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Um livro a ler

Chega-nos no Natal, oferta de como se compadres assim a fazerem-nos família. E os livros também são a sua origem. A Inês (que está farta de não ser explicitada no blog) logo o lê e ordena-me que avance, “gostei muito” algo que eu já percebera, que por ele fora trocado durante dois dias em Inhambane. E isto não sendo ela muito dada a enredos policiais - certo que o livro disso não é exemplo, deixando até dois assassinatos por desvendar, virei a descobrir. Enfim, tamanhas as recomendações que interrompo a pilha ali ao lado e avanço, afã também reforçado por leituras anteriores, livros e blogs do autor.

Para logo ser surpreendido com a insídia, tanta e tão infundamentada, até disfarçada, que me interroga sobre os limites que devemos colocar às liberdades literárias: “A que horas saiu da sala de jantar?” “Eu?” “Não. O administrador.” “Por volta das três, um pouco antes. Um jogo de futebol, havia um jogo de futebol ontem à noite, e ele queria saber o resultado. Por princípio perguntaria a um empregado, a alguém que andasse ali, mas ele é muito cioso quando se trata de futebol. É sportinguista”, explicou, pedindo: “Compreenda”. (31). Hesito, resmungo a estes implícitos, mas continuo: agora num “é preciso conhecer o inimigo”. Para depois, e logo, me deixar conquistar por completo. Sei que o autor é premiado e elogiado, daí que (já) lhe serão menos simpáticas comparações elogiosas mas mesmo assim não deixo de confessar: dei comigo a sentir-me como nos grandes Le Carré – ok, para meu gosto o “O Espião Perfeito” é uma obra-prima -, imersão minha até ao final. A seguir o protagonista, tão denso que até arrisca a ser dessas personagens-eucalipto, que tudo esbatem em volta. Mas não aqui, sorte dele pois narrado por alguém que se engana quando quer confessar “Sou um biógrafo sem sorte” (87), pois não o seria se o fosse. Sigo-o talvez por identificação, por bem saber (e querer) que “Um homem a caminho de velho tem de ter vida, mesmo se não é uma vida heróica, cheia de glórias e de benefícios para a carreira.” (55), assim dele companheiro.

Sigo este nosso polícia guardião que sempre nos é desagradável pois ”A burguesia gosta de segurança, da tranquilidade dos seus bairros – mas detesta falar do assunto …” (88), sigo-o no seu método absolutamente científico, um Holmes das ciências de hoje, “… não escrevia ou raramente escrevia as suas notas. No seu gabinete, limitava-se a encostar-se na cadeira … e a semicerrar os olhos na direcção da janela, como se olhasse realmente o fio de telhados desalinhados. O resto era imaginação, uma espécie de exercício a que se entregava para não ter de preencher impressos ou elaborar relatórios ...” (88). Sigo-o a desembrulhar tramas vindas do passado que é presente, mesmo que o queiramos esquecer, negar, um homem como tantos outros pois de um “Pobre país que se interessa pelo seu passado, e vive pendurado numa parede como um quadro velho e impopular que as visitas têm de ver. Angola, Moçambique, Guiné, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Timor, Macau, pobre memória, pobre país que vive suspenso da aprovação dos outros, com medo de ter falhado onde falhou. O império, o coração do império. ( … ) tu próprio queres regressar à Guiné, onde a morte esteve próxima de ti, adormecendo no teu ombro, muito amiguinha, onde a vida estava suspensa de um fio, onde havia o cheiro que não esqueces. Fugiste da Guiné e olha o que te acontece: (…) cada inquérito persegue-te com o cheiro de África e os que dizem “ah, o cheiro de África”, mas nunca estiveram diante dos teus cheiros de África – o da merda, o da pobreza, o do lixo, o das coisas apodrecendo ao ar livre nos subúrbios, o dos mortos acumulados no mato, esquecidos, rendidos. Merda para África ...” (119-120).

Deixa-nos uma história africana que portuguesa é. Uma dessas que “a burguesia [que] gosta de segurança (…) detesta falar do assunto”. Deixa-nos o “homem a caminho de velho” assim foco (grão-exemplo?): “Em certas alturas só podemos imaginar, é o que nos resta. Esta é uma história de portugueses que nunca completaram a sua vida, que deixaram episódios por contar e que são portugueses de um império desaparecido. Nós somos os que vêm a seguir, para contar a história completa, mesmo que não seja a verdadeira.” (228).

Não há livros obrigatórios, nem imperdíveis. Isso são hipérboles mentirosas. Mas há livros bons. E este é um livro muito bom. Mais do que o recomendo.

 

[Francisco José Viegas, O Mar em Casablanca, Porto Editora, 2009]

jpt [que em nome da família agradece ao PSB e à CA a oferta do livro]

O hifenismo

Na próxima semana Manuel Alegre estará em Maputo em actividade literária. Ao que me dizem de Lisboa aqui vem hifenizar* a literatura – pois assim pensa. A tresleitura que Manuel Alegre assim fará da realidade literária e histórica não será muito importante, não é isso que conta quando lemos os livros. Mas é interessante, e sonoro, sob outro ponto de vista. O hifenismo denotará o pensamento político, sob retórica cultural, do poeta e ficcionista. A incompreensão da multiplicidade dos processos históricos, da acção individual e colectiva. O hifenismo transpirará uma velha ideia de comunhão identitária trans-individual e trans-social, autónoma dos indivíduos, “naturalizadora” pelo que obrigatória, mas também moralizadora, porque assente na “tradição”, na “descendência” consideradas indiscutíveis. Este hífen, que Alegre trará na comitiva, é um “dado”, não literário mas ideológico.

Mas o hífen de Alegre não se esgota nisso. Tem subjacente, mas muito muito à flor da pele, um notório racismo.

E tudo isto é típico da vulgata para literatos a que chamam “lusofonia”. Manuel Alegre, e os que como ele pensam, nunca compreenderá isso. Porque são temáticas que lhes ultrapassam o património intelectual. E porque são questionamentos que lhes põem em causa o património político.

Como ele diz “a mim ninguém me cala” resta esperar que a segurança do aeroporto da Portela lhe apreenda o hífen.

*Se o hifenismo se soltar eu trarei aqui transcrição. Se se perder no caminho assim ficará

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Os dizeres de um jornalista

Vem muito a propósito do que em Portugal se vai dizendo sobre “liberdade de expressão”. E do como dizem. E do quem diz o que diz como diz. Orwell num texto dedicado ao totalitarismo (“The prevention of literature“, de 1945). E há sessenta anos a falar de hoje. E dos actuais pretendentes a mandarim, também.

To keep the matter in perspective, let me repeat what I said at the beginning of this essay: that in England the immediate enemies of truthfulness, and hence of freedom of thought, are the Press lords, the film magnates, and the bureaucrats, but that on a long view the weakening of the desire of liberty among the intellectuals themselves is the most serious symptom of all. (…)

Meanwhile totalitarianism has not fully triumphed anywhere. Our own society is still, broadly speaking, liberal. To exercise your right of free speech you have to fight against economic pressure and against strong sections of public opinion, but not, as yet, against a secret police force. You can say or print almost everything so long as you are willing to do it in a hole-and-corner way. But what is sinister, as I said at the beginning of this essay, is that the conscious enemies of liberty are those to whom liberty ought to mean most. The big public do not care about the matter one way or the other. They are not in favour of persecuting the heretic, and they will not exert themselves to defend him. The are at once too sane and too stupid to acquire the totalitarian outlook. The direct, conscious attack on intellectual decency comes from the intellectuals themselves.”

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Empreitada

Já que está ali na mesa uma empreitada dupla de Cortázar para ser resolvida sinalizo-lhe o início com esta deliciosa caricatura de Baptistão publicado originalmente no jornal Estado de São Paulo (já agora associada a um texto exactamente intitulado “Duplo Cortazar“),  e que foi 3º prémio de caricatura do World Press Photo 2009 [reproduzida do livro  World Press Photo, Top 50 2009]. E antes das leitura ambientar-me-ei com esta entrevista.

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A acompanhadora

[Nina Berbérova, A Acompanhadora, Ambar, 2003, tradução de António Pescada]

Sónetchka é a jovem pianista acompanhante da bem sucedida cantora Maria Nikoláevna Trávina. Feia, sem brilho, sem particular talento, esta filha ilegítima de uma modesta professora de piano parte com a sua protectora (a cantora) para Moscovo no tempo da revolução comunista. E  daí para Paris, o exílio russo dos anos 20. Sempre presente o constante ciúme, nem sequer racionalizado, da pianista pela Trávina, à qual deve o desafogo. Um ciúme cego, manso, que a levará a tramar a perdição da sua protectora, ainda que tal não ocorra – nem para tal tem talento.  A Trávina partirá, no seu sucesso musical e amoroso. Deixando-a para trás, e sem a ter realmente entendido, ela que é personagem vazia até da sua própria auto-compreensão. Do livro fica-me um eco da pobreza mental real, do vazio existente. De que nem nos apercebemos – o dos outros, o nosso próprio.

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A arca

[Imagem recolhida no Novas ...]

Há alguns dias atrás muito aqui se escreveu sobre o passado colonial português. Eu fui avançando a minha perspectiva sobre muitas das ideias – a maioria delas - que em Portugal ocorrem sobre o assunto: são mero material para falar (mal, obscuramente e por vezes desonestamente) sobre a actualidade. A esse propósito é interessante ver o que se passa nestes últimos dias: uma polémica política a propósito do jornalista Mário Crespo, sobre a qual não tenho particular ideia – li, na diagonal, algumas coisas escritas seja pelo próprio (aqui transcrito pelo ABM) seja em alguns blogs. Não leio os jornais onde Crespo escreve, não vejo a televisão onde Crespo trabalha, tenho dele uma muito distante imagem.

Mas o que me é particularmente significativo é como até para este caso se utiliza o passado colonial português, e de uma forma absolutamente típica. Que um blog como o Arrastão publique isto não chega a ser surpreendente – será apenas a confirmação daquilo a que o bloguista (também do Arrastão) Rui Bebiano considera os meus preconceitos. Mas ainda me surpreende que um homem como Eduardo Pitta, do Da Literatura, e a propósito da polémica entre o actual governo - de quem é apoiante - e o referido jornalista, suba a parada, vá à mesma arca e ensaie um assassinato de carácter associando Mário Crespo ao massacre de Wiryamu. O mal, e eu acho que o mal é para Eduardo Pitta, é que uma coisa destas já não é inacreditável. É mesmo acreditável. Vergonhosa e lamentavelmente acreditável. 

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Churchill e Quental na Parede numa Sexta-Feira

por ABM (Alcoentre, sexta-feira, 6 de Fevereiro de 2010)

Foto tirada há momentos de duas imagens penduradas no centro de operações do Maschamba da Região Não Autónoma do Ribatejo.

Winston Churchill é para mim uma figura genial e tragicomédica, incontornável para o século XX e uma figura que viveu como poucos a sua era. A imagem de Churchill achei interessante porque o apanha (na Florida, princípios dos anos 60 no iate de um amigo ricaço americano) de chapéu à cowboy e a ler uma cópia da revista Time. Passou por Lourenço Marques aquando da guerra anglo-boer em 1900 e no fim da vida passava férias numa Ilha da Madeira avant AJJ.

A imagem de Quental trouxe-a de Ponta Delgada (comprada numa loja de velharias) uma vez que fui lá há alguns vinte anos, para um “encontro de escritores açorianos” – encontro em que eu era o único presente que para variar não era nem açoriano nem escritor. Mas como o meu avô MIM era um poeta e figura castiça local, e era bom rapaz e filho assumido de açorianos, fui aceite como membro incondicional da confraria com um vago estatuto de “observador”.

Para além das suas crises de neurastenia (agora diz-se “bipolar”) e de alguns exotismos e namoros socialistas (os de então) Antero de Quental foi alguém que, de quase lado nenhum, surgiu nas letras portuguesas nos anos 60 do século XIX e foi dos primeiros que, sem aprumos, diagnosticou de forma inequívoca aquilo que até hoje considero o discurso mais verdadeiro e perturbador sobre a cultura e civilização portuguesas – as herdadas. Isto numa altura em que, como posteriormente se veio a repetir, o sistema político do seu tempo apostava numa entente cordiale entre oponentes políticos que se revesavam na disposição do espólio nacional. Chamaram-lhe, na propaganda daqueles tempos, “regeneração”. Tirando o Fontes (e mesmo assim), aquilo foi mais uma pulhice feita em Lisboa.

Mas ao menos naquele tempo o António José da Vila (Marquês de Ávila) assinou a portaria de interdição publicamente e fechou as conferências, não é bem o mesmo que se faz agora, que é mandar um recado à Prisa por interposta pessoa, dizer à PT para comprar um grupo de comunicação e ainda subterraneamente despachar as vozes que incomodam.

Houve uma altura em que eu rotineiramente oferecia às pessoas com quem me dava, cópias do texto da sua conferência (do Casino) intitulada Causas da Decadência dos Povos da Península Ibérica. Que li pela primeira vez em 1980 nos EUA numa cadeira na Universidade Brown, dada pelo Onésimo Teotónio Almeida. Tinha a dupla vantagem de dizer o que havia a dizer em poucas páginas e de custar só cinco euros. Cento e cinquenta anos depois de escrito, como muito do que disseram a seguir os seus amigos Eça e o Oliveira Martins (e outros), mantém uma actualidade perturbadora. José Bruno Carreiro e a sua (de Antero) namorada (post mortem) Ana Maria Almeida Martins escreveram ampla e brilhantemente sobre ele.

