Archive for the ‘Literatura’ Category

O Patriotismo segundo Eça de Queiroz

Sábado, Agosto 28th, 2010

[Eça de Queiroz, Por Obséquio Retire-se do Meu Personagem, Babel, 2010]

Uma “Carta a Pinheiro Chagas”, datada de 14.12.1880 – destrutiva do destinatário – que é um verdadeiro manifesto. De uma actualidade radical, apesar do tom de optimismo pedagógico da época.

Em nós outros não é por gorjeios de rouxinol parlamentar, por apóstrofes balbuciadas aos pés das Molucas, por soluços de um peito sufocado de êxtase, por serenadas e endechas, que se traduz o amor do país; é por emoções pequeninas, triviais e caseiras, que pouca relação têm com a estrondosa tomada de Ormuz: emoções de burguês que vive no estrangeiro, ao canto solitário do seu lume solteirão.” (45)

É que há duas espécies de patriotismo, meu caro Chagas.

Há em primeiro lugar o nobre patriotismo dos patriotas: esses amam a pátria, não dedicando-lhe estrofes, mas com a serenidade grave e profunda dos corações fortes. Respeitam a tradição, mas o seu esforço vai todo para a nação viva, a que em torno deles trabalha, produz, pensa e sofre: e, deixando para trás as glórias que ganhámos nas Molucas ocupam-se da pátria contemporânea, cujo coração bate ao mesmo tempo que o seu, procurando perceber-lhe as aspirações, dirigir-lhe as forças, torná-la mais livre, mais forte, mais culta, mais sábia, mais próspera, e por todas estas nobres qualidades elevá-la entre as nações. Nada do que pertence à pátria lhes é estranho: admiram decerto Afonso Henriques, mas não ficam para todo o sempre petrificados nessa admiração: vão por entre o povo, educando-o e melhorando-o, procurando-lhe mais trabalho e organizando-lhe mais instrução, promovendo sem descanso os dois bens supremos – ciência e justiça.

(…)

Dão-lhe [à pátria] sobretudo o que as nações necessitam mais, e o que só as faz grandes: dão-lhe a verdade. A verdade em tudo, em história, em arte, em política, nos costumes. Não a adulam, não a iludem: não lhe dizem que ela é grande porque tomou Calecut, dizem-lhe que é pequena porque não tem escolas. Gritam-lhe sem cessar a verdade rude e brutal. (…) Eis o nobre patriotismo dos patriotas.

O outro patriotismo é diferente: para quem o sente, a pátria não é a multidão que em torno dele palpita na luta da vida moderna – mas a outra pátria, a que há trezentos anos embarcou para a Índia, ao repicar dos sinos, entre as bênçãos dos frades, a ir arrasar aldeias de mouros e traficar em pimenta. Esse, a sua maneira de amar a pátria é tomar a lira e dar-lhe lânguidas serenadas. Esse sobe à tribuna de Parlamento ou ao artigo de fundo, e de lá exclama, com os olhos em alvo e o lábio em luxúria (…) – Deixa lá … Tu tomaste Cochim.

É esse patriotismo que, quando alguém salta uma verdade, acode de mão à cinta (…) - Olá, que injúria é essa à pátria? Pois não sabes tu, ignorante, que nós somos ainda temidos na Índia?

(…)

Este patriotismo (…) eu chamar-lhe-ia entre nós patriotice.” (32-35)

Essa patriotice tem no ma-schamba levado este nome.

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A tripartição

Sexta-feira, Agosto 27th, 2010

[G. Steiner, Nostalgia do Absoluto, Gradiva (2003 [1974])]

Devo sugerir, com hesitação, mas, espero, alguma seriedade, que a famosa divisão da consciência psicológica humana – id, ego, superego – deve muito à divisão em cave, quartos e sotão da casa da classe média vienense na viragem do século XIX para o XX.” (25).

