradas e proféticas de Samora Machel. E também em S. Tomé e Príncipe, com os poemas de Alda Espírito Santo. E na Guiné e Cabo Verde com a escrita e a palavra de Amílcar Cabral. E depois em Timor com os poemas e as armas de Xanana Gusmão. As armas e a poesia andaram juntas. Na mesma língua.

Já no século XIX Almeida Garrett tinha escrito um ode que saudava a independência do Brasil, sublinhando que ela acrescentava a “lusa liberdade”. E Portugal existiu sempre naquela “lusitana antiga liberdade” de que falava Camões e que os seus poetas sempre cantaram mesmo quando o povo português era também um povo oprimido.

Língua de múltiplas resistências. Língua de ocupação colonial mas também de libertação nacional. Língua de ditadura sobre o povo português mas também de liberdade resgatada a 25 de Abril de 1974.

Língua de fraternidade entre os combatentes de um e outro lado. E entre resistentes que se encontraram nas mesmas prisões e nos mesmos exílios. Língua dos nossos encontros, desencontros e reencontros. E hoje, sobretudo, língua de amizade, de construção e de futuro.

Esta é a língua que o Prémio Leya pretende divulgar e celebrar.

Como Presidente do Júri, e também como escritor português, é para mim uma honra e um motivo de alegria estar aqui a participar nesta celebração simbólica com o Presidente Armando Guebuza, também ele um confrade da escrita e com o Primeiro Ministro José Sócrates, com quem às vezes converso sobre o papel da língua portuguesa e a necessidade de a trazermos para a linha da frente da acção política na cena internacional.

Porque esta é uma arma que nós temos: a língua como instrumento de cultura, de partilha e desenvolvimento. E como factor de unidade e afirmação internacional da Comunidade dos Povos de Língua Portuguesa. Temos uma das línguas mais faladas do mundo. É uma grande riqueza para quem não é rico. E se as relações económicas têm cada vez mais um papel essencial, não esquecemos que a língua e a cultura é que fazem a alma de uma nação.

O Prémio Leya de 2009 foi atribuído ao escritor moçambicano João Paulo Borges Coelho pelo seu romance “O Olho de Hertzog”, um livro surpreendente que vem enriquecer a literatura de língua portuguesa. Pela originalidade da narrativa, que nos restitui, com grande mestria, esta velha cidade e um contexto histórico em que se conjugam os combates das tropas alemãs contra as tropas portuguesas e inglesas na Primeira Guerra Mundial, o confronto entre africânderes e ingleses, a emigração moçambicana para a África do Sul, as primeiras greves dos trabalhadores africanos, a riquíssima personagem do jornalista João Albasini, pioneiro do nacionalismo moçambicano, e a busca do Olho de Hertzog, que é uma metáfora da demanda do destino individual e colectivo.

Em nome do júri, quero felicitar João Paulo Borges Coelho e agradecer-lhe a qualidade da sua escrita e a beleza de um romance que nos inquieta, nos reconforta e nos faz acompanhá-lo na procura do mistério do ser que é, ao fim e ao cabo, o próprio mistério de “O Olho de Hertzog”.


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Pancho Miranda Guedes

Quinta-feira, Março 4th, 2010

É interessante saber o arquitecto Pancho Miranda Guedes de visita ao Maputo de hoje, cidade em profunda transformação, tanto pela explosão imobiliária no Maputo-cimento dos últimos dois anos como pelo crescimento exponencial do Maputo-caniço, ocorrido nas últimas décadas, esse que menos chama a atenção dos mídia tradicionais e dos neo-meios informáticos. Para muitos o arquitecto será já um desconhecido e talvez por isso será conveniente lembrá-lo e lê-lo:

 [Pancho Guedes. Vitruvius Mozambicanus, Museu Colecção Berardo, 2009]

