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Lançamento de peso

(por AL em antecipação livresca) -

É amanhã  que se “estreia” em Lisboa o livro mais recente de João Paulo Borges Coelho – O Olho de Hertzog. O lançamento é na Sociedade de Geografia (Rua das Portas de Santo Antão), às 18:00 horas.

Manuel Alegre em Maputo

O discurso de Manuel Alegre na entrega do prémio Leya ao escritor João Paulo Borges Coelho, a propósito do livro “O Olho de Hertzog“. Sim, o culturalismo – mas aceitável, pois discursos protocolares não são os locais para problematizações. E, pelo menos, sem hífens. [Texto retirado da sua página pessoal]

 

Manuel Alegre na entrega do Prémio Leya em Maputo:
“A língua e a cultura é que fazem a alma de uma nação”
04-03-2010


O Presidente Samora Machel, pouco antes da sua visita a Portugal, disse a um jornalista português: “Camões não é só vosso, Camões também é nosso”. Esta frase, que profundamente sensibilizou o povo português, não foi só uma homenagem ao poeta que na Ilha de Moçambique acabou de escrever o poema que é, de certo modo, um acto de fundação poética de Portugal. O que o Presidente Samora Machel pretendeu significar foi que a língua portuguesa tinha deixado de ser língua de ocupação para passar a ser uma língua de liberdade, de independência e de partilha. Ou como diria Miguel Torga: “um traço de união”.

Estranha contradição e, ao mesmo tempo, soberbo privilégio de uma língua que tendo sido a do sistema colonial, foi também a língua em que os povos começaram a pensar e procurar poética e politicamente as suas raízes e a sua identidade. Nos poemas, nas revistas, nos textos fundadores, mais tarde na luta de libertação e finalmente na proclamação da independência.

Língua de luta e poesia. Angola independente já estava nos poemas e nos textos em que Agostinho Neto, Viriato da Cruz e Mário de Andrade afirmaram a sua angolanidade e proclamaram: “Vamos redescobrir Angola, vamos a ser nós mesmos”. E o mesmo aconteceu em Moçambique com os poemas de Craveirinha, Marcelino dos Santos, Jorge Rebelo e as palavras inspiradas e proféticas de Samora Machel. E também em S. Tomé e Príncipe, com os poemas de Alda Espírito Santo. E na Guiné e Cabo Verde com a escrita e a palavra de Amílcar Cabral. E depois em Timor com os poemas e as armas de Xanana Gusmão. As armas e a poesia andaram juntas. Na mesma língua.

Já no século XIX Almeida Garrett tinha escrito um ode que saudava a independência do Brasil, sublinhando que ela acrescentava a “lusa liberdade”. E Portugal existiu sempre naquela “lusitana antiga liberdade” de que falava Camões e que os seus poetas sempre cantaram mesmo quando o povo português era também um povo oprimido.

Língua de múltiplas resistências. Língua de ocupação colonial mas também de libertação nacional. Língua de ditadura sobre o povo português mas também de liberdade resgatada a 25 de Abril de 1974.

Língua de fraternidade entre os combatentes de um e outro lado. E entre resistentes que se encontraram nas mesmas prisões e nos mesmos exílios. Língua dos nossos encontros, desencontros e reencontros. E hoje, sobretudo, língua de amizade, de construção e de futuro.

Esta é a língua que o Prémio Leya pretende divulgar e celebrar.

Como Presidente do Júri, e também como escritor português, é para mim uma honra e um motivo de alegria estar aqui a participar nesta celebração simbólica com o Presidente Armando Guebuza, também ele um confrade da escrita e com o Primeiro Ministro José Sócrates, com quem às vezes converso sobre o papel da língua portuguesa e a necessidade de a trazermos para a linha da frente da acção política na cena internacional.

Porque esta é uma arma que nós temos: a língua como instrumento de cultura, de partilha e desenvolvimento. E como factor de unidade e afirmação internacional da Comunidade dos Povos de Língua Portuguesa. Temos uma das línguas mais faladas do mundo. É uma grande riqueza para quem não é rico. E se as relações económicas têm cada vez mais um papel essencial, não esquecemos que a língua e a cultura é que fazem a alma de uma nação.

O Prémio Leya de 2009 foi atribuído ao escritor moçambicano João Paulo Borges Coelho pelo seu romance “O Olho de Hertzog”, um livro surpreendente que vem enriquecer a literatura de língua portuguesa. Pela originalidade da narrativa, que nos restitui, com grande mestria, esta velha cidade e um contexto histórico em que se conjugam os combates das tropas alemãs contra as tropas portuguesas e inglesas na Primeira Guerra Mundial, o confronto entre africânderes e ingleses, a emigração moçambicana para a África do Sul, as primeiras greves dos trabalhadores africanos, a riquíssima personagem do jornalista João Albasini, pioneiro do nacionalismo moçambicano, e a busca do Olho de Hertzog, que é uma metáfora da demanda do destino individual e colectivo.

Em nome do júri, quero felicitar João Paulo Borges Coelho e agradecer-lhe a qualidade da sua escrita e a beleza de um romance que nos inquieta, nos reconforta e nos faz acompanhá-lo na procura do mistério do ser que é, ao fim e ao cabo, o próprio mistério de “O Olho de Hertzog”.


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Pancho Miranda Guedes

É interessante saber o arquitecto Pancho Miranda Guedes de visita ao Maputo de hoje, cidade em profunda transformação, tanto pela explosão imobiliária no Maputo-cimento dos últimos dois anos como pelo crescimento exponencial do Maputo-caniço, ocorrido nas últimas décadas, esse que menos chama a atenção dos mídia tradicionais e dos neo-meios informáticos. Para muitos o arquitecto será já um desconhecido e talvez por isso será conveniente lembrá-lo e lê-lo:

 [Pancho Guedes. Vitruvius Mozambicanus, Museu Colecção Berardo, 2009]

Ulli Beier: Quantos edifícios construíu em Lourenço Marques? Pancho Guedes: Não sei, ainda estou a organizar o meu arquivo. Parece que há trezentos ou quatrocentos edifícios em Moçambique. (…) mas ao todo desenhei mais de seiscentos, talvez setecentos edifícios.” (23-24) Olhá-lo não deverá ser num sentido museológico, conservacionista que seja, e ele próprio sabe-o: “A maior parte das minhas obras está agora morta ou ferida, vítima de acidentes e revoluções.” (31). Pelo contrário olhar a sua obra é, para arquitectos porventura mas com toda a certeza para cidadãos, uma aprendizagem das exigências, do que é a exigência de quem vive, agora que, e não só em Maputo, ”Em toda a parte as cidades estão a perder as suas personalidades e começam a parecer-se umas com as outras, quase como os aeroportos. Não é através de regras, dogmas, ditames, piruetas ou assassinatos que a cidade será devolvida aos seus cidadãos. Só através do poder da imaginação a cidade se tornará maravilhosa.” (75) Uma imaginação que terá que ser um questionamento: o do grão-edifício padronizado – cuja inevitabilidade/obrigatoriedade a sociedade urbana moçambicana parece aceitar sem angústia e, até, com orgulho, altaneira e com indiferença diante de “edifícios propositadamente estranhos, que têm a qualidade das aparições. Há algo de extraordinários neles, são desiquilibrados …” (20); o da planeamento “racionalista” – “Quando voltei a Lourenço Marques em 1950 (…) a câmara tinha imposto um plano à cidade propriamente dita, através do qual, à autoritária maneira pombalina tentava determinar a título definitivo o que poderia vir a ser construído em cada local. Felizmente, Fernando Mesquita, um conselheiro municipal iluminado, desenvolveu algumas alternativas dissidentes das quais beneficiei…” (75); e o da arrogância sociológica – “… os urbanistas seguintes … foram, na sua maioria, indiferentes ao que se passava no caniço.” (75).

