
No Jardim dos Professores, à Josina Machel, de ontem até amanhã, há feira do livro. Vale a pena visitar, e saudar, pois tem ar de quem se poderá institucionalizar, tornar periódica – até pelo local, popular e central [ali estamos no "museu"], que está cuidado e infraestruturado (sanitários, cafés, acessos fáceis, limpo), sendo espaçoso o suficiente para acolher uma Feira do Livro do Maputo. Virá a ser?
Nesta realização um bom conjunto para a cidade. Há muita animação cultural, música (ontem ouvi Stewart), lançamento de livros (ontem vi Aurélio Rocha apresentar o “Ilha de Moçambique”, que acaba de concluir com Augusto Nascimento e Eugénia Rodrigues), mesas-redondas, sessões de autógrafos (hoje ao fim da tarde estarão lá os pesos-pesados da prosa moçambicana), saraus de poesia e teatro (entre outras a Lucrécio Paco estará hoje), imensa coisa. As actividades de palco poderiam ser um pouco melhor coordenadas, acima de tudo alguém poderá marcar o compasso, e explicar ao apresentador que mostrar livros, abrir-lhes caminho, tem um “tempo” diferente do que o da música, dizer-lhe para não ter medo dos vagares, do falar baixo. São livros, não é o Fama Show, vamos com calma. Mas isso são pormenores, o programa está francamente muito apetecível.
Algumas das livrarias estão representadas, uma distribuidora pelo menos, várias das editoras (cujo número tem vindo a crescer um pouco), organismos públicos e instituições. Dá para comprar alguns livros com descontos, que variam, mas ainda há expositores cacatas (forretas), que julgam que ir para uma feira dar 10% de desconto é uma estratégia aceitável – é uma parvoíce, é uma estratégia de mercearia de vão de escada, apenas apouca as empresas em causa. Mas outros entram no espírito (estratégia) de feira. Acima de tudo permite encontrar e até conhecer livros desaparecidos, e falo de edições nacionais, as quais continuam a sofrer o problema da inércia da distribuição e, acima de tudo, da reposição. Nestas reposição estou todo contente, havia perdido o “Sebastião Langa. Retratos de Uma Vida” (Arquivo Histórico de Moçambique, 2001), um livro fundamental e tão belo.
Há também as “mesas” estrangeiras, de algumas instituições de acção cultural externa que existem na cidade. O Alemanha-Moçambique, com mostra de livros – mas aqui há a dificuldade da língua. Uma representação italiana – mas é o mesmo, ou quase, que me é custosa a leitura. O Camões com uma pequena mostra de ficções sobre o 25 de Abril existente na sua biblioteca. Os franceses, que são uma delícia sob vários pontos de vista, vendem o fundo da biblioteca (que está a ser renovada) a 50 e 100 meticais cada livro. Não abunda em “panache” mas também a França já não é o que foi em tempos. Por isso mesmo trouxe um Cocteau, um Cohen (Albert) e um Constant – hoje voltarei para ver de outras letras do alfabeto.


Depois há, e nos últimos anos é sempre um caso à parte, a representação espanhola – continuam, no que respeita à cultura a saber marcar presença, e nisso a diferença. Agora apresentam uma banca não muito vasta mas super-interessante, acima de tudo super-interessada: nota-se que foi preparada, planificada, que entrou nos cuidados de programação, que alguém se preocupou com a Feira do Livro de Maputo, que têm gente a trabalhar na acção cultural externa, que têm objectivos e alguns meios, por modestos que sejam. Isso o mostra a vinda de escritores para apresentarem livros: uma poetisa nicaraguense, um ficcionista guineense, um desenhador aqui anteriormente residente (também os italianos trazem um ilustrador) - com toda a certeza que são estas actividades que podem apoiar, induzir, irmanar, a ideia de uma feira do livro anual local. Para mais os espanhóis surgem apresentando livros, edições patrocinadas (e por isso as vendem a meros 100 meticais cada). Mas todos os Estados patrocinam e só os espanhóis aparecem mostrando o que têm, possibilitando o que têm, neste caso trabalhos apetecíveis, de qualidade e interesse - com toda a certeza que a sua produção cabe num projecto político hispânico. Mas tem qualidade. E, se existe, mostra-se. Por isso mesmo aqui está. Fiquei com três antologias poéticas do século XX, a hispanidade poética de Chile, Peru, México - e por lá ficaram as antologias relativas à Venezuela, ao Equador e mais países, que tem que haver limites nem que sejam os físicos, das estantes.
Não há dúvida, os espanhóis têm vindo a trabalhar bem na promoção das suas actividades culturais, do seu país. Que venha o Cervantes para Maputo. E depressa, para trazer algo do mundo com ele.



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