(muito a propósito, ver a entrada anterior)

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“África”

Quinta-feira, Agosto 19th, 2010

Lá para o meio da madrugada já coloquei isto no meu mural facebookiano mas é material mais digno de blog. A história do texto narrado no filme e da sua sequela está no New Yorker. E aqui está o supra-corrosivo “How to write about Africa” de Binyavanga Wainaina, já de 2005, seguido deste actual “How to write about Africa: the revenge”. Vale a pena ler (e/ou ouvir). E não será preciso ser caçador furtivo para encontrar essa “África” na literatura (e blogotura) por esse mundo fora – alguma da qual já por aqui andou a ser pontapeada (e não só por mim).

Uma delícia. Ou melhor, duas delícias, que se o texto inicial é supra-certeiro a sua sequela é fantástica, reflectindo o eco obtido. Ou seja, bi-reflectindo a má consciência. Pirosa, quase sempre. Ou mesmo sempre. “Because they care …”

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O Novo Livro de Torquato da Luz

Quarta-feira, Agosto 18th, 2010

Torquato da Luz publica no Ofício Diário. Há pouco editou este seu novo livro “Espelho Íntimo” (edição de O cão que lê), que agora me chega às mãos. Uma poesia que diz o caminho, necessário, contínuo. Insano?

Pescaria

Pescador de águas límpidas, lancei
a minha rede e esperei.
Mas o peixe fugiu, foi mais sagaz
do que algum dia imaginei.
Agora só me resta ser capaz
de começar de novo a pescaria,
até um dia.

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Ruy Duarte de Carvalho por ele próprio

Sábado, Agosto 14th, 2010

É via Joana Lopes e também o mais-que-recomendável Buala. Cultura Contemporânea Africana que apanho Ruy Duarte de Carvalho por ele próprio (no sítio da sua editora, a Cotovia – que o tratava bem). Maneira também de avisar os leitores do ma-schamba: se nunca leram os seus livros vão à livraria (ou à estante de amigos). Valem mesmo a atenção.

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Ruy Duarte de Carvalho entrevistado por Carlos Vaz Marques (2008)

Sexta-feira, Agosto 13th, 2010

O caro ABM descobre Ruy Duarte de Carvalho entrevistado por Carlos Vaz Marques em 2008, aquando do lançamento do seu livro “Desmedida“, uma recriação de uma sua viagem ao Brasil. A ouvir. Uma bela conversa. Mérito do entrevistado. E do entrevistador.

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Morreu Ruy Duarte de Carvalho

Quinta-feira, Agosto 12th, 2010

Acabo de saber que morreu o Ruy Duarte de Carvalho. Antropólogo, cineasta, escritor. De quando em vez aqui deixei modestas referências à sua obra. Até resmungos sobre a urgência em premiá-lo, entenda-se isso como urgência em ler os seus livros. Os quais adoro, é o termo correcto. [Também por isso o primeiro post do ma-schamba é uma citação de um texto seu].

Conheci-o há uma década, uns breves dias desses encontros académicos. Era ele um daqueles casos, raros, em que a excelência da escrita é acompanhada pela do homem que escreve.

Quem olhará os pastores, agora?

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Inverno, Domingo à Tarde

Domingo, Agosto 8th, 2010

- encontrado no mural de MS, no facebook. Para lembrar o dito, o autor e o Mário Viegas.

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HOMENAGEM AOS AÇORES

Domingo, Junho 27th, 2010

por ABM (Domingo, 27 de Junho de 2010)

Apesar da minha vertente africana, pai e mãe (e linhagem até aos colonos originais das ilhas no séc. XV e XVI) nasceram e cresceram na ilha açoriana de São Miguel, sobre a qual as únicas coisas que eu sabia até aos doze anos, para além duma hilariante visita do meu avô paterno MIM a Moçambique em 1968, eram um cartaz promocional da ilha igual à fotografia acima exibida e que estava na cozinha dos BM, e o misterioso sotaque dos meus pais, que os acompanhou até ao dia em que morreram – e que é particular à Ilha de São Miguel, e tão diferente do sotaque falado na cidade de Lourenço Marques.

Em Moçambique, o sotaque do pai BM era legendário e a sua proveniência gentilmente parodiada. Lembro-me de, antes da independência, a revista Tempo, na sua versão light antes de 1975, ter feito, no fim das suas edições, uma espécie de “dicionário” de termos. com a respectiva explicação, que usavam para fazer algum comentário local. Para a entrada “açoriano”, a tradução era “Botelho de Melo”.