Ler (e ver) Miranda Guedes é aprender também a como a tal “cidade maravilhosa” imaginada na prática se faz não na manutenção de uma qualquer “identidade” pré-determinada, em purismos sempre legitimados pelo sufixo “idade”. Sabê-la como produzida, imaginada na mistura, arrojada mas nunca auto-complacente, de referências. A tal imaginação, o tal arrojo, não como um acantonamento, sim como uma viagem: “Ulli Beier: E quando começou a fazer o tipo de edifícios a que chama Stiloguedes? Pancho Guedes: Logo no início. (…) Ulli Beier: Quando desenha edifícios que têm esses elementos estranhos, como chega até eles? (…) A imagem surge primeiro, então? Pancho Guedes: A imagem – não sei de onde vem. Neste caso em particular, chamei-lhes dedos, picos. Será uma reinterpretação de um edifício que sempre teve importância para mim? É uma casa em Lisboa, a Casa dos Bicos, que picos piramidais em toda a fachada e arcos góticos. Quase toda a superfície da parede tem estas pirâmidade salientes, em ângulos rectos. Lembro-me desta casa de quando era pequeno, e vou vê-la sempre que volto a Portugal.” (20-21-22). Enfim, conjugar para além do óbvio. Do grande. E do “cimento”. E é nisso que radica a “ident – idade”.

Deixo as imagens. Para um “quem diria?!” que venha a ser “dizer que”.

["A Ribeira Velha antes de 1755", a Casa dos Bicos é o segundo edifício desde a esquerda, com a forma aproximada da actual]

["Fachada da rua dos Bacalhoeiros, primeira metade do séc. XX"]

Nota: imagens da Casa dos Bicos reproduzidas do livro Maria da Conceição Amaral e Tiago Miranda (coords.) De Olisipo a Lisboa. A Casa dos Bicos (Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 2002)

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Culinária Moçambicana

[Maria Fernanda Sampaio, Sabores do Índico. Receitas da Cozinha Moçambicana, Assírio & Alvim, 2007]

Um belo e competente livro de culinária moçambicana, receitas recolhidas por Maria Fernanda Sampaio, praticadas por sua mãe, e nesta obra seleccionadas e apresentadas por seu filho Fernando Luís Sampaio. E alindado por fotografias, alusivas e/ou descritivas de Tiago Cunha Ferreira. O organizador avisa na “introdução”: “…estas receitas não representam um levantamento exaustivo dos modos e variações que algumas delas terão no território de Moçambique. Nem, se calhar, cobrem toda a realidade culinária do território.” (20). Claro que não, mas isso não impede que seja um livro de fazer crescer àgua-na-boca a qualquer simples amador, com esta oferenda de receitas de 5 sopas, 18 de peixes e crustáceos, 13 de carnes, 11 de legumes e 18 de doces.

É, como F.L. Sampaio bem refere, uma recolha da culinária miscigenada. Nota-se tal de imediato no capítulo dos doces (abaixo deixo nota sobre um, especialmente escolhido porque sem ovos), mas qualquer utilizador da cozinha urbana moçambicana reconhece a culinária moçambicana, com as influências portuguesas, indiana e africana (neste caso particularmente a entrada dos preparados de legumes). E nota de imediato o traço do etnocentrismo do palato, a ausência do que mais recusado foi na alimentação burguesa (em particular de origem europeia): a carne rural que não está representada, o peixe-seco, já para não falar de outras tantas espécies animais, “comida do povo”. Mas disso particularmente significativo são as ausências de pratos confeccionados com cabrito e a da fabulosa, emblemática e super-agressiva cacana.

Estou a criticar? A desvalorizar? Nada! O livro é mais do que recomendável. Abaixo deixo uma proposta de almoço de domingo.

[Tocossado]

[acompanhado de Mucuane - não é o acompanhamento típico mas porque não?]

[Pudim de abóbora com coco]

Gosta das imagens? Quer que eu transcreva as receitas? Hum … vá comprar o livro. Ou este, que também não irá nada mal servido.

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Matias Ntundo e a xilogravura moçambicana

E o recente livro “Fábulas de Cabo Delgado” com imagens de Matias Ntundu, o célebre xilogravador de Cabo Delgado, acordou na estante este pequeno opúsculo que acompanhou uma exposição em Maputo, no longínquo 1982, do trabalho de Maya Zucher (a capa reproduz a sua xilogravura “Luz e Força”). Esta foi uma artista suíça que trabalhou em Moçambique sob os auspícios da Associação de Amizade Franco-Moçambicana desde 1979, tendo desenvolvido trabalhos de activismo cultural ( introdução e desenvolvimento de tapeçaria e xilogravura) em Cabo Delgado, Zambézia e Nampula. E foi nesse âmbito que se registou a iniciação da técnica da xilogravura nas cooperativas artísticas do Cabo Delgado – e é desse processo, bem como da sua articulação com a arte (então militante) da artista que o opúsculo trata. Conta com um texto introdutório de Eugénio de Lemos e Malangatana (muito provavelmente um dos iniciais textos comuns que viriam a tornar-se conhecidos sob o pseudónimo Rhandzarte) e com uma explanação da própria sobre o processo de ensino artístico, ligado à produção do “Homem Novo” – também por esse testemunho o texto surge hoje, na sua candura, como um documento interessantíssimo ainda que breve.

Mas para além disso traz-nos esta memória sobre o começo de uma prática artística que veio a tornar-se algo conhecida no país, em particular através da obra de Matias Ntundu e seus vizinhos artistas da aldeia de Nanbimba. Aqui deixo duas imagens particularmente significativas desse processo de transferência tecnológica, memória dos participantes e uma das primeiras xilogravuras moçambicanas.

Os cooperativistas Leonardo Mário e José Tangawizi da Aldeia Comunal Nandimba, imprimindo as suas primeiras xilogravuras em Janeiro de 1982

A Terceira Xilogravura feita por Matias Ntundu Mzaanhoka – 1982″

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Manuel Viegas Guerreiro, Rudimentos de Língua Maconde

A recente edição de Fábulas de Cabo Delgado leva-me de volta a este livro de Manuel Viegas Guerreiro, Rudimentos de Língua Maconde (Lourenço Marques, Instituto de Investigação Científica de Moçambique, 1963), um trabalho produzido no âmbito da célebre pesquisa coordenada por Jorge Dias e que culminou na vasta obra “Os Macondes de Moçambique”, algo inserido na Missão das Minorias Étnicas do Ultramar.

Filólogo e etnógrafo Viegas Guerreiro deixa neste livro uma secção de “Notas Gramaticais” (reconhecidamente devedora do trabalho nesse âmbito dos missionários católicos holandeses e do reverendo Lyndon Harries), uma outra de “Fraseologia“, uma secção de “Vocabulário Maconde-Português” e outra de “Vocabulário Português-Maconde“. Instrumentos úteis, considera na introdução (1963) pois “…os Macondes …Constituem uma população de 100 000 almas … Com ela tem estado em contacto, através do tempo, a gente de língua portuguesa, agora notàvelmente numerosa. Há muito se reclamava a elaboração de um instrumento linguístico que facilitasse o convívio das duas etnias: …” (introdução). Uma refinadíssima delícia intelectual, se enquadrada no tempo e contexto.

