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Dezembro 1st, 2005 — Fernando Assis Pacheco
não sou lá muito disso, acima de tudo uma canseira. E até assim para o seco (”hoje é o dia de falar de … porque tem que ser”). Mas neste caso, neste seu verdadeiro sentido de “tábuas astronómicas que indicam a posição dos planetas para cada dia do ano”, é no Da Literatura que me acordo do meu desnorte [o cujo, caso diferente tivesse sido o clic-clic, ter-se-ia estancado ainda que insone].
O dia em que nasci meu pai cantava
versos que inventam os pastores do monte
com palavras de lã fiada fina
cordeiro lírio neve tojo fonte
esta é uma velha história de família
para dizer como ele e eu chegámos
à raiz mais profunda do afecto
do qual nunca jamais nos separámos
nem Deus feito menino teve um pai
que o abraçasse e lhe cantasse assim
desde a primeira hora até ao fim
fui vê-lo ao hospital quando morria
olhos parados num sorriso leve
tojo cordeiro lírio fonte neve
Antes expliquei-me sobre este Fernando Assis Pacheco, do “Respiração Assistida” único seu livro que aqui tenho: aqui e com outro poema.
Agora podia continuar a teclar, a “postar” poemas. Mas vão ler.
Março 5th, 2005 — Fernando Assis Pacheco, Rue Catinat
…
nesse tempo ainda os meus pais eram da família
que depois perdi em anos consecutivos
e eu julgava-os imortais como deuses de luz clara
brilhando à mesa sobre a grande toalha de linho
…
[Fernando Assis Pacheco, “Elegia mandada por carta ao Tim”, Respiração Assistida]
Março 3rd, 2005 — Fernando Assis Pacheco, Rue Catinat
Ao ler o livro de Assis Pacheco, do qual abaixo transcrevo excerto de poema, decidi abrir um blog. Abri-o com isto, vem agora para aqui.
Março 3rd, 2005 — Fernando Assis Pacheco, Rue Catinat
Triste de mim mais triste que a tristeza
triste como a mão que segura o copo
como a luz do farol esgaçando a névoa
triste como cão manco
deixado na serra pelos caçadores
…..
triste como uma puta alentejana
num bar de Ourense
que me viu à cerveja e lesta
me chamou compadre
vozes que a gente colecciona
…
triste e já sem nenhum reparo
a fazer à metafísica
senão que é um défice
porventura
do córtex cerebral
[Fernando Assis Pacheco, Respiração Assistida]