Dessa viagem, tenho uma fotografia exorcizante de eu a acenar em cima do banco do jardim em Ponta Delgada onde em Setembro de 1891 o Antero deu (sem pontaria) o tiro que acabou por o matar.

Bem, isto tudo a propósito da interessante citação feita pelo JPT de um comentário do Ruy Cinnati sobre uma estátua que ele tinha em casa de São João Baptista com um tomahawk na mão.

Portugal, por Eça, 1867

por ABM (Alcoentre, 6 de Fevereiro de 2010)

Nestes dias, por alguma razão, citações como esta andam nas cabeças de muitos.

Manias

Ter a mania dos justos, por exemplo, e embora eu opte pelos justos, pode ser fanatismo tão violento como a paixão pelos violentos.” (Rui Cinatti, “O Signo Marcado“, 1967, em “Manhã Imensa“, Assírio & Alvim, 1997 [1984], p. 61)

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Interlocução 2

 

Em 1967 Ruy Cinnati, que penso não ter sido um scholar da left-wing, escrevia assim como se em memória descritiva para o poema “O Signo Marcado (para uma voz e coro)“, publicado em “Manhã Imensa” (Assírio & Alvim, 1997 [1984]):

Tenho em minha casa uma estátua de S. João Baptista, julgo que dos princípios do século XIX, passável de factura, embora um tanto adocicada: fruta do tempo. Tomei-a como se fosse S. João Evangelista e no texto mantenho-a com esse nome. Um amigo trouxe-me da América um tomahawak para turista, artesanato dos índios Cherokee, Smoky Mountains, Apalaches. Não tendo encontrado lugar mais apropriado para ele, coloquei-o na mão direita do santo. O tomahawak, ou a sua imagem-símbolo – é importante distingui-lo por causa da moral activa … – está carregado de recordações de infância, quando eu lia o Texas Jack, série de novelas para rapazes que qualquer capelista exibia à entrada da porta, entre os anos 20 e 30.” (p. 59)

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Os relógios de cuco de Orson Welles

O outro dia a bater teclas para aqui de repente lembrei-me dos relógios de cuco de “O Terceiro Homem” (Carol Reed, 1949). Um maravilhoso soco contra o “politicamente correcto” (avant la lettre) saído da boca e da mente de Orson Welles, pois a tirada não estava no argumento original do filme protagonizado por Joseph Cotten mas que Welles abrilhantou. As maravilhas do youtube trazem-nos a casa:

Para quem não se lembre (ou nunca o tenha visto) o filme provém de uma história escrita por Graham Greene, a qual ascendeu a livro: O Terceiro Homem (aqui a edição portuguesa, Europa-América, 1977, tradução de Ana Maria Sampaio). E tendo-me lembrado da história lá fui mais uma vez reler o livro.

 

Já o sabia mas é sempre bom recordar isso. Este é um bom exemplo a utilizar contra os literatos furiosos que dizem ser um livro sempre melhor do que o filme que origina. Neste caso – como em tantos outros, onde nem atentamos no livro original, ali escondido no genérico – um pequeno livro originou um grande filme (é certo que com a ressalva que o texto foi escrito em função do filme): nele não está a espantosa Viena negra pós-guerra do filme nem tampouco a personagem do vilão tem a densidade e a verve, a crueza, que no filme adquiriu e a este deu fama.

Ainda assim é Greene, a culpa e a redenção como hipótese. E a falsa moralidade, um pouco. O protagonista Rollo Martins é um modesto escritor de policiais (um pouco um alter ego desvalorizado de Greene) que chega à Viena do pós-guerra, chamado por Lime o seu idolatrado amigo de juventude (Welles no filme). Para descobrir não só que este é um criminoso como apenas o quer usar, usando-se do apelo a uma afinal falsa amizade. Assim Rollo, e em nome de uma causa justa (Lime trafica medicamentos escassos), acaba por o matar. No fundo levado pela descoberta de não ser amado (amizado, seria melhor dito, mas não há em português). Onde está a culpa? A imoralidade? Com toda a certeza que em Rollo, inocente-sem-o-ser, aparente braço da justiça. E está tudo no princípio do livro, encapotado num ”Nunca nos habituamos a ser menos importantes para as outras pessoas do que elas são para nós” (23). Depois é uma história sobre o despeito, o ciúme entre homens.

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Sobre o Colonialismo (e o após-colonialismo): cromos e stickers

Nestes últimos dias no ma-schamba tem-se falado mais de colonialismo do que nos anteriores seis anos que as nossas courelas já levam. Muito, mas não só, a propósito do livro de memórias de Isabela Figueiredo (que, vê-se, mexeu na colmeia. Advertidamente, acho). Livro que a jornalista Vanessa Rato aventa ser um momento fulcral na história intelectual portuguesa, anunciando o advento (ou a possibilidade) de um pensamento pós-colonial em Portugal. Talvez por isso, pela percepção ou sensação desse episódio único, tanto aqui têm falado os bloguistas, os comentadores (os residentes e não só) e, até, alguns outros bloguistas que para cá têm feito ligações (mais ou menos abonatórias). Dando-me, ao fim destas semanas, a sensação de já ter os cromos opinativos todos (e isto sem sentido pejorativo), os mais fáceis e os mais difíceis. A caderneta completa! Mas fui compreendendo o meu erro. Pois se a continuidade (muito bem-vinda) de comentários me levou a desconfiar desse sucesso, demonstrando afinal a incompletude, foi a tal referência à actual emergência da reflexão “pós-colonial” em Portugal que me fez entender o meu erro. Pois, e por arrastamento, por analogia ou homofonia, se se quiser, isto levou-me a perceber esta questão no seio do pensamento pós-moderno.

Tento explicar-me. Sou um homem do tempo das cadernetas de cromos, essas “grandes narrativas” conclusivas, com princípio, meio e fim, conclusivas e argumentáveis. Ainda que algo incompetente no assunto, reconheço, pois apenas completei as colecções “Mundial de 1974” – no qual Johan Cruyff e sua Laranja Mecânica foram injustiçados pela vil Alemanha -,

[imagem encontrada no Santa Nostalgia]

e uma esplêndida e mui expressiva “História de Portugal“, da qual guardo ainda memórias muito vivas, constantes, em particular dos cromos da muito dumeziliana Deuladeu Martins botando pão muralhas fora, dos cotos de Navas de Tolosa, do pavoroso e zarolho (Dumézil também?) Geraldo Sem-Pavor ao assalto em Évora, do entalado Martim Moniz ali às portas de Lisboa, e claro que do Nosso Senhor Jesus Cristo planando nos céus da Batalha de Ourique abençoando Afonso Henriques, seus homens e, obviamente, todo o Portugal que aí vinha. Para além do último e destacado cromo, o alusivo ao Presidente do Conselho, Professor Marcello Caetano, que Deus tivesse na Sua santa guarda.

[imagem encontrada no Pena e Espada]

Ora o que ultimamente me tem revelado a minha filha é que o paradigma “cromo” faleceu. A grande narrativa terminável, conclusiva, a encerrar de modo contíguo em apropriada caderneta, é coisa do passado. Deparamo-nos hoje com uma versão diversa, uma contínua actividade de troca, inacabável, dos stickers. Seja em versão Hannah  Montana seja nos “fofos“. Sendo que os rapazes [lá está, a vil ideologia de género a moldar as jovens mentes, a discipliná-los para os papéis sociais a que aderirão julgando-os naturais] têm uma panóplia de viçosos super-heróis para fruirem da mesma actividade.

[imagem encontrada aqui]

[imagem encontrada aqui]

Nesta incessante troca de itens não se vislumbra conclusão, não estão eles numerados nem catalogados. Nem são arrumáveis por predeterminada ordem, cada coleccionador(a) preenche e repreenche criativamente os múltiplos suportes (livros, pastas, cadernos, folhas, paredes, frigoríficos, sei lá) que vai escolhendo. O limite, conceptual e estético, seria o céu não fosse tudo isto ser mediado, entenda-se reprimido, pelas bolsas (aliás, cartões de crédito) paterno-maternais [a tal ideologia de género que sobrevaloriza o termos "paternais" tem que ser combatida]. Estamos diante de uma corrente total de dádivas, sem objectivo nem finalidade para além delas próprias. Barro para um novo (pós-moderno? pós-colonial?) ensaio sobre o dom, com toda a certeza.

Assim esclarecido (actualizado) pela minha filha regresso ao blog e à temática colonial, e mais descansado. Que penso eu, bloguista aqui fundador e que nada tenho falado do colonialismo, do que para aqui se vai dizendo? (o colonialismo ou não, o racismo ou não, o Eusébio ou não, o Monstro Sagrado ou não?, o electricista da Matola ou não, o que os portugueses deixaram ou não, o Bloco de Esquerda ou não, etc. ou não?). Não posso achar, nem resumir. Não porque me faltem cromos na caderneta. Mas porque ela, afinal, não existe. Apenas posso, agora (desde Dezembro de 2009) que parece que começou o pensamento pós-colonial em Portugal, aproveitar para meter uns stickers (versão “fofos”) na porta do frigorífico e uns outros no blog. Para o blog seguem estes, nada raros:

Num texto de 1936 George Orwell (autor muito simpático a largo espectro de leitores) escreveu. “Here was I, the white man with his gun, standing in front of the unarmed native crowd – seemingly the leading actor of the piece; but in reality I was only an absurd puppet pushed to and fro by will of those yellow faces behind. I perceived in this moment that when the white man turns tyrant it is his own freedom that he destroys. He becomes a sort of hollow, posing dummy, the conventionalized figure of a sahib. For it is the condition of his rule that he shall spend his life in trying to impress the “natives”, and so in every crisis he has got to do what “natives” expect of him. He wears a mask, and his face grows to fit it.” (George Orwell, “Shooting an Elephant“, 1936, Inside The Whale and Other Essays, Penguin Books, p. 95). Repito, é um texto de 1936.

Entretanto na página Facebook de um prezada colega encontrei este filme que de imediato me fez lembrar este livro, comprado recentemente na Livraria Sá da Costa (ao Chiado, Lisboa) pela quantia de 0,5 euros.

[Aimé Césaire, Discurso Sobre o Colonialismo, Sá da Costa, 1978. Tradução de Noémia de Sousa, prefácio de Mário de Andrade]

Podemos hoje olhar para o livro, na realidade um panfleto com todas as características desse tipo de documento, publicado originalmente em 1955 (e retomando um texto de 1950), com grande distância. Césaire era ainda membro do Partido Comunista Francês, explicitamente crente na filosofia de história comunista (e o panfleto termina com uma profissão de fé típica, hoje anquilosada), a qual até contradiz parte do argumento multilinear que defende (as “possibilidades” de desenvolvimento que imagina). Defende o afrocentrismo de Cheikh Anta Diop (que não será ele próprio reactivo?), hesita (apesar de tudo) na refutação radical do conceito de filosofia bantu do padre Tempels,  mi(s)tifica o comunitarismo das sociedades africanas ante-coloniais (“Eram sociedades democráticas, sempre. Eram sociedades cooperativas, sociedades fraternais.” (27), e chega a pontapear Marco Polo como exemplo do colonialismo. Mas se não o lermos anacronicamente (como ele o fez ao pobre de Marco Polo) encontramos um diagnóstico acutilante. É só escolher para citar. Escolho dois trechos: um, porque muito orwelliano, e porque vem a propósito do que aqui (ma-schamba) vem sendo dito: “Será preciso estudar, primeiro, como a colonização se esmera em descivilizar o colonizador, em embrutecê-lo, na verdadeira acepção da palavra, em degradá-lo …” (17) “a colonização desumaniza, repito, mesmo o homem mais civilizado; que a acção colonial, a empresa colonial, a empresa colonial, a conquista colonial, fundada sobre o desprezo pelo homem indígena e justificada por todo esse desprezo, tende, inevitavelmente, a modificar quem a empreende (…) É esta acção, este ricochete da colonização, que importava assinalar. (24).

E escolho outro trecho dedicado a alguns dos comentadores. O autor segue Lévi-Strauss e Leiris (então figuras centrais no pensamento antropológico em francês), adversários da ideia de supremacia cultural (e seu corolário, a ideologia do “progresso) – coisa que, sessenta anos depois continua a não entrar na cabeça de muito boa gente, uns porque acham que ele (progresso) é muito bom e entendível, outros porque confundem isto com um tal de “relativismo”. Disse Césaire (repito, traduzido por Noémia de Sousa, introduzido por Mário de Andrade e publicado em Portugal pela Sá da Costa em 1978, e vendido em finais de 2009 no centro de Lisboa por 0,5 euros):

Falam-me de progresso, de “realizações”, de doenças curadas, de níveis de vida elevados acima de si próprios. Eu, eu falo de sociedades esvaziadas de si próprias, de culturas espezinhadas, de instituições minadas, de terras confiscadas, de religiões assassinadas, de magnificiências artísticas aniquiladas, de extraordinárias possibilidades suprimidas. Lançam-me à cara factos, estatísticas, quilometragens de estradas, de canais, de caminhos de ferro. Mas eu falo de … milhões de homens arrancados aos seus deuses, à sua terra, aos seus hábitos, à sua vida, à vida, à dança, à sabedoria. Falo de milhões de homens a quem inculcaram sabiamente o medo, o complexo de inferioridade, o tremor, a genuflexão, o desespero, o servilismo. Lançam-me em cheio aos olhos toneladas de algodão ou de cacau exportado, hectares de oliveiras ou de vinhas plantadas. Mas eu falo … de economias adaptadas à condição do homem indígena desorganizadas, de culturas de subsistência destruídas, de subalimentação instalada, de desenvolvimento agrícola orientado unicamente para benefícios das metrópoles, de rapinas de produtos, de rapinas de matérias-primas. (…) Falam-me de civilização, eu falo de proletarização e de mistificação.” (26)

Tenho mais stickers. Este é um muito wallersteiniano trabalho sobre a economia colonial.