Mas o que me fez regressar ao livro foi uma outra secção, a de “Contos e Adivinhas“: 15 contos e 56 adivinhas, em apresentação bilingue, recolhidas em missões ou aldeias, sem notórios arranjos literários – que normalmente padronizam os discursos e, quantas vezes, os levam a terem corolários moralistas. Um precioso documento cosmológico, as adivinhas a deixarem entrever as hierarquias causais e os aparentes paradoxos disponíveis no real. Os contos tendo várias narrativas cosmogónicas, quase-sempre em registo “fábula”, ou seja assentes na interacção de animais. De notar o esclarecimento da recolha, ao não se fixar na tão comum demanda de um fundo mitológico “intocado”, primordial. Disso transcrevo um iluminado exemplo (pp. 68-69), uma “fábula” cosmológica (ordenadora do social) que trabalha com o material (relações sociais) contemporâneas [deixo em itálico expressões centrais expressas em língua maconde, comprovativos que nem sequer um "purismo" linguístico poluía o olhar de Viegas Guerreiro]:

O Lagarto e a Perdiz


Um grande lagarto estava sentado como um senhor, na sua varanda. Passou uma perdiz e saudou-o:

- Bom-dia, tio [Njomba, bondia].

O lagarto não correspondeu. Continuando calado foi queixar-se à Administração. Sairam soldados a amarrar a perdiz, e logo que a apanharam trouxeram-na à Administração. Quando chegaram, disseram assim:

-Levanta-te, lagarto, e fala.

O lagarto levantou-se e disse assim:

- Eu estava sentado na varanda e chegando a perdiz falou-me desta maneira: “Bom-dia”. E é por isso que me vim queixar aqui.

A perdiz replicou:

- Eu dei-te os bons-dias porque a minha mãe me falou assim: “Quando encontrares quem tenha saído de um ovo, estarás na presença de um teu tio”. Tu, lagarto, não saíste de um ovo? A minha mãe não saiu de um ovo? Eu não saí de um ovo? Eu não sou teu sobrinho? A minha mãe não saiu de um ovo?

O lagarto percebeu: “Este que maltratei é meu sobrinho”. Envergonhou-se e tirou muito dinheiro para dar à perdiz. Mas basta, o milando (milando) deles acabou.”

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João Mosca sobre a Cooperação Portugal- Moçambique

[João Mosca, Economicando, Maputo, Alcance Editores, 2009]

João Mosca é um dos mais significativos intelectuais moçambicanos, alguém que é sempre urgente ler. Este recente livro é uma colectânea de textos na sua maioria publicados no jornal Savana, aos quais junta alguns produzidos para encontros académicos. A sua arrumação indicia as temáticas abordadas: ensino superior, investigação, economia, agricultura e cooperação. O seu quadro de reflexão sobre o país, e que tão presente sempre surge nos seus textos, é anunciado na introdução:

A formação e a exercício da actividade académica … e a interdisciplinaridade apreendida, conduziram ao que se pode designar por “suicídio” da formação de base. Compreendi os debates no seio da área de conhecimento da economia e dos ataques de outras ciências aos economicismos tecnocráticos e à incapacidade da economia, como qualquer outra ciência, de interpretar, explicar e encontrar soluções para a complexidade das realidades no quadro dos limites rígidos do objecto de cada uma das ciências.

Procurei um “suicídio” difícil. No lugar de abandonar a economia e estudar outras ciências (…), preferi a via da crítica à economia para, a partir dela, incorporar conhecimentos de outras áreas na tentativa de uma formação interdisciplinar.” (7)

Acabo de comprar o livro, li apenas alguns textos e, ainda que de alguns outros tenha memória da sua publicação em jornal, não posso fazer mais do que aconselhar a sua leitura. Como português e como antigo cooperante encetei a leitura pelo texto “Cooperação Portugal-Moçambique. A estratégia de não ter estratégia?” – apresentado na III conferência internacional de Lisboa sobre “Europa e a Cooperação com África”, organizada pelo IEEI. Para quem tenha algum interesse nas questões da “cooperação” portuguesa com Moçambique, ou em geral, é um texto insubstituível. Uma apuradíssima análise das dimensões institucionais, políticas e ideais presentes nesta área de actividade do Estado português, e na própria sociedade – faltará, em meu entender, uma profundidade similar no olhar sobre as dinâmicas da interacção moçambicana neste campo, algo que será compreensível dado o texto ter sido apresentado num plenário em Portugal.

Repito, para quem se interesse pela actividade de “cooperação” é obrigatório ler este texto (pp. 152-157). Dele poderia aqui deixar algumas transcrições mas opto por uma, breve, que reflecte algo que ao longo dos anos tanto tem estado presente, até em demasia, no ma-schamba. Ideia que parece simples, pacífica, mas que na realidade real tanto é esquecida apesar de ser racionalmente cristalina:

A dimensão e capacidade financeira portuguesa e a perda de oportunidade de protagonismo em alguns assuntos importantes da história recente moçambicana, sugere que Lisboa necessita reanalisar a cooperação com Maputo, devendo fazê-lo sem pensar nas supostas vantagens culturais e históricas.” (p. 157)

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Ainda Guevara em África

[Ernesto "Che" Guevara no Congo (não resisto a chamar a atenção para a encenação da fotografia)]

Na sequência de textos sobre os contactos entre Ernesto Guevara e a direcção da Frelimo, no âmbito das iniciativas que aquele dirigente do movimento comunista teve em África (ver 1, 2, 3 [e ainda esta referência]) João Cabrita deixou abaixo um comentário que, pelo seu interesse, aqui transcrevo:

1. Se bem que a definição apresentada por Machado da Graça sobre o conceito de “foco” esteja correcta, no caso do Congo tinha um outro sentido. Tratava-se da ideia enunciada por Che Guevara sobre a “criação de dois, três muitos Vietnames”. Os Estados Unidos já estavam no Vietname, e a ideia dos cubanos era criar um conflito de idênticas proporções em África, a partir do Congo, e também expandir o já existente em vários países da América Latina. No raciocínio cubano, isto atrairia os Estados Unidos a novas zonas de conflito, o que acabaria por debilitá-los.

Um eventual envolvimento da Frelimo no esquema cubano não significaria necessariamente que todo o exército da guerrilha moçambicana tivesse de ser transferido da Tanzânia e do interior de Mocambique para o Congo. Imagine-se o tremendo problema logísitico que não se criaria se todos os efectivos militares existentes (Frelimo, MPLA, ZAPU, ANC, etc.) optassem por essa via. Sob o ponto de vista estratégico era de todo o interesse manter acesos os conflitos em Moçambique, Angola, Rodésia, Namíbia e África do Sul, dispersando-se assim as forças contrárias.

2. Machado da Graça diz não ter ainda visto nada que o convencesse de que a ligação de Mondlane aos Estados Unidos era “institucional, com o governo americano, e não meramente afectiva com o país de origem da mulher e onde estudou”.

No meu estudo, que citei no artigo publicado no Zambeze, servi-me de documentação oficial do Departamento de Estado norte-americano, e de outra obtida na Biblioteca John F. Kennedy e na Biblioteca do Congresso (totalizando cerca de 400 páginas). Nela estão estampados de forma inequívoca os profundos laços existentes entre Mondlane e a Administração Kennedy. As ligações mantiveram-se mesmo durante a presidência de Lyndon Johnson.

