Archive for the ‘José Saramago’ Category

Lusofonia literária

Sexta-feira, Junho 25th, 2010

Muito bem diz o Henrique Fialho qu’isto de morrerem os escritores é momento em que “pede-se que dêem especial destaque aos livros do autor. A quem está de fora pode parecer mero oportunismo comercial, mas a quem está por dentro é como se uma lufada de ar fresco tivesse entrado pela livraria.”, e está a falar da morte do Nobel lusófono, Saramago. Percorro os escaparates comerciais da lusófona Maputo e nada – queixar-se-ão que vendem poucos livros? Mas como criticar se nem as vitrinas institucionais o fazem? Não existem (também) para isso?

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Deus, Saramago e o Estado Português

Quarta-feira, Junho 23rd, 2010

Leio a reportagem do funeral de Saramago. E encontro as palavras da ministra da cultura portuguesa Gabriela Canavilhas: “[Saramago] Não tinha fé em Deus, mas se Ele existe certamente Deus teve fé nele.” Atento no último tempo verbal que tende a apagar (nunca involuntariamente pois são as palavras da ministra da cultura, linguisticamente competentes) o hipotético “se” que o antecede. Não me distraio com o aparente tom poético-simbólico da formulação, pois a questão “Deus” foi por demais importante na vida de Saramago e na sua relação com a sociedade portuguesa – e continua a sê-lo, até na própria política – para que se possa reduzi-la a um mero trocadilho de cariz simbólico.

O que a ministra da cultura ali fez, em pleno funeral e contando com o beneplácito dos condolidos presentes, foi matizar o ateísmo do falecido. Deixá-lo entender como (reduzi-lo a) idiossincracia do vulto literário, uma excentricidade de génio. E fê-lo através de uma formulação típica de um qualquer cura face ao descrente da aldeia, salvaguardando a fé da comunidade apesar da excepção em causa.

O Estado é laico e não é função das suas figuras opinar sobre religião. Muito menos relativizar, post-mortem, as concepções do mundo dos seus cidadãos. O que se assistiu, mesmo que numa encenação de homenagem, foi a uma explícita censura às ideias do autor. Abrupta, violenta, mesmo que subreptícia – disfarçada de suaves sorrisos solidários, sentida admiração e até algum bem-estar estético, como Canavilhas empacotou o discurso. Nada mais do que um acto totalmente inadmissível. Rasteiro.

As gentes da aldeia, ali congregadas e apenas preocupadas com quem esteve ou não esteve presente, aplaudem. Nem surdos nem cegos. Apenas medíocres. Nem deus, se ele existe, terá fé neles.

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Cavaco Silva e o Funeral de Saramago

Domingo, Junho 20th, 2010

Morre Saramago e, como sempre que morre alguém incómodo, o baixo-nível das figuras do regime vem ao de cima. O professor Francisco Louçã, coordenador do Bloco de Esquerda, aproveita as ainda quentes cinzas do escritor para fazer campanha eleitoral, invectivando “a mesquinhez” do actual presidente da república por não estar no funeral [ver também aqui]. Em actos reflexos os habituais bloguistas de serviço (anónimos ou não) vituperam o presidente. Diante da pequenez desta gente ocorrem-me duas adendas: a) uma formal, menos importante: quando o presidente (ou seja, a presidência da república) se faz representar ele (ou seja, ela, a instituição) está presente; b) uma substantiva, simbólica e como tal muito mais importante: o presidente da república evita a morte. Tudo o resto são interpretações a la carte. Mais politiqueiras, e em assim sendo desrespeitadoras do falecido e da sua obra. Ou menos.

Meter isto na cabeça dos apreciadores do professor Louçã é ontologicamente impossível.

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José Saramago

Sexta-feira, Junho 18th, 2010

Ler é a melhor maneira de homenagear os escritores

Morreu hoje um escritor português. Grande, lido, amado e/ou gostado. Premiado. Vénia.