[Carlos Fortuna, O Fio da Meada. O Algodão de Moçambique, Portugal e a Economia-Mundo (1860-1960), Afrontamento, 1993]

Cola bem ao texto anterior, pois o que aqui se trata é da ligação profunda da economia da cultura forçada de plantas comerciais em África e do processo de industrialização português (metropolitano). Para alguns poderá servir para deixar de fazer uma história especulativa, contra-factual, essa do “Ah, se Marcello tivesse actuado… Ah, se Salazar tivesse tido outra visão”. Sim, podiam ter tido. Mas não tiveram pois “é(era) a economia, estúpido!”. [Já agora, dá para colaborar no entendimento sobre a indústria portuguesa no seio da União Europeia ...] Servirá, acima de tudo, para compreender que Portugal era um país colonial, não um país com colónias.

[Lídia Jorge, A Costa dos Murmúrios, Círculo de Leitores, 1988]

Voltando à primeira forma, essa de ver quem e como eram os colonos inseridos no pacote “sistémico”. Há um quarto de século a escritora Lídia Jorge, que veio a tornar-se figura importante na ficção portuguesa, escreveu este romance passado na Beira colonial. Traçou um quadro complexo da sociedade colonial de então, da (ir)relação havida com o mundo colonizado, um meio até contraditório (veja-se a evolução da personagem protagonista, Eva-Evita), assim influenciando as mentes dos portugueses (metropolitanos ou residentes), numa flutuação das concepções. Contrariamente ao que os blogodesenhadores actuais muito gostam não incidiu particularmente sobre “as conas das negras” (a burguesia é sempre espantável) mas encetou o livro com a célebre paisagem dos múltiplos carregamentos de cadáveres de negros, envenenados por álcool metílico, e dos discursos e sensações gerados sobre isso. Um pastel bem mais impressionável, e significante, para os menos espantáveis, diga-se.

[Adelino Serras Pires & Fiona Claire Capstick, The Winds of Havoc, St. Martin's Press, 2001]

Um belíssimo sticker é este, a propósito de sabermos das memórias, dos interstícios do mundo colonial. São as memórias de Serras Pires (que têm edição portuguesa, presumo que na Europa-América), homem do mundo, de relativas posses, uma personagem bem conhecida, com a característica de serem muitíssimo legíveis (a co-autora, Fiona Capstick é uma profissional da escrita). Colono filho de colono, Serras Pires teve (e ainda tem) uma vida cheia, figura carismática. [Para os adeptos da caça este é um livro incontornável]. Muito interessante a forma como aqui se explicita, sistemática e conscientemente, a visão benéfica da África colonial, e de como no livro se subentende, e entende, as particulares modalidades de relacionamento (por um lado sistémico, por outro lado pessoalizado) de relacionamento com os africanos “originários”, como agora se diz. Mas traz também as flutuações de relacionamento intra-mundo colonial – são recorrentes e profundas as críticas à governação colonial, aos mandarins metropolitanos, ao BNU (a finança todo-poderosa) e, excelente, “aos a sul do Save” (questão que largas décadas depois, e com tão diferentes actores, ainda se coloca). Um episódio marcou-me na leitura do livro – o pai Serras Pires, velho colono inaugural na região do Guro adoece, já idoso, ao fim de trinta anos na região. Tem que ser evacuado de urgência mas não sobreviverá à viagem de carro até à Beira. É então necessário evacuá-lo de avião mas não há pista de aterragem no Guro. Será construída durante uma noite, por mobilização popular. Cabe a história no modelo? Explica o colonialismo? Se sim, cristalizamo-la e embandeiramo-la? Se não, censuramo-la?

São os meus stickers. Do após-colonialismo. Quanto aos do pós-colonialismo, não tenho grande curiosidade. Valem-me tanto como a tralha avulsa da “vocação milenar” ou da “gesta pátria”. Ou menos, que nem lhes acho interesse museológico. E estes stickers, e mais alguns que meti na porta do frigorífico (aka, geleira), valem-me para os próximos tempos. Daqui a seis anos, se ainda houver ma-schamba, volto a botar sobre colonialismo e após-colonialismo. Mas não, espero (que a esclerose não me ataque), sobre o pós-colonialismo.

jpt

Dadivoso

 

Pesou a moeda na mão do cego” (Alexandre O’Neill, Coração Acordeão, O Independente, 2004, p. 40. Edição de Vasco Rosa).

Bola com Feitiço, de Uanhenga Xitu

[Uanhenga Xitu, Bola Com Feitiço, Cotovia, 2009]

Em altura de CAN, ainda para mais decorrendo em Angola, recupero este delicioso livro recentemente publicado em edição de bolso. Contém dois contos saborosos, debruçados sobre as transformações havidas no mundo suburbano e rural da Angola tardo-colonial. O primeiro, “Mestre Tamoda”, é uma delícia corrosiva sobre a modernidade como mecanismo de ascensão social (e identitária). Tamoda é um camponês que regressa à aldeia natal, proveniente de Luanda, na posse de um património linguístico poderoso, o domínio do português. E decide capitalizá-lo, encetando a actividade de mestre informal da língua por via de um linguajar criativo, um verdadeiro “tamodismo”. Adquirindo prestígio entre a juventude logo será entendido como subversivo – ele introduz um português criativo e muito rebuscado mas também o uso dos cabelos frisados. Até que ponto este “Tamoda” simboliza os experimentalismos linguísticos de alguma literatura africana é questão que só posso especular, se calhar afastando-me dos propósitos do autor – mas como a obra é também minha, leitor, dela me aproprio nesse sentido. E ainda utilizando-a para reflectir sobre as questões sociais da “lusofonia”, da qual Tamoda foi, no seu ficcional tempo, grande cultor.

“Bola com Feitiço” é um delicioso retrato das inovações “sincréticas” acontecidas com a “modernidade”. Duas aldeias vizinhas confrontam-se por via do futebol (uma inovação colonial) e convocam os respectivos curandeiros para obterem sucesso. Tudo isso cruzado com as diversas formas de integração das novidades propostas: os jogadores logo se distinguem entre os que aceitam os tratamentos feitícicos e os que os recusam, distinção homóloga à que os divide entre católicos (que os seguem) e crentes de outras igrejas cristãs (que os recusam) – neste bem-humorado episódio narrando-se como a modernidade colonial, religiosa nesta caso, tão diversamente foi apropriada.

5 euros muito bem utilizados.

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Um embuste perfeito, de Italo Svevo

[Italo Svevo, Um Embuste Perfeito, Quasi, 2008, tradução de Vasco Gato]

Mario Samigli é um literato triestino de sessenta anos. Publicou na juventude um romance, esquecível e esquecido. Desde então dedica-se à escrita de fábulas anódinas, e a uma vida casta, vazia e rotineira, habitando na companhia de seu irmão mais velho, Giulio, única audiência das suas construções literárias. Tudo isso nada lhe pesa, convicto que está da sua futura celebridade, da grandeza da sua obra: espera, calmamente, o seu reconhecimento, e disso retira uma quase-muda sensação de superioridade face aos demais e uma satisfação generalizada face à vida. Um dia, em pleno final da I Guerra Mundial (aquando da tomada de Trieste aos alemães-austríacos), um seu conhecido, Gaia um caixeiro-viajante popularucho, e que também tivera os seus devaneios poéticos na juventude, lança-lhe um embuste: uma celebrada editora internacional anunciara-lhe o propósito de editar o romance de Semigli. Pouco depois o pobre escritor descobre que tudo não passa de um embuste, ridicularizando-o.

Mas Svevo é aqui pacato, trata com desvelo as suas personagens, poupa-lhes sofrimentos extremados  e desilusões radicais. Semigli continuará o seu percurso literário, aceitando a condição doméstica da sua literatura, as pobres fábulas partilhadas como registo de amor com seu irmão.

No final, de imediato resmungo com a docilidade do livro, sem o abismo que prometia esta trama sobre a crença no sucesso, sua absorção, sobre a realidade da constante desilusão humana. Mas depois solidarizo-me, eu afinal Semigli. Pois não teria Svevo, se escrevesse hoje, feito do protagonista um mero bloguista?

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Rubaiyat de Omar Khayyam

[Umar-I Khayyam, Rubaiyat, Assírio & Alvim, 2009 (selecção, tradução de Halima Naimova)]

Um acontecimento, a edição em português deste livro, uma pequena selecção de 51 poemas da célebre obra (antecederá coisa maior?, um atrevimento da editora?). Deixo três poemas (quartetos/quadras?) que exemplificam a filosofia e a arte que ali (na obra) habitam há já quase mil anos.  E que lhe dão uma enorme actualidade. Ainda que os especialistas sempre avisem que a leitura de Khayyam não deve ser literal. Mas para um leigo fica a delícia do livro.

6.

Oh, dono da fatwá, estamos mais atarefados do que tu,
Embriagados, somos mais sóbrios do que tu.
Bebemos sangue das uvas e tu humano [bebes]
Honestamente: quem é sanguessuga entre nós?

9.

Embora pecador, vil e infeliz,
Não desespero e não corro para o templo como os idólatras.
Embriagado, levanto-me de novo de manhã,
Desejo vinho e o ser amado e não mesquita e paraíso
.

12.

Tapávamos o cântaro com a khirqa do dervish,
Fazíamos ablução com a terra perecida.
Talvez encontremos, da terra da casa do vinho,
Aquela vida que perdemos nas madrassas.

Nota: não tenho qualquer atributo que me permita criticar o trabalho da organizadora e tradutora do livro. O qual muito saúdo. Mas tenho a meu lado um Dicionário Universal da Língua Portuguesa (Texto Editora, 1995). Onde consta a palavra “dervis” ou “dervixe”. E a palavra “madraçal”, sendo que no português corrente (pelo menos em Moçambique) também se diz e escreve “madrassa”, assim sendo a palavra integrada no uso. Não se justificará, portanto, deixar entrever na tradução portuguesa a intraduzibilidade destes termos, e mesmo de outros que vão ocorrendo (mesmo que apenas através da utilização do itálico).

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Livros de férias

Nunca percebi o hábito corrente (e muito vísivel) de transportar livros grandes (muitas vezes intitulados best-sellers) para serem lidos nas férias. Sempre me pareceu que a ventania arenosa, as cíclicas idas a banhos, as caminhadas desentorpecedoras, as cervejas muitas, as besuntadelas de creme protector, o apelo das crianças e os dos vendedores ambulantes, o “esplanadismo”, uma-que-outra beleza que passa, enfim um não sei quantas coisas que vão acontecendo nesses feriados, essa estafa de estar em férias, implicam que o pobre leitor vai perdendo o fio à meada literária (presumindo que esta existe), confundindo personagens, esquecendo tramas, trocando episódios, derivando pensamentos, tudo aquilo que presumo se vá acumulando nas centenas de páginas quando agregadas em monovolume. E já nem falo do peso do livro, a transportar no seio de toda a tralha inútil que acompanha o veraneante.

Em assim sendo para mim as férias são o momento de ler pequenos textos, o sempre temido livro de poesia, os mais que amados contos curtos, até a novela, as crónicas. Coisas de andar na mão, até no bolso, próprio ou no da mochila, de se ler aos bocados com vagares. E até, ao sol ou às estrelas, de ficar a ruminar algo que se acabou de acabar, fruir. Sem ficar para o dia seguinte …

Vem tudo isto a propósito da recente ida a Inhambane, mais exactamente à praia de Barra. Onde encetei o saco por este Tolstoi (A Morte de Ivan Ilitch, Quasi, 2008, tradução de Adolfo Casais Monteiro).

Para quem não leu resumo que o entretanto falecido Ivan Ilitch é um homem de qualidade, juiz competente, cumpridor de obrigações profissionais e sociais. Certo é que o seu mimetismo mundano afirma o seu desejo de aceitação e, até, de ascensão social. E nesses passos, distraidamente, acaba por esvaziar a sua vida afectiva e espiritual, por não se cumprir como pessoa. Ainda assim caminha sereno pela vida, recompensando-se em pequenos prazeres e rotina laboral.  Subitamente, aos ainda jovens 45 anos, cai doente (“um rim flutuante”, dir-lhe-ão os médicos) e morre, após breves três meses de terrível agonia (muito realisticamente descrita).

Da trama retiro esse retrato da morte lenta, rara na literatura, principalmente a dos tempos de uma outra medicina. Mas também encontro o velho Tolstoi moralista: pois se Ilitch começa por recusar a morte, a sua pertinência ou justiça, logo os pavores da agonia o fazem entender que desperdiçou a vida devido ao seu apego pelas convenções, a um conservadorismo materialista e hipócrita, no fundo a um desleixo espiritual (simbolizado no episódio da representação de Sarah Bernhardt, a que a família assiste deixando-o só no leito da morte). Neste caminho é o Tolstoi da renúncia que se afirma, mas também o da valorização naturalista (e como tal desvalorizadora) dos camponeses: a única personagem piedosa (solidária, diríamos hoje) é o criado Guerassime, que diante do sofrimento e da morte ostenta uma naturalidade até irreflectida, e por isso verdadeiramente humana. Só nesse camponês – e, já no final, no filho criança Ilitch - o autor reconhece humanidade e amor, ainda não esmagados pelas convenções, pela civilização.