As duas melhores amigas da mãe BM em mais que vinte anos de África, eram duas açoreanas, Conceição e Maiana, com quem manteve contacto até falecer em 2005 nos Estados Unidos.

Quando vivi década e meia na costa Leste dos Estados Unidos, tive então o raro privilégio de conviver com tanta gente de lá, no que é considerada ainda a “décima Ilha”. E que incluíram alguns mais conhecidos: a Natália, o Onésimo, o Martins Garcia, o Cristóvão de Aguiar, o Adelino Ferreira (director do Portuguese Times, onde escrevi durante mais que duas décadas, para ver se não me esquecia de como se falava e escrevia em língua portuguesa) etc.

E com este sotaque, ao mesmo tempo tão familiar e tão peculiar dos micaelenses, um vulto tão familiar em casa.

Definitivamente, uma forma tão diferente e tão peculiar de se ser português.

E em particular com o sentido de humor, sentido aestético e a maneira de estar dos açorianos, que não tem igual em quase parte nenhuma. Eu acho que o próprio Fernando Pessoa, cuja mãe era uma açoriana da Ilha Terceira, subestimava esse efeito, preferindo elaborar referências místicas sobre a sua proveniência beirã e judia, notoriamente mais diluída. Mas não conheço muito que tenha sido escrito sobre a sua mãe, que viveu até 1925 (morreu na Amadora) e que era de Angra do Heroísmo, cidade onde Pessoa esteve em Maio de 1902 para visitar a família materna. Escreve-se tanto sobre o homem mas a mãe a relação com a mãe, e a terra da mãe, quase népia. O primeiro poema conhecido de Fernando Pessoa? dedicado à sua mãe, que o guardou para a posteridade:

À MINHA QUERIDA MÃE

Eis me aqui em Portugal
Nas terras onde eu nasci.
Por muito que goste delas,
Ainda gosto mais de ti.

(26-7-1895)

Mãe açoriana é outra loiça.

Para quem não conhece o sotaque e humor de São Miguel, que eu conheço relativamente bem, aqui fica um saborzinho num domingo de início de verão, com estas duas jóias. Na primeira, uma paródia à série “Doutor House”. Na segunda, um micaelense conta detalhes de uma visita à América.

Bom fim de semana.

E vivam os açorianos, incluindo o que fez estes filmes.


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Lusofonia literária

Sexta-feira, Junho 25th, 2010

Muito bem diz o Henrique Fialho qu’isto de morrerem os escritores é momento em que “pede-se que dêem especial destaque aos livros do autor. A quem está de fora pode parecer mero oportunismo comercial, mas a quem está por dentro é como se uma lufada de ar fresco tivesse entrado pela livraria.”, e está a falar da morte do Nobel lusófono, Saramago. Percorro os escaparates comerciais da lusófona Maputo e nada – queixar-se-ão que vendem poucos livros? Mas como criticar se nem as vitrinas institucionais o fazem? Não existem (também) para isso?

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Flinstones

Sexta-feira, Junho 25th, 2010

O poeta António Manuel Couto Viana morreu e a Assembleia da República portuguesa vetou um voto de pesar, por “razões” de ignorância histórica e de anacronismo ideológico. A história é contada aqui e muito bem definida aqui. Penosamente engraçado que a história seja contemporânea das (vis, assim se prova à exaustão) “indignações” com o funeral de Saramago. A topologia continua a ser o saber central do “ser” das teclas portuguesas, e nessas se incluem as dos “intelectuais” e “artistas” (até actrizes bonitas) recrutáveis, donde recrutadas. O estado flinstoniano domina? O estado flinstoniano é.

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Deus, Saramago e o Estado Português

Quarta-feira, Junho 23rd, 2010

Leio a reportagem do funeral de Saramago. E encontro as palavras da ministra da cultura portuguesa Gabriela Canavilhas: “[Saramago] Não tinha fé em Deus, mas se Ele existe certamente Deus teve fé nele.” Atento no último tempo verbal que tende a apagar (nunca involuntariamente pois são as palavras da ministra da cultura, linguisticamente competentes) o hipotético “se” que o antecede. Não me distraio com o aparente tom poético-simbólico da formulação, pois a questão “Deus” foi por demais importante na vida de Saramago e na sua relação com a sociedade portuguesa – e continua a sê-lo, até na própria política – para que se possa reduzi-la a um mero trocadilho de cariz simbólico.