Poderia mencionar, entre outros, os despachos trocados entre a embaixada americana em Dar es Salam e o Departamento de Estado, um deles, com a data de 29 de Junho de 1962, a transmitir um recado de Mondlane para Wayne Fredericks, adjunto do subsecretário de Estado para os assuntos africanos: Mondlane “necessita desesperadamente de fundos para consolidar a independência da Frelimo em relação ao Gana e aos países do bloco comunista”, dado que ele, Mondlane, “já despendeu todas as poupanças pessoais”.

Um outro exemplo, foi o financiamento concedido pela Fundação Ford para construção do Instituto Mocambicano (IM) em Dar-es-Salam, destinado a reforçar a periclitante posição de Mondlane face às correntes antagónicas que ele havia derrotado na corrida à presidência da Frelimo. As diligências começaram por ser feitas por Mondlane junto do ministro da justiça (Robert Kennedy) e terminaram no gabinete do ministro da defesa, Robert McNamara, que antes de ter integrado a Administração Kennedy havia sido director executivo da Corporação Ford. Cito de uma nota de Robert Kennedy para Mennen Williams, assistente do Secretário de Estado norte-americano, datada de 11 de Abril de 1963: “…Mondlane needs about 50 grand to keep the lid on his people and also stay on top. That seems to me a small investment.” No fim, o “investimento” da Fundação Ford orçou em $96,000.

E quem foi trabalhar para administração do IM foram pessoas como a Sra. Betty King, funcionária do African-American Institute em Dar-es-Salam. Parte do corpo docente do IM foi rectrutado pelo Corpo da Paz. É do domínio público que o African-American Institute é uma instituição do governo americano (tal como o Peace Corps) e que entre outras coisas publica o «Africa Report», revista que se distinguiu pela forma como promoveu a imagem de Mondlane. O articulista cubano da «Prensa Latina» não escrevia à toa.

3. Não creio que o socialismo advogado por Mondlane correspondesse ao stalinismo do regime de Machel. Posteriormente à experiência stalinista da Frelimo, Janete Mondlane declarou que o marido “não teria concordado com as decisões tomadas após a independência, muitas das quais associadas à violação da ideia do direito à liberdade individual”.

Relacionado com esta questão recupero um livro -mais do que recomendável para analisar tantas outras questões mais vastas:

[Amélia Souto, Caetano e o Ocaso do "Império". Administração e Guerra Colonial em Moçambique durante o Marcelismo (1968-1974), Afrontamento, 2007]

Pouco depois da luta armada se ter iniciado, Che Guevara fez uma viagem de 3 meses a África (chegou em Dezembro de 1964 a Dar es Salaam) assinalando o interesse de Havana pela luta que se desenvolvia no continente, sobretudo no Zaire. Em Fevereiro de 1965, Guevara visitou os escritórios da Frelimo, onde teve um encontro com Eduardo Mondlane. Este encontro foi tempestuoso. Segundo Gleijeses [Piero Gleijeses, Conflicting Missions: Havana, Washington anda Africa, 1959-1976, Chapel Hill, Univ. South Carolina Press, 2002], Fidel Castro ainda recordava isso doze anos mais tarde, altura em que, num encontro com Erich Honecker, presidente da Alemanha Democrática, afirmou: “Os diferendos que nós tivemos com a Frelimo remontam ao tempo quando [...] Che Guevara se encontrou com Eduardo Mondlane. A irritação de Mondlane perante a insistência de Che Guevara de que a Frelimo devia enviar os seus guerrilheiros para serem treinados no Zaire conduziu a um choque pessoal entre ambos.” Um outro aspecto que originou este choque relacionou-se com o exagero da Frelimo em relação às suas proezas militares (uma tentação que Fidel Castro evitou durante a guerra com Baptista) e perante as quais Che, que não era um bom diplomata, expressou o seu cepticismo, mas fê-lo de uma forma que ofendeu profundamente Mondlane. A conversa adquiriu um tom áspero que os dividiu.* Embora Cuba considerasse a Frelimo como um dos movimentos de guerrilha mais fortes de África, a quem desejava dar maior apoio, este primeiro encontro deixou marcas que nunca foram ultrapassadas totalmente durante a luta, tendo permanecido o mau sentimento gerado pelo encontro, “no qual o Che considerou Mondlane pouco digno de confiança, e Mondlane considerou Che irreverente e desrespeitoso”. Apesar disso, Cuba ofereceu-se para enviar instrutores para os campos da Frelimo na Tanzânia, ou directamente para Moçambique, oferta essa que a Frelimo recusou por ser seu princípio enviar guerrilheiros para treino no exterior, em vários países, incluindo Cuba, sendo os chineses os únicos instrutores estrangeiros que a Frelimo permitiu na Tanzânia. Mas Cuba apoiou a Frelimo, não só treinando alguns dos seus quadros mas também fornecendo armamento, alimentação e uniformes.

*Esta versão é confirmado por Marcelino dos Santos que participou no encontro (era então Vice-Presidente da Frelimo) e que refere terem surgido pontos de vista diferentes relacionados com a preparação da guerra e o seu desenvolvimento.” (pp. 209-210)

Porquê Sakrani?, as memórias de Hélder Martins

Abaixo transcreve-se um interessante artigo de João Cabrita, no qual o autor contesta a versão histórica de Hélder Martins. Motivo suficiente para aqui lembrar o livro em causa, as memórias de Hélder Martins, “Porquê Sakrani? Memórias dum Médico duma Guerrilha Esquecida” (Maputo, Editorial Terceiro Milénio, 2001). Na minha opinião é um documento muito interessante – eu não partilho da ideia de que as memórias de alguém são a verdade histórica, mesmo que a intentem retoricamente. E como tal sempre sorrio às críticas surgidas a cada livro de memórias – ótpimas, porque tendem a induzir novos textos, novas versões. E interessam-me muito mais as múltiplas versões e os sonoros silêncios. Mas este “Porquê Sakrani?”, a auto-biografia de uma personalidade riquíssima da história do Moçambique independente, antigo ministro, personalidade conhecida pelas suas idiossincracias intelectuais e vivacidade com que sempre as defendeu, tem também o interesse de ter sido um dos primeiros textos do tipo, influenciando com toda a certeza a vaga (relativa, é certo) de publicação de memórias que a sociedade moçambicana tem conhecido. E, em meu entender, é desse cruzamento de auto-histórias que encontraremos o que é realmente interessante: os ambientes intelectuais, os de um passado cada vez menos recente, e os da actualidade.

Não sei como estará o acesso ao livro. 1300 exemplares editados há já quase uma década fazem-me prever a sua inexistência, ainda que de quando em vez se encontrem exemplares à venda. Aos leitores, em encontrando um desses é comprá-lo, será um dispêndio muito adequado.

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ALGUMAS CANÇÕES CHOPES

por ABM (Cascais, 10 de Fevereiro de 2010)

Colecta de canções feitas pelo legendário maestro Artur Fonseca, 1958, 107 págs. Ilustrado ao longo do texto, nomeadamente com facsimile de alguns fragmentos musicais.

À venda em Coimbra pelo meu prezado Miguel de Carvalho pela pechincha de twenty-five euros. Como eu não sou assim musicalmente inclinado passo apenas a publicidade.

O elegante site do jovem é Miguel de Carvalho – Livreiro Antiquário.