Sorrio no fim diante deste moralismo extremo, adversário da sociedade, elogiando a natureza campónia, assim explicitamente associada à infância. Mas depois não deixo de, incomodado até, me perguntar: “mas que raio faço eu, exactamente aos 45 anos, a ler tamanho drama nas praias de Inhambane“?

Tragam-me um best-seller!”, terei exclamado.

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Correctices, segundo Orwell

A propósito da efeméride (o escritor morreu a 21 de Janeiro de 1950) aproveito para lembrar este conjunto de ensaios de George Orwell, “Inside the Whale and Other Essays” (Penguin Books, 1962 [1957]), escritos nos anos 30-40 de XX. Tem textos deliciosos, entre outros “Inside the Whale” onde mergulha nas três primeiras décadas de XX da literatura anglófona, centrado no “Trópico de Câncer” de Miller  – o qual não só qualifica de excelente mas, acima de tudo, como exemplar da atitude da época, um “Jonismo”, um deixar-se refugiar para o interior da baleia (ainda que Jonas tivesse sido engolido por um peixe, lembra Orwell), submergindo-se na /submetendo-se à realidade. Uma baleia transparente no caso de Miller, explicita ainda, frisando que a “obscenidade” do autor não conta, nem positiva nem negativamente, para a avaliação do seu trabalho. E lembro um fantástico texto ”Boys’ Weeklies“, uma belíssima análise da literatura juvenil, bem precursora de trabalhos similares.

Mas foram as recentes polémicas aqui que me lembraram o livro, em particular o pequeno “Shooting an Elephant“, a narrativa de um episódio da estadia do autor como polícia na Birmânia britânica, e da sua radical recusa do mundo colonial, vivida em ambivalência pessoal. Um discurso muito distante dos panfletarismos de causas que tantas décadas depois (o texto é de 1936!) continuam a ser entoados, sem bons e maus, apenas mostrando as duplicidades de sentimentos e práticas em que os indivíduos históricos navegam, e os preconceitos tantas vezes absurdos que os constroem e dinamizam.

E de um outro texto do livro deixo um trecho completamente actual, demonstrando as gentes que nos continuam quotidianamente a entrar “em casa”, com grande afã:

The distinction that really matters is not between violence and non-violence, but between having and not having the appetite for power. There are people who are convinced of the wickedness both of armies and of police forces, but who are nevertheless much more intolerant and inquisitorial in outlook than the normal person who believes that it is necessary to use violence in certain circumstances. They will not say to somebody else, “Do this, that and the other or you will go to prison“, but they will, if they can, get inside his brain and dictate his thoughts for him in the minutest particulars. Creeds like pacifism and anarchism, which seem on the surface to imply a complete renunciation of power, rather encourage this habit of mind. For if you have embraced a creed which appears to be free from the ordinary dirtiness of politics – a creed from which you yourself cannot expect to draw any material advantage – surely that proves that you are in the right? And the more you are in the right, the more natural that everyone else should be bullied into thinking likewise.” (“Lear, Tolstoy and the Fool“, p. 118)

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David Mestre, Nas Barbas do Bando

De David Mestre, poeta angolano de origem portuguesa, falecido em 1997, apenas tinha lido o seu “Lusografias“, um registo de crónicas. Agora encontrei este “Nas Barbas do Bando” (Ulmeiro / União dos Escritores Angolanos, 1985). Lembrando o contexto histórico e biográfico do autor, retiro-lhe dois poemas que me parecem reconhecer (imagino?) o eixo de um percurso abissal.

Portugal Colonial

Nada te devo
nem o sítio
onde nasci

nem a morte
que depois comi
nem a vida

repartida
plos cães
nem a notícia

curta
a dizer-te que morri

nada te devo
Portugal
colonial

cicatriz
doutra pele
apertada

O Poeta Deve

O poeta deve
manter-se perfilado
em andamento

respeitar o sinal
no cruzamento
manejar assim

o armamento
saber guardar
recolhimento

e não deve
tocar douvido
o instrumento

extraviar
o fardamento
com prometer

o cumprimento
deste burocrático
regulamento

O livro tem ainda um interesse complementar. A contracapa apresenta este manuscrito de José Craveirinha, um poema dedicado ao autor. Aqui o deixo, não como curiosidade, mas como óbvio diálogo aos pólos acima transcritos:

(ao David Mestre)

Delito


O delito

imperdoável dos genuínos poetas

é não serem amordaçáveis

Porque

mesmo depois do seu homicídio

o defeito deles é terem na poesia

a bater os pulsos em cada verso

a verdadeira pátria insilenciável

em vez da vida.

(21.4.78)

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Tresmalhado, um texto sobre António Cabrita no Antologia do Esquecimento.

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Lizzie Had a Dog in LM

Lizzie & Bóbbi

por ABM (Cascais, 16 de Janeiro de 2010)

A lógica da breve discussão prévia o impunha e uns meros 15 euros o resolveram.

Disfarçado de dono de um veleiro de passagem por Cascais, e após breve e inócua aventura na Livraria Bulhosa no Cascais Villa, peregrinei até à quiçá mais próspera e dotada FNAC do Cascais Shopping, com a Dulce Gouveia a reboque, para comprar a grande obra recente da Escritora de origem moçambicana, publicada pela Editora sediada em Coimbra.

Mas na secção dos livros dou logo de caras com o José Rodrigues dos Santos no corredor, que é máfia moçambicana do melhor e estes dias uma espécie de versão lusa do Dan Brown. Com ele não há cá memórias para ninguém. Antes que ele pensasse que eu ia ao livro dele sobre a Al-Khaeda, que se encontra à venda em todas (mas todas) as livrarias, grandes superfícies, aeroportos e até por baixo de vãos de escada, escapuli-me pelo café da loja para o outro lado e fui ter com uma daquelas meninas simpáticas da FNAC que usam um coletezinho verde e nos ajudam a encontrar os livros.

“Olá, boa tarde. Procuro o novo best seller daquela escritora nascida em Moçambique Isabela Figueiredo e não encontro”.

“Só um momento, sefachavor”.

Clic clic clic clic no computador.

“Sim, devemos ter ainda uma cópia na loja, deixe-me ir ver”.

E desapareceu.

15 minutos à espera.

Após o que a menina surgiu do nada com um livrinho pequenino na mão.

“Quanto é?”

“15 euros”.

“15 euros! Bolas. Deixe-me cá ver”.

E peguei no volume. E inspeccionei-o.

Preliminarmente.

Na verdade o livro é algo estranho.

A seguir à capa e a contra-capa, tem quatro folhas verde-alface sem nada, duas de cada lado, que deve ser para o leitor precavido tomar apontamentos. No fim, a seguir à folha verde-alface, diz uma nota que foi composto numa empresa gráfica na bela Vila Nova de Famalicão, “34 anos após o regresso da autora a Portugal”. Ok. Suponho que uma anotação válida para quem ao chegar ao fim do livro ainda não se tiver apercebido desse facto da vida da autora, ou que não saiba fazer contas de subtraír (pois 2009-34 = 1975) infelizmente um provável infortúnio com o estado da educação nos dias que correm.

Só que na pala interior da capa tem mais uma foto simpática da Isabela, esta circa 2009 e sans Bóbbi, e mais uma notinha a dizer que ela nasceu em Lourenço Marques em 1963, que em 1975 veio para Portugal, e que nunca mais voltou.

Espera aí: se aqui diz que ela nasceu lá, que veio para cá e que nunca mais voltou, porque é que no fim do livro diz que ela regressou a Portugal?

É um mistério. Assumo que deve fazer parte da complexa e mística dialética subjacente aos conteúdos ali abordados. Ora veja-se.

Ela nasce e cresce em Moçambique.

Mas ao viajar para Portugal em 1975, regressa.

Ora isto é para mim uma alegoria fantástica.

Tem umas fotografias: na capa (a foto ali no topo) a Isabela avec Bóbbi. Depois duas piquininas de Lourenço Marques nos tempos e que mal se conseguem ver, e a seguir vêm: a Isabela a segurar o rádio de papá debaixo de uma papaeira, a Isabela vestida de saloia portuguesa num barco, a Isabela a fazer pose num parque, a Isabela na marginal de Lourenço Marques e a Isabela na comunhão.

Na página 7, presume-se que para dar o tom do que está para vir, três citações, uma de Paulo Auster a falar do pai (o do Paulo Aster), e duas do italiano Primo Levi, a mastigar a presumível fungibilidade da Memória Humana. Bem, ou pelo menos a dele.

E, presume-se, por osmose subliminar associativa, a da Isabela.

A menção do americano Paulo Auster confunde-me e levanta-me imediatas suspeitas quanto à proeminência fotográfica do Bóbbi. Pois na sua Timbuktu, não a africana mas uma mitológica e utópica urbe, são as memórias do rafeiro Mr. Bones que descascam, numa odisseia tão deprimente como cativante, a existência de Willy Christmas, um homem infeliz e falhado, que morre à porta da casa onde o seu ídolo, Edgar Allan Poe, vivera. Será isso? O que acha, quais as memórias de Bóbbi da sua dona e da Lourenço Marques que a viu nascer e crescer? será que Bóbbi também regressou?

Primo Levi suscitou-me ainda maior supresa. Pois a sua escrita, sendo judeu e tendo passado pelos maiores horrores da carnificina Nazi, incluindo quase um ano em Auschwitz-Birkenau, é mais conhecida pelo conteúdo memorialista desse período – memórias que o perseguiram até à morte. Em 1987, o grande Elie Wiesel, que era professor na Universidade de Boston, onde estudei gestão e um pouco sobre o judaísmo nessa altura e durante dois anos, e ele próprio um sobrevivente do horror Nazi, disse que, quando morreu – e referindo-se às suas peristentes e pungentes memórias – Levi na verdade morrera em Auschwitz mas quarenta anos depois.

Que associações poderá haver entre a obra e o percurso de Primo Levi e este livro de Isabela? A curiosidade avoluma-se dentro de mim.

Procurei, e descubro que o livro não tem índice. Tem, isso sim, em 136 páginas (as que estão numeradas), textos sequenciados, de 1 a 43. Sem títulos. Só os números.

E na verdade, aí me apercebi, afinal aquilo não é só um livro (daí, decorrem, presume-se, os 15 euros).

Logo a seguir ao texto Número 43, depois de uma folha com umas das fotos piquininas de Lourenço Marques que não se vê bem, tem outra onde apenas figura, a meio, a singela e solitária frase, que se presume dedicatória: “À memória do meu pai”.

Repare-se no detalhe: não é em memória do pai. É à memória do pai.

Hum.

E a seguir tem uma página que diz, na vertical, com o texto a apontar na direcção da lomba do livro, em letras garrafais “Adenda” onde, aí sim- surpresa!- tem um índice, mas um indicando o que vem a seguir (aos textos numerados de 1 a 43): seis textos descritos como posts, incluindo o intrigantemente títulado Falta dinamitar o Cristo-Rei e logo abaixo o assaz mais invocativo de assunto gastronómico, Fígado de Porco; e,  finalmente,  Uma conversa com Isabela, que inclui, um pouco como nas (brevemente findas) conversas do Professor Marcello na RTP aos domingos à noite, e à margem das doze páginas do texto da entrevista propriamente dita (feita por não se sabe quem) as sugestões dela de dez livros, cinco datas e cinco lugares.

Portanto, isto é o que se pode chamar um pacote completo.

Que agora é meu.

Por, afinal, uns modestos 15 euros.

E que, feito o investimento e aguçada a curiosidade, vou ler este fim de semana, de fio a pavio.

E de que logo darei conta aos exmos leitores, após reler também a prosa canciana et al.

Para tirarmos esta coisa a limpo de uma vez por todas.

Um bom fim de semana a todos.

(N)A “Pátria Amada”

  • Lisboa

1. Inverno. Um calor de estalagmites.

Dizer

2. Crise. Qualquer emigrado português sabe que ir à “terra” é para ouvir os constantes lamentos dos amigos, da família, dos populares, com a “crise”, e etc. e tal. Mais agora, com a desgraça internacional a repercutir-se nos dois milhões de portugueses abaixo do limiar da pobreza, mais de dez por cento de desempregados, o país sem luz ao fundo do tunel, sem projecto.  E depois … basta ver o potlatch radical dos últimos dias antes do tal solstício dito Natal! Basta perguntar no talho, no café (o bolo-rei), na livraria, na loja de brinquedos, nos restaurantes e afins, etc e tal vinícolas e isso, o obrigatório “então, e este ano como vai?”. Crise? Já lá vai, que “estamos melhor que o ano passado”. Crise? Como crise se a felicidade está ali mesmo, nos balcões dos chópings? E tudo segue, no dia 26 abrem os saldos e as multidões reiniciam o seu caminho de cigarras. O vazio (versão portuguesa do conradiano “horror”).