Ulli Beier: Quantos edifícios construíu em Lourenço Marques? Pancho Guedes: Não sei, ainda estou a organizar o meu arquivo. Parece que há trezentos ou quatrocentos edifícios em Moçambique. (…) mas ao todo desenhei mais de seiscentos, talvez setecentos edifícios.” (23-24) Olhá-lo não deverá ser num sentido museológico, conservacionista que seja, e ele próprio sabe-o: “A maior parte das minhas obras está agora morta ou ferida, vítima de acidentes e revoluções.” (31). Pelo contrário olhar a sua obra é, para arquitectos porventura mas com toda a certeza para cidadãos, uma aprendizagem das exigências, do que é a exigência de quem vive, agora que, e não só em Maputo, ”Em toda a parte as cidades estão a perder as suas personalidades e começam a parecer-se umas com as outras, quase como os aeroportos. Não é através de regras, dogmas, ditames, piruetas ou assassinatos que a cidade será devolvida aos seus cidadãos. Só através do poder da imaginação a cidade se tornará maravilhosa.” (75) Uma imaginação que terá que ser um questionamento: o do grão-edifício padronizado – cuja inevitabilidade/obrigatoriedade a sociedade urbana moçambicana parece aceitar sem angústia e, até, com orgulho, altaneira e com indiferença diante de “edifícios propositadamente estranhos, que têm a qualidade das aparições. Há algo de extraordinários neles, são desiquilibrados …” (20); o da planeamento “racionalista” – “Quando voltei a Lourenço Marques em 1950 (…) a câmara tinha imposto um plano à cidade propriamente dita, através do qual, à autoritária maneira pombalina tentava determinar a título definitivo o que poderia vir a ser construído em cada local. Felizmente, Fernando Mesquita, um conselheiro municipal iluminado, desenvolveu algumas alternativas dissidentes das quais beneficiei…” (75); e o da arrogância sociológica – “… os urbanistas seguintes … foram, na sua maioria, indiferentes ao que se passava no caniço.” (75).

Ler (e ver) Miranda Guedes é aprender também a como a tal “cidade maravilhosa” imaginada na prática se faz não na manutenção de uma qualquer “identidade” pré-determinada, em purismos sempre legitimados pelo sufixo “idade”. Sabê-la como produzida, imaginada na mistura, arrojada mas nunca auto-complacente, de referências. A tal imaginação, o tal arrojo, não como um acantonamento, sim como uma viagem: “Ulli Beier: E quando começou a fazer o tipo de edifícios a que chama Stiloguedes? Pancho Guedes: Logo no início. (…) Ulli Beier: Quando desenha edifícios que têm esses elementos estranhos, como chega até eles? (…) A imagem surge primeiro, então? Pancho Guedes: A imagem – não sei de onde vem. Neste caso em particular, chamei-lhes dedos, picos. Será uma reinterpretação de um edifício que sempre teve importância para mim? É uma casa em Lisboa, a Casa dos Bicos, que picos piramidais em toda a fachada e arcos góticos. Quase toda a superfície da parede tem estas pirâmidade salientes, em ângulos rectos. Lembro-me desta casa de quando era pequeno, e vou vê-la sempre que volto a Portugal.” (20-21-22). Enfim, conjugar para além do óbvio. Do grande. E do “cimento”. E é nisso que radica a “ident – idade”.

Deixo as imagens. Para um “quem diria?!” que venha a ser “dizer que”.

["A Ribeira Velha antes de 1755", a Casa dos Bicos é o segundo edifício desde a esquerda, com a forma aproximada da actual]

["Fachada da rua dos Bacalhoeiros, primeira metade do séc. XX"]

Nota: imagens da Casa dos Bicos reproduzidas do livro Maria da Conceição Amaral e Tiago Miranda (coords.) De Olisipo a Lisboa. A Casa dos Bicos (Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 2002)

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Culinária Moçambicana

Domingo, Fevereiro 21st, 2010

[Maria Fernanda Sampaio, Sabores do Índico. Receitas da Cozinha Moçambicana, Assírio & Alvim, 2007]

Um belo e competente livro de culinária moçambicana, receitas recolhidas por Maria Fernanda Sampaio, praticadas por sua mãe, e nesta obra seleccionadas e apresentadas por seu filho Fernando Luís Sampaio. E alindado por fotografias, alusivas e/ou descritivas de Tiago Cunha Ferreira. O organizador avisa na “introdução”: “…estas receitas não representam um levantamento exaustivo dos modos e variações que algumas delas terão no território de Moçambique. Nem, se calhar, cobrem toda a realidade culinária do território.” (20). Claro que não, mas isso não impede que seja um livro de fazer crescer àgua-na-boca a qualquer simples amador, com esta oferenda de receitas de 5 sopas, 18 de peixes e crustáceos, 13 de carnes, 11 de legumes e 18 de doces.

É, como F.L. Sampaio bem refere, uma recolha da culinária miscigenada. Nota-se tal de imediato no capítulo dos doces (abaixo deixo nota sobre um, especialmente escolhido porque sem ovos), mas qualquer utilizador da cozinha urbana moçambicana reconhece a culinária moçambicana, com as influências portuguesas, indiana e africana (neste caso particularmente a entrada dos preparados de legumes). E nota de imediato o traço do etnocentrismo do palato, a ausência do que mais recusado foi na alimentação burguesa (em particular de origem europeia): a carne rural que não está representada, o peixe-seco, já para não falar de outras tantas espécies animais, “comida do povo”. Mas disso particularmente significativo são as ausências de pratos confeccionados com cabrito e a da fabulosa, emblemática e super-agressiva cacana.