Acerca do Memorialismo

Novidades editoriais hoje adquiridas. Tudo coisas do memorialismo (e biografia), assunto em discussão no ma-schamba daí que apresento os livros antes de os ter lido:

Pachinuapa

[Raimundo Pachinuapa, Marina Manguedye, A Vida do Casal Pachinuapa, Maputo, JV Editores, 2009]

Moiane

[José Phahlane Moiane, Memórias de um Guerrilheiro, Maputo, King Ngungunhane Institute, 2009]

Bragança

[Sílvia Bragança, Aquino de Bragança. Batalhas Ganhas, Sonhos a Continuar, Maputo, Ndjira, 2009]

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“A Invenção das Ilhas”, de Virgílio de Lemos

VirgilioLemos invençaco

Comemorações (já!) do 10º aniversário da Escola Portuguesa de Moçambique. Feliz iniciativa, a de publicar este “A Invenção das Ilhas“, uma antologia de Virgílio de Lemos, organizada por António Cabrita, e que contém ainda uma longa entrevista ao poeta, realizada em 1999 por Carmen Lucia Tindó Secco, para ser integrada na publicação da obra por ela organizada “Eroticus Moçambicanus” (editada por Nova Fronteira). A obra contém ainda, em regime de posfácio, um colóquio do organizador consigo mesmo, “A Buganvília Que Ri. Sobre a Poesia e Outros Suspensórios ou Breve Telegrama para o Virgílio de Lemos, Poeta da Luz e do Tricórnio“. O volume contém vários dos seus heterónimos, Bruno dos Reis, Duarte Galvão, Lee Li-Yang, Virgílio de Lemos, cruzando a produção destes autores desde o início de 1950s até à presente década.

Avisam-me de planos para a publicação da sua obra completa, na Imprensa Nacional-Casa da Moeda. E ainda a iniciativa da tradução para português de (parte da?) sua obra em francês. Um conjunto de iniciativas que trarão Virgílio de Lemos para o convívio de poetas moçambicanos, uma presença hoje quase invisível como afirma Cabrita. Coisa talvez do seu percurso biográfico, há longas décadas vivendo em França e com muito raras visitas a Moçambique. E também ao relativo esquecimento, apesar do reconhecimento que alguns, como Eduardo Lourenço e Patraquim lhe votam.

Fica, não como exemplo, mas como nota de quem então partiu para não voltar, este poema de 1963, da autoria de Duarte Galvão:

Beijo-te Inteira África


Meus lábios procuram-te avidamente
e no delírio do meu amor por ti
beijo-te inteira África
e sou cruel terno verdadeiro
Nos troncos esguios de altos eucaliptos
shindjingritanas e soas
fazem ninhos e amor
sem a consciência das coisas
metafísicas.
Nós escutamos ritmos de jazz puro
de John Lewis
ou com volúpia dançamos
novos ritmos de marrabenta.
Mas não estamos anestesiados
pela música e pelo amor.
Meus lábios procuram-te loucamente
e no êxtase de minha derradeira entrega
beijo-te inteira África
e parto angustiado.

Contos populares recriados em livro

Fabulas

Mais um livro, e apropriado à época. A Kapicua publica este “Fábulas de Cabo Delgado. Matias Ntundo Xilogravuras.”. Uma edição organizada por Gianfranco Gandolfo, contendo a recriação literária de contos populares de Cabo Delgado realizada por António Cabrita, e uma série de imagens das célebres xilogravuras de Matias Ntundo – que presumo ali surjam em forma de “ilustração” do corpo literário. A apresentação pública será no dia 16 de Dezembro mas o livro estará à venda antes dessa data.

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A Marginal de Maputo em livro

Machado Marginal

Ainda nada mais sei sobre este livro, apenas que está para chegar aos “postos de venda” (ou já lá estará?). “Marginal de Maputo. Uma Estrada com Vida“, apetitoso contributo de Machado da Graça para a Maputografia, editado pela Promedia. Estrada (e litoral) sempre mutável, natural e socialmente fluindo, será interessante ver como Machado da Graça retratará esse processo histórico feito via rodoviária. E, já agora, deliciarmo-nos (será o caso? presumo que sim) com a iconografia seleccionada para mostrar tão bela e sofrida área da cidade.

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Livro sobre Arquitectura em Moçambique

Moderno Tropical

[Ana Magalhães, Inês Gonçalves, Moderno Tropical. Arquitectura em Angola e Moçambique, 1948-1975, Lisboa, Tinta-da-China, 2009]

Em Portugal acaba de ser publicado este livro, cuja sessão de apresentação pública ocorreu ontem. Nada mais sei. Mas será daqueles livros de “comprar sem ver”, entenda-se sem sequer folhear. Tamanha a cobiça! Espero que venha a ser distribuído aqui. Quando o conseguir mostrarei mais …

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Fotografias de vida

Sergio Niassa

[Sérgio Santimano, Macalange, Niassa oriental, 2001]

Todos teremos imagens de vida. E nessas, talvez, fotografias de vida. Esta é uma das fotografias da minha vida. Ao revê-la exposta, agora na Bienal TDM 2009, logo a paixão disse “presente”. É paixão, não tem qualquer argumentação que a ancore. “Bigger than life” dizia-se do cinema quando ele o era, “Deeper than life” direi eu desta “(Mulher de) Macalange” encontrada no seu quotidiano percurso ao celeiro pelo Sérgio Santimano.

A fotografia moçambicana produziu alguns símbolos – e nesse sentido produziu a nação, construíu a identidade por via simbólica. Para cada era haverá um ou outro ícone particular: “os lavabos” e o “ferro em brasa” de Ricardo Rangel, o “banho dos soldados” de Kok Nam (que abaixo deixo), são fotos que considero particularmente relevantes. E se Rangel foi um grande reporter-narrador de Moçambique já a Kok Nam vejo-o, fundamentalmente, como um pintor de ícones – algo que obrigará à recolha da sua obra em livro, o que tarda -, bem adequado à época do seu apogeu fotógrafo, a do voluntarismo pós-independência.

Kok Banho
[Kok Nam, "Sem título, Rio Révue, Manica, 1981". Reproduzida em Bruno Z'Graggen, Grant Lee Neunburg (orgs.) Iluminando Vidas. Ricardo Rangel e a Fotografia Moçambicana, Christoph Merian Verlag, 2002]

Ricardo Ferro em Brasa
[Ricardo Rangel, (rapaz marcado com ferro). Reproduzida em Ricardo Rangel Fotógrafo, Éditions de l'Oeil, 2004]

Ricardo Lavabos
[Ricardo Rangel, "Casas de Banho. Onde só o negro podia ser criado e só o branco era um homem, Lourenço Marques, 1957". Reproduzida em Bruno Z'Graggen, Grant Lee Neunburg (orgs.) Iluminando Vidas. Ricardo Rangel e a Fotografia Moçambicana, Christoph Merian Verlag, 2002]

Mas para mim, indivíduo aqui imigrado, há 3 fotografias moçambicanas que me são cruciais, que me construíram a auto-imagem, meio auto-reconhecimento, meio auto-embelezamento: uma “Aldeia Comunal” de Kok Nam (que vi na sua exposição individual da Photofesta, e que nunca consegui recuperar), a crucial Apetecido Quintal de Caniço (reproduzida abaixo) de Rangel, e esta “Macalange“. Um trio que faz o “meu” Moçambique. Ou melhor, me faz em Moçambique.