[Fotografia de inscrição ao Teatro Politeama, Lisboa, Dezembro 2009]

avc

3. A gula. Crise? E é um “trocadilho” fácil, o com esta campanha de época, o tome atenção aos AVCs que encheu os painéis das cidades. Crise? Só se for a da gula, essa motriz dos AVCs. No fundo o símbolo da Europa Ocidental, obesa, no seu estertor. As causas? Exactamente a tal falta de visão, de preocupação. De razão. Tudo isso do a cada um o seu sapatinho, e nada mais … Aliás, a cada um o seu sapatão.

paulo duarte

4. Paulo Duarte, afirma-se de origens humildes, foi um futebolista modesto e não enriqueceu, é agora o seleccionador do Burkina-Faso. Deu uma entrevista ao jornal Record. Interessantíssima, muito para além do patois futeboleiro habitual. De como olha o país africano para onde, surpreendentemente, foi trabalhar há já dois anos. E de como reconhece que para preconceitos era ele que os carregava ao início. Mas mais do que isso, também ele de longe a re-olhar os seus patrícios: “Se as queixas, por isto ou por aquilo, fossem modalidade olímpica, os portugueses estariam cobertos de ouro. Somos muito assim. Completamente. As dificuldades da vida são muitas, para toda a gente, mas há coisas que não podemos esquecer: a maior parte dos portugueses que vive mal tem uma casa, duas televisões, um vídeo, dois telemóveis, dois carros, um emprego, mal remunerado mas temos, tem água, tem luz, tem gás, tem comida na mesa, tem roupas adequadas ao clima. Com maior ou menor dificuldade, chegue o dinheiro ou não ao fim do mês, tem isso tudo“. Sei que é muito fácil apupar este tipo de visão. Mas seria conveniente que os habitantes de um país que não produz o que tanto consome pensassem um pouco no facto de que a sua ladaínha lamurienta não encanta (enfeitiça) os que de longe os assistem. Fica o meu desejo das maiores felicidades a Paulo Duarte, homem a pensar. Força Burkina-Faso!

pai natal

5. Quadra natalícia: Eu também! Pois se o mito sublinha o amor transposto para o espírito de dádiva neste emigrante o real é a volúpia da posse, sacos de auto-prendas esquecendo-me dos “entes queridos”, esvaziando-me o porta-moedas extinto que foi, e já em tempos, o cartão de crédito, malfeitoria ocidental. Malditas livrarias ….

stuyvesant logo

6. Saúde. Viver em flat e enfrentar tantas proibições tabagísticas em locais públicos: assim a fumar bem menos.

Corcunda de notre dame

7. Oferta infantil. Uma enorme oferta de espectáculos e actividades infantis. Gloriosa. Diz quem sabe que este Corcunda de Notre Dame foi do melhor que já viu, e já viu várias coisas.

asterix

8. Cultura. Na revista “Os Meus Livros” (nº 82, ano 7, 12.2009) a coluna “Caldeirada de Letras” (p. 52) contém um acertado texto da autoria de Luís Graça: “Astérix Ortografix“. A propósito da edição do “O Aniversário de Astérix e Obélix, o Livro de Ouro” (fraquinho, já agora) uma crítica as  novas traduções dos nomes das personagens, um incompetente ataque à tradição asterixiana. (Algo que em tempos já aqui referi).

Artis

9. Surpresa. Encontro o Bartis (ok, o Bar Artis) reaberto. Um ícone do Bairro Alto, ali à Diário de Notícias, agora com nova gerência (propriedade dos donos do velho restaurante “Sinal Vermelho”), a vender apenas produtos portugueses (quer um whisky, um gin, um vodka? Beba aguardentes vinícolas – aprecio o acto). Mas mais do que isso – e ainda que lamentando isso do balcão estar agora ao fundo da sala – de louvar a reabertura de um local biográfico. Mesmo que já sem o seu velho proprietário, o célebre Mário, e – aí sim, lamentavelmente – desprovido da lendária Paula, rutilante alma. Mas está lá o Bartis ….

onesimo marx e darwin

10. Inteligência: a primeira auto-prenda, logo no dia da chegada, este “De Marx a Darwin. A Desconfiança das Ideologias” (Gradiva, 2009), um para mim desconhecido livro de Onésimo Teotónio Almeida. O autor é um homem inteligente, o livro idem. Uma delícia, sobre paradigmas cientificos, suas características e limites, e ainda da hipotética relação da ciência com a religião, da ética com a lei. Para mais muitíssimo acessível (efeitos da tal inteligência). Deixo uma citação. Que é letal para alguns meio lusos, e não é preciso recuar ao guterrismo: “Nem tudo na ética está codificado na lei, a lei civil é apenas a imposição da obrigatoriedade de uma ética mínima para o funcionamento das sociedades. Mas se a ética transcende a lei, e por vezes choca com ela, ambas têm os mesmos alicerces. Os debates legais resultam de confrontos entre valores éticos, de combates morais, e nem todos conseguem reunir consensos que se traduzem no estabelecimento de normas legais (ou, pura e simplesmente, de leis sancionadas pelos tribunais e pelas forças do Estado que velam pelo seu cumprimento), contudo muitos valores morais não precisam de ser codificados em lei. Há normas éticas aceites pela maioria que nunca foram consignadas em nenhuma legislação. Os ventos da história e o rumo de cada cultura acaba conseguindo para esta ou aquela norma ética um estatuto legal. Mas nunca a lei cobre todo o domínio da ética, até porque nela, a ética, há um mínimo que suporta legislação (o domínio do dever), porém existe um outro bem mais vasto, o da virtude – a arethé grega – que não poderá nunca ser legislado.” (125)

sporting logo

11. Drama. Rui Santos sobre o Sporting. O jornalista em causa capta pouca adesão – como o prova o baixo número de subscritores das suas incessantes petições informáticas, abundamentemente publicitadas em inúmeras horas televisivas (basta compará-las com as petições lançadas in-blog para comprovar essa sua fragilidade). No entanto a sua denúncia sobre a destruição do Sporting Clube de Portugal por parte do núcleo socioeconómico, em tempos albergado sob o epíteto “Projecto Roquette”, é inultrapassável. E de registar pois estabelecida em jornal de grande divulgação. E, por extrapolação, diz muito sobre o Portugal de hoje, esse da cega aceitação de auto-anunciadas elites sublinhada pela “falta de alternativas”.

fnac

12. Capitalismo. A edição portuguesa está pelas “ruas da amargura”. Sob a tutela dos interesses comerciais, de grupos editoriais desligados da cultura (e, porque multinacionais, do contexto nacional). E esmagada pela pressão oligopolista dos grandes potentados livreiros, também eles apenas virados ao lucro. Assim se apaga a hipótese da edição ensaística e apenas subsiste a chamada “literatura leve”, a capa brilhante, o conteúdo inexistente, a forma “plana” – em particular expressa nos registos da “exo-ajuda” e do chamado “romance histórico”.

Prova dessa superficialização produzida nas grandes superfícies encontro-a na FNAC do Chiado, chego à secção dos livros e deparo-me com o primeiro escaparate – aquele que me recebe e me despedirá, dentro de algum tempo, portanto o que mais apelará à aquisição. Uma das faces para a literatura nacional (prosa) considerada relevante (os peixotos, cachapas, saramagos, lobos antunes, tordos e torgas e isso). A outra face de prosa estrangeira, e não resisti a transcrevê-la, para aqui comprovar o “estado da arte” a que se chegou, do esmagamento cultural por via do comércio (do capitalismo, por assim dizer). São 18 colunas, cada qual com quatro livros, novas edições (traduções) ou recentes reedições. Por mim recenseadas, como denúncia. Apresento apenas os autores, para economia de ma-schamba. Eis então o painel do escaparate melhor situado:

1. Bernhard; Bernhard; Mishima; Mishima. 2. Beckett; Walser; Walser; Mme Lafayette. 3. Hesse; Hesse; Jane Austen; Jane Austen. 4. Hemingway, Dumas, Diderot, Dickens. 5. Iris Murdoch, Iris Murdoch, Rilke, Colette. 6. Susan Sontag, V. Wolff, V. Wolff, Lampedusa. 7. Thoreau, Flannery O’Connor, Orwell, Orwell. 8. Maugham, Mann, Beckett, Mailer. 9. Daphne du Maurier, Céline, Saint-Exupery, Walty. 10. Flaubert, Yourcenar, Yourcenar, Hsek (?). 11. Kafka (X4). 12. Aitmatov, Kafka (X3). 13. Jack London, Boris Vian, Victor Hugo, Lautréamont. 14. Proust, Proust, Calvino, Calvino. 15. Calvino (X4). 16. Calvino, Pasternak ,Turgueneev, Gogol. 17. Tolstoi, Zweig, Svevo, Bulgakov. 18. Dostoievski, Dostoievski, Lidmila Ulitsvaia (?, será assim?, não conheço), E. Waugh.

Lastimável. Esta prática comercial, esta subjugação editorial. O primado da mediocridade. Efeitos, necessários entenda-se, do capitalismo. Vil.

Charme Discreto da Burguesia 2

13. O Charme Discreto da Burguesia. Olivais-Sul, Lisboa, Dezembro de 2009.

Ler Dezembro 2009

14. Império. A Ler (nº 86, Dezembro de 2009), coluna “Booktailoring”, de Paulo Ferreira e Nuno Seabra Lopes. Procurando um registo cómico em futebolês (o dia em que os humoristas escreverem em raguebês ou golfês será bem arejado…) o texto ”Um jogo entre linhas“ que aponta os “jogadores mais influentes do mercado editorial português em 2009“. Não vou discutir os critérios. Apenas o eco da minha reacção: “tenho que ter cuidado, pareço da patrulha ideológica“, resmungo-me. Pois na “selecção nacional” deles lá estão o Agualusa e o Mia Couto. Sim, eu sei que na selecção de futebol estão o Liedson, o Pepe e o Deco. Mas nesta, na literária, não há brasileiros. É, na cabeça dos humoristas, uma selecção portuguesa de Portugal, mas afinal uma transpiração da pobre lusofonia. Ou seja, e isto muito para além dos escritores em causa, da cabeça dos humoristas ninguém retira(ou) o Império. Nem na Ler… Absurdo. Mas um absurdo sintomático.

jornal i

15. O jornal I é o melhor jornal nas bancas. Já no Verão passado me parecera tal. Agora confirmam-me tal alguns amigos. Alguns até acompanham a opinião com um “é de direita mas …”. Mas digo eu, que o vejo sem publicidade e oferecido nas bombas da Galp. Mau sinal? A ver se se aguenta …

Jose Cutileiro Bilhetes de Colares

16. Delícia. Inúmeras bancas de livros em saldo (aliás, monos), um “apelo às dádivas”. Nelas sempre se encontram exemplares desta bela colecção “Horas Extraordinárias” que o Independente foi publicando há alguns anos. Cada vez que em Lisboa lá carrego alguns. Agora é a vez (a 2,5 euros, imagine-se) de adquirir este saborosíssimo “Bilhetes de Colares de A.B. Kotter (1993-1998)“, “porventura” de José Cutileiro. Obrigatório regressar a esta Quinta da Beldroega, sita na Várzea de Colares, seus habitantes e visitantes, ponto máximo de observação deste país. Pelo olhar-mestre do Senhor Doutor Kotter, traduzido pelo ex-comando J. Fonseca, fiel à máxima de que “Como a leitora sabe, eu nunca me imiscuo na política deste maravilhoso país que tão generosamente me acolhe no seu seio. Não cabe a um estrangeiro fazê-lo; menos ainda a um estrangeiro sem razões de queixa.” (66). Ainda que com ele se possa discordar, por vezes, como aqui: “Já tentei explicar-lhe que o snobismo não é tão mau como parece porque, vistas bem as coisas, sempre é o contrário da inveja…”. Discordância que, se seguida, levaria por caminhos muito diversos. Mas mais do que a justificar a corrida aos monos…

fontes pereira de melo

17. Política. Nenhum dos meus amigos – desses que cada vez menos encontro -, nenhum dos meus familiares, nenhum dos teclistas lidos in illo tempore, enfim nenhum desses que tanto vituperaram (vituperámos) o “fontismo” cansado, travestido de “desenvolvimento”, do primeiro-ministro Cavaco Silva tem agora uma palavra irritada contra o proto-fontismo de José Socrates. Mas para quê falar, se é para falar encastrado?

Amalia

18. Jonhy Lyndon (ex-Rotten). Amália. Coração Independente (no CCB). Não sou um amaliano, ainda que nela possa actualizar (reconheço, até acabrunhado) a expressão “de ir às lágrimas”. Pois ainda que não o seja (amaliano) saí preenchido da exposição. Para logo quem ali a meu lado me iluminar, como sempre na vida, num até desdenhoso “não aprendi nada”. E é isso, saio do amalianismo (no meu caso amador) e constato, a exposição não é um diálogo com Amália, é uma missa (certo, a haver divindade que seja ela), apenas uma missa. Ela adoraria. Mas está morta, não haverá outra forma de ser olhada?

Depois o tal diálogo com a mulher, a personagem, a artista, o mito  -  que se pretenderia? –  é atirado para um “posfácio”, de arte contemporânea. Nesse pacote, mas que assim surge externo, in-dialogante, um bailado (Ana Rito) muito interessante, a peça de Joana Vasconcelos também. E uma instalação visual óptima de Bruno de Almeida. Mas mesclado com coisas-obras a parecerem  modismo para “espantar a classe média baixa”. Francamente, não há paciência para quem atira um xaile para o chão e diz “arte!”. Olhar um cilindro branco com espelho atrás, “um artista (Amália) solitário no palco”. Em 2009? Ali tanta ruptura, tanta inovação como o busto realista atrás apresentado (Joaquim Valente), coisa de meados de XX, que foi muito ao gosto da representada. Honestamente uma desilusão. Pelo auto-centramento da exposição, que se pretende encantória. E pela tralha avulsa que se lhe colou à maneira de olhar actual – com as excepções referidas. Sempre me convenço que o epíteto “contemporâneo” faz eclipsar o espírito crítico, analítico. Cilindros brancos, mesas luz com banheiras coloridas, peças atiradas no chão. Hoje?