Os seus livros não são o meu mundo. Quando jovem li alguns e gostei. Depois desgostei e fui abandonando a obra. Acontece(u)-me com muitíssimos outros escritores.

Conheci Saramago em Maputo em 1999. Inteligência brilhante, perspicácia cultural e política supra-apurada: nessa altura logo percebeu onde e como estava, tão ao contrário de tantos outros literatos que chegavam naquele “comboio descendente”. Verve fabulosa – vi-o fazer um improviso na Associação de Escritores, onde fez questão de se deslocar, absolutamente cativante. Voltou em 2000, apresentando um livro então editado (“A Caverna”). Falou bem, de novo.

Agora no dia da sua morte leio sobre ele. A “direita” portuguesa (tal como em tempos alguns jornalistas moçambicanos feitos homens de cultura) não lhe perdoa o anátema lançado pela igreja católica. Beata e nacionaleira não lhe perdoa ter ido embora para Espanha, ter-se zangado com a censura que o ministério da cultura lhe fez – a “direita” portuguesa está sempre contra o ministério da cultura, acha que o Estado não deve induzir o gosto (valores), apenas cuidar do património histórico como se este fosse “absoluto”, como se isso não fosse induzir gosto (valores). E “esquece-se” que censurar, “obstaculizar”, obras é induzir gosto (valores).

A “direita” portuguesa resmunga, vocifera, que o homem era comunista, é apenas isso que consegue reter. Esta “direita” portuguesa é, sem qualquer remissão, um monte de lixo. Improdutivo. Entenda-se: infecto. E infeccioso.

Estou certo que o cidadão Saramago gostava disso. Mas não é disso nem desse que se trata quando morre um escritor. E muito menos quando vive um escritor. Não devia ser difícil perceber essa (afinal não) lapalissada.

Adenda: entre o muito que se tem escrito sobre o escritor realço os textos de Francisco José Viegas e de Pedro Correia, também pelo que nos dão a conhecer do homem como escritor. Ainda os textos de Henrique Fialho (que aqui ensaia uma colectânea dos blogoecos sobre o escritor). Abaixo o ABM já referiu o esperado can-can do regime a propósito da morte de Saramago – e o Henrique Fialho remata esse assunto.

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UM REQUIEM POR SARAMAGO

Sexta-feira, Junho 18th, 2010

por ABM (18 de Junho de 2010)

Morreu hoje mais um membro do Partido Comunista Português.

Dizem que escrevia bem e como tal, não sei por que processo, os membros lá da Academia Sueca, concederam-lhe há doze anos um prémio Nobel. Eles lá sabem e nós agradecemos, pois por uns momentos e mais uma vez, achámos que a cultura e a língua portuguesa ascenderam aos píncaros, em vez de serem usadas para coisas mais rascas como falar com a menina da caixa do hipermercado Continente de Cascais e encher os diálogos das telenovelas da TVI todas as noites.

Rumores de que escrevia sem acentos e sem vírgulas e a texto corrido são completamente falsos, só quem não o lê é que pensa assim. Os outros sabem-no, mas, curiosamente, chamam-lhe “inovação artística universalista”. Eu não achava graça àquilo mas a culpa é do ambiente em que cresci, em que fui torturado para ter cuidado com a pontuação, as vírgulas e os parágrafos senão estava feito.

Era um tipo particularmente tortuoso e demonstrava-o nos seus textos. Antes de morrer, matou Jesus Cristo, denunciou a Bíblia e mudou-se para a Espanha, dizendo que não gostava do vizinho. Que era Portugal, onde teve a sorte de nascer e crescer no Ribatejo, o meu retiro português. Que achava que devia ser integrado numa união ibérica (por outras palavras, Espanha). O João César das Neves costumava fazer tiro ao alvo ao Saramago sempre que podia no seu (de Saramago) velho jornal.

Tinha a virtude de, de uma forma original, questionar tudo e mais alguma coisa, o que me faz lembrar a juventude (não comuna) dos anos 60 e 70, só que ele fazia-o de forma refinada, algo erudita, e retrovertida do português barroco. Com a idade, tornou-se tão irreverente que nem os velhotes lá do PC já o aturavam.