Estou a criticar? A desvalorizar? Nada! O livro é mais do que recomendável. Abaixo deixo uma proposta de almoço de domingo.

[Tocossado]

[acompanhado de Mucuane - não é o acompanhamento típico mas porque não?]

[Pudim de abóbora com coco]

Gosta das imagens? Quer que eu transcreva as receitas? Hum … vá comprar o livro. Ou este, que também não irá nada mal servido.

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Matias Ntundo e a xilogravura moçambicana

Sexta-feira, Fevereiro 19th, 2010

E o recente livro “Fábulas de Cabo Delgado” com imagens de Matias Ntundu, o célebre xilogravador de Cabo Delgado, acordou na estante este pequeno opúsculo que acompanhou uma exposição em Maputo, no longínquo 1982, do trabalho de Maya Zucher (a capa reproduz a sua xilogravura “Luz e Força”). Esta foi uma artista suíça que trabalhou em Moçambique sob os auspícios da Associação de Amizade Franco-Moçambicana desde 1979, tendo desenvolvido trabalhos de activismo cultural ( introdução e desenvolvimento de tapeçaria e xilogravura) em Cabo Delgado, Zambézia e Nampula. E foi nesse âmbito que se registou a iniciação da técnica da xilogravura nas cooperativas artísticas do Cabo Delgado – e é desse processo, bem como da sua articulação com a arte (então militante) da artista que o opúsculo trata. Conta com um texto introdutório de Eugénio de Lemos e Malangatana (muito provavelmente um dos iniciais textos comuns que viriam a tornar-se conhecidos sob o pseudónimo Rhandzarte) e com uma explanação da própria sobre o processo de ensino artístico, ligado à produção do “Homem Novo” – também por esse testemunho o texto surge hoje, na sua candura, como um documento interessantíssimo ainda que breve.

Mas para além disso traz-nos esta memória sobre o começo de uma prática artística que veio a tornar-se algo conhecida no país, em particular através da obra de Matias Ntundu e seus vizinhos artistas da aldeia de Nanbimba. Aqui deixo duas imagens particularmente significativas desse processo de transferência tecnológica, memória dos participantes e uma das primeiras xilogravuras moçambicanas.

Os cooperativistas Leonardo Mário e José Tangawizi da Aldeia Comunal Nandimba, imprimindo as suas primeiras xilogravuras em Janeiro de 1982

A Terceira Xilogravura feita por Matias Ntundu Mzaanhoka – 1982″

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Manuel Viegas Guerreiro, Rudimentos de Língua Maconde

Sexta-feira, Fevereiro 19th, 2010

A recente edição de Fábulas de Cabo Delgado leva-me de volta a este livro de Manuel Viegas Guerreiro, Rudimentos de Língua Maconde (Lourenço Marques, Instituto de Investigação Científica de Moçambique, 1963), um trabalho produzido no âmbito da célebre pesquisa coordenada por Jorge Dias e que culminou na vasta obra “Os Macondes de Moçambique”, algo inserido na Missão das Minorias Étnicas do Ultramar.

Filólogo e etnógrafo Viegas Guerreiro deixa neste livro uma secção de “Notas Gramaticais” (reconhecidamente devedora do trabalho nesse âmbito dos missionários católicos holandeses e do reverendo Lyndon Harries), uma outra de “Fraseologia“, uma secção de “Vocabulário Maconde-Português” e outra de “Vocabulário Português-Maconde“. Instrumentos úteis, considera na introdução (1963) pois “…os Macondes …Constituem uma população de 100 000 almas … Com ela tem estado em contacto, através do tempo, a gente de língua portuguesa, agora notàvelmente numerosa. Há muito se reclamava a elaboração de um instrumento linguístico que facilitasse o convívio das duas etnias: …” (introdução). Uma refinadíssima delícia intelectual, se enquadrada no tempo e contexto.