Coisas que sempre me fazem lembrar aquela entrevista do Jonhy Lyndon (ainda Rotten?) ao Philippe Manoeuvre, publicada na Rock & Folk cerca de 1982. Dizia o Rotten: “ser punk em 1980 é igual a ser hippie em 1976″… Xailes no chão?!

sahara ocidental

19. Sahara Ocidental. Uma militante esteve em greve de fome defendendo a causa do Sahara Ocidental, protestando contra a ocupação marroquina. A representação diplomática de Rabat em Lisboa concedeu uma entrevista ao jornal “i”, anunciando que Marrocos é “o polícia da Europa”. O silêncio europeu face à ocupação colonial do Sahara Ocidental passa por esta “política real”. Confesso que nada sei sobre a situação efectiva na região (no país, por outras palavras), acredito até que o terrível fundamentalismo “alqaediano” seja um papão agitado por Marrocos para colher o apoio à sua velha expansão – como os leitores saberão ninguém falava de Al Qaeda e muito poucos falavam de “fundamentalismo”/”integrismo” islâmico quando Marrocos  procedeu à ilegal anexação daquele território. Ou o seu inverso.

Mas enfim, são contas do difícil e imbrincado rosário da história. A mim interessa-me a reacção em Portugal. Nos jornais e na TV, nas conversas, ninguém ecoa a posição do Estado - o qual desde o governo Socrates assumiu a posição mais próxima da política colonial marroquino. É óbvio que o “distante” assunto a ninguém interessará, Marrocos está nos confins, parece-me até antípoda. À esquerda ninguém diz nada, nem mesmo o BE, onde Marrocos será quanto muito o locus de umas ganzas a legalizar, que isso dos princípios é uma canseira. O PCP silencia, mas é óbvio: para um partido sempre ao lado dos poderes coloniais e dos regimes monárquicos não se deveria esperar uma interrogação sobre a política diplomática portuguesa nesta questão. Ninguém questiona a questão. O fait-divers da senhora à fome acabou, entretanto o escritor José Saramago foi lá apoiar (à revelia do seu partido, à revelia de António Costa, o socialista de quem é apoiante) porque é uma ”causa justa” e pronto. Aliás, prontos …

20. Excelência. No canal Mezzo (que pena não haver em Maputo) um fantástico programa sobre Rafael Campallo, bailarino que desconhecia. Grande, grande …

Liceu Camões

21. O Antigo Regime. O álbum, merecido, celebrando o centenário da Escola Secundária de Camões (ex-Liceu Camões). Ainda que me arrepie sempre que ouço loas ao dito liceu (apesar dele próprio). Que é sempre agitado como se ícone dos “bons tempos” em que havia cultura, e educação que a sustentasse e reproduzisse, em Portugal. Ou seja, antes do povo estudar e, até, gerar professores. Tudo isso em discursos de ”progressistas”, até gente oposicionista germinada no velho Liceu – mas que verdade, verdadinha, suspira por trechos do dr. Salazar, em particular aquele de que ao povo basta ensinar a contar e a assinar. Quebrado isso ficámos como estamos. Que “eles” até a “doutores” vão.

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22. A desistência. Visito, acompanhando uma ínclita comitiva, a exposição do fotógrafo Korda. Celebrizado pela iconográfica fotografia de Ernesto Guevara, de sua autoria. Muito interessante, pelo que demonstra da produção do culto de personalidade do ditador comunista Fidel Castro, do qual Korda foi acompanhante durante a década de 1960s. Fantástica a sua entrevista, a forma como glorifica o próprio Ernesto Guevara, um absoluto contrasenso (assista-se às suas declarações, elogiando a “punição” que Guevara lhe fez).

Korda6Korda5 Mão de Fidel

Fidel Castro como ícone, até bíblico. A mão na terra produtiva, a pegada de Fidel, o seu “gigantismo”. A sua beleza sensual. Fascinante, como interpretável. Como produto e produtor de fascínio.

Korda1 - mulheres

Certo que se Korda fosse eslavo ou han teria tido problemas, acusações de “cosmopolitismo” (como aventou um amigo meu) não lhe faltariam. Basta ver esta fotografia, onde duas presumíveis beldades, até lânguidas, escutam no escuro as palavras solarengas do comandante, deixando imaginar outras prédicas, mais íntimas. Coisas deste discurso construtor do “fidelismo”, de Fidel Castro, muito dadas ao tom local, mas também à específica característica de Korda.

Mas para além dos seus méritos estéticos e jornalísticos surpreende que esta exposição, demonstrativa da arte glorificadora de Korda, que surge sob tutela da também estatal Casa da América Latina num espaço também estatal (Cordoaria Nacional), seja apresentada sem qualquer contextualização distanciada, sem referência enquadradora. Nada nos textos que a acompanham, talvez (mas desconfio que não) no catálogo – que muito presumivelmente será apenas encomiástico. Espantosa desistência. Dias passados comento esta minha estranheza numa mesa polvilhada de académicos, a nenhum pareceu estranha tamanha distracção “fidelista”, obviamente significante. Nem mesmo quando lhes disse ser Korda um pouco a Leni Riefenstahl do regime cubano, ou que diante de qualquer produtor de mitos e ícones se presume criar distância cognitiva, não apenas fascínio e adesão – coisas que tão bem “sabem” para outros casos. Um simpaticíssimo alto quadro do ministério da Cultura, ali entre variados acepipes, rematou que “a exposição é daquelas que se recebem”. E pronto! Desistência, pura e simples. E a gente assiste.

gravata

23. A gravata. Penso que foi no jornal “Sol”, uma pequena nota irónica sobre Francisco Louçã. Que o coordenador do BE aportara no parlamento usando gravata, ao contrário do seu significante traje político, esse que reclama dessassombro (e, claro, posição de classe). Para logo nos “sossegar”, afinal era apenas o dia em que o deputado cumpria provas públicas académicas e nesse campo fazia questão de cumprir as normas de vestuário. Passa tudo num sorriso, as pessoas dirão que é do espectro das decisões pessoais, etc. Mas este pequeno episódio, o respeito pela gravatinha no seio da corporação profissional ao invés da liberdade encenada no traje política, este pequeno episódio mostra bem a hipocrisia do senhor professor. O corporativismo fala mais alto, em maquilhagem de pequena-burguesia.

Escaparate

24. O escritor de escaparate. Já no pós-Natal mas ainda a caminho de mais uma comensalidade pantagruélica. No rádio do carro, enquanto subimos ali em Monsanto, capta-se uma conversa com escritor – desses que está em todos os escaparates natalícios, diga-se. Diz ele, face a pergunta da radiofónica voz: “a literatura é o que tem que ser!”. Abismado com tanta profundidade aumento um pouco o volume, para ouvir no que aquilo irá dar, e logo ouço mais uma pergunta “V. disse no seu blog que a literatura portuguesa não é apoiada pelas livrarias. Que vontade de escrever isso lhe dá?”, ao que responde o escritor, voz arrastada, sofrida, ”Nenhuma“. A meu lado, enfastiada, a senhora pergunta-me “queres ouvir isto?” e eu, mais assim como eu, logo riposto: “tira essa merda!”.

Rolling-Stones-Let-It-Bleed

25. Envelhecimento. Ligo o carro e na rádio reconheço os acordes da “Fanfarra para um homem comum” e logo surge a  “You can’t always get what you want” dos Stones. Elevo, e bem, o som e segue a canção-ícone, rock-barro da minha gente. Acto contínuo a bela rapariga a meu lado põe-me na boca …. uma castanha assada.

coppola tetro

26. Tetro, de Coppola, é um soberbo, lindíssimo, filme sobre Buenos Aires. Fantástico. A história é um pastel, a deriva patagónica um must de pirosice. Convém ver. Mas sem som nem legendas.

jose policarpo

27. Cardinalice. O Cardeal de Lisboa invectiva a “indiferença, agnosticismo e ateísmo” na sua homilia natalícia. Interrogo-me onde vai ele buscar essa ideia da igualdade entre “indiferença” e “ateísmo”. Que ”indiferença”? A prática, a ética, a solidária, a reflexiva? Um argumento vácuo, inaceitável, e que não cola com a imagem de profundidade intelectual que Policarpo sempre apresentou. Sem rodeios, é uma parvoíce ao nível daqueles que reduzem a igreja católica a fogueiras da inquisição e a erecções pedófilas. José Policarpo tem o direito (em determinada acepção terá até o dever) de combater o ateísmo e o agnosticismo. Mas tem toda a obrigação de matizar as suas argumentações e invectivas. E exactamente quando a sociedade presta homenagem a Manuel Clemente, bispo do Porto, enquanto homem de cultura elogiando-lhe a fina análise. Um deslize cardinalício, ao invés do momento vivido. A colher, claro, o silêncio do comum …

Homem em Furia

28. Homem em Fúria, de Tony Scott, competente filme de TV. Seria uma excelente peça de cinema de samurai, acho, não fosse o seguidismo ao paradigma psicologista, assim desvanecendo a profundidade abissal do protagonista. Um diálogo excelente: “Velho: Na igreja dizem que devemos perdoar; Creasy (Denzel Washington): Perdoar-lhes é com Deus. O meu trabalho é proporcionar-lhes o encontro.”

record

29. Acordo Ortográfico. O Record é o jornal que logo aderiu ao Acordo Ortográfico. Se dúvida houvesse sobre o substrato intelectual desta parvoíce provinciana a entusiasmada adesão de tão pobre jornal cessa qualquer hipótese de dúvida. Eduardo Pitta acha que os detractores do Acordo Ortográfico são “encenadores” que dão pontapés na gramática, e com ele concorda Filipe Nunes Vicente, outro grande-bloguista. Recordo que as maiores polémicas neste ma-schamba vieram desses meus actos pontapeadores e, envergonhado, lamento-os bem como à falência das minhas tentativas teatrais. Vou ali ler o Record – pode ser que por lá me expliquem que esta deriva homográfica lusófona nada tem a ver com um fundo tonto de apelo à gesta da “presença” e “expansão” da língua portuguesa, que nada tem a ver com a inexistência de verdadeira reflexão económica sobre os seus futuros resultados para a edição internacional em português (mas apenas em “desejos pensantes”), que nada tem a ver com a tonta e iletrada ideia feita da distinção radical entre a fala e a escrita (a “escrita é uma convenção” dizem os imbecis, convictos que a fala, em última análise, não o é; a “grafia não influencia a fala”, dizem “professores” sem perceberem que assim invalidam a sua tarefa).

Bem, pelo menos parece o Miguel Veloso marcou um golo e diz-se que vai para a Fiorentina ou Barcelona, e o jornal deve falar disso …

cafe bica

30. Decadência Nacional. Cada vez mais difícil, talvez até mesmo impossível, encontrar uma “bica” (aliás, “café”, “expresso”, “italiana”) decente. Os estabelecimentos  comerciais especializaram-se em servir zurrapas. Café Chinês?

PResepio

31. Família. Em dois dias seguidos dois artigos interessantes, os de Miguel Pacheco, “Não São Sermões Sobre a Vida Íntima e Martim Avillez de Figueiredo, sobre a questão da “família”. Em ambos choco com este meu preconceito, o de que o discurso jornalístico aparece mais superficial do que o académico ou de reclamação intelectual. É aqui o inverso, total. Pois em ambos é explícita a ideia, ao contrário dos discursos dominantes, da necessidade e da virtude da família. Ultrapassando as velhas querelas hiper-liberais e hiper-marxistas, da família como local agente de repressão e reprodutor da exploração, do maléfico Pai-Padrasto Castrador e da malvada Mãe-Madrasta Castrada Castradora, do discurso da libertação do sacrossanto indivíduo face às algemas comunitário-familiares, da ultrapassagem da repressão por via do sacrossanto Estado-sociedade, local de protecção, produção e reprodução. Afinal instituição virtuosa, falível claro, de produção e interacção de valores sociais.

Há quem chame a isto conservadorismo. Lembra-me o Jonhy Rotten (já Lyndon?): “ser punk em 1980 …” (onde é que eu já li isto? …).

enchidos

32. Frases feitas? Um repasto, entre antropólogos e excelsas iguarias, no caminho entre enchidos fidedignos, sopa de rabo-de-boi, conduto incomensurável, doçaria relevante, reservas variadas e vintages culminantes. Algo a que, ali, estou há décadas habituado. Com emigrantes à mesa a conversa passa ao “estado do país”, claro. Donde ao casamento homossexual, que o resto foi resumido, como sempre, num “isto está mau” – mas que ninguém interprete este condicionamento do discurso popular como uma estratégia do governo, que é de esquerda, donde bom. Pessoa que há décadas muito me é querida e também minha mestra nas coisas antropológicas, talvez até causa quase-única desta minha formação, remata-me “O casamento é um contrato entre dois indivíduos“. Vacilo, e partirei destruído para casa. Pois se vindo de quem vem aquele libelo individualista … tudo aquilo que estudei, da reprodução estratégica de laços de filiação e de descendência, de articulação entre grupos sociais, de transferência de património (em sentido lato), de composição e recomposição familiar, tudo isso para onde foi, o que era? Nada, afinal a nossa sociedade é apenas um campo onde interagem indivíduos, livres, racional e radicalmente autónomos que contratualizam. Virtuosamente.

Vindo de quem vem? Já no carro, ao volante, entre a azia silenciosa e a flatulência reprimida, constato-me duas décadas de vida profissional enganada. Novo ano que aí vem – e até já veio – exige-me pois vida nova, profissão nova. Pois se a outra, a da até agora, inexiste afinal. Não dormirei, e desde então a insónia constante. Para onde ir? Que fazer? Ou antes, com que indivíduos contratualizar?

