Saramago e a Insustentável Leveza da Ignorância, de Richard Zimler. A ler este excelente texto sobre a Bíblia e sua tradição. E, também, sobre Portugal e seu “estado da arte”.
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Richard Zimler
Outubro 28th, 2009 — José Saramago, Richard Zimler, Sociedade portuguesa
Ainda Saramago. E Pulido Valente. E Lobo Antunes. Portugal.
Outubro 27th, 2009 — António Lobo Antunes, José Saramago, Sociedade portuguesa, Vasco Pulido Valente
1. A propósito da sequência das declarações “bíblicas” de José Saramago uma insistência no tema, talvez a aborrecer os visitantes. Mas é uma sequência de dizeres tão sintomáticos sobre Portugal que se tornam irresistíveis.
No Mar Salgado Vasco Lobo Xavier ecoa que Saramago defende que Deus devia ter vedado a macieira com rede. É uma afirmação deliciosa, levando a matéria para onde ela realmente pertence. Tal como o nosso ABM lembrou nestas declarações do que se trata é de um conflito ideológico-político com a Igreja Católica, nada reduzíveis às furibundas invectivas de publicidade ou senilidade. Pois torna-se óbvio que para Saramago é possível o paraíso, nos seus avatares que foram correntes: sociedade de lazer, sem exploração, sem escassez, de “homem novo”. O que para isso é necessário é que alguém, alguns, construa(m) a cerca (e por ela velem) que defenda os homens da “natureza humana”. À “incompetência” (aliás, inexistência) da divindade suceder-se-á a competente tutela do partido, em particular a dos seus intelectuais.
2. Ficou (algum?) Portugal aos gritos com o assunto (mesmo os que se aprestaram a dizer que não havia nada a dizer), uns vociferando contra o herege, outros lamentando-lhe a incapacidade de crítica literária, a falta de profundidade hermenêutica.
Finalmente chegou-me às mãos um jornal Público da semana passada. Onde diz Vasco Pulido Valente: “O problema com o furor que provocaram os comentários de Saramago sobre a Bíblia (mais precisamente sobre o Antigo Testamento) é que não devia ter existido furor algum.” Como é óbvio, e não só porque velhas como a própria Bíblia são as invectivas a Deus.
Mas logo avança Pulido Valente: “Não assiste a Saramago a mais remota autoridade para dar a sua opinião sobre a Bíblia ou sobre qualquer outro assunto, excepto sobre os produtos que ele fabrica, à maneira latino-americana, de acordo com o tradição epigonal indígena.” Entenda-se, Saramago pode falar do que faz, do seu artesanato, do seu ofício. Sobre outros assuntos não tem autoridade, “a mais remota”. Depreendo, até porque condiz com o locutor, que para falar de assuntos abrangentes, fora da vidinha de cada um, há apenas alguns com autoridade, os especialistas. É uma explícita divisão social do trabalho (intelectual). À “incompetência” (aliás, inexistência) da racionalidade geral suceder-se-á a competente tutela do partido, perdão, das elites, em particular a dos seus intelectuais.
Para culminar com o gráfico de Portugal no mesmo jornal diz Lobo Antunes: [os populares] “É óptimo. Uma pessoa não tem guarda-chuva e eles emprestam.”
Olhando para o agregado de locutores está bem marcado o quadro. As três ordens de Dumézil trazidas até quase-nós por Duby: 1. os sábios/intelectuais (com estudos) que têm autoridade abrangente; 2. os arrivistas (escritores que não pensam como os sábios, jornalistas, bloguistas, lumpen-burguesia, sindicalistas ex-aristocracia do ex-proletariado) que querem falar mais do que da sua vidinha; 3. os populares, porreiros porque emprestam o guarda-chuva. Modelo agora em aparência (pós)moderna, mas bem, bem, antigo. Foi feudal, antes indo-ariano. E ainda hoje vigora.
Isto são só coincidências. Releio o artigo “Indústria e Repressão Sexual numa Sociedade da Planície do Pó” e umas páginas antes diz assim (minha versão do francês): “Tem uma sincera e primitiva admiração por aquele que sabe. Desse sempre sublinha as suas qualidades manuais, a memória, a metodologia evidente e elementar: tornamo-nos cultos lendo muitos livros e retendo o que eles dizem. A suspeita que a cultura possa ter uma função crítica e criadora não lhe surge. À cultura julga-a segundo um critério puramente quantitativo. Nesse sentido (o de que para ser culto é necessário ter lido muitos livros durantes muitos anos) é natural que o homem que não é predestinado renuncie a qualquer tentativa“. (Umberto Eco, “Phénoménologie de Mike Bongiorno“, Pastiches et Postiches, 1992, p. 63). Ou seja, que emprestemos os nossos guarda-chuvas.
