[Eça de Queiroz, Por Obséquio Retire-se do Meu Personagem, Babel, 2010]
Uma “Carta a Pinheiro Chagas”, datada de 14.12.1880 – destrutiva do destinatário – que é um verdadeiro manifesto. De uma actualidade radical, apesar do tom de optimismo pedagógico da época.
“Em nós outros não é por gorjeios de rouxinol parlamentar, por apóstrofes balbuciadas aos pés das Molucas, por soluços de um peito sufocado de êxtase, por serenadas e endechas, que se traduz o amor do país; é por emoções pequeninas, triviais e caseiras, que pouca relação têm com a estrondosa tomada de Ormuz: emoções de burguês que vive no estrangeiro, ao canto solitário do seu lume solteirão.” (45)
“É que há duas espécies de patriotismo, meu caro Chagas.
Há em primeiro lugar o nobre patriotismo dos patriotas: esses amam a pátria, não dedicando-lhe estrofes, mas com a serenidade grave e profunda dos corações fortes. Respeitam a tradição, mas o seu esforço vai todo para a nação viva, a que em torno deles trabalha, produz, pensa e sofre: e, deixando para trás as glórias que ganhámos nas Molucas ocupam-se da pátria contemporânea, cujo coração bate ao mesmo tempo que o seu, procurando perceber-lhe as aspirações, dirigir-lhe as forças, torná-la mais livre, mais forte, mais culta, mais sábia, mais próspera, e por todas estas nobres qualidades elevá-la entre as nações. Nada do que pertence à pátria lhes é estranho: admiram decerto Afonso Henriques, mas não ficam para todo o sempre petrificados nessa admiração: vão por entre o povo, educando-o e melhorando-o, procurando-lhe mais trabalho e organizando-lhe mais instrução, promovendo sem descanso os dois bens supremos – ciência e justiça.
(…)
Dão-lhe [à pátria] sobretudo o que as nações necessitam mais, e o que só as faz grandes: dão-lhe a verdade. A verdade em tudo, em história, em arte, em política, nos costumes. Não a adulam, não a iludem: não lhe dizem que ela é grande porque tomou Calecut, dizem-lhe que é pequena porque não tem escolas. Gritam-lhe sem cessar a verdade rude e brutal. (…) Eis o nobre patriotismo dos patriotas.
O outro patriotismo é diferente: para quem o sente, a pátria não é a multidão que em torno dele palpita na luta da vida moderna – mas a outra pátria, a que há trezentos anos embarcou para a Índia, ao repicar dos sinos, entre as bênçãos dos frades, a ir arrasar aldeias de mouros e traficar em pimenta. Esse, a sua maneira de amar a pátria é tomar a lira e dar-lhe lânguidas serenadas. Esse sobe à tribuna de Parlamento ou ao artigo de fundo, e de lá exclama, com os olhos em alvo e o lábio em luxúria (…) – Deixa lá … Tu tomaste Cochim.
É esse patriotismo que, quando alguém salta uma verdade, acode de mão à cinta (…) - Olá, que injúria é essa à pátria? Pois não sabes tu, ignorante, que nós somos ainda temidos na Índia?
(…)
Este patriotismo (…) eu chamar-lhe-ia entre nós patriotice.” (32-35)
Essa patriotice tem no ma-schamba levado este nome.
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