Para mim, era uma espécie de psicanalista amador que tentava meter um paciente no divã virtual e que o tentava curar com tratamentos de choque, sem nunca se ter apercebido que o doente era irreformável e incurável. O paciente, que era um país inteiro (Portugal) ignorava-o displicentemente e teve que engolir desassete sapos quando os nóbeis telefonaram para Lisboa.

José Saramago teve a grande sorte de se juntar, tardiamente a uma grande mulher, a Pilar, perante quem naturalmente me curvo pela perda do companheiro. Acho que esses foram os seus únicos bons anos.

Os bardos da praça e os comentadores de bancada já se redobram em esforços para o enaltecer como Grande e os Maschambianos deverão vestir-se de preto e carpir apropriadamente. Eu vou ver se espero uns anitos antes de tentar digerir aquilo tudo.

E entretanto vou lendo um pouco de Oliveira Martins e Eça.

Não sei como dizer de uma forma mais simpática, mas não me revejo nem nunca me revi, nem na pessoa, nem na sua obra. Nem como pessoa e muito menos como falante de português ou utilizador fortuito desta coisa maleável que é a cultura que uns tantos partilham, de uma forma ou outra.

Mas insistem que estou errado. E eu que não estou. Fica-se por aqui. A grandeza dos homens e da sua obra é sempre relativa aos tempos.

Entretanto, preparem-se para o Regime descambar numa longa e solene despedida.


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Richard Zimler

Quarta-feira, Outubro 28th, 2009

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Saramago e a Insustentável Leveza da Ignorância, de Richard Zimler. A ler este excelente texto sobre a Bíblia e sua tradição. E, também, sobre Portugal e seu “estado da arte”.


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Ainda Saramago. E Pulido Valente. E Lobo Antunes. Portugal.

Terça-feira, Outubro 27th, 2009

1. A propósito da sequência das declarações “bíblicas” de José Saramago uma insistência no tema, talvez a aborrecer os visitantes. Mas é uma sequência de dizeres tão sintomáticos sobre Portugal que se tornam irresistíveis.

No Mar Salgado Vasco Lobo Xavier ecoa que Saramago defende que Deus devia ter vedado a macieira com rede. É uma afirmação deliciosa, levando a matéria para onde ela realmente pertence. Tal como o nosso ABM lembrou nestas declarações do que se trata é de um conflito ideológico-político com a Igreja Católica, nada reduzíveis às furibundas invectivas de publicidade ou senilidade. Pois torna-se óbvio que para Saramago é possível o paraíso, nos seus avatares que foram correntes: sociedade de lazer, sem exploração, sem escassez, de “homem novo”. O que para isso é necessário é que alguém, alguns, construa(m) a cerca (e por ela velem) que defenda os homens da “natureza humana”. À “incompetência” (aliás, inexistência) da divindade suceder-se-á a competente tutela do partido, em particular a dos seus intelectuais.

2. Ficou (algum?) Portugal aos gritos com o assunto (mesmo os que se aprestaram a dizer que não havia nada a dizer), uns vociferando contra o herege, outros lamentando-lhe a incapacidade de crítica literária, a falta de profundidade hermenêutica.

Finalmente chegou-me às mãos um jornal Público da semana passada. Onde diz Vasco Pulido Valente: “O problema com o furor que provocaram os comentários de Saramago sobre a Bíblia (mais precisamente sobre o Antigo Testamento) é que não devia ter existido furor algum.” Como é óbvio, e não só porque velhas como a própria Bíblia são as invectivas a Deus.