O que a ministra da cultura ali fez, em pleno funeral e contando com o beneplácito dos condolidos presentes, foi matizar o ateísmo do falecido. Deixá-lo entender como (reduzi-lo a) idiossincracia do vulto literário, uma excentricidade de génio. E fê-lo através de uma formulação típica de um qualquer cura face ao descrente da aldeia, salvaguardando a fé da comunidade apesar da excepção em causa.

O Estado é laico e não é função das suas figuras opinar sobre religião. Muito menos relativizar, post-mortem, as concepções do mundo dos seus cidadãos. O que se assistiu, mesmo que numa encenação de homenagem, foi a uma explícita censura às ideias do autor. Abrupta, violenta, mesmo que subreptícia – disfarçada de suaves sorrisos solidários, sentida admiração e até algum bem-estar estético, como Canavilhas empacotou o discurso. Nada mais do que um acto totalmente inadmissível. Rasteiro.

As gentes da aldeia, ali congregadas e apenas preocupadas com quem esteve ou não esteve presente, aplaudem. Nem surdos nem cegos. Apenas medíocres. Nem deus, se ele existe, terá fé neles.

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Cavaco Silva e o Funeral de Saramago

Domingo, Junho 20th, 2010

Morre Saramago e, como sempre que morre alguém incómodo, o baixo-nível das figuras do regime vem ao de cima. O professor Francisco Louçã, coordenador do Bloco de Esquerda, aproveita as ainda quentes cinzas do escritor para fazer campanha eleitoral, invectivando “a mesquinhez” do actual presidente da república por não estar no funeral [ver também aqui]. Em actos reflexos os habituais bloguistas de serviço (anónimos ou não) vituperam o presidente. Diante da pequenez desta gente ocorrem-me duas adendas: a) uma formal, menos importante: quando o presidente (ou seja, a presidência da república) se faz representar ele (ou seja, ela, a instituição) está presente; b) uma substantiva, simbólica e como tal muito mais importante: o presidente da república evita a morte. Tudo o resto são interpretações a la carte. Mais politiqueiras, e em assim sendo desrespeitadoras do falecido e da sua obra. Ou menos.

Meter isto na cabeça dos apreciadores do professor Louçã é ontologicamente impossível.

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José Saramago

Sexta-feira, Junho 18th, 2010

Ler é a melhor maneira de homenagear os escritores

Morreu hoje um escritor português. Grande, lido, amado e/ou gostado. Premiado. Vénia.

Os seus livros não são o meu mundo. Quando jovem li alguns e gostei. Depois desgostei e fui abandonando a obra. Acontece(u)-me com muitíssimos outros escritores.

Conheci Saramago em Maputo em 1999. Inteligência brilhante, perspicácia cultural e política supra-apurada: nessa altura logo percebeu onde e como estava, tão ao contrário de tantos outros literatos que chegavam naquele “comboio descendente”. Verve fabulosa – vi-o fazer um improviso na Associação de Escritores, onde fez questão de se deslocar, absolutamente cativante. Voltou em 2000, apresentando um livro então editado (“A Caverna”). Falou bem, de novo.

Agora no dia da sua morte leio sobre ele. A “direita” portuguesa (tal como em tempos alguns jornalistas moçambicanos feitos homens de cultura) não lhe perdoa o anátema lançado pela igreja católica. Beata e nacionaleira não lhe perdoa ter ido embora para Espanha, ter-se zangado com a censura que o ministério da cultura lhe fez – a “direita” portuguesa está sempre contra o ministério da cultura, acha que o Estado não deve induzir o gosto (valores), apenas cuidar do património histórico como se este fosse “absoluto”, como se isso não fosse induzir gosto (valores). E “esquece-se” que censurar, “obstaculizar”, obras é induzir gosto (valores).