Ricardo Apetecido Quintal de Caniço
[Ricardo Rangel, "Apetecido Quintal de Caniço". Reproduzida em Ricardo Rangel, Pão Nosso de Cada Noite, Marimbique, 2004]

A (Mulher de)”Macalange” de Sérgio Santimano pertence a uma exposição individual dedicada à província do Niassa, que tem sido apresentada de forma itinerante. E está reproduzida – é apenas assim que a possuo – no livro “Terra Incógnita“, publicado na Suécia em 2006, contendo fotografias de Sérgio Santimano e textos de Albino Magaia, Luís Carlos Patraquim, Bosse Hammarstrom, Henning Mankell

 Sergio Niassa Capa

É fruto de um longo trabalho de pesquisa, repetidas viagens à província. Um projecto possibilitado pelo apoio da “cooperação” sueca, penso que inscrito num esforço de testemunhar o papel desenvolvimentista que esta teve (e penso ainda ter) na província - o que marcará o livro, que tem como ponto fraco algum excesso de imagens (algumas pobres páginas com oito fotos cada), talvez no intuito de mostrar trabalho. Do patrocinador, do fotógrafo.

Mas esse é ponto fraco. De resto o livro é bem apetecível. Pois se “Fotografar é assumir uma responsabilidade. As imagens que ficam para trás são rastos importantes para o futuro.” (Mankell) o que Santimano deixa, responsavelmente, não é apenas um conjunto de postais sobre a beleza natural do Niassa (ainda que aqui e ali ela surja, avassaladora). É o mundo humano, feito do camponês, como o espantoso “homem emergindo do rio, que não é Narciso” (Patraquim?). Mas também, e nisso rompendo com  o constante e atávico olhar exoticizador dos fotógrafos em bolandas, com um mergulho no trabalho industrial do Niassa, de trazer a sua densidade, beleza. Essa a ”responsabilidade” do Sérgio Santimano, a de afastar sem hesitação a folclorização. Do Niassa, do mundo. E, só assim, de o representar.

Também por isso, talvez por isso, toda a minha paixão por esta (Mulher de)”Macalange“.

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Dicionário Macua-Português (cont.)

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Em Novembro de 2007 aqui deixei uma entrada dedicada ao Dicionário Macua-Português, da autoria de A. Pires Prata (Instituto de Investigação Científica Tropical, 1990). Na sequência de questões deixadas nessa caixa de comentários vem agora o leitor Valeriano Maia simpaticamente informar-nos sobre a possibilidade de o adquirir em Portugal, bem como ao Dicionário Português-Macua.

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Mississi em Maputo, 1886-1890

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por ABM -

Para o Exmo leitor Maschambiano que ler inglês, este livro [Delagoa Bay. Its Natives and Natural History, London, George Philip & Son, 1891], disponível inteiramente grátis (indo pela internet aqui), foi impresso em Londres em 1891 e foi escrito por uma senhora chamada Rose Monteiro e que esteve no que é hoje a capital moçambicana nessa altura.

Rose fora casada com o célebre JJ Monteiro, que residiu na mesma casa na Ponta Vermelha onde ela regressou em 1887, entre 1876 e 1878. Monteiro, que na altura foi agente da Colónia do Cabo em Lourenço Marques, encetou os primeiros esforços para importar mão de obra nativa para o Cabo. O seu esforço, pejado de incidentes que sugeriam ser essa mão de obra “forçada”, foi denunciado pelo cônsul inglês ali estacionado e a prática foi descontinuada por esta via. Monteiro morreu em Lourenço Marques em 1878.

 

Segundo o seu relato, Rose M (os locais, que justificadamente parecia que a odiavam, chamavam-lhe “Mississi”) residiu Maputo em 1876-1878 e outra vez por volta de 1889.91. Ela, que parece que foi uma espécie de “Calamity Jane” dos livros de banda desenhada do Lucky Luke, viveu sózinha numa casa -uma cottage- sem água doce (que era apanhada à mão em garrafões em nascentes junto à praia) com um piano, um cão, um gato e uma colecção de insectos algures na colina da Ponta Vermelha (que os anglos insistiam em chamar Reuben Point) donde podia observar a baía e o seu “azul profundo”. Do outro lado, via-se o mato verde do “País de Tembe” e atrás o “País de Maxaquene”.

A vila de Lourenço marques não tinha porto, a linha férrea de Pretória parava algures perto de Ressano Garcia e os navios, que na altura poucas vezes ali paravam, tinham que atracar a 400 metros da praia. A pequena guarnição policial portuguesa/nativa é descrita deliciosamente como uma cambada de bêbados, vigaristas e ladrões que  invariavelmente doentes e que não sabiam disparar as suas armas, cujo estado deixava sérias dúvidas se elas de facto funcionavam.

 

Do que se percebe Rose tinha alguns meios e era uma mulher de armas, empenhada em coleccionar insectos e bicharada em geral (tarefa iniciada pelo marido) que em seguida remetia para Kew Gardens em Londres. Dormia com um revólver ao pé da cama.

 

Segundo Rose, as nativas de onde hoje é Maputo eram todas fumadoras (?). Os homens “snifavam” tabaco. Dedica infindáveis páginas aos primeiros residentes e aos empregados domésticos, sumariamente descritos como kafir boys, termo que oiço dizer ser hoje ilegal pronunciar na rua na África do Sul, e que creio que nunca pegou em Moçambique, onde a única coisa à “cafreal” era a galinha grelhada do Restaurante Piri-Piri.

Todos eles eram, segundo Rose, “muito, muito, lentos a fazer tudo”, ladrões e mentirosos e mais uma longa lista de faltas, todas descritas minuciosamente. Aliás, o leitor prepare-se para referências que fariam um credenciado racista nos dias de hoje corar de vergonha.

 

Mas, abstraindo do exotismo e das imensas descrições de animais, insectos, plantas e árvores, há informações que hoje surpreendem. Haviam legiões de macacos nas árvores onde hoje é o Bairro Central. Na zona situada atrás da Ponta Vermelha chamada Poulana, habitavam esquilos, iguanas e lagartos exóticos. Rose reporta que, em 1890, residiriam em Lourenço Marques apenas duas ou três mulheres portuguesas – com quem não convivia pois ela não falava uma palavra de português. Ainda existiam as pequenas tribos dos Maxaquenes, os Poulanas e os Mahotas. Havia um rico e belo pântano, cheio de vida animal, onde hoje está toda a infra-estrutura dos caminhos de ferro mesmo antes do porto. Um tremor de terra abalou a localidade em Julho de 1882. Três fortes tremores de terra foram reportados no Bilene (no livro, Billyene) em Dezembro de 1881. A Vila esteve em pé de guerra durante cinco dias por se esperar um ataque dos Swazis – tudo acudiu mas foi falso alarme. Em 1890 já havia um campo de ténis na “cidade”. Em 1887, para quem como Rose residia na Ponta Vermelha, ir “à cidade” era uma viagem à lingua de terra que se situa hoje entre a Praça 25 de Junho (creio que antigamente era a Praça 7 de Março) e a terminal da estação dos caminhos de ferro.

 

Rose especificamente refere que se iria coibir de fazer comentários de índole político-partidária. Imagino que fosse certamente para evitar levar um 24/20 das autoridades portuguesas no local, pouco dadas aos comentários habitualmente demolidores vindos dos visitantes estrangeiros, ainda por cima no preciso momento em que o Reino Unido acabara de criar o episódio do Ultimato em 1890. Mas, como quem não quer a coisa, aponta o dedo: os portugueses são uns tipos porreiros mas não estão ali a fazer rigorosamente nada e – pior – confraternizam com os kafirs (o leitor prepare-se: a mulher repete esta palavra umas mil vezes no texto).