Mas logo avança Pulido Valente: “Não assiste a Saramago a mais remota autoridade para dar a sua opinião sobre a Bíblia ou sobre qualquer outro assunto, excepto sobre os produtos que ele fabrica, à maneira latino-americana, de acordo com o tradição epigonal indígena.” Entenda-se, Saramago pode falar do que faz, do seu artesanato, do seu ofício. Sobre outros assuntos não tem autoridade, “a mais remota”. Depreendo, até porque condiz com o locutor, que para falar de assuntos abrangentes, fora da vidinha de cada um, há apenas alguns com autoridade, os especialistas. É uma explícita divisão social do trabalho (intelectual). À “incompetência” (aliás, inexistência) da racionalidade geral suceder-se-á a competente tutela do partido, perdão, das elites, em particular a dos seus intelectuais.

Para culminar com o gráfico de Portugal no mesmo jornal diz Lobo Antunes: [os populares] “É óptimo. Uma pessoa não tem guarda-chuva e eles emprestam.” 

Olhando para o agregado de locutores está bem marcado o quadro. As três ordens de Dumézil trazidas até quase-nós por Duby: 1. os sábios/intelectuais (com estudos) que têm autoridade abrangente; 2. os arrivistas (escritores que não pensam como os sábios, jornalistas, bloguistas, lumpen-burguesia, sindicalistas ex-aristocracia do ex-proletariado) que querem falar mais do que da sua vidinha; 3. os populares, porreiros porque emprestam o guarda-chuva. Modelo agora em aparência (pós)moderna, mas bem, bem, antigo. Foi feudal, antes indo-ariano. E ainda hoje vigora.

Isto são só coincidências. Releio o artigo “Indústria e Repressão Sexual numa Sociedade da Planície do Pó” e umas páginas antes diz assim (minha versão do francês): “Tem uma sincera e primitiva admiração por aquele que sabe. Desse sempre sublinha as suas qualidades manuais, a memória, a metodologia evidente e elementar: tornamo-nos cultos lendo muitos livros e retendo o que eles dizem. A suspeita que a cultura possa ter uma função crítica e criadora não lhe surge. À cultura julga-a segundo um critério puramente quantitativo. Nesse sentido (o de que para ser culto é necessário ter lido muitos livros durantes muitos anos) é natural que o homem que não é predestinado renuncie a qualquer tentativa“. (Umberto Eco, “Phénoménologie de Mike Bongiorno“, Pastiches et Postiches, 1992, p. 63). Ou seja, que emprestemos os nossos guarda-chuvas.

É óbvio que nada disto tem a ver com as insistentes considerações sobre “onde está” a direita ou a esquerda, característica questão da topologia portuguesa. É muito mais perene. O tal modelo trifuncional nas mentes de alguns. E sempre associado com a apropriação sociológica do discurso. No fundo com quem pode (e deve) vedar a macieira. Ou levar-nos até ela.

Chove! Vou ali emprestar o meu chapéu-de-chuva.

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Rilke, a propósito do padre Carreira das Neves e de José Saramago

Sábado, Outubro 24th, 2009

Acabo de ver na SIC o “debate” entre o padre Carreira das Neves, professor da Universidade Católica, e José Saramago, acolhido por Mário Crespo. Morno, desinteressante. O escritor algo defensivo e pouco convincente [talvez suspeitando que, como diz Eduardo Pitta (que agora leio) "Infelizmente, Saramago dá um passo maior que a perna."] . O padre explicitando o carácter histórico-cultural da Bíblia, a sua dimensão literária – visão com a qual é fácil concordar, mas se assim é então porquê tanta azáfama na contra-crítica? E, mesmo, porquê o inusitado debate “literário” (!?)? Se alguém disser que Marco Polo era uma aldrabão, Dante um mitómano, Virgílio um chato, Heródoto um falsário, haverá tanta irritação, tamanha ofensa? Mas não são estes textos compreensíveis no seu contexto histórico, literários, metafóricos, etc e tal? Tenho, temos, alguma obrigação moral ou política de dizer bem de Marco Polo? Algum impedimento social de o refutar ou, até mesmo, insultar?