PortoVintage

33. Ideias Feitas?. “À mesa, entre antropólogos e excelsas iguarias, no caminho entre enchidos fidedignos, sopa de rabo-de-boi, conduto incomensurável, doçaria relevante, reservas variadas e vintages culminantes. Algo a que, ali, estou há décadas habituado. Com emigrantes à mesa a conversa passa ao “estado do país”, claro. Donde ao casamento homossexual – que o resto foi resumido, como sempre, num “isto está mau” – mas que ninguém interprete este condicionamento do discurso popular como uma estratégia do governo, que é de esquerda, donde bom. Pessoa [outra] que há décadas muito me é querida, e também minha mestra nas coisas antropológicas, talvez até causa quase-única desta minha formação” [in blog ma-schamba, post "(N)A "Pátria Amada" (ponto 32)], explica-me, simpática e até solidária com as minhas falhas de formação (e tantas ela colmatou nos bons velhos tempos), a diferença entre o matrimónio religioso, de vínculo indissolúvel, e o casamento civil, coisa moderna e passível de ser dissolvido. Por opção própria, por economia de discurso, não lhe dá nenhum enquadramento de história institucional, mas não posso aprender tudo no mesmo dia. Estava eu, portanto, a ouvir pela enésima vez esta profunda argumentação – e ainda não tínhamos chegado à questão das sufragistas, mas haveríamos de lá aportar – quando um conviva comensal rematou, glorioso: “vínculo indissolúvel?! Ah, mas isso é o que defendem os sindicalistas!! Afinal são iguais, a Igreja e os Sindicatos“.

Um vintage, este meu amigo, há décadas que vai vintage! Pena é que não meu mestre …

bachhaydn

34. O cadáver da Antropologia. Ao sábado ouvir Bach na Gulbenkian, ao domingo Haydn no CCB. Para além do encantamento da música – um registo em que me perco completamente, por falta de capacidade interpretativa, uma delícia – deixo-me, como sempre, a “olhar” público e músicos. Olhar esta disciplina, que faz milhares de músicos aprenderem a reproduzir e interpretar partituras de tons e sons velhas de séculos, atentos às suas diversas matizes, e ainda, até, criando-lhes novas formas. Disciplina que passam a milhares e até milhões de ouvintes, que vão sendo treinados a escutar (alguns até a entender). Disciplina essa a qual poderá ser chamada “civilização”, forma vasta de controle, molde gigantesco de sentir e ser. É um fim-de-semana bom para isso, isto de partilhar espaço civilizacional com patrícios relativamente diversos – nas formas do saberem os seus corpos, de controlarem tosses, espirros, flatulências, agitações, sentimentos, amores, aplausos. Mais “burgueses” à Praça de Espanha, mais “populares” (menos “cívicos”, menos ”civilizados”) em Belém, que tudo isto é um processo longo de aprender.

Mas de repente, ali a meio da Criação, de Haydn, entre tosses múltiplas e aplausos fora-de-tempo no seio dos ainda algo in-disciplinados, lembro-me da minha queridíssima amiga e mestra. Que é isso? Questionar-me sim, mas apenas sobre as contratualizações que ali nos uniam. Nada mais há a questionar, a inquirir. Paguei bilhete, é o meu contrato. Outros pagaram ainda impostos, é outro contrato. Todos comprámos produtos dos patrocinadores, mais contratos jurídicos. E basta, deixo-me a ouvir a música, incompreendendo. Feliz.

Jornal de Letras 1

35. A cremação da dita e ainda das suas primas. Jornal de Letras, já institucional presença. Tem defeitos, mas é melhor que exista. Muito estatal, no ponto de vista, nas formas de associação e financiamento. Também por isso local dos sinais dos tempos. Na última edição (nº 1024) vários artigos sobre a década agora terminada, “dez anos de letras, artes e ideias“. Extensas indexações de poesia e prosa literária, artes plásticas, música erudita e pop, cinema, dança e teatro. Ambiente, ensaio e ideias (sobre estas dois textos) também. Não discuto os critérios, gente sábia a escrever. Mas surge-me questão. No mundo das “ideias” ainda há referência para uma ciência social, a História. Até par as sua versão história intelectual (já agora, saúdo as referências a obras que me são bem queridas, “História do Pensamento Filosófico Português”, coordenada por Pedro Calafate, “Portugal Extemporâneo” de Carlos Leone). Depois … Eduardo Lourenço, mais alguns ensaios, o “Portugal Medo de Existir” (“os portugueses são …”).

Entenda-se, dois artigos sobre “ideias”, um sobre “ensaios”. Nem uma referência a trabalhos portugueses de Antropologia, de Sociologia, de Psicologia, de Geografia, de Linguística, de … olhando bem nem de Economia, nem tampouco de outra área de investigação. Ideias durante a década? Ideias sobre Portugal e sobre o mundo? Nada a referir. [Vou escrevendo e pensando que sobre Ciências Exactas/Naturais idem, idem. Mas haverá ideias aí?, dirão os especialistas do JL].

É o Jornal de Letras! Sinais dos tempos? Claro, como comprovei nesta minha deslocação.

inhamabane

36. Inhambane. Para lá sigo. Intentando, entre sol e calma, encontrar um novo rumo. Entenda-se, novos contratos. Apenas jurídicos, claro.

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José António Saraiva, os Jovens e o Pai

sapatilhas da moda nb kiks

por ABM (Cascais, 23 de Dezembro de 2009)

A propósito dos meus queixumes cinematográficos sobre os jovens, refiro a crónica de José António Saraiva, que dá a sua visão sobre o assunto. Claro que peca pela abrangência. Mas em média está correcto e aponta o dedo aos filhos da classe média (bem, da média-baixa para cima).

Li esta coluna não porque comprei o semanário lisboeta Sol, de que JAS é director, mas porque estava um monte de jornais para oferta à saída do cinema a semana passada e eu peguei numa cópia.

Gosto muito de ler JAS desde os idos tempos em que comprava, numa mercearia portuguesa na zona de Fox Point, em Providence, Rhode Island (EUA) inexplicavelmente espessas cópias do Expresso. Não era todas as semanas pois a mercearia só recebia algumas cópias e se eu chegasse tarde não havia nada para ninguém.

JAS era para mim o prato forte e leitura obrigatória do Expresso e nunca entendi muito bem a decisão dele sair de lá para fundar o Sol. Do pouco que sei, este jornal, não sendo editorialmente mau, não vale muito sem ele e parece-me que tenta ser o antigo Expresso sem o ser. O problema é que nem o actual Expresso se parece com o antigo Expresso.

Pode ser que seja eu que tenha mudado. Mas não acho.

Acresce que o jornal tem tido problemas financeiros aparentemente sérios e tem seguido uma estratégia muito peculiar de insistir em ser vendido nos países africanos onde se fala português, o que não entendo pois o mercado lá para as notícias e análise que o jornal faz cá não é grande. Não só não é grande como não se compadece com as pressões culturais, diplomáticas e políticas que caracterizam o tortuoso eixo que liga Lisboa às capitais dos países onde se fala português – especialmente Angola e Moçambique (que conheço melhor) onde há bons jornais e bons escribas.

E, do que fui informado, uma parte do capital do Sol está nas mãos de interesses angolanos. Qual a lógica, não sei.

Mas JAS continua em forma, mais velhinho e sábio como alguns de nós. O estilo e a substância não alteraram muito com os anos.

E, meritoriamente, sai no feitio ao pai, o grande António José Saraiva, que tive o prazer de ver quando visitou a Universidade Brown e em que falámos de um livro que ele então havia publicado recentemente, A Inquisição e os Cristãos Novos, que eu acabara de ler e tinha feito um (ridículo) trabalho para uma cadeira creio que do prof. Onésimo Teotónio Almeida.

Para mais sobre a Inquisição e os Cristãs Novos, leia-se esta entrevista de Francisco Bettencourt, que em tempos leccionou na Brown e em que fala da obra do pai Saraiva (chamando-lhe uma “tese marxista” – hum).

“A Invenção das Ilhas”, de Virgílio de Lemos

VirgilioLemos invençaco

Comemorações (já!) do 10º aniversário da Escola Portuguesa de Moçambique. Feliz iniciativa, a de publicar este “A Invenção das Ilhas“, uma antologia de Virgílio de Lemos, organizada por António Cabrita, e que contém ainda uma longa entrevista ao poeta, realizada em 1999 por Carmen Lucia Tindó Secco, para ser integrada na publicação da obra por ela organizada “Eroticus Moçambicanus” (editada por Nova Fronteira). A obra contém ainda, em regime de posfácio, um colóquio do organizador consigo mesmo, “A Buganvília Que Ri. Sobre a Poesia e Outros Suspensórios ou Breve Telegrama para o Virgílio de Lemos, Poeta da Luz e do Tricórnio“. O volume contém vários dos seus heterónimos, Bruno dos Reis, Duarte Galvão, Lee Li-Yang, Virgílio de Lemos, cruzando a produção destes autores desde o início de 1950s até à presente década.

Avisam-me de planos para a publicação da sua obra completa, na Imprensa Nacional-Casa da Moeda. E ainda a iniciativa da tradução para português de (parte da?) sua obra em francês. Um conjunto de iniciativas que trarão Virgílio de Lemos para o convívio de poetas moçambicanos, uma presença hoje quase invisível como afirma Cabrita. Coisa talvez do seu percurso biográfico, há longas décadas vivendo em França e com muito raras visitas a Moçambique. E também ao relativo esquecimento, apesar do reconhecimento que alguns, como Eduardo Lourenço e Patraquim lhe votam.

Fica, não como exemplo, mas como nota de quem então partiu para não voltar, este poema de 1963, da autoria de Duarte Galvão:

Beijo-te Inteira África


Meus lábios procuram-te avidamente
e no delírio do meu amor por ti
beijo-te inteira África
e sou cruel terno verdadeiro
Nos troncos esguios de altos eucaliptos
shindjingritanas e soas
fazem ninhos e amor
sem a consciência das coisas
metafísicas.
Nós escutamos ritmos de jazz puro
de John Lewis
ou com volúpia dançamos
novos ritmos de marrabenta.
Mas não estamos anestesiados
pela música e pelo amor.
Meus lábios procuram-te loucamente
e no êxtase de minha derradeira entrega
beijo-te inteira África
e parto angustiado.

Contos populares recriados em livro

Fabulas

Mais um livro, e apropriado à época. A Kapicua publica este “Fábulas de Cabo Delgado. Matias Ntundo Xilogravuras.”. Uma edição organizada por Gianfranco Gandolfo, contendo a recriação literária de contos populares de Cabo Delgado realizada por António Cabrita, e uma série de imagens das célebres xilogravuras de Matias Ntundo – que presumo ali surjam em forma de “ilustração” do corpo literário. A apresentação pública será no dia 16 de Dezembro mas o livro estará à venda antes dessa data.

jpt

Hoje Seis anos de ma-schamba

 Lavoura

“…a lances de catana e de machado desfaz a rama e a trama dos espaços virgens. Prepara um espaço para a nova lavra, esgotado o humus de uma lavra antiga. Alarga a circunferência de chão raso. Devolve o sol à terra e dá-lhe a mansa forma de um corpo fecundável e passivo. O tronco nu progride mata a dentro. Governa os braços firmes e velozes, confere exactidão ao gesto azado. E os fustes, gemem, fendidos pelo golpe. Martela, vigoroso, a rijeza maior de alguns dos paus, depois transforma em lenha as copas derrubadas…”

(Ruy Duarte de Carvalho, Como se o Mundo Não Tivesse Leste, Cotovia, p. 117 )

Questionário de Bolaño

o “questionário Proust” de Roberto Bolaño.

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George Steiner em Portugal e o seu “jardim imaginário”.

Leio que George Steiner recebeu um honoris causa em Portugal. Fico algo curioso sobre as reacções que aconteceram. Não tanto as laudatórias, que honoris causa oblige. Mas entender como algumas bandas do espectro nacional o receberam e aclamaram (?).

Digo isto porque Steiner escreveu algo que assenta perfeitamente sobre Portugal – em particular sobre alguns extractos dominantes e bem sonoros do pensar português. Como terão eles embrulhado a recepção e sacralização deste vulto enorme? Porventura com silêncio, ele é pesado e elevado demais para o ataque, convirá assobiar para o lado.

Steiner Barba

Estou exactamente a lembrar-me de um seu pequeno livro, “No Castelo do Barba Azul. Algumas Notas Para a Redefinição de Cultura” (Relógio d’Água, 1992, tradução de Miguel Serras Pereira). Na verdade é melhor citá-lo, ainda que algo longamente:

A nossa experiência do presente, os juízos, tantas vezes negativos, que fazemos acerca do nosso lugar na história, vivem continuamente contra o fundo daquilo a que eu gostaria de chamar o “mito do século XIX” ou o “jardim imaginário da cultura liberal“.