 

Apesar disso tudo, o livro, que tem algumas imagens em que a de cima é um exemplo, é um debruçar interessante sobre o que foram os primeiros anos da formação da actual Maputo e o início de uma enorme mudança para o Sul de Moçambique do epicentro da autoridade colonial portuguesa, cuja base durante quase quatrocentos anos fora uma pequenina ilha situada a quase dois mil quilómetros ao Norte.

 

Bom fim de semana.

Fiel dos Santos

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[Fiel dos Santos Sculpteur, Éditions de l'Oeil, 2008, 24 pp]

Livro trilingue (francês, inglês, português), com texto original de Paola Rolletta, dedicado a Fiel dos Santos publicado na colecção de livros de bolso “Les Carnets de la Création“, que esta editora vem produzindo, e que já integrara – pelo menos – 3 livros sobre fotógrafos moçambicanos (Rangel, Mauro Pinto, Luís Basto). Ao que me diz Fiel agora foram publicados mais alguns dedicados a artistas moçambicanos, os quais ainda não encontrei.

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Fiel é um membro proeminente do grupo de geração que aderiu em finais do século passado à proposta artística de transformação de armas de guerra em obras de arte, um desafio então lançado pelo Conselho Cristão de Moçambique, e que desde então se tem mantido nesta linha de trabalho, des-essencializadora do material, provocatória sobre os homens. Projecto artístico ideológico, claro, e como diz Paola Rolletta “Só quem viveu na pele a guerra e a paz é capaz de fazer desabrochar uma rosa de um rocket.” (17) Um caminho que tem vindo a colher sucesso, interno e internacional.

Mas também caminho a discutir – até que ponto não há neste manusear da matéria-prima uma sua sobrevalorização face ao produto final artístico? Conversa para outros contextos que não este, o de saudar mais este lançamento, que conta com o apoio da Embaixada de França em Moçambique – sempre atenta no apoio às artes nacionais -, e que é possível (e justificado) adquirir no Núcleo de Arte.

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Eu, o Povo, de Mutimati Barnabé João

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A surpresa de encontrar em Portugal esta nova edição do célebre e lendário “Eu, o Povo“, de Mutimati Barnabé João (António Quadros), uma publicação em colecção de bolso da Biblioteca de Editores Independentes (2008). Com um interessante prefácio de José Forjaz, narrando da sua origem, e um hermético (percebi nacos, e com toda a certeza não o fundamental) posfácio de Daniel Jonas (e que tal levantar o pé na densidade quando se escreve para uma colecção de bolso?).

Sobre o mítico livro, apropriação criacionista da identidade moçambicana por parte de Quadros, muito ouvi falar. Transpira o tempo de então, o 1975 ideologizado colectivista. Mas acima de tudo o voluntarista tempo de então. Talvez seja esse mesmo voluntarismo, essa vontade de crer, que tenha levado a crer ter sido um “povo”, um guerrilheiro, a escrever estes poemas – consta (acredito porque mo contaram) que só tendo sido levado o texto a Jorge Rebelo, ele próprio poeta, ele negou essa hipótese ao ler “Tenho um espinho no pé direito. / Descalço a alpercata. / Esta terra é estéril. Queima. Está na agonia.” (O estrume). Pois, disse, “alpercata só um português utilizaria”. Ao reler agora os poemas ocorre-me imaginar o espírito do leitor de então que não descodificava de imediato a operação autoral.

Alguns destes poemas são ainda recorrentemente ditos, mostrando o como produziram uma época, que tem permanências. É o caso de “Relatório” (Faz favor dá ordem para pôr dentro outro Irmão / Camarada Comandante) ou (não é hoje tão explícito?) “Camarada Inimigo” (Este inimigo deixa muita informação e rasto / Não pode ser um inimigo assim tanto) ou ”Eu, o Povo” (A táctica colonialista é deixar o Povo no natural / Fazendo do Povo um inimigo da natureza). É disso que se faz o encanto que neles encontro. Como neste, o meu preferido espelho desse tempo:

 

Operação da guerra da libertação

 

Esta árvore amiga é o inimigo
Destroncar esta árvore é uma operação contra o inimigo.

Escolhemos um inimigo, inimigo, à medida da nossa grandeza
Um inimigo do tamanho da nossa tarefa
Que vai dar muita chatice a cair, e táctica e estratégia
E vai ser derrubado melhor que em pé
Pois se que esta terra é boa para uma árvore tão alta
Há-de ser muito boa para dar machamba.

Vais ser ataque de serrote ou machada ou enxada na raiz?
Vai cair para o lado do vento?
Vai ser de cinto de fogo ou trotil mesmo?
Vai ser com as mãos fazendo força, camaradas?

Onde há uma árvore maior do que a força do Povo?

Se vier o velho, a mulher, o menino, todos um e um e um
Riscar com a unha do dedo pequeno, lamber com a língua
Nove milhões de pequenas carícias e pouca força
Esta árvore cai mesmo.

Por onde passa o Exército da Libertação
Fica um rasto verde e cheiroso e o caminho aberto
Para passar a Liberdade e o Futuro.

É fácil ver quem passou aqui.

Os livros de Santos Rufino

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Os célebres Álbuns Fotográficos e Descritivos da Colónia de Moçambique (com ligação para a sua completa apresentação digitalizada organizada pelo projecto Memórias de África), uma fabulosa publicação iconográfica do final dos anos 1920s, foram longamente apresentados pelo belo blog Companhia de Moçambique. Também aqui lhes fui fazendo referência.

Agora tive a suprema felicidade (até eu de mim próprio tenho inveja) de me ter sido oferecida uma colecção. Um homem passa a vida a apoucar-se, a automelindrar-se, a autofagiar-se. E depois, a meio dos quarenta, descobre que tem um amigo que lhe oferece uma coisa destas …

Ndjira

A editora Ndjira tem um blog.

Revistas Moçambique – Documentário Trimestral

Mão amiga lembra-nos da existência da colecção digitalizada de Moçambique – Documentário Trimestral (revistas entre 1935-1940). A consultar.

Santos Rufino

A colecção de álbuns de Santos Rufino é coisa de culto. Agora que sei haver uma colecção completa à minha espera em Portugal, aquisição de um bom amigo (quem tem amigos assim … temo até não merecer tamanha felicidade), não resisto a partilhar o acervo digitalizado, algo integrado no trabalho espantoso de Memórias de África, o qual nunca será demais salientar.

Aqui ficam os diamantes – para aí se perderem.