Mas o que me fez regressar ao livro foi uma outra secção, a de “Contos e Adivinhas“: 15 contos e 56 adivinhas, em apresentação bilingue, recolhidas em missões ou aldeias, sem notórios arranjos literários – que normalmente padronizam os discursos e, quantas vezes, os levam a terem corolários moralistas. Um precioso documento cosmológico, as adivinhas a deixarem entrever as hierarquias causais e os aparentes paradoxos disponíveis no real. Os contos tendo várias narrativas cosmogónicas, quase-sempre em registo “fábula”, ou seja assentes na interacção de animais. De notar o esclarecimento da recolha, ao não se fixar na tão comum demanda de um fundo mitológico “intocado”, primordial. Disso transcrevo um iluminado exemplo (pp. 68-69), uma “fábula” cosmológica (ordenadora do social) que trabalha com o material (relações sociais) contemporâneas [deixo em itálico expressões centrais expressas em língua maconde, comprovativos que nem sequer um "purismo" linguístico poluía o olhar de Viegas Guerreiro]:

O Lagarto e a Perdiz


Um grande lagarto estava sentado como um senhor, na sua varanda. Passou uma perdiz e saudou-o:

- Bom-dia, tio [Njomba, bondia].

O lagarto não correspondeu. Continuando calado foi queixar-se à Administração. Sairam soldados a amarrar a perdiz, e logo que a apanharam trouxeram-na à Administração. Quando chegaram, disseram assim:

-Levanta-te, lagarto, e fala.

O lagarto levantou-se e disse assim:

- Eu estava sentado na varanda e chegando a perdiz falou-me desta maneira: “Bom-dia”. E é por isso que me vim queixar aqui.

A perdiz replicou:

- Eu dei-te os bons-dias porque a minha mãe me falou assim: “Quando encontrares quem tenha saído de um ovo, estarás na presença de um teu tio”. Tu, lagarto, não saíste de um ovo? A minha mãe não saiu de um ovo? Eu não saí de um ovo? Eu não sou teu sobrinho? A minha mãe não saiu de um ovo?

O lagarto percebeu: “Este que maltratei é meu sobrinho”. Envergonhou-se e tirou muito dinheiro para dar à perdiz. Mas basta, o milando (milando) deles acabou.”

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João Mosca sobre a Cooperação Portugal- Moçambique

Domingo, Fevereiro 14th, 2010

[João Mosca, Economicando, Maputo, Alcance Editores, 2009]

João Mosca é um dos mais significativos intelectuais moçambicanos, alguém que é sempre urgente ler. Este recente livro é uma colectânea de textos na sua maioria publicados no jornal Savana, aos quais junta alguns produzidos para encontros académicos. A sua arrumação indicia as temáticas abordadas: ensino superior, investigação, economia, agricultura e cooperação. O seu quadro de reflexão sobre o país, e que tão presente sempre surge nos seus textos, é anunciado na introdução:

A formação e a exercício da actividade académica … e a interdisciplinaridade apreendida, conduziram ao que se pode designar por “suicídio” da formação de base. Compreendi os debates no seio da área de conhecimento da economia e dos ataques de outras ciências aos economicismos tecnocráticos e à incapacidade da economia, como qualquer outra ciência, de interpretar, explicar e encontrar soluções para a complexidade das realidades no quadro dos limites rígidos do objecto de cada uma das ciências.

Procurei um “suicídio” difícil. No lugar de abandonar a economia e estudar outras ciências (…), preferi a via da crítica à economia para, a partir dela, incorporar conhecimentos de outras áreas na tentativa de uma formação interdisciplinar.” (7)

Acabo de comprar o livro, li apenas alguns textos e, ainda que de alguns outros tenha memória da sua publicação em jornal, não posso fazer mais do que aconselhar a sua leitura. Como português e como antigo cooperante encetei a leitura pelo texto “Cooperação Portugal-Moçambique. A estratégia de não ter estratégia?” – apresentado na III conferência internacional de Lisboa sobre “Europa e a Cooperação com África”, organizada pelo IEEI. Para quem tenha algum interesse nas questões da “cooperação” portuguesa com Moçambique, ou em geral, é um texto insubstituível. Uma apuradíssima análise das dimensões institucionais, políticas e ideais presentes nesta área de actividade do Estado português, e na própria sociedade – faltará, em meu entender, uma profundidade similar no olhar sobre as dinâmicas da interacção moçambicana neste campo, algo que será compreensível dado o texto ter sido apresentado num plenário em Portugal.

Repito, para quem se interesse pela actividade de “cooperação” é obrigatório ler este texto (pp. 152-157). Dele poderia aqui deixar algumas transcrições mas opto por uma, breve, que reflecte algo que ao longo dos anos tanto tem estado presente, até em demasia, no ma-schamba. Ideia que parece simples, pacífica, mas que na realidade real tanto é esquecida apesar de ser racionalmente cristalina:

A dimensão e capacidade financeira portuguesa e a perda de oportunidade de protagonismo em alguns assuntos importantes da história recente moçambicana, sugere que Lisboa necessita reanalisar a cooperação com Maputo, devendo fazê-lo sem pensar nas supostas vantagens culturais e históricas.” (p. 157)

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