Archive for the ‘Mark Twain’ Category

Máquina do Tempo

Sexta-feira, Maio 28th, 2010

Regressar a Tom Sawyer é uma verdadeira máquina do tempo. O que me leva a repetir-me, porque está isto na “biblioteca juvenil”, por que é que nos juvenilizam os livros e assim os abandonamos? O que está neste Tom Sawyer que não seja adulto? Será a paixão quase mortal entre Tom e Becky? Ou a maldade, cruelmente castigada, de Injun Joe? A cobiça que a tanto risco e coragem conduz, e que será magnificamente recompensada? O que haverá mais radicalmente adulto do que a confrontação (final) entre os ideais de liberdade de Tom Sawyer, afinal urbano e integrável, e Huck Finn, o radical libertário. O verdadeiro libertário, diga-se, tão necessário nestes hojes de institucionalizações, de (falsos) Tom Sawyers:

“Não me digas nada, Tom. Já o tentei e não resultou. Não resulta, Tom. Não é para mim, não estou habituado a isso. A viúva é boa para mim e minha amiga, mas não consigo aguentar aqueles hábitos. Todas as manhãs me faz levantar à mesma hora, obriga-me a lavar e a pentear; não me deixa dormir no barracão de lenha; tenha de usar aquelas malditas roupas que me sufocam, Tom, porque parece que o ar não consegue passar através delas; e são tão bonitas que não me posso sentar, nem deitar, nem rebolar no chão quando as tenho vestidas. (…) Ali dentro não posso apanhar uma mosca nem mascar. Tenho de andar calçado durante todo o domingo. A viúva só come ao som de uma sineta, vai-se deitar ao som de uma sineta, levanta-se ao som de uma sineta. Naquela casa, é tudo tão horrivelmente regular que o corpo de uma pessoa não o consegue aguentar. (…) E a comida é demasiado fácil, não me interessa muita comida assim. (…) A viúva não me deixa fumar, não me deixa gritar, não me deixa bocejar, não me deixa espreguiçar, nem coçar ao pé de outras pessoas. (…) E ainda pior, está sempre a rezar. (…) Tive de fugir, Tom, tive mesmo de fugir!

Não, Tom, não me interessa ser rico e não quero viver naquelas malditas casas onde parece que falta o ar. Gosto dos bosques e do rio e das barricas, e é aqui que vou ficar. O resto que vá para o diabo! Já tínhamos as espingardas e o esconderijo, e tínhamos combinado ser ladrões. (…)

Tom aproveitou aquela oportunidade:

-Ouve lá, Huck, ser rico não me vai impedir de ser ladrão.

- Não! Estás mesmo a falar a sério, Tom?

- Tão sério como estar aqui à tua frente. Mas Huck, não te podemos aceitar na quadrilha se não fores respeitável.

A alegria de Huck pareceu desaparecer.

- Não me deixas entrar, Tom? Mas deixaste-me ser pirata, não deixaste?

- Sim, mas isso é diferente. Um ladrão é alguém que tem uma categoria mais alta do que um pirata. Isso é uma coisa que todas as pessoas sabem. Em muitos países, até têm elevadas posições de nobreza, entre duques e coisas assim.” (294-295)

[Mark Twain, As Aventuras deTom Sawyer, Edições Nelson de Matos (Tradução de Maria João Freire de Andrade)]

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Bálsamo

Terça-feira, Novembro 17th, 2009

De viva voz ou via electrónica notam alguma acidez neste 1/3 de ma-schamba. Prometo corrigir-me. E anuncio o primeiro bálsamo, agora em aplicação, versão enésima releitura …

Twain TS

Passado um bocado, Tom encontrou o jovem pária da vila, um rapaz chamado Huckleberry Finn, filho do bêbado da terra. Huckleberry era cordialmente desprezado e temido por todas as mães porque era um rapaz preguiçoso, desobediente, grosseiro e mau – mas sobretudo porque todas as crianças o admiravam, deliciavam-se com a sua companhia proibida e desejavam atrever-se a ser como ele. Tom, tal como todos os rapazes respeitáveis, invejava a Huckleberry a sua exuberante condição de marginalizado e tinha ordens estritas para não brincar com ele. Huckleberry estava sempre vestido com roupa de adulto, fatos que tinham sido deitados fora, esfarrapados e que já tinham ultrapassado a flor da idade. O chapéu era uma ruína com um pedaço de aba arrancado. O casaco, quando usava um, chegava-lhe quase aos calcanhares e os botões traseiros situavam-se abaixo da cintura; apenas um suspensório lhe aguentava as calças e os fundilhos destas pendiam soltos e largos por falta daquilo que deviam conter; as esfarrapadas pernas das calças arrastavam-se pela terra quando não estavam enroladas. Hucleberry ia e vinha de sua livre e espontânea vontade. Quando o tempo estava bom dormia nos degraus das casas, e quando chovia ocupava grandes barricas vazias. Não tinha de ir à escola nem à igreja, nem chamar senhor a ninguém nem sequer obedecer a quem quer que fosse; podia ir nadar ou pescar sempre que queria e ficar dentro de água durante todo o tempo que lhe apetecesse; ninguém o proibia de se meter em brigas; podia ficar acordado até às horas que quisesse; era sempre o primeiro rapaz a começar a andar descalço na Primavera e o último a calçar-se no Outono; nunca tinha de se lavar, nem vestir roupa limpa; e sabia praguejar maravilhosamente. Em resumo, aquele rapaz possuía tudo aquilo que torna a vida preciosa.

[Mark Twain, As Aventuras de Tom Sawyer, Edições Nelson de Matos, 2009, tradução de Maria João Freire de Andrade, pp. 63-64]

Continuo a não perceber a razão de acantonarem esta(s) obra(s) na literatura juvenil. Presumo que forma de censura social para evitar a disseminação do seu carácter subversivo no seio da população adulta, perdão, eleitora.

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