 

Álbuns Fotográficos e Descritivos da Colónia de Moçambique: Companhia de Moçambique – A Cidade da Beira. Aspectos do Território - [Álbuns Fotográficos e Descritivos da Colónia de Moçambique]
Autor(es): José dos Santos Rufino | Pags.: 113

Álbuns Fotográficos e Descritivos da Colónia de Moçambique: Distrito de Moçambique – Aspectos Gerais - [Álbuns Fotográficos e Descritivos da Colónia de Moçambique]
Autor(es): José dos Santos Rufino | Pags.: 134

Álbuns Fotográficos e Descritivos da Colónia de Moçambique: Distrito de Quelimane – Aspectos Gerais - [Álbuns Fotográficos e Descritivos da Colónia de Moçambique]
Autor(es): José dos Santos Rufino | Pags.: 120

Álbuns Fotográficos e Descritivos da Colónia de Moçambique: Gaza e Inhambane – Aspectos Gerais - [Álbuns Fotográficos e Descritivos da Colónia de Moçambique]
Autor(es): José dos Santos Rufino | Pags.: 133

Álbuns Fotográficos e Descritivos da Colónia de Moçambique: Lourenço Marques – Aspectos da Cidade, Vida comercial, Praia da Polana, etc. - [Álbuns Fotográficos e Descritivos da Colónia de Moçambique]
Autor(es): José dos Santos Rufino | Pags.: 155

Álbuns Fotográficos e Descritivos da Colónia de Moçambique: Lourenço Marques – Edifícios Públicos, Porto, Caminhos de Ferro, etc. - [Álbuns Fotográficos e Descritivos da Colónia de Moçambique]
Autor(es): José dos Santos Rufino | Pags.: 118

Álbuns Fotográficos e Descritivos da Colónia de Moçambique: Lourenço Marques – Indústrias, Agricultura, Aspectos das Circunscrições, etc. - [Álbuns Fotográficos e Descritivos da Colónia de Moçambique]
Autor(es): José dos Santos Rufino | Pags.: 130

Álbuns Fotográficos e Descritivos da Colónia de Moçambique: Lourenço Marques – Panoramas da Cidade - [Álbuns Fotográficos e Descritivos da Colónia de Moçambique]
Autor(es): José dos Santos Rufino | Pags.: 38

Álbuns Fotográficos e Descritivos da Colónia de Moçambique: Raças, Usos e Costumes Indígenas. Fauna Moçambicana - [Álbuns Fotográficos e Descritivos da Colónia de Moçambique]
Autor(es): José dos Santos Rufino | Pags.: 143

Álbuns Fotográficos e Descritivos da Colónia de Moçambique: Tete e Cabo Delgado (Niassa) – Aspectos Gerais - [Álbuns Fotográficos e Descritivos da Colónia de Moçambique]
Autor(es): José dos Santos Rufino | Pags.: 104

Moçambique. Imagens da Arte Colonial, de Fernando Couto

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Referi abaixo este Moçambique. Imagens da Arte Colonial, livro organizado por Fernando Couto e editado pela Ndjira em 1998. A obra reproduz 86 fotografias do espólio de Carlos Alberto Vieira, fundamentalmente dedicadas a obras arquitectónicas, monumentos, algumas vistas aéreas urbanísticas e arte sacra. Se a selecção não é exaustiva cobre o país [17 fotos de Maputo, 2 de Zavala, 2 de Xai-Xai, 2 de Inhambane, 4 da Beira, 2 de Quelimane, 10 de Tete, 2 de Angoche, 2 de Nampula, 32 da Ilha de Moçambique, 4 da Cabaceira Grande, 5 do Ilha do Ibo, 1 da Ilha da Quirimba, 1 de Pemba].

Não sei se ainda estará disponível - na altura a edição atingiu 1500 exemplares, número aqui apreciável. Mas será, com toda a certeza, interessante recuperar a obra, introduzindo-lhe o que então foi impossível integrar, uma identificação mais completa das obras apresentadas – autoria e data da instalação das peças, datação das fotografias. Com toda a certeza um projecto nada irrealizável. E que em nada choca com as recentes edições em Portugal de livros sobre o espólio do fotógrafo Carlos Alberto Vieira, tanto porque são estes de maior abrangência temática como pelo facto de também essas edições não apostarem na identificação exaustiva dos objectos retratados.

Vasco da Gama

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Evocando a aguada que Gama fez na região de Inhambane (10 de Janeiro de 1498) ali foi instalada uma estátua durante o período colonial (não conheço nem data nem autoria). Apeada aquando da independência está desde há muito acantonada no pátio traseiro de um edifício municipal.

É óbvio e normal que signifique bem mais para portugueses do que para Estado e sociedade moçambicanos. Não só porque Gama se destaca na galeria de heróis identitários portugueses. Mas, e talvez fundamentalmente, porque a historiografia oficial moçambicana continua a reproduzir a mitificação histórica portuguesa (tardo oitocentista e muito Estado Novo) dos “quinhentos anos de colonização” - assim fazendo, inevitavelmente de Gama o “primeiro colono”.

Não me parece que a estátua tenha particular relevo artístico. Mas está lá, valendo como exemplar da arte (oficial) colonial. Recordo o que deste conjunto disseram José Forjaz: “A qualidade artística destas peças é muito diversa e vai do medíocre, ou mesmo francamente mau, à de grande valor estético. Não é, portanto, significativo observar cada peça por si só.” (in Fernando Couto, Moçambique. Imagens da Arte Colonial, Ndjira, 1998, p.7) e Fernando Couto: “Ainda que concebidas e realizadas por uma outra cultura, estas obras fazem, hoje, parte, do património histórico moçambicano, são parte de Moçambique e devem, por isso, ser objecto de preservação e valorização.” (Fernando Couto, Moçambique. Imagens da Arte Colonial, Ndjira, 1998, p.5).

Tendo em conta os precedentes de integração museológica dos exemplares de arte oficial colonial em Maputo (Fortaleza e Museu Nacional de Arte) e na Ilha de Moçambique (Museu da Ilha), não parece haver impedimentos práticos ou conceptuais para a salvaguarda desta estátua. O museu de Inhambane seria um bom destino, ainda para mais constituído por uma colecção suficientemente heterogénea para que não tenha a sua coerência agredida por esta obra.

Luís Carlos Patraquim

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Luís Carlos Patraquim acaba de publicar o livro “Pneuma” (capa reproduzida daqui). A editora é a Caminho. Esperemos a edição da Ndjira.

[sobre o poeta este texto de Pedro Mexia, anterior a esta obra]

Nascido a 12 de Agosto, de Lourenço Jossias

Nesta terça-feira próxima, 3 de Março, será apresentado o livro “Nascido a 12 de Agosto – uma biografia“, sessão a decorrer às 17.30 no espaço Kulungwana, na estação dos CFM, Maputo. Uma edição da Marimbique (a editora de Nelson Saúte), este livro é a auto-biografia (um pouco precoce? deseja-se que ainda se venha a produzir material para mais um tomo) do jornalista Lourenço Jossias. É, e isso saúdo, mais uma obra a integrar o surto de memorialismo que vem ocorrendo em Moçambique.

Publicação de livro de Francisco Noa

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[Francisco Noa, A Letra, a Sombra e a Água, Maputo, Texto Editores]

Compilação de textos escritos durante a última década, integrando treze artigos, dedicados a questões da literatura e do ensino, e ainda uma vasta série (cerca de 40) pequenos textos publicados na imprensa, abordando várias questões do social.

O lançamento público do livro ocorrerá na próxima terça-feira, dia 24 de Fevereiro, às 18 h., na Mediateca do BCI. A apresentação será de Júlio Carrilho.

Obras Públicas em Moçambique, de André Faria Ferreira

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Com relação à edição de um livro sobre a arquitectura tardo-colonial em Moçambique João Almeida esclarece que o livro recentemente editado é Obras Públicas em Moçambique. Inventário da Produção Arquitectónica Executada Entre 1933 e 1961 de André Faria Ferreira (Edições Universitárias Lusófonas; p.v.p. 35 euros; ISNB:978-972-8881-50-4).

Fica-se ainda na expectativa da publicação da tese de António Albuquerque, “Arquitectura Moderna em Moçambique. Inquérito à Produção Arquitectónica em Moçambique nos Últimos Vinte e Cinco Anos do Império Colonial Português, 1949-1974“.