Mas para além disso ao ouvir o bom padre (grosso modo: a Bíblia é simbólica, é literatura, são imagens, e nós estamos lá com as nossas notas de rodapé para guiarmos os leitores – ali no Mário Crespo a história do catolicismo debitada) logo me lembrei de Rilke

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[Rainer Maria Rilke, Histórias do Bom Deus, Quasi, 2008, tradução de Sandra Filipe]

Está o narrador de Rilke contando uma história centrada no facto de que “Deus, devido a uma feia desobediência das Suas mãos, não sabe qual é o aspecto final do homem” (20) pelo que engendra forma de o conhecer. Logo as crianças ouvem essa narração e …

A história anterior espalhou-se de tal modo que o senhor professor passeia pela travessa com um ar profundamente ofendido. Compreendo-o. É sempre desagradável para um professor as crianças saberem de repente qualquer coisa que ele não lhes contou. O professor deve ser, por assim dizer, o único buraco no tapume através do qual se pode ver o pomar; há no entanto outros buracos, por isso as crianças todos os dias se empurram para a frente de outro, mas em geral ficam logo fartas do panorama. (…)

Ele [o professor] estava de pé, à minha frente, a puxar os óculos para cima, vezes sem conta, e dizia: “Não sei quem contou esta história às crianças, mas, seja como for, é injusto sobrecarregar-lhes e exacerbar-lhes a imaginação com invenções tão extravagantes como esta. É uma espécie de conto de fadas …” (…) continuou muito apressado “Primeiro parece-me mal que se utilizem livre e arbitrariamente temas religiosos e sobretudo bíblicos. É que tudo isso foi descrito de tal forma na catequese que se torna impossível contá-lo melhor.” (…) “E finalmente (…) afigura-se-me que o assunto não está suficientemente aprofundado e visto sob todos os aspectos.” (…) “Sim, dou pela falta de muitas [coisas]. Do ponto de vista de crítica literária, maioritariamente.” (22-24)

***

Um delícia. Não fosse a tristeza de ver a paróquia tão paroquial.

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Mário David, deputado europeu, vice-presidente do Partido Popular Europeu

Quinta-feira, Outubro 22nd, 2009

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[Mário David com a bandeira nacional, tal como se apresenta na sua página oficial]

 

Independentemente do que se pensa de Saramago, como escritor e/ou como cidadão, é interessante visitar a “página oficial de Mário David, deputado ao Parlamento Europeu, vice-presidente do Partido Popular Europeu” [entre aspas a forma como o sítio está apresentado], o qual desencadeou alguma polémica a propósito das recentes declarações do autor. Francamente não sei se a retórica e o grafismo muito institucional representam realmente uma página de cariz oficial dos deputados europeus. Mas a associação de ambos convoca essa ideia – há pelo menos uma vontade de a assumir.

Nesse caso será de referir que um deputado português (e vice-presidente de um partido europeu) propõe a pena de ostracismo (patrocina a sua adopção, ensaia a sua indução) de um cidadão português por este exercer a sua liberdade de culto, o seu direito à blasfémia (se assim se quiser entender). Não o faz numa mera página pessoal, mas numa página ou oficial ou de assumida vontade de oficialidade encenada. É grave. Recordo o que há anos aconteceu com uns comentários menos benquistos que um deputado da Assembleia da República fez no seu blog inscrito no sistema do parlamento. E as reacções desabonatórias que colheu tal modo de opinar num meio oficial.

Este indivíduo, Mário David, afirma ainda (num catastrófico português, que só o apouca e ao partido que o tem como vice-presidente): ” …povos e confissões religiosas, valores que certamente desconhece mas que definem as pessoas de bom carácter.”. Não compreendo, exactamente, o que quer dizer Mário David com o valor “povos” (e creio que também ele não o sabe, que é um mero deslize). Mas acho absolutamente inaceitável que um deputado português, ainda para mais num registo oficial (ou que o quer aparentar), se permita dividir os seus concidadãos em função da adesão a valores religiosos: os bons definidos pela sua comunhão. E, como óbvio corolário, os maus (os de mau carácter) como aqueles que não os partilham.

