Um esclarecido texto de Onésimo Teotónio de Almeida sobre “lusofonia”. De leitura mais do que recomendável para quem se interesse pelo “assunto”.
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A lusofonia segundo Onésimo T. Almeida
Maio 30th, 2008 — Lusofonia, Onésimo Teotónio Almeida
Aventuras de um Nabogador
Julho 25th, 2007 — Literatura, Onésimo Teotónio Almeida
“Éramos doze filhos, nove rapazes que é como quem diz, pois rapazes não é o termo: bezerros, alguns, touros os maiores. Bestas de força. Não era da comida, que de fome andávamos nós fartos. Vinha do sangue, por isso escapámos todos, que a minha mãe não teve a sorte de outras que deitavam os filhos como coelhas, mas depois era como dizia uma vizinha Ah! Meu rico senhor, isto eles morrem muitos! A minha mãe coitadinha inquietou-se para inventar maneiras de fazer a gente pensar que comia. O único rancho melhoradinho que se tinha no ano era no dia da festa da padroeira. Na véspera punha-se a panela grande ao lume e uma galinha a afundar-se em muita água. Eu a duvidar: a galinha fugiu? Não, tinha-se derretido. Eu revirava a sopa e só encontrava batata. Era só para dar gosto, como agora se faz com as barrinhas de Knorr. …
Aqui, sempre me desenrasquei. E tive mesmo de me desenrascar depressa que isto por cá se não se tem olho vivo e pé ligeiro fica-se para semente. Tive de aprender muito por mim. E graças a Deus aprendi e afinal já sei que não sou burro. Tinha era fome e precisava de olear as máquinas. Por isso ainda se admiram quando falo bem desta terra! O senhor não vai acreditar, mas eu até palavras novas de português vim aprender aqui na América! Palavras que juro que nunca aprendi nem ouvi na minha terra!
Deve ter sido a minha única interrupção, excepto quando não consegui conter o riso incitado por algumas daquelas saídas mais desbragadas: Ouça lá! Eu acredito nisso tudo e reconheço que, a falar-me dessa maneira e nesse tom, será impossível não estar a contar-me experiências autênticas do seu passado na ilha. Mas agora essa de vir aprender aqui palavras novas de português… parece-me já demasiado. Dá-me uma só, como exemplo?
- Claro que dou! FASTIO!
(Onésimo Teotónio Almeida, Aventuras de Um Nabogador & Outras Estórias-em-sanduíche, Bertrand, 2007, 150-156/7)
Jornais Velhos: Times & Tempos
Novembro 5th, 2005 — Onésimo Teotónio Almeida
É, os tais jornais velhos, agora um JL já de 28 de Setembro, aterrado cá em casa. A coluna “Times & Tempos“, as crónicas de Onésimo Teotónio Almeida.
“Antero e as saudades de Lunenburg” o título desta. Mas é o seu final que me traz aqui, cúmplice:
“Por isso, ao fim de uns dias acrescentados dessa temporada de retiro idílico, sussurrei certa tarde à moça do balcão de um posto de informação turística depois de a Leonor sair a gozar o remanso da paisagem:
- Agora, que a minha mulher não está aqui, posso fazer-lhe uma pergunta muito masculina?
A jovem fraziu o sobrolho, mas aguentou firme:
- E …?
- Onde é que por aqui à volta se pode ter acesso à Internet?”
Relativismo Cultural
Março 6th, 2005 — Onésimo Teotónio Almeida, Rue Catinat
“(A minha avó) …caracterizou-me melhor do que ninguém o relativismo cultural. Um dos netos ia dar um passo menos ortodoxo…Não estava direito, como se dizia no código moral familiar. Foi a avó quem trouxe a sentença sábia: “Deixem lá. Esta terra e estes tempos não são os nossos. E direito, como?…O direito do anzol é andar torto“.”
[Onésimo Teotónio Almeida, Rio Atlântico]
Março 6th, 2005 — Ciências Sociais, Onésimo Teotónio Almeida, Rue Catinat
“…para muitos canadianos a sua identidade parece ser a de procurar eternamente a sua identidade, um empreendimento a la Sísifo, que lhe garante uma angústia para sempre“.
[citação de The Canadians, de Andrew Malcolm, em Onésimo Teotónio Almeida, Rio Atlântico]
Antropólogos e Jornalistas
Março 6th, 2005 — Antropologia, Onésimo Teotónio Almeida, Rue Catinat
“… ao tecer algumas considerações finais sobre a impossibilidade de se ser objectivo, apesar da importância de se procurar sê-lo o máximo possível, mencionei o caso específico dos jornalistas estrangeiros (e não os jornalistas em geral) que se encontram numa situação de “antropólogos com pressa.”
[Onésimo Teotónio Almeida, Rio Atlântico]
E quantos dos antropólogos não são jornalistas um pouco lentos?
O ideólogo é o Outro …
Março 6th, 2005 — Onésimo Teotónio Almeida, Rue Catinat
“…encontro repetida, e com frequência…a expressão de um receio: a Igreja é uma força ideológica, transmitirá os seus valores.
Ora, o que numa sociedade democrática deveria ser tomado como algo perfeitamente natural (possuir-se uma ideologia) e procurar-se divulgá-la (transmitir valores) aparece como qualquer coisa de vicioso.
No fundo o ideólogo é o outro. As incoerências são algo inerente aos sistemas de valores dos outros.”
[Onésimo Teotónio Almeida, Rio Atlântico, 62]
A época do Bacoco
Março 6th, 2005 — Onésimo Teotónio Almeida, Rue Catinat
“Se a persistência do Barroco na nossa história nos marcou de tal modo o gosto, e se nesse estilo alguns dos nossos antepassados criaram belissimos exemplos… parece também ter deixado em não poucos portugueses um viés que privilegia a exuberância, a profusão e o espectáculo. Na arte, naturalmente.
Mas também nas palavras. Que muitas vezes servam para esconder ideias nada espectaculares.”
[Onésimo Teotónio Almeida, Rio Atlântico]

