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Gripe Estatal

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Hã, também eu custei a crer … Mas depois tive de me convencer. Acredite em mim, nós nem suspeitamos de quão grande é o génio do chefe que nos guia… Uma ideia formidável para tomar o pulso do país … A gripe estatal! Não é maravilhoso? A gripe que só ataca os pessimistas, os incrédulos, os opositores, os inimigos da pátria escondidos em todos os cantos … E os outros, os cidadãos dedicados, os patriotas, os funcionários conscienciosos, todos imunes.”

[Dino Buzzati, "A Epidemia", em A Derrocada de Baliverna, Cavalo de Ferro, 2008, p. 190, tradução de Margarida Periquito]

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Dino Buzzati, O Deserto dos Tártaros, Lisboa, Cavalo de Ferro, 2005 (tradução de Margarida Periquito)

No fundo do seu espírito grassa até a pávida satisfação de ter evitado mudanças bruscas de vida, de poder instalar-se de novo nos seus velhos hábitos. Ilude-se, Drogo, com a ideia de uma gloriosa vingança a longo prazo, julga ter ainda uma imensidade de tempo à sua disposição e renuncia assim à luta miudinha pela vida de cada dia. Há-de chegar o dia em que será generosamente recompensado, pensa. Mas entretanto os outros antecipam-se, disputam avidamente a passagem para serem os primeiros, superam a correr Drogo sem tão-pouco lhe darem atenção, deixando-o para trás. Ele vê-os desaparecer ao fundo, perplexo, assaltado por dúvidas insólitas: e se de facto estivesse enganado? Se não fosse mais do que um homem comum a quem, por direito, cabe apenas um destino medíocre?” (167)

O tempo entretanto passava a correr, a sua batida silenciosa marca, cada vez mais apressada, o ritmo da sua vida; não é possível parar nem por um instante, nem sequer para olhar para trás. “Pára, pára!”, apetece-nos gritar, mas percebemos que é inútil. Tudo se afasta a correr: os homens, as estações, as nuvens; de nada serve agarrarmo-nos às pedras, resistir sobre um recife; os dedos exaustos abrem-se, os braços pendem inertes, e voltaremos a ser arrastados pelo rio, que parece lento nunca se detém.” (193)

E assim Drogo sobe uma vez mais o vale da Fortaleza, e tem menos quinze anos para viver. Infelizmente não se sente muito mudado, o tempo passou tão velozmente que o espírito não chegou a envelhecer. E conquanto a inquietação obscura das horas que se escoam seja cada vez maior, Drogo porfia na ilusão de que o importante ainda está para vir. Aguarda impacienta a sua hora, que nunca chegou, sem pensar que o futuro se reduziu drasticamente; já não é como antigamente, em que o tempo vindouro podia parecer-lhe um período imenso, uma riqueza inesgotável que se podia esbanjar sem correr riscos.” (199)

Fazendo um esforço, Giovanni endireita um pouco o busto, ajeita com a mão o colarinho do uniforme, deita mais um olhar para fora da janela, uma olhadela muito breve para arrecadar o seu derradeiro quinhão de estrelas. Depois, no escuro, embora ninguém o veja, sorri” (233)

Contribuição para o Natal alheio

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Mas se lhe tivessem dito: será sempre assim enquanto viveres, sempre igual até ao fim, também ele teria despertado. Impossível, teria dito. Algo diferente terá de acontecer, qualquer coisa realmente digna, que nos permita dizer: agora, mesmo que tenha chegado o fim, paciência

[Dino Buzzati, O Deserto dos Tártaros, Cavalo de Ferro, p. 58]