Não é uma brincadeira nem uma histeria ateia. É absolutamente inadmissível que um deputado eleito num partido democrático insulte, desqualifique, os seus concidadãos deste modo. E que os seus pares não se desculpem, não se demarquem, assobiem para o lado reduzindo este caso a um mero fait-divers. Ainda para mais, sublinho, quando se trata não de um mero amanuense mas sim de um vice-presidente do Partido Popular Europeu, com toda a certeza por escolha do PSD.

É um ultraje.

Adenda: Mário David escreve um “Para fechar sobre Saramago”. É mais uma vez interessante ler – para compreender que no seu relativo passo atrás, e por mais maiúsculas essencializadoras que utilize, o deputado não compreende os limites que cruzou: insultou os ateus e, se assim se entender, os agnósticos. E é incapaz de reconhecer – e repito – o direito à blasfémia. Para Mário David todos devemos respeitar a Bíblia. Ora, é exactamente o contrário. Todos podemos respeitar a Bíblia e o Corão (pessoalmente acho muito aconselhável, diga-se). Mas não há nenhuma obrigação, legal, política ou moral. O deputado manifestamente não compreende isso.

Insisto, não é concebível que alguém que desconhece as obrigações políticas do seu país possa ocupar lugares como aqueles que ocupa. É, sem dúvida, um ultraje à democracia.

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Saramago

Quarta-feira, Outubro 21st, 2009

[Nota: Porfírio Silva, do Machina Speculatrix demonstrou nos comentários o seu desagrado pelo epíteto com que o descrevi. Tem toda a legitimidade para o fazer. Dou a mão à palmatória, ainda que insista que o meu propósito não era insultuoso do bloguista mas sim desqualificador do seu texto. Assim sendo alterei a entrada]

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A mística judaica imagina que um segundo de distracção do escriba ao qual Deus ditou a Torah se traduziu pela omissão de um acento, de um signo diacrítico. Foi através desse erratum que o mal se infiltrou na criação. (…) Distraído por qualquer coisa de realmente importante, Deus “deixou cair do Seu bolso” um cosmos inacabado.” (49)

Job, o Edomita, não reclama justiça. Se tivesse sido judeu, tê-la-ia reclamado. Mas Job, o Edomita, reclama sentido. Exige de Deus que faça sentido (fazer sentido [make sense]): eis uma das fórmulas mais impensadamente problemáticas das gramáticas da criação). Exige que Deus Se torne compreensível. Recusando por completo a concepção agostiniana – “se o apreendes, não é Deus” – Job intima Deus a revelar-Se de outro modo que não o das aparências do absurdo e do insensato. Os horrores imerecidos que desabam sobre Job abrem uma dupla possibilidade: que o criador seja fraco – e o satânico poderá prevalecer – ou puerilmente volúvel e sádico. Como um homem que “matasse por prazer”. Que seja, como diz Karl Barth no seu comentário do Livro de Job, “um Deus sem Deus”. (…) Deus é então culpado de ter criado“. (55-56), etc., etc.

[George Steiner, Gramáticas da Criação, Relógio d'Água, 2001, tradução de Miguel Serras Pereira]

O mal-estar com deus não é novo, veja-se acima. O mal-estar com os homens de deus também não o é. José Saramago, num país onde os blogo-Blasfemos defendem o criacionismo diante do aplauso burguês, convém não o esquecer, e onde milhões continuam a acreditar na visão de Fátima, botou o seu mal-estar com os homens de deus. E, é esta apenas a minha opinião, o seu mal-estar com (o seu) deus, um deus crual e vingativo. Em termos felizes?

Talvez não muito, dando o flanco a imputações de leitura pouco profunda da Bíblia. Pois o velho escritor (talvez já na idade e na situação de olhar deus) arranca agora umas declarações “chocantes”: A Bíblia (e o Corão) não é [são] de inspiração divina, disse. Coisa com que qualquer letrado deveria poder concordar. Invectiva também contra o deus castigador – aí reduzindo mas não falsificando. E alude (corrosivo, irado?) aos “maus costumes” vertidos na Bíblia – a mim choca-me a imagem dos “maus costumes”, o que é o Mal?, mas acima de tudo o que são os males?