É óbvio que nada disto tem a ver com as insistentes considerações sobre “onde está” a direita ou a esquerda, característica questão da topologia portuguesa. É muito mais perene. O tal modelo trifuncional nas mentes de alguns. E sempre associado com a apropriação sociológica do discurso. No fundo com quem pode (e deve) vedar a macieira. Ou levar-nos até ela.
Chove! Vou ali emprestar o meu chapéu-de-chuva.
jpt
Rilke, a propósito do padre Carreira das Neves e de José Saramago
Outubro 24th, 2009 — José Saramago, Rainer Maria Rilke
Acabo de ver na SIC o “debate” entre o padre Carreira das Neves, professor da Universidade Católica, e José Saramago, acolhido por Mário Crespo. Morno, desinteressante. O escritor algo defensivo e pouco convincente [talvez suspeitando que, como diz Eduardo Pitta (que agora leio) "Infelizmente, Saramago dá um passo maior que a perna."] . O padre explicitando o carácter histórico-cultural da Bíblia, a sua dimensão literária – visão com a qual é fácil concordar, mas se assim é então porquê tanta azáfama na contra-crítica? E, mesmo, porquê o inusitado debate “literário” (!?)? Se alguém disser que Marco Polo era uma aldrabão, Dante um mitómano, Virgílio um chato, Heródoto um falsário, haverá tanta irritação, tamanha ofensa? Mas não são estes textos compreensíveis no seu contexto histórico, literários, metafóricos, etc e tal? Tenho, temos, alguma obrigação moral ou política de dizer bem de Marco Polo? Algum impedimento social de o refutar ou, até mesmo, insultar?
Mas para além disso ao ouvir o bom padre (grosso modo: a Bíblia é simbólica, é literatura, são imagens, e nós estamos lá com as nossas notas de rodapé para guiarmos os leitores – ali no Mário Crespo a história do catolicismo debitada) logo me lembrei de Rilke
[Rainer Maria Rilke, Histórias do Bom Deus, Quasi, 2008, tradução de Sandra Filipe]
Está o narrador de Rilke contando uma história centrada no facto de que “Deus, devido a uma feia desobediência das Suas mãos, não sabe qual é o aspecto final do homem” (20) pelo que engendra forma de o conhecer. Logo as crianças ouvem essa narração e …
“A história anterior espalhou-se de tal modo que o senhor professor passeia pela travessa com um ar profundamente ofendido. Compreendo-o. É sempre desagradável para um professor as crianças saberem de repente qualquer coisa que ele não lhes contou. O professor deve ser, por assim dizer, o único buraco no tapume através do qual se pode ver o pomar; há no entanto outros buracos, por isso as crianças todos os dias se empurram para a frente de outro, mas em geral ficam logo fartas do panorama. (…)
Ele [o professor] estava de pé, à minha frente, a puxar os óculos para cima, vezes sem conta, e dizia: “Não sei quem contou esta história às crianças, mas, seja como for, é injusto sobrecarregar-lhes e exacerbar-lhes a imaginação com invenções tão extravagantes como esta. É uma espécie de conto de fadas …” (…) continuou muito apressado “Primeiro parece-me mal que se utilizem livre e arbitrariamente temas religiosos e sobretudo bíblicos. É que tudo isso foi descrito de tal forma na catequese que se torna impossível contá-lo melhor.” (…) “E finalmente (…) afigura-se-me que o assunto não está suficientemente aprofundado e visto sob todos os aspectos.” (…) “Sim, dou pela falta de muitas [coisas]. Do ponto de vista de crítica literária, maioritariamente.” (22-24)
***
Um delícia. Não fosse a tristeza de ver a paróquia tão paroquial.
jpt
Mário David, deputado europeu, vice-presidente do Partido Popular Europeu
Outubro 22nd, 2009 — José Saramago, Politica Portuguesa
[Mário David com a bandeira nacional, tal como se apresenta na sua página oficial]
Independentemente do que se pensa de Saramago, como escritor e/ou como cidadão, é interessante visitar a “página oficial de Mário David, deputado ao Parlamento Europeu, vice-presidente do Partido Popular Europeu” [entre aspas a forma como o sítio está apresentado], o qual desencadeou alguma polémica a propósito das recentes declarações do autor. Francamente não sei se a retórica e o grafismo muito institucional representam realmente uma página de cariz oficial dos deputados europeus. Mas a associação de ambos convoca essa ideia – há pelo menos uma vontade de a assumir.