A “direita” portuguesa resmunga, vocifera, que o homem era comunista, é apenas isso que consegue reter. Esta “direita” portuguesa é, sem qualquer remissão, um monte de lixo. Improdutivo. Entenda-se: infecto. E infeccioso.

Estou certo que o cidadão Saramago gostava disso. Mas não é disso nem desse que se trata quando morre um escritor. E muito menos quando vive um escritor. Não devia ser difícil perceber essa (afinal não) lapalissada.

Adenda: entre o muito que se tem escrito sobre o escritor realço os textos de Francisco José Viegas e de Pedro Correia, também pelo que nos dão a conhecer do homem como escritor. Ainda os textos de Henrique Fialho (que aqui ensaia uma colectânea dos blogoecos sobre o escritor). Abaixo o ABM já referiu o esperado can-can do regime a propósito da morte de Saramago – e o Henrique Fialho remata esse assunto.

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UM REQUIEM POR SARAMAGO

Sexta-feira, Junho 18th, 2010

por ABM (18 de Junho de 2010)

Morreu hoje mais um membro do Partido Comunista Português.

Dizem que escrevia bem e como tal, não sei por que processo, os membros lá da Academia Sueca, concederam-lhe há doze anos um prémio Nobel. Eles lá sabem e nós agradecemos, pois por uns momentos e mais uma vez, achámos que a cultura e a língua portuguesa ascenderam aos píncaros, em vez de serem usadas para coisas mais rascas como falar com a menina da caixa do hipermercado Continente de Cascais e encher os diálogos das telenovelas da TVI todas as noites.

Rumores de que escrevia sem acentos e sem vírgulas e a texto corrido são completamente falsos, só quem não o lê é que pensa assim. Os outros sabem-no, mas, curiosamente, chamam-lhe “inovação artística universalista”. Eu não achava graça àquilo mas a culpa é do ambiente em que cresci, em que fui torturado para ter cuidado com a pontuação, as vírgulas e os parágrafos senão estava feito.

Era um tipo particularmente tortuoso e demonstrava-o nos seus textos. Antes de morrer, matou Jesus Cristo, denunciou a Bíblia e mudou-se para a Espanha, dizendo que não gostava do vizinho. Que era Portugal, onde teve a sorte de nascer e crescer no Ribatejo, o meu retiro português. Que achava que devia ser integrado numa união ibérica (por outras palavras, Espanha). O João César das Neves costumava fazer tiro ao alvo ao Saramago sempre que podia no seu (de Saramago) velho jornal.

Tinha a virtude de, de uma forma original, questionar tudo e mais alguma coisa, o que me faz lembrar a juventude (não comuna) dos anos 60 e 70, só que ele fazia-o de forma refinada, algo erudita, e retrovertida do português barroco. Com a idade, tornou-se tão irreverente que nem os velhotes lá do PC já o aturavam.

Para mim, era uma espécie de psicanalista amador que tentava meter um paciente no divã virtual e que o tentava curar com tratamentos de choque, sem nunca se ter apercebido que o doente era irreformável e incurável. O paciente, que era um país inteiro (Portugal) ignorava-o displicentemente e teve que engolir desassete sapos quando os nóbeis telefonaram para Lisboa.

José Saramago teve a grande sorte de se juntar, tardiamente a uma grande mulher, a Pilar, perante quem naturalmente me curvo pela perda do companheiro. Acho que esses foram os seus únicos bons anos.

Os bardos da praça e os comentadores de bancada já se redobram em esforços para o enaltecer como Grande e os Maschambianos deverão vestir-se de preto e carpir apropriadamente. Eu vou ver se espero uns anitos antes de tentar digerir aquilo tudo.

E entretanto vou lendo um pouco de Oliveira Martins e Eça.

Não sei como dizer de uma forma mais simpática, mas não me revejo nem nunca me revi, nem na pessoa, nem na sua obra. Nem como pessoa e muito menos como falante de português ou utilizador fortuito desta coisa maleável que é a cultura que uns tantos partilham, de uma forma ou outra.

Mas insistem que estou errado. E eu que não estou. Fica-se por aqui. A grandeza dos homens e da sua obra é sempre relativa aos tempos.

Entretanto, preparem-se para o Regime descambar numa longa e solene despedida.


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