[Tenho com a obra de Saramago uma relação há muito estabelecida. Não é a minha prosa (nesse registo o A Saga/Fuga de JB de Ballester encheu-me) nem é o meu mundo. Aos vinte anos li - e muito gostei - o Levantado do Chão. Antes lera, e gostara, o Memorial do Convento. Logo, logo, li o Ano da Morte de Ricardo Reis - que me terá sido um dos mais importantes livros da vida, foi a última leitura não-profissional que me forcei a levar até ao fim. Tinha vinte e um anos e ainda me lembro de o terminar: "nunca mais faço isto", exclamei, e desde então se não estou a gostar largo o livro. E assim fui fazendo, e também com vários dos seus livros. Depois, em 1998, li-lhe o Todos os Nomes, recebera ele o Nobel e por razões profissionais achei que lhe devia ler a obra. Nada gostei, lembro a sensação de estar diante de uma amálgama dos mundos de Borges e Kafka em registo longo e cansativo. São as vantagens do leigo, lê e pensa consoante o que lhe vem à cabeça.

Tenho do homem Saramago um conhecimento diferente. Cruzei-o em Maputo duas vezes. Deparei-me com uma cultura atroz (rais parta o homem), uma sageza ágil traduzida numa perspicácia fantástica, daquelas do "chegar, ver e entender", uma capacidade de improviso oral espantosa. E curvei-me diante da gentileza que comigo teve - e bem precisado estava eu, no meio dos lusobárbaros à solta. Não é por isso que lhe vou ler os livros, ainda comprei (em sessão de lançamento aqui, com direito a autógrafo final) o A Caverna, mas não terminei, cansado. Separo, como sempre, o homem dos seus livros, das coisas que faz.]

Mas não posso deixar de me espantar com o efeito Saramago. Em Portugal é um chorrilho. Cai o carmo e a trindade. O deputado Mário David, eurodeputado do PSD, propõe que o homem deixe de ser português pois ofende o povo – o que é isto, o ostracismo porque o homem diz que o deus nosso-senhor ensinado às crianças é castigador, porque lhe nega a omnisciência e restante omnipotência? A que miséria intelectual está condenado um dos partidos básicos do regime português, a que baixeza está condenada Portugal? Por todo lado abundam as críticas ao perverso escritor, ao medíocre escritor – imerecido Nobel. Dá para tudo: invectivam a ignorância com que põe em causa a grandiosidade literária da Bíblia (lendo as notas noticiosas bem que procuro saber como o fez, mas não o encontro: e até o mais arguto dos bloguistas carrega contra o gigantesco moínho de vento) – já agora gostaria de saber quais dos utentes deste argumento arrumam a sua Bíblia nas estantes no seio da literatura (letra B; secção vários; autor Deus, etc) … Na área do bloguismo político socialista (um bocado a despropósito, acho eu) aproveita-se para lembrar que Durão Barroso foi do MRPP em 1975 (mas nunca se refere que Mário Lino foi um abjecto controleiro estalinista dos comunistas portugueses destacados para Moçambique, não sei porquê, ou talvez porque as histórias são vergonhosas e “jamais” convirá lembrá-las). Os mais exaltados camaradas truncam-lhe os argumentos, feitos meras bandeiras ao deus-dará.

Ninguém se lembra que dos escritores o que interessa são os livros? Olho para trás, Oscar Wilde devia ser uma bicha insuportável, Shakespeare um tiranete lá no teatro, Tolstoi um chato do caralho. Lowry um bêbedo de fugir, Céline um nazi filhodaputa. É disso que falamos ou lemos-lhes, deliciados, os livros?

Vã política, vã jornalice, vã bloguice. Vã-glória de opinar.

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