Nesse caso será de referir que um deputado português (e vice-presidente de um partido europeu) propõe a pena de ostracismo (patrocina a sua adopção, ensaia a sua indução) de um cidadão português por este exercer a sua liberdade de culto, o seu direito à blasfémia (se assim se quiser entender). Não o faz numa mera página pessoal, mas numa página ou oficial ou de assumida vontade de oficialidade encenada. É grave. Recordo o que há anos aconteceu com uns comentários menos benquistos que um deputado da Assembleia da República fez no seu blog inscrito no sistema do parlamento. E as reacções desabonatórias que colheu tal modo de opinar num meio oficial.
Este indivíduo, Mário David, afirma ainda (num catastrófico português, que só o apouca e ao partido que o tem como vice-presidente): ” …povos e confissões religiosas, valores que certamente desconhece mas que definem as pessoas de bom carácter.”. Não compreendo, exactamente, o que quer dizer Mário David com o valor “povos” (e creio que também ele não o sabe, que é um mero deslize). Mas acho absolutamente inaceitável que um deputado português, ainda para mais num registo oficial (ou que o quer aparentar), se permita dividir os seus concidadãos em função da adesão a valores religiosos: os bons definidos pela sua comunhão. E, como óbvio corolário, os maus (os de mau carácter) como aqueles que não os partilham.
Não é uma brincadeira nem uma histeria ateia. É absolutamente inadmissível que um deputado eleito num partido democrático insulte, desqualifique, os seus concidadãos deste modo. E que os seus pares não se desculpem, não se demarquem, assobiem para o lado reduzindo este caso a um mero fait-divers. Ainda para mais, sublinho, quando se trata não de um mero amanuense mas sim de um vice-presidente do Partido Popular Europeu, com toda a certeza por escolha do PSD.
É um ultraje.
Adenda: Mário David escreve um “Para fechar sobre Saramago”. É mais uma vez interessante ler – para compreender que no seu relativo passo atrás, e por mais maiúsculas essencializadoras que utilize, o deputado não compreende os limites que cruzou: insultou os ateus e, se assim se entender, os agnósticos. E é incapaz de reconhecer – e repito – o direito à blasfémia. Para Mário David todos devemos respeitar a Bíblia. Ora, é exactamente o contrário. Todos podemos respeitar a Bíblia e o Corão (pessoalmente acho muito aconselhável, diga-se). Mas não há nenhuma obrigação, legal, política ou moral. O deputado manifestamente não compreende isso.
Insisto, não é concebível que alguém que desconhece as obrigações políticas do seu país possa ocupar lugares como aqueles que ocupa. É, sem dúvida, um ultraje à democracia.
jpt
Saramago
Outubro 21st, 2009 — George Steiner, José Saramago
[Nota: Porfírio Silva, do Machina Speculatrix demonstrou nos comentários o seu desagrado pelo epíteto com que o descrevi. Tem toda a legitimidade para o fazer. Dou a mão à palmatória, ainda que insista que o meu propósito não era insultuoso do bloguista mas sim desqualificador do seu texto. Assim sendo alterei a entrada]
“A mística judaica imagina que um segundo de distracção do escriba ao qual Deus ditou a Torah se traduziu pela omissão de um acento, de um signo diacrítico. Foi através desse erratum que o mal se infiltrou na criação. (…) Distraído por qualquer coisa de realmente importante, Deus “deixou cair do Seu bolso” um cosmos inacabado.” (49)
“Job, o Edomita, não reclama justiça. Se tivesse sido judeu, tê-la-ia reclamado. Mas Job, o Edomita, reclama sentido. Exige de Deus que faça sentido (fazer sentido [make sense]): eis uma das fórmulas mais impensadamente problemáticas das gramáticas da criação). Exige que Deus Se torne compreensível. Recusando por completo a concepção agostiniana – “se o apreendes, não é Deus” – Job intima Deus a revelar-Se de outro modo que não o das aparências do absurdo e do insensato. Os horrores imerecidos que desabam sobre Job abrem uma dupla possibilidade: que o criador seja fraco – e o satânico poderá prevalecer – ou puerilmente volúvel e sádico. Como um homem que “matasse por prazer”. Que seja, como diz Karl Barth no seu comentário do Livro de Job, “um Deus sem Deus”. (…) Deus é então culpado de ter criado“. (55-56), etc., etc.