A nossa sensibilidade situa esse jardim na Inglaterra e na Europa Ocidental dos anos que vão aproximadamente de 1820 a 1915. A primeira data tem a falta de brilho do que releva das convenções, mas o fim do longo Verão reveste-se de uma exactidão apocalíptica. Os traços maiores da paisagem são inconfundíveis. Um nível de cultura elevado e crescente. O primado da lei. As formas de governo representativo, sem dúvida imperfeitas, mas que por toda a parte se generalizaram. Direito à privacidade e segurança cada vez maior nos espaços públicos. Reconhecimento espontâneo do papel axial das artes, ciências e tecnologia em termos económicos e civilizacionais. A obtenção paciente, ainda que por vezes difícil, da coexistência pacífica entre os estados nacionais (…) Interacção dinâmica e temperada de humanidade entre a mobilidade social e as linhas de força e os costumes estáveis da comunidade. Uma norma de poder, moderada pelos conflitos tradicionais entre as gerações, entre pais e filhos. Liberalismo sexual acompanhado por um critério de restrições vigoroso e subtil, colectivamente aceite. E ser-me-ia fácil continuar. (…)

Segundo os nossos interesses transportamos connosco diferentes elementos ou partes deste todo complexo. O pai “sabe” de uma época passada em que as boas maneiras eram estritas e os filhos obedeciam. O sociólogo “sabe” que houve uma cultura urbana em larga medida imune às actuais ameaças anárquicas ou baforadas de violência intempestiva. O religioso e o moralista “sabem” que existiu um tempo em que os valores eram reconhecidos por todos. Cada um de nós poderá evocar as alíneas que melhor convenham ao seu caso: a casa onde a ordem reina, com os seus servidores e o seu recato; os parques dominicais com a sua ociosidade tranquila; o latim nas salas de aula e a subtileza apostólica dos anfiteatros universitários; as livrarias autênticas e os debates parlamentares intelegíveis. Os homens de cultura “sabem” num sentido peculiar, e simbolicamente definido da palavra, que houve um tempo em que uma produção universitária e literária séria, economicamente acessível, era sinónimo da descoberta de um público extenso e dotado de competência crítica. Há ainda hoje há muita gente para quem o célebre Verão sem nuvens de 1914 é a abertura de um passado a que corresponde um mundo mais civilizado, mais confiante, mais humano do que tudo o que depois dele conhecemos.” (15-16)

É o que o autor resume como “O mito da Queda é mais forte do que qualquer religião particular” (14), algo que dá sentido às sociedades. Nem vale a pena exemplificar, o conteúdo elencado dessa visão mitológica (e metafísica) do ” jardim imaginário do século XIX“, surge no Portugal de hoje constantemente erguido (a morte do português, o desaparecimento de Portugal, o fim dos cafés e das suas tertúlias culturais, os livros que são lidos, a tv, o povo, etc. etc. etc.). O que é interessante – e denotando o tempo longo português - é que em Portugal as balizas históricas desse jardim não são equivalentes às anunciadas neste texto. Uma minoria – muito ligada a pobres estratégias de ascensão social, de descendentes de pequenos comerciantes e mercenários do norte da Europa, que estrategizam para preservar os nomes estrangeirados, aportados ao país no liberalismo de XIX – ancoram-se, paradoxalmente, num insane monarquismo absolutista, em Portugal chamado “miguelista”, imaginando o tal paraíso onde reinaria “Uma concordância profunda entre o homem e o seu quadro natural de existência” (14) – e escrevo esta entrada na véspera do 1 de Dezembro, onde esse sector mais ridículo, e não só porque arrivista, da sociedade portuguesa sai à rua.

As restantes faixas do espectro intelectual que repisa constantemente este discurso “decadentista” – à “direita” mas também à “esquerda”, pois estamos não tanto numa dimensão programática mas sim numa fundamentalmente identitária, de auto-reclamação e de auto-constituição -  alinha a história de outra forma. A desordem portuguesa, a desumanização do seu povo e da sua cultura, é não tanto desenhada pelo seu confronto com um mundo liberal de XIX mas fundamentalmente pela sua contraposição com a ordem, porventura imperfeita, mas dotada de sentido e sentidos, estabelecida no século XX português, o “jardim imaginário do Estado Novo”, o totalitarismo até-fascizante, o colonialismo. Afinal sempre recordados como estruturantes dos valores e das boas práticas, seus enquadradores ainda que porventura imperfeitos.

Mas “o jardim imaginário é, sob certos aspectos decisivos, uma simples ficção.” Ouvindo os historiadores “É-nos dado a entender que a crosta de requinte civilizacional cobria profundas fossas de exploração social; que a ética sexual burguesa mascarava uma imensa área de hipocrisia turbulenta; que os critérios de formação cultural exigente diziam respeito a muito poucos; que o ódio entre as gerações e as classes era visceral, ainda que muitas vezes silencioso; que a segurança do faubourg e do parque estava directamente ligado à ameaça, reconhecida mas contida, dos casebres e tugúrios. Quem quer que queira abrir os olhos poderá descobrir o que era um dia de trabalho numa fábrica vitoriana ou como a mortalidade infantil atingia grandes números das regiões mineiras do Norte de França durante as décadas de 70 e 80 do século passado. Torna-se inevitável reconhecermos que a riqueza intelectual e a estabilidade da classe média e média superior durante o longo Verão liberal assentava, de modo directo, no domínio económico e, em última instância, militar de grandes zonas daquilo a que hoje chamamos mundo subdesenvolvido ou Terceiro Mundo. Tudo isso salta aos olhos. Sabemo-lo nos nossos momentos racionais. Trata-se, todavia, de uma espécie de saber intermitente, menos próximo do pulsar da nossa sensibilidade do que a mitologia, a metáfora cristalizada, ao mesmo tempo difundida e densa, de um grande jardim da civilização doravante em escombros.” (17)

Uma ficção insustentável para “quem quer que queira abrir os olhos“, diz Steiner. Por isso mesmo me interrogo do como o terão recebido tantos saudosos, afinal saudosos, selectivamente elogiando, do corporativismo salazarista, do “português” ensinado nos ”liceus Camões”, do produtor de mestiçagem calibrado por Gilberto Freyre, do “bom povo português”, da “alta cultura” até mesmo se marginalizada, ou melhor ainda por isso mesmo. Esses que enchem os jornais, os blogs, a academia. Esses que – mais do que tudo – pensam e sentem como o “ficcional XIX” o afinal XX português. Não abrem os olhos? Nada! Apenas não sabem contar. Ou, por outra, não fizeram a (boa) 4ª classe “dos tempos”, essa que era a que “valia a pena, onde se aprendia a sério”.

Adenda: uma longa entrevista com George Steiner.

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Bryson e o Paradoxo de Holst


(Júpiter, de Os Planetas, composto por Gustav Holst)

por ABM (Cascais, 25 de Novembro de 2009)

Numa crónica em que salientei o grande prazer que tive em ler o lvro de Bill Bryson intitulado A Short Story of Nearly Everything, a Sra Baronesa de Lioness referiu (acho que correctamente) que a demais obra dele era, na melhor das hipóteses…menos recomendável. Ainda que antes e depois de ler este livro, Bryson era-me alguém perfeitamente desconhecido (cacei-o numa prateleira da Exclusive Books em Nelspruit) não me surpreendi.

Pois não é a primeira nem a última vez que vejo isto acontecer, e que aqui chamarei o Paradoxo de Holst.

Eu explico.

Nos meus tempos de mufana, a minha vida centrava-se, para além dos deveres escolares, no Desportivo, onde, cerca dos 12 anos de idade, era conhecido no clube por ser irmão da minha irmã, uma conhecida nadadora, campeã nacional etc e tal – e filho do pai BM, que toda a cidade conhecia. Nada de material daí advinha – excepto algo, que para mim na altura era de extrema importância. Havia no clube um senhor, que na altura parecia-me ter 200 anos de idade mas que devia ter uns 50, que era um doente do Desportivo e que era também bilheteiro na plateia do Cinema Gil Vicente. E que me conhecia bem.

Naquela altura, como agora, os filmes eram classificados em termos da idade da audiência. E ir ao cinema em Lourenço Marques era um fenómeno cultural e social que hoje ninguém entenderia. Era “o” divertimento do quotidiano semanal. A maioria dos programas de fim de semana passavam por ir ao cinema e as pessoas vestiam-se a preceito para ver um filme. As salas de toda a cidade estavam repletas aos fins de semana. Só que naquela altura era mandatório não deixar entrar alguém com 12 anos para ver um filme para maiores de 17 anos. O que então se aplicava a mim – excepto no Cine-Teatro Gil Vicente, onde este senhor me deixava entrar e ver o que quisesse. A entrada era uma operação discreta, eu só entrava quando a sessão já começara e às escuras, sentava-me nas cadeiras de trás, com a Anabela Gouveia.

É preciso dizer que naquela altura se num filme aparecesse o canto da parte de cima duma maminha a 200 metros de distância, o filme era logo classificado para maiores de 17 anos pela Comissão de Censura.

Para mim o bilheteiro – o Senhor Santos – era um homem modesto e pobre e sem história, até que, mais tarde descobri, na sua juventude ele tinha sido campeão de atletismo do Desportivo durante anos e anos, sendo em toda a sua vida a sua única obra de que se orgulhava e por que era conhecido. Lembro-me bem de uma fotografia dele repleta de medalhas ao peito, que está mais abaixo.

O Senhor Santos podia ser pobre e o bilheteiro da plateia do Gil Vicente, mas no Desportivo ele era um Senhor, primus inter pares, respeitado como um campeão, um exemplo de valor e excelência do Desportivo – detentor de uma Águia de Cobre, uma das raras honrarias que o clube atribuía (em 1972 recebi um medalhão de “Mérito no Desporto” de um Eduardo Paixão mal humorado).

alberto matos santos

Tive uma surpresa semelhante com a indescritível, arrepiante beleza da música que acima reproduzo graças a esta maravilha que é o Iutube, e que ouvi pela primeira vez no Rádio Clube de Moçambique por essa altura. Uma pequena parte de Júpiter tocava no jingle de abertura dum programa qualquer que eu costumava ouvir, e sempre tive a curiosidade de saber do que se tratava. Anos mais tarde, já a viver nos Estados Unidos, e mais velho, descobri que fazia parte de uma obra intitulada Os Planetas, por um tal de Gustav Holst. Quando mais tarde ouvi Os Planetas na totalidade, fiquei estupefacto, completamente rendido. Meu Deus, que beleza. Quem era este Holst? que tesouros me aguardavam?

O fascínio e a desilusão, quando mais tarde pesquisei o homem, a sua vida e obra.

Holst foi um inglês, já de si uma relativa raridade no que eu considerava ser o créme de la créme da composição clássica. Nasceu pobre, foi doente toda a vida, nunca teve dinheiro nenhum e para ganhar a vida dava aulas de música numa escola para meninas algures perto de Londres.

A sua obra de composição sinfónica foi a meu ver relativamente medíocre ou decente – excepto com Os Planetas, onde parece que, se há um Deus, Ele desceu à Terra e ditou a mais excepcionalmente sublime das composições a este apagado, tímido, doente, de outro modo modesto professor de música inglês, que nunca conseguiu viver do que compunha.

Tal como o bilheteiro do Gil Vicente, Holst viveu uma vida discreta e atribulada, sem grandes concretizações, mas no meio daquele aparente mar de cinzentismo havia em ambos algo em comum: a realização de uma obra por que, se por mais nada, eles serão sempre lembrados.

Por um momento indelével, estiveram junto com os deuses.

O que, de certa forma constitui um paradoxo – que eu, algo jocosamente, chamo de Paradoxo de Holst. Gente cinzenta uma vida inteira, mas que algures e sem razão aparente, fizeram algo de absolutamente excepcional.

Parece-me que, salvaguardadas as devidas proporções em cada caso, aconteceu o mesmo com o nosso Bill Bryson(se a Exma Senhora D Vera ler isto leia-se “Richard”) no seu livrinho.

Pode ser que toda a obra de uma vida dele seja banal. Mas acho que as descrições que ele fez sobre o Universo no livro que mencionei brilharam e são memoráveis.

Poderá ser este o seu momento de glória num mar de realizações inconsequentes.

Que, num mundo cinzento, brilha como uma estrela cadente no céu mais escuro.

O Akhenaton de Naguib Mahfouz

Mahfouz Akhenaton

[Naguib Mahfouz, Akhenaton, o Rei Herege, O Quinto Século, 2007]

 

O meu primeiro livro de Mahfouz e logo sobre esta intrigante e apaixonante personagem histórica, Akhenaton o faraó monoteísta. Uma completa desilusão. A estratégia narrativa é simplista (uma colecção de entrevistas aos participantes na odisseia de Akhenaton, para daí traçar o seu perfil psicológico). E um enorme rosário de anacronismos: o protagonista, o jovem Miriamon, é o arquétipo do “intelectual”, desinteressadamente apaixonado em busca da verdade, essa que paira acima dos homens ou melhor, deles é modal. Os participantes, quase todos enredados numa abordagem psicologista ao anterior faraó (como é possível?), assim explicitamente afirmando que da psicologia individual teria brotado a nova religião. Alguns deles, pró-Amon e pró-Aton, com uma perspicácia sociológica sobre a ligação entre a religião estatal e o controle político da população – o culto politeísta, sob o reino de Amon, visto como forma de controlar a população e de aquisição e controle de bens pela “classe” sacerdotal.. E mais do que tudo, Akhenaton como origem do dualismo, raiz da filosofia ocidental: fala Akhenaton “Tu dás mais importância ao corpo, como se ele fosse tudo, enquanto a verdadeira força está no espírito, pois ele é eterno. Quanto ao corpo, ele é uma estrutura fraca, suja e imoral, que se desmorona com uma simples picada de insecto” (p. 106), um registo que não me parece derivar de um qualquer “afrocentrismo” mas sim das prisões do autor no conceber a espiritualidade, a religião e, em particular, o edifício monoteísta.

Enfim, se é para aludir aos dias de hoje em regime de manifesto, é uma grosseira caricatura. Se é uma tentativa de reconstrução, analítica, é pobre. Muito pobre. Como ficção inexiste.

Edição [muito feia] de O Quinto Selo, com tradução de Adel A. Jabbar Mohammed Daroga.

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