[George Steiner, Gramáticas da Criação, Relógio d'Água, 2001, tradução de Miguel Serras Pereira]
O mal-estar com deus não é novo, veja-se acima. O mal-estar com os homens de deus também não o é. José Saramago, num país onde os blogo-Blasfemos defendem o criacionismo diante do aplauso burguês, convém não o esquecer, e onde milhões continuam a acreditar na visão de Fátima, botou o seu mal-estar com os homens de deus. E, é esta apenas a minha opinião, o seu mal-estar com (o seu) deus, um deus crual e vingativo. Em termos felizes?
Talvez não muito, dando o flanco a imputações de leitura pouco profunda da Bíblia. Pois o velho escritor (talvez já na idade e na situação de olhar deus) arranca agora umas declarações “chocantes”: A Bíblia (e o Corão) não é [são] de inspiração divina, disse. Coisa com que qualquer letrado deveria poder concordar. Invectiva também contra o deus castigador – aí reduzindo mas não falsificando. E alude (corrosivo, irado?) aos “maus costumes” vertidos na Bíblia – a mim choca-me a imagem dos “maus costumes”, o que é o Mal?, mas acima de tudo o que são os males?
[Tenho com a obra de Saramago uma relação há muito estabelecida. Não é a minha prosa (nesse registo o A Saga/Fuga de JB de Ballester encheu-me) nem é o meu mundo. Aos vinte anos li - e muito gostei - o Levantado do Chão. Antes lera, e gostara, o Memorial do Convento. Logo, logo, li o Ano da Morte de Ricardo Reis - que me terá sido um dos mais importantes livros da vida, foi a última leitura não-profissional que me forcei a levar até ao fim. Tinha vinte e um anos e ainda me lembro de o terminar: "nunca mais faço isto", exclamei, e desde então se não estou a gostar largo o livro. E assim fui fazendo, e também com vários dos seus livros. Depois, em 1998, li-lhe o Todos os Nomes, recebera ele o Nobel e por razões profissionais achei que lhe devia ler a obra. Nada gostei, lembro a sensação de estar diante de uma amálgama dos mundos de Borges e Kafka em registo longo e cansativo. São as vantagens do leigo, lê e pensa consoante o que lhe vem à cabeça.
Tenho do homem Saramago um conhecimento diferente. Cruzei-o em Maputo duas vezes. Deparei-me com uma cultura atroz (rais parta o homem), uma sageza ágil traduzida numa perspicácia fantástica, daquelas do "chegar, ver e entender", uma capacidade de improviso oral espantosa. E curvei-me diante da gentileza que comigo teve - e bem precisado estava eu, no meio dos lusobárbaros à solta. Não é por isso que lhe vou ler os livros, ainda comprei (em sessão de lançamento aqui, com direito a autógrafo final) o A Caverna, mas não terminei, cansado. Separo, como sempre, o homem dos seus livros, das coisas que faz.]
Mas não posso deixar de me espantar com o efeito Saramago. Em Portugal é um chorrilho. Cai o carmo e a trindade. O deputado Mário David, eurodeputado do PSD, propõe que o homem deixe de ser português pois ofende o povo – o que é isto, o ostracismo porque o homem diz que o deus nosso-senhor ensinado às crianças é castigador, porque lhe nega a omnisciência e restante omnipotência? A que miséria intelectual está condenado um dos partidos básicos do regime português, a que baixeza está condenada Portugal? Por todo lado abundam as críticas ao perverso escritor, ao medíocre escritor – imerecido Nobel. Dá para tudo: invectivam a ignorância com que põe em causa a grandiosidade literária da Bíblia (lendo as notas noticiosas bem que procuro saber como o fez, mas não o encontro: e até o mais arguto dos bloguistas carrega contra o gigantesco moínho de vento) – já agora gostaria de saber quais dos utentes deste argumento arrumam a sua Bíblia nas estantes no seio da literatura (letra B; secção vários; autor Deus, etc) … Na área do bloguismo político socialista (um bocado a despropósito, acho eu) aproveita-se para lembrar que Durão Barroso foi do MRPP em 1975 (mas nunca se refere que Mário Lino foi um abjecto controleiro estalinista dos comunistas portugueses destacados para Moçambique, não sei porquê, ou talvez porque as histórias são vergonhosas e “jamais” convirá lembrá-las). Os mais exaltados camaradas truncam-lhe os argumentos, feitos meras bandeiras ao deus-dará.
Ninguém se lembra que dos escritores o que interessa são os livros? Olho para trás, Oscar Wilde devia ser uma bicha insuportável, Shakespeare um tiranete lá no teatro, Tolstoi um chato do caralho. Lowry um bêbedo de fugir, Céline um nazi filhodaputa. É disso que falamos ou lemos-lhes, deliciados, os livros?
Vã política, vã jornalice, vã bloguice. Vã-